A babá gótica

Adriana Igrejas · Capítulo 3 de 7 · parte 2/4

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A babá gótica

Capítulo 4

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

família! Lourenço sentiu certa nostalgia dos

passeios em família de quando era criança, só que

naquela época, a mulher no banco carona era sua

mãe. Ana não existia e muito menos havia uma

babá gótica. A menina sentou-se no meio, em seu

assento especial para criança, separando os dois

jovens no banco traseiro.

Na saída do condomínio, Ana Beatriz soltou um

gritinho, que ela própria sufocou, que não era de

alegria, mas de susto. Depois virou todo o pescoço

e ficou olhando para trás pelo vidro com olhos bem

arregalados.

− Que foi, Bia? – Lucinda perguntou baixinho,

perto da menina.

Ana Beatriz olhou para frente de novo, mas sua

boca estava aberta em estupor. Piscou várias vezes

e, finalmente decidiu-se a falar. Virou-se para a

babá e falou baixinho, quase sussurrando em

segredo.

− Eu vi sua amiga de novo.

− Minha amiga? – Lucinda perguntou sentindo

o pavor deixá-la gelada ao imaginar do que a

menina falava.

− É, ela vem com você e vai embora com você.

Mas não entra no prédio. Ela fica te esperando...

− Como assim, Bia? Eu venho sozinha... – respondeu também baixo, fingindo ignorância, mas

apavorada ainda com a possibilidade de serem

ouvidas. Olhou para o casal a frente, mas estavam

no meio de outra conversa. Olhou para Lourenço,

mas ele tinha fones nos ouvidos. Ele havia

mencionado algo sobre ouvir a gravação de aulas

da faculdade em áudio. Ele parecia estar se

esforçando para se concentrar, embora seus olhares

se cruzassem todas as vezes que ela olhava em sua

direção.

− Não sei do que você está falando,

amorzinho... – insistiu.

− Então você não vê ela? – falou em tom de

choro.

− Não vejo ninguém.

− Então é outra amiga imaginária! – Ela bufou

frustrada.

− Por quê? Você tem amigos imaginários?

− Tenho. Mas mamãe diz para não falar com eles e não contar pra ninguém...

− Muitos?

− Não sei...

− Ela fala com você? Ela falou com você? – O

tom era preocupado e ainda sussurrado.

− Não, acho que ela não pode. A garganta dela

tá machucada.

Lucinda sentiu as batidas de seu coração

ficarem ainda mais aceleradas.

− Não conta isso pra ninguém, tá?

− Por quê?

− É... sua mãe não disse pra não contar? Então?

– mentiu.

Lucinda forçou-se a controlar seus ânimos para

conseguir desviar o assunto e fazer a menina falar

sobre o zoológico outra vez.

Ao chegar à Quinta da Boa Vista, a suposta

“amiga”, a bruxa imaginária, tinha sido esquecida.

Ana Beatriz estava animada e tinham que segurá-la para que ela não corresse. Lourenço

estava sem jeito e não sabia onde se posicionar em

relação ao grupo. Ora Ana Beatriz segurava a mão

da mãe, ora do pai, ora a dele, ora a da babá. Parece

que ela queria a atenção de todos e também queria

dar atenção a todos. Lourenço se sentia

especialmente sem jeito quando Bia ficava ao

centro, com o pai de um lado e a mãe de outro,

dando a mão aos dois e, portanto, deixando ele e a

babá para trás, lado a lado. Sem dizer nada, mas

sem conseguir evitar as trocas de olhares, sentia-se

estranho e deslocado. A babá parecia mais à

vontade que ele, estava de certa forma a trabalho.

Ela tinha que estar ali, por pedido de Bia e da

família. Ele não.

Novamente Lourenço não conseguia deixar de

se incomodar com os olhares que ela recebia.

Tolerava os olhares divertidos e curiosos, mas

detestava os de desprezo e preconceito. Irônico. Pois não tinha sido ele também capaz de assim

tratá-la? Confuso. Conflitante. Quis torcer o

pescoço de três crianças que riram dela. Virou-se e

fuzilou-as com olhar a ponto de receber em troca

algumas caretas.

Ficou ainda mais irritado, porque estava irritado

consigo mesmo. Por que se sentia assim tão

protetor em relação a ela?

− São crianças. – Ela disse, revelando que tinha

notado a cena.

Ele ficou ainda mais constrangido. O que ia

dizer? Não disse nada.

O zoológico, pela sua extensão, acabou se

revelando divertido e cansativo. Ana Beatriz

cansou-se de andar e teve que ser carregada no

colo. Felizmente havia quatro adultos para se

revezarem nessa empreitada. No entanto, o colo

favorito era o do pai.

− Eu quero ver o hipopota- mo! Cadê o hipopota-mo? – Ana Beatriz dizia a cada animal

pelo qual passavam. Frustrante para todos, porque a

pressa da menina em ver o referido animal

estragava um pouco a apreciação dos outros que

estavam no caminho.

Quando finalmente chegaram ao hipopótamo,

nova frustração: nenhum deles estava à mostra.

Todos submergidos, tendo apenas parte da cabeça

para fora da água.

− Cadê o hipopota-mo? Eu quero ver! Vem cá

hipopota-mo! Vem! – reclamava a menina no colo

do pai, inquieta, tentando se posicionar no melhor

ângulo e esperando por uma aparição completa de

seu animal favorito.

Enquanto esperavam ansiosos pela boa vontade

do animal que queria se comportar como um astro

de Hollywood cheio de vontades e de má vontade,

tiraram fotos. Mas Ana Bia queria uma foto com o

hipopótamo TO-DO! Mas o bicho nada de atender! Esperaram quase meia hora ali e nada! Ana Bia se

cansou e proferiu:

− Mãe, o hipopota-mo não é mais meu bicho

favorito! Ele não gosta de mim! Ele não quer ser

meu amigo! Igual a Clarinha!

− Clarinha, filha? Sua amiguinha da escola?

− Ex-amiga! Não gosto mais dela. Eu falo com

ela e ela não fala comigo! E ela não me dá bala!

− Já te disse que não quero você pegando bala

com ninguém! – ralhou a mãe.

− Igual ao hipopota-mo! – continuou a menina.

− O hipopótamo nunca te negou bala –

comentou Humberto cinicamente, despertando um

sorriso em Lucinda e uma risada em Lourenço.

− Pai! Como você é bobo! O hipo-hipo, ah! –

começou nitidamente cansada de dizer aquele nome

difícil. – Ele não é meu amigo igual à Clarinha!

− Claro que não! O hipopótamo é mais bonito.

Mas acho que a Clarinha deve cheirar melhor... – continuou Humberto com a pilhéria, fazendo a

menina cair na gargalhada.

Todos sorriram e se sentiram felizes com a

risada gostosa da menina.

Prosseguiram a visita aos outros habitantes do

zoológico, consumindo pipoca, algodão doce e

churros, a cada tempo e dependendo do gosto de

cada um. A menina comeu de tudo um pouquinho,

deixando sempre restos, que Humberto devorava

sem nenhum escrúpulo.

