A babá gótica
Capítulo 4
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Quinta da Boa Vista.
− Então só me confirma, tá? Você
premeditadamente seduziu aquele rapaz para
humilhar e ser cruel com Lisânia? – Ela assentiu
com a cabeça, limpou as lágrimas com o dorso das
mãos e engoliu em seco mostrando-se incapaz de
falar. – E ainda foi contar para ela, para espezinhar
e tripudiar a coitada e ainda espalhou sua conquista
vergonhosa pela escola, para que a humilhação dela
fosse completa? – concluiu de forma seca, mal
acreditando no quanto a estava fazendo sofrer,
justamente magoando-a como vingança pelo quanto
se sentira ferido por aquela verdade.
Em vez do confronto fazê-lo querer perdoá-la e
abraçá-la, mesmo em meio a seu choro de
vergonha, foi crescendo nele uma raiva ao olhar
para ela e imaginá-la em atitudes tão vis. Sentiu-se enjoado e percebeu que naquele momento ele a
desprezava.
Lucinda, de alguma forma, percebeu tudo
aquilo no semblante dele e abriu a porta do carro
num rompante, correndo para longe dele. Ele agiu
imediatamente e foi atrás dela. Alcançou-a e
segurou-lhe os pulsos impedindo-a de fugir-lhe. De
forma bruta e totalmente alterado, ele a sacudiu e a
fez olhar para ele.
− Aonde você vai, hein? – O tom era brusco e a
dor de Lucinda continuava a escorrer-lhe pela face.
Logo vieram soluços e convulsões no corpo que ia
chegando ao limite emocional. A dor estampada de
todas as formas. – Vai fugir da verdade? Vai
continuar me escondendo coisas? Quem é você
afinal? Uma vagabunda?
A resposta dela à ultima palavra do rapaz foi
um tapa que estourou forte e sonoro no rosto dele.
De alguma forma ela conseguira libertar uma de suas mãos para fazê-lo. Ele a soltou de todo e levou
a mão direita ao rosto sentindo a tepidez do golpe
recebido e o choque diante da reação a suas
palavras duras. O que estava fazendo? Ele a odiava
agora? Estava tão confuso...
− Me desculpe... Eu não tinha o direito de
ofender você assim... – tentou.
Lucinda o encarou em um misto de sofrimento
e orgulho.
− Não, você está certo. Eu é que peço desculpas
pelo tapa. Eu sou uma vagabunda. Ou pelo menos
fui. Eu fiz isso tudo que você falou. Eu não valho
nada. Eu mereço ter Lisânia me infernizando! Ela
tem todo o direito! Eu fui uma bruxa, uma
verdadeira vadia sem escrúpulos! Eu agi sem moral
nenhuma, nenhuma consideração com os
sentimentos dos outros! Eu não podia mesmo
querer que um rapaz como você, decente, bacana,
fosse gostar de alguém como eu. Eu não mereço.
− Me conte toda a história – Ele pediu, mais
calmo, mas ainda implacável.
− Não posso – Ela murmurou.
− De novo essa história de não pode? Abre a
boca e começa a falar, vai!
− No dia 12 de dezembro faz dois anos da data
que combinei com ela. Faltam menos de duas
semanas... A partir desse dia te conto tudo o que
quiser. Antes não posso, desculpe. Você descobriu
coisa demais. Já sabe demais. E você já sabe que
pode haver consequências.
Lourenço assentiu com a cabeça. Estava
decepcionado e desolado. O mínimo que ele
merecia era uma explicação. Mas entendia.
Permaneceram em silêncio, um diante do outro,
olhos nos olhos a fitarem mágoa e paixão
ressentida até que o silêncio foi cortado pela voz de
Humberto:
− O que é que está acontecendo aqui?
Os dois olharam assustados, pegos em um
flagrante conspícuo. Ele notou que Lucinda
chorara.
− Vocês estavam brigando?
− Não, Seu Humberto, claro que não. – Lucinda
apressou-se em disfarçar.
− Então por que a garota tava chorando,
Lourenço?
Lourenço pensou por um momento no que
diria. Não podia contar a verdade. Nem meia
verdade. Tudo o que dissesse nesse caminho levaria
a muitas perguntas que não poderia responder, ou
que Lucinda não poderia responder. Era melhor que
carregasse a responsabilidade e mantivesse a
história de que ainda não gostava da garota por ser
gótica.
− É, a culpa é minha. Eu fiz ela chorar. Foi uma
piada sobre góticos.
Lucinda chegou a levantar as sobrancelhas, surpresa com a resposta dele, que ela infelizmente
não poderia desmentir.
− Tá tudo bem, Seu Humberto. Eu é que sou
sensível demais.
− Como assim tá tudo bem? – Ele questionou
indignado, apesar de desconfiar de que havia mais
história ali. – Você continua maltratando a menina?
Eu não te entendo! Uma hora é bacana com ela,
sempre dá carona, mas fica sacaneando a garota por
causa das roupas dela! O que é tem de errado com
você hein, cara? Vê se cresce um pouquinho!
Lourenço abaixou a cabeça e recebeu a bronca
feliz por sua história ter sido aceita, enquanto
Lucinda não sabia o que dizer.
− Seu Humberto, ele não tem culpa. Foi uma
bobagem mesmo...
− Mocinha, não precisa defender esse daí, não.
Isso aí é meu filho e com ele eu me entendo.
As palavras do pai de Ana Beatriz a colocaram em seu lugar e ela tomou até uma distância de três
passos deles para aguardar o fim daquele interlúdio.
− Eu juro que pensei que vocês estavam
namorando! Mas pelo que vejo, continuam
brigando!
Tanto Lucinda quanto Lourenço arregalaram os
olhos ao ouvirem a palavra namorando.
− A não ser que seja uma briga de namorados...
− NÃO!!! – gritaram Lourenço e Lucinda em
uníssono.
− Tá. Então você continua sendo mau para a
nossa babá...
− É, eu não resisto a uma oportunidade de pegar
no pé dela...
− E agora? Como é que coloco um rapaz adulto
de castigo no dia do seu aniversário de vinte anos?
Não é que Lourenço tivesse esquecido o próprio
aniversário, ninguém o faz, mas ele simplesmente
deixara o fato ocupar um lugar secundário em suas prioridades para o dia. Então ouvir seu pai
mencionar a data lhe causou certa estranheza,
porque não estava no clima para festas.
Lucinda sabia e tinha até lhe comprado um
presente. Mais uma razão para ter chorado. Logo
no dia em que pretendera pelo menos dar-lhe um
abraço e um beijo no rosto, haviam criado aquela
situação desagradável para ambos.
− Desculpa, pai.
− Pede desculpas pra ela!
− Desculpa, Lucinda.
− Por nada.
− Então, crianças, vamos subir? – Ele já estava
impaciente. Havia ido lá embaixo, porque o
porteiro interfonara avisando que eles já haviam
entrado, conforme pedira. Então por que não
haviam subido? Pensara que estavam namorando...
