A clínica psicanalítica na contemporaneidade

Carmen Backes · Capítulo 6 de 13

Páginas do PDF

A clínica psicanalítica na contemporaneidade

Interpretação, ato e referência temporal

ANA COSTA

 

Interpretação, ato e referência

temporal

 

As questões que proponho tratar podem ser inseridas na preocupação com o cotidiano da prática clínica. Começarei abordando aquelas que dizem respeito à atividade do psicanalista durante a sessão, seja ela interpretativa, de pontuação, de construção, etc. Essa atividade evidencia um certo trabalho, sustentado por uma referência ao saber. O saber em causa na clínica psicanalítica é aquele que sustenta o inconsciente como o insabido. Nesse sentido, não se trata de alguma coisa positivada, que se situaria do lado de um saber consciente, de um conhecimento.

Precisa-se, no entanto, considerar que por vezes essa relação ao saber coloca-se na contracorrente do próprio trabalho analítico. Nesse momento, podemos evidenciar uma estreita inter-relação com referências temporais. Estas referências podem nos ajudar na apresentação de questões complexas, permitindo um exercício de abordagem desses "saberes" na sua relação ao tempo.

Primeiramente, na clínica, encontraremos uma forma de "saber" intuitivo, ou mesmo resultante do tempo de prática. Ele se constitui como esses "depósitos" do tempo que vão sedimentando as experiências e que produzem seus percalços. Aqui, o tempo que orienta a relação ao saber é a antecipação. Ou seja, quando algo do lado do analista se antecipa ao percurso que o próprio analisante precisa fazer. Acontece principalmente nas entrevistas iniciais, onde o psicanalista já antecipa as repetições sintomáticas daquele que lhe fala, em função de experiências de sua clínica. Dificilmente este tipo de antecipação é utilizável, no sentido de comunicá-la ao analisante, pelo efeito de fascínio que produz. O fascínio não é uma proposta da análise.

Num segundo momento, há um saber que chamei provisoriamente de saber operativo, responsável por uma atividade interpretante, do qual não se sabe antecipadamente muita coisa, na medida em que se organiza da mesma forma que a produção do sujeito do inconsciente, num tempo a posteriori.

É possível perceber que se constitui, de saída, uma estreita relação entre saber, ato e temporalidade. Para começar, vou situar três modalidades de tempo que podem ser encontradas nas teorias freudiana e lacaniana: a atemporalidade do inconsciente, a antecipação do espelho e a posterioridade da significação (o nachträglichkeit). Elas estão colocadas também nas três modalidades de tempo lógico desenvolvidas por Lacan. A seguir, desenvolverei as diferentes relações entre a referência temporal e o surgimento do sujeito. Esses desdobramentos o analista acompanha nos percursos de análise. Eles situam tanto as estruturas discursivas quanto as produções de significação que orientam diferentes temas, tais como origem, morte e sexo.

Como se sabe, Freud ligou a atemporalidade do inconsciente principalmente à indestrutibilidade do desejo. Desejo este procedente do infantil. Naturalmente essa atemporalidade, em Freud, aparece por contraste a uma determinada condição de ordenação e cronologia da consciência.

Quanto à antecipação, podemos situá-la como uma construção fundamental dentro da teoria lacaniana. Seu desenvolvimento principal colocou-se na referência ao espelho, sendo que este nada mais é que o passo necessário da organização do eu. Mesmo que não se perceba imediatamente, a antecipação coloca uma série de paradoxos. O primeiro, e mais importante, é de que se antecipamos algo, imediatamente construímos uma noção de futuro. Antecipar quer dizer isso: trazer ao momento algo que se projeta ao futuro. Este futuro é tomado como realizado na imagem do instante presente. É assim que o eu sustenta esse paradoxo temporal, não podendo fazer mais que sofrer com os desencontros – as não correspondências – na relação aos espelhos a partir dos quais se olha, antecipando-se numa imagem acabada.

Porém, encontramos também uma outra função da antecipação, que não se reduz somente à imagem e que diz respeito à ordem simbólica. Ela sempre surge antecipada ao sujeito que, de início, é somente suposto num código que o precede. A antecipação, aqui, tem o sentido de estar primeiro, de ser uma condição necessária de fundação para o sujeito. Está colocado neste exemplo clássico, de quando a mãe supõe um sujeito no seu bebê, muito antes que a criança tenha condições de dar conta dessa hipótese.