O próximo animal que atraiu bastante a atenção

de Ana Beatriz, tão logo conseguiram fazer com

que ela deixasse os brinquedos do parquinho que

por ali havia, foi o elefante.

− Ele é enorme! Olha, mamãe! Olha, papai!

Olha, Enço! Olha, Lucinda! Grandão!

Lourenço limitou-se a continuar mastigando sua

pipoca. Apesar de relativamente divertido, graças

ao bom humor de seu pai e à oportunidade de estar novamente com sua família de uma maneira com

que não ficava há muito tempo, estava cansado e

começava a se perguntar por que tinha resolvido ir

ao passeio. Aí olhava para Lucinda e intuía a

resposta. Mas não havia meio de falar com ela ali...

Mas a tinha observado: ela era muito carinhosa e

atenciosa com sua irmãzinha. Salvou-a três vezes

de cair tropeçando em momentos em que o casal

estava totalmente distraído um com o outro. A

maneira com que falava com ela era calma,

paciente e doce. Doce! Um adjetivo insólito para

ser usado para aquela figura esdrúxula.

− Ai! Que cheiro! – reclamou Analice.

− Não fui eu! – defendeu-se Humberto, com

cara de comédia, sempre sem deixar de perder uma

piada.

A esposa limitou-se a olhar para ele em meia

censura, um olhar que dizia: você não tem jeito!

Por volta de uma da tarde, depois de terem visto tudo que havia para se ver de bichos, resolveram

almoçar num restaurante que ficava na parte central

do Jardim Zoológico. Foi um alívio poderem se

sentar um pouco. Pediram bife com fritas.

Enquanto a comida não vinha, aproveitaram para ir

ao banheiro e conversar.

− Lourenço, se lembra da última vez que veio

aqui? – perguntou Humberto.

− Claro, pai. – Ele respondeu sem entender o

porquê da pergunta. Não queria se lembrar, porque

se lembraria que estavam ali como uma família,

mas outra família: ele, o pai e sua mãe. Não

Analice. E lembrar-se de momentos felizes com a

família despertavam saudades dolorosas.

− Você tinha o quê? Oito anos?

− Sei lá, pai. Acho que é. A gente veio com a

mamãe.

Humberto entendeu então o retraimento do

filho e direcionou a próxima pergunta para Lucinda:

− E você, Lucinda? Veio aqui quando?

− Foi há um tempão... – respondeu com um

sorriso triste. – Acho que eu também tinha oito

anos... Minha mãe também estava viva, como a de

Lourenço – concluiu lançando a ele um olhar de

solidariedade. Só quem já vivenciara a experiência

de perder a mãe tão cedo poderia alcançar com

plenitude o entendimento da dor, da sensação de

perda, da angústia da saudade, da carência daquele

amor tão especial e específico que é praticamente

insubstituível.

Diante dos olhares desconfortáveis e do clima

que se instaurou, a própria Lucinda tentou reverter

o quadro:

− Mas hoje sei que a morte é apenas uma

passagem e minha mãe ainda está viva e vou

encontrá-la um dia.

− Legal, Lucinda. É bom a gente ter fé – comentou Analice.

− A mãe do Lourenço está no céu. A sua

também? – perguntou Ana Beatriz inocentemente.

− Também. Quem sabe as duas até já não são

amigas? – continuou a babá, agora sem nenhum

vestígio de tristeza, o que deixou Lourenço bastante

intrigado, mas ao mesmo tempo irritado com o

comentário.

− A gente não podia mudar de assunto não? –

despejou Lourenço.

− Filho, estou com um novo jogo lá no meu

computador. Acho que você ia gostar – disse

Humberto tentando mudar mesmo o assunto.

− Legal, pai. Quando eu tiver um tempo...

− Posso jogar? – pediu a menina.

− Pode, querida. Mas acho que você não vai

gostar, é jogo de pilotos em aeronaves de guerra

com muitos tiros e...

− Pou, pou, pou! Me ensina a jogar, pai?

− É, Bia, eu...

− Nos filmes da guerra, os pilotos podem pular

pra fora do avião com paraquedas, mas eles não

pulam... – falou fazendo um beicinho de tristeza.

− Acho que ela quer dizer ejetar, pai – ajudou

Lourenço.

− Ah, é isso mesmo, filha. Eles podem ejetar!

− Mas por que eles não ejetam? E morrem?

− São burros! – intercedeu o pai – Deviam

ejetar! Ejetar é muito bom! É um alívio danado! Eu

fui ao banheiro e E-JE-TEI!

− Humberto, pelo amor de Deus! Estamos à

mesa! E olha a Lucinda aí... – censurou Analice,

enquanto Ana Beatriz ria mesmo sem entender

direito e Lourenço e a babá davam sorrisos

discretos.

− A comida ainda não veio e Lucinda já é da

casa! – redarguiu sem nenhum sinal de inibição.

O clima permaneceu divertido e animado durante todo o almoço. Então, Analice aproveitou

para fazer o convite novamente a Lucinda,

conforme seu enteado havia, estranhamente,

sugerido.

− Lucinda, Lourenço disse que você mora num

lugar bem perigoso. Que horas você chega em

casa?

Pega de surpresa, Lucinda lançou um olhar

interrogativo ao rapaz.

− Ah, depende. No mais cedo, quase às dez.

− E que horas você sai de casa para estar lá em

casa às sete? – prosseguiu.

− Às cinco e meia – respondeu tímida.

− Caramba! – exclamou Humberto. Muito

cedo!

− É por causa do trânsito.

− E é perigoso?

Lucinda olhou para Lourenço antes de

responder e sustentou seu olhar. Graças a ele estavam tendo aquela conversa, mas não podia

acreditar que ele realmente estivesse preocupado

com ela.

− Então, eu sei que já tinha te oferecido antes,

mas como Lourenço me disse que você está

morando sozinha, em um quartinho, num lugar

perigoso, temporariamente, eu vou te oferecer de

novo: temos um quarto de empregada. Você já fica

lá de tarde estudando, já usa o quarto, já está

acostumada. Poderia ficar de vez. Danúzia vai para

casa todo dia, nunca usou o quarto. Você

economizaria tempo e dinheiro. E nós todos

ficaríamos mais tranquilos com a sua segurança. O

que acha?

− Eu agradeço, mas... Não sei se posso aceitar...

E eu ia incomodar mais ainda vocês.

− Não é só até o final do ano? Não vai voltar

para a casa de seu pai? Então? Um pouco de

conforto não vai te fazer mal.

Lucinda olhou para Lourenço franzindo os

olhos como quem diz: fofoqueiro! E agora? Como

iria negar? Como se recusava uma gentileza

daquelas?

− Não sei... Eu posso incomodar vocês, às

vezes tenho pesadelos à noite...

− A gente estranha os gritos na primeira noite,

depois acostuma! Todo mundo dorme que nem

pedra lá... – falou Humberto.

− Talvez seu filho não se sinta à vontade com

minha presença permanente... – arriscou. Ela sabia

que entrava num terreno ardiloso, mas eles sabiam

que o rapaz a tinha hostilizado desde o começo.

