A clínica psicanalítica na contemporaneidade

Carmen Backes · Capítulo 4 de 13

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A clínica psicanalítica na contemporaneidade

A ultrapassagem do pai na adolescência

VALÉRIA RILHO

 

A ultrapassagem do pai na

adolescência

 

Do ponto de vista psicanalítico, a adolescência não é uma mera etapa do desenvolvimento como preconiza a psicologia. Rassial (1997) a descreve como uma pane no desenvolvimento, que requer uma série de operações psíquicas, podendo ocorrer em outra temporalidade do que na puberdade, ainda que a ela esteja associada. O adolescente está sempre confrontado a um risco de pane, porque ele deve realizar de novo, e a posteriori, várias operações fundadoras já efetuadas na infância. Mas, apesar destas serem articuladas entre si, nosso empenho deter-se-á especialmente sobre uma delas, aquela de validação da inscrição (ou forclusão) do Nome-do-Pai.

Como lembra Rassial, a operação primária de inscrição do Nome-do-Pai consiste na ancoragem simbólica do lugar do Outro e sustenta-se na metáfora paterna, que atribui ao Pai um saber sobre o desejo incomensurável da Mãe. A partir daí, o Outro perde sua qualidade de Outro real (que foi a Mãe primordial e fálica), tornando-se o Outro da linguagem, simbólico, cuja consistência imaginária é dada pelo pai, quer seja o da realidade, quer seja o presente no discurso materno.

Na adolescência, diz Rassial (1997), essa metáfora perde seu valor devido à desqualificação sofrida pelo pai e pela família em encarnar imaginariamente o Outro (o Pai simbólico). Em acréscimo, a promessa paterna edípica – que requer a renúncia ao gozo (incestuoso) em troca do gozo ao qual o filho terá acesso mais tarde como dom transmitido pelo pai – revela-se enganadora. De um lado, porque o gozo genital é também parcial e, portanto, não garante nenhuma relação sexual; de outro, porque o gozo absoluto é, mais uma vez, adiado e, desta vez, reenviado à morte. O sujeito fica, então, confrontado ao desespero da vacuidade do lugar do Outro até que ele possa encontrar uma nova encarnação imaginária do Outro, a do Outro sexo.

Esse momento, o da desidealização dos pais, é estruturante, mas comporta uma situação de risco subjetivo, adverte o autor (com exceção dos casos em que à família se suceda um Outro laço grupal que obedeça a mesma lógica – como a Igreja ou o Exército –,

nos quais o sujeito fica protegido dessa prova). 1 Fora disso, a operação secundária de inscrição dos Nomes-do-Pai (agora, no plural) terá que funcionar além da metáfora paterna.

Cabe recordar aqui a queixa de um jovem universitário, vinte e cinco anos, que estava sofrendo de depressão, desinteresse pelos estudos e falta de motivação para a vida em geral. Havia perdido o pai já fazia alguns anos, mas, somente após ter tido sua carreira militar interrompida a contragosto, percebia-se vivenciando a morte do pai. Fica evidente, nesse caso, que há um luto do pai a fazer, o qual somente se impõe após sua saída do Exército. Mas não seria isso algo a ser feito necessariamente por todo e qualquer adolescente? E tal luto seria simplesmente da morte do Pai idealizado da infância? Senão vejamos.

Na fantasia infantil edípica, o que se destaca é o pai-rival, duplo do Pai – o qual, se por um lado, se apresenta ao infans como obstáculo ao gozo da Mãe fálica, por outro, é quem lhe garante a inclusão numa filiação. Em nome do Pai, o filho renuncia ao desejo de matar o pai e ao ato incestuoso em troca da promessa de, quando grande, aceder ao gozo enquanto dom (símbolo de amor) paterno. O sujeito fica, assim, impossibilitado de reconhecer-se nos atos que produz, pois, a partir daí, todo ato representa o ato inaugural de assassinato do pai. Condição essa típica do sujeito infantil e facilmente constatável na posição passiva da criança em relação aos seus atos; o ato (e o desejo que o produz) é sempre do Outro. Trata-se, aliás, da mesma passividade encontrada por Freud nas reminiscências infantis (ou fantasias de sedução) de suas pacientes histéricas (Costa, 1998). No lugar do ato, o sintoma neurótico. Ante a fantasia de morte do pai, o sintoma consiste em erigir o Pai oferecendo-lhe a impotência (castração imaginária) do

filho. Por isso, para Freud (1988c), 2 a entrada nas relações de parentesco, apesar de civilizatória, é sempre sintomática: civilizatória, porque permite a identificação com aqueles que compartilham o mesmo referente paterno; sintomática, porque é uma posição de sacrifício a que sustenta a ereção de um Pai grandioso.

