A clínica psicanalítica na contemporaneidade
Apresentação
Passados pouco mais de cem anos da inauguração deste novo campo de saber, insiste a pergunta sobre quais modificações se operaram, no decorrer deste século – se é que de fato ocorreram –, na forma como é tomado o sofrimento psíquico e qual é hoje o estatuto da direção da cura na psicanálise. A ocupação e a preocupação com afecções dessa ordem na contemporaneidade são o norte que orienta os textos constantes deste livro, os quais são fruto do Curso de Extensão "A prática clínica psicanalítica" – coordenado conjuntamente com a professora Liliane Seide Froemming e promovido pelo Departamento de Psicanálise e Psicopatologia do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), no período de março a julho de 2004 – que reuniu os colegas autores, aos quais agradeço a oportunidade de trabalho compartilhado.
O retorno a alguns elementos balizadores (da teoria e da técnica) estabelecidos por Freud e Lacan – entrevistas preliminares, a transferência na clínica com crianças, os avatares da adolescência, a discriminação entre fantasia e fantasma, ato e interpretação – compõe a primeira parte deste livro e revela preocupação com o rigor do trabalho do psicanalista.
O psicanalista estuda, opera, reconstrói conceitos quando uma pergunta se funda para ele, a partir de sua prática clínica. É tarefa da psicanálise a escuta do emergente, como também do sofrimento que na cena cotidiana aparece com freqüência. Freud, em sua produção teórica, fala de seu trabalho, de sua pesquisa, de seus impasses na condução da clínica de seu tempo e comprova que esta desarruma, desarticula os conceitos, inclusive os fundamentais. Porém, se a clínica desarruma os conceitos, ela também os renova. Este é o trabalho de pesquisa do psicanalista: construir e reconstruir conceitos a partir daquilo que sua prática clínica cotidiana aporta de novo.
Os artigos sobre a direção da cura nas estruturas e quadros clínicos, revisitados à luz dos novos tempos, compõem a segunda parte do livro. As psicopatologias contemporâneas têm gerado discussões nos mais variados âmbitos: desde a área da saúde mais ampla, incluindo o meio médico, como também na mídia e na população em geral. De um lado, estão os laboratórios e o marketing em torno de seus lançamentos; de outro, o sujeito em sofrimento e a constatação de que as doenças também são fruto da modernidade, malgrado os avanços científicos.
Desde Freud, que inaugurou a psicanálise oferecendo uma possibilidade de escuta a suas histéricas para além de um corpo que se oferecia em sacrifício, o que mudou em torno do sofrimento psíquico?
As diretrizes estabelecidas pelo pai da psicanálise no decorrer de sua obra foram renovadas por Lacan no seu retorno àquele. Os quadros nosográficos, tomados a partir do que hoje orienta a escuta do sofrimento psíquico contemporâneo, encarnam nuanças retiradas do laço e do discurso social enquanto o sujeito não é refratário ao contexto que o constitui.
Freud colocava, no seu sempre atual texto sobre o mal-estar na cultura, que o recalque das pulsões para conviver em sociedade está na origem da neurose, dos sintomas. Neste sentido, o sintoma é social e não está dissociado disso que também constitui o sujeito. O que o sujeito produz como montagem sintomática é fruto do tempo e do meio em que vive, pois ele está imerso neste universo. Suas produções não são refratárias ao seu universo cultural, histórico e temporal. O sintoma precisa, então, ser contextualizado como sintoma na cultura.
As doenças da modernidade devem ser pensadas na relação sempre conturbada do sujeito com o mundo – o mal-estar na cultura hoje. Freud as interpretava à luz de seu tempo e contexto sócio-histórico-cultural. Quais modificações a cultura promove no sintoma individual e social hoje? Que efeitos a modernidade provoca nas subjetividades contemporâneas? Estas são algumas das perguntas que orientam os artigos que compõem este livro.
