Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Luís António Verney · Capítulo 17 de 27

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Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Carta Sexta. Sumario.

CARTA SEXTA.

SUMARIO.

 

Continua-se a mesma materia da-Retorica. Fazem-se

algumas reflexoens, sobre o que é verdadeira Retorica, e origem dela. Que coiza sejam figuras, e como devemos uzar delas. Diversidade dos-estilos, e modo de os-praticar: e vicios dos-que os-nam-admitem, e praticam. Qual seja o metodo de persuadir. Qual o metodo dos-panegiricos, e outros sermoens. Como se-deve ensinar Retorica aos rapazes, e ainda aos mestres. Algumas reflexoens, sobre as obras do-P. Antonio Vieira.

 

NAM intenda V. P. que ei-de faltar à promesa: pois nam só com promtidam, mas com muito gosto executarei nesta carta, o que prometi na ultima: e direi o como se-devem intender, as coizas que dise, para emendar os defeitos, que nestes Retoricos vulgares s’incontram: e que eu apontei na carta pasada. Digo pois, que o primeiro, e mais importante ponto que deve advertir, quem quer formar, o bom gosto literario, é, fugir totalmente destas Retoricas comuas, nam só manuscritas, mas tambem impresas. Estou persuadido, que elas sam a primeira ruina dos-estudos: porque inspiram mui maos principios, e nam ensinam o que devem. Ouso louvar muito nestes paîzes, o Candidatus Rhetoricæ do-P. Pomei, o Ariadne Rhetorum do-Juglar &c. e mestres conheso eu, que nam tem mais noticia da-Retorica, que a que dá o dito livro, ou outro semelhante. Isto porem é mera iluzam: porque para nam saber nada, nam á melhores livros, que os ditos. Estes, e outros tais autores, fazem uma enumerasam das-partes da-Retorica, mui seca e descarnada. propoem mil questoens, e nam rezolvem nenhuma bem. todo o livro consiste em divizoens, e subdivizoens, que enfadam antes de s’intenderem. Mas o pior é, quando ensinam a servir-se, dos-lugares Retoricos: quando mostram os diversos modos, de ampliar um argumento: dizem mil coizas inutis, e que mais facilmente s’aprendem, lendo os bons autores, que estudando as tais observasoens.

Este em carne é o defeito, em que caiem os Logicos Peripateticos, quando se-dilatam muito, sobre a fórma silogistica, e ponte dos-asnos: despois de dizerem muito, sam obrigados a reconhecer, que nada daquilo serve, para coiza alguma: e que na pratica do-argumentar, nam só sam inutis, mas até imposiveis as tais regras. Nam achei até aqui Peripatetico algum, que, devendo em algum ato publico, provar de repente alguma propozisam, que lhe-duvidasem; se-servise de tal metodo: nem menos achei omem algum, que, senam intendeo, e estudou bem a materia, que á-de tratar; servindo-se unicamente dos-lugares Retoricos, fizese coiza capaz. Chama-se perder inutilmente o seu tempo, querer ensinar todas aquelas arengas: das-quais unicamente rezulta, a desvanecida opiniam de uma ciencia, que nam tem. Os rapazes que estudáram aquilo, persuadem-se, que sam Retoricos da-primeira esfera: que podem, com a ajuda de quatro adjetivos e sinonimos, e quatro descrisoens afetadisimas, arengar de repente, em qualquer materia. Intendem, que nam á orasam, que nam observe a dispozisam, que eles lem na sua Retorica. julgam, que nam á discurso oratorio, sem todas aquelas mexerofadas. Finalmente, como nam lhe-explicam, o verdadeiro uzo da-Retorica, e artificio da-verdadeira eloquencia; persuadem-se, que só nos-discursos academicos, tem ela lugar. De que nace, que despois de perderem bem tempo nas escolas, a que chamam de Retorica, ficam totalmente ignorantes dela.

