Zadig, ou o Destino

Voltaire · Capítulo 16 de 21

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Zadig, ou o Destino

Capítulo XVI. O BASILISCO

XVI. O BASILISCO

 

Chegando a uma bela campina, viu inúmeras mulheres que procuravam afanosamente qualquer coisa. Tomou a liberdade de aproximar-se de uma delas e perguntar-lhe se não poderia ter a honra de auxiliá-las.

— Não faça isto - respondeu-lhe a síria. O que nós procuramos só pode ser tocado por mulheres.

— Eis uma coisa bastante estranha - retrucou Zadig.

— Não seria indiscrição perguntar-lhe que coisa é essa em que só as mulheres podem tocar? - É um basílisco - disse ela.

— Um basilisco senhora? Mas por que motivo procuram um basilisco?

É para o nosso senhor e amo Ogul, cujo castelo se avista à margem dêste rio, ao fundo do prado. Somos as suas humildes escravas; o senhor Ogul está doente; o médico prescreveu-lhe um basilisco cozido em água de rosas, e como é um animal muito raro, que só se deixa apanhar por mulheres, o senhor Ogul prometeu escolher, para espôsa bem amada, aquela dentre nós que lhe levasse um basilisco: deixe-me procurar, por favor, pois bem vê que me sairia muito caro se as minhas companheiras me precedessem.

Zadig deixou aquela e as outras sírias em busca do seu basilisco e continuava a passear pela campina. Chegando à margem de um arroio, ali encontrou outra dama sentada na relva e que não procurava nada. Seu talhe parecia majestoso, mas o rosto achava-se coberto por um véu. Estava inclinada para o arroio, e brotavam-lhe do peito profundos suspiros. Tinha na mão uma varinha, com que traçava caracteres na fina areia da margem. Zadig teve curiosidade de ver o que escrevia aquela mulher. Aproximou-se; viu a letra Z, depois um A; ficou espantado. Depois apareceu um D; êle estremeceu. Jamais houve surprêsa igual à sua quando viu as duas últimas letras de seu nome. Permaneceu algum tempo imóvel; e afinal, rompendo o silêncio com voz entrecortada:

— O generosa dama! perdoai que um estrangeiro, um infeliz, ouse perguntar-vos por que espantosa aventura vejo aqui o nome de Zadig escrito por vossa mão divina. A essa voz, a essas palavras, a dama ergueu o véu com mão trêmula, fitou Zadig, lançou um grito de ternura, de surprêsa e de alegria e, sucumbindo aos diversos sentimentos que lhe assaltavam ao mesmo tempo a alma, tombou desmaiada entre seus braços.

Era a própria Astartéia, era a rainha de Babilônia, era aquela a quem Zadig adorava, e a quem se inculpava de adorar; era aquela a quem tanto havia chorado e por cujo destino tanto receava. Viu-se, um momento, privado do uso dos sentidos; e quando fitou os olhos nos de Astartéia, que se abriam com um langor mesclado de confusão e ternura: - Ó potências divinas! exclamou, - que regeis o destino dos frágeis humanos, então me devolveis Astartéia? Em que tempo, em que lugar, em que estado a revejo!

Lançou-se de joelhos ante Astartéia, tocando com a fronte a poeira de seus pés. A rainha de Babilônia o ergue, e o faz sentar a seu lado, à margem daquele arroio; enxugava por várias vêzes os olhos, cujas lágrimas continuavam sempre a rolar. Encetava, vinte vêzes, frases que os gemidos interrompiam; interrogava-o sôbre o acaso que os reunia e lhe sustava a resposta com outras perguntas. Iniciava a narrativa de seus males, e queria saber os de Zadig. Tendo ambos enfim apaziguado um pouco o tumulto interior, contou-lhe Zadig em poucas palavras por que aventuras se encontrava naquele prado.

— Mas como, ó infeliz e respeitável rainha, vos encontro eu neste remoto lugar, vestida de escrava, e acompanhada de outras mulheres escravas que procuram um basilisco, para o cozinhar em água de rosas, por prescrição médica?

— Enquanto elas procuram o basilisco - disse a bela Astartéia, - vou contar-te o que sofri e tudo o que perdôo ao Céu desde que tornei a ver-te. Sabes que o rei meu marido não levou a bem que fôsses o mais amável dos homens; e, por êsse motivo, decidiu, uma noite, mandar estrangular-te e, a mim, envenenar-me. Sabes como o Céu permitiu que o meu pequeno mudo me avisasse da ordem de Sua Sublime Majestade. O fiel Cador, logo que te obrigou a que me obedecesses e partisses, ousou penetrar alta noite em meus aposentos, por uma passagem secreta. Raptou-me e conduziu-me para o templo de Orosmade, onde o mago, seu irmão, me encerrou numa estátua colossal cuja base toca os alicerces do templo e cuja cabeça atinge a abóbada. Ali fiquei como sepultada, mas atendida pelo mago, e não me faltava nenhuma coisa necessária. Ao raiar do dia, o boticário de Sua Majestade entrou no meu quarto, com uma poção de jusquiana, ópio, cicuta, eléboro negro e acônito; e um outro oficial foi à tua casa com um laço de sêda azul. Não encontraram ninguém. Cador, para me melhor enganar o rei, fingiu vir acusar-nos a ambos. Disse que havias tomado o caminho da Índia e eu o de Mënfis: enviaram satélites no encalço de nós dois.