O texto "As entrevistas preliminares e a clínica psicanalítica" abre a discussão afirmando que as entrevistas são preliminares à análise e não ao trabalho, pois nelas já há trabalho. O analista não espera o fim das entrevistas iniciais para estar na posição de analista, refere a autora. É preciso que o analista esteja ali desde o início, desde o primeiro dia, respondendo com um ato, ato de palavra, ao pedido do paciente. As entrevistas preliminares objetivam a escuta do discurso do sujeito do inconsciente. Aí já a psicanálise propõe uma subversão à ciência – que se sustentava da clínica do olhar e da descrição fenomenológica dos sintomas – com a clínica da escuta e da inclusão do sujeito no seu sofrimento.
Logo a seguir, o artigo "Sobre a clínica psicanalítica com crianças" retoma as particularidades, se é que elas existem, do trabalho com crianças. O texto também interroga se seria possível delimitarmos uma condição estrutural específica para o sujeito infantil. Para isso, o autor afirma que as formações do inconsciente contêm inscrições estruturadas na infância, e, nesse sentido, estão antecipadas discursivamente ao sujeito. Porém, se a estrutura é anterior à existência do sujeito, também é verdade que um bebê não nasce com ela já inscrita em seu corpo. Um longo caminho precisa ser percorrido para que esta inscrição aconteça. Dessa forma, o sujeito encontra-se exposto a uma dupla demanda na infância: de ser adulto, naquilo que lhe é antecipado desde o Outro; e de ser criança, a partir de sua condição infantil. Entre outras questões, esses fenômenos vão ter conseqüências para se pensar o lugar transferencial que o analista ocupa diante de uma criança, a especificidade do sintoma na infância e o lugar do brincar na psicanálise com crianças. É a partir destas três vertentes que o autor vai trazer suas contribuições ao tema.
"A ultrapassagem do pai na adolescência", terceiro artigo do livro, detém-se especialmente sobre a operação de validação da inscrição (ou forclusão) do Nome-do-Pai. Esta operação sustenta-se na metáfora paterna, que atribui ao Pai um saber sobre o desejo incomensurável da Mãe. A partir daí, a Mãe primordial e fálica perde sua qualidade de Outro real tornando-se o Outro da linguagem, simbólico, cuja consistência imaginária é dada pelo pai, quer seja o da realidade, quer seja o presente no discurso materno. Na adolescência, essa metáfora perde seu valor, devido à desqualificação sofrida pelo pai e pela família em encarnar imaginariamente o Outro (o Pai simbólico). Há um luto do pai a fazer, e é neste sentido que a autora refere-se a ultrapassagem. Em tal luto, tratar-se-ia simplesmente da morte do Pai idealizado da infância? O desdobramento desta questão vai nortear o desenrolar do artigo.
Em "Construção da fantasia, constituição do fantasma", a autora percorre a trajetória da construção do conceito de fantasia em Freud, dando destaque para o momento em que ele apresenta a fantasia como uma construção, incluindo aí três tempos. O texto teoriza sobre a constituição do fantasma que se desdobra da construção da fantasia. O modelo freudiano da construção da fantasia pela inclusão do sujeito na cena se torna, então, paradigmática da própria constituição do sujeito e designa, portanto, a necessária passagem pela condição de alienação ao campo do Outro. A autora acrescenta, ainda, que a fantasia vela o enigma; levantar o vel da fantasia para encontrar a estrutura do fantasma – a condição de duplicação, de divisão do sujeito – sustenta a autora ser a tarefa inicial de uma análise que se constitui, ao longo de todo percurso, em um de seus principais operadores.