Isto posto, na adolescência, é inevitável que a convocação feita ao sujeito à saída dos laços estritos de parentesco para ocupar um lugar social venha a interrogar a estrutura já estabelecida. Como lugar social, entendemos a entrada no terreno das relações amorosas e das identidades coletivas, tais como a pertença a diferentes grupos: sexual, social, profissional, religioso, político, etc. Mas, principalmente, diz respeito à identidade sexual assumida antecipadamente na infância e que, agora, requer, pelo ato, uma confirmação. Tal apelo, por um lado, coloca o adolescente em posição de assumir-se como sujeito de um ato (ou desejo) até então suspenso em nome do Pai. Por outro, o conduz ao encontro da diferença sexual (impossibilidade da relação sexual) – pois, como já vimos, o gozo genital também é parcial –, e ao encontro da finitude (mortalidade) do pai, através da inserção na cadeia geracional. O pai é designado, assim como o filho, como elo na cadeia das gerações, garante provisório e parcial da permanência do Nome na cadeia dos significantes. Com isso, o pai perde sua qualidade de Outro e passa a ser um ser mortal como qualquer outro, inclusive como o próprio adolescente. Isso pode explicar, em parte, o fascínio que os jovens encontram nas vivências de situação de risco de morte, tais como a experiência com drogas "pesadas", com aventuras e esportes radicais, etc. É como se fosse preciso testar a possibilidade de morrer. Mas, antes do que a sua, parece que é a mortalidade do pai que necessita ser provada. Ponto este difícil de ser encarado, pois, com a morte do Pai, o Outro perde seu arrimo, e o sujeito, seu referente a partir do qual situava sua existência no mundo. Por isso é tão comum encontrarmos adolescentes em estados depressivos (do tipo, "Para que eu existo?" ou "Por que me botaram no mundo?") que podem se alternar com estados maníacos.

Disso resulta que o ato (e o desejo) deixa de ser equivalente ao ato de assassinato do Pai. Se, na infância,

[...] era o fantasma edípico [a morte do pai] que, colocando-se

em jogo pela mímica de um assassinato, assegurava a

transmissão; o adolescente descobre que esse pai, que se

parece com ele, é mortal, no real, de uma morte "sem causa", e

que, logo, a transmissão se ordena como perda. (Rassial, 1997,

p. 15)

Perda do quê?

No fragmento clínico anteriormente descrito, pode-se constatar na fala do paciente uma certa "coincidência" entre o que chamaríamos a morte do Pai simbólico da infância, a ser franqueada por qualquer adolescente, e a morte de seu pai. A saída "forçada" da instituição militar produz um certo encontro, o qual tem efeito de uma perda. Perda de um lugar de filiação, pois – no seu dizer – perdeu seu rumo e também sua origem, já não mais tem casa para onde voltar. A casa que havia comprado com suas economias, era agora ocupada por sua mãe e um de seus irmãos mais novos com sua respectiva família, o qual passava por uma situação financeira precária. Enquanto filho mais velho, desde cedo viu-se responsável pela mãe e seus irmãos, na medida em que parecia não poder contar com o pai. Este tratou de rapidamente dilapidar o pequeno patrimônio que a mãe havia herdado de sua família. Além disso, o pai bebia e maltratava sua mãe, o que acabou levando à separação parental quando ele contava aproximadamente seis anos.

Não obstante sua história, triste história familiar, por si só ela não justificaria seu atual estado de fragilidade subjetiva. Talvez poderíamos encontrar sua razão nos motivos que o levaram a sair do Exército se tivéssemos tido oportunidade de indagá-lo. Seja como for, sabemos, a partir de Freud (1988b), que tal instituição, assim como a Igreja, desempenha a função de fazer suplência ao Nome-do-Pai, dando consistência imaginária ao significante paterno, a condição de recalcar o ato (e desejo de morte) do sujeito que produz tal referente. Nesse sentido, é perfeitamente compreensível que, somente quando fora, veja-se confrontado com a morte do pai de sua infância, quem encarnava imaginariamente o Outro até então.

