A Filha do Pastor das Árvores
conter a profunda em oção. Ela poderia…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
falaram com igo no parque quando eu tinha cinco anos e contei isso para
ela. Dizia que era um a ilusão provocada pela alergia.
Ele fez um a expressão carrancuda.
— Sua m ãe queria proteger você e foi o que fez, da form a que j ulgava
adequada. Mas você não tem nenhum a alergia, Keelie.
— Foi o que pensei. Tudo piorou desde que cheguei aqui, apesar de eu
não estar m e coçando nem espirrando. Eu vinha escutando as árvores.
Posso sentir todas elas na pele. Isso tam bém acontece com você?
— A-hã. — Seus olhos verdes cor de folha focavam direto nela.
— E aquela face triste no carvalho da sua loj a era real. Sei disso agora,
porque vi um rosto no álam o tam bém . Ele conversou com igo.
— Keelie prendeu a respiração, perguntando-se se o pai confiaria nela
e contaria a verdade.
Zeke assentiu, pensativo.
— Eu vi a troca de energia. Você j á tinha feito aquilo antes?
Keelie balançou a cabeça.
— Sentia o espírito das árvores na Califórnia?
— Sentia. Bom , um pouco. Não tinha m uita árvore lá onde a gente
m orava. Mas aqui... Pai, só de tocar na m adeira eu sei qual é e de onde
veio. Por quê? Você tam bém pode fazer isso?
— Posso. Som os m ais sintonizados com a natureza do que outras
criaturas, Keelie. Todas as árvores têm espíritos, e suas raízes absorvem
nas profundezas a m agia curativa da Terra. Existem os que aj udam as
árvores, evitando que as forças m alévolas lhes causem danos e, em troca,
elas perm item que eles usem sua m agia.
— O álam o m e cham ou de filha do Pastor das Arvores — disse a
m enina.
— Sou um dos pastores. — Seu pai pareceu fatigado. — Pelo visto,
você tam bém é um deles. Eu esperava por isso.
Ela abaixou os óculos escuros.
— Sei. Eles não chegaram a tratar disso no Dia das Profissões na escola. O em prego dos m eus sonhos não é passear pela floresta, regando
árvores e conversando com elas sobre esquilos e fadas zangadas.
Zeke deu um a risadinha.
— Não é exatam ente isso o que eu faço, e os professores da sua antiga
escola não fazem a m enor idéia, m as você precisa aprender a controlar o
seu dom .
— E se eu ignorar esse talento? Até agora só tem m e dado m uita dor de
cabeça. — Literalm ente.
— Você não pode ignorá-lo. Não num a floresta. Keelie, estou tão
orgulhoso de você. O que fez exigiu m uita coragem . Cam eron não para de
falar sobre o que você fez por Moon.
Os olhos da garota ficaram m arej ados de novo. Ainda bem que usava
óculos escuros, estavam virando um pantanal. Daquela vez, suas lágrim as
não eram de pesar. O pai se orgulhava dela.
— Vou descer daqui a pouco e m ostrar para você m inha roupa nova.
Foi escolhida por Janice e Raven.
O pai sorriu e tocou seu rosto.
— Tenho certeza de que você vai encantar todo m undo. Você ficou
linda até naquela fantasia do show de lam a. Mas fique longe dos piratas!
Do que ele sabia?
— Eles tam bém têm poderes m ágicos?
— Não. A m aioria deles não passa de universitários com horm ônios em
alta em busca de garotas bonitas.
Depois de três xícaras do café de Sir Davey , a dor de cabeça de Keelie praticam ente passou; porém , ela precisava m uito ir ao banheiro. A garota
sentou-se com cuidado e baixou as pernas na lateral da cam a. Até aí, tudo
bem .
— Você quer aj uda? — quis saber o pai.
— Não. Estou bem . Raven disse que eu tinha que m e m exer.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Preciso ir cuidar de algo rapidinho na loj a. Quero ter certeza de que
Scott está lidando com a clientela e as vendas direito. Às vezes ele fica
m eio sobrecarregado.
— Já estou m elhor. Pode ir.
