Zadig, ou o Destino
Capítulo XXI. OS OLHOS AZUIS
XXI. OS OLHOS AZUIS
— O corpo e o coração… - começou o rei. A estas palavras, o babilônio não pôde deixar de interrompê-lo:
— Como lhe sou grato por não haver Sua Majestade dito o espírito e o coração! pois só se ouvem estas palavras nas conversações de Babilônia; não se vê mais que livros a respeito do coração e do espírito, escritos por pessoas que não têm nem uma coisa nem outra; mas tenha a bondade de prosseguir, Sire.
— Nabussan assim continuou:
— O corpo e o coração estão, em mim, destinados a amar; a primeira dessas duas potências tem todos os motivos para se achar satisfeita. Tenho aqui cem mulheres a meu serviço, tôdas belas, complacentas, solícitas, voluptuosas até, ou que o fingem ser comigo. Quanto a meu coração, já não é tão feliz. Por demais tenho visto que agradam muito o rei de Serendib e pouco se importam com Nabussan. Não que eu julgue infiéis as minhas mulheres; mas desejaria encontrar uma alma que fôsse minha; daria por êsse tesouro as cem belezas cujos encantos possuo: vê se podes, dentre as cem sultanas, achar-me uma de quem eu possa ter certeza de ser amado.
Zadig respondeu como no caso dos financistas:
— Deixe tudo a meu cuidado, Sire; mas permita primeiro que eu disponha do que Vossa Majestade expôs na galeria da tentação; dar-lhe-ei conta de tudo e não perderá coisa alguma.
O rei deixou-o como senhor absoluto. Zadig escolheu em Serendib trinta e três pequenos corcundas dos mais feios que pôde achar, trinta e três pajens dos mais belos, e trinta e três bonzos dos mais eloqüentes e dos mais robustos. Concedeu a todos plena liberdade de entrarem nas celas das sultanas. Cada corcundinha ficou com quatro mil moedas de ouro a seu dispor, e logo no primeiro dia todos êles foram felizes. Os pajens, que nada tinham a dar senão a sua própria pessoa, só triunfaram ao fim de dois ou três dias. Os bonzos tiveram um pouco mais de trabalho; mas afinal trinta e três devotas se renderam a êles. O rei, por gelosias que davam para tôdas as celas, viu tôdas essas provas, e maravilhou-se. De suas cem mulheres, noventa e nove sucumbiram às suas próprias vistas.
Restava apenas uma jovem, bastante novinha, de quem Sua Majestade jamais se aproximara. Enviaram-lhe um, dois, três corcundas, que lhe ofereceram até vinte mil moedas; ela foi incorruptível, e não pôde deixar de rir de que aquêles corcundas julgassem que o dinheiro os tornaria mais bem feitos de corpo. Apresentaram-lhe os dois pajens mais belos; ela disse que achava o rei ainda mais belo. Largaram-lhe o mais eloqüente dos bonzos, e em seguida o mais intrépido; ela achou o primeiro um papagaio e não se dignou nem mesmo a suspeitar o mérito do segundo. “O coração é tudo - dizia ela. - Nunca cederei, nem ao ouro de um corcunda, nem às graças de um jovem, nem às seduções de um bonzo; amarei ùnicamente a Nabussan, filho de Nussanab, e esperarei que êle se digne amar-me”. O rei sentiu-se transportado de alegria, de espanto e de ternura. Recolheu todo o dinheiro que causara o sucesso dos corcundas e presenteou-o à bela Falide; era êsse o nome da jovem criatura. Deu-lhe o seu coração: ela bem o merecia. Jamais foi tão viçosa a flor da juventude, jamais tiveram tal sedução os encantos da formosura. Que ela não sabia fazer direito a reverência, é coisa que a verdade histórica não permite calar; mas dançava como as fadas, falava como as sereias e cantava como as graças: era cheia de prendas e virtudes.
Nabussan, amado, adorou-a; mas Falide tinha olhos azuis, e foi isso a fonte das maiores desgraças. Havia uma antiga lei que proibia aos reis amarem uma dessas mulheres que os gregos depois chamaram de boópis. Fazia mais de cinco mil anos que o chefe dos bonzos tinha estabelecido essa lei; fôra com o intuito de se apoderar da amante do primeiro rei da ilha de Serendib que êsse primeiro bonzo introduzira o anátema dos olhos azuis na Constituição do Estado. Tôdas as ordens do império vieram apresentar advertências ao rei. Dizia-se pùblicamente que eram chegados os últimos dias do reino, que a abominação atingira o auge, que tôda a natureza se achava ameaçada de uma catástrofe; que, numa palavra, Nabussan, filho de Nussanab, amava dois grandes olhos azuis. Os corcundas, os financistas, os bonzos e as morenas encheram o reino com suas queixas.
Os povos selvagens que habitam o norte de Serendib aproveitaram-se do descontentamento geral. Fizeram irrupção nos Estados do bom Nabussan. Êste pediu auxílio financeiro aos súditos; os bonzos, que possuíam metade das rendas do Estado, contentaram-se em erguer as mãos ao céu e recusaram-se a metê-las no cofre para ajudar ao rei. Fizeram belas preces com música, e deixaram o Estado à mercê dos bárbaros. -
— Ó meu caro Zadig, será que ainda me tirarás dêste horrível embaraço? - exclamou dolorosamente Nabussan.
— De bom grado - respondeu Zadig. - Vossa Majestade terá dos bonzos todo o dinheiro que quiser. Deixe desguarnecidas as terras onde êles têm os seus castelos, e defenda ùnicamente os de Vossa Majestade.
Nabussan assim fêz; os bonzos vieram lançar-se aos pés do rei e implorar-lhe assistência. O rei respondeu-lhes com uma bela canção, cuja letra era uma prece pela conservação de suas terras. Os bonzos afinal deram dinheiro e o rei acabou a guerra com felicidade. Dêste modo Zadig, com os seus sábios e oportunos conselhos, e pelos grandes serviços que prestava, atraíra a irreconciliável inimizade dos homens mais poderosos do Estado. Os bonzos e as morenas juraram a sua perda; os financistas e os corcundas não mais o pouparam; tornaram-no suspeito ao bom Nabussan. Os serviços prestados ficam muita vez na antecâmara, e as suspeitas entram no gabinete, segundo a sentença de Zoroastro: eram todos os dias novas acusações; a primeira é repelida, a segunda roça a pele, a terceira fere, a quarta mata.
Zadig, intimidado, já que tratara dos negócios de seu amigo Setoc e lhe salvara o dinheiro, não pensou mais senão em partir da ilha, e resolveu ir em pessoa saber notícias de Astartéia. -“Pois - pensava êle - se fico em Serendib, os bonzos me farão empalar; mas aonde ir? Serei escravizado no Egito, queimado, segundo tôdas as aparências, na Arábia, estrangulado em Babilônia. Mas preciso saber o que é feito de Astartéia: partamos, e vejamos o que me reserva o meu triste destino.
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Voltaire