Os correios que me procuravam não me conheciam, pois eu nunca havia mostrado o meu rosto senão a ti, em presença o por ordem de meu espôso. Correram em minha busca, fiados no retrato que lhes haviam traçado da minha pessoa. Encontraram na fronteira do Egito uma mulher do mesmo corpo que eu, e que talvez tivesse mais encanto. Estava desamparada, errante. Não duvidaram que fôsse a rainha de Babilônia, e conduziram-na a Moabdar. Diante de tal engano, o rei entrou em violenta cólera; mas depois, considerando de mais perto a referida mulher, achou-a bastante linda, e consolou-se. Chamava-se Missuf. Disseram-no, depois, que êsse nome significa, em língua egípcia, a bela caprichosa. Era-o, de fato; mas tinha tanta arte quanto capricho. Agradou a Moabdar. Subjugou-a a ponto de fazer com que fôsse declarada sua espôsa. Seu caráter, então, manifestou-se livremente; entregou-se, sem peias, a tôdas as loucuras da imaginação. Quis obrigar o chefe dos magos, que era velho e gotoso, a dançar diante dela; e, ante a recusa do mago, fêz-lhe violenta perseguição. Mandou o grande escudeiro fazer-lhe uma torta de confeitos. Por mais que o homem alegasse que não era doceiro, foi obrigado a fabricar a torta; e, como a tivesse deixado queimar-se, despacharam-no sumàriamente. Deu o cargo de grande escudeiro ao seu anão, e o de chanceler a um pajem. Foi assim que governou Babilônia. Todos lamentavam a minha falta. O rei, que fôra bastante justo até o momento em que resolveu envenenar-me e estrangular-te, parecia ter afogado as suas virtudes no prodigioso amor que dedicava à bela caprichosa. Compareceu ao templo no grande dia do fogo sagrado. Vi-o implorar os deuses, por Missuf, ao pé da estátua onde me achava encerrada. Elevei a voz; gritei-lhe: Os deuses recusam os votos de um rei que se transformou em tirano e que quis matar uma mulher sensata para desposar uma louca. Tão confuso ficou Moabdar ao ouvir tais palavras, que sua mente se perturbou. O oráculo que eu proferira e a tirania de Missuf bastavam para lhe fazer perder o juízo. Enlouqueceu em poucos dias.

Sua loucura, que se afigurou um castigo do céu, foi o sinal da revolta. Ergueram-se em armas. Babilônia, por tanto tempo mergulhada em ociosa moleza, foi teatro de terrível guerra civil. Retiraram-me do interior de minha estátua e puseram-me à frente de um partido. Cador correu a Mênfis para te reconduzir a Babilônia. O príncipe de Hircânia, cientificado dessas funestas novas, voltou com o seu exército para formar um terceiro partido na Caldéia. Atacou o rei, que correu a seu encontro com a sua extravagante egípcia. Moabdar morreu varado de golpes.

Missuf tombou nas mãos do vencedor. Quis a desgraça que eu também fôsse aprisionada pelas hostes hircanianas e que me conduzissem perante o príncipe ao mesmo tempo em que lhe levavam Missuf. Ficarás sem dúvida lisonjeado de saber que o príncipe me achou mais bela que a egípcia; mas hás de arreliar-te ao saber que êle me destinou ao seu serralho. Disse-me peremptòriamente que, mal terminasse uma expedição que ia executar, viria ter comigo. Imagina qual não foi a minha dor! Meus laços com Moabdar estavam rompidos, eu poderia pertencer a Zadig; e caía nas mãos daquele bárbaro. Respondi-lhe com tôda a altivez que comportavam a minha posição e os meus sentimentos. Sempre ouvira dizer que o Céu concedia às pessoas de minha qualidade uma espécie de grandeza que, com uma palavra ou um olhar, compeliam ao mais profundo respeito os temerários que ousavam infringi-lo. Falei como rainha; mas fui tratada como aia. O hircaniano, sem ao menos se dignar dirigir-me a palavra, disse ao eunuco negro que eu era uma impertinente, mas que me achava linda. Ordenou-me que cuidasse de mim e me submetesse ao regime das favoritas, a fim de me suavizar a cútis e me tornar mais digna de seus favores, no dia era que lhe aprouvesse honrar-me com êles. Disse-lhe que me mataria; replicou a rir que ninguém se matava por isso, que estava acostumado a tais cenas, e deixou-me como um homem que acabasse de meter um papagaio no seu terreiro. Que situação para a primeira rainha do universo e, direi mais, para um coração que pertencia a Zadig!

