Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Luís António Verney · Capítulo 20 de 27

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Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Mediocre.

 

Do-que a V. P. tenho dito fica claro, qual é o estilo Mediocre: aquele digo, que partecipa de um e outro estilo. Tambem este estilo nam é pouco dificultozo: porque é necesario, conservar uma mediania, que nam degenere em viciozos extremos: e sam poucos aqueles, que conhecem as coizas, na sua justa proporsam, e formam aquela ideia, que merecem. Ja dise, que a materia é a que determina, qual á-de ser o estilo: e asim uma materia mediocre, pede um estilo proporcionado. A maior parte das-coizas de que falamos, sam mediocres: e daqui vem, que neste estilo de falar, deve-se empregar um omem, que quer falar bem; e conseguir fama, de omem eloquente. Um omem de juizo, que conhece as coizas como sam, fórma delas ideias justas, e verdadeiras; e as-explica com as palavras, que sam mais proprias. D’ onde vem, que o estilo mediocre compete propriamente, às Ciencias todas, à Istoria, e outras coizas d’este genero: nas-quais se-reprezentam coizas nam vis, mas mediocres; porem reprezentam-se, damesma sorte que sam, e com palavras proprias. Tambem as cartas de negocios graves, ou eruditas, e aquelas de ceremonia a pesoas grandes &c. costumam ser neste estilo. É porem de advertir, que o estilo mediocre, admite todos os ornamentos d’arte: beleza de figuras, metaforas, pensamentos finos, belas discrisoens, armonia do-numero, e da-cadencia: Contudo nam tem a vivacidade, e grandeza do-sublime. Participa de um e outro, sem se-asemelhar a nenhum. tem mais forsa e abundancia que o simplez; menos elevasam que o sublime: e prosegue com paso igual, e mui brandamente. Alegam-se por-bons exemplos neste genero, as Georgicas de Virgilio: a maior parte das-cartas de Cicero a Pomponio Atico: &c. os Comentarios de Cezar &c. aindaque estes, por-nam terem ornamentos, quazi pertencem ao simplez: as vidas de Cornelio Nepote. &c.

Quem bem intende isto, fica perfeitamente instruido do-modo, com que deve aplicar-se, a diferentes materias. O estilo da-Istoria pede clareza, e brevidade. aquela, para explicar todos os acidentes da-materia: esta, paraque, sem longas frazes, que suspendem a atensam, descreva as coizas que deve, com um fio de discurso continuado, e sem ser interrompido com aqueles movimentos, que

constituem o Orador[50]. Porque neste cazo nam pode conservar, uma certa inalterabilidade, e quietasam de animo, que é tam necesaria, para nam inclinar mais para uma parte, que para outra; e dizer as coizas com verdade, e sem exagerasam. Pode porem o Istorico, mostrar a sua eloquencia, no-referir as arengas, que s’ introduzem na Istoria; no-pintar as paixoens &c. mas tudo isto com advertencia, e sem perder de vista a verdade. É pois a Istoria aquela materia na qual, despois da-Oratoria, mais se mostra, a eloquencia vigoroza.

Em segundo lugar fica claro, qual deve ser o estilo Dogmatico ou Didascalico, a que por-outro nome chamamos, estilo Cientifico. Aqui nam se-trata de persuadir, omens apaixonados, excitando as armas, comque a alma se-move para esta, ou aquela parte. O primeiro postulado que se-poem, no-principio dos-Tratados modernos é, que o leitor se-dispa, de todo o genero de prejuizos, e paixoens: e que examine as razoens, como merecem. Onde supondo-se um leitor

docil, nam é necesario, seguir o estilo veemente [51]. Mas nisto á mais, e menos, segundo as Ciencias. A Geometria, que explica verdades claras, e que nam interesam ninguem, deve-se tratar placidisimamente, com aquelas palavras, que sam precizamente necesarias, para a explicasam dos-termos &c. A Logica, Fizica, Metafizica pedem ja um estilo mais ornado: ja se-disputa com omens, que tem suas prevensoens: as verdades nam sam tam claras: é permetido servir-se de um estilo mais nervozo. Principalmente na era prezente, em que a Filozofia, despida daquela antiga e ridicula severidade, trata-se oje em todas as linguas, e com vocabulos proprios, e se-familiariza com todos. Onde pode tratar-se em estilo familiar, por-carta, em dialogo, ou de outra maneira; emque pode ter lugar, um genero de eloquencia mais ornada. A Teologia pode ser tratada, com estilo mais elevado. Somos interesados em defender, a verdade da-religiam, contra os Ateos, e Infieîs, e Erejes. Este interese nam pode menos, que acender em nós, alguma paixam bem devida. Onde nam é maravilha, se algumas vezes nos-transportamos, falando de Teologia, e seguimos um estilo mais elevado e viril. Nam digo, que tudo se aja de tratar, em estilo oratorio, ou que se-devem defender as questoens, com ironias &c. e nam com razoens solidas: serîa isto um erro consideravel, e mui condenavel: digo somente, que ja é permetido, servir-se de alguma figura, e uzar de estilo mais elegante. Os antigos Padres uzáram deste estilo, quem mais, e quem menos. E oje todos os omens de melhor doutrina, nam desprezando a fórma da-Escola, uzam porem dela com tanta moderasam, que comumente expoem as suas sentensas, sem aquele estilo das-escolas, que até aqui reinava. O que faz que seja mais bela a Teologia: mais concludente o discurso: e poem à vista, e na sua luz todas as razoens: porque só asim as-intendem todos, e se-evitam palavras, que nada significam nas escolas. Quanto às outras Ciencias profanas, pola maior parte tratam-se mais placidamente, segundo a necesidade da-materia.