Desconfiara... Mas tinha algo mais que no
momento teria que esperar, já que Analice, Ana, Danúzia e uns três amigos de Lourenço esperavam
lá no apartamento com um bolo, algumas bolas e
uma faixa de parabéns. Uma pequena festa
surpresa.
Ao adentrar a sala do apartamento toda no
escuro, que se acendeu com um SURPRESA
gritado pelas vozes presentes, Lourenço realmente
se surpreendeu, porque todos os seus pensamentos
estavam em Lucinda. Não tinha nenhuma
expectativa em relação a seu aniversário.
O que se seguiu foram risadas, abraços, beijos,
presentes, parabéns pra você, bolo e guaraná.
Alguns salgadinhos e docinhos também. Lourenço
se deixou envolver no clima de festa e esqueceu um
pouco sua tristeza e a moça taciturna a um canto,
que mastigava e bebia em silêncio. Ele nem notou
quando ela se retirou, mas quando tudo terminou e
ele se recolheu a seu quarto, achou um embrulho
sobre a cama e um cartão branco, simples, que tinha escrito apenas: Para Lourenço, de Lucinda.
Abriu-o e encontrou um livro sobre fenômenos
sobrenaturais e amores espirituais. Sorriu.
Obviamente ela tinha tido todo um cuidado para
escolhê-lo, havia um significado. E agora, ela o
colocara sobre sua cama com um cartão simples, ao
invés de entrega-lo pessoalmente, porque haviam
brigado.
Começava a folheá-lo quando seu pai entrou no
quarto. Ele se sentou e observou o livro em suas
mãos.
− Presente dela?
− É – respondeu e depois achou que o fez muito
rápido. Era de se esperar que ele soubesse de quem
o pai falava?
− O bolo tava gostoso? – perguntou o pai.
− Nossa! Uma delícia! Era bolo mesmo, né?
Não era daquelas tortas compradas feitas... – Ele
observou com sinceridade.
− Sim, era um bolo caseiro! Analice ia comprar
uma torta, mas ela insistiu em fazer o bolo para
você... Disse que...
− Puxa! Danúzia não precisava fazer isso! Ela
se superou... – disse lembrando que os bolos de
Danúzia não costumavam ser tão bons.
− Danúzia não, Lucinda!
− Lucinda fez o bolo? – perguntou incrédulo.
Sentiu-se tão mal. Ela lhe comprara um presente
especial e dedicara seu tempo a fazer um bolo para
ele. E o que recebeu em troca? Ele a ofendeu e a
fez chorar.
− É, ela insistiu dizendo que era boa boleira,
que costumava fazer bolos com sua mãe, quando
ela era viva. Passou parte da manhã e a tarde toda
fazendo para que estivesse pronto e escondido
quando você chegasse da faculdade. E acho que ela
colocou um ingrediente especial...
− Ingrediente especial? – perguntou numa risada cínica.
− Amor.
− Pai, que conversa é essa?
− Vocês dois acham que estão enganando
alguém?
Droga. Lourenço não contava com aquilo.
Claro, eles eram adultos mais velhos e experientes,
deviam identificar sinais... Os jovens sempre
subestimam os mais velhos... Ele se levantou e se
esticou, passou a mão pelos cabelos. Continuar
negando? Seu pai não era bobo. Então, o quanto ele
iria revelar?
− Nós não estamos namorando – iniciou e viu
uma cara cínica em seu pai. – Mas eu gosto dela e
ela gosta de mim.
− Então por que não estão namorando? Ou
ficando, sei lá... Ou estão? Não me diga que é por
causa da situação dela como babá aqui em casa...
− Em parte. Lucinda não acha apropriado enquanto está trabalhando aqui...
− E o que foi aquilo que eu vi hoje? Vocês
brigaram, né? Não foi piadinha de gótico!
− Não, não foi. Eu é que fiquei com ciúmes por
causa de um ex-namorado dela... Perdi a cabeça...
− Caramba! Puxa, filho! Deve estar mesmo
apaixonado! Mas você viu os dois juntos?
− Não, pai. Eu só soube que ela teve esse cara e
surtei.
− Você não pode ter ciúmes do que já passou...
Ela não tem culpa de ter namorado outras pessoas
antes... Já pensou se ela ficasse de paranoia com
todas as suas ex?
− Eu sei, mas é mais forte que eu – disse
sentando-se novamente ao lado do pai que lhe deu
um tapinha de camaradagem nas costas.
− Vocês vão conversar e se acertar. Diálogo é
muito importante. Eu e Analice nos damos tão bem,
porque conversamos sobre tudo. Não pode haver segredos.
− Foi isso que não deu certo com a mamãe?
− Talvez. Nós não tínhamos muita facilidade
para falar um com o outro... Talvez simplesmente
não fôssemos certos um para o outro, quem pode
saber?
− E como se sabe?
− A gente só sabe que não dá para ficar sem
aquela pessoa.
Lourenço pensou muito a sério. O assunto era
sério e, com seu pai, o que era bem estranho,
considerando que ele era um gaiato e dificilmente
conseguia manter uma conversa por tanto tempo
sem fazer nenhuma piada. É, ele ainda queria ficar
com ela, pelo menos no momento estava sendo
insuportável ficar sem ela.
− Por que você não vai lá e dá uma batidinha na
porta dela e vê se ela te perdoa?
− Tá tarde. Não acho que seja uma boa ideia.
Eu ainda tô com raiva.
− Então fala com ela amanhã, chama pra ir ao
cinema, ao teatro ou... ao cemitério, sei lá... – falou
com sua típica seriedade cômica. Estava
demorando. Lourenço riu e Humberto se despediu
dele.
− Feliz aniversário, filho. Boa noite.
− Boa noite, pai. Obrigado.
CAPÍTULO 20
DUAS SEMANAS
Lucinda e, talvez pedir desculpas pra valer... Tinha Lourenço estava determinado a falar com
perdido a linha e por isso nem chegara a tocar no
assunto dos sonhos de Regis, que era do que ele
queria falar com ela. Qual foi sua surpresa ao saber
que Lucinda saíra de manhã cedo. Tinha deixado
um bilhete dizendo que ia passar o dia fora.
Visivelmente queria fugir dele. Passou um dia
terrível tentando imaginar para onde ela teria ido.
Sabia que ela não tinha para onde ir, não tinha amigos e não voltaria para a casa do pai. Então,
para onde?
Ele ligou e mandou mensagens de texto. As
ligações iam para a caixa postal. As mensagens
ficaram sem resposta.
− Você deixou minha babá triste?
Lourenço teve um sobressalto ao escutar a
vozinha doce de sua irmã dentro de seu quarto. Ela
normalmente entrava sem cerimônia, mas com
Lucinda sempre por perto, ele passara à segunda
opção de companhia para ela.
− Por que você tá dizendo isso?
− Ontem na festa ela tava triste. Quando me deu
boa noite na cama tava com uma voz desanimada...
Ela nem fez a voz do Punzinho me dando boa
noite... – choramingou.
− Punzinho? – perguntou mal segurando o riso.
