Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Luís António Verney · Capítulo 18 de 27

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Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Sublime.

O segundo, e de nam menor consequencia, está, em saber proporcionar o estilo, ao argumento que se-trata. Consiste o estilo, em certas maneiras de s’explicar, e certas particulares expresoens, que cada omem uza: as quais comumente seguem o impeto do-fogo, que cadaum tem: nam se achando dois omens, que sejam perfeitamente iguais no-estilo, como nem menos no-temperamento. Digo pois, que o estilo se-deve regular, segundo a materia, que se-

trata [45]. As expresoens magnificas e nobres, ornam as coizas, de uma certa magestade, e mostram o grande conceito que delas fórma, quem asim fala: se a materia nada tem de extraordinario, antes é sumamente vil; impropriamente se-lhe-aplicam, tais expresoens. Polo contrario, as coizas que se-podem considerar sem comosam, devem-se dizer com estilo simplez: outras mais estudadamente: o que faz a variedade de estilos: que os mestres da-arte reduzem comumente, a trez. Querem dizer, que ou o discurso é sumamente nobre, ou sumamente trivial, ou mediocre: à primeira, conresponde o estilo sublime: à segunda, o estilo simplez: à terceira, o mediocre. A prudencia e inteligencia com que se-devem aplicar, estes trez generos d’eloquencia, é o principal emprego, do-Retorico.

 

SUBLIME.

 

Quando se-quer dar uma alta ideia, de alguma coiza, é necesario refletir no-mesmo tempo, em muitas circunstancias. Por-muito nobre que seja o sugeito, de que se-trata, pode ter mil imperfeisoens: onde é necesario procurar, de o-por à vista d’aquela parte, que melhor parece; para poder impremir, uma justa ideia da-sua grandeza: procurando quanto pode ser, de lhe-cobrir, ou disfarsar os defeitos, sem prejuizo da-verdade: voltando-o e revoltando-o de todas as melhores partes, para poder mostrar, até as minimas perfeisoens que tem: e tendo muito cuidado, de nam sair com alguma expresam, ou pensamento, que destrua o que se-tem fabricado. Caiem neste defeito infinitas pesoas, ainda d’aquelas, que nam sam decepadas: Oradores, Istoricos &c. mas sobre tudo os Poetas: que, por-forsa do-consoante, ou da-quantidade do-verso, dizem mil coizas ou mal ditas, ou mal aplicadas. Li um soneto de certo Espanhol, que descrevia um nariz grande: o qual, despois de ter dito muita coiza do-dito nariz, conclue desfazendo, quanto encarecèra. Porei somente os tercetos.

 

Erase un espolon de una galera.

Erase una piramide de Egito.

Las dose Tribus de narizes era.

 

Erase un narizissimo infinito.

Muchissima nariz, nariz tan fiera,

Que en la cara de Anás fuera delito.

 

Despois dos-quatro versos antecedentes, em que exagerava terrivelmente o tal nariz, saie com uma frioleira, que destrue tudo. Admetida de grasa, a comua opiniam do-vulgo, de que os Judeos tem narizes grandes: admetida novamente a frioleira, de que Anás, por-ser Pontifice, o-devese ter maior: é certo, que nam teria um nariz maior, que todo o corpo. Demos-lhe, que fose tam grande: que proporsam tem isto, com uma piramide, e nariz infinito? Destes exemplos acho a cada paso: de que concluo, que estes nam sabem, as leis da-Retorica, nem da-Poezia.

Quanto ás expresoens, aindaque as-dezejo nobres, e com armonia sonora; devem porem uzar-se, com moderasam. Prudentemente se-comparou um discurso, no-genero sublime, com um palacio magnifico: neste á-de aver cazas para os amos, para os criados, e tambem estrevarias para os cavalos. Estas nam ám-de ser, como as anticameras, nem ornadas como os gabinetes: mas ám-de ter certa magnificencia rustica, e proporsam ao todo: ám-de ser todas as partes no-seu genero, belas, grandes, magestozas. Um palacio que tem um portam pequenino, parece coiza Mourisca, e nam de Architeto inteligente. tudo á-de ser grande, mas no-mesmo tempo proporcionado. Damesma sorte em um discurso, nem todos os pensamentos podem ser exquizitos, ou a locusam sublime: á-de aver pensamentos bons, exquizitos, e mediocres: a locusam damesma sorte, em alguns lugares sublime; v. g. nas perorasoens, e exagerasoens &c. em outras mediocre; v. g. nos-exordios, nas confirmasoens de provas &c. e em outras simplez e natural, como nas narrasoens, e outros lugares. Mas todas estas coizas ám-de ter proporsam entre si: devem ser ornadas e vestidas daquela tal grandeza, que mostre serem partes, de uma coiza grande. Asim se-compoem, um discurso perfeito.