Em terceiro lugar fica claro, qual é o estilo dos-Poetas. Querem os Poetas, (diz um Retorico) agradar, e elevar o animo dos-ouvintes, com coizas extraordinarias e maravilhozas: e nam podendo chegar ao fim que se-propoem, senam sustentando a sublimidade das-coizas que dizem, com o sublime das-palavras que uzam; daqui vem, que nam se-sugeitam às leis do-uzo comum; mas formam, para se-explicar, um idioma novo. Tudo neles é grande e extraordinario; imaginasam, conceito, e palavras. Daqui nace, que as figuras devem ser, as suas mimozas, Alem diso, como as verdades abstratas nam agradam, porem sim as coizas, que entram polos sentidos; fica claro, que querendo o Poeta agradar, deve procurar metaforas, com que reprezente as coizas sensiveis, e quazi palpaveis: porque asim é que imprimem, uma particular comosam. Este é o principio, que obrigou os antigos Poetas, a romperem com certas ideias, que nos-parecem chimeras. Cada Virtude, e cada Paixam na Poezia, é uma Deuza: porque a descrisam destas Deuzas tam medonhas, ou tam engrasadas, faz outra impresam no-animo, doque a simplez palavra de Virtude, ou Vicio.

Est Deus in nobis, agitante calescimus illo.

 

Quando uma vez s’esquenta, a imaginasam do-Poeta, nam fala como os demais omens: e asim nam é maravilha, que encha o discurso de Figuras, e ingenhe tantas fabulas e fingimentos. Isto é tam proprio dos-Poetas, que até os sagrados Poetas, para se-explicarem, servem-se de todo o genero de metaforas. Isto porem deve intender-se dos-poemas, que tem por-objeto, materia grande: os divertimentos dos-pastores, que compoem as Eglogas; as istorias que dam materia às Comedias; e mil outras poezias, que se-podem considerar com menos paixam, devem ser tratadas, por-outro estilo. A regra geral, que ao principio demos, é infalivel, e consiste nisto: A qualidade da-materia deve determinar o estilo, aindaque posa ser mais ou menos ornado: o que s’intenda tanto da-Proza, como do-Verso. Isto quanto ao estilo. quanto pois às regras do-Poema, nam é aqui, o proprio lugar, de as-explicar: porque eu nam faso tratado, mas reflexoens.

Dirmeám alguns, que estas advertencias conduzem, para fazer uma obra solida, mas nam para a-fazer bela, e ornada: que é o principal emprego da-Retorica. E com efeito esta é a costumada cantilena, destes vulgares Oradores, que ignoram as belezas da-arte. Em algumas partes, temos notado este defeito: e aqui, para o-confutar melhor, faremos outra advertencia. Digo pois, que este ingano comum, fica suficientemente asima convencido: sendo certo, que nam se-requerem outras regras, para falar com elegancia, e ornato, doque as que asima démos, para falar com propriedade. A mesmisima coiza se-pode expremir, com diversos nomes, segundo o modo com que se-considera. A maior beleza e ornamento de uma compozisam, aquilo que eleva um leitor racionavel e judiciozo, (que sam os que podem fazer lei) é a exasam, e propriedade com que se-acha disposta, e executada uma-obra. Quem nam intende este ponto, é noviso na Retorica. Mas, declarando isto melhor aos principiantes:

Tem a Retorica ornamentos naturais, e artificiais: aqueles entram necesariamente em qualquer obra: estes com parcimonia. O primeiro ornamento é a verdade, ou semelhansa das-palavras com as ideias, e objeto delas. A mais medonha cobra pintada, agrada: as coizas mais ordinarias, quando sam bem explicadas, nam podem dezagradar. Deve o discurso ter primeiramente, clareza nas expresoens, para poder insinuar-se no-animo; armonia, e facil pronuncia. Estes sam os naturais. Entre os artificiais, poem-se as Figuras todas, os Tropos, as magnificas expresoens, as aluzoens, alguma ingenhoza aplicasam &c. as quais sam às vezes tambem recebidas, como a mesma verdade: e elevam a alma com o encanto oculto da-grandeza, para a qual ela tem propensam natural. Nestes é em que se-deve empregar o juizo, distribuindo-os com muita parcimonia, e boa eleisam. Nenhuma coiza orna, que nam seja racionavel: quando os ornamentos sam repetidos, ou estam muito juntos, sam importunos, e dezagradam muito: confundem a vista, e cobrem toda a beleza do-sugeito. Ja nisto falámos larguisimamente. Finalmente quando o ornamento, nam se-funda em verdade, aindaque um pouco encarecida; é uma afetasam ridicula, que mostra nacer, de um ingenho mui trivial. Os ignorantes sam, os que procuram com cuidado, estas ridicularias, para aquistar fama de doutos por-esta via, visto que a-nam-podem por-outra.