− O que é isso? Voz de punzinho?
− Punzinho é o meu ursinho... Ela faz uma voz engraçada pra ele...
− Pera aí, deu o nome de Punzinho pro seu
ursinho? – perguntou incrédulo.
− Foi ideia do papai...
− Ah, isso faz bastante sentido.
− Você não me dá boa noite no quarto, por isso
não conhece o Punzinho... Eu vou buscar... –
anunciou antes que ele tivesse tempo de dizer que
não precisava, que ele não fazia questão de
conhecer nenhum pum ou punzinho...
Em segundos ela estava de volta com um urso
azul e peludo e o colocou no colo do irmão.
− Aperta ele! – Ela pediu.
− Não, eu não...
− Aperta ele...
− Não, não tô a fim de apertar... – acabou
revelando com certo mau humor.
− É pra você entender o nome...
− Não precisa, você pode me explicar... – disse se arrependendo logo, pois explicação de criança
podia ser longa ou confusa e ele agora não teria
outra opção que não fosse prestar a atenção.
− Quando a gente aperta, ele faz um barulhinho
de peidinho... um punzinho saindo... assim:
puffffffffffffff.... – imitou com a boquinha, o que
parecia ser ar saindo sob pressão.
− Sei. – Ele disse de bom humor e sem querer
acabou apertando o urso que liberou um barulhinho
bem mais fiel que o que a irmã produziu com a
boca. O urso parecia recheado de algo mais que
estopa, algo gelatinoso e indeterminado.
Ambos caíram na risada.
− E como é a voz do Punzinho que a Lucinda
faz?
− Ah, não sei imitar... Eu vou pedir pra ela
fazer pra você...
− Eu não perderia isso por nada... – disse rindo
novamente.
* * *
Lucinda chegou ao apartamento bem tarde. Já
passava da meia-noite e esperava que Lourenço já
tivesse ido dormir. Lamentava por Bia, mas era
final de semana e ela estava de folga. A mãe a
colocaria para dormir. Ela tinha a chave, então
esperava não incomodar ninguém.
Encontrou a sala numa penumbra, iluminada
apenas pelo abajur. Analice estava lá. Dormia no
sofá. Lucinda ficou surpresa. Esperava talvez por
Lourenço a esperando para novo confronto, mas
não por sua patroa. Ela fizera algo errado?
Esquecera de algum remédio? Lourenço teria dito
alguma coisa a ela sobre seu passado? Iria despedi-
la? Oh, pelos céus, que não fosse isso, senão teria
que arrumar outra criança e recomeçar novo ciclo
de seis meses!
Havia passado o sábado com Noemi e outros
companheiros dela visitando asilos e levando
conforto espiritual a idosos. Conversavam com
eles, escutavam suas histórias, liam para eles e,
quando eles se mostravam receptivos, falavam
sobre o que podia esperá-los além da vida na Terra.
Lucinda gostou tanto, que queria repetir o
programa e fazer outros do tipo. A caridade podia
ser um bálsamo na alma de alguém que carregava
tanta culpa. Aliviava de verdade. Tirava um pouco
o peso. Era como pagar parcelas de uma dívida e
enxergar uma previsão de quitação, mesmo que a
longo prazo. Depois do asilo, ficara o restante do
tempo em longas conversas com Noemi sobre
coisas dos espíritos.
No domingo iria trabalhar como voluntária na
cozinha de um centro de reabilitação para
dependentes químicos. Como adorava fazer bolos,
já estava encarregada de fazer alguns. Sentia-se melhor, renovada e pronta para continuar seu
resgate, mas encontrar Analice na sala esperando
por ela a deixou nervosa e receosa. Hesitou na
decisão de se deveria acordá-la, mas a mulher se
remexeu e abriu os olhos. O barulho de sua
chegada havia sido suficiente para despertá-la.
Analice sentou-se e inspirou longamente.
Esticou os braços e esfregou os olhos.
Lucinda olhava para ela ansiosa e inerte.
− Puxa! Chegou tarde. – A mulher mais
experiente comentou suavemente sem nenhum
toque de censura na voz.
− Desculpa. Não sabia que ia incomodar...
− Não, imagine. É que eu queria conversar com
você a sós, então achei que seria uma boa
oportunidade, já que os meninos estão dormindo e
Ana também. Só não contava de você chegar tão
tarde...
− Conversar comigo? – Lucinda era pura apreensão.
− Senta aí um pouquinho.
− Tá – concordou Lucinda temerosa. Sentou-se
com sua bolsa no colo como se fosse um escudo.
− Amanhã é domingo, né? Então, Humberto
tem uma ótima qualidade como marido, sabia? Ele
me conta tudo. Não deixamos de falar nada um pro
outro. Seja a respeito de nós ou de outras pessoas...
Não posso dizer que seja fofoca... Mas, bem, ele é
até um pouco fofoqueiro... Digamos mesmo que
seja fofoca... Mas é com boa intenção...
Lucinda permaneceu quieta e aguardava que
sua interlocutora dissesse logo o que tinha para
dizer, que suspeitava que envolveria Lourenço e o
flagrante que Seu Humberto havia lhes dado.
− Bem, o fato é que sabemos que você e o
Lourenço estão... bem, que vocês estão... como
vamos dizer? Apaixonados?
Lucinda segurou seu impulso de pular do assento, bombardeada pela surpresa daquelas
palavras. Como ela sabia? Ele teria contado?
− Dona Analice, quem foi que...?
− Pelo menos Lourenço admitiu que está. Pelo
que observamos, você também gosta dele, mas se
vai negar...
Lucinda suspirou e fez cara de choro. Aquilo
estava realmente acontecendo?
− A senhora desaprova? – acabou perguntando.
− Desaprovar? – bufou em indignação bem-
humorada. – Quem sou eu para aprovar ou
desaprovar o relacionamento amoroso de alguém?
Lourenço nem é meu filho! Não tenho idade para
ter um filho de vinte anos... Apesar de eu
considerá-lo como se fosse...
− Então se não desaprova... o que a senhora...?
− Pode parecer estranho, mas só o que me
preocupa é como isso vai ou pode afetar seu
trabalho como babá. Se vai afetar o seu relacionamento com Ana Beatriz.
− Nós não estamos juntos. Nem vamos ficar
enquanto eu for babá da Ana Beatriz. Também não
sei se vamos ficar juntos algum dia...
− Por quê? Quer dizer, até acho legal a sua
preocupação profissional e tal, mas se vocês estão
se gostando, ficar esperando...
− Só faltam duas semanas. E eu já encontrei
uma substituta. Queria até combinar com a senhora
para ela vir aqui e falar...
− Meu Deus! Já? Passou tão rápido! Ah, você
não pode mesmo continuar? Não é justo! Ana gosta
tanto de você...
− Não vou sumir. Vou visitá-la regularmente
até ela se acostumar com a nova babá.
− Ah, não me conformo...