O artigo "Interpretação, ato e referência temporal" traz a preocupação com o cotidiano da prática clínica, com a atividade do psicanalista durante a sessão, seja ela uma atividade interpretativa, de pontuação, de construção, etc. Essa atividade evidencia um certo trabalho, sustentado por uma referência ao saber. O saber em causa, na clínica psicanalítica, é aquele que sustenta o inconsciente como o insabido. Não se trata de um saber consciente, intuitivo ou resultante do tempo de prática e experiência. Todos estes saberes produzem seus percalços, pois se ligam a uma certa antecipação que se antepõe ao percurso que o próprio analisante precisa fazer. De outro lado, um saber que a autora chama provisoriamente de saber operativo é o responsável pela atividade interpretante. Deste não se sabe antecipadamente muita coisa, na medida em que se organiza da mesma forma que a produção do sujeito do inconsciente, no a posteriori. Da estreita ligação que se estabelece, então, entre saber, ato e temporalidade é que a autora vai extrair conseqüências para pensar nos desdobramen- tos que o analista acompanha nos percursos de uma análise.
Abrindo a segunda parte do livro, composta por artigos sobre a direção da cura nas estruturas e nos quadros clínicos, encontra-se o texto "A clínica da 'nova histeria'", que trata das novas formas de histeria, ou melhor, se haveria novas formas de histeria e em que elas se diferenciariam da histeria tipicamente freudiana. De qualquer modo, a maioria dos psicanalistas concorda que a forma de um sintoma se adapta ao relevo social de sua época; o sintoma articula-se ao discurso social. Não há como dissociar o indivíduo do tempo e do meio no qual vive. Neste sentido, a nova histérica – "se é que ela existe" – se constrói na articulação mesma entre o laço e o discurso social. Este é o desdobramento proposto neste artigo, à luz do laço e sintoma social contemporâneos. A busca de um lugar que funde sua existência caracteriza as mulheres. A autora propõe trabalhar estas questões a respeito de alguns exemplos clínicos para ajudar a pensar como os sujeitos atualmente buscam modalidades de inscrição simbólica através de formações imaginárias. Porém, que novos sintomas se produzem aí? Quais são os sofrimentos que a histérica produz hoje? Essas são perguntas que orientam a produção deste artigo.
A sintomatologia obsessiva caracteriza-se pelos rituais, pelas dúvidas, pela fala repetitiva ou pelo mutismo, pelas ordens, pela submissão e, também, pelo exercício sexual propenso a celebrar a grandeza do Outro ou reparar suas faltas. Em geral, o psicanalista em sua prática incomoda-se com esses sintomas mais do que os próprios neuróticos. "Por que o incômodo?", pergunta-se a autora no artigo "Neurose obsessiva: algumas especificidades". "Talvez porque frente a eles não saibamos mais qual nosso lugar". Todos podemos, em alguma medida, portar traços obsessivos, mas é a defesa contra a castração que indica ao psicanalista quando se trata de uma patologia. Como opera a defesa contra a castração e o desejo? O que a clínica nos mostra como específico da defesa obsessiva? Estas questões norteiam o desenvolvimento do artigo e são as que a autora propõe desenvolver a partir da análise da relação ao Outro, da operação de defesa e da direção do tratamento.
"Uma história para se incluir: a direção da cura na clínica das psicoses" é o artigo que alerta sobre o rigor necessário à formulação de um diagnóstico – isso porque, evidentemente, a direção da cura será muito diferente caso se trate de uma neurose ou de uma psicose. Este texto trata, ainda, de circunscrever as especificidades de uma crise psicótica e o processo de constituição de uma narrativa delirante, que passa a ser a construção da história do sujeito psicótico. Por não contar com a referência histórica, simbólica, o sujeito psicótico tem de construir uma história para si, uma história na qual possa se incluir e na qual possa se reconhecer. Neste sentido, sustenta a autora, a direção do tratamento na clínica da psicose baseia-se fundamentalmente na escuta do delírio, cabendo ao analista o lugar de testemunho e aposta nesta construção, possibilitando ao paciente o acesso a uma posição subjetiva.