Lourenço fez cara de indignação.

− A ideia foi minha – defendeu-se. – A ideia foi

minha, tá? Fui eu que falei com eles. Acho um

absurdo, já que você vai continuar como babá da

minha irmã, você morar naquele lugar horrível...

− Lourenço, assim você está sendo rude. Mas a ideia foi dele sim. – Analice confirmou por último.

−Tudo bem, dona Analice. Já me acostumei.

Mas realmente acho que vou incomodar vocês.

− Bobagem! Quando você pode se mudar? –

inquiriu Humberto antes de abocanhar a primeira

garfada da comida que acabara de ser servida.

− É, eu preciso falar com uma pessoa antes. Se

ela disser que tudo bem... Amanhã, eu acho.

− Ótimo. Então está resolvido. Ajudo você com

suas coisas amanhã – declarou Humberto.

Após o almoço, terminaram o tour pelo circuito

do zoológico. Ana Beatriz já tinha perdido todo o

interesse em bichos. Estava cansada, mas queria

passear no parque à volta do zoológico. Queria

brincar na grama. Analice lhe comprou uma bola e

os quatro adultos jogaram com ela. Depois

alugaram uma bicicleta de vários lugares em que

todos, menos Ana Beatriz, pedalaram. A menina

usufruiu do passeio e todos se divertiram bastante.

Em seguida foram para o museu. O Museu

Nacional de História Natural, também conhecido

como museu da Quinta da Boa Vista, possui grande

acervo histórico e científico e constitui atração

turística quase obrigatória a todos que visitam a

Quinta. Pálácio em estilo neoclássico, foi a antiga

morada de Dom João VI, e depois de Dom Pedro I

e Dom Pedro II, quando então era chamado Paço

Imperial de São Cristóvão. Analice queria muito ir

ao museu. Tudo para ela ali era novo e se sentia

quase tão criança quanto a filha. Sua infância em

frente à televisão, vídeo game e posteriormente,

computador, deixou algumas lacunas. E como não

era do Rio de Janeiro, a Quinta não fez parte dela.

Mas Ana Beatriz não queria entrar no museu.

− Que foi, filha? Por que não quer ir?

− É chato!

− Tem uma múmia de verdade! Não quer ver? –

perguntou Lourenço, lembrando-se de que era o que ele achava mais interessante naquele museu em

sua época de menino.

− Não! – gritou a menina em uma atitude típica

de pirraça.

− É, museu é chato mesmo... – comentou

Humberto sem se preocupar em esconder seu

descaso por museus ou qualquer outro tipo de

atividade cultural. Claramente só ia para

acompanhar a esposa.

− Humberto, não tá ajudando!

− Vamos, Bia, vai ser legal! – tentou a babá.

A menina tapou os ouvidos com força.

− Tem muito barulho aqui! Eles estão me

assustando!

− Quem? Que barulho? Museu é um lugar até

bem silencioso. Tem eco – argumentou Analice.

− Minha cabeça! Muito barulho! – gritou e

correu para longe da porta do museu.

Lucinda a seguiu correndo e o resto da família foi atrás. Mas antes que as alcançassem, Lucinda a

ouviu dizer:

− Muitas vozes! Muitos amigos imaginários!

Eles gemem de dor! Não aguento! Lugar velho

sempre tem um monte deles!

Lucinda ficou séria e entendeu o que a menina

dizia melhor que a própria menina. Abraçou-a e a

pegou no colo. Quando a família se aproximou, ela

propôs:

− Ana Beatriz está cansada. Por que vocês não

vão e aproveitam enquanto eu fico com ela ali

embaixo num gramado? Eu forro com a toalha que

trouxe e ela tira um cochilo.

Analice pareceu muito decepcionada. Mas

queria muito ir ao museu e queria o melhor para a

filha. Olhou para trás para o museu, depois para o

marido, para o enteado e para a filha.

− Você quer, filha? Tirar um cochilinho? Fica

com a Lucinda?

A menina assentiu com a cabeça e escondeu o

rosto no ombro da moça.

− Tá, tudo bem. Mas você não queria ir ao

museu, Lucinda?

− Fui muitas vezes em criança, Dona Analice.

Já conheço bem esse museu. Também vou ficar

feliz de descansar.

− Eu fico com elas – declarou Lourenço com

um tom de decisão que não era apenas

oferecimento.

Lucinda queria discutir, dizer que não

precisava, mas viu a teimosia nos olhos do rapaz e,

decidiu que era melhor não se manifestar.

− Tá, tudo bem. Mas qualquer coisa é só ligar!

Vamos, Humberto!

Humberto fez cara de criança pidona, olhando

para os jovens com inveja e, para a esposa em

seguida. Ele com certeza achava uma soneca na

grama bem mais atraente que perambular pelos corredores da história. Desolado diante do olhar

autoritário da esposa, seguiu-a.

Lourenço e Lucinda escolheram um lugar

gramado no parque com uma sombra de árvore e lá,

Lucinda estendeu sua toalha. A menina havia

adormecido em seu colo e ela a deitou gentilmente

sobre a toalha sem despertá-la. Sentou-se do lado

esquerdo e Lourenço, do lado direito. Ficaram em

silêncio por algum tempo, olhando para a menina,

para a grama, para as pessoas ao redor, para o céu e

o brilho do sol. E então olharam um para o outro. A

conexão estabelecida era puro magnetismo, mas

pela delonga se tornaria embaraçosa se não fosse

rompida. Os segundos se estendiam sem que

nenhum dos dois desviasse o olhar e aquilo estava

ficando estranho e sério e... mágico. Contudo, não

havia forças suficientes para quebrar o encanto e

Lucinda bendisse o fato de a menina estar entre eles

ou, ou... se não houvesse o obstáculo e eles estivessem mais próximos...

− Bolsa de couro! É couro mesmo! Artesanato

de primeira! Só vinte reais! – falou alto um

vendedor ambulante que carregava um suporte com

várias bolsas pequenas, em estilo hippie, imitando

couro cru, com alças compridas.

Ele parou em frente a eles estendendo uma das

bolsas, mostrando sua mercadoria, desfazendo o

encanto que os olhos cor de mel e os olhos cor de

céu exerciam uns sobre os outros e quase

acordando Ana Beatriz, que se remexeu em seu

sono.

Lucinda recobrou logo o estado de lucidez e

examinou a bolsa com interesse.

− Vou querer a marrom – declarou retirando o

dinheiro de uma bolsa preta de pano, feia e bem

surrada e, que sem dúvidas, precisava se aposentar.

− Que marrom? São todas pretas! – observou

Lourenço.

− É marrom! – teimou ela como quem defende

uma causa muito importante.

O vendedor parecia não querer tomar partido

sob o risco de perder a venda.

− Isso é preto! – Lourenço insistia, de pé, já

segurando a bolsa.

Lucinda também se levantou indignada e pegou

a bolsa e sacudiu-a perto do rosto do rapaz.

− É marrom. É bonita, olha! – e examinando

melhor... – Não é artesanato... É da China!