Outro defeito ainda acho, em que comumente caiem, e vem aser, encher o discurso de alegasoens importunas, de pasos Latinos, de versinhos, e outras coizas que incontram. Podem as aluzoens, alegasoens &c. ter lugar, quando á necesidade de ouvir as palavras, na mesma lingua original; ou para mostrar a sinceridade, de quem as-cita; ou a elegancia, de quem as-escreveo: o que raras vezes sucede: tudo o mais é tempo perdido, e trabalho mui escuzado. Este dezejo de parecer erudito, com a repetisam de mil pasos de autores, tem alucinado infinita gente. Conheci um, que nam abria a boca, que nam repetise um verso de Marcial, de Juvenal &c. Examine V.P. este ponto, e achará, que o defeito é mais geral, doque nam parece. Conheso pouquisimos estudantes desa Universidade, falo principalmente dos-Opozitores, e dos-que tem prezunsam de literatura; cuja conversasam seja toleravel. Para dizerem, que agora é dia; sairám com um, e talvez muitos textos do-Digesto, ou Codigo &c. Nam deixam pasar coiza, que nam ornem com algum versinho moderno: e quem sabe mais disto, é mais ciente. Aquele, Erubescimus sine lege loqui, intendem-no tam nû e crû, que é uma piedade. Tambem entre os Religiozos, nam falta desta fazenda: aquele, tandem, item, a parte rei, cum hoc quod, hoc unum est; e outras destas palavras, sam mui frequentes nos-seus discursos: e tambem seus textos da-Escritura, e seus versinhos Latinos. Isto entra em todas as conversasoens, aindaque sejam de idiotas, e molheres: antes nese cazo melhor, porque se-grangeia fama sem embaraso.

Este mao modo de pensar, e discorrer, pasou ja das-conversasoens, para as compozisoens: e por-iso V. P. ve tantos discursos, ou sermoens, ou orasoens, que se-nam-podem sofrer. Tenho lido mil orasoens modernas * * * e rarisima achei, em que nam intráse Plinio o moso, claro ou oculto: mas pola maior parte entra claro: e às vezes a orasam tem mais palavras de Plinio, doque de quem a-compoz. Ouvîram dizer, que o Panegirico de Plinio, é o mais suportavel, que nos-deixou a Antiguidade; e sem mais exame, enchem tudo de Plinio. Outros pasam do-Panegirico às Cartas: um destes é o P. * * que no-elogio funebre de Julio de Melo, faz uma istoria, em que introduz muitos periodos, tirados de varias cartas de Plinio, que dizem o mesmo, que ele repete. Este modo de elogiar, é totalmente novo, e ignoto à Antiguidade: mas nem por-ser novo cuido que agradará, aos que intendem a materia. Nestes Panegiricos achará V. P. duas coizas comumente: uma, é Plinio, e algum autor semelhante: a segunda, é o Sol, com as Estrelas. Mais vara menos vara, aqui vem dar todos. Serîa porem melhor, que estes autores puzesem departe, Plinio; e disesem alguma coiza de sua caza: e nam dezenquietasem as Estrelas, trazendo-as para uma coiza, para a qual nam calsam bem. Nam é este, o modo de elogiar. disto se-rim todos os omens que sabem.

Até as aprovasoens dos-livros, andam cheias destes textos, às vezes arrastadisimos, e talvez tirados da-Escritura, para provar uma frioleira. Os que nam trazem textos, introduzem razoens bem desnecesarias, e difundem-se em elogios, tam excesivamente encarecidos, que ninguem os-pode ler sem nauzea. Aindaque disesem a verdade, e bem; sempre era um grande defeito, e impropriedade. Vi á anos a vida do-Infante D. Luiz, em 4. o escrita polo Conde de Vimiozo; da-qual as aprovasoens, sem encarecimento algum, compoem metade do-volume. E nam só fazem isto nos-livros; mas em papeis avulsos, e breves. Vi uma Egloga, escrita por-um certo Felipe Jozé da-Gama, no-nacimento de um neto de Joam Alvares da-Costa; cujas aprovasoens eram maiores, que a obra. O pior é, que tinha uma aprovasam do-Conde da-Ericeira, D. Francisco Xavier de Menezes, que caîa na mesma simplicidade. Com efeito, este era o carater do-dito Conde: que, para mostrar que sabia muito, carregava as suas pinturas, com tantos ornamentos, e doutrina, que pareciam ridiculas. Ele era um omem erudito: mas ignorava totalmente aquilo, a que chamam modo, metodo, e criterio. comtantoque falàse muito, nam lhe-importava se dizia bem. E naverdade na dita aprovasam da-Egloga, tem coizas indignas. Deixa logo o argumento, e pasa a descobrir entre Joam Alvares da-Costa e Asinio Pollio, grande uniformidade. despois, difunde-se sobre os louvores da-Poezia. finalmente faz uma selada tal, que nam vi coiza mais confuza. Eu nam disputo agora, se a dita Egloga merece eses louvores: concedo tudo de grasa: o que digo é, que se-explicava em duas palavras: e é grande impropriedade fazer uma censura eterna istoriada, para uma brevisima Egloga. Certamente o P. Estacio de Almeida, que em materia de Poezia Latina, cuido que sabe alguma coiza mais, que o dito Conde; mostrou o seu juizo na aprovasam, contentando-se com dizer, que era digna de s’impremir. E isto deviam tambem fazer os outros: deixando de fazer Panegiricos, a coizas que nam merecem, ou que merecem menos: e fazèlos de um modo, que merece mais rizo a erudisam que trazem, que a que lhe-falta. O P. D. Manoel Caietano de Souza, tambem seguia esta opiniam. Compoz o Sargentomór Manoel Coelho, uma Explicasam das-oito partes da-orasam: mas tam pequenina, que nem menos se-lhe-deve chamar livro, mas caderninho. (foi impresa em Lisboa, no-ano 1726.) Sucede que D. Manoel aprova esta obra: e aqui, tomando as coizas desde o principio, faz uma longuisima censura, e um catalogo dos-Gramaticos do-Reino &c. Tudo coizas desnecesarias! E sei eu, que, se ouvèse de impremir-se em outro Reino, se-contentariam com escrever, Imprimatur. Com esta advertencia observe V. P., as aprovasoens dos-livros, e verá, que ainda nam digo metade, do-que devia. Neste particular de aprovasoens, nam vi omem em Portugal mais moderado, que Fr. Manoel Guilherme: fugia quanto podia de mentiras e afetasoens; e claramente dizia, o seu parecer. Mas oje sucede o contrario: porque às vezes fazem-se empenhos, para determinar os censores: e estes tais, nam censuram o livro, mas agradecem a eleisam. E sei eu tambem, que quando o P. * * * impremio a sua obra * * tendo feito um Teologo, a censura difuza; foram-lhe pedir novamente, que se-dilatáse mais, e louváse a obra com maior extensam. E nam podendo livrar-se do-empenho, que era forte; acrecentou alguns sinonimos, para satisfazer às partes: o que sei da-mesma boca do-censor. Onde com estes exemplos, nam devemos admirar-nos, se incontramos os elogios tam frequentemente * * *