Isto suposto, é necesario desterrar uma, e admetir outra sorte de Retorica. Ja asentamos, que a Retorica deve ser em Portuguez, para os que nacèram em Portugal: porque, asim s’intendem os preceitos: e na sua mesma lingua se-mostram, os exemplos. Nam avemos de carregar os rapazes, com dois pezos: intender a lingua, e intender a Retorica: tambem nam avemos fingir os Omens, como nam sam; imaginando rapazes mui agudos, e espertos. Tudo isto é iluzam. Os rapazes sam de diversas capacidades: e muitos sam rudes. comumente aprendem Retorica, quando ainda nam intendem bem Latim. E asim, é necesario falar-lhe em Portuguez: muito mais, porque ou queiram ser Pregadores, ou Advogados, ou Istoricos &c. tudo isto se-faz cá em Portuguez: e é loucura ensinar em Latim uma coiza, que pola maior parte, se á-de executar, em Vulgar. Esta é a primeira regra do-Metodo, facilitar a inteligencia. Nam tenho até aqui visto, (pode ser que aja) Retorica Portugueza impresa. Certo sugeito mostrou-me á tempos, alguns apontamentos que fizera: mas nam mereciam o nome de Retorica. tenho visto varios livros de conceitos: mas nam era coiza, que merecese ler-se. Sei porem, que atualmente se-copeia, uma Retorica Portugueza, que me-parece propria para formar, o bom gosto da-Eloquencia. Um amigo meu mui particular a-compoz, para uzo seu. pedio-me noticia, dos-melhores autores nesta materia: e deles copiou, o que conconduzia, para o seu intento. uzou comigo a amizade, de consultar-me na dispozisam dela. teve a moderasam de ouvir, e nam desprezar, as minhas reflexoens. cuido que felizmente conseguio, o seu intento: devo fazer esta justisa, à sua grande capacidade. Nam sei, se a-determina divulgar: o que se puder ser, procurarei de a-comunicar a V. P. seguro, de que nam lhe-dezagradará. Mas, tornando ao fio das-minhas reflexoens:

Ja dise ao principio, que sendo a Retorica, arte de persuadir, tinha lugar em todo o discurso, que seja proferido com este fim. Doque se-segue, que a Retorica tem tanta extensam, quanta qualquer lingua: o que muitos nam intendem, ainda dos-que lem as Retoricas. Parece paradoxo a muitos, destes enfarinhados nos-estudos, dizer-se, que n’uma carta, que é escrita com estilo simplez; n’uma Poezia, na Istoria, e n’um discurso familiar &c. deve ter lugar a Retorica. E isto provèm de intenderem, que a Retorica consiste, em figuras mui dezuzadas, tropos mui estudados &c. e asim parece-lhe, que nam se-caza uma coiza com outra. Mas por-pouco que estes tais, examinasem a materia; conheceriam, que tudo se-deve tomar, em diverso sentido.

Nam á lingua neste mundo, tam fecunda de palavras, que posa expremir, todas as ideias do-intendimento: A fecundidade que tem a mente, em formar conceitos, e a facilidade com que de uma mesma coiza, fórma infinitas ideias, é tal; que pode empobrecer, todas as linguas do-mundo. Seriam necesarias muitas palavras, para um omem poder dizer sofrivelmente, o que intende. Mas isto pediria tempo infinito, e o comercio umano se-faria insoportavel. Conhecèram os Omens muito bem isto, e cuidáram em lhe-pór o remedio. Daqui naceo a necesidade de servir-se, de algum modo de expremir, que, aindaque nam diga tudo, excite diversas ideias no-intendimento, e poupe o trabalho, de proferir muitas palavras. A experiencia mostrou, que as nosas ideias tem uma certa uniam, com que mutuamente se-ajudam: proferida uma das-quais, todas as outras se-aprezentam. Isto asim posto, os Omens souberam aproveitar-se, desta experiencia; e comesáram a servir-se de um nome por-outro, para poder excitar a ideia, do-que queriam. Um nome que significava uma coiza, aplicou-se para significar outra; e se-transportou da-sua significasam propria para outra, por-cauza de certo respeito, ou relasám, ou ordem, ou nexo, que uma coiza tem com outra. A isto chamáram Tropo, palavra Grega, que significa transpozisam: e estes modos de falar, chamáram-se Figuras: as quais podem ser infinitas: mas os Retoricos as-reduzîram a pequeno numero, contando as mais uzuais: e destas se-faz memoria, nas comuas Retoricas, com diversos nomes.