− Na China marrom é preto? – questionou

irônico.

− As flores douradas estão criando esse efeito...

− É preta. Moço, diz pra ela: esta bolsa não é

preta?

− Olha, é da cor que vocês quiserem – falou

recolhendo o dinheiro da mão da moça antes que

ela mudasse de ideia e seguindo seu caminho

apressado.

Lucinda olhou para Lourenço, agora divertida,

e começou a rir.

− Que foi? – Ele perguntou com um sorriso.

− Olha só o que você me fez fazer!

− Hein?

− Dei vinte reais por essa bolsa vagabunda! –

Ela reclamou, mas de bom humor.

− Mas eu não...

− É, eu sei!

Não, ela não sabia. Ele também não. Nenhum

dos dois sabia ao certo o que estava acontecendo

entre os dois. Só sabiam que não tinha nada a ver

com uma bolsa marrom ou preta, quando se

sentaram novamente na grama, de costas para Ana

Beatriz, lado a lado.

− Foi câncer de quê? – perguntou de repente,

sem nenhum contexto, mas ela sabia bem do que

ele estava falando. Ambos haviam perdido suas

mães para o câncer. Dividiam uma dor comum, uma perda comum.

− Intestino – respondeu com a voz já falhando,

cheia de emoção. – E a sua?

− Colo de útero.

Ambos abaixaram os olhos em silêncio

respeitoso, cheio de recordações amargas.

− Quer falar sobre isso? – Ela arriscou.

− Não. O que há para se falar? – resmungou

com revolta.

− Não sei...

− Você quer?

− Acho que não... Só o que posso dizer é que...

− É uma droga!

− É. É mesmo uma droga...

− Num minuto ela está lá e é tudo na sua vida e

você nem percebe. Nem dá valor... Nem se dá conta

de como ela é importante... Daí, de repente... ela

está doente e só vive no hospital ou na cama... e

você não pode mais contar com ela. E se dá conta do quanto é mimado, do quanto dependia dela pra

tudo e... – sua voz já falhava e ele não conseguia

mais conter algumas lágrimas que ele ia limpando

com as mãos em movimentos bruscos, que

demonstravam a raiva que tinha de sua fraqueza, de

seu choro – que é um desgraçado egoísta porque

está chateado por ela não poder mais fazer tudo por

você e se sente um inútil porque não pode fazer

nada por ela! – concluiu e engoliu em seco.

Enxugou as lágrimas restantes e olhou para ela

corajosamente, depois de ter aparentemente

chorado e desabafado na frente da babá gótica que

ele tanto desprezava.

Mas encontrou os olhos da menina ainda mais

úmidos que os seus, suas faces borradas pela

maquiagem preta que se dissolvia com as lágrimas.

Além disso, o nariz dela estava vermelho e ela

começou a fungar. Ele pegou uma caixa de lenços

de papel na bolsa grande de criança, com as coisas de Ana Beatriz e, sem aviso ou cerimônia, pôs-se a

enxugar o rosto dela, suas pálpebras, limpando a

maquiagem borrada. Lucinda ficou parada e dócil

enquanto ele gastava quatro lenços de papel em seu

rosto.

Quando terminou, ela ainda tinha lágrimas

contidas para derramar, no entanto seu rosto estava

limpo, sem um pingo de maquiagem. Ele o

observou extático, completamente fascinado.

− Você é linda! – externou o pensamento sem

medir consequências.

Ela sorriu tristemente.

− Quando minha mãe morreu, eu me perdi...

Me perdi totalmente... Fiquei sem rumo... Não tinha

mais em quem me espelhar... Ela é que me fazia ser

uma boa menina... Sem ela, eu não consegui ser... –

As últimas palavras morreram em um soluço e ela

desabou em lágrimas novamente.

E como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, encostou sua cabeça e sufocou seu choro

no peito de Lourenço, que a abraçou e deixou mais

algumas de suas próprias lágrimas rolarem. Assim

ficaram por muitos minutos.

Devagar, aos poucos, com o choro cessando e

envolvidos em uma aura de alívio, foram se

desprendendo um do outro e se afastando. O

embaraço tomou conta de Lucinda, que foi sentar-

se novamente ao lado da menina que dormia.

Lourenço a observou disfarçadamente enquanto ela

refazia a maquiagem com auxílio de um

espelhinho, tirando tudo de que precisava daquela

bolsa de pano. Cobriu-se novamente de preto com a

urgência e desespero de quem se camufla, de quem

faz uma pintura de guerra. Cobria-se como se

quisesse usar uma máscara.

De que ela se escondia? Agora que tinha visto

seu rosto limpo e verdadeiro, duvidava de que fosse

esquecê-lo. Como poderia? Se em vez de uma bruxa, vislumbrara uma fada?

Ao terminar a maquiagem, ela pegou o celular e

pôs fones nos ouvidos para ouvir música,

claramente se distanciando dele e dos momentos de

intimidade que vivenciaram. Aquilo o irritou.

Parecia a reação de uma criança imatura. Num

impulso, ele contornou a árvore, abaixou-se e

roubou dela um dos fones, levando-o

imediatamente ao seu ouvido para ver o que

escutava.

− O que você está...? – disse quase ao mesmo

tempo em que o colocava em seu ouvido e parou

pela surpresa que teve.

Ela olhou para ele desconcertada.

− Mas o quê? Que...? – calou-se para ouvir

mais um pouco e ao decidir que já era o bastante,

devolveu-o para ela e levantou-se.

Lucinda desligou a música e guardou os fones,

ciente de que não iria mais conseguir ouvir música alguma.

− Você é uma fraude! Eu sabia!

− Quê? – perguntou, embora soubesse que ele

se referia à música que ela estava escutando: uma

canção romântica.

− Sertanejo? Sério? Que espécie de roqueira é

você?

− Nunca disse que era roqueira!

− Góticos não ouvem esse tipo de música!

− Eu escuto o que eu quiser! É problema meu!

− É sim, mas...

− Vocês tão brigando de novo? – resmungou

Ana Beatriz acordando.

− Não!!! – gritaram os dois em uníssono.

− Tô com sono... – reclamou.

− Dorme, querida, dorme – consolou Lucinda.

Ana Beatriz resmungou e virou a cabeça para o

outro lado tentando voltar ao seu sono. Lourenço se

sentou novamente do outro lado, pensativo. Aquela garota o intrigava. Música romântica brega?

Pouco depois, Analice e Humberto se

aproximaram em meio a uma de suas inúmeras

discussões tolas:

− A gente aprende em museus!

− Eu não aprendo nada em museus! E para

saber que uma múmia é feia e velha, só precisamos

visitar a sua mãe!

− Deixa a minha mãe em paz, Humberto!

− Isso! Que ela descanse em paz em seu

sarcófago.

− Pô, Humberto! A gente tava falando sobre

aprender...

− É, aprender...

− Para aprender, você tem que esvaziar sua

mente... Se disser que sabe tudo, a...

− Eu esvazio! Eu esvazio todo dia no banheiro!