Quando Zeke foi em bora, Knot abriu os olhos e bocej ou. Então saltou
até o assoalho, na frente das roupas trazidas por Raven.
Keelie avisou:
— Nem olhe para elas. Se m ij ar aí, vou ter novos protetores de orelha
de pelo de gato.
Ao voltar à cam a alguns m inutos depois, ela se deu conta de que sua
dor de cabeça tinha passado por com pleto. E tam bém de que j á não estava
verde, para sua satisfação. Seria ótim o não ter que peram bular por ali
com o a prim a hum ana do sapo Caco.
Muita gente cam inhava diante da loj a e, não m uito longe dali, ovações
ressoavam por causa da j usta. Será que Sean estava participando naquele
dia? Provavelm ente. Ela deu um a olhada no cabideiro, as cores dos
vestidos reluzindo com o j óias. Cuidado, Elia, Keelie ia se vestir para arrasar.
— Com o será que está Moon? — perguntou a garota ao gato, m as ele
tinha sum ido.
Depois de tudo o que tinha enfrentado para curar a coruj a, queria ter
certeza de que ela estava se recuperando. O cam inho até as gaiolas passava
pela pista de j usta. Talvez ela deparasse com Sean no cam inho, e ele
poderia notar seu novo visual. Tchauzinho, Garota da Lam a.
Lá fora, trovej ou em algum lugar distante. Será que parava de chover
em algum m om ento, ali? Mais parecia Seattle, não Colorado. Keelie ficou
feliz por Janice e Raven terem lhe conseguido um m anto de lã. O capuz
am plo em estilo irlandês, com a borda franzida, deixava-a ver tudo sem
sentir claustrofobia.
Keelie vestiu-se e ficou satisfeita ao perceber que as m angas grandes
eram confortáveis. Ao sair do apartam ento, um a delas prendeu na porta,
fazendo-a parar de supetão e cair no patam ar da escada.
— Pai, vou dar um a volta — gritou ao passar pela loj a.
Ele estava ocupado, m ostrando um a cadeira para um a cliente com um
enorm e decote. Outra peram bulava por ali, ansiando cham ar a atenção
dele. Claro.
Zeke ergueu os olhos e acenou para a filha; em seguida, m ostrou-se
surpreso ao reparar em sua roupa.
— Pelo visto a infusão de Sir Davey fez efeito. — Ele lhe fez um a
reverência com um floreio, e ela retribuiu com o que pensou ser a versão
fem inina da m esura, depois pegou a trilha rum o à pista de j usta.
Keelie reconheceu os tons verde e prateado, preto e dourado de Sean
conform e ele percorreu a arena antes de ir para a liça. Ela fez um a pausa
perto da platéia e observou um escudeiro j ogar para o rapaz um a lança
longa. Ele a pegou com o se nada pesasse, em bora a garota soubesse que
eram arm as difíceis de m anusear, nem um pouco leves. Do interior de seu
m anto, a garota sussurrou:
— Vai, m eu bravo cavaleiro, vai.
— Ah, m as que doçura é essa diante de m im ?
Keelie conhecia aquela voz. Donald Satterfield, vulgo capitão Dandy
Randy , seu caloroso pirata. Ela deu a volta, deixando cair o capuz.
Ele cam baleou um pouco para trás.
— Uau. Você. — Então se recuperou e levou a m ão ao peito. — Ah,
m ocinha. Você fez m eu coração parar de bater. Só tem um rem édio para
isso. Um beij o, doçura, dos lábios seus. — Ele se apoiou na árvore,
bloqueando a visão de Keelie da j usta, e estendeu os braços, dando beij os
ruidosos.
Ela se afastou quando ele se inclinou em sua direção, fazendo bei-
cinho, cheirando a hidrom el.
— Vai em bora. Não estou interessada.
— Mas, m ocinha, parece que o Cupido conspira para nos unir.
— Você está bêbado. — A garota fez um a careta e se virou para ir
em bora, m as parou quando o ouviu rir atrás dela.
Ele parara de oscilar e ficara im óvel.