É de se supor que sua inserção na ordem militar tenha lhe dispensado do necessário trabalho de saída do adolescente dos laços familiares. Saída de um lugar de filiação, que encontraria seu termo na produção de um registro singular pelo qual um sujeito se represente no discurso social. Ocasião em que se impõe a necessidade de deslocamento da representação do único filho amado pelo pai à representação do um entre outros. Nesse sentido, a instituição militar, apesar de ser uma instituição social, constitui uma espécie de prolongamento da família, pois é promotora da identificação ao Ideal de eu, representante paterno superegóico.

O romance familiar freudiano poderia ser tomado como um dos tempos lógicos dessa operação de saída adolescente, aquele no qual se trata de constituir o lugar do Eu narrador, à diferença da criança que era narrada pelo discurso parental (Freud, 1988a). Consiste na duplicação das figuras parentais para idealizá-las ou degradá-las em consonância com a ambivalência própria ao desejo inconsciente. Os roteiros mais comuns dessas fantasias são a dúvida em relação à paternidade, o desejo sexual da mãe por outros homens e a depreciação dos irmãos. Segundo Freud, a finalidade de tais fantasias seria constatar a fragilidade real dos pais amados e idealizados da infância, uma das tarefas mais dolorosas com a qual o adolescente tem de se confrontar a fim de se subtrair da autoridade dos pais. Nas palavras de Poli (2005), visaria à construção de uma fantasia que suporte esse movimento de saída das relações primárias, abandonando seus pais e assumindo um novo lugar na cadeia de gerações.

Costa acentua que a duplicação surge da necessidade de inclusão do eu naquilo em que se representa, produzindo uma narrativa na qual o eu é, ao mesmo tempo, autor e objeto narrado. A autora explica que tal inclusão opera-se a partir de um luto, pois

[...] cada processo de representação (o que chamamos de

"registro") resulta de uma perda e, no lugar mesmo dessa

perda, o eu se faz representar. Quer essas perdas sejam

designadas freudianamente de castração feminina, ou morte;

ou mesmo lacanianamente de perda de gozo, é a partir desse

registro – que funciona como um traço de sujeito – que o eu se

inscreve. Essa perda de gozo é uma perda corporal que faz,

paradoxalmente, um corpo como existente. (Costa, 2003, p. 83)

Isso nos permite entender o motivo pelo qual algumas ocasiões da vida – nascimento de irmão, adolescência, maternidade, paternidade, climatério, etc. – são geralmente momentos de crise e, como tal, produtores de sintoma. São momentos de passagem de um registro a outro do sujeito, no qual algo se perde, produzindo uma clivagem do eu, ao fraturar sua imagem unificadora. É então que, através do sintoma, o eu se faz representar pelo elemento que faria a junção dos dois registros, transpondo a impossibilidade de comunicação entre eles.

A metáfora paterna é exemplar de um tal processo representacional, ao qual Freud chamava de recalque. Substitui o desejo inominado da Mãe pelo significante do Nome-do-Pai, o falo, traço a partir do qual o eu se inscreve. Contudo, tal operação deixa um resto do desejo materno insubsumível ao significante paterno, o objeto a. O sintoma fóbico, por exemplo, surge precisamente do encontro com o objeto causa de desejo, abismo que ameaça tragar o sujeito.

O complexo de Édipo, na infância – bem como o romance familiar, na adolescência –, seria a versão fantasmática produzida pelo sujeito para dar conta dessa divisão do eu operada pelo recalque. Quando reconta a experiência vivida, o eu se inclui naquilo que conta ao transformar o impossível (juntar falo e objeto a) em proibido (o incesto), erigindo, às custas do sintoma, o duplo paterno (o pai-rival) como agente da proibição. Assim o fazendo, é através do lugar paterno que o eu se faz representar.

Portanto, pode-se considerar, como o faz Poli (2005), a operação adolescente – no que ela também é a transposição de um registro a outro – como um autêntico trabalho de luto, pois a substituição de uma representação por outra não se faz sem a perda do lugar de onde o sujeito se representava até então, o referente paterno.