− Por mais que eu quisesse ficar, preciso seguir
minha vida. Eu fui muito bem nas provas que fiz
até agora. Acho que tenho boas chances no ENEM. Vou estudar no ano que vem, não vou poder
trabalhar como babá...
− Eu sei, querida. Você me deixou isso bem
claro quando começamos. Mesmo assim, não me
conformo. E se eu não gostar da nova babá?
− Tenho certeza que a senhora vai gostar... –
disse sorrindo com uma certeza que parecia vir da
alma, tanta que Analice momentaneamente se
convenceu.
− Mas voltando a você e Lourenço...
− Não existe Lourenço e eu. E depois de ontem,
não acho que vai existir...
− Humberto me contou que vocês tiveram uma
briga... Mas desde que vocês se conheceram só vi
terem brigas... O que é que há? Afinal, se Lourenço
que odiava sua aparência gótica passou por cima de
tudo e admitiu que gosta de você, deve ser um
sentimento bem poderoso. Porque ele é um garoto
bem teimoso. E nunca soube dele estar apaixonado por ninguém.
− Ele não me conhecia direito e acho que não
conhece ainda... Ele acha que está apaixonado, mas
quando viu um pouco de como eu sou de verdade,
ele não gostou...
− Está falando da briga de ontem? Por causa de
um garoto que você namorou?
− É. Ele não gostou de quem eu fui e quem eu
namorei... Acho que não gosta mais de mim... –
suspirou. – Puxa! É tão estranho ter essa conversa
com a senhora!
− É uma conversa de mulheres... – falou em
tom de cumplicidade e deu uma piscadinha.
− Mas que a senhora vai relatar pro seu
marido... Disse que contam um pro outro...
− É, não dá pra evitar...
− A senhora não precisa se preocupar. Não vai
ter nada entre a gente.
− Não é isso que eu quero. Quero o que for melhor pra vocês. Então, a pergunta é: o quanto
você gosta do meu enteado?
Lucinda refletiu um pouco antes de responder.
− Gosto o suficiente para saber que não sou a
garota certa pra ele. Ele merece mais.
Analice olhou para a menina tentando ler nas
entrelinhas. Ela não queria ficar com ele e aquilo
era uma desculpa ou ela realmente tinha a
autoestima baixa e não se achava à altura dele?
Contudo, foi o brilho que viu refletido naqueles
olhos azuis, mesmo na penumbra que lhe deu a
resposta: sim, ela gostava dele. Muito. Sim, ela o
amava. Mas por alguma razão, sacrificava o amor
ao que achava que era certo. Incrível.
− Acho que isso é ele quem deve decidir...
Vamos esperar essas duas semanas então. E ver o
que acontece?
Lucinda concordou com a cabeça. Os olhos já
úmidos. Despediram-se e foram se deitar.
* * *
Lourenço não ficou exatamente surpreso
quando excepcionalmente acordou às seis da
manhã em pleno domingo e viu que Lucinda já não
estava mais no apartamento. Levantara
extremamente cedo na esperança de falar com
Lucinda antes que ela pudesse sair, fugindo dele de
novo. Pelo jeito, ela se esforçara bastante nesse
sentido. A que horas teria saído? Cinco e meia?
Cinco? Pegou o celular e enviou uma mensagem
zangada: Você está fugindo de mim! Antes das seis
num domingo? Sério isso? Covarde!
Surpreso ele ficou por ela responder: Nos
falamos em duas semanas.
Ficou tão irritado que sua vontade era jogar o
celular longe ou dar um murro na parede. Não fez
uma coisa nem outra. Voltou para cama e, inacreditavelmente, conseguiu voltar a dormir.
Teve, entretanto sonhos estranhos com Lucinda,
Lisânia, Regis e a mãe de Lisânia. Estranhos,
porque nunca viu nada além de uma foto de
Lisânia, mas ela estava extraordinariamente nítida
no sonho, bem definida e caracterizada. E nunca
vira a mãe dela, mas esta também estava no sonho
de forma bastante vívida.
O sonho foi confuso e angustiante. Nele todos
sofriam. Lisânia chorava pedindo ajuda. Ela estava
num vale escuro e tudo parecia preto, branco e
cinza. Havia outras pessoas lá. Mas eram espectros
de gente. Seus rostos eram distorcidos como numa
pintura expressionista. Elas gemiam de dor e se
arrastavam em vez de andar. Pareciam também
pedir ajuda, embora suas vozes fossem mais uivos e
quase não se distinguissem as palavras.
Ele conseguiu ver que alguns deles
repetidamente reviviam o que pareciam ser suas mortes. Alguns pareciam injetar drogas, em si
mesmos, continuamente. Mostravam o rosto de
gozo e depois de pavor. Outros fumavam
desesperadamente e seus cigarros se consumiam
em velocidade espantosa. Viu alguns atirarem em
suas próprias cabeças ou em suas bocas... Havia
também os que cortavam os pulsos... Puxavam
cordas ao redor de seus pescoços ou pulavam para
o que parecia um abismo, mas logo estavam de
volta pulando de novo. E mais uma infinidade de
cenas igualmente pavorosas e dignas de pena. E
Lisânia se injetava drogas e tinha uma corda de
enforcado ao pescoço.
Ouvia vozes horrendas e gritos infernais.
Lourenço podia sentir, de certa forma, o
padecimento daquelas criaturas. Elas ansiavam pela
morte, pelo nada, que traria o fim e assim o cessar
de seus sofrimentos. Mas enganaram-se em vida e
continuavam a enganar-se achando que poderiam por termo ao pesar que sentiam, que findariam
aquilo. A morte não existia e enquanto aqueles
seres não se livrassem do peso e angústia que os fez
escolher aquele caminho, fosse consciente ou não,
vicioso ou não, não conseguiriam prosseguir e
viver...
Lourenço não fazia parte do lugar, mas andava
por ele como um visitante que não podia ser
afetado pelo estado depressivo e nociceptivo.
Lucinda não estava lá, embora a tivesse visto junto
a Lisânia algumas vezes, como se a defunta a
atraísse para ali, quisesse que ela estivesse ali com
ela, partilhando sua dor. Mas ela não pertencia ao
local e as imagens dela ali eram difusas e
translúcidas. Regis aparecia e desaparecia, assim
como Delvina, a mãe de Lisânia. Suas imagens
eram foscas e esmaecidas e ele podia ver uma
espécie de cordão que saía de suas silhuetas e se
estendia a perder de vista ligando-os a alguma coisa... Lourenço não tinha ideia do quê.
Apesar de ter sentido a dor de Lucinda, ela não
era nada comparada ao que carregavam Regis e
Delvina. A pior de todas era a da própria Lisânia,
que ao contrário das outras almas, já tinha
consciência do que lhe acontecera e do que era tudo
aquilo. Sem entender como, Lourenço se sentiu
conectado a ela. Ela lhe disse, sem usar palavras,
que aquele lugar era o Vale dos Suicidas. Ele
entendeu que ela estava parte presa àquele lugar e
parte amarrada ao mundo material e às pessoas que
tinham responsabilidade por sua morte. E ela lhe
pediu ajuda. Como? Como poderia ajudá-la?