— Keelie, m inha querida. Acha m esm o que a adm inistração do festival ia m e deixar ficar bebum entre os m undanos? Iam dar um chute no m eu
traseiro de pirata e m e despedir. Só tom ei um gole antes de falar para
tornar tudo verídico para os convidados. — Ele fez um a reverência e um
gesto de despedida com o chapéu na m ão esquerda, m antendo a direita
diante do peito.
Ela ficou rubra. Claro. Já devia saber.
O capitão Dandy Randy deu um a piscada e colocou de novo seu
enorm e chapéu de pirata.
— A gente se vê por aí, am ada. E, pode crer, vou m e encontrar com
você. O capitão Randy sem pre vence suas batalhas.
Ouviram -se ovações atrás dela. Keelie deu a volta e ficou diante de
um a m ultidão, com algum as pessoas vestidas a caráter, outras de roupas
com uns. As pessoas batiam palm as e assobiavam , A garota girou de novo
para ver o capitão Randy fazendo um a am pla m esura.
— Faz um a reverência — sussurrou ele.
Ela se abaixou, segurando a saia.
— Piratas. — Com o o capitão Randy ousava usá-la com o m aterial de
um a de suas atuações im provisadas? Que tipo de lugar era aquele, em que
sua vida privada fazia parte do valor do ingresso?
Trovej ou de novo, e a m ultidão com eçou a se dispersar. Um suj eito
conduziu os filhos para a saída, afirm ando:
— Está na hora de ir para casa.
O vento passou a toda pelas árvores, e o galho de um enorm e carvalho
despencou no solo. Keelie sentiu a árvore sacolej ar; o ram o j á estava m eio seco.
Um forte cheiro de ozônio penetrou as narinas da garota e, em
seguida, seus cabelos eriçaram . Um raio atingiu o piso ali perto. As pes-
soas, cham adas pelos com erciantes, com eçaram a procurar abrigo nas
barracas m ais próxim as.
Keelie ergueu a cabeça. As nuvens rodopiavam desenfreadam ente no
alto, com o espíritos vingativos. A chuva bateu em seu rosto, caindo em
cascata do céu. Riachinhos lam acentos form aram -se ao longo do cam inho
na terra, levando gravetos e fragm entos de casca de pinheiro. A garota
ergueu a saia e foi correndo para as gaiolas. Queria dar um a olhada em
Ariel e Moon antes de voltar para Heartwood. Assim que chegou à Trilha
do Ferrageiro, percebeu que não poderia m ais correr. A chuva
transform ara o cam inho num lam açal escorregadio e traiçoeiro. Ao m enos
Keelie não precisava se preocupar com deslizam entos de terra com o na
Califórnia. Enquanto andava depressa, a bainha ensopada das saias batia
em seu tornozelo. Ela podia j urar que ouvira a voz daquele sórdido Barrete
Verm elho em m eio ao vento.
Keelie ergueu a cabeça de novo. O céu apresentava um tom esver-
deado fora do com um . Céu verde? Não podia ser bom sinal. Ela se
lem brou dos avisos anteriores de tornado e do firm am ento com aquela
m esm a cor de sopa de ervilha. Estava com saudades do sol. Havia dias que
não sentia seu calor no rosto. As árvores sacudiam conform e o vento as
fustigava. Elas concordavam . Já passara m uito tem po desde que o sol
tocara suas copas, levando suas raízes a ansiarem pela energia estim ulante que as alim entava.
Por todas as partes, as loj as encontravam -se lotadas de m undanos
tentando não se m olhar. As gaiolas ficavam m ais adiante, e Keelie se
apressou para entrar no abrigo oferecido pelas lonas que cobriam a área. O
cheiro alm iscarado das aves a envolveu.
Os aj udantes de Cam eron corriam de um lado para o outro, soltando
as gaiolas das aves de rapina de seus suportes.
— O que está fazendo aqui? — perguntou Cam eron, de um j eito
frenético. Todos trabalhavam com rapidez e precisão, m as havia um a
pontada de m edo em seus m ovim entos. — Não viu o Canal do Tem po?