Esta magnificencia de expresoens grandiozas, e armoniozas, convem ao estilo sublime, com a distribuisam dita, de aplicar as melhores, às coizas que merecem maior atensam. Tambem no-estilo sublime devem intrar, reflexoens judiciozas, e varias sentensas, que excitem a atensam. Nele tem seu proprio lugar, as Figuras grandes: Sendo certo, que um argumento nobre, nam se-pode tratar, sem alguma particular comosam: de que nace aquele modo de expremir-se, em que consistem as Figuras. Devem porem praticarse, segundo as observasoens asima feitas.

Esta porem é a maior dificuldade, do-estilo Sublime: e sam poucos os omens, que saibam abrasar, uma distribuisam moderada de ornamentos, no-discurso. A maior parte dos-que escrevem, sam como aquelas pesoas, que nam tem educasam de Corte. Estas, para se-mostrarem bem informadas, e de boa eleisam; carregam tanto os vestidos de oiro, e a cabesa de joias; que em lugar de parecerem bem, ofendem a vista. O pior é, que no-defeito que repreendemos, caiem tambem os que sam da-Corte, como os que sam de fóra: e é mais dificultozo emendar-se. Um omem que tem má eleisam no-vestir, tem tantos censores à vista, que à forsa de critica, e de observasam, consegue a emenda. Nam asim o que escreve: sam poucos os que censurem, porque sam pouquisimos os que saibam, como se-deve censurar. Alem diso, nam á algum, que prezuma tam mal do-seu juizo, que leia por-livros, que lhe-mostrem, as suas imperfeisoens. Busca somente aqueles, que mais lhe-agradam, e sam mais uzuais: e em vez de s’emendar, confirma-se na sua má eleisam. V. P. nam achará um Pregador, que estude por-Cicero, Demostenes, M. Seneca, Quintiliano: ou leia alguns, dos-que compuzeram boas reflexoens, sobre as ditas obras: achará porem muitos, que estudam por-sermonarios, e muito maos: e estes nam podem escrever melhor, doque lem nos-tais autores.

Outros escritores, querendo-se distinguir do-Comum, nam gostam senam, de expresoens grandes: e de tal sorte se-deixam guiar, por-este furor; que nam produzem palavra, que nam seja de pé e meio; e que nam acabe d’estoiro, como uma bomba. As palavras e fraze natural, o modo de s’expremir uzual, aindaque seja o mais proprio da-materia, nada vale. desprezam tudo, o que nam é estrondozo. Nenhum destes dirá: Petrus amavit Joannem: nam senhor: mas querem perifraze: Accidit ut Petrus amore prosequeretur Joannem; ou alguma fraze mais comprida. Estes omens vem todas as coizas, por-microscopio: tudo lhe-parece gigantesco: ou, para melhor dizer, tudo transformam. A sua cabesa é como a de D. Quixote: a quem moinhos pareciam palacios; e nam avia coiza para ele, que nam fose magestoza. Daqui nace, que tudo exprimem pola mesma maneira. o discurso comesa por-Figura, e acaba em Figura. Este é o vicio comum destes paîzes; mas muito principalmente dos-Poetas, e Oradores.

Estes omens confundem o Eloquente, com o Arrogante; a Exagerasam com a Inverosimilidade: sem advertirem, que sam coizas bem diferentes. Ora este é o verdadeiro carater da-ignorancia: tanto mais dificultozo de s’ evitar, quanto é certo, que muitos omens grandes em outro genero, tem caido neste defeito. Este é o ponto que se-deve advertir, com mais circunspesam: este o defeito que se-deve fugir, com mais cautela. O que se-consegue primeiro, com alguma reflexam judicioza: segundo, com a lisam de bons autores, que falem como devem, e proporcionem o estilo, ao asumto. Nam á coiza mais ridicula, doque uma grande afetasam de

palavras sonoras, em coizas onde nam devem intrar [46]. Em lugar de engrandecerem quem fala, mostram a pobreza do-seu intendimento: que nam tendo cabedal, de dar palavras para tudo, pede-as emprestadas, ou furta sem advertencia, as que incontra.