Mas, tornando à dita erudisam afetada, digo, que a este modo de ornar e discorrer, chamam os Retoricos, ornamentos falsos. Porque os outros, podem ter lugar no-discurso, e só se-procura a parcimonia: estes, de nenhum modo devem intrar nele. Ja gran tempo é, que os omens de juizo clamáram, contra este abuzo: principalmente porque, bem examinada a coiza, é uma solenisima impostura, e azilo de ignorancia: sendo certo, que estes tais nunca tem menos erudisam, que quando mostram ter tanta. Quem ouve aquela machina de textos, persuade-se que é um omem, de erudisam infinita: mas nada menos: e eu poso jurar de muitos, que nam abriram os livros que citam, aindaque sejam bem uzuais. Remedeiam-se com o Theatrum Vitæ Humanæ, Polyantea de Langio, e outros destes armazens, em que polo A. B. C. acham-se as materias, dispostas. De que vem, que os omens inteligentes nam podem menos, que rir-se de tais compozisoens. Lembro-me, que um leitor de certa Religiam, querendo persuadir-me, que um seu amigo sabia Latim perfeitamente; dizia-me, que lia sempre por-Plutarco: e carregava muito em Plutarco. Ouvi esta muzica algum tempo; e nam podendo sofrer mais, proguntei-lhe, se Plutarco era bom Latino. Aqui o omem: Poisque, iso tem duvida? na antiguidade nam acha V. P. um Latino, como Plutarco. O que daqui se-seguio foi, ficar eu formando mui mao conceito, dele, e do-seu amigo. De um, por-dizer o que nam sabia: pois se tivese aberto Plutarco, ou acharia o texto Grego com a versam Latina; ou tendo somente a versam, acharia no-frontispicio, o nome do-tradutor. Do-outro, porque aindaque a tradusam, nam seja barbara, contudo nam é livro para se-imitar: falo da-versam de Curserio, e Xilandro, &c.

Tambem nam é pequeno defeito, a grande repetisam de sentensas, sem necesidade. Persuadem-se muitos, que, falando por-sentensas, ficam graduados como sutilisimos, e fundadisimos letrados. Lèram em Seneca Filozofo, ou Lucano, ou Tacito, ou algum semelhante, uma quantidade destas sentensas; e, sem mais exame, nem advertencia, adotam aquele estilo; e deitam mais sentensas pola boca fóra, que uma carranca de xafariz nam deita agua. Verdadeiramente é um divertimento, bem digno de se-procurar em oras ociozas, ter uma conversasam com um destes. Eu gozei esta felicidade algumas vezes: e nam me-podia satisfazer de observar, aquela circunspesam magistral, com que proferem as palavras, em tom decizivo e com toda a magistralidade, de um Padre de Concilio. Ja eu lhe-perdoára a materia: o que nam poso sofrer é, o modo com que se-explicam. Se eles tivesem observado e intendido, que aquele mesmo Seneca foi o primeiro, que comesou a perverter, o bom gosto da-Latinidade, com tam enfadonhas sentensas: com as quais perdeo entre os seus, e entre todos os que se-seguîram de alguma estimasam; aquele conceito, que poderia aquistar, se fose mais parco de ornamentos; saberiam entam, com que olhos se-devem ler, certos autores. Mas eu falo em um suposto, que me-parece falso, e vem aser; que estes tais profiram, verdadeiras sentensas: falam como se fose por-sentensas; mas nam sei se o que dizem, merece este nome. Porque a Sentensa deve, em poucas palavras, dizer muito, e dize-lo com modo singular: o que raras vezes se-acha neles.

