A babá gótica

Adriana Igrejas · Capítulo 3 de 7 · parte 3/4

Páginas do PDF

A babá gótica

Capítulo 4

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

carro ter dado a louca de repente, mas aquilo estranhamente fazia sentido...

− Por que você? – perguntou agora sério e

preocupado.

− Acho que já disse o bastante. Você já entende

que namorar é uma das coisas que Lisânia não quer

que eu faça. Eu PRECISO obedecer.

O choque no rosto de Lourenço era

descomunal. Ele estava perplexo e tudo aquilo era

muito insólito.

− Sei. Então, você não pode ficar comigo

porque ela não quer... – começou a concluir.

− Não você especificamente. Ninguém.

− Lucinda, isso é muito estranho. Por que ela te

escolheu para assombrar?

− Eu não posso falar sobre isso.

− Não pode ou não quer? – perguntou com

sagacidade.

− Por favor, Lourenço. Eu já te contei demais –

disse chorosa.

− E ela também proíbe você de contar?

− Pode-se dizer que sim. Não me pergunte mais

nada. Só, tente entender que...

− A gente não pode ficar junto; sei... – concluiu

tristemente. – Só que eu não aceito isso – falou

segurando as mãos da moça. – Tem que haver um

jeito!

− Por enquanto não dá. Mas nem sei se tá certo

querer ficar com você, Lourenço. Você é um cara

tão legal... Acho que não mereço...

− Que história é essa? Como assim não merece?

− Não mereço. Você é bonito, inteligente,

resolvido na escolha da profissão, é um bom irmão

e filho... Eu não sou nada disso...

− Quem disse que você não é inteligente? –

falou ternamente passando os dedos pelos cabelos

dela. – Pra profissão ainda tem tempo... E debaixo

disso tudo aí, você é bonita... – começou em tom

brincalhão de novo – posso ver por esses seus olhos incríveis! Deus! Eles são tão azuis! – completou

absolutamente fascinado pelos olhos dela,

capturado pelo olhar.

− Você não me conhece direito...

− Quero conhecer... – falou com os lábios

perigosamente próximos dos dela.

Lucinda se afastou de novo.

− Mas você entendeu que não tem como, né?

Ele inspirou e soltou um longo suspiro de

frustração.

− Por causa da fantasma?

− É. Preciso que prometa ficar longe.

− Temos que fazer alguma coisa!

− Não tem nada pra fazer além do...

− Não podemos salgar e queimar os ossos da

defunta ou fazer um exorcismo, sei lá?

− Você está citando um seriado de tevê? – falou

Lucinda sem conseguir deixar escapar o riso.

− Já que fantasmas existem... bem, talvez...

− Os fantasmas dos filmes não são como na

vida real...

− Vida real? Sério? Nós estamos tendo uma

conversa em que FAN-TAS-MAS existem! Isso é

VIDA REAL?

− É. Você falando assim, me sinto bem

maluquinha... Mas é a minha vida e é bem real...

− Então?

− Então você quer invadir um cemitério,

exumar um corpo e tacar fogo nele?

− Tem alguma ideia melhor?

− Isso não funciona, Lourenço. O espírito não

está aqui preso a um corpo em decomposição; ele

pode ficar independente disso... são várias coisas

ou assuntos que o prendem, mas por sua própria

vontade...

− Sei..., então nada de “Supernatural”, está mais

para “Gasparzinho” ou “Ghost”... Sei. Coisas...

Assuntos pendentes – concluiu com uma satisfação sherloquiana bem-humorada.

− Eu e Noemi estamos trabalhando nisso.

Confie em mim. Quando tudo se resolver, talvez...

− Talvez...? Quando?

− Talvez no fim do ano...

− Ainda estamos em setembro, Lucinda! Você

quer me matar?

− Não posso te pedir para me esperar. Então,

me esqueça, sei lá.

− Você vai me esquecer?

− Ah, Lourenço, claro que não. Mas vou

aguentar. Se no final do ano, você ainda gostar de

mim...

Ele beijou-lhe as mãos devagar e

carinhosamente.

− Minha bruxinha linda, Ana Beatriz tinha

razão, você é uma princesa. E eu quero ser seu

príncipe. Eu vou tentar ficar longe. Toda essa

história de fantasma é demais pra mim... Não sei no que acreditar... Mas vou tentar ficar longe, para o

seu bem. Mas vai ser tão difícil... Acho que vou ter

que parar de vir pra casa nos finais de semana se

quiser que eu respeite isso...

− Eu vou morrer de saudades, mas infelizmente

é uma boa ideia... Ainda mais agora que moro com

vocês... Por sua insistência... – falou retirando as

mãos.

− É, acho que já gostava de você. As desculpas

que eu arrumava eram muito toscas... – falou de

bom humor com um sorriso meio triste.

− Eu lamento tanto...

− Espera aí, pensei numa coisa agora... E Ana

Beatriz? Algum perigo para ela?

− Não. Ela não entra no apartamento. Faz parte

do acordo.

− Tem certeza?

− Tenho. Pode ficar tranquilo. Eu não faria

nada que pudesse causar qualquer problema para Ana Beatriz. Eu amo essa menina!

− Eu acredito em você. Só vou fazer uma

perguntinha a mais. Ou melhor, vou concluir e você

me diz se estou certo?

Como ela não disse nada, ele resolveu

prosseguir:

− A tal Lisânia era gótica. E você não era. Eu

sei disso porque me falaram quando fui à sua

escola. Então, me corrija se eu estiver errado, mas

acho que você não é gótica de verdade. É mais uma

das exigências da fantasma? Ela quer que você

fique parecida com ela. Por que eu não sei, mas

acho que é isso. Tô certo?

− Está. – Ela respondeu com a cabeça baixa.

− Eu sabia! Sabia que tinha alguma coisa em

você e essa coisa de gótico que não batia!

− Está mais feliz agora, né? Está louco pra me

ver sem isso tudo aqui? – Ela falou com um gesto

com as mãos indicando a si própria. – Nunca gostou mesmo muito de mim assim...

− Na verdade, estou até meio decepcionado!

Me apaixonei por uma bruxinha gótica. Vai que

você não é tão bonita ao natural... – disse em tom

cômico, obviamente brincando. – Mas, falando

sério, tanto faz. Já me acostumei e, realmente me

apaixonei por você assim.

− Não se preocupe, vou continuar assim por

bom tempo...

− Seu cabelo não é tão preto, né? Qual a cor

natural dele? – perguntou movido pela curiosidade.

− Loiro.

− Sério? Pensei em um castanho escuro ou

claro, mas... Loiro natural? – disse tocando-lhe

novamente os cabelos.

− É, loiro escuro.

− Caramba! Uma loira de olhos azuis! Não! É

tão clichê... – falou simulando desprezo.

Lucinda entendeu a brincadeira e sorriu.

− Posso pintar o cabelo da cor que você

quiser...

− Adoro seus olhos, nada mais importa.

− Então, esperar...