O artigo "As várias cenas da melancolia e da depressão" inicia por definir a depressão – termo extraído do mercado de valores, da economia em alta, em baixa – como o quadro clínico que, francamente no decorrer do século XX, passa a substituir, no vocabulário médico, a histeria. Como na economia – que não reserva lugar para os "em baixa" –, a depressão também se vê banida do mercado, seja pela medicalização, seja pela rejeição e retirada do mundo dos "em alta". A autora propõe pensar qual, então, seria o estatuto da depressão na psicanálise, na medida em que não compartilha com o imperativo de alta. Num segundo momento do texto, a melancolia é tomada como da ordem da relação ao primeiro objeto, ao início da vida de um sujeito, pois se situaria nos esboços da precoce relação com o Outro o ponto de fixação do melancólico. O sujeito melancólico padece de um excesso de falta nesse tempo da constituição, ou seja, carência de presença do primeiro Outro, sua mãe, no que se refere aos cuidados que essa presta ao bebê. Estas são algumas das considerações que a autora vai sustentando ao longo de sua exposição, para avaliar aquilo que julga ser o quadro que aparece com maior insistência no discurso contemporâneo.
O artigo "O fóbico e seu acompanhante" trata da fobia, que, embora surja com freqüência junto a inúmeros quadros e estruturas clínicas, aparece privilegiadamente na adolescência. O adolescente é também aquele que se vê às voltas com um corpo evidente demais: um corpo que transborda. Se a adolescência é a passagem de uma imagem do corpo à outra, que função cumpre aí o semelhante, o duplo, o espelho? O outro primordial, que fazia função especular na infância, cede seu lugar ao par (amigo, colega) na adolescência? A fobia pareceria também lidar com uma passagem, ou seja, passagem da relação imaginária com a mãe em torno do falo (imagem fálica) ao jogo da castração na relação com o pai. Portanto, a fobia pode se colocar como fobia de espaço, sendo o resultado direto da impossibilidade de marcar fronteira entre o eu e a demanda do Outro. O que é isso que opera a distância, que deixa advir um "espaço" entre o sujeito e o outro? É a metáfora do Nome-do-Pai, o ao menos um que saberia dar conta da demanda indeterminada do outro. Esse saber, porém, é limitado. O fóbico seria justamente o sujeito que "saberia" do limite deste saber. Qual é o papel do acompanhante contrafóbico (o familiar, o estranho, o duplo, o rival) que ajuda o fóbico a recortar espaços, limites? Pensar o lugar deste outro, que pode ser o do espelho, é o que propõe a autora.
Em "Toxicomania(s)", artigo que encerra o livro, o autor chama a atenção para a necessidade de uma abordagem não só química, mas também psíquica da droga, o que ajuda na compreensão dos fenômenos toxicomaníacos. Baseado nas atuais vertentes de tratamento desta questão, ele propõe tomar o tema para além de uma visada policialesca ou moral e sugere pensar também nas engrenagens que movimentam o universo das drogas. O que interessaria, a partir de um viés psicanalítico, é analisar qual a posição psíquica que a droga ocuparia para o sujeito. A partir daí é que se poderiam estabelecer algumas diferenças entre sujeitos toxicômanos, usuários de drogas, usuários eventuais, usuários recreativos, etc. O sujeito tenta responder de uma maneira concreta – por meio da droga – a uma operação psíquica; ou seja, diante de um sofrimento, de uma dor psíquica, apela para a "droga", um agente químico e exterior que atuaria sobre o organismo, mas para responder a uma demanda psíquica. Existiria, então, nestes sujeitos, uma equivalência entre estrutura do aparelho psíquico e estrutura orgânica. O autor ainda chama a atenção para o lugar que a droga ocupa no psiquismo e a posição que o sujeito toma frente a este objeto.
Esta é a série de textos que compõem este livro e que propõem ao leitor uma aproximação ao universo da clínica psicanalítica, do sofrimento psíquico, da forma como ele se apresenta na contemporaneidade.
Carmen Backes
Organizadora