Zadig, ou o Destino
Capítulo XVII. OS COMBATES
XVII. OS COMBATES
A rainha foi recebida em Babilônia com o entusiasmo que sempre inspira uma bela e infeliz princesa. Babilônia parecia agora mais tranqüila. O príncipe de Hircânia fôra morto em combate. Os babilônios, vencedores, declaravam que Astartéia desposaria aquêle a quem escolhessem para soberano. Não queriam que a mais alta posição do mundo, que seria a de marido de Astartéia e de rei da Babilônia, dependesse de intrigas e cabalas. Juravam reconhecer como rei ao mais valente e mais sábio. A algumas léguas da cidade, preparavam uma grande pista cercada de anfiteatros magnificamente ornamentados. Os combatentes deviam comparecer armados de ponto em branco. Cada qual devia ter, por detrás dos anfiteatros, um apartamento separado onde não deveriam ser vistos por ninguém. Haveria quatro jogos preliminares. Aquêles que tivessem a felicidade de vencer quatro cavaleiros deveriam combater em seguida uns contra os outros; de maneira que aquêle que restasse por último senhor do campo seria proclamado campeão dos jogos. Devia voltar quatro dias depois, com as mesmas armas, e decifrar os enigmas propostos pelos magos. Se não os resolvesse, não seria rei, e recomeçariam as justas, até que se encontrasse um homem que fôsse vencedor nas duas competições; pois queriam exclusivamente para rei o mais corajoso e o mais sábio. A rainha, durante todo êsse tempo, deveria ser estritamente guardada: apenas lhe era permitido assistir aos espetáculos coberta com um véu; mas não lhe era concedido falar com nenhum dos pretendentes, a fim de que não houvesse favor nem injustiça.
Eis o que a rainha fazia saber a seu enamorado, esperando que êste demonstrasse, por ela, mais valor e espírito do que ninguém. Zadig partiu, rogou a Vênus que lhe fortalecesse a coragem e esclarecesse o espírito. Chegou à margem do Eufrates na véspera do grande dia. Inscreveu sua divisa entre as dos competidores, ocultando o rosto e o nome, como o ordenava a lei, e foi repousar no apartamento que lhe coubera por sorte. Seu amigo Cador, que voltara a Babilônia depois de o haver procurado inùtilmente pelo Egito, mandou levar-lhe aos aposentos uma armadura completa que lhe enviava a rainha. Mandou-lhe também o mais belo cavalo da Pérsia. Zadig reconheceu o dedo de Astartéia em tais presentes, nos quais sua coragem e amor cobraram novas fôrças e esperanças.
No dia seguinte, alojada a rainha sob um dossel de pedrarias, e cheios os anfiteatros de tôdas as damas e tôdas as ordens de Babilônia, penetraram no circo os lidadores. Cada qual foi depor sua divisa aos pés do grande mago. Tiraram à sorte as divisas; a de Zadig foi a última. O primeiro que avançou era um senhor muito rico, chamado Itobad, vaidoso em demasia, pouco corajoso, muito inábil, e falto de espírito. Seus familiares haviam-no convencido de que um homem como êle devia ser rei, e Itobad lhes replicara: “Um homem como eu deve reinar”. De modo que o haviam armado a preceito. Trazia uma armadura de ouro com esmaltes verdes, um penacho verde, uma lança ornada de fitas verdes. Viu-se logo, pela maneira como Itobad governava o cavalo, que não éra a um homem como êle que o Céu reservara o cetro de Babilônia. O primeiro cavaleiro que o acometeu fêz-lhe perder os estribos; o segundo derribou-o sôbre a anca do cavalo, com as duas pernas para o ar e os braços estendidos. Itobad rergueu-se, mas tão desajeitadamente, que todo o anfiteatro se pôs a rir. Um terceiro não se dignou servir-se da lança; mas, hábil manobra, pegou-o pela perna direita, e fazendo-o dar meia volta, derribou-o na arena; os escudeiros dos jogos acorreram, a rir, e recolocaram-no sôbre a sela. O quarto combatente toma-o da perna esquerda e o faz tombar pelo outro lado. Conduziram-no, abaixo de vaias, para o seu alojamento, onde devia passar a noite, segundo a lei; caminhando a custo, dizia “Que aventura para um homem como eu!”