− Então, Lisânia, − começou ele, com voz

empostada, sem esconder um toque de humor e

respeito ao mesmo tempo – nós estamos subindo

agora. SE-PA-RA-DOS. Tá feliz? – concluiu ele

para o nada, olhando ao redor.

 

Subiram e no elevador, cada um se apoiando à

parede oposta ao outro, mantendo a distância,

Lourenço arriscou uma ideia perigosa:

− Você disse que ela não subia... Então quando

estivermos lá em cima...

− Não, Lourenço! É muito arriscado. Não posso

enganar ela. Não é só o que ela vê! Ela lê

pensamentos, sabe das coisas...

− Então, acho que uns amassos escondidos no seu quartinho estão fora de cogitação, né? – brincou

ele novamente.

− Lourenço! – ralhou com ele com uma

indignação fingida.

− Não pode culpar um homem por tentar... –

disse com um sorriso. − Eu tô tão bolado com esse

negócio de fantasma... – confessou. – Sabe, isso

muda tudo! Toda a minha visão de mundo... É...

assustador!

− Eu sei.

− Seus pesadelos....?

− Com ela... É quando a vejo.

− Imaginei.

− Ela não me deixa em paz...

Ele quis perguntar por que, mas ela já tinha lhe

explicado que não podia lhe falar sobre aquilo.

Ao entrarem no apartamento e encontrarem

Analice e Humberto preocupados à espera deles é

que se deram conta do quanto era tarde. Mais de onze da noite. Esqueceram-se da vida conversando

no estacionamento!

− Onde é que vocês andaram? Demoraram

muito! – reclamou Analice.

Os dois se entreolharam como cúmplices

buscando uma saída. Lourenço tomou a palavra:

− Lucinda demorou muito lá na terapia de luz

azul...

Ela olhou para ele com olhar de censura, porque

ele acabara de jogar toda a culpa em cima dela!

− Me desculpem! Desculpem mesmo! É que

Noemi hoje tinha outros pacientes... Eu tive que

esperar a minha vez, não sabia que ia demorar

tanto... – falou, confirmando a versão dele. – Eu

vou me recolher agora. Desculpem mesmo. Boa

noite, Seu Humberto, Analice, Lourenço... –

terminou com um cumprimento que era um gesto

com a cabeça para cada um deles.

E assim que Lucinda se retirou, os olhares se voltaram para Lourenço.

− Olha, meu filho, se você não reclamasse e

falasse tão mal dessa menina, eu podia jurar que

vocês estão de namoro! – falou Humberto com seu

jeito bem-humorado de sempre, um tanto irônico.

− Não! – apressou-se em negar, embora sua

negativa tenha sido a de um péssimo ator. – Que é

isso, pai? Eu e a esquisita? Pelo amor de Deus! Que

horror! – tentou disfarçar mais canastrão ainda, o

que fez com que Analice achasse que Humberto

podia não ter falado algo tão absurdo assim.

CAPÍTULO 16

 

CRIME E CASTIGO

 

Ofinal de semana foi estranho. Lourenço quase não saiu do quarto, dizendo que precisava estudar.

Na verdade, ele realmente estudou. Depois de

vários finais de semana sem conseguir se

concentrar nos estudos por causa de Lucinda e seus

sentimentos conflitantes por ela, agora ele

estranhamente parecia aliviado. Ter confessado seu

amor o libertou de certa forma. Saber que era

correspondido o encheu de alegria. Ele estava

extasiado.

Então, o fato ou teoria de haver um fantasma

que os separava, estranhamente não incomodou

tanto. Havia esperanças e o impedimento podia ser

temporário. Também de cético rapaz sem nenhuma

espiritualidade, viu-se obrigado a rever seus valores

e aquele tipo de esperança, a de uma vida após a

vida, também o animou. Era uma perspectiva nova.

Mesmo sua futura profissão, agora via sob uma

ótica diferente. Tinha uma missão importante e

tudo que fizesse contava, pois nada cessava com a

morte física.

Desse ponto de vista, o suicídio de Lisânia, ou

qualquer outro, era algo estúpido mesmo, porque a

morte era apenas uma ilusão. O sofrimento não

cessava. A morte não existe. Eram alvíssaras. Por

outro lado, a responsabilidade de viver passava a

ser muito maior. Tudo que fizesse teria

consequências...

Lucinda saiu durante o dia no sábado. Saber que ela não estava lá, também o ajudou a se

concentrar nos estudos. No fim da tarde, ele

brincou um pouco com a irmã e depois saiu à noite

com uns amigos, coisa que não fazia há muito

tempo.

Quando Lucinda voltou para o apartamento à

noite e soube que ele saiu com amigos, sentiu algo

parecido com ciúmes. E se os amigos saíssem para

paquerar? E se houvesse uma amiga? Aquilo era

estúpido e inútil! Não podia começar a sofrer como

uma namorada ciumenta! Deus! Eles não eram

namorados! Mas era difícil controlar seus

pensamentos e o fato de ela ter dito que ele não

precisava esperar por ela também não ajudava em

nada.

No domingo, a família foi ao shopping, mas

sem Lourenço. Ele novamente saiu com amigos e,

Lucinda, que já havia perambulado por um

shopping o sábado todo para ficar longe dele, não tinha ideia do que fazer no domingo.

Acabou se entregando à leitura de um livro de

aventuras bem humorado, para ajudá-la a se

distrair. Era Guardians volume 1, de Luciane

Rangel. Funcionou por um tempo, pois a leitura era

boa e divertida; mas, inevitavelmente imaginava

Lourenço como um dos guardiões e sua figura –

como herói – era tão atraente, que a fazia suspirar e

pensar nos beijos que trocaram na sala de estar e no

estacionamento. Então, aquilo era estar apaixonada!

Logo agora que tinha superado todas as

dificuldades iniciais de suas provações e expiação!

Devia ser porque ela já não sofria, tinha que surgir

algo novo para lhe impingir novo sofrimento! Ela

merecia! Tinha de suportar!

Nos dois finais de semana seguintes, Lourenço

não voltou para casa. Lucinda sentia cada vez mais

saudades, mas sentia-se aliviada, porque a distância

mantê-los-ia longe um do outro e aquilo era bom. No entanto, sabia que na outra semana ele viria. Ele

não podia se privar do convívio com sua família

por tanto tempo por causa dela!

E ele veio. Só se viram à hora das refeições e

não se falavam. Aquilo era mais estranho que o

comportamento habitual dos dois antes e o casal

Analice e Humberto continuava a tentar entender o

que se passava entre aqueles dois.

Assim se passou outubro inteiro. Ele viera para

casa duas vezes e eles mal se falaram.

Lucinda sofria tanto que chegou a chorar

algumas vezes na solidão de seu quartinho.

Lourenço afundava-se nos estudos. Suas notas

melhoraram e essa foi a única coisa boa naquela

separação de um casal que nem chegou a ficar

junto. Em paralelo aos estudos, Lourenço conduzia

uma pesquisa profunda e detalhada sobre o oculto.

