A clínica psicanalítica na contemporaneidade
Construção da fantasia, constituição do fantasma
MARIA CRISTINA POLI
Construção da fantasia, constituição
do fantasma
O termo lacaniano "fantasma" é, a bem dizer, um neologismo da psicanálise brasileira. Em francês há duas formas de se traduzir "fantasia": ou bem se opta pelo termo antigo e em desuso fantaisie, ou bem se traduz, no melhor da língua, por fantasme. Porém, se quisermos dizer "fantasma" – o Gasparzinho, por exemplo – em francês, não há dúvidas: a palavra a ser usada será fantôme, bastante alheia ao vocabulário psicanalítico. Portanto, quando, ao lermos Lacan, encontramos a palavra "fantasma" no lugar de fantasia, trata-se de um erro de tradução. Um "erro" que vingou porque, como veremos, ele permite incluir uma discriminação entre as formações do inconsciente que, não estando presente no texto freudiano, é correlativa da invenção por Lacan do objeto a.
Freud utiliza-se do termo fantasia – Phantasie, em alemão – de um modo bastante amplo, condensando diferentes sentidos. As fantasias podem ser conscientes ou inconscientes. No primeiro caso, há também o recurso ao termo "sonho diurno" que auxilia a discriminação. Ou ainda, "lembranças encobridoras" e "falsos reconhecimentos", ambos narrativas que servem de argumento ao eu consciente; são conteúdos manifestos, formações de compromisso que trazem a marca do desejo inconsciente, e que permanecem como moradores estrangeiros no eu. O uso do termo fantasia, neste contexto, a designa como texto das formações do inconsciente. Já as fantasias originárias (Urphantasien) são, indubitavelmente, inconscientes e assim o permanecem. Freud (1973c, 1973d, 1973e) as enumera: cena primária, fantasia de sedução e fantasia de castração. Cada uma correspondendo a um ponto de enigma fundamental sobre as origens: do próprio sujeito, do desejo e da diferença sexual, respectivamente (Laplanche; Pontalis, 1988). Elas são transmitidas pela filogênese e buscam confirmação na experiência. São, portanto, textos do Outro, antes de serem do sujeito; "lendas-tipo", que nos mitos e fábulas ganham enredos culturalmente contingentes.
Mas há, ainda, um outro sentido para o termo fantasia em Freud. São as fantasias inconscientes, posto que recalcadas. Este é o caso do enunciado "Bate-se numa criança" (Freud, 1919). Esta fantasia, analisada por Freud, aproxima-se dos outros sentidos, mas se diferencia em um aspecto fundamental: por um lado, ela é indicada pelo psicanalista como uma "fantasia típica", encontrada de forma semelhante em vários pacientes (além de apresentar um aspecto de realidade que a aproxima das "lembranças encobridoras"); porém, por outro lado, o que a diferencia das fantasias originárias e do sonho diurno, diz Freud, é que a fantasia recalcada é uma construção da análise.
Nesse importante texto, o autor apresenta os tempos dessa construção. Primeiro, o enunciado se apresenta como exterior ao sujeito, como uma lembrança imprecisa: alguém é batido por um adulto, uma figura de autoridade. Esta fase da fantasia, relata Freud, é marcada pelo sadismo: um irmão ou uma irmã que é maltratado pelo pai ou por um representante seu (como um professor, por exemplo). Há, no entanto, um indeterminismo do sujeito e do objeto da ação que condiz com a sua universalidade. É também o que permite o gozo sádico desprovido de culpa. O trabalho da análise conduz o sujeito à implicação: "o pai bate numa criança odiada por mim" é o enunciado que o desdobramento da cena em análise, nesta primeira fase, conclui. Ele se expressa como memória, como lembrança encobridora do desejo que o constitui.
A passagem para a segunda fase é de fundamental importância. É neste ponto que Freud vai se referir à fantasia como uma construção da análise. "Eu sou batido pelo pai", não é uma lembrança, mas uma realidade psíquica endereçada à transferência. Este tipo de construção trata-se, diz Freud (1973a), de um trabalho preliminar ao empreendimento analítico. É a produção da implicação na transferência contemporânea ao endereçamento da demanda. O psicanalista indica, ainda, o caráter masoquista em causa nesta construção, o que denota também a sua ambivalência: por um lado, pedido de salvação de um gozo alheio ("O pai me bate; logo, me odeia"); por outro, expressão deste mesmo gozo como próprio ("Sou amado pelo pai, pois ele me bate"). Esta segunda fase da fantasia, como destaca Freud, é decorrente da culpa produzida pelo gozo sádico presente no primeiro enunciado ("O pai bate numa criança odiada por mim").