Estes Tropos, Metaforas, ou Metonimias, que significam o mesmo, tem grande uzo, e sam necesarias em todas as linguas, e ornam muito: nam só porque encurtam o discurso, e fazem mais gostoza a conversasam; mas tambem porque exprimem melhor, o que se-quer dizer, doque outras palavras. Diz mais às vezes, uma só metafora, que um longo discurso: e com uma só palavra, é mais bem intendido um omem, doque com a fecundidade de infinitas. Quem ouve dizer, que Alexandre era um raio da-guerra; a ideia do-raio, que é uma coiza sensivel, exprime bem o grande poder, com que este omem sugeitava tudo: a velocidade das-suas conquistas: o eco das-suas vitorias; que atroava tudo, e ainda as mais remotas Nasoens. Este justamente é o carater de Alexandre: como ja a Escritura tinha delineado. Uma só ideia excita mil outras, ao intento. E como os Omens estam acostumados, a estas imagens sensiveis; os tropos que delas se deduzem, valem infinito. Apenas o comum dos-Omens pode intender, e julgar de outra sorte.

Sam boas, asim é: mas o uzo é que as-faz racionaveis: quero dizer, que se-devem uzar em tempo, e lugar proprio, e quando o discurso o-pede. O que nam advertindo os ignorantes, servem-se pouco sabiamente das-Figuras; e com muito estudo, falam bem mal. Nam á maior beleza em uma cara, que os olhos: mas se um rosto nacèse com mais de dois; se chegáse a ter meia duzia, serîa um monstro. Deve aver figuras: mas á-de aver proporsam, eleisam, dispozisam: ou seja no-discurso familiar, ou na Istoria, ou na Cadeira. Este é o grande segredo do-falar bem: o qual como muitos, segundo adverti, nam chegam a penetrar, quando ouvem falar em Tropos, tremem de pés e cabesa: e persuadem-se, que é algum enima singularisimo, rezervado para algum ato publico, ou coiza semelhante.

Como as palavras sam as que significam, o que pasa dentro d’alma, ouve necesidade de procurar palavras, para expremir, nam só o que a alma conhece, mas tambem o que quer; ao que chamamos, afetos da-alma, ou paixoens. O Omem nem sempre se-acha, na mesma dispozisam de animo: mas esporiado de alguma coiza, saie fóra de si, e entam fala de outra maneira, mui diferente. As expresoens com que se declara isto, se-chamam Figuras; com a diferensa, que os Tropos sam figuras das-vozes: e estas que aqui digo, sam figuras do-animo. É incrivel, a diversidade destas vozes do-animo. Um omem agitado, nam só no-exterior do-rosto, mostra a sua perturbasam, mas tambem no-modo do-seu discurso. As paixoens violentas, alteram a bela armonia dos-umores: engrosam os objetos: impedem que a alma dè a devida atensam, ao que julga: no-mesmo instante a-transportam, de uma coiza para outra: sam como o mar alterado, que joga a pela com um navio. Onde, agitadas com tanta confuzam, as fibras do-cerebro, a alma, que em virtude daquela armonioza dependencia, que estableceo Deus entre ela e o corpo; deve conhecer todas as imagens, que elas lhe-prezentam; nam tem, se me-é licito explicar asim, repouzo algum. A alma agitada, imprime novo movimento nas fibras, e estas na machina: de que nacem as palavras: com as quais dando-se dezafogo à ira, que moveo a machina, se-dá tambem repouzo, à alma.

Sendo pois as nosas palavras, consequencias dos-movimentos d’alma, e conrespondendo perfeitamente, aos nosos pensamentos; é claro, que o discurso de um omem, que está sumamente agitado, deve ser dezigual. Algumas vezes parece este omem difuzo, e fórma uma exata pintura, das-coizas que sam objeto, da-sua paixam: e cuidando que o-nam-intendem bem, repete a mesma coiza, em cem diferentes maneiras. Algumas vezes interrompe o discurso, e sepára as palavras umas das-outras, dizendo de uma só vez, bastantes coizas. Muitas vezes vareia o discurso, com mil proguntas, com exclamasoens, com frequentisimas digresoens. Finalmente um discurso destes vareia-se, com infinitos modos de falar: os quais modos sam tam proprios, daquelas paixoens d’onde nacem, que, ouvindo-os proferir, fica um omem formando, justa-ideia da-paixam. Estas pois sam as tanto celebres Figuras do-animo: as quais nenhuma outra coiza sam mais, que modos de falar particulares, e diferentes dos-modos de falar natural e uzual.

