Zadig, ou o Destino
Capítulo XV. O PESCADOR
XV. O PESCADOR
A algumas léguas do castelo de Arbogad, achou-se à margem de um ribeiro, sempre a deplorar seu destino e considerando-se o modêlo da desgraça. Viu um pescador reclinado à margem, segurando frouxamente a rêde, que parecia abandonar, e erguendo os olhos para o céu. Sou sem dúvida o mais infeliz de todos os homens - clamava o pescador. - Fui, por consenso geral, o mais famoso mercador de queijo em tôda Babilônia, e fiquei arruinado. Tinha a mais linda mulher que um homem jamais possuiu, e ela traiu-me. Restava-me uma modesta casa, que foi pilhada e destruída. Refugiei-me numa choça, tendo a pesca como único recurso, e não apanho nenhum peixe. ó minha rêde, não mais te lançarei, eu é que devo lançar-me à água.
Dizendo tais palavras, ergue-se e avança, na atitude de um homem que se fôsse arremessar e dar cabo da vida.
— Como! - dizia consigo Zadig. - Há então outros - mais infelizes do que eu?! - O ardor de salvar a vida ao homem foi tão rápido quanto esta reflexão. Acorre, detém-no, interroga-o com um ar comovido e animador. A gente acha que é menos infeliz quando não o é sòzinho. Mas isso, segundo Zoroastro, não significa maldade; é uma necessidade, apenas. Sentimo-nos atraídos então para um infeliz, como para um semelhante nosso. A alegria de um homem venturoso nos seria um insulto; mas dois desgraçados são como dois frágeis arbustos que, apoiando-se um no outro, se fortalecem contra a tempestade.
— Por que sucumbes às tuas desditas? - perguntou - Zadig ao pescador. - É que não lhes vejo remédio - retrucou o outro -
Fui o homem mais considerado da aldeia de Derlback, e fabricava, com o auxílio de minha espôsa, os melhores queijos de todo o império. A rainha Astartéia e o famoso ministro Zadig os apreciavam loucamente. Tinha-lhes fornecido seiscentos queijos. Fui um dia a Babilônia receber o pagamento; soube, de chegada, que a rainha e Zadig haviam desaparecido. Corri à casa do senhor Zadig, a quem jamais vira; ali encontrei os arqueiros do grande desterham, que, munidos de um édito real, saqueavam-na legalmente e com tôda a ordem. Voei às cozinhas da rainha; alguns dos despenseiros me disseram que ela morrera; outros que estava prêsa; outros que fugira; mas todos me asseguravam que não me seriam pagos os meus queijos. Em companhia de minha mulher, fui falar com o senhor Orcan, que era um de meus fregueses, e lhe pedimos proteção em nossa desgraça; êle a concedeu à minha mulher, e recusou-a a mim. Era ela mais branca que os seus queijos, que começaram minha desgraça; e o esplendor da púrpura de Tiro não era mais brilhante que o carmim que animava aquela brancura. Foi o que fêz com que Orcan a detivesse e me escorraçasse da sua casa. Escrevi à minha querida espôsa uma carta desesperada. - Ah! sim - disse ela ao portador, - sei quem é êsse homem que me escreve, já ouvi falar nêle: dizem que fabrica excelentes queijos; tragam-me alguns e não se esqueçam de lhos pagar.
Na minha desgraça, decidi recorrer à justiça. Restavam-me seis onças de ouro: tive de dar duas ao legista que consultei, duas ao advogado que se encarregou do meu caso, duas ao secretário do primeiro juiz. Depois de tudo isso, meu processo ainda não fôra encetado, e eu já tinha dispendido mais dinheiro do que valiam os meus queijos e a minha mulher. Voltei à minha aldeia, na intenção de vender a casa para conseguir minha mulher.
Minha casa valia umas sessenta onças de ouro; mas sabiam-me pobre e necessitado de dinheiro. O primeiro a quem me dirigi ofereceu-me trinta onças, o segundo vinte, e o terceiro dez. Estava prestes a liquidar tudo, tão cego me achava, quando um príncipe da Hircânia veio a Babilônia e assolou tudo na sua passagem. Minha casa foi primeiro saqueada e depois reduzida a cinzas.
Tendo assim perdido o meu dinheiro, a minha mulher e a minha casa, retirei-me para esta região onde o senhor me vê. Procurei viver do oficio de pescador: os peixes zombam de mim, como os homens. Não apanho nenhum, morro de fome; e, se não fôsse a sua intervenção, augusto consolador iria afogar-me no rio
A narrativa acima, o pescador não a fêz sem interrupção, pois a todo momento Zadig, comovido e arrebatado, dizia-lhe:
— Como! Não sabes nada do destino da rainha?
— Não, meu senhor, mas sei que a rainha e Zadig não me pagaram os meus queijos, que me roubaram a minha mulher, e que estou desesperado.
— Creio - disse Zadig que não perderás todo o teu dinheiro. Ouvi falar dêsse Zadig; é um sujeito honesto e, se voltar a Babilônia, como pretende, há de pagar-te mais do que te deve; mas quanto à tua mulher, que não é honesta, aconselho-te que não procures recuperá-la. Vai a Babilônia; lá estarei antes de ti, porque ando a cavalo e tu a pé. Dirige-te ao ilustre Cador; dize-lhe que encontraste o seu amigo; espera-me na casa dêle. Anda, vai; talvez não sejas sempre desditado. Ó possante Orosmade - continuou êle - tu que te serves de mim para consolar êsse homem, de quem te servirás para consolar-me?
Assim falando entregava ao pescador metade de todo o dinheiro que trouxera da Arábia, e o pescador, confuso e maravilhado, lhe beijava os pés e dizia-lhe: - És o meu anjo salvador.
Enquanto isto, Zadig continuava a pedir informações e desfazia-se em lágrimas.
— Como! - exclamou o pescador. - Tu que praticas o bem, serás assim tão desgraçado?
— Cem vêzes mais desgraçado do que tu - respondia Zadig.
— Mas como pode ser - estranhava o homem - que aquêle que dá seja mais digno de lástima do que aquêle que recebe?
— É que a tua maior desgraça - tornou Zadig - era a necessidade; e, quanto a mim, sou desgraçado pelo coração.
— Será que Orcan te roubou a mulher? - indagou o pescador.
Esta frase lembrou a Zadig tôdas as suas aventuras: rememorava a lista de seus infortúnios, desde a cadela da rainha até a chegada ao castelo do ladrão Arbogad.
— Ah! - disse êle. - Orcan merece punição. Mas em geral é essa gente que o destino favorece. Em todo caso, vai ter com Cador, e espera-me.
Separaram-se; pôs-se o pescador a andar abençoando o seu destino e Zadig a correr, amaldiçoando o seu.