A estas palavras, Zadig lançou-se aos joelhos de Astartéia e banhou-os de lágrimas. Astartéia ergueu-o carinhosamente, e assim continuou:

Via-me em poder de um bárbaro, e como rival de uma louca, com quem me achava encerrada. Contou-me a sua aventura no Egito. Pelos traços com que te pintava, pelo tempo, polo dromedário que montavas, por tôdas as circunstâncias, compreendi que fôra Zadig quem combatera por ela. Não duvidei que estivesses em Mênfis, e resolvi partir para lá.

— Bela Missuf - disse-lhe então, - és muito mais sedutora do que eu, e saberás divertir o príncipe de Hircânia. Facilita a minha fuga, e reinarás sòzinha; e assim farás a minha felicidade, ao mesmo tempo que te desembaraças de uma rival.

Missuf combinou comigo os preparativos da fuga. Parti, pois, secretamente, com uma escrava egípcia.

Estava perto da Arábia, quando um famoso salteador, chamado Arbogad, me raptou, vendeu-me a mercadores que me trouxeram a êste castelo, de propriedade do senhor Ogul. Este me adquiriu sem saber quem eu era. É um homem voluptuoso, que só procura passar bem e que acredita que Deus o pôs no mundo para banquetear-se. É de uma gordura excessiva, que sempre parece a ponto de sufocá-lo. Seu médico, que pouca fé lhe merece quando êle, Ogul, digere bem, governa-o despòticamente quando apanha uma indigestão. Persuadiu-o que o curaria com uni basilisco cozido em água de rosas, O senhor Ogul prometeu a mão de espôso à escrava sua que lhe conseguisse um basilisco. Bem vês que eu as deixo se esforçarem à vontade por merecerem tal honra, e nunca tive menos desejo de encontrar êsse basilisco do que depois que o Céu permitiu que eu tornasse a ver-te.

Astartéia e Zadig disseram-se, então, tudo o que sentimentos longamente retidos, tudo o que as suas desditas e amores podiam inspirar aos corações mais nobres e mais apaixonados; e os gênios que presidem o amor levaram suas palavras até a esfera de Vênus.

As mulheres se recolheram sem haver encontrado coisa alguma. Zadig fêz-se apresentar a Ogul e falou-lhe nos seguintes têrmos:

— Que a saúde imortal baixe do Céu para tomar a seu cuidado todos os vossos dias! Sou médico; acorri ao saber de vossa doença, e vos trouxe um basilisco cozido em água de rosas. Não que eu pretenda desposar-vos. Só vos peço a liberdade de uma jovem escrava de Babilônia que tendes há alguns dias em vosso poder; e consinto em ficar como escravo no seu lugar, se não tiver a ventura de curar o magnífico senhor Ogul.

A proposta foi aceita. Astartéia partiu para Babilônia - com o criado de Zadig, prometendo enviar-lhe continuamente um correio, a fim de o trazer a par de tudo o que se passasse. A despedida foi tão terna como o reencontro. O momento em que nos tornamos a encontrar e o momento em que nos separamos são as duas maiores épocas da vida, como diz o grande livro do Zenda. Zadig amava a rainha tanto quanto lho jurava, e a rainha amava a Zadig mais do que lho dizia. Entrementes, assim falou Zadig a Ogul:

— Senhor, o meu basilisco não é de comer, tôda a sua virtude deve penetrar em vós pelos poros. Coloquei-o num pequeno odre bem inflado e recoberto de fina pele: é preciso que arremesseis êsse odre com tôda a fôrça e que eu vo-lo rebata inúmeras vêzes; e, em poucos dias de regime vereis o que pode a minha arte.

Ogul, logo no primeiro dia, sentiu-se sem respiração e julgou morrer de fadiga. No segundo, cansou-se menos e dormiu melhor. Em oito dias, recuperou toda a fôrça, saúde leveza e alegria de seus verdes anos.

— Jogastes bola e fostes sóbrio - disse-lhe Zadig. - Sabei, senhor, que não há basilisco na natureza, que sempre nos damos bem com sobriedade e exercício e que a arte de combinar a intemperança com a saúde é uma arte tão quimérica quanto a pedra filosofal, a astrologia judiciária e a teologia dos magos.

O primeiro médico de Ogul, reconhecendo o quanto aquêle homem era perigoso para a medicina, uniu-se com o boticário do corpo para mandar Zadig procurar basiliscos no outro mundo. Assim, depois de ter sido sempre castigado por haver procedido direito, estava na iminência de perecer por haver curado um senhor glutão. Convidaram-no para uma excelente ceia. Deveria ser envenenado no segundo prato; mas recebeu um recado da bela Astartéia durante o primeiro. Retirou-se da mesa e partiu. ’Quando somos amados por uma bela mulher- disse o grande Zoroastro, - sempre nos livramos de dificuldades neste mundo.”