Estas Figuras, que sam as naturais pinturas das-paixoens, sam sumamente utis, e necesarias no-comercio umano. Um pintor famozo, (dise um grande Retorico, de quem eu aqui sigo as pizadas) que quer delinear um painel istoriado, nam só pinta as figuras, que devem intrar no-quadro; mas procura, que cada uma esteja naquele ato, que exprima, o paraque ele ali a-poem: nem só isto, mas até no-rosto lhe-pinta, aqueles acidentes, que denotam a paixam, de que sam produzidos. Explico-me melhor. Um omem agitado, e alterado com a colera, nam tem o rosto sereno; mas fica palido: abre uns olhos, que parecem cheios de fogo: carrega a vizeira: finalmente mostra no-rosto mil acidentes, que sam os carateres da-Colera. Isto pois é o que procura imitar, o pintor: e se chega a imitálo bem, só este é o bom pintor. O Retorico nam tem cores, com que imitar a natureza, como o pintor: mas tem palavras, para imitar aquelas, que profere um omem dominado da-paixam, que ele quer persuadir: e como estas paixoens tenham, diferentes carateres; é necesario que se-sirva de diferentes figuras, para as-

expremir[41].

Alem disto, ninguem pode persuadir outro, sem que excite nele aquela paixam, que lhe quer persuadir: porque as paixoens sam os instrumentos; e, para me-servir de uma expresam filozofica, as machinas que abalam a alma, e a-inclinam para onde querem. Ora para excitar estas paixoens nos-outros, é necesario, que um omem

se-mostre dominado, da-mesma paixam: [42] porque, suposta aquela particular dispozisam, e semelhansa dos-nosos corpos, deixamo-nos persuadir daquela paixam, que vemos nos-outros: dos-mesmos sentimentos: dos-mesmos afetos: se nam se-acha algum obstaculo, que empesa o curso da-natureza. Naturalmente inclinamos a ter compaixam, de uma pesoa, que mostra estar sumamente aflita: rimos quando nos-achamos, em um grande divertimento dos-sentidos. Polo contrario, nam choramos, nem mostramos compaixam, de uma pesoa que ri; aindaque verdadeiramente seja mizeravel. É necesario ter um animo mui nobre, para se-vestir dos-sentimentos, e necesidades dos-outros, semque lhas-exponham. Nam obram os Omens comumente asim: obram porem asim, quando recebem o movimento, do-impulso das-paixoens. Esta é a simpatia das-paixoens: (se acazo tal voz, significa coiza alguma) e daqui se-mostra bem, a necesidade das-Figuras, para efeito de persuadir.

Nam me-cansarei, em dar o numero das-Figuras, e explicar o que significam, e quando se uza delas. Disto abundam muito, as Retoricas ordinarias: aindaque sam poucas, que o-expliquem de um modo, que se-posa perceber. As Figuras sam infinitas: mas os Retoricos reduzem-nas, a umas certas regras gerais, e-mais comuas. Direi somente, que estas Figuras, sam as verdadeiras, armas da-alma, com que ela faz guerra às outras almas; ou vence, ou é vencida: e produzem juntamente mil outros efeitos. Primeiramente, elas declaram aquelas verdades, que sam oscuras; e excitam nos-Omens a atensam, para as-perceber. Aquela grande repetisam, aqueles muitos sinonimos, nam sam inutis na

Retorica[43]: antes sam de infinito preso: porque mostram o que se-pertende em tanta luz, e de tantas partes; que é imposivel o-ignorálo: imprimem com tanta forsa uma verdade, descobrem todas as circunstancias com tanta clareza; que é imposivel nam admetilas. Mas no-mesmo tempo estas Figuras, se sam bem naturais, e se pintam bem a origem de que nacem; movem de tal sorte a alma, que a-arrastam e conduzem, para aquele objeto, de que se-fez a

imagem [44]. E como a alma nam pode ver uma verdade clara, sem a-receber; daqui nace, que por-forsa admite o objeto, e consente: e temos o omem persuadido.

Estas sam as Figuras, que sam a baze da-Eloquencia. Mas nam intenda V. P. que eu quero persuadir indiferentemente, toda a sorte de Figuras, e uzo delas: estou mui longe diso, e defendo constantemente, que só no-bom uzo delas, é que está a Eloquencia, principalmente sublime. Isto é o que eu dezejára refletisem comigo algumas pesoas, que, por-nam-advertirem este importante ponto, dam à luz partos monstruozos. Se as nosas paixoens sam mal ordenadas; se nam se-excitam quando deve ser; é coiza clara, que as Figuras só servirám, de pintar a confuzam das-nosas ideias, e a pouca eleisam do-noso juizo. Um omem que s’enfada quando nam deve; que em um discurso placido, introduz mil Figuras fortes; que progunta; que responde; que exclama; e mostra grande paixam, aindaque nam aja de persuadir, ou disputar com alguem: é um verdadeiro louco, que guiado, da-sua destemperada imaginasam, empunha a espada, para combater com um inimigo imaginario. Pois este é o retrato de muitos autores, que julgam nam serem bons escritores, se nam uzam de todas as sutilezas d’arte: Semelhantes nisto a um omem de Provincia, com que eu jantei uma vez, que para mostrar que tivera boa educasam, comia as uvas com o garfo.