Fantasmas, espíritos... Lia tudo que achava de

informação a respeito. Havia muita idiotice, muita besteira, muita ficção. Mas havia algumas teorias

que pareciam bem sérias.

Ele manteve a distância como prometera – a

muito custo. Mas não sabia quanto tempo mais

suportaria. Seu sentimento não esvaecera, ao

contrário, fortaleceu-se. Morria de saudades!

Consumia-se de paixão e não podia contar a

ninguém! Tinha amigos, mas todos para as horas de

riso e diversão. Nenhum com quem pudesse

conversar sobre estar amando. Nenhum que o

levasse a sério se dissesse que estava apaixonado

por uma garota lúgubre e misteriosa. Que dirá se

mencionasse a história de fantasmas! Em muitos

momentos ele próprio duvidava. Que provas tinha?

Só um carro ligando sozinho?

Se ao menos ela lhe contasse mais. Sentia-se

louco, mas achou consolo em sua pesquisa: desde

tempos imemoriais sempre houve crenças na

existência de espíritos e que eles sobreviveriam à morte do corpo físico. Também havia relatos de

pessoas que eram acompanhadas por esses espíritos

– chamados de obsessores. Eles normalmente

queriam algo. Então a pergunta era: o que a menina

Lisânia queria com Lucinda? E por que a fazia

vestir-se como ela em vida? Se ao menos Lucinda

se abrisse com ele!

Ele a deixara em paz um mês! Um mês! Um

mês sem conversas, sem toques... Um mês de

olhares furtivos e bons dias, boas tardes, boas

noites, ois e tchaus. Não suportava mais aquilo.

Precisava falar com ela de verdade! E ele sabia que

a oportunidade perfeita seria o aniversário de

casamento de seu pai com Analice. Eles fariam

uma viagem romântica de fim de semana para um

hotel-fazenda no interior do estado. Viajariam na

sexta à noite e voltariam no domingo à noite.

Haviam confiado em Lucinda para ficar com Ana

Beatriz sob a supervisão dele. Perfeito. Teriam algum tempo para conversar.

Na sexta-feira daquele final de semana, Lucinda

não foi visitar Noemi, porque o casal já havia

viajado e ela se responsabilizou por Ana Beatriz.

Tinham feito muitas recomendações. O que

Lucinda não imaginava era que se preocupavam

principalmente com a questão de deixar dois jovens

de dezenove anos, do sexo oposto naquele

apartamento. Só mesmo a distância respeitosa com

que se tratavam e a hostilidade inicial de Lourenço

convenciam o casal de que não havia perigo sexual

ali. O mais importante era que Ana Beatriz

estivesse bem e Analice confiava nos dois para

isso.

− Enfim sós. – O rapaz parodiou, assustando

Lucinda assim que ela pôs os pés na sala de estar,

após ter se certificado de que Ana Beatriz dormia.

− Lourenço. Tudo bem?

− Tudo. E você? Quero dizer: não, não tá tudo bem! – suspirou. − Chega dessas formalidades! Há

um mês que a gente tá nessa! “Oi, tudo bem?”

“Tudo!” Não aguento mais isso!

Lucinda se retraiu e viu que o que temia estava

acontecendo. Sabia que não seria fácil passar um

fim de semana com ele e Ana sem a presença dos

pais. Só não esperava que ele fosse aproveitar o

primeiro minuto!

− Lourenço, você sabe que nós...

− Lucinda, eu respeitei o que você me pediu!

Mas se você me explicasse tudo...

− Ah, Lourenço... – lamentou-se num sussurro.

Ele se aproximou e parou apenas a um passo

dela.

– Sinto saudades... – Ele disse ternamente.

− Nós nos vimos! Nas duas vezes que você veio

para casa no fim de semana.

− É. Nos vimos e eu disse: “Oi, Lucinda, tudo

bem?” E você respondeu: “Tudo bem”. E outras meias palavras...

− É melhor assim – replicou com firmeza.

Lourenço baixou a cabeça e os olhos

pensativamente. Em seguida levantou apenas os

olhos. Lucinda sentiu medo, pois o que viu foi um

olhar decidido e contraventor. E não houve tempo

para pensar muito ou levantar escudos para o que

viria em seguida. Lourenço avançou sobre ela

férvido, resoluto. Enlaçou-a com suas mãos

transgressoras firmando-a pelas costas contra seu

peito, enquanto sua boca cobria a dela, um afã de

paixão inefável.

Lucinda não podia nem queria resistir. Era

fraca. Sim, sentia-se muito fraca para recusar o que

tanto desejava. Sentia-se explodir por dentro

quando fechou os olhos e se entregou àquele beijo

delituoso, deliciando-se no sabor do proibido. Ela

queria tanto! E pelo menos naquele momento ela

teria, mesmo sabendo que haveria consequências... Por mais funestas que fossem, valeria a pena! Ao

menos precisava acreditar que sim.

Beijaram-se com desespero, misto de saudade e

desejo, apetência, urgência. Temiam que não fosse

verdade, que o momento acabasse, que não pudesse

se repetir. Beijavam-se como se fosse a última vez.

Lucinda agarrava-se ao pescoço dele como se

alguém a quisesse arrancar dali a qualquer

momento. Beijaram-se muito, várias vezes.

Interrompiam o beijo apenas para tomar fôlego e

reiniciar todo o processo. Lourenço a beijava

também no pescoço e cabelos e Lucinda se

entregava a essas carícias e as retribuía. Quando a

paixão se acalmou, sentaram-se no sofá e

continuaram a se beijar, mas mais devagar,

docemente até cessarem e ficarem apenas

abraçados por um longo tempo. Lourenço o

quebrou:

− Sabe o que eu queria fazer, né?

− Sei, eu também queria.

− Então...

− Já fomos longe demais. Isso não deveria ter

acontecido. E não só por causa daquilo... É tão

errado eu ficar com você... Se soubesse...

− Não vou saber se não contar. Mas

sinceramente não entendo o que pode haver de

errado em ficar com alguém de quem se gosta.

− Também tenho medo do que ela pode fazer...

− Bem, até agora nenhuma luz piscando ou

televisão ligando sozinha...

− Ela não sabe ainda. Mas vai saber.

− Ah, é porque ela não entra no apartamento,

né?

− Não entrava. Agora que me mudei para cá,

ela teve de vir.

− Mas ela não prometeu...? – questionou

assustado mediante a possibilidade de haver um

fantasma ali.

− Prometeu ficar longe da menina. Então ela

não entrava no apartamento. Agora que moro aqui,

ela fica no quartinho comigo.

− Como você sabe?

− Eu não vejo, mas sinto a presença dela.

− Como?

− Os pelos do meu braço se arrepiando, uma

sensação de estar sendo observada. Uma angústia,

uma dor no peito, um sofrimento que sei que não é

meu, mas dela. Não sei explicar. Só sei que ela está

lá. Não o tempo todo, mas constantemente.

− Certo. Então ela não viu nada.

− Vai ver... Ela entra nos meus sonhos... vai ver

meus pensamentos...