Acordou assustado e com falta de ar. Inspirou
lentamente para normalizar sua respiração. Nunca
em toda a sua vida, tivera um pesadelo como
aquele... O problema é que não parecia ter sido
apenas um pesadelo. Tinha sido real. Viu as horas no celular, dez e vinte. Tinha dormido bastante.
Levantou-se e preparou-se para o café rapidamente.
Surgiu na sala com a mesma cara com que
acordara.
− Que cara é essa? Viu fantasma? – Humberto
perguntou brincando, sem largar o jornal que lia.
Lourenço apenas ergueu as sobrancelhas
constatando a ironia na pergunta do pai.
Analice estava usando o computador no
escritório e Ana Beatriz brincava montando
pecinhas de lego no tapete da sala. A tevê estava
ligada, embora ninguém prestasse atenção a ela.
O rapaz percebeu que a mesa do café já havia
sido tirada.
− Vou tomar café na cozinha – anunciou.
Passou o dia dividido entre estudar, com
dificuldade de concentração, e pensar no mistério
que era toda aquela história fantástica que envolvia
a babá.
À tarde, seu pai, a irmã e Analice foram a uma
festa de aniversário de criança de uma das
coleguinhas de Ana Beatriz. Ele ficou em casa
ainda tomado por todo o seu tumulto emocional.
Voltaram por volta das dez e meia. Ana Beatriz
chegou dormindo no colo do pai. Todos tinham
aquele cansaço que só pais que têm crianças
pequenas conseguem entender. Logo o apartamento
mergulhou novamente no silêncio. Lourenço não
foi para cama. Sabia que ela chegaria tarde para
evitá-lo novamente. Dessa vez a esperaria em seu
quartinho. Não tinha como fugir.
− Com licença, Lisânia. Sei que você fica por
aqui... Mas como você invadiu meus sonhos e me
pediu ajuda, acho que tenho o direito de invadir
aqui um pouquinho... Só não sei como vou poder
ajudar você... Pelo que vi, você tá bem ferrada... –
disse meio cínico. − Mas se ajudar você, vai ajudar
Lucinda de alguma forma, eu topo. O que eu posso fazer para começar?
Involuntariamente seus olhos foram atraídos
para um livrinho de bolso, de capa branca, com o
título: Coletânea de preces. Lourenço tomou-o nas
mãos e entendendo que era isso mesmo que ela
queria, começou a rezar.
* * *
Quando Lucinda abriu a porta do quartinho,
exausta, mas feliz e aliviada pela dádiva de poder
fazer trabalho voluntário e ter sido a última a ir
embora e ter trabalhado arduamente até não sentir
mais suas pernas, deparou-se com uma cena
extravagante: Lourenço, de short e camiseta,
dormindo em sua cama. Em seu peito o livrinho de
orações que Noemi lhe dera.
Sua vontade era gritar com ele. Assustá-lo para
que caísse da cama. Sacudi-lo e derrubá-lo. Que raiva! Que disparate! Em seu quarto! Se fizera de
tudo para evitá-lo no final de semana e ele sabia
bem disso, ir esperá-la ali era golpe baixo!
Mentalmente pediu desculpas a Lisânia por
aquilo. Abaixou-se e mexeu em seu ombro para
acordá-lo.
− Lourenço, acorda. Você está no meu quarto.
Ele abriu os olhos e sorriu para ela.
Espreguiçou-se e se sentou sobre a cama.
− Precisamos conversar, senta aqui.
− Daqui a duas semanas, Lourenço. – Ela
insistiu sem se mexer.
− Senta aqui. Por favor. É importante.
Ela sentiu sinceridade e largou a bolsa no chão
e se sentou ao lado dele.
− Primeiro preciso te pedir perdão. Eu fiquei
com raiva e fui cruel com você.
− Desculpas aceitas. Eu mereci ouvir o que
ouvi.
− Não sou eu quem tem que te julgar. E... o que
eu tinha que te dizer era que o Regis também tem
sonhos com Lisânia. E parece que a mãe dela
também. E agora, aparentemente, eu também.
Lucinda virou todo o corpo e o rosto para
encará-lo na mais perfeita perplexidade.
− Você sonhou com ela? Foi um pesadelo?
− Hoje de manhã. Mas não é como se eu
estivesse lá de verdade... Sou um espectador. Estou
lá por causa do que me une a você... − concluiu
mais para si mesmo que para ela, o entendimento e
a fala chegando a um só tempo.
− Meu Deus! Eu sinto muito! Não queria
envolver você desse jeito...
− Mas parece que só os meus sonhos te
surpreenderam. Você já sabia de Regis e da mãe
dela?
− Sabia. Ou suspeitava. Eles estão todos lá no
meu sonho. É como uma reunião com o fã clube de Lisânia. – Não conseguiu evitar a ironia. − Às
vezes é só ela, às vezes os três, às vezes ela e ele...
varia.
− É horrível! Como você aguenta?
− Tá melhorando. O que eu não sei é como ela
aguenta. Eu posso sentir o sofrimento dela, sabe? É
péssimo!
− Eu sei. Também senti. E já que ela me
envolveu na história toda agora, não é hora de você
abrir logo tudo de uma vez?
Lucinda olhou para ele séria e não resistiu a
contemplar-lhes as feições bonitas e senti-las nas
pontas de seus dedos. Tocou-lhe a face e depois os
cabelos. Penetrou-lhe o olhar e sorriu sem
esperanças, enquanto Lourenço deliciava-se com as
carícias inesperadas.
− Você é tão bonito, sabe? Por dentro e por
fora. E eu queria tanto merecer você...
− Você merece... – murmurou com o polegar dela em seus lábios, louco de vontade de abri-los
mais um pouco para sugar-lhe as pontas dos dedos.
Controlou-se ainda e limitou-se a abraçá-la,
encostando sua testa na dela. – Eu ainda quero você
– anunciou num sussurro rouco.
− Veremos o que acontece... Daqui a duas
semanas...
CAPÍTULO 21
FIM DE JOGO
12de dezembro de 2014. A data acordada
entre Lisânia e Lucinda chegara. Era
justamente uma sexta-feira, dia em que
Lourenço vinha para casa. E naquela sexta-feira ele
voltava com o coração na mão. Aquelas duas
semanas pareceram dois anos, tamanha era sua
ansiedade e medo. Medo sim, de que Lucinda,
mesmo sem as desculpas anteriores, ainda o
rejeitasse. Consumia-se em frustração e aquela
paixão louca só fazia aumentar e queimar seu peito.
Ele não voltara para casa. Ficou na faculdade direto, embora não houvesse real necessidade em
termos de estudo, já que já havia concluído a maior
parte das provas e avaliações. Ficou lá apenas para
entrega final de trabalhos, aulas práticas, projetos e
resultados finais. Poderia ter voltado para casa nos
finais de semana anteriores, mas era muito doloroso
vê-la sem poder tocá-la e querer respostas sem
poder. Pelo menos agora, o impedimento
sobrenatural cessaria, ou esperava que assim o
fosse. E teria finalmente de Lucinda toda a história.
