Zadig, ou o Destino

Voltaire · Capítulo 14 de 21

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Zadig, ou o Destino

Capítulo XIV. O SALTEADOR

XIV. O SALTEADOR

 

Chegado às fronteiras que separam a Arábia Pétrea da Síria e quando passava por um castelo bastante fortificado, saíram dêste uns árabes de arma em punho, que o cercavam, gritando “Tudo o que você tem nos pertence; e sua pessoa pertence a nosso chefe”. Zadig, como resposta, puxou da espada; seu criado, que tinha coragem, fêz o mesmo. Estenderam mortos os primeiros árabes que se atreveram a lhes pôr a mão; o número redobrou; êles não se assustaram com isso resolveram morrer lutando. Viam-se dois homens a defender-se contra uma multidão; tal combate não poderia durar muito tempo. O senhor do castelo, por nome Arbogad, que assistia de uma janela aos prodígios de coragem que praticava encheu-se de estima por êle. Desceu às pressas e veio em pessoa afastar seu pessoal e livrar os dois viajantes.

“Tudo o que passa pelas minhas terras é meu - dizia êle - mas você me parece tão bom sujeito, que o dispenso da lei comum”. Fê-lo entrar no castelo, dando ordens para que o tratassem bem, e, à noite, fêz questão de cear em companhia do seu hóspede.

O senhor do castelo era um dêsses árabes a que chamam ladrões; mas às vêzes, em meio a uma multidão de más ações, sucedia-lhe praticar algumas boas; roubava com furiosa rapacidade, e sabia dar liberalmente. Intrépido na ação, bastante tratável em sociedade, intemperante na mesa, alegre na pândega, e sobretudo cheio de franqueza, muito se agradou de Zadig. A conversação, que se animou, prolongou o repasto. Disse êle enfim a seu hóspede:

— Aconselho-o a alistar-se com minha gente; é o que pode fazer de melhor; êste ofício, afinal de contas, não é mau; e poderá um dia chegar ao que eu sou.

— Permite-me perguntar-lhe - disse Zadig - desde quando exerce essa nobre profissão?

— Desde rapazinho replicou o senhor. - Servia eu de criado a um árabe muito esperto; e essa situação me era insuportável. Desesperava-me ver que em tôda a terra que pertence igualmente aos homens, não me houvesse o destino reservado a parte a que tinha direito. Confiei minhas penas a um velho árabe, que me disse: “Não desesperes, meu filho: era uma vez um grão de areia que se lamentava de ser um átomo ignorado no deserto; ao cabo de alguns anos tornou-se diamante, e é agora o mais belo ornamento da coroa do rei das Índias”. Tais palavras me causaram profunda impressão: eu era o grão de areia, resolvi tornar-me diamante. Comecei roubando dois cavalos; depois associei a mim alguns camaradas; fiquei em condições de roubar pequenas caravanas; e assim fiz cessar pouco a pouco a desproporção que a princípio havia entre mim e os outros homens. Tive a minha parte nos bens dêste mundo; e fui até sobejamente indenizado: alcancei grande consideração; tornei-me senhor bandoleiro, adquiri êste castelo por direito de conquista. O sátrapa da Síria quis desapossar-me; mas eu já era bastante rico para não temer o que quer que fôsse: dei dinheiro ao sátrapa, conservando assim êste castelo, e aumentei os meus domínios; êle nomeou-me tesoureiro dos impostos que a Arábia Pétrea pagava ao rei dos reis. Desempenhei o meu cargo de recebedor desdenhando o de pagador.

O grande desterham de Babilônia mandou para aqui, em nome do rei Moabdar, um pequeno sátrapa, para que me fizesse estrangular. Êsse homem chegou com a sua ordem: eu estava inteirado de tudo; mandei estrangular na sua presença os quatro personagens que trouxera consigo para apertarem o laço; feito o que, perguntei-lhe o quanto lhe poderia render a incumbência de estrangular-me. Respondeu-me que seus honorários poderiam montar a trezentas moedas de ouro. Dei-lhe claramente a entender que comigo poderia ganhar muito mais. Fi-lo subsalteador; é hoje um de meus melhores oficiais e dos mais ricos. Palavra que o amigo há de vencer como êle. Para roubar, acredite, nunca esteve melhor a temporada, depois que Moabdar foi morto e tudo é confusão em Babilônia.

Morto, Moabdar?! exclamou Zadig. - E que é feito da rainha Astartéia?

— Não sei - respondeu Arbogad. - Só o que sei é que Moabdar enlouqueceu, que o mataram, que Babilônia é um pandemônio que todo o império está assolado, que ainda há belos golpes a dar e que eu, da minha parte, os dei admiráveis.

— Mas e a rainha? - insistiu Zadig. - Por favor, não sabe mesmo nada da sorte da rainha?

— Falaram-me de um príncipe da Hircânia; ela está provàvelmente entre as suas concubinas, se é que não foi morta no tumulto; mas estou mais interessado pelos saques que por novidades. Apoderei-me de várias mulheres em minhas excursões; não conservo nenhuma; vendo-as caro quando são belas, sem me importar o que sejam. Ninguém compra posições: uma rainha feia não seria arrematada. Talvez eu tenha vendido a rainha Astartéia, talvez ela esteja morta; mas pouco se me dá, e acho que isso não o deve preocupar mais do que a mim.

Assim falando, bebia tão valentemente e confundia de tal modo tôdas as idéias, que Zadig não pôde obter nenhum esclarecimento.

Permanecia interdito, aniquilado, imóvel. Arbogad não parava de beber, inventava histórias, repetia incessantemente que era o mais feliz de todos os homens, exortando Zadig a se tornar tão feliz quanto êle. Afinal, levemente amodorrado pelos vapores do vinho, foi dormir um sossegado sono. Zadig passou a noite na mais violenta agitação. “Como! -exclamava êle. - O rei enlouqueceu! Foi assassinado! Não posso deixar de o lamentar. O império está devastado, e êsse ladrão é feliz. O fortuna! ô destino! Um ladrão é feliz, e o que de mais amável fêz a natureza pereceu talvez de um modo horrível, ou vive num estado pior que a morte, O Astartéia! que é feito de ti?”

Logo ao raiar do dia, interrogou todos aquêles que encontrava pelo castelo; mas todos estavam ocupados, ninguém lhe respondia; tinham feito novas conquistas durante a noite e repartiam os despojos. Só o que pôde obter, naquela tumultuosa confusão, foi permissão de partir. Aproveitou-a sem demora, mais absorto do que nunca em seus dolorosos pensamentos.

Zadig marchava inquieto, agitado, a pensar na infeliz Astartéia, no rei da Babilônia, no seu fiel Cador, no feliz ladrão Arbogad, naquela mulher tão caprichosa que os babilônios haviam detido nos confins do Egito; enfim, em todos os contratempos e infortúnios que experimentara.