Um a frente fria está passando por aqui, e deparou com um a quente, que
surgiu do nada. Tem avisos de tornado por toda parte. A segurança está
retirando os visitantes.
O vento ergueu a lona da gaiola de um abutre. Ele crocitou. Um belo
m ocho-orelhudo agitou as asas de form a frenética contra a gaiola. Ariel
soltou um grasnido quando Keelie correu até ela.
— Cam eron, preciso tirá-la daqui?
Tirando Moon com cuidado da gaiola, a treinadora disse:
— Precisa. Encontre um a gaiola portátil para ela.
Cam eron colocou a coruj a em um a que fez Keelie se lem brar da que a
m ãe de Laurie usava para o gato him alaico, Pickles.
Assim que Keelie conseguiu colocar Ariel na gaiola portátil, o falcão
lhe deu um a bicada na m ão. Saiu sangue, m as a garota segurou com
firm eza a alça, receando derrubá-lo.
—Aonde vam os levar as aves? — Precisou gritar para que Cam eron a
escutasse em m eio ao uivo cada vez m aior do vento.
— Para a frente da loj a de Sir Davey . É o abrigo m ais forte. Ande logo.
— Cam eron saiu correndo na frente.
Keelie se perguntou onde estaria o pai e ficou preocupada com ele.
Envolvendo seu m anto em torno da gaiola de Ariel para tentar acalm ar o
falcão agitado, ela seguiu Cam eron. Jam es j untava, com agilidade e
rapidez, as outras aves. Eles as colocaram na parte de trás de um j ipe,
em pilhando as gaiolas de form a precária.
Keelie foi correndo até a loj a de Sir Davey , m ais preocupada com a
segurança de Ariel do que com seu próprio bem -estar. Sua saia grudava em
torno das pernas. Granizo j á a atingia conform e ela atravessava a pequena
clareira rum o à Trilha do Ferrageiro e à loj a Horda de Dragões. Precisava
m anter a concentração, evitando o tem or das árvores por causa da
proxim idade da tem pestade. Caso se abrisse para elas, o pânico a deixaria
paralisada.
Sir Davey vociferava ordens.
— Coloquem essas aves nos fundos. Elas ficarão m ais seguras lá. —
Suas sobrancelhas grisalhas ergueram -se com o lagartas peludas quando ele
viu Keelie. — O que está fazendo fora da cam a depois do que aconteceu
na noite passada, m oçoila? Seu pai sabe que você está aqui?
— Seu café ótim o e forte m e curou na hora. — Keelie puxou o m anto
para trás e m ostrou a gaiola de Ariel. O falcão m ovia-se de um lado para o
outro no poleiro. Seus grasnidos fizeram os ouvidos da garota doerem . O barulho da chuva batendo no teto de m etal não aj udou.
Sir Davey balançou a cabeça.
— Vej o o que acontece. Há um elo entre você e o falcão. Agora vão os
dois para os fundos. E fiquem lá.
Algo rígido caiu no teto de m etal da loj a de Sir Davey , seguido de m ais
estrondos. O granizo aum entava de tam anho. Keelie encolheu-se perto de
Ariel e sussurrou para o falcão:
— Vai ficar tudo bem . Estou aqui. — Pensam ento ridículo. Se um
tornado atingisse a construção, am bos m orreriam .
Houve m ais gritos na parte da frente da loj a. Cam eron bradava algo
para Jam es. O vento uivante abafou a resposta dele. Da rádio
m eteorológica soaram bipes e, em seguida, a voz robótica e m onótona do
locutor anunciou:
— Aviso de tornado na região m etropolitana de Fort Collins, incluindo
a área de Montanha Alta.
Sir Davey entrou com sua ginga característica na saleta da loj a e
resm ungou consigo m esm o ao carregar um a gaiola quase tão grande
quanto ele. Nela, o urubu-de-cabeça-verm elha agitava as asas e grasnava.
Colocando de form a ruidosa a gaiola perto de Ariel, Sir Davey
com entou:
— Fique de olho neste danado, é um encrenqueiro. — Ele deu a volta.