Note tambem V. P. outro defeito de eloquencia, no-mesmo frontispicio dos-livros. Estam estes seus autores, tam preocupados polas esquipasoens, que nam se-contentam, de pór o titulo do-livro claro: mas ou inventam um estrambotico, ou acrecentam algum epiteto, que oscurece o negocio. v. g. Cristais, d’alma, fraze do-corasam: Fenix renacida: Alivio de tristes, consolasam de queixozos: e outras coizas destas, que quando eu as-leio, me-vem à memoria, o Belorofonte literario, Clypeus Mundi, e outros titulos ridiculos, que só estavam bem, na boca de D. Quixote de la Mancha. E isto nam só achará V. P. entre os Antigos, mas entre estes Modernos. Traduz um Bacharel os Epigramas do-P. Reis, em verso Portuguez, e dá-lhe este titulo: Imagens conceituozas. Ora, falemos sem paixam, intende V. P. que, lendo-se estes titulos, poderá um omem advinhar, o que contem estes livros? Eu nam tenho dificuldade em apostar, que nam: e digo mais, que este autor nam intendeo, o que quer dizer aquele titulo: pois, a falar verdade, nam á maior despropozito, que a uniam daquelas duas palavras, para explicar a dita versam. E ponho agora de parte a loucura, de traduzir em Portuguez, epigramas destes Latinos, cuja galantaria nam consiste, em um conceito nobre; mas em palavrinhas, ou equivocos, que perdem o pico, na tradusam. Mas nam pára nisto o abuzo: antes chegou a termos, de se-nam-chamarem as coizas, com os seus nomes, porem com outros muito diferentes. Vi concluzoens de Logica, que se-intitulavam: Regnum Algarbiense in quatuor vicos distinctum: Vicus primus, de Signis: secundus, de Enunciatione &c. que se-podia intender, ser uma carta geografica. Outras de Filozofia intitulavam-se: Pigmenta Philosophica. Finalmente chamavam-lhe como queriam. E isto é mui frequente, nas escolas da-Companhia: e nam faltou ja quem me-disèse, que eram titulos ingenhozos. Estes titulos, Conclusiones, Propositiones, Theses, nam prestam ja para nada: sam coizas dos-antigos, e nomes mui ordinarios. E que chama V. P. a isto, senam jurar, de nam dizer as coizas direitas, mas de falar em Persiano, ou Chinez?

E se V. P. examinar este defeito, achará, que sam poucos os autores, que nam caiam nele. Outros acrecentam epitetos afetados. v.g. Regras da-lingua Portugueza, Espelho da-lingua Latina: deixando agora muitos outros, que podia acrecentar. Contudo eu intendo, que era mais natural, e nobre dizer: Regras da-Gramatica Portugueza, para introduzir os rapazes, na Gramatica Latina: ou ainda mais breve, e melhor: Introdusam para a Gramatica Latina: e falando asim, todos o-intenderiam. Que fizesem isto nos-dois ultimos seculos, paciencia: mas agora, que o mundo abrio os olhos, e todos procuram explicar-se bem; nam se-pode sofrer: e vale o mesmo que mostrar, que nam intendem em que consiste, a elegancia da-lingua, e a forsa da-eloquencia. Os seicentistas sam os que caîram, nesta ridicularia: os antigos doutos todos, a-evitàram: e se algum se-desviou dela, nam teve sequazes, e deve ser reprovado. Os titulos dos-Antigos, todos sam simplezes: Cornelius Celsus, de Re Medica: Caii Julii Cæsaris, de Bello Gallico &c. Ciceronis Orationes, Epistolæ, de Finibus bonorum &c. e outros a estes semelhantes. Estas palavras mostram bem, o de que se-trata: e aquela nobre simplicidade encanta mais, que todas as afetasoens, a quem intende, que coiza é Eloquencia. Os Modernos doutos, quando nam sam anonimos, que querem brincar; servem-se de titulos sezudos, breves, e claros: e nisto é em que oje se-cuida. Com efeito nos-titulos se-mostra, o juizo do-autor. Eles sam os que apontam a materia: e devem nam dizer mentiras, e falar em lingua, que todos intendam.

Pertencem a esta clase, os que nas Concluzoens publicas, poem por-questam principal uma coiza, que nam significa nada, e nam pertence à materia. Confeso a V. P. que quando a primeira vez, vi neste Reino estas concluzoens, fiquei pasmado: e quando vi, que a dita questam nam se-disputa, nem serve de nada, ainda me-admirei mais. Um destes imprime umas Concluzoens de Logica: dedica-as a Cristo Crucificado: (porque estes mosos tem tanta devosam, que em nenhum lugar a-podem encubrir) e poem por-questam principal: Se ficou mais gloriozo Cristo na cruz, que no-Tabor. Outro faz umas concluzoens de Materia Primeira, e poem por-questam: Utrum in Lunæ concavo degant homines? Finalmente é bem raro aquele, que poem questam principal, tirada das-concluzoens: mas ou da-dedicatoria, ou de outra coiza, que nam significa nada. E estarám às vezes semanas inteiras, lambicando o ingenho, para excogitar uma questam sutilisima, que calse bem à dedicatoria. E que chama V. P. a isto? senam dizer mentiras: servir-se de palavras que nam significam nada: improprias ao argumento: só para mostrar, que tem ingenho. Saiem eles logo dizendo, que é um costume antigo: E eu respondo, que é mao costume: e que se-deve emendar. Na minha Italia poem-se as concluzoens simplezmente, sem estes rodeios. Se as concluzoens sam dedicadas a Cardiais, ou Bispos, ou outras pesoas grandes; estes vam asistir em publico, asentados defronte do-Defendente: o qual porem está na cadeira: e ali faz ao principio um comprimento Latino, à pesoa a quem dedica, breve, e claro: e procura falar em lingua, que todos intendam, e mostrar a sua doutrina sem sutilezas, nem coizas que meresam rizadas.