− Droga! – praguejou reconhecendo o perigo

que havia ali. Mas em seguida tentou suavizar o

clima, abandonando a seriedade. – Posso deixar

você acordada todas as noites – disse em um

sussurro sensual.

Lucinda não achou a brincadeira bem-vinda e

se soltou do abraço dele e se moveu para o canto do

sofá, mantendo certa distância dele.

− Ah, qual é? O que ela pode fazer? Quebrar

algumas coisas dentro de casa? E daí? – Ele

continuou.

Lucinda agora parecia ter sido trespassada pela

razão e se arrependia dos momentos de fraqueza,

vislumbrando consequências inexoráveis.

Levantou-se, mostrando-se ultrajada.

− Você não entende! Nós temos um acordo! Eu

e ela! E eu estou quebrando o acordo!

− Por causa de uns beijos?

− É! Eu não posso ser feliz! Eu não posso

atingir nenhum tipo de realização pessoal ou

profissional! Eu estou pagando! Eu tenho que

pagar!

− Pagar? – indagou incrédulo.

− Eu tenho uma dívida com ela! E eu preciso pagar! Eu quero pagar! Para ficar em paz e para ela

ficar em paz.

− Dívida de quê? Pagar como? – perguntou, já

angustiado e assustado por uma revelação que ele

não conseguia processar.

− Eu preciso do perdão dela e ela precisa me

perdoar.

− Perdão? – A compreensão começava a se

formar para Lourenço, mas trazia outras

implicações de fatos que ele desconhecia e temia

agora conhecer.

− Eu fiz uma coisa a ela... – confessou Lucinda,

angustiada, derramando uma lágrima.

− Você fez o quê? – Ele perguntou temeroso

pela resposta.

− Eu... – Não conseguiu terminar.

Não conseguiria ainda confessar a ele o seu

crime, sua vergonha. Saiu dali e correu para seu

quarto, onde se trancou. Lourenço foi atrás dela. Bateu na porta e chamou várias vezes. Fez

perguntas. Ela não respondeu. Ela se manteve firme

em não abrir a porta e não responder e, olhou para

o vazio do quarto ciente de que o espírito Lisânia

ali a encarava decepcionada, questionadora e, que

em breve, saberia de sua traição.

 

* * *

 

Na manhã seguinte Ana Beatriz amanheceu

ardendo em febre. Lourenço já acompanhava seu

estado desde a madrugada, quando a menina o

chamou tossindo e reclamando da garganta.

Lucinda saiu de seu quarto, um pouco mais

tarde do que costumava acordar, com menos

maquiagem do que costumava usar e mais do que

queria. Sentia-se cansada. Dormira mal e teve

pesadelos. Não conseguia se lembrar deles com precisão, mas sabia que Lisânia estava furiosa com

ela. Adormecera rezando na noite passada, mas

sabia que suas orações não haviam ajudado muito.

Ela errara e errara feio. Como resultado, acordava

tarde e sentindo-se mal. Temia o próximo encontro

com Lourenço. Ele podia estar bravo ou ainda

conciliador e sedutor. Em ambos os casos seu

encontro seria difícil. Mas não estava preparada

para o que encontrou.

Ele estava sentado à mesa de jantar com uma

xícara de café, a terceira desde a madrugada,

quando acordara. Lucinda logo lhe percebeu o

semblante preocupado e abatido.

− O que houve? Você está bem?

Ele olhou para ela e ela sentiu o peso de ser, de

algum modo, a responsável por aquele sofrimento.

− Ana Beatriz está doente. Começou de

madrugada. Está com febre alta. Consegui abaixar

com remédio, mas está persistente. Pelo que examinei, a garganta dela está inflamada. O nariz

também está congestionado. Fiz uma nebulização

nela, deu pra melhorar um pouco para ela voltar a

dormir. Tá dormindo agora. Vou deixar ela

descansar e depois acho que vou levá-la a um

médico.

− Hoje é sábado.

− Tem emergência pra isso. Não sou médico

ainda, não posso receitar. Acho que é uma crise

alérgica que afetou tudo, ela vai precisar de

remédios específicos e um antibiótico. Precisamos

de receita.

− Ela toma um remédio em caso de crise...

− Eu sei. Já dei o que tinha que dar.

− Acha que devíamos chamar seu pai e...?

− Claro que não. Somos adultos. Podemos

cuidar disso. Nada de ligar para eles, senão ficam

preocupados e vão querer voltar. Não quero

estragar o aniversário deles.

− Tem razão. Mas e quando eles ligarem? Vão

ligar para saber se está tudo bem.

− A gente vai dizer que ela está um pouco

atacada de alergia, mas está bem. Nada para se

preocupar.

− Mentir.

− É. Você quer mesmo estragar o fim de

semana deles? Eu não quero.

Lucinda concordou com a cabeça. Sentou-se e

serviu-se de café.

− Como posso ajudar?

− Indo comigo ao hospital.

Ela entendeu que seria apenas apoio. Era o

mínimo que podia fazer. Concordou novamente

com a cabeça.

− Lucinda, você acha que isso pode ter relação

com o que fizemos ontem? Que é um castigo?

Era nisso mesmo que ela estava pensando, mas

falando assim em voz alta, era bem mais alarmante.

− É no mínimo uma coincidência assombrosa.

Eu a vi em meus sonhos. Está zangada.

Ele deu um murro em cima da mesa.

− E vai se vingar na minha irmãzinha?! Que

não tem nada a ver com isso!? – gritou alterado.

− Crianças são mais sensíveis a perturbações

espirituais.

− E agora que você me diz isso?

− Desculpe. Eu não imaginava que ela

pudesse...

Lourenço se levantou e começou a andar de um

lado pra o outro.

− A culpa é minha! A culpa é toda minha! Você

me avisou! Avisou-me que não podíamos! Disse

que não queria vir para cá. Eu insisti.

− Você não fez nada sozinho.

Lourenço olhou para ela e lembrou-se dos

momentos de paixão. Mas tudo era diferente agora

e ele se arrependia, porque se as consequências envolviam sua irmã...

− É golpe baixo da parte dela.

− Pode não ser. O que sua irmã tem pode ser só

físico.

− É, mas a coincidência é sinistra. Vamos

resolver a parte física. Quando ela acordar, você

arruma ela e vamos para o hospital. Agora o que

podemos fazer quanto ao espiritual?

− Por enquanto? Rezar. Se preciso, procuramos

Noemi.

− Rezar?

− É. A prece é muito poderosa.

− Eu não sei rezar. Não tenho religião.

− É só pensar. Elevar o pensamento às forças

do bem. Elas vão impedir o mal de agir. E dirija

também seus pensamentos à Lisânia. Peça

desculpas. Explique-se.

− Sério?

− Sério. Eu vou fazer o mesmo.

Lourenço assentiu e, a seu modo,

imediatamente fez uma prece. A parte mais

estranha foi explicar a um fantasma por que havia

beijado aquela garota; a única vez na vida em que

explicou por que havia beijado uma garota fora

para o diretor da escola – na quinta-série –, algo

parecido com: porque eu sou um garoto e ela é

uma garota. Mas agora era diferente com Lucinda.