O luto, diz Costa (2003), traz a radicalidade de uma falta sem substituição, o que outrora impunha a necessidade de rituais coletivos a fim de compartilhar algo de uma experiência incomunicável. Com a perda da eficácia dos ritos iniciáticos na sociedade moderna, tal trabalho transformou-se num processo subjetivo, ficando a cargo de cada neurótico reconstituir a falta nos laços que sustenta. Por essa razão, veremos, muito comumente, o eu se fazer representar no laço social através da demanda de reconhecimento (de ser o filho amado pelo pai), tentando fazer uma junção entre seu lugar na instituição e na família.

Porém, tratar-se de um trabalho subjetivo não significa que seja um trabalho solitário. A qualquer leigo no assunto, é notória a importância que os pares adquirem nesse momento da vida. Mais do que isso, afastando uma referência exclusivamente individual, Costa destaca a relação entre perda e produção coletiva. Apoiando-se no mito do assassinato do pai da horda (Freud, 1988c) como uma alegoria da perda do gozo absoluto graças à renúncia fraterna em ocupar o lugar do pai, a autora afirma que o reconhecimento e a identificação de uma coletividade podem transpor a perda. Precondição de constituição do sintoma neurótico como sintoma social.

Se disso o adolescente virá a constituir sintoma ou sinthoma, vai depender da possibilidade de cada um produzir um registro singular no discurso social que lhe permita uma referência que não seja aquela exclusivamente fálica. Trata-se de algo que pode ou não acontecer.

A proposição de Lacan acerca do sinthoma permite a Rassial (1997) pensar que a saída da adolescência resultaria numa solução de tal impasse, qual seja, o da clivagem entre corpo pulsional e discurso. Isso requer a invenção de uma forma de representação do sujeito que encontre ressonância do lado do Outro, situando um ponto no qual o sujeito se separe ("se pare", do verbo parir-se) do discurso. Lacan traz o exemplo de Joyce, que, reinventando a língua através de sua escrita, faz de seu nome um índice de ultrapassagem do impossível de se escrever (o enigma do Outro sexo) ao superar os limites de representação que sua cultura oferece.

Em Freud (1988b), poderíamos apontar o mito do herói situado pelo autor como marco da saída progressiva do indivíduo de uma psicologia coletiva à psicologia individual. De certa forma, o poeta épico, através da ficção (fantasia) do herói, reconta o mito do pai da horda: exclui-se do grupo de irmãos, realizando a façanha heróica (matar o pai), para poder se incluir em uma história. Mas o detalhe é que tal fantasia se inscreve como produção coletiva compartilhada com seus contemporâneos, já que os convoca à identificação ao herói. O autor, lembra Poli (2005), faz do poeta, criador dos mitos, o verdadeiro herói de um povo: é aquele que consegue, por meio da criação do personagem do herói – representação do ideal do eu – suplantar o pai e assumir seu lugar graças ao recurso da imaginação criativa. O poeta é, assim, a primeira representação de uma divindade. Fazê-lo sem recorrer à metáfora paterna equivale a inventar-se um Nome-do-Pai. Logo, fazer sinthoma é fazer um nome, conclui Poli (2005). Assim, mesmo sendo um ato que não prescinda do testemunho dos semelhantes, vale a advertência da autora: o sinthoma é sempre da ordem do singular, só pode ser feito um a um, e, como tal, não há nada que o condicione ou o garanta previamente.

 

Referências

COSTA, Ana. A ficção do si mesmo: interpretação e ato em psicanálise. Rio de Janeiro: Cia. de Freud, 1998.

. Tatuagem e marcas corporais: atualizações do sagrado. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.

FREUD, Sigmund. La novela familiar de los neuróticos. In: . Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1988a. v. 9.

. La psicologia de las massas y análisis del yo. In: . . Buenos Aires: Amorrortu, 1988b. v. 18.

. Totem y tabu. In: . . Buenos Aires: Amorrortu, 1988c. v. 13.

LACAN, Jacques. O sinthoma (1975-76). Não publicado. POLI, Maria Cristina. Clínica da exclusão: a construção do fantasma e o sujeito adolescente. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005. (Coleção Clínica Psicanalítica).

RASSIAL, Jean-Jacques. A passagem adolescente: da família ao laço social. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1997.