Zadig, ou o Destino
Capítulo XIX. OS ENIGMAS
XIX. OS ENIGMAS
Zadig, fora de si, e como um homem a cujos pés houvesse tombado um raio, caminhava ao acaso. Entrou em Babilônia no dia em que aquêles com quem combatera se achavam já reunidos no vestíbulo do palácio, para decifrar os enigmas e responder às perguntas do grande mago. Todos cavaleiros tinham chegado, exceto o da armadura verde. Logo que Zadig apareceu na cidade, o povo se reuniu em tôrno dêle; os olhos não se saciavam de o ver, as bocas de o abençoar, os corações de desejar-lhe o império. O invejoso o viu passar, estremeceu e desviou-se; o povo o levou até o local da assembléia. A rainha, a quem haviam comunicado a sua vinda, sentia-se agitada de temores e esperanças; a inquietação a devorava: não podia compreender nem como Zadig estava sem armas, nem como Itobad trazia a armadura branca. Á vista de Zadig, elevou-se um confuso murmúrio. Estavam surpresos e encantados de tornar a vê-lo; mas só aos cavaleiros que haviam combatido era permitido ingresso na assembléia.
— Combati como qualquer outro - declarou êle. - Mas alguém está usando aqui as minhas armas; e, enquanto aguardo a honra de o provar, peço licença para apresentar-me no concurso de enigmas.
Puseram a proposta em votação: tão arraigada estava nos espíritos a sua reputação de probidade, que ninguém hesitou em admiti-lo.
O grande mago propõe primeiro a seguinte questão:
— Qual é, de tôdas as coisas do mundo, a mais longa e a mais curta, a mais rápida e a mais lenta, a mais divisível e a mais extensa, a mais negligenciada e a mais irreparávelmente lamentada, que devora tudo o que é pequeno e que vivifica tudo o que é grande?
Cabia a Itobad falar. Respondeu que um homem como êle nada entendia de enigmas e que lhe bastava ter batido os adversários a lançaços. Disseram uns que a chave do enigma era a fortuna, outros a terra, outros a luz. Zadig disse que era o tempo. “Nada é mais longo -acrescentou êle, - pois que é a medida da eternidade; nada é mais curto, pois que falta a todos os nossos projetos; nada mais lento para quem espera; nada mais rápido para quem desfruta a vida; estende-se, em grandeza, até o infinito; divide-se, até o infinito, em pequenez; todos os homens o negligenciam, todos lhe lamentam a perda; nada se faz sem êle, faz esquecer tudo o que é indigno da posteridade, e imortaliza as grandes coisas”. A assembléia deu razão a Zadig.
Perguntaram em seguida: “Qual é a coisa que se recebe sem agradecer, que se desfruta sem saber como, que damos aos outros quando não sabemos onde é que estamos, e que perdemos sem o perceber?”
Cada qual deu a sua explicação. Apenas Zadig adivinhou que se tratava da vida. Resolveu todos os outros enigmas com igual facilidade. Itobad dizia sempre que nada era mais fácil e que êle também o descobriria, se se tivesse dado ao trabalho. Propuseram questões sôbre a justiça, o soberano bem, a arte de reinar. As respostas de Zadig foram julgadas as mais sólidas. “É pena - diziam - que tão bom espírito seja tão mau cavaleiro”.
— Ilustres senhores - declara Zadig, - tive a honra de vencer na liça. É a mim que pertence a armadura branca. O senhor Itobad apoderou-se dela durante o meu sono: com certeza julgou que lhe sentaria mais que a verde… Estou disposto a provar perante todos, com esta túnica e esta espada, contra tôda essa armadura branca que êle me tomou, que fui eu que tive a honra de vencer o bravo Otame.
Itobad aceitou o desafio com a maior confiança. Não duvidava que, estando de capacete, couraça e braçais, fàcilmente venceria a um galã de camisola e barrete de dormir. Zadig puxou da espada, saudando a rainha, que o contemplava cheia de alegria e temor, Itobad puxou a sua, sem saudar ninguém. Avançou para Zadig como homem que nada tivesse a temer. Estava prestes a lhe fender a cabeça. Zadig soube aparar o golpe, opondo o que se chama o forte da espada ao fraco do adversário, de modo que a espada de Itobad se rompeu. Então Zadig enlaçando o inimigo, derrubou-o por terra; e, colocando a ponta da espada na frincha da couraça, disse-lhe: “Deixa-me desarmar-te, ou eu te mato”. Itobad, sempre surprêso das desgraças que aconteciam a um homem como êle, deixou que Zadig lhe tirasse tranqüilamente o magnífico capacete, a soberba couraça, os belos braçais, os brilhantes coxotes. Zadig os vestiu e, assim equipado, correu a lançar-se aos joelhos de Astartéia. Cador provou fàcilmente que a armadura pertencia: a Zadig. Foi proclamado rei por assentimento de todos, e sobretudo de Astartéia, que, após tantas adversidades, gozava da doçura de ver o seu enamorado digno, perante o universo, de ser seu espôso. Itobad foi fazer-se chamar de senhor em sua casa. Zadig foi rei, e rei feliz. Tinha presente ao espírito o que lhe dissera o anjo Jesrad. Lembrava-se até do grão de areia convertido em diamante. A rainha e êle adoraram a Providência Zadig deixou a bela caprichosa, Missuf, correr mundo. Mandou chamar o salteador Arbogad, a quem confiou um honroso pôsto no exército, com a promessa de elevá-lo às mais altas dignidades se se comportasse como legítimo guerreiro, e de o enforcar se se entregasse às atividades de salteador.
Setoc foi chamado dos confins da Arábia, com a bela Almona, para dirigir o comércio babilônio. Cador obteve a posição e estima que mereciam seus serviços; era o amigo do rei; e êste foi o único monarca da terra que teve um amigo. O pequeno mudo não ficou no esquecimento. O pescador ganhou uma bela casa. Orcan foi condenado a pagar-lhe uma grande soma e a devolver-lhe a mulher; mas o pescador, que ganhara juízo só ficou com o dinheiro.
Nem a bela Semira se consolava de haver acreditado que Zadig era caolho, nem Azora cessava de chorar por lhe haver querido cortar o nariz. Zadig abrandou o pesar de ambas com uns bons presentes. O invejoso morreu de raiva e de vexame. O império gozou da paz, da glória e da abundância; foi o mais belo século da terra: era esta governada pela justiça e o amor. Bendiziam a Zadig, e Zadig bendizia ao Céu.