Eu esvazio toda manhã. Às vezes esvazio de tarde e

de noite!

Analice deu um tapa no ombro do marido e

soltou uma bufada. Ele era incorrigível. Um

pândego. Mas era parte do que ela amava nele.

− Oi, pai. Gostou do museu? – implicou

Lourenço, que conhecia bem o pai e ouvira o final

daquela conversa.

− Tem o cheiro da casa da vó da Bia...

− Chega, Humberto! – reclamou.

− E quem gosta de museu é múmia! Ou seria o

contrário? – continuou.

− Pai! – gritou Ana Beatriz levantando e

estendendo os braços para o pai.

Deu-se por encerrado o passeio e a família

tomou o caminho de casa.

CAPÍTULO 14

 

QUÍMICA EXPLOSIVA

 

semana morando no quarto de empregada do Naquela sexta-feira, Lucinda completava uma

apartamento de seus empregadores. Havia se

mudado no domingo, quando Humberto a trouxera

com suas poucas coisas: uma mochila grande e

duas bolsas de viagem. A senhoria reclamou muito

de não ter sido avisada com antecedência, mas não

pôde fazer nada.

Foi com tremendo alívio que Lucinda deixou

aquele lugar. Sua vida se tornaria bem mais fácil daí por diante. Claro que antes de dar a resposta à

família de Ana Beatriz, ela teve que consultar

Noemi. Se sua amiga dissesse que não era uma boa

ideia, então não seria.

Ana Beatriz não havia mais tocado no assunto

de sua “amiga imaginária” e Lucinda achou que

estava bom daquele jeito.

No momento se debatia com algumas questões

de Química. Odiava Química. Para ela não havia

nada mais incompreensível que aquela matéria.

Conseguia estudar todas as matérias para o ENEM

sozinha, lendo e resolvendo exercícios com

gabarito, mas Química... Olhou para o relógio.

Estava quase na hora. Na hora de ele chegar. Ele só

vinha para casa às sextas e chegava por volta das

15 horas. Ela se odiava por parecer que esperava

aquele momento a semana toda. Três e quinze.

Ouviu o barulho da chave abrindo a porta do

apartamento. Era ele. Depois ouviu o som abafado de vozes dele e de Danúzia, provavelmente na

cozinha.

Levantou-se para ir até lá para pegar um copo d

´água, ou ao menos aquela seria a desculpa. Porque

precisava desesperadamente vê-lo. Ó, céus! Por

quê? Porque estava completamente apaixonada por

ele! Péssimo! Aquilo era péssimo! Ela não podia...

e ele a odiava! Achava-a feia e medonha em seu

disfarce gótico. A razão perdeu aquele round

porque antes que ela pudesse se controlar, seus

passos a tinham tirado do quartinho e conduzido até

a cozinha.

Ela parou olhando para ele e a vontade louca

que teve de abraçá-lo confirmou ao seu âmago

aquilo de que suspeitara há alguns segundos: estava

definitivamente apaixonada. Droga. Mil vezes

droga.

Ele interrompeu o que dizia a Danúzia

imediatamente ao vê-la e os olhos de ambos foram tragados.

− Oi, tudo bem? – Ele a cumprimentou.

− Tudo! E você? – Ela conseguiu responder.

− Tudo! Servida? – Indicando uma jarra com

suco.

Só então ela reparou que ele estava sentado à

mesa da cozinha e que havia um prato de comida

sobre ela. Danúzia tinha servido o que sobrou do

almoço e esquentado para ele no micro-ondas. Ela

estava servindo o suco naquele momento.

− Obrigado, Danúzia.

− De nada, Lourenço. Quer mais alguma coisa?

− Não, obrigado.

− Então vou lá acabar de guardar as roupas que

passei.

E assim que Danúzia passou por ela olhando-a

com estranhamento, ela acordou de sua patetice, de

que estava parada ali, olhando para ele, como uma

adolescente idiota.

− Eu vim pegar um copo d´água – emendou

logo a fim de disfarçar e rezando para que ele não

houvesse notado o rubor em suas faces, que sentia

arder.

Abriu a geladeira e pegou a garrafa d´água.

− Eu deixei para almoçar em casa. – Ele

comentou entre uma garfada e outra.

− Ah. É, a comida da Danúzia é deliciosa –

retrucou, já com o copo cheio d´água em suas

mãos.

− Está estudando?

Nossa! Ele estava puxando assunto! – Ela

pensou.

– É. Um pesadelo: Química.

Ele sorriu.

− Ah, não é tão ruim...

− É sim! Eu não entendo nada! Tenho muita

dificuldade!

− Puxa! Então, acho que é sorte sua eu ser muito bom em Química. – Ele completou com um

sorriso que a fez se sentir derretendo por dentro.

− Como assim?

− Posso ajudar você.

− Ah, não. Que é isso? Você já passa a semana

toda estudando... Tá cansado e... tem suas coisas...

− Deixa eu te ajudar, vai? Tô falando sério. Eu

adoro Química.

− Não posso aceitar...

− Vai lá no seu quarto e pega seu caderno,

livro, apostila, o material e matéria que tiver, lápis,

caneta e coloca na mesa da sala. Quando eu acabar

aqui, vou tomar um banho e te encontro lá.

− Daqui a pouco, tenho que buscar a Bia...

− Nem que seja meia horinha acho que dá para

estudar...

O tom seguro e quase autoritário dele não deu

margem a uma recusa. Demais, ela realmente

precisaria de alguma ajuda em Química.

− Tá – concordou receosa, engolindo o restante

da água até deixar o copo vazio sobre a pia.

Em meia hora ele estava na sala, sentou ao lado

dela à mesa, exalando um gostoso cheiro de

sabonete. Tímida, ela abriu a página do livro e

indicou as questões que não compreendia. Ele

assumiu o controle, pegou um lápis e começou a

resolver as questões, explicando tudo em voz alta.

Lucinda admirou-o ainda mais pela sua

inteligência, clareza de ideias, sagacidade. Ele era

maravilhoso e ela não o merecia. Entendeu as

explicações, acompanhou o raciocínio, apesar de

estar fazendo um esforço enorme para se concentrar

no estudo e não ficar pensando em como os dedos

dele eram longos e pareciam gentis ao segurar o

lápis, ou para não ficar olhando para o rosto dele ou

nenhuma outra parte dele. Oh, como aquilo era

doloroso! A consciência de estar apaixonada a

atingia com força total, assim como a ciência de que era a primeira vez em sua vida. É, tivera muitos

namorados na adolescência, mas nunca sentira nada

parecido com aquilo. Nunca se apaixonara.

Às quatro e trinta, ele encerrou lembrando-a do

horário. Lucinda sobressaltou-se, porque realmente

havia esquecido.

− Não vou com você buscar a Bia, tenho umas

coisas para fazer, mas à noite te levo lá na luz azul

– disse bem-humorado, levantando-se e encerrando

de vez a aula.

Ela devia dizer que não. Que iria sozinha à

noite, que ele não era babá da babá, mas não

conseguiu. Ele era teimoso. E ela não queria

recusar.

− Tá.