A terceira referência temporal está expressa na posterioridade freudiana (nachträglichkeit ou a posteriori), essa estranha designação de tempo com que o texto freudiano acostumou-nos a entender os efeitos de significação. Sabemos que é graças à posterioridade que uma análise pode produzir efeitos, na medida em que é possível ressituar o lugar do sujeito, no tempo presente, em relação aos representantes inconscientes que retornam na repetição.

Essas três modalidades que destaquei podem ser aproximadas às três modalidades do tempo lógico (instante de ver, tempo de compreender, momento de concluir). Retomarei uma determinada leitura desses três tempos desenvolvida em Costa (1998). Esta apresentação será necessariamente esquemática. Também não me deterei no apólogo desenvolvido por Lacan, quando aborda este assunto, mas somente nas construções que são possíveis fazer a partir dele. É um simples suporte de pensamento, como poderia ser um recorte clínico. As questões que aponto não estão completamente desenvolvidas no texto dos Escritos (Lacan, 1999), mas podem ser dele deduzidas.

Primeiramente, o instante de ver, onde vamos encontrar o saber instantâneo, um saber que dispensa interpretações, um saber (se existisse) sem engano. A forma de evidência desse saber, Lacan formulou-a no impessoal: "Se sabe...". Como no caso do apólogo dos três prisioneiros, a partir do qual Lacan desenvolveu seu pensamento sobre o tempo lógico, onde no instante de ver, como num fascínio hipnótico, o sujeito se situa nesse impessoal: "Se sabe...". Não há eu em causa e a posição em questão é de passividade.

Numa segunda operação temporal, temos o tempo de compreender como sendo aquele da organização do eu, a partir do suporte necessário no outro, seu semelhante. É o tempo da dúvida e do engano – tempo da transferência imaginária. A afirmação do eu se dá a partir do lugar do outro, na projeção de um traço de identificação que ele busca em si, sem conseguir vê-lo, a não ser por esse artifício de projeção no outro. Aqui, é possível pensar na dicotomia ativo-passivo, na medida em que a atividade é completamente dependente da reação do outro semelhante.

Por último, o momento de concluir, onde retorna o impessoal (aqui novamente "Se sabe..."). Como no primeiro tempo, também não há dicotomia e talvez aqui possa ser situado o saber operativo que mencionei de início. Nesse tempo situa-se um ato que evidencia o sujeito do inconsciente e, desta forma, desaparece o impasse da dúvida constituída no tempo anterior, na projeção imaginária no outro semelhante. É possível perceber que temos dois tempos de estrutura, dois tempos de dispensa do eu: o instante de ver e o momento de concluir. Como é possível entender isso, visto que são tempos que situam sujeitos tão díspares?

Aqui podemos lembrar uma frase de Lacan, do seminário sobre o ato analítico, que diz o seguinte: "Que o sujeito somente seja realizável em cada um [...] não deixa menos intacto seu estatuto como estrutura precisamente, e antecipado na estrutura" (Lacan, Livro XV). O que significa dizer que o sujeito está antecipado na estrutura? Em primeiro lugar, certamente não se trata de uma espécie de saber que esteve aí desde sempre, e que basta procurá-lo para que se revele. Não se trata de um saber que, a priori, dispense o eu. Pelo contrário, é necessário a afirmação do eu, sua constituição num tempo de compreender, para que esse saber se torne operativo. Podemos apreender algo da relação a esses dois tempos de estrutura na forma como Lacan trabalha a frase freudiana "Wo es war soll ich werden". Temos primeiro "Lá onde isso era", situando o isso, no qual tantas vezes Lacan situou a máquina pulsional sem sujeito, uma estrutura mínima comparável – enquanto estrutura – a um código discursivo sem sujeito. Nessa estrutura, o eu, enquanto sujeito do inconsciente, deve advir. Assim, temos dois tipos de antecipação: a do espelho, que não espera o tempo de diferenciação do outro, e essa última, que é uma precedência lógica ao sujeito, mas que somente vai ser evidenciada a posteriori (nachträglichkeit).

Como situamos anteriormente, essas referências temporais não se colocam somente na relação ao surgimento do sujeito, mas também na construção da significação. Para explicitar esta última questão, situarei a relação a três temas que ocupam, com diferentes argumentos, todas as análises.