Nem intenda V. P. que estes defeitos que aqui aponto, sam de um ou dois autores: nam senhor, sam gerais. Leia V.P. estas obras Portuguezas modernas, principalmente orasoens Academicas, em que fazem ostentasam, de toda a erudisam e advertencia; e confirmará o que digo. * * * Entre os modernos, o Conde da-Ericeira tem muito disto, como ja disemos. Comesa as suas coizas com uns rodeios, e umas oscuridades, que sem comentos nam se-intendem. Daqui pasa a acarretar, tudo quanto leo: e comumente dezempara o asumto, para dizer o que lhe-ocorre. v.g. No-elogio Funebre de Francisco Dionizio de Almeida diz, que tomava por-empenho, descrever o elogio de Tito Pomponio Atico, que morrèra no-dito dia. Mas sem falar em Atico, mete outras noticias estrangeiras, e diz mui pouco do-defunto. Promete encarecer a perda do-defunto: mas nada disto faz. O mesmo Conde no-elogio do-Papa Inocencio XIII. declara logo, que nam seguirá os preceitos da-Retorica, mas da-Istoria: e com efeito faz um catalogo difuzisimo e insoportavel, da-gerasam do-dito Papa: e deste nam diz nada. Devendo porem saber, que a obrigasam sua era, exaltar as virtudes do-seu eroe, e nam as dos-pasados. Pois asimcomo nenhuma molher feisima merece ser louvada, porque é filha, de uma molher mui bonita: antes polo contrario, a fermozura da-maen dá ocaziam, paraque nos-admiremos da-filha: asim tambem as virtudes dos-pasados, nam servem de panegirico aos prezentes: é necesario mostrar, que estes excedem os seus maiores, nas mesmas asoens. Do-que fica claro, que o dito Conde sabia pouco, elogiar. E nam se podia esperar menos, de um omem que protesta, de nam seguir a Retorica. E quantos parentes, quero dizer, apaixonados, nam vemos deste fidalgo! Mas sem nomiar mais ninguem, provarei tudo com outra orasam, feita na morte, de D. Manoel Caietano de Souza: da-qual porem nam sei quem é o autor, nem onde foi impresa; porque uma que achei em certa parte, e ainda conservo, nam tem as primeiras folhas, e comesa na folha 7. Mas seja quem for, é moderno: vistoque o Souza morreo á pouco tempo: e se V. P. a-tem lido, achará uma grande prova do-que digo.

Este omem faz uma orasam, que é um groso volume. Primeiro defeito do-panegirico. Confeso, que asisti a muitas e diferentes exequias, de Pontifices, Imperadores, Reis, Principes soberanos, Cardiais, e Senhores grandes: e nunca vi alguma, que chegáse à metade desta. Mas isto é nada. tudo o que ele diz do-tal Souza, podia-se reduzir à quarta parte, e ainda serîa longa. Consiste pois este grande volume, emque o tal Panegirista, para mostrar que era erudito, verteo nela, quanta erudisam tinha. Explicarmeei se diser, que ali se-acha o Teatro de los Dioses, e Theatrum Vitæ Humanæ, em corpo e alma. Nam diz coiza alguma, para que nam traga um bocado de antiguidade, comumente arrastada. v.g. Para dizer, que o

Souza unia a piedade com a ciencia [52]; introduz a parentezis de uma pagina, em que entra Alexandre, Cezar, Cipiam &c. Para dizer,

que o dito nam quizera mostrar a sua ciencia, senam em Lisboa [53]; nomeia Universidades sem tom nem som: saltando de Bolonha aos Paizes Baixos: de Pariz outra vez a Padua: de Espanha a Germania &c. e a cada paso mete fabulas, sem pés nem cabesa. E este justamente é o defeito, que eu asima condenava. Sobre o que me-lembro das-grasas, de um omem mui douto, que foi Monsenhor Sergardi: Este quando se-achava em alguma parte, em que algum destes, que tinham lido alguma fabula, ou istoria, a-queriam introduzir ou bem ou mal; dizia-lhe galantemente: Diga, meu senhor, diga tudo o que tem estudado, esta noite.

Nam falo ja em alguns erros de istoria: como dizer, Que a barca de S. Pedro navegou polo Tibre: Que por ele tambem intráram, as

Troianas galés de Eneas: e outros semelhantes[54]. Um bocadinho que estudáse mais de Istoria, e Geografia, lhe-mostraria, como as coizas ou foram, ou nam foram: e lhe-ensinaria, que o lugar em que dezembarcou Eneas, nam foi o Tibre, polo qual nunca navegou. Chama aos Romanos, decendentes de Eneas, e Ascanio. como se Eneas fose o Noé dos-Lavinios, Albanos, e Romanos! Mas a isto chamo eu venialidades: o que nam poso sofrer, sam outras falsidades, que diz naquele panegirico; principalmente quando quer saîr, fóra de Portugal. Neste cazo o omem transforma tudo. Um comprimento feito a D. Manoel Caietano, uma carta escrita mais cortezmente, sam autenticas provas, da-sua imensa literatura. Que pouco informado é, da-politica dos-outros Reinos, este Panegirista! e quam pouco sabe distinguir, o encarecer uma coiza, e o inventala! Pode o Retorico dilatar, e exagerar muito um argumento: mas sempre dentro dos-limites da-verosimilidade. Ora é uma parvoice manifesta dizer, Que o Souza foi a Roma, para espantar todo o orbe literario: Que em todo o mundo se-ouviam, os brados da-sua fama: Que a Europa suspensa e admirada confesou, que excedia a sua