 

***

 

Na terceira sexta-feira estudando Química com Lourenço, Lucinda já não achava que a disciplina

era um código secreto criado pelo capeta, mas algo

meramente difícil, mas que ela começava a

entender.

Como acontece sempre que duas pessoas

estudam juntas, elas não só estudam, mas o próprio

estudo as leva a assuntos que naturalmente se

transformam em conversas. E nessa terceira aula,

os dois já se entendiam bem, já tinham falado sobre

suas falecidas mães e de tudo que tinham em

comum por causa disso. Riam juntos e

conversavam como velhos amigos. A moça

descobriu um lado divertido de Lourenço que

lembrava um pouco o talento para o humor que o

pai do rapaz tinha. Ele nunca mais a criticou pela

aparência, nem havia mais nenhum sinal de

hostilidade ou censura. Dessa forma, ela

naturalmente se mostrava dócil e revelava mais de

si mesma a ele.

Ao explicar ligações químicas, Lourenço

animou-se bastante. Começou a fazer desenhos

para explicar. Por um instante foi tomar a caneta

vermelha das mãos de Lucinda para destacar seu

desenho, contudo, nenhum dos dois estava

preparado para aquele contato físico. O leve toque

de sua mão na dela para pegar a caneta acendeu

uma centelha. Sentiram-na ambos e procuraram-se

nos olhos um do outro. Segundos eternos e

agonizantes precederam a decisão de Lourenço de

pular naquele abismo. E ele mergulhou. De cabeça.

Com o pulso e o coração acelerados, largou a

caneta vermelha e estendeu a mão para puxar

Lucinda para si segurando sua nuca com firmeza e

esticando seu próprio pescoço para vencer os

centímetros que separavam seus lábios dos dela.

Suas bocas se encontraram em uma explosão de

suspiros e gemidos que os libertaram de seu desejo

contido e reprimido há dias, semanas ou mais.

Lucinda foi incapaz de lutar contra o que estava

acontecendo e não resistiu quando segurando seu

rosto com as mãos e sem livrá-la do beijo, ele a

puxou para cima com ele, levantando-se ambos ao

mesmo tempo de suas cadeiras, para, em pé, seus

corpos poderem se tocar mais livremente. Lucinda

acariciou-lhe os cabelos da nuca e tocou com as

mãos o peito do rapaz, fraca e sem vontade para

controlar suas mãos e entregando-se ao deleite que

era beijá-lo e ser beijada.

Ele também lhe acariciou os cabelos, o rosto e o

pescoço e aprofundou o beijo. Mas o barulho de

Danúzia vindo da área cantarolando soou para

ambos como o sino da realidade e os fez estacarem

e separarem-se abruptamente e sem fôlego,

atirando-se a suas cadeiras e pegando cada qual um

lápis, numa tentativa quase infantil de parecer que

estavam estudando, quando Danúzia passasse pela

sala. De cabeça baixa e, envergonhados como crianças pegas em traquinagem, esperaram que a

empregada passasse pela sala com uma pilha de

roupa passada nos braços, em direção aos quartos.

Logo que ela se foi, Lourenço olhou para

Lucinda e tomou a palavra:

− Me desculpa. Não sei o que deu em mim.

Eu... Acho que não vou com você à casa da luz azul

hoje... – E assim dizendo, levantou-se de pronto e

fugiu da sala, deixando Lucinda sem saber o que

pensar.

Lourenço entrou em seu quarto como um

vendaval e bateu a porta com força. Estava

perturbado. Estava louco, com certeza. Como

aquilo pôde acontecer? Como e por que ele beijara

a personificação de tudo o que detestava em uma

menina? Detestava? Não sabia de mais nada.

Atônito, foi ao banheiro e lá, olhando no espelho,

viu seu rosto manchado pela maquiagem dela –

borrões pretos. Seus lábios manchados por aquele batom preto... Ele beijara a bruxa! Louco! Idiota!

Odiava-se! Contemplou no reflexo a prova de que

não imaginara, não sonhara. Num ímpeto, pôs-se a

lavar o rosto com sofreguidão, em uma tentativa

psicológica patética de apagar o gesto. O que

Lucinda estaria pensando dele?

Mas ela também o beijou! E... ela ... ela... Ele

sentiu que ela estava tão sem controle quanto ele.

Ela retribuiu o beijo e o agarrou... e suspirou... E só

de lembrar ficou tenso e sentiu a loucura de novo e

a vontade de voltar lá e continuar e explorar toda

aquela insanidade lúcida. E se perder na

embriaguez sóbria daquele sentimento novo e

confuso.

Sim, tinha que, mesmo pesarosamente, admitir

a atração e sua força. E não sabia o que o assustava

mais: o fato de ele se sentir atraído por ela, ou se a

constatação de que era correspondido. Como ela

poderia? Depois de como a tratara?

Secou o rosto, olhou-se novamente no espelho e

respirou fundo para conter seu impulso novo e

primitivo que o empurrava na direção da babá.

Teve que inspirar mais vezes para obrigar-se a ficar

no quarto e colocar as ideias em ordem. Precisava

deixar a razão falar mais alto.

* * *

 

Lucinda ainda estava sentada à mesa de jantar

com o material de estudo espalhado e o rosto com a

maquiagem borrada, fato para o qual ela nem havia

atentado ainda. Não tivera ânimo de se levantar.

Sentia-se violada. Não que ele a tivesse agarrado à

força! Ele apenas começara... Depois, não forçou,

foi natural e estranhamente certo e com um

sentimento de completitude. Ela simplesmente não

pôde resistir. Violada. Com suas barreiras

rompidas, seu escudo abaixado. Diretinho para os

braços dele como se só estivesse esperando por isso...

Levantou-se, juntou tudo e foi se refugiar no

quartinho, temendo que a qualquer momento, ele

reaparecesse e seu mundo rodopiasse novamente.

O que estava acontecendo? É, ela já sabia que

estava apaixonada por ele! Mas e ele? Também

estaria apaixonado por ela? Ele não a desprezava?

Não a achava feia? Não tinha horror a góticas? Só

queria brincar com ela? Pensava enquanto

arrumava seu material de estudo e deixou seus

olhos recaírem sobre o livro de literatura. Lembrou-

se do poema de Olavo Bilac que lera naquela

semana ao estudar sobre o autor – Um beijo.

Foste o beijo melhor da minha vida,

ou talvez o pior...Glória e tormento,

contigo à luz subi do firmamento,

contigo fui pela infernal descida!

 

Era exatamente assim que se sentia.

* * *

 

 

Mais tarde, despedindo-se de Noemi, pouco

antes do horário de sempre e, já desanimada com a

perspectiva de ter de andar e pegar ônibus,

constatou que havia ficado mal acostumada. Noemi

a interpelou na saída:

− Ele não veio com você hoje?

− Ele? – fingiu ignorância.

− É, o rapaz que tem trazido você e esperado lá

fora.

− É, não.

− Vocês brigaram?

− Como assim brigamos? Ele não é meu

namorado!

− Não? É bom mesmo que não! Você sabe que

não pode... Ainda não...