Chegou no mesmo horário de sempre, só que
com mais bagagem do que o normal – era fim de
período e fim de ano. Só retornaria ao alojamento
no próximo ano, após as férias. Trazia de volta três
bolsas de viagem cheias de roupas, calçados, roupa
de cama e banho, produtos de higiene e objetos
pessoais. Trazia ainda um ventilador e alguns
livros. Não dava para subir com tudo de uma vez.
Subiu primeiro com as duas bolsas grandes. Jogou-as no chão da sala para fechar a porta e, ao se virar,
ela já estava lá.
Olhava com seus grandes olhos azuis cheios de
esperança para Lourenço. Ainda vestia roupas
góticas – um jeans rasgado e uma camiseta preta –,
mas não havia colocado nenhuma maquiagem. Seus
cabelos pareciam mais compridos e ela os amarrara
num rabo-de-cavalo. Não os pintara mais, pois já
era visível uma raiz loira crescente que contrastava
drasticamente com aquele preto absoluto. Ela
também dispensara os piercings e tinha uma
aparência um pouco relaxada e decadente, mas de
uma simplicidade que deixava transparecer ainda
melhor sua beleza juvenil.
Lourenço olhou para ela e ficou absolutamente
maravilhado. Achou-a mais linda que nunca. Não
por abandonar aos poucos a aparência gótica, mas
por revelar gradualmente sua face verdadeira.
Perderam-se assim em longos e incontáveis instantes de silêncio de contemplação mútua. Ainda
a indecisão do primeiro movimento os deixou
estáticos. Palavras seriam mais seguras:
− Oi.
− Oi.
Apenas monossílabos encontraram voz e a
indecisão ainda estava no ar. Por fim, combinados
pelo olhar, lançaram-se um aos braços do outro em
um abraço terno e apertado. E ali ficaram, de olhos
fechados, querendo que o momento se eternizasse e
a sensação de aconchego se perpetuasse.
Danúzia, tendo ouvido o barulho da porta e
mais nada, estranhou e foi verificar. Pisou na sala e
flagrou o abraço. Ali permaneceu, alguns instantes,
meio surpresa, sem que o abraço se dissolvesse. Já
tinha achado o jovem patrão abraçar a babá meio
esquisito, mas um abraço tão longo daqueles só
podia dizer uma coisa... Correu para o quarto do
casal para usar o telefone de lá e ligou para Analice:
− Alô.
− Alô, dona Analice?
− Fala, Danúzia. Tá tudo bem por aí? Algum
problema?
− Não, é... Lourenço chegou.
− É, é sexta-feira e as aulas dele na faculdade
acabaram, ele tinha que voltar mesmo...
− Mas é que... A senhora sabia que...? Que...?
− O que é, Danúzia? Diz logo.
− Lourenço tá de namoro com a babá? –
despejou.
Analice sorriu do outro lado da linha. Sabia que
aquilo era inevitável.
− É, acho que sim. E hoje é o último dia dela
como babá.
− A senhora acha isso certo?
− Ô, Danúzia! Ainda de implicância com a
menina?
− Não, dona Analice! Ela é boa menina. Tô
justamente preocupada com ela. A senhora tem que
falar com ele pra respeitar a garota. Fazer as coisas
do jeito certo...
− E o que eles estão fazendo? – perguntou com
uma ponta de preocupação.
− Por enquanto abraçando...
− Acho que abraçar pode, né? Se você quiser,
fica de olho neles... – falou de forma brincalhona,
mas que Danúzia levou a sério.
− Pode deixar.
* * *
Lourenço e Lucinda finalmente se soltaram do
abraço e se encararam seriamente.
− Posso beijar você? – Ele perguntou.
− Ainda não. Mas abraçar foi bom...
− O que falta?
− Preciso falar com ela com a mediação de Noemi, hoje à noite. Se tudo estiver bem, posso
voltar à minha vida normal. Apesar de que, nunca
vou voltar a ser como era antes. Eu mudei.
− Tudo bem. Acho que posso esperar mais um
pouco – disse acariciando os cabelos dela que se
soltavam rebeldemente do penteado.
− Quero que você vá comigo.
− Eu sempre vou.
− Não, eu quero dizer... entrar e participar.
− Sério? Eu posso?
− Ela apareceu nos seus sonhos, então você está
dentro.
− Tá. Tô com medo. Essa parada de espírito me
assusta um pouco... – confessou.
− Não se preocupe. Não é como nos filmes. Ela
não vai te fazer mal. Não pode.
− Bem, isso é tranquilizador.
− Mas antes, vamos precisar conversar. Vou te
contar tudo.
− Tá – disse com um nó na garganta, ansioso e
temeroso ao mesmo tempo. Provavelmente a
conversa seria longa e precisava tomar medidas
práticas primeiro. – Vou buscar o resto das minhas
coisas no carro e tomar um banho. Depois
conversamos.
* * *
Enquanto Lourenço estava no banho, Danúzia
aproveitou para falar com Lucinda:
− Queria me despedir de você – começou, com
olhar baixo e meio sem jeito.
− Claro, Danúzia! – respondeu Lucinda tão
contente que logo venceu a distância entre elas e
envolveu a mulher mais velha num abraço.
Danúzia, que não esperava por tanta expansividade
por conta do relacionamento contido que tiveram,
com um início conflituoso, ficou meio sem jeito e a abraçou timidamente, soltando-se tão logo foi
possível.
− Sei que no começo fui ruim com você...
− Tudo bem. Ninguém se acostuma fácil com
uma babá gótica! – Lucinda falou efusivamente.
Sentia-se tão feliz por estar próxima de conquistar
sua liberdade, que queria transbordar esse
sentimento para todos. Além disso, aqueles dois
anos lhe ensinaram a prática do amor. Amar é
respeitar e ter consideração com o próximo. Ela
tinha exercitado aquilo e se sentia uma nova
pessoa. Mesmo Danúzia tendo sido preconceituosa
e hostil com ela, conseguira ignorar seu primeiro
instinto de devolver a hostilidade e desenvolver a
mágoa. Ao contrário, forçara-se a entender e
perdoar. Funcionou. Danúzia, aos poucos,
acostumou-se a ela, tornou-se gentil e tiveram uma
boa relação, embora distante, mas respeitosa e
afetuosa.
Para a surpresa de Lucinda, Danúzia chorou.
− Você é uma menina tão boa...
− Que boa que nada! – respondeu sem evitar
pensar se Danúzia ainda acharia o mesmo se
soubesse de seu passado...
− Boa sim! Se mudasse essas roupas ficava
melhor! Mas tudo bem! Por isso que vou te falar
uma coisa: Lourenço é um bom menino. Mas
mesmo assim, toma cuidado! Ele é patrão! E patrão
com empregada nunca dá certo...
Lucinda foi tomada de nova surpresa, pois não
tinha ideia de que Danúzia sabia sobre ela e
Lourenço.