Então, sem que pudesse controlar seu

pensamento ou editá-lo, saiu a versão pura e

simples e que, portanto, devia ser a verdade:

porque eu a amo.

CAPÍTULO 17

 

PATO NOVO NÃO DÁ

 

MERGULHO FUNDO

 

uma receita. Compraram remédios. Rezaram juntos Levaram Ana Beatriz ao médico e conseguiram

e separados. Lucinda mimou ainda mais Ana

Beatriz, com dengo, cafuné, comidinha gostosa e

brincadeiras. Lucinda e Lourenço assistiram aos

desenhos favoritos da menina com ela. Enfim, trataram-na como doente, com toda meiguice

possível.

O remédio ou a oração fez efeito. Talvez

ambos. A febre da menina cessou de vez e a crise

alérgica foi controlada. A garganta melhorou.

Quando os pais da menina voltaram, encontraram

tudo em relativa ordem e normalidade, exceto o

fato de ela ter de continuar tomando alguns

remédios. Ficaram um pouco chateados por não

terem sido avisados da gravidade da situação, mas

gratos e orgulhosos. Não notaram o quanto os dois

jovens estavam exaustos física e emocionalmente.

Após esse fim de semana tumultuado veio um

tempo de calmaria. Lourenço ficou três semanas

sem voltar para casa e Lucinda, apesar de sentir

saudades, sentia-se grata, pois era bem mais fácil

lidar com suas emoções quando ele não estava por

perto.

Naquelas três semanas, Lourenço foi constantemente incomodado pelas lembranças da

doença de Bia e das palavras de Lucinda – eu fiz

uma coisa a ela. As palavras pairavam no ar com

um invólucro de mistério. Ele não podia deixar de

pensar no que ela teria feito. Longe dela, na

faculdade, pensava mais com a cabeça e menos

com o coração. Tinha que ser algo grave, ou não

haveria um fantasma vingador na cola dela.

Inevitavelmente sua mente vagava por lugares

sombrios, levando-o a teorias obscuras, pensando

no pior. Será que Lisânia não havia se suicidado?

Teria sido assassinato? E Lucinda seria...? Não, era

terrível demais! Mas ainda assim, de alguma forma,

o espírito a culpava e, talvez, pela sua morte. Essa

ideia tenebrosa aninhou-se em sua mente. Mandou

uma mensagem para o celular dela perguntando:

Por favor, eu preciso saber: o que você fez a

Lisânia? Ela respondeu: Não vou falar sobre isso.

Bem, se ela não ia falar, ele precisava achar um jeito de descobrir.

Lourenço pesquisou e descobriu a delegacia e o

delegado responsável pelo caso. Queria saber

detalhes como quem achou o corpo e os detalhes

sobre o suicídio. Então, pegou uma declaração da

faculdade, de que era estudante de medicina lá e

elaborou um plano. Ele falaria com o delegado a

pretexto de estar fazendo um estudo para a

faculdade, na área de medicina legal. O delegado se

chamava Perez. Jorge Perez.

* * *

 

Quando finalmente conseguiu que o delegado

Jorge Perez o atendesse, Lourenço encontrou um

homem em seus trinta e poucos anos, de rosto

simpático. Era moreno claro, tinha olhos escuros e

cabelos cor de mel, matizados por vários fios

brancos.

Jorge Perez era bem experiente e já havia trabalhado em casos pra lá de estranhos. O processo

de suicídio de Lisânia Afonso Paiva não tinha sido

nada incomum – rapidamente encerrado com a

conclusão de suicídio. A não ser por aquela

comichão – ele tinha uma comichão quando algo

não se encaixava em um caso –, um sinal de

encrenca, um sinal de alerta. E, geralmente, a

comichão estava certa. Ele chamava de comichão,

outros gostavam de chamar de instinto. O

importante é que ela nunca falhava. Então, quando

se concluiu que se tratava apenas de um suicídio,

ele teve a comichão, mas teve que ignorá-la por

falta de provas ou evidências.

Perez tinha a consciência limpa, pois se não

podia fazer nada, era porque nada ele podia fazer.

Era um bom policial. Considerava-se mesmo um

bom sujeito. Logicamente, em sua profissão, fizera

coisas ruins, mas ele era o cara bom que pegava os

caras maus. Ponto. Acomodara-se ao sistema corrupto com todas as suas falhas e com ele, e

apesar dele, fazia o seu trabalho. Então quando

olhou para aquele aspirante a médico com aquela

desculpa esfarrapada de trabalho de faculdade para

falar com ele sobre o caso Lisânia Afonso Paiva,

sua comichão voltou. Com força total. Aliás, não se

lembrava de tê-la sentido tão intensa assim desde a

noite em que entrou em sua sala uma menina

chamada Catarina Durval há alguns anos atrás.

Aquilo sim era encrenca com E maiúsculo. Mas

como aquela encrenca se tornara uma grande

amiga, ia dar o benefício da dúvida para o rapazote

ali.

− Então, por que o caso Lisânia Afonso Paiva?

− Porque ela estudava com minha namorada.

Minha namorada ainda sofre com isso e, se eu

descobrisse mais detalhes sobre, para o meu

trabalho, talvez também ajudasse minha namorada

a ter um pouco de paz.

Esperto. Muito esperto, pensou Perez. Ele

estava misturando mentira com verdade.

Logicamente era uma questão pessoal.

− Separei a pasta para você. Mas vai ter que

olhar tudo aqui e agora. Nada sai daqui, entendeu?

– estendeu a pasta para ele.

− Posso tirar fotos? – perguntou enquanto

examinava os documentos e fotos da vítima.

− Não! Só pode anotar.

E Lourenço anotou, anotou e anotou.

− Uma pergunta: o senhor em nenhum

momento achou que poderia não ter sido suicídio?

Ah, ele sabia. Ali tinha!

− Achei sim.

− Sério? Por quê?

− Pela posição em que estava a cadeira. Muito

longe do corpo. Se alguém pula de uma cadeira

com uma corda no pescoço, a cadeira tomba

próxima ao corpo, não onde estava. Olhe na foto!

Lourenço olhou. O delegado estava certo.

− O perito não concordou com o senhor?

− Concordou. Mas não tínhamos mais nada,

sabe? Então é o sistema: é melhor um caso de

suicídio esclarecido que um assassinato insolúvel.

E podia mesmo ser que a garota pudesse ter

chutado a cadeira... Ela tinha histórico de agredir a

mãe, uso de drogas, tentativas anteriores de

suicídio, depressão... A garota tava toda ferrada

aqui, se é que me entende – concluiu Perez

apontando com um dedo para a própria cabeça.

− Chegou a ter algum suspeito?

− O namorado. Ele é que achou o corpo.

− Ele achou o corpo?! Não a mãe?!

− Ele entrava e saía do apartamento da garota a

toda hora, acho que tinha a chave... A mãe tinha

perdido o controle. Os dois se drogavam lá na

frente dela... A maior parte do tempo ela preferia

não estar lá.