mesma fama &c. [55]: Que a Europa confesou, que a sua erudisam era maior, que todos os encarecimentos, com que o-celebravam no-

mundo, as mesmas cem bocas da-Fama[56]. Isto sam mentiras mui manifestas: e a isto chama-se satirizar, e nam, elogiar. Nam pára aqui a galhofa: diz, Que nam se-sabe em Portugal, que os Reinos estrangeiros desem, nestes ultimos tempos, um omem, que se-posa

comparar ao Souza[57]. Que o-nam-saiba ele, concedo: vistoque pola sua orasam, mostra saber muui pouco: mas que o-ignorem outros Portuguezes, nego redondamente. Conheso eu omens, que sabem distinguir muito bem D. Manoel Caietano, de infinitos omens, muito mais doutos que ele.

Eu creio que D. Manoel Caietano foi douto, e soube mais, doque o comum dos-Portuguezes: aindaque eu nam poso julgar por-experiencia, porque nunca o-tratei: mas polas suas obras o-discorro: mas nam sam elas tais, que ponham um omem, na primeira esfera dos-doutos. E sei eu muito bem, que a sua Expeditio Hispanica, é mui pouco estimada em muitas partes: e que nam pode obrigar, os omens mais doutos, e de uma critica purgada; a que mudasem de opiniam, sobre a vinda de Santiago: e eu sou um daqueles, que ainda nam se pode persuadir, das-suas razoens. Mas querèlo comparar, com outros grandes omens da-Europa, é mostrar, que nam intende este oficio. Que semelhansa tem o P. Souza, com Petavio, Sirmondo, Launoi, Arnaud d’Andilly, Valois, Morin, Huet, Bossuet, Tomassin, Noris, Calmet, Mabillon, e outros muitos Catolicos? ou com algum dos-Erejes, como Grotio, Scaligero, Usserio, Selden, J. Gerardo Vossio, Daniel Heinsio, Dallé, Samuel Petit, Saumaise, Bochart, Lightfoot, Hottinger, Joam Gronovio, Luiz de Dieu, e outros muitos que deixo? os quais todos vivèram no-seculo pasado, e muitos deles alcansáram D. Manoel Caietano, e morrèram neste seculo? Que semelhansa, torno adizer, em vastidam de noticias, em antiguidades, linguas orientais, Teologia &c.? tanta como o dia com a noite. Estes é que foram conhecidos, em todo o mundo douto, e seram eternamente venerados. Bem mostra este Panegirista, que nam sabe que coiza é erudisam, quando fala desta sorte. Nam falo na Filozofia, pois todos sabem, que omens florecèram, no-fim do-seculo pasado, e no-prezente: dos-quais a D. Manoel Caietano, (que dizem era Peripatetico, ou aindaque o-nam-fose) á bem legoas de distancia. Em tudo se-mostra o Panegirista, pouco informado do-mundo: e, polo que vejo, cuido que era algum pobre Religiozo, que nunca saîra de Portugal; e asim vivia mui satisfeito da-sua terra: pois chega a dizer, que as Universidades de Portugal, até no-edificio, excedem muito, as dos-

outros Reinos[58]. No-que mostra intender tanto de Architetura, como de erudisam. Mui diferentemente me-falou um Portuguez, que estivera em Roma, e tinha outros conhecimentos: o qual confesou limpamente, que em materia de bom gosto, valia mais uma só janela da-Sapiencia, ou Universidade Romana, ou do-Colegio Romano dos-Jezuitas, que todas as Universidades, e Colegios de Portugal: e nam era encarecida a propozisam. Este é o motivo, meu amigo e senhor, porque os Estrangeiros nam crem, em nenhum destes panegiricos: porque dizem, que os Portuguezes, namobstanteque comumente sejam invejozos, e digam mal uns dos-outros; quando porem tomam o empenho de elogiar, mentem dezencaixadamente, e tudo transformam: e até dizem mal dos-outros todos, para elogiar o seu eroe. Se louvam um Santo, nam só nam á Santo igual ao seu; mas quazi chegam a dizer mal, dos-outros todos. O mesmo faz o noso Panegirista.

Que um omem fasa uma orasam mui mal: que se-explique infelizmente: que introduza na-orasam, quantas coizas leo: que ignore o estilo de elogiar, e amplificar os argumentos: que seja languido e sem grasa na compozisam: que nam saiba, manejar a sua lingua: que ignore a colocasam das-palavras, e armonia dos-periodos: como faz este Panegirista; nam serîa grande coiza: o que nam poso sofrer é, que tenha prezumsam desmedida, e que diga mal dos-outros, e d’aquilo que nam intende. O que se-faz nestas orasoens, e com especialidade o autor desta. Para dizer, que o Souza estudou em Portugal, e nam fóra dele; emprega quatro boas