− Eu sei − disse apressadamente, mas sentindo-se terrivelmente culpada e mentirosa.

− Senti uma perturbação em você hoje. É por

causa dele?

− É, bem... Também tem a Ana... Ela a viu. Ela

vê. Tem amigos imaginários...

− É normal em crianças. Mas ela falou com ela?

Não está respeitando o que combinamos?

− Não. Acho que está. Tá tudo bem. Foi só o

susto de saber.

− Mas e o rapaz?

− É o irmão dela.

− Vocês...?

− Eu estou... apaixonada por ele − confessou.

Apesar de ter sentido algo assim, Noemi ainda

se surpreendeu, porque sabia que na situação em

que se encontrava, Lucinda não diria aquilo se não

fosse sério, não fosse verdade ou não tivesse

certeza.

− E ele?

− Não sei.

No mesmo instante, as duas entreolharam-se ao

ouvirem o barulho de carro parando na porta da

casa. Noemi foi até a janela.

− Parece que ele veio te buscar.

Lucinda correu até a janela também, parecendo

que precisava ver para crer. Olhou apenas os

segundos bastantes para confirmar que se tratava

realmente de Lourenço, afastando-se em seguida,

não preparada ainda para um contato visual.

− O que está acontecendo, Lucinda?

− Ele me beijou. Hoje.

− Nossa! Então, acho que vou orar um pouco

mais. E você também deve pedir forças a Deus para

ser forte. Você não pode ficar com esse rapaz. Não

agora.

− Eu sei, Noemi.

E então a campainha tocou. Noemi saiu e abriu

o portão, mas Lucinda estava logo atrás, tensa.

− Boa noite. − Ele cumprimentou a mulher

mais velha, para em seguida olhar para Lucinda,

ansioso.

− Noemi, este é Lourenço. É o irmão de Ana

Beatriz.

Lourenço estendeu a mão, mas Noemi o

abraçou. Depois olhou para ele sorrindo. Ele

retribuiu o sorriso um pouco desconcertado.

− Eeee..., como vai a senhora?

− Bem, bem. Lucinda já estava de saída.

Noemi a abraçou e sussurrou em seu ouvido:

juízo.

Na calçada, já sozinhos, os dois jovens

olhavam-se constrangidos e permaneceram mudos.

Lucinda o seguiu até o carro. Ficaram em silêncio

até chegar ao estacionamento do prédio. Enquanto

tiravam o cinto de segurança, foi que Lucinda

precisou falar:

− Obrigada por ter ido me buscar, mesmo tendo dito que não ia.

− De nada. Não era justo. Foi infantil da minha

parte − falou com a voz embargada e agora

olhando nos olhos dela. Lucinda temeu aqueles

olhos e aquele momento. Temeu ainda mais aquela

proximidade. – Foi infantil da minha parte te beijar

e me trancar no quarto. Coisa de moleque. E eu não

sou moleque. Posso ser jovem, mas sou um

homem.

Lucinda sentia seu coração bater tão forte que

parecia que ia explodir. Não conseguia desprender

o olhar. Mas precisava dizer algo:

− Você não precisa dizer nada...

− Lucinda, você não quer saber por que eu te

beijei?

− Eu...

− Eu passei a tarde pensando numa resposta pra

essa pergunta. Que eu me sinto atraído por você é a

mais óbvia, mas insuficiente. Porque não é só físico... Então, eu tive que admitir pra mim mesmo

que...

Lucinda o fitava em tétrica expectativa.

− Eu estou completamente, irremediavelmente,

inequivocamente, totalmente, inteiramente

apaixonado por você.

Lucinda continuava muda. Estava perplexa,

contudo, enlevada. Feliz. Ele gostava dela? Sua

paixão era correspondida? Como podia ser? Então

eles se beijariam e seriam felizes para sempre? Só

que não. O conto que ela vivia no momento não era

de fadas, era de terror. E não podia arrastá-lo para

aquilo. Como ela continuasse sem palavras,

Lourenço resolveu continuar:

− Se você não disser nada, não me empurrar ou

me bater, eu vou beijar você. De novo. Agora.

Ah, não. Ela tinha que impedi-lo! Mas por falta

de ação ou vontade, não o fez. Lourenço virou-se

no banco e a enlaçou em seus braços. Buscou-lhe os lábios com gentileza e lentidão. Lucinda o

acolheu e o beijou de volta. E os dois iniciaram um

processo de exploração mútua que envolvia lábios,

língua, olfato, toques e aconchego. Somente

quando Lucinda sentiu que se não o impedisse

aquilo evoluiria rapidamente para mais que um

beijo, foi que ela buscou forças sobre-humanas para

empurrá-lo.

− Lourenço... – disse ofegante.

− O quê? − Ele murmurou.

− Não podemos.

Tarde demais − disse com um riso irônico.

− Você não entende. É sério.

Ele respirou fundo a fim de recobrar o

autocontrole e a compostura.

− Tá, tudo bem. Então, você não gosta de mim?

− Não é isso!

− Então você gosta? De mim? Um pouco?

Porque... eu tô louco por você.

Lucinda sentiu-se partida ao meio, pois ele a

lisonjeava e a enchia de contentamento, mas ela

tinha que recusá-lo.

− Ah, Lourenço! Como pode estar apaixonado

por mim? Você me acha horrível!

− Não! Não acho! Achava! Sei lá! Não tem

lógica! O amor não tem lógica!

Lucinda emocionou-se outra vez. Ainda mais.

A palavra amor era ainda mais forte que

apaixonado e a desestruturou emocionalmente.

Deus! Ela ia derreter-se nos braços dele! E

precisava manter a cabeça no lugar!

− Eu só preciso saber se você...

− Eu também estou. − Ela confessou. Não podia

ouvir toda aquela declaração de amor e mentir,

deixando que ele pensasse que não era

correspondido − Apaixonada. Por você.

− Está? – Ele falou em meio a um sorriso. –

Verdade?

− Verdade. Estou. – Ela completou com um

sorriso tímido.

Ele sorriu ainda mais e ia beijá-la novamente,

mas ela o impediu, erguendo a mão direita como

um sinal de pare.

− Não, Lourenço.

− Por que não?

− Não está certo. Eu sou a babá e...

− Ah, por favor. Estamos no século vinte e um!

E você não é exatamente uma pessoa humilde. Está

trabalhando como babá porque quer...

− E isso aqui é um tremendo clichê.

− Não sou o filho do patrão que dá em cima da

empregada, por favor! Acabei de dizer que estou

apaixonado por você.

− O que os seus pais diriam?

− Não sei, não estou preocupado com isso

agora...

− Mas vai...

− Tá, e se não houver problema? Por que está

criando problemas?

− Não posso ficar com você.

− Ótimo, porque não quero ficar com você.

Quero namorar você.

Lucinda tinha de ser muito forte. Acabara de

ouvir palavras ainda mais doces que lhe

provocaram novo enternecimento. Ah, como ela

queria dizer que sim! Sim! Sim!

− Não é o bastante...