Os outros cavaleiros tiveram melhor desempenho. Houve alguns que venceram dois cavaleiros sucessivamente; chegaram a três. Apenas o príncipe Otame venceu quatro. Afinal chegou a vez de Zadig; êste desmontou a quatro cavaleiros, com a maior graça possível. Viu-se, pois que a competição se resumiria a Otame e Zadig. O primeiro usava armas azuis e ouro, com um penacho das mesmas côres; as Zadig eram brancas. Todos os votos se dividiam entre o cavaleiro azul e o cavaleiro branco. A rainha, com o com o coração a palpitar, rezava pela côr branca.
Os dois campeões fizeram passes e voltas com tanta agilidade, trocaram tão belos golpes de lança, tão firmes estavam nos estribos, que todos, menos a rainha, desejavam que houvesse dois reis em Babilônia. Enfim, cansados ambos cavalos e rôtas as duas lanças, Zadig usou de um expediente, Passa por trás do príncipe azul, salta-lhe à garupa, toma-o pela cintura, lança-o por terra, monta na sela em seu lugar e caracoleia em tôrno de Otame estendido na arena. Todo anfiteatro brada: “Vitória ao cavaleiro branco!” Otame indignado, ergue-se, puxa da espada; Zadig apeia, de sabre em punho. Ei-los ambos na arena, empenhados em novo combate, em que vencem alternadamente a agilidade e a fôrça. As plumas dos capacetes, os pregos dos braçais, as malhas das armaduras saltam ao longe, sob mil golpes precipitados. Golpeiam de ponta e de fio, à direita, à esquerda, na cabeça, peito; recuam, avançam, medem-se, chocam-se, enlaçam enroscam-se como serpentes, atracam-se como leões; a todo instante saltam chispas dos golpes mùtuamente vibrados. Enfim Zadig, refazendo-se um momento, estaca, faz finta, derruba Otame, desarma-o. E Otame exclama: “Ó cavaleiro branco! és tu que deves reinar em Babilônia”. A rainha estava no auge da alegria. Conduziram o cavaleiro azul o cavaleiro branco a seus respectivos alojamentos, bem a todos os outros, conforme a lei. Mudos vieram servi-los e trazer-lhes alimento. Logo se vê que foi o pequeno mudo da rainha quem atendeu a Zadig. Em seguida, deixaram-nos dormir a sós até o dia seguinte de manhã, quando o vencedor devia levar sua divisa ao grande mago, para conferí-la dar-se a conhecer.
Zadig dormiu bem, apesar de enamorado, tão exausto se achava. Itobad que pousava no alojamento próximo, não pregou ôlho Ergueu-se durante a noite penetrou no quarto do vizinho, tomou as armas, brancas de Zadig, juntamente com a sua divisa, e pôs sua armadura verde no lugar da do outro. Ao amanhecer, compareceu orgulhosamente perante o grande mago, declarando que um homem como êle era o vencedor. Ninguém o esperava; mas foi proclamado como tal enquanto Zadig ainda dormia. Astartéia, surprêsa, e com o dezespêro no coração, regressou a Babilônia. Já estava quase vazio o anfiteatro quando Zadig despertou. Procurou as suas armas, e só encontrou aquela armadura verde. Viu-se obrigado a usá-la, pois não tinha mais nada junto a si. Atônito e indignado, veste-a com furor e avança, em tal equipagem.
Todos os que ainda se achavam no teatro e no circo receberam-no com assuadas. Rodeavam-no; insultavam-no em cara. Jamais homem algum experimentou tão humilhantes mortificações. Perdeu então a paciência; dispersou a golpes de sabre o populacho que ousava ultrajá-lo; mas não sabia que partido tomar. Não podia avistar-se com a rainha; não podia reclamar a armadura branca que esta lhe enviara: seria comprometê-la. Assim, enquanto se achava ela abismada na dor, estava Zadig cheio de furor e inquietação. Passeava êle às margens do Eufrates, persuadido de que a sua estrêla o destinava a ser irremissivelmente infeliz, e repassando no espírito tôdas as suas desgraças, desde a aventura da mulher que odiava os caolhos até a da sua armadura. “Eis em que deu - dizia êle consigo - ter-me acordado tarde; se houvesse dormido menos, seria rei de Babilônia e possuiria Astartéia. As ciências, o caráter, a coragem; só serviram, pois, para meu infortúnio."Escapou-lhe enfim murmurar contra a Providência, e foi tentado a crer que tudo era governado por um destino cruel que oprimia os bons e fazia prosperarem os cavaleiros verdes. Um de seus pesares era carregar aquela armadura verde que lhe atraíra tamanho escárnio.
Vendeu-a barato a um comerciante que passava e comprou-lhe uma túnica e carapuça. Nessa indumentária, passeava à margem do Eufrates, cheio de desespêro, e acusando em segrêdo a Providência, que não deixava de o perseguir.