Há, ainda, uma terceira fase: reconhecido o gozo masoquista, o sujeito pode voltar à indeterminação inicial, gozando sadicamente como espectador da cena. Novamente é um adulto que bate em uma outra criança, sem fixidez dos personagens. O importante, relata Freud, é que neste tempo da fantasia de flagelação o sujeito está nas duas posições: aquela em que é batido, pois se identifica com o personagem, e aquela do observador da cena. A posição masoquista da segunda fase permite que se produza um amálgama com o sadismo anterior. Através da forma sádica, a satisfação masoquista é realizada pela fantasia, situando o sujeito tanto do lado da atividade quanto da passividade. Além disso, acrescenta Freud, com a passagem pela posição masoquista, a fantasia adquiriu caráter erótico. Nesta terceira fase, portanto, ela apresenta deliberadamente uma função onanista.
Não entrarei aqui nas considerações sobre o masoquismo na obra de Freud. Sabe-se o quanto o psicanalista se ocupa desta questão, sobretudo na segunda parte de seu trabalho, na segunda tópica. No texto "Problema econômico do masoquismo" (Freud, 1973b), o autor postula a existência de um masoquismo originário, diferente de sua posição no texto que estamos trabalhando. Independentemente desta oscilação, interessa-nos destacar do texto "Pegan un niño" a apresentação de Freud sobre a fantasia como uma construção. Além disso, a pergunta que dirige o autor, nesse texto, é sobre a origem das perversões. Ele volta a afirmar que a sexualidade infantil perversopolimorfa é "a força propulsora principal na formação dos sintomas" (Freud, 1919, p. 2.480). A predominância do elemento sádico predispõe à constituição de sintomas obsessivos. Para tanto, contudo, a fantasia terá de passar pela operação de recalque e
retornar como formação do inconsciente. O recalque não a elimina.1 Há, portanto, a indicação reiterada de que a fantasia é um resíduo perverso, derivado da sexualidade infantil, e que pode permanecer inalterado na neurose. A passagem pelo complexo de Édipo não liquida a perversão e por isso o sintoma advém. Trata-se de um resto de gozo que permanece alheio à estrutura da neurose, precisando recorrer à formação sintomática em suplência.
Esta relação entre fantasia perversa e sintoma neurótico pode ser situada, também, por ambos serem modos de representação e expressão de satisfações pulsionais perdidas. Nas lições introdutórias à psicanálise, Freud define assim a fantasia:
[...] atividade psíquica, segundo a qual todas as fontes de
prazer e todos os meios de adquirir prazer, aos quais se
renunciou, continuam existindo sob uma forma que os põem ao
abrigo das exigências da realidade e daquilo que denominamos
"prova de realidade". A seguir, toda tendência reveste a forma
onde ela se representa como satisfeita. (Freud, 1973d, p. 2.354-
2.355)
A fantasia recalcada apresenta a cena de uma satisfação pulsional realizada. Já o sintoma, formação de compromisso, inclui a interdição e recorre a uma satisfação substitutiva; ele condensa a satisfação pulsional e sua proibição. O caminho da análise reconstitui a fantasia inconsciente – o desejo – que está na base dessa formação. É nesse ponto que se pode afirmar com Freud que "os sintomas são a vida sexual dos neuróticos". Eles são expressão do desejo, representantes substitutivos da satisfação pulsional perdida. Já na fantasia é a própria cena de satisfação que está em causa.
Interessante que Freud inclua na análise da fantasia o tempo da construção: tempo de inclusão do sujeito na cena de satisfação. É também desse tempo, como vimos anteriormente, que deriva a função erótica da fantasia, a sua função de restituição de uma satisfação perdida. No primeiro tempo, quando a cena se apresenta de forma consciente como uma "lembrança encobridora", o sujeito está excluído da cena. Se há gozo, é do Outro. Não se trata da posição do voyeur, que entrará em causa apenas no terceiro tempo, depois da construção, nem de uma objetalização masoquista que se faz acompanhar da queixa de ser excluído como equivalente ao ser/não ser amado. Este é o trabalho do segundo tempo, da construção. O primeiro é um tempo dessubjetivado, um tempo no qual o sujeito é acéfalo, para usar uma expressão cara a Lacan.
Freud utiliza o termo fantasia para designar indiscriminadamente todos esses tempos (é certo que ele já demonstra a função específica de cada um, as diferentes posições que o sujeito assume). Lacan avança neste trabalho. O modelo freudiano da construção da fantasia pela inclusão do sujeito na cena torna-se, então, paradigmático da própria constituição do sujeito. Trata-se do que passamos a denominar, para além da "vontade" de Lacan – que, como sabemos, era sempre a de seguir a letra freudiana –, como fantasma.