Outros, que devem persuadir, e tem materia para empregar, boa Retorica; só estudam palavras, que tenham cadencia armonioza, mas tam afetada, que pola maior parte degenera em verso. Fazem mil reflexoens inutilisimas: procuram falar sempre por-sentensas: cuidam em introduzir conceitos sutis, e divizoens importunas: com as quais arengas nam procuram persuadir, mas agradar, e conseguir fama de eloquentes. E estes eu os-reputo muito mais ignorantes, que os primeiros, pola sua afetasam. O certo é, que uns e outros nam intendem, nem o fim, nem os limites da-Retorica: e que em lugar de estimasam, conseguem desprezo.

As Figuras devem-se empregar, em toda a ocaziam. Temos Figuras para tudo: negocios graves, mediocres, e para a mesma conversasam familiar. Basta persuadir-se, de uma importante verdade, que é, que a Figura nam se-deve procurar, mas naturalmente aprezentar-se: porque, como tenho mostrado, sam consequencias das-paixoens. Observe V. P. um omem rustico, que nam seja totalmente estupido, ou uma molher de juizo, mas nam doutora: entre com eles em um discurso familiar, sobre alguma materia, que lhe-pertensa: dificulte-lhe conceder-lhe alguma coiza, que a eles paresa verdadeira, ou que na realidade o-seja: e observe miudamente, quantas Figuras introduzem no-discurso. E finalmente, achará mais forsa, nas suas razoens, quando sam em materia verdadeira, doque nos-discursos, de muitos Oradores de fama. Eu fiz esta experiencia muitas vezes: e sempre tirei por-fruto, da-minha meditasam, que as Figuras ám-de ser naturais: e que somente se-fala bem, quando se-fala animado, de algum verdadeiro interese, e se-deixa guiar, de uma paixam arrezoada.

V. P. observará isto, nos-seus proprios discursos, ainda naqueles, que parecem menos considerados, e que sam proferidos, quazi por-impulso da-natureza. As coleras nam sam iguais, nem as paixoens: e asim á Figuras nestes mesmos discursos. Fazem-se antitezes, por-cauza de grandes movimentos, e tambem por-ligeiras comosoens. O dezejo que um omem tem, de expremir-se, e de persuadir as coizas que diz, tem varias destas Figuras. Na conversasam mais placida, repetem-se sem reparo, os mesmos termos muitas vezes. servimo-nos de diversas expresoens, para significar o mesmo. permitem os mais escrupulozos criticos, fazer alguma breve descrisam, e procurar alguma semelhansa, para explicar melhor a materia. pode-se proguntar o parecer dos-que ouvem, sobre o que se-profere; e mostrar-lhe, que é necesario refletir, sobre algumas das-circunstancias alegadas. Tudo isto pratica-se todas as oras, ou se-pode praticar, sem enfado de quem ouve, e sem incorrer na censura, de quem observa. Ora as Figuras nam sam verdes nem azuis, sam em carne estas mesmas que apontamos, e outras a estas semelhantes. E eisaqui, que nam só nas orasoens, e discursos estudados, mas em todo o discurso, tem lugar as Figuras. Em uma palavra, primeiro ouveram Figuras, doque ouvèse arte de Retorica: aqual nada mais é, doque a observasam das-naturais Figuras. E asim todo o estudo de um omem, verdadeiramente eloquente, consiste, em observar bem, a necesidade da-materia; e intrar tanto dentro nela, que posa formar um discurso natural, mas no-mesmo tempo eficaz: e em que as Figuras fujam-lhe da-boca, sem que ele vá detraz delas, para ornar o discurso. Muito necesario é, estudar a natureza: estudar o carater das-Paixoens: falar naturalmente: que só asim se-fala eloquente, e sò asim se-persuade. Este é o primeiro ponto, ou o mais importante, em materia de Retorica.