paginas[59], dizendo mal, dos-que vam estudar fóra de Portugal: porquanto cá em Portugal, segundo ele diz, tudo se-acha, e muito melhor, que nos-outros Reinos. Os mesmos livros: omens mais doutos: Universidades melhores, e mais florentes da-Europa: Portugal é o Reino da-Sabedoria; do-qual os Estrangeiros podiam participar com mais razam, doque os Portuguezes deles: e outras semelhantes. E que diz V. P. a esta propozisam? á coiza mais estupida! E concedem-se licensas, a semelhantes escritos! Senhor Panegirista, responderia eu, nam basta ter os livros, é necesario intendèlos: e iso é o que os praguentos dizem, que muitos cá nam sabem. Todos os Latinos nas escolas lem Cicero; e poucos o-intendem; e muito menos o-imitam. Mas, suponhamos que o-sabem alguns; Porventura, sabem-no ou ensinam-no nesas Universidades? nam senhor, que eu prezenciei tudo o contrario. Alem diso, aqui nam á exercicio de linguas, Filozofia boa, Matematicas, Teologias Pozitivas &c. Istoria, Medicina verdadeira, e outras faculdades: se me-nacer alguma duvida, a quem o-ei-de proguntar? Alem diso, esa falta de exercicio é cauza, de que se-ignorem muitos livros: pois é certo, que em Portugal, nam se-conhecem livros bons, que sam bem vulgares em outros Reinos: e o Panegirista é um deles; que por-nam conhecer os autores, diz muita falsidade, no-seu Panegirico. Despois que se-fundou a Academia da-Istoria, quantos livros nam se-conhecem, que antigamente se-ignoravam? Concedo, que se em Portugal se-introduzisem outros estudos, com o andar do-tempo fariam o mesmo, que nos-outros paîzes: mas como ainda estamos mui longe d’esa epoca, nam é maravilha, que muitos vam estudar fóra, o que cá se-nam-sabe. Prouvera a Deus, que fosem muitos mais: e que estudasem bem: e viesem introduzir ese bom gosto, em Portugal.

Quanto ao que diz o Panegirista, que os Estrangeiros podiam aprender, dos-Portuguezes; tem muita razam: mas deixo a V. P. o-determinar, se á-de ser em armas, ou letras. Se ele soubèse o conceito, que aqueles tem dos-Portuguezes, ficaria mui admirado. E para nam buscar exemplos remotos, direi a V.P. que eu falei em certa Cidade, com um Religiozo, que viera instruir em Rilhafoles, os ordinandos: e me-dise, que ficára pasmado, de ver a ignorancia destes paîzes, principalmente dos-Clerigos: muitos dos-quais, nam obstante terem fama de doutos, necesitavam aprender, os primeiros rudimentos da-Fé. Este falava por-experiencia; pois estivera dois anos em Portugal: era alemdiso um omem de virtude, e mui moderado no-falar. Veja V. P. que conceito eles tem disto. Pode-se notar no-mesmo Panegirista, a incoerencia: Quando lhe-tem conta, para avultar a ciencia do-Souza; Roma é uma Cidade cheia de omens doutos: a Arcadia é uma coiza famozisima: é um congreso de Virgilios, e Oracios. Quando nam lhe-tem conta, os Estrangeiros nam sabem nada: e tudo podem aprender, dos-Portuguezes: quem intenderá tal omem! Em uma palavra, este omem cuido nam fez coiza pior, na sua vida. Todas as comparasoens que faz, sam arrastadas, e inverosimeis: as exclamasoens, que frequentemente introduz, fóra do-propozito, e do-lugar: as parentezis longuisimas, superfluas, e insoportaveis: a fraze afetada, mas sem elevasam ou nobreza; repetindo em cada regra a Ilustrisima, a um Religiozo, e a um morto. Finalmente nam sabe dar forsa, aos argumentos que traz, dilatando-os com artificio retorico.

Mas nam quero falar mais nesta materia, porque parece que faso grande cazo, de uma coiza que o-nam-merece. é fazer grande favor ao autor, criticar-lhe os defeitos, que sam infinitos. Antes devo pedir a V. P. perdam, de o-ter demorado, com semelhante orasam: o que fiz por-duas razoens: Primeira, paraque V. P. vise, a infinita distancia que poem, entre sermam funebre na igreja, e orasam funebre na academia: como se os preceitos da-Retorica fosem diferentes! Segunda, paraque vise pintados em uma só orasam, todos os defeitos que lhe-tenho apontado, reinarem nestes paîzes: pois sendo este um dos-modernos, caie em todos eles, nam dizendo o que deve; e dizendo o que nam deve. Os quais sam mui consideraveis defeitos, de Retorica.

O que até aqui tenho exposto a V. P. bastantemente mostra, o que eu tinha proposto: e dá uma verdadeira ideia, do-que é Retorica, em que se-deve uzar, e como se-deve uzar. E com efeito menos ainda basta: poisque tendo V. P. grande compreensam de materias, e mais que tudo, formando juizo exato das-coizas; nam lhe-podem ser ocultas, estas que aponto; e nam pode deixar de falar, com belisima Retorica. Mas á juizos tam sepultados na materia, que nam podem considerar outras coizas, senam aquelas que uma vez vîram: nem receberám a verdade mais clara, e demonstrada, se nam é proposta com aqueles termos, e por-aquele metodo, que uma vez ouvîram. Isto me-obriga a fazer alguma reflexam, sobre as partes da-Retorica, ou sobre estas Retoricas uzuais, e principalmente sobre o estilo do-pulpito: vistoque nestes paîzes, para isto inclinam mais: e nisto é que necesitam, de melhor diresam; para os-livrar daqueles ridiculos prejuizos, de que estam cheios.