O primeiro, o tema da morte, onde vamos encontrar na sua antecipação imaginária uma defesa característica da neurose. Vemos esse tema desdobrar-se conforme se relacione ao desejo (tematizada no desejo de morte, por exemplo), ou conforme se situe em relação à antecipação imaginária da morte. O segundo, o tema da origem, pode ser situado em relação a pelo menos duas coisas: à cena primária e à filiação. Aqui pareceria ter essa espécie de reconstituição a posteriori de algo impossível de representar. Os dois temas anteriores enlaçam-se necessariamente com o terceiro tema, que é o tema do sexo, ao qual me deterei um pouco mais, já que Freud tinha razão quando afirmou que o sexo é o fundamento da neurose.

Poderia partir da pergunta: O que tem o eu a ver com o sexo dos pais? É bem sabido, pelos discursos corriqueiros nas análises, que em relação a isso o sujeito situa-se invariavelmente como voyeur, tanto na referência à cena primária, que seria aquela que o gerou, quanto na referência às posições masculino-feminino. No que diz respeito a esta última questão, parece-me que temos um certo nó temporal, na medida em que aí se coloca um dos grandes problemas da interpretação na análise.

Vou exemplificá-lo com uma questão corriqueira, nas buscas de análise, da escolha entre um analista homem ou mulher. Em princípio não se entenderia porque uma função – ser analista – precise ter sexo. Mas é possível perceber imediatamente que aqui se coloca toda a problemática da referência sexuada. Essa escolha – se é por um homem ou por uma mulher – coloca completamente conjugados, completamente equivalentes a escolha de objeto e a escolha identificatória. Essa escolha é tanto de um objeto erótico quanto de um modelo identificatório. Ou seja, existe uma equivalência entre ser e ter, na referência fálica, de tal forma que não é possível decidir entre um e outro. São bem conhecidos os casos clínicos publicados por Freud, nos quais o vemos se enganar justamente em relação a essa questão. Como se pode entender essa equivalência? O modelo que vimos desenvolvendo, da referência aos três tempos, irá nos ajudar nesse sentido.

O primeiro tempo, que pode ser considerado pré-subjetivo logicamente, onde encontramos a posição de passividade atribuída ao sujeito, sendo possível a aproximação deste tempo ao masoquismo primário desenvolvido por Freud. O segundo tempo, onde vamos encontrar a dicotomia ativo-passivo: esse par complementar sustenta a dicotomia entre ser o objeto ou o significante. Foi a partir desse par que Freud tentou caracterizar o masculino-feminino. Percebemos que sua sustentação só é possível desde que mantida a complementaridade. É onde vemos o encontro da sexualidade infantil com a asserção sexuada. Assim, de um lado, temos a sexualidade e toda a erótica pulsional, atividade desenvolvida na infância onde a criança se situava a partir do sexo materno, tematizado nas fantasias sexuais infantis; de outro, ser homem/ser mulher – tema que se constitui na asserção sexuada a partir da adolescência e que nunca será completamente definível como identidade. Ali podemos situar uma tensão temporal, onde a asserção do sexo e o exercício da sexualidade suspendem-se na dúvida entre o eu ou o outro, que constitui traço identificatório e escolha de objeto sexual. Entende-se essa suspensão na medida em que o sexo enquanto exercício pode confundir-se com a atividade da sexualidade infantil, ali onde o sujeito situava-se enquanto objeto. Por último, o ato de asserção, que é uma condição de atividade singular; nela podemos situar um ato que marca um certo encontro entre o significante e o objeto.

Todos esses desdobramentos sempre são acompanhados de impasses. Por que o eu não se adequaria ou bem ao corpo, ou bem ao gênero, onde encontraria um modelo de identidade? Nesta ordem certamente não há adequação. O ato de asserção do sexo é uma certa transposição do geral – da classe – ao singular. Essa transposição necessita dos desvios que compõem a trajetória de um cruzamento fantasmático.

Como é possível perceber, a partir dos diferentes percorridos que fiz, a atividade do psicanalista se confunde – na referência às condições de produção de um ato analítico – com os diferentes tempos da produção de um sujeito. Esses tempos já se anunciam em Freud e foram recortados por Lacan no seu trabalho sobre o tempo lógico.

 

Referências

COSTA, Ana. A ficção do si mesmo: interpretação e ato em psicanálise. Rio de Janeiro: Cia. de Freud, 1998.

LACAN, Jacques. O seminário – Livro XV: O ato analítico. Não publicado. Seminário de 1967-1968.

. O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada. Um novo sofisma. In: . Escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1999.