− Que horror! Mais alguma coisa suspeita sobre

ele?

− Eles tinham tido uma briga feia na véspera e a

mãe disse que foi por isso que ela se matou.

− Sabe o motivo da briga?

− Ela achava que ele tinha corneado ela com

outra garota.

Lourenço assimilou amargamente as palavras

do delegado. Não pôde evitar de pensar em

Lucinda. Teria sido ela a outra? Teria sido aquilo a

coisa que ela fizera a Lisânia? Melhor que

assassinato sem dúvida, mas a simples

possibilidade o enojava.

− Sei. E por que ele foi descartado como

suspeito?

− Falta de provas. Não achamos nada na corda

a não ser o DNA da própria menina. E tinha o

bilhete suicida.

− Entendo.

− Tá, agora é sua vez.

− Minha vez? – perguntou sem entender.

− É. Contei o que eu sabia, agora, você me

conta o que você sabe, que fez você vir até aqui

desencavar essa história. Sem papo furado.

− Eu não sei de nada, delegado. Eu só queria

fazer anotações para um trabalho...

− Trabalho uma ova! Pode ir falando. Sua

namorada. O que ela tem a ver com a história?

− O senhor não acredita em mim?

− Na história de trabalho não. Estou interessado

na história da sua namorada com a garota.

− Mas não tem nada...

− Olha só, ou você abre o bico e me conta umas

verdades interessantes, ou posso arranjar um jeito

de você passar bastante tempo aqui na delegacia...

− O senhor não pode me prender!

− Vem aqui e mente para um policial. Toma

meu tempo com historinha... Acho que é bem sério isso.

Lourenço não podia acreditar. O cara era

esperto demais! Também, onde ele estava com a

cabeça quando resolveu entrar numa delegacia com

aquela história ridícula? Ah, ele sabia: nos filmes

mentirosos a que assistia e em Lucinda, claro. Mas

o que podia contar de verdade para o delegado

Perez que não soasse como sandice?

− O senhor não vai acreditar...

− É bom que seja a verdade! Não importa o

quanto ela possa ser estranha, desde que seja a

verdade! Você também não ia acreditar nas coisas

estranhas que já vi e vivi.

− Na verdade, essa garota que estudou com

Lisânia não é minha namorada. Eu só gostaria que

fosse. Ela está sendo obsediada por um espírito... –

ele não ia dizer que suspeitava dela, apesar de

querer a verdade a todo custo, não podia incriminá-

la, mesmo que com uma história tão louca. – Precisamos descobrir o que aconteceu de verdade

com Lisânia e por quê. Quem sabe assim, o espírito

tem paz e deixa ela em paz.

O delegado olhou seriamente para o rapaz.

Sondou-o para ver se era troça. Ele parecia mesmo

estar falando a sério.

− Você está de sacanagem comigo?

− O senhor pediu a verdade e não tenho outra...

– falou mesmo ciente do quanto ele podia estar

parecendo um maluco.

− Tá com sorte hoje, garoto! Alguns presos

foram transferidos hoje pela manhã para um

presídio e tô com uma cela vaziinha...

− Pelo amor de Deus, delegado!

Lourenço passou as próximas duas horas

xingando a si mesmo dentro de uma cela vazia,

vizinha de outras lotadas, por querer dar uma de

esperto. Como pudera ser tão estúpido? E o

delegado nem lhe deixara dar um telefonema. Ah, mas ele arrumaria um advogado e esse delegado

Perez ia ver... – Pensava assim quando um guarda

o tirou de lá e o conduziu novamente para a sala do

delegado.

− Pelo amor de Deus! O senhor vai me soltar?

− Vou, moleque! Pato novo não dá mergulho

fundo! Você por pouco não se afogou, mas fica

calmo. Eu liguei pra minha mulher e ela ligou... É

que o namorado da cunhada da prima da minha

mulher frequenta um lugar... − Lourenço parecia

perdido. De que raios aquele delegado estava

falando? − A minha mulher já foi lá e disse que é

bom. Ela fala umas coisas, sabe? Então, pode ser

que esse espírito esteja...

− Espera aí! O senhor acredita em mim?

Acredita em espíritos? – Lourenço estava pasmo.

Havia esquecido que muitos brasileiros veem essa

questão da espiritualidade de uma forma diferente e

bastante natural.

− Não acredito nem desacredito. Que têm

coisas por aí, têm. O negócio é o seguinte: esse

espírito deve tá responsabilizando sua amiga pela

morte dela. Então, ou sua amiga a matou ou fez

alguma coisa que fez ela querer se matar. Por isso

que você tem dúvidas se foi suicídio, né? Duvida

da sua amiga?

− Eu tô meio perdido nessa história, não sei o

que pensar. Ela diz que fez uma coisa a ela e que

tem que pagar. Que precisa de perdão – confessou.

– Mas não me diz o que é.

− Sua amiga é a menina que tava saindo com o

namorado dela?

− Não sei. O senhor sabe quem era?

Perez procurou pelo nome nos arquivos do caso

no computador.

− Aqui. Lucinda Antunes. É ela?

− A própria – murmurou Lourenço desolado.

CAPÍTULO 18

 

DESVENDANDO

 

MISTÉRIOS

 

encontro com Jorge Perez. O delegado acabou se Lourenço tinha o peito confrangido desde seu

revelando de muita ajuda e inacreditavelmente

solícito. Ele voltou para a faculdade, mas não para

casa. Não voltaria para casa enquanto não

esclarecesse mais algumas coisas. Lucinda não era

totalmente honesta com ele e ele estava magoado.

Entrou naquela igreja não como um fiel,

embora tivesse solenemente feito uma prece à

entrada, pedindo pelas bênçãos do bem em sua

missão. Isso ele havia aprendido com Lucinda: o

poder da oração. O culto da noite já estava no fim e

por isso recebeu alguns olhares curiosos e

reprovadores das pessoas que se sentavam nos

últimos bancos. Ele não buscou assentos. Encostou-

se a uma parede próxima à saída.

A igreja era grande e simples. O pastor parecia

fazer as orações finais, quando ele localizou o

indivíduo que procurava: Regis do Carmo. Foi um

pouco difícil, porque ele estava bem diferente das

fotos que Perez lhe mostrara na delegacia. O rapaz

tinha ficha por porte de arma, envolvimentos em

brigas e, quando menor, fora apreendido com

drogas.

Não era mais gótico. Que interessante! Todo

arrumadinho para vir à Igreja, embora não pudesse esconder o buraco que o alargador de orelhas tinha

deixado, assim como parte de uma tatuagem de

caveira que era possível ver em seu antebraço

esquerdo – a manga da camisa social que usava

estava arregaçada. O que ela podia ter visto nele?

Não podia entender. Mesmo com suas roupas de

domingo, ainda era comum e... feio.

Sentiu os ciúmes o atingirem com força total.

Era incoerente, porque ele era parte do passado

dela. Mesmo assim, aquilo o incomodara.