− Ah, Danúzia. A gente se gosta, mas não tá
namorando, ainda. Nós vamos conversar hoje e ver
no que vai dar. Mas depois que eu buscar a Ana Bia
na escola hoje, não sou mais empregada da família.
Se namorarmos, não vai ser como patrão e
empregada, não se preocupe. Ano que vem vou pra faculdade e vou ser igual a ele: universitária.
− Deus te abençoe, minha filha! Deus te
abençoe! Ele vai prover! Se for da vontade de
Deus, vocês vão ser muitos felizes juntos!
− Se Deus quiser! – falou Lucinda otimista,
embora uma sombra de preocupação ainda lhe
passasse pela mente.
Lourenço e Lucinda ainda não puderam
conversar a sós, pois quando ele saiu do banho,
Danúzia insistiu em servir um lanche para os dois.
Depois ficou conversando com eles sobre namoro
cristão. Lucinda teve que dar um beliscão em
Lourenço para ele não rir nem debochar do que ela
dizia. Houve mais abraços de despedida quando
Danúzia terminou seu expediente e foi embora. Só
então ficaram a sós e em paz, mas já era tempo de
buscar Ana Beatriz na escola. Para irem rápido,
foram de carro. Na volta, só depois do banho e
lanche da menina, de conversar com ela e de deixá-la entretida com um vídeo game, puderam pensar
em conversar.
CAPÍTULO 22
O SEGREDO DE LUCINDA
e ela se sentou na cadeira que ficava de frente ao Foram para o quarto de Lourenço. Ele se sentou na cama
computador na escrivaninha do rapaz. Precisavam
de distância. Lucinda se armou de coragem.
Confessar para o homem que amava quem ela fora
no passado não seria fácil, mesmo ele já tendo uma
boa ideia. Era um relato:
− Não quero começar me desculpando pelo meu comportamento no passado, mas preciso
contar tudo, para que você entenda − dizendo isso,
calou-se por alguns instantes olhando para ele e
tomando coragem para prosseguir. − Quando
minha mãe ficou doente, eu fiquei arrasada,
deprimida, revoltada. Quando ela morreu, eu fiquei
pior. Meu pai era e ainda é ateu. Minha mãe não
tinha religião. Então, para mim, a morte era o fim
e eu não estava preparada para o fim da minha
mãe...
Eu invejava aquelas crianças que ouviam
histórias do tipo “Ela está no céu”. Pode parecer
ridículo, mas se meu pai me tivesse dito isso, acho
que ajudaria, teria sido melhor. Eu queria ter tido
a esperança de reencontrar minha mãe no céu
depois que eu fosse pra lá algum dia... A ideia da
vida após a morte teria me dado o consolo que eu
precisava. Mas meu pai não achava que eu era
mais criança – eu tinha quatorze para quinze anos –, ele achava que eu tinha que entender que as
pessoas morrem, que tudo acaba...
Minha mãe, apesar de não ter tido uma
religião, falava em alma que vivia após a morte.
Era uma pessoa boa e me ensinava a ser boa. A
ideia de que o espírito continua vivo depois da
morte faz com que as pessoas queiram ser boas
para terem recompensas na outra vida. Se não
forem boas, terão castigos... Basicamente é a ideia
de céu e inferno. Mas tire isso de uma pessoa? O
que vai fazer com que ela se importe? Pra que ser
bom se só temos esta vida e se não há recompensas
para quem é bom? Vendo desse jeito, é mais lógico
roubar, assassinar, fazer tudo o que quiser pra te
dar dinheiro e uma vida fácil, de prazeres e
diversão. Porque não tem consequências!
E foi assim que eu me tornei uma garotinha má.
Sem minha mãe, com meu pai me ensinando que
tudo o que importa na vida é o dinheiro, eu meio que fiquei muito materialista. Ele saía em viagens
de negócios, para ganhar mais dinheiro e me dar
tudo o que eu queria e eu ficava sozinha. Fiquei
com raiva, muita raiva. Busquei cada vez mais
consolo no material. Cuidava demais da aparência,
adorava gastar o dinheiro dele de forma absurda
com cosméticos, salões de beleza, roupas caras,
sapatos caros... Depois queria exibir tudo isso em
festas e boates...
Afastei minhas amigas antigas, quem eu
desprezei... – respirou e controlou o choro que
ameaçava romper − e preferia as que se
comportavam como eu... Lógico que atraí muitos
rapazes, eu vestia roupas caras e sensuais. Eles
eram sempre os piores tipos. Com esses caras eu
namorei e perdi minha inocência. E cada vez eu
ficava com mais raiva de tudo e de todos. Tornei-
me uma cínica e era cruel com as pessoas porque a
minha raiva era tudo o que eu via. Minha dor era maior que tudo.
Adorava fazer os namorados das minhas
colegas de turma traírem elas... Só pra provar que
eu podia... E era tão fácil... Eles eram tão
previsíveis e fracos... Meu prazer era causar a dor.
Porque a dor e a desgraça gostam de companhia.
Eu era tão infeliz... Mesmo assim, cega... e falsa...
Na frente dos professores e coordenadores eu era
uma aluna exemplar! Puxava o saco deles,
elogiava, bajulava... Tudo falso! Nossa! Como eu
me desprezo! Eu tenho horror ao que eu fui – parou
por um instante para recuperar o fôlego. Olhou para
Lourenço e viu que ele estava sério e atento. Mas
era impossível saber o que pensava. Não importava.
Se ficariam juntos ou não, dependeria dele. Mas ele
teria que ficar com ela sabendo de tudo o que ela
foi e fez. Só assim, o relacionamento dos dois
poderia ser verdadeiro.
− Continue. Estou ouvindo.
− No segundo ano o Regis entrou na escola.
Ele era gótico e aquilo era uma novidade pra
gente. Lisânia também tinha entrado na escola
naquele ano. Ela era uma garota quieta, magra,
pálida. Parecia estar sempre doente. Nenhum
garoto se interessava por ela. Eu jogava piadinhas
e zoava todos que não fossem “meus amiguinhos”.
Ela sofreu na minha mão. Ela se aproximou do
Regis, que também era meio isolado. Aí virou
gótica também. No começo aquilo ajudou a
autoestima dela. Os dois andavam juntos
esbanjando preto e se achando o máximo. Mas
logo viraram a escória. Minha culpa de novo.
Eu me dedicava a bolar insultos e ironias para
magoá-los, usando a coisa do gótico contra eles.
Você acha que me ofendeu quando me conheceu?
Me chamando de bruxa? Esquisita? Aberração?
Você não faz ideia. Foram bilhetinhos, postagens
nas redes sociais, ofensas verbais, deboche, humilhações, pichação no banheiro
ridicularizando os dois... Nossa! Eu fui uma
verdadeira bruxa! Você achava que eu era uma
bruxa vestindo preto? Eu fui bruxa quando vestia
rosa...