− Não vê que estou passando por cima de tudo

para ficar com você?

Lucinda sentiu uma pontada de decepção pelo

que ele disse. Passando por cima de quê? Da

aparência dela, porque a achava feia? De quem ela

era?

− Não sei se me sinto lisonjeada ou ofendida

agora...

− Ah, por favor! Será que dá para superar esse

seu momento [5]Elizabeth Bennet e parar de me

tratar como Sr. Darcy? Sei que te tratei mal no

começo, me desculpa. Era todo o meu orgulho e

preconceito lutando contra o que eu estava sentindo

por você. Nem sei como pode gostar de mim depois

das coisas que disse pra você.

Ela sorriu. Era um sorriso de reconhecimento e

admiração. Ele era incrível. E culto. Que garoto de

dezenove anos conheceria Orgulho e preconceito?

− Eu não tinha pensado nisso. Adoro Orgulho e

preconceito, mas realmente não tinha pensado...

− Então não pense.

E a beijou.

CAPÍTULO 15

 

O FANTASMA

 

levaram um susto tremendo e pararam. A buzina do Mal começaram a se beijar,

carro tocou sozinha, longamente, sem que tivessem

esbarrado nela. E ao mesmo tempo os faróis se

acenderam e o limpador de para-brisas começou a

funcionar.

Lucinda ficou pálida e aterrorizada, abriu a

porta do carro e saiu nervosamente. Lourenço tratou de desligar tudo. No entanto, estava

intrigado. Aquilo fora estranho. Quando tudo

voltou ao normal, ele saiu do carro para ir atrás

dela. Mas então, nova surpresa: o motor do carro

ligou sozinho. Ele voltou ao interior do veículo,

desligou-o e retirou a chave, que trouxe consigo

para o lado de fora. Contornou o carro até estar de

frente para ela.

− O que foi isso?! – falou visivelmente

alterado.

− Por que você acha que eu sei?

− E não sabe? Foi você?

− Como assim fui eu? – respondeu irritada.

− Sei, lá. Você é paranormal? Ou é aquele lance

de bruxa? O latim...

− E você acredita nessas coisas?

− Não! Mas, ISSO foi estranho! − falou

apontando para o carro.

− Então vai aceitar quando eu digo que não podemos ficar juntos?

− Como? Quero dizer..., esse lance aí tem a ver

com a gente?

− Suponho que sim. Se você se aproximar de

mim de novo, essas coisas podem acontecer...

− Que merda! − Agora ele estava nervoso. −

Então você é mesmo bruxa? Ou é um lance tipo

Carrie, a estranha? Que merda é essa?

− Calma! – pediu erguendo as duas mãos –

Calma, Lourenço.

− Vai, fala: o que está acontecendo?

− Não era para ninguém saber! Se eu contar, ela

pode ficar ainda mais chateada...

− Ela? Ela quem? Vamos, fala logo, senão vou

começar a pensar em todos os filmes de terror que

já vi e imaginar coisas...

− Não posso!

− Droga, Lucinda!

− Não dá para você ser racional? Quer dizer, o carro pode ter ligado sozinho, tipo eletrostática ou...

− Nem tenta, você é péssima em Ciências!

− Mas isso quer dizer que você acredita no

sobrenatural?

− Eu não sei. Só sei que eu preciso de uma

explicação!

− Que tal assim: fazemos de conta que não

aconteceu: o incidente do carro e eu e você

também. Nós entramos no apartamento, e eu volto

a ser só a babá, com quem você não precisa nem

falar e você vai ser só o irmão da Bia pra mim... E

nada mais de estudos de Química e nem de... você

sabe.

− Sem chance. Você não pode dizer que

também está apaixonada por mim e me pedir pra

esquecer tudo! Mas eu e você? A gente até pode

resolver depois. Mas o que eu quero saber agora é

de quem você estava falando e o que aconteceu

aqui?

− Ah, meu Deus! – desabafou em um suspiro. –

Lisânia, desculpa, eu vou ter que contar pra ele –

falou com o olhar perdido.

− Lisânia? Com quem você está falando?

Lourenço temeu duas coisas: descobrir que sua

amada era louca ou descobrir que fenômenos

sobrenaturais realmente existiam.

Voltando-se para ele e armando-se de coragem,

ela respirou fundo antes da revelação:

− Você acredita em fantasmas?

− Claro que não. Fantasmas não existem.

− Então..., em espíritos? Almas?

− Você está me assustando – exteriorizou seu

pensamento, porque aquele era o tipo de explicação

que ele temia.

− Se não acredita, nem pode acreditar, não

tenho o que explicar a você, porque não vai

acreditar em mim e vai me achar louca.

− Tá, tudo bem – disse limpando garganta com um pigarro e se endireitando, como que se

preparando para um grande baque. – Vou tentar

manter a mente aberta. Manda ver!

− Tá... É, você se lembra de quando me disse

que me investigou? – Ela disse e esperou que ele

anuísse com a cabeça para continuar. – E você

soube da garota gótica da minha escola que se

suicidou. Pois então... É ela – Lisânia.

− Você está tentando me dizer que essa garota é

um fantasma e estava ou está aqui no momento? –

perguntou com expressão de incredulidade.

− É isso mesmo.

Ele forçou uma risada. Estava nervoso e

assustado e não sabia no que acreditar.

− Isso é loucura!!! Tá. Aí, de repente aquele

lance de eletrostática não está mais parecendo tão

ruim... – disse com certa ironia.

− Sério?! Você estava pronto para acreditar que

sou uma bruxa, mas não pode acreditar em fantasmas?!

− Bruxa em termos... Você podia ter algum

poder psíquico, sei lá... Essas coisas têm estudo

científico...

− Fantasmas também.

− Nunca ouvi falar.

− A física quântica meio que está caminhando

para a comprovação da existência de... espíritos.

− Puxa! Agora você virou a espertinha em

Ciências?

− Lourenço, você me pediu para explicar e eu

estou explicando. Mas se não quer acreditar... –

disse virando as costas e fazendo menção de ir

embora.

O rapaz segurou-a pelo braço, virando-a

novamente para ele.

− Foi mal. É que eu estou tentando processar,

mas esse lance de fantasma é meio apavorante, né?

Então, Lisânia é um fantasma. E ela está aqui, agora?

− Bem, pelo menos estava há alguns minutos...

O carro; lembra?

− Como você pode saber disso? – perguntou

dividido entre a desconfiança e o pavor de aceitar

aquilo como realidade. – Você falou com ela? Você

vê?

− Não. Não posso ver. Noemi vê e me falou.

Ela é médium vidente. É isso que faço na casa dela.

Ela se comunica com Lisânia.

− Ah, então temos que acreditar na palavra de

Noemi... – concluiu cinicamente.

− Olha só! Você não tem que acreditar em mim

ou em Noemi. Eu sou assombrada pelo espírito de

Lisânia. E tenho que fazer algumas vontades dela

ou ela pode... não sei... fazer coisas ruins...

Lourenço queria muito não acreditar, queria

muito pensar em uma explicação lógica para o

Continuar: parte 3 de 4