Concordara em ajudar Perez com qualquer coisa

que descobrisse e por isso o delegado lhe dissera

onde encontrar Regis e também a mãe de Lisânia. E

ali estava ele de novo bancando o detetive. As

coisas que fazia por causa daquela garota!

Especialmente a menos de duas semanas das provas

finais!

Esperou que o culto terminasse, as pessoas

saíssem e o seguiu para abordá-lo no pátio do lado de fora da igreja.

− Regis do Carmo?

O rapaz se assustou perante a investida do

estranho e olhou para os lados como que buscando

saídas. Parecia assustado, agia como alguém que

deve. Na verdade devia a muita gente.

Financeiramente e moralmente.

− Posso falar um instante com você?

− Sobre o quê? – perguntou desconfiado,

sabendo que aquele não era um frequentador da

igreja.

− Sobre Lisânia e Lucinda.

A reação de Regis apanhou Lourenço de

surpresa. O rapaz simplesmente saiu correndo para

fora do pátio da igreja. Lourenço seguiu-o.

− Espera aí!

Somente os carros trafegando na rua e a

impossibilidade de Regis atravessá-la pôde dar a

Lourenço o tempo de alcançá-lo. Segurou-o pelo braço com força para o espanto do jovem.

− Só quero conversar! Por favor.

Regis assentiu com a cabeça, desolado, como se

uma força maior o empurrasse e o fizesse

concordar. Acompanhou Lourenço até um bar de

equina e deixou que o rapaz lhe comprasse uma

coca-cola, já que sua recente conversão à fé

evangélica o proibia de ingerir bebidas alcóolicas.

Sentaram-se para conversar.

A cara de choro de Regis deixou Lourenço sem

jeito. Ele olhou para os lados, preocupado com o

que aquilo pareceria aos olhos de outras pessoas.

Felizmente, provavelmente os olhos vermelhos do

rapaz pareceriam os de alguém embriagado, coisa

não fora do comum em um bar, apesar da coca-cola

sobre a mesa.

− Eu não tenho paz – choramingou. – O que

aquele demônio quer agora? Agora manda seus

emissários dentro da casa do Senhor?

− Meu nome é Lourenço e sou amigo de

Lucinda. A morte de Lisânia a afetou muito e, pelo

que vejo, a você também.

− Essa é outro demônio! Maldita!

− Você está falando de Lucinda?

− É, a praga do demo! Ela acabou com a minha

vida!

Lourenço estava prestes a saber mais sobre ela

e tinha medo. Parecia que o que estava prestes a

ouvir mataria seu amor pela babá. Ele murcharia

diante de tanta decepção...

− Como assim?

− Ela não é sua amiga? Você deveria saber!

− Saber o quê?

− O que você quer comigo?

− Preciso saber de tudo para poder ajudar ou

tirar ela da minha vida de vez...

− Ah, entendo. Ela fez mais uma vítima... –

falou com malícia.

− Me conta a história toda, por favor.

Regis contou que era gótico quando começou a

namorar Lisânia. Confessou que usava drogas e que

iniciou a namorada no mundo gótico e dos

entorpecentes; pecados dos quais se arrependeu

depois da morte dela, tendo mudado, entrado para a

igreja e se mantido longe de confusão. Mas que

Lisânia gostava demais de tudo que era mórbido e

que por isso se aproximou dele; ela já queria

aquilo. Tinha muitos problemas com a mãe e um

padrasto. Este sumiu e ela achou ótimo. Mas os

problemas com a mãe só aumentavam. Eram gritos,

xingamentos, surras, discussões. Ela vivia dizendo

que queria fugir de casa com ele, mas ele estava

bem em sua casa. Seus pais eram ausentes, mas

assim era melhor.

Ela acabou se contentando com a fuga através

das drogas e estava começando a ficar pior que ele.

Incontrolável. Tentara se suicidar duas vezes antes. Tomou um vidro de comprimidos uma vez, mas a

salvaram no hospital. Ainda na época do padrasto,

cortou os pulsos, mas este a levou a tempo para o

hospital. Segundo Regis, Lisânia era um caso

perdido.

− A pior época da minha vida! Era um inferno!

Eu não sei se eu fazia mais mal a ela ou se era ela

que me fazia mais mal... Nós dois juntos éramos

duas máquinas de autodestruição. Quando ela me

ligou dizendo que ia se matar, de novo, eu não

acreditei... Quando cheguei lá e vi, juro que achei

que era cena... Quando vi que ela estava morta, de

verdade... – O rapaz interrompeu sua narrativa, pois

começou a chorar, o que deixou Lourenço em uma

situação desconfortável, numa mesa de bar com um

marmanjo chorando. – Foi logo depois que ela

descobriu sobre a Lucinda... Depois da nossa

briga...

− O que houve entre você e Lucinda? – Lourenço perguntou corajosamente.

− Cara, não sei qual é a sua com ela, mas se

liga! Ela é diabólica. Aquela vaca! – Lourenço teve

que controlar seu impulso de partir a cara do sujeito

por ofendê-la assim, já que queria a verdade, toda

ela, doesse a quem doesse, mesmo que doesse nele.

– Ela tratava todo mundo que nem lixo! Com

aquele nariz empinado, aquele cabelo loiro, de

comercial de xampu, aquela carinha maquiada com

boquinha cheia de gloss fazendo charme pra todos

os garotos e humilhando as garotas que não eram

da turminha dela! Ela humilhava a gente, eu e a

Lisânia! Chamava a gente de aberração, de zumbis,

de tanta coisa, dizia umas coisas que feriam pra

valer... Aí um dia ela sem mais nem menos

começou a me dar mole, sabe? Falava umas coisas

safadas no meu ouvido. E eu, otário, caí. Me achei

o tal! Crente que ela realmente tava a fim de mim!

Saí com ela e ela conseguiu o que queria. Eu fui um idiota fraco e traí a minha namorada... Ela mesma

contou pra Lisânia com requintes de crueldade e

detalhes. Fez de propósito, só para ferrar ainda

mais com a Lisânia! Como se a Lisânia precisasse

de mais coisa pra ferrar com a cabeça dela!

Eu e sua amiga matamos a Lisânia! Ela se

matou por nossa culpa! Por nossa causa! Desculpa,

mas eu quero que a sua amiga se dane!

Lourenço sentiu uma dor no peito. Aquilo era

aterrador. Saber era bem pior que suspeitar. Então

Lucinda era uma patricinha esnobe e vadia. Como

ele iria lidar com aquilo? Tentou imaginá-la

daquele jeito, com cabelos loiros e tudo mais, mas

teve muita dificuldade. Só conseguia pensar em

seus olhos tristes e bondosos e no quanto ela era

boa com sua irmã. Ela havia mudado. Não era mais

quem quer que tivesse sido antes e, não só na

aparência.

Tudo se encaixava. A mudança tinha sido provocada pela culpa. O choque com a morte da

gótica lhe dera a consciência da responsabilidade

por seus atos. Estranhamente, ser gótica para ela

tinha sido bom. O castigo realmente era merecido e

estava sendo bem aproveitado. Ele não conseguia

deixar de amá-la. Aquilo apenas a tornava humana.