No terceiro ano, eu piorei... Soube que Lisânia
tinha tentado suicídio nas férias, mas não liguei,
não acreditei e, não sei se teria feito diferença se
eu acreditasse. A fofoca sobre o envolvimento de
Regis e Lisânia com drogas só me deu mais
munição para a zoação. Felizmente a educação de
minha mãe ainda tinha algum efeito sobre mim, ela
era muito taxativa sobre não usar... caso contrário,
eu poderia ter caído nessa também. Do jeito que eu
tinha raiva e tava perdida na vida...
Por fim, eu tive uma ideia brilhante: seduzir o
namorado dela para destruir a única coisa que
aquela pobre garota tinha. Comecei parando de
humilhar Regis. Continuava a infernizar ela, é claro, mas longe das vistas dele. Quando ele estava
sozinho, eu me aproximava, sorria, lançava
olhares... Até que um dia, eu chamei ele pra sair e
disse que seria nosso segredinho. Ele topou. Aí,
bem... Depois eu contei pra ela, com requintes de
crueldade, como você disse. Ela não acreditou,
mas ele pirou com a culpa e acabou confessando...
Mas se ele não tivesse confessado, eu estava
preparada. Eu tinha uma foto.
Nesse ponto, Lourenço a olhava com nojo e
Lucinda sabia que podia perdê-lo. Mas era preciso
que toda a verdade fosse dita.
− Duas semanas depois, ela se enforcou.
Foi aí que eu levei o choque. Mesmo tendo
decidido ser uma filha da mãe sem sentimentos, a
culpa veio com força total. Eu fiquei arrasada. Eu
fui ao enterro. Não sei por quê. Só sabia que
precisava ir. Pedir desculpas perto do túmulo, sei
lá. Foi horrível! Regis me expulsou aos gritos me chamando de vagabunda. A mãe dela passou mal e
me xingou quando Regis contou a ela quem eu era.
Eu chorei tanto e senti uma dor tão forte que
achei que ia morrer. Eu não queria ir à escola. Eu
não queria levantar da cama. Tinha dias em que eu
nem penteava o cabelo. E desde o enterro, eu
passei a ter os pesadelos. Não como nos últimos
tempos aqui em sua casa, tem sido raro e leve. Era
bem pior e todos os dias. Eu quase não me formei,
porque não conseguia estudar e faltava muito.
Fiquei relaxada com a aparência e todos notaram.
Só confirmei ser a culpada pela morte dela, como
muitos já sabiam ou suspeitavam. Regis só fazia
falar mal de mim para todos. Eu tinha vergonha de
todos e de tudo.
Fiquei muito doente, peguei pneumonia. Eu ia
morrer e queria morrer. Aí, um dia, uma moça
bateu à minha porta. Ela disse à empregada que
era minha tia e assim a empregada a deixou entrar. Ela foi até meu quarto. Eu estava dormindo. Ela fez
orações e mentalizações. Quando eu acordei, eu
me sentia melhor. Levei um susto com a mulher no
meu quarto.
− Era Noemi? – Ele não resistiu a perguntar.
− Sim, era! Lisânia havia pedido ajuda no
centro em que ela exerce a sua mediunidade. Estava
bastante perturbada, com muita raiva. Então,
sabendo do suicídio, Noemi decidiu ir ao enterro
para evitar que ela fizesse mal a alguém. No
cemitério ela demonstrou raiva por sua mãe, por
Regis e por mim. Após o enterro, ela me seguiu.
Noemi viu e, por isso, foi me procurar.
− A doença?! Foi ela?
− De certa forma sim. O emocional de uma
pessoa pode debilitar o organismo. A presença de
Lisânia junto a mim aumentava meu sentimento de
culpa e me abatia terrivelmente. O ódio que ela
nutria por mim me fazia mal.
− Então como você melhorou?
− Noemi. Primeiro: muita oração. E ela
começou a fazer um trabalho de evangelização e
doutrinação do espírito de Lisânia. Isso é feito com
frequência por trabalhadores médiuns em centros
de assistência caridosa. Ela fazia isso comigo em
sua casa com ajuda de seus companheiros que têm
o mesmo dom.
− E a luz azul?
− É usada como ajuda terapêutica de paz e
elevação espiritual. A luz azul é tranquilizadora,
muito usada em tratamentos cromoterápicos.
− Sei.
− Algumas vezes, só uma conversa resolve.
Mas Lisânia era uma alma suicida e muito
perturbada. Carregava muita raiva, muita mágoa.
Sem perdoar, o espírito não pode ter paz. Ela
precisava perdoar os que a ofenderam e também se
perdoar.
− Se perdoar?
− É! Frequentemente a culpa é a causa de
nossos maiores sofrimentos. Temos que perdoar o
outro, mas também nos perdoar...
− Você se perdoou, Lucinda? – perguntou
muito sério.
Os azuis dos olhos dela estavam rasos de
lágrimas.
− Estou trabalhando nisso... Acho que só vou
conseguir se ela me perdoar primeiro...
− É por isso que ela segue e persegue você... –
Ele concluiu.
− É! Sabia que ela tinha mágoa de Regis e da
mãe também, mas achei que só perturbava a mim
e... que eu era seu alvo... Fiquei surpresa com o que
disse sobre Regis e a mãe.
− Noemi sabe?
− Não sei. Ela não me conta tudo. Só o que
acha que preciso saber. Lisânia é um espírito obsessor. Ela não consegue se perdoar pelo seu
suicídio e me culpa por tudo. Ela queria vingança.
Queria me ver sofrer.
− E o acordo?
− É, então: depois de muitas sessões e
conversas, ela concordou em me perdoar. Mas para
isso, queria que eu cumprisse pena pelos meus
crimes.
− Como assim? Você não cometeu nenhum
crime.
− Não pela lei dos homens. Mas intriga,
calúnia, bullying, manipulação, brincar com os
sentimentos dos outros são crimes bem graves pelas
leis divinas. Eu não podia ir para a cadeia e já
estava pagando porque a consciência de meus
crimes já me fazia sofrer de uma forma como nunca
imaginei ser possível. Mas ela queria me punir
mais.
Então ela estipulou minha pena: dois anos. Eu tinha que viver por meus próprios meios, pelo meu
trabalho, sem usar o dinheiro do meu pai, sem ter
luxo nenhum. Eu não podia ser mais a menininha
rica.
− Aí você resolveu ser babá?
− Não. Foi ela que determinou que eu deveria
cuidar de crianças. Ela sabia que eu odiava
crianças. Ela queria que eu trabalhasse com aquilo
que mais odiava. Era parte da minha punição.
− Você odiava crianças? – perguntou incrédulo
e meio desapontado.
− Eu era um lixo, Lourenço. Eu era uma
criatura desprezível, com raiva de tudo e de todos.
Eu vivia linda, perfumada e impecável por fora e
por dentro eu era um monte de estrume. Crianças
para mim eram chatas, bobas, choronas e sujas.
Elas podiam sujar minhas roupas, babar meus
cabelos, estragar minhas unhas, ocupar meu
precioso tempo ocioso... – disse carregando no sarcasmo. – Então eu tinha que passar dois anos