Podemos conjecturar que tal expressão tenha vingado na psicanálise brasileira pelo que ela denota como uma certa função da sombra, como o lugar do duplo (Costa, 2005). Efetivamente, o "eu" que se precipita no enunciado do "bate-se" ocupa o lugar do duplo. Duplo não apenas daquele que é batido, como objeto na posição masoquista, mas, também, como projeção especular da cena de gozo. Ou seja, o "eu", neste caso, é uma sombra da realização pulsional na qual sujeito (Outro) e objeto (outro) se complementam.
primeiro tempo: Sujeito (Outro – Es) → objeto (a)
segundo tempo: [Outro – outro (a) → objeto (a')] = Eu, isto é,
i(a)
Observe-se aí o desdobramento da análise freudiana no esquema L de Lacan (1998). Estamos, efetivamente, no campo da constituição do sujeito que, além de um tempo originário na cronologia da vida, refere-se também à constituição do laço transferencial em um percurso de análise. Tempo de alienação, no qual o sujeito vai passar do lugar de observador excluído, sujeito acéfalo, ao de "sujeito dividido". Esta condição do sujeito é aquela indicada por Freud no terceiro tempo: ao mesmo tempo objeto na cena e sujeito ao gozo produzido por ela.
terceiro tempo: Outro → i(a) ← Eu ($)
A constituição do fantasma, correlativa à constituição do sujeito, designa, portanto, a necessária passagem pela condição de alienação ao campo do Outro. Esta alienação implica, como indica Freud na descrição do segundo tempo, a imaginarização da cena. Ou seja, para que um sujeito possa se produzir é necessário que o laço se suporte em uma montagem imaginária, na qual o sujeito e o objeto da satisfação pulsional são encarnados por outros (a – a') que se posicionam na função de Outro e de objeto a. Isto tanto na constituição efetiva do sujeito, o falasser, no início da vida, quanto para o sujeito da transferência. Se a presença do analista é fundamental para que o laço transferencial se proceda é porque é desde o suporte de seu corpo, sua imagem e seu lugar – isto é, nas dimensões do real, imaginário e simbólico desta presença – que ele funcionará como amálgama entre Sujeito suposto saber (Outro) e objeto causa de desejo (objeto a). A implicação do sujeito na transferência, a sua condição de sujeito alienado e dividido pelo discurso que aí se produz, passa por este suporte no que chamaríamos de dimensão imaginária do laço transferencial.
O terceiro tempo, tempo da separação, opera a descolagem entre sujeito do enunciado e sujeito da enunciação. Interessante que ela é correlativa da duplicação do sujeito na cena: por um lado, posição passiva, por outro, posição ativa. Discurso e pulsão são alinhavados pelo fantasma. A falta de um se torna a falta do outro, conforme demonstra Lacan (1990). No tempo da separação, essa sobreposição retorna como enigma: "Quem sou eu na cena?" é uma forma de perguntar sobre o desejo do Outro no qual o sujeito está alienado. Se a pergunta pode ser formulada é porque uma hipótese foi feita. Hipótese de um saber insabido, inconsciente. Para que este passo seja possível – Freud o indica já quando postula a importância da fantasia como realidade psíquica – é preciso não acreditar muito na veracidade da narrativa.
A fantasia vela o enigma. Fantasiar é também disfarçar, encobrir, deslizamento semântico que, mais uma vez, a língua portuguesa permite, sobretudo, no tempo reflexivo: fantasiar-se. Levantar o vel da fantasia para encontrar a estrutura do fantasma, a condição de duplicação, de divisão do sujeito. Tarefa inicial de uma análise e que se constitui, ao longo de todo o percurso, em um de seus operadores principais.
Referências
COSTA, Ana. Clinicando. Porto Alegre, 2005. Seminário proferido na Associação Psicanalítica de Porto Alegre.
FREUD, Sigmund. Construcciones en psicoanalisis. In: . Obras completas. Madrid: Biblioteca Nueva, 1973a. Tomo III.
. El problema económico del masoquismo. In: . . Madrid: Biblioteca Nueva, 1973b. Tomo III.
. História de una neurosis infantil. In: . . Madrid: Biblioteca Nueva, 1973c. Tomo II.
. Lección 23: vías de formación de síntomas – lecciones introductorias al psicoanalisis. In: . . Madrid: Biblioteca Nueva, 1973d. Tomo II.
. Pegan um niño. In: . . Madrid: Biblioteca Nueva, 1919. Tomo III.
. Un caso de paranoia contrario a la teoría psicanalítica. In:
. . Madrid: Biblioteca Nueva, 1973e. Tomo II.
LACAN, Jacques. De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. In: . Escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.
. O seminário. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1990. Livro XI: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. Fantasia originária, fantasia das origens, origens da fantasia. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1988.
POLI, Maria Cristina. Clinica da exclusão: a construção da fantasia e o sujeito adolescente. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005.