A imperfeição, a contrição e a regeneração só o

faziam admirá-la mais e sua decadência moral

anterior, inauditamente, provocou nele um interesse

excitante. Que loucura! Talvez tivesse mesmo uma

queda por garotas más... Contudo, sentia raiva por

ter sido deixado de fora da história toda!

− Você mudou, não mudou? – retrucou para o

ex-gótico. – Então, não pode julgá-la. Ela também

mudou.

− O demônio também persegue ela?

− Demônio?

− É, o demônio que toma a forma de Lisânia!

− Você quer dizer o espírito dela?

− Não existe isso de espírito! Só demônios...

− Era disso que você falava? Você a vê?

− Toda noite em meus pesadelos! E ela já

apareceu lá na igreja. Tem uma irmã que sofre

dessa fraqueza nos cultos e começa a falar pelos

demônios. Ela se apresentou como Lisânia e disse

que não ia me dar paz, que queria se vingar de

mim! Mas o pastor a expulsou.

− Quando começou?

− Os pesadelos? Desde que ela morreu! – falou

caindo de novo no choro. – Você sabe o que é

carregar uma culpa e não dormir bem à noite? Sabe

o que é ficar sonhando com sua namorada morta

noite após noite te acusando de traição, do

sofrimento dela? Sabe o que é ficar sentindo que

ela está por perto o tempo todo?

− Foi por isso que entrou pra igreja? Pra

conseguir paz?

− É. Mas até agora, não tô tendo muito sucesso... – falou controlando novamente as

lágrimas.

− E se eu te disser que Lucinda tem o mesmo

problema? Ela também sofre de pesadelos e o

fantasma da Lisânia...

− Não me vem falar em fantasmas... Isso é

coisa do demônio!

− Tá, tudo bem – desistiu.

Claramente a questão da existência de espíritos

incomodava o rapaz por motivos religiosos, então,

era melhor mudar a abordagem.

– O que mais Lisânia faz nos pesadelos além de

te acusar? Ela te pediu para fazer alguma coisa? Foi

ela que te pediu para ir para a igreja?

− Não. Ela só me acusa com o olhar e... Peraí!

Ela faz um sinal...

− Sinal? Que sinal?

− Ela junta as palmas das mãos como se fosse

rezar em frente aos lábios e depois abre e vira as palmas para cima, como um gesto de apresentação,

sabe, ou como quem diz que não sabe de alguma

coisa... Assim...

Regis fez o gesto e Lourenço o guardou na

memória. Podia não significar nada, mas queria

interrogar Lucinda a respeito.

− Tá. Só mais uma coisa: conhece mais alguém

que também tenha esses sonhos com Lisânia?

O rapaz pensou por um tempo para responder:

− Não tenho certeza, mas acho que a mãe dela...

− Por que acha e não tem certeza?

− Porque eu fui falar com ela e perguntei e ela

disse que não, mas senti que era mentira. Ela estava

muito perturbada, tipo eu, sabe? A gente se

reconhece no outro. A perturbação dela tava igual.

Mas não posso garantir.

− Faz sentido, já que a mãe e ela não se davam

bem...

− Então, tá. – Regis falou levantando-se após o gole final em sua coca-cola. – Acabamos, né?

Gostaria de dizer que foi um prazer, mas não foi.

Jesus diz pra perdoar, mas sou ser humano, né?

Ainda não dá. Então, não vou mandar lembranças

pra Lu. Se eu mandasse, era ela se... Melhor não,

xingar é pecado.

− Obrigado então – falou Lourenço.

CAPÍTULO 19

 

CIÚMES E REVELAÇÕES

 

uma vez mais, por telefone, para dizer que havia Lourenço só entrou em contato com o delegado Perez

conversado com Regis, mas que não acreditava que

ele tivesse matado a garota e que, além de Lucinda

e dele, o fantasma perturbava a mãe. O mais

provável é que ela tivesse se matado mesmo. O

delegado não expressou nenhuma surpresa.

Aquelas eram as conclusões a que havia chegado

há quase dois anos atrás.

Entretanto, a comichão continuava lá. Pensou

em falar novamente com Dona Delvina, mãe de

Lisânia ou com Lucinda. Mas o que diria depois de

dois anos? Como abordar uma mãe sobre a

dolorosa morte da filha depois de tanto tempo,

baseado em suposições sobrenaturais? O melhor

era deixar como estava, a não ser que o tal rapaz

obtivesse algum dado relevante novo em sua

cruzada de caça-fantasma.

Lourenço quis muito esperar, mas não pôde.

Depois do que ouviu de Regis, precisava conversar

com Lucinda. E precisava observá-la. Na primeira

oportunidade que teve a sós com ela, levantou o

assunto. Eles voltavam da casa de Noemi, na sexta

à noite.

Lourenço voltara a levá-la e buscá-la, sob a

promessa de manter uma distância respeitosa e

pouco se falarem. Naquele dia, ele havia acabado

de passar por uma semana de provas. Estava exausto, dormira pouco, estudara madrugadas

adentro no alojamento da faculdade, com muito

esforço para se concentrar nos assuntos que não o

de seu coração.

Novamente o local escolhido foi o

estacionamento do prédio onde morava. Quando ele

desligou o motor do carro e olhou para ela, ambos

sabiam que não sairiam do veículo no mesmo

instante. Havia algo a ser dito. Evidentemente,

havia também lembranças de beijos e carícias que

eram torturantes pela saudade que geravam.

Contudo, a lembrança do que veio depois freou os

instintos básicos e a vontade louca de se

entregarem um ao outro. A razão venceu a emoção.

− Preciso te falar uma coisa.

Lucinda prendeu o fôlego. Temia o que ele

pudesse lhe dizer. Não podia querer que ele

retomasse o assunto do relacionamento dos dois,

porque não podiam e da última vez as consequências foram graves. Por outro lado, tinha

medo de que fosse o contrário, que ele lhe

anunciasse uma nova namorada, que a havia

esquecido... Ela com certeza preferiria a primeira

opção.

− Eu falei com Regis – prosseguiu. Viu os

olhos azuis de Lucinda arregalados de pavor, mas

não podia poupá-la. – Sei o que você fez.

Os olhos da moça se encheram de lágrimas e

Lourenço detestou ter de falar naquilo, não queria

ser cruel com ela. Mas um lado dele, talvez aquele

mesmo lado preconceituoso que o fizera tratá-la tão

mal de início, um lado machista e possessivo que se

roía de ciúmes não podia resguardá-la de confrontar

a verdade com ele. Ele precisava que ela contasse

sua versão. Ele queria que ela dissesse tudo, não

importando o quanto fosse doloroso.

− Não vai dizer nada?

Ela negou com a cabeça, o rosto agora coberto de lágrimas cinzas por causa da maquiagem dos

olhos, assim como ele havia visto naquele dia na

Continuar: parte 4 de 4