— Quando eu descobrir quem ou o que está por trás desta tem pestade,
vou lançar um feitiço para lhe dar um a lição.
Estrem ecendo, Keelie ergueu os olhos.
— Você acha que esta tem pestade foi provocada de propósito? Quem
poderia fazer isso? — Talvez a cantoria que ela pensou ter ouvido em m eio
ao vento realm ente tivesse sido do Barrete Verm elho. Será que aquele
capetinha era tão poderoso assim ?
O urubu-de-cabeça-verm elha bateu as asas, fazendo suas penas
roçarem o braço de Keelie pela gaiola. A garota queria se afastar da ave
feiosa, m as o bicho parou de grasnar e inclinou a cabeça careca com o se a
estivesse estudando, tentando entendê-la. Então, dobrou as asas com
calm a. O veredicto havia sido dado: gostava dela. Keelie não sabia se isso
era bom ou não.
Vinte m inutos depois de eles se abrigarem , a tem pestade passou.
Quando os aj udantes de Cam eron saíram para avaliar os estragos, Sir
Davey voltou com Keelie até Heartwood.
— Cam eron está m uito satisfeita com você. Sua aj uda fez toda a
diferença hoj e.
A garota enrubesceu. Aj udara Ariel com o m aior prazer, m as era bom
ter seus esforços reconhecidos.
— Sir Davey , o senhor disse que achava que alguém ou algo tinha
causado essa tem pestade. Acha que foi o Barrete Verm elho?
Ele a fitou sob a borda do chapéu.
— Não o m encione em voz alta na floresta. As pobres árvores acabaram
de enfrentar um a tem pestade. Já estão traum atizadas o bastante.
Keelie olhou para cim a e fitou os troncos altos ao redor dos dois.
Sólidos e im passíveis. Mais calados do que nunca. Mas ela podia sentir a energia apreensiva que fluía em suas seivas. Fluía para cim a e para baixo
em sua pele com o um m ilhão de form igas. A garota esfregou os braços
pelas m angas longas.
— Com o podem os nos livrar dele se não podem os falar a seu respeito?
Sir Davey segurou o braço dela com a m ão firm e.
— Deixe isso por conta dos adultos, m oçoila. É perigoso dem ais para
você. Ainda não está acostum ada com m agia e, em bora sej a forte, não sabe
onde se m ete.
Passadas fortes ressoaram na lam a atrás deles. Era Jam es.
— Todas as gaiolas viraram , e as lonas sum iram . Cam eron quer saber
se as aves podem ficar onde estão.
— Podem . — Sir Davey ficou pasm o. — Todas aquelas aves na m inha
loj a? A Horda de Dragões virou um verdadeiro poleiro.
O aviso dele sobre o Barrete Verm elho fora sensato, m as Keelie vira os
nauseantes cogum elos em putrefação em am bos os lados do cam inho e em
torno da loj a.
— É bom que a nossa reunião j á estej a m arcada. Na verdade, acho que
vou ficar e dorm ir no sofá do seu pai. Aquele cheiro de aves.
Na loj a, não havia nenhum sinal de Knot, felizm ente.
— Zeke está esperando pelo senhor lá em cim a, Sir Davey — disse
Scott. Em seguida, olhou para Keelie. — Você está toda m olhada.
— Obrigada, Lorde Óbvio. — Ela precisava colocar roupas secas e
pendurar aquelas m olhadas, para m antê-las longe do alcance do gato. Lá
em cim a, Janice estava sentada, sorvendo a bebida de um a caneca verde decorada com árvores douradas. O líquido fum egava, e o arom a de hortelã
espalhava-se no ar. O pai de Keelie estava ao fogão, despej ando água
fervente na panela.
Ele parou o que fazia e foi abraçá-la, soltando-a depressa, antes que
ela pudesse protestar.
— Fiquei tão preocupado com você durante a tem pestade, m as depois
fiquei sabendo que estava com Sir Davey . Está tudo bem na área das
gaiolas?
— Lá está o m aior tum ulto, m as as aves estão bem . — Keelie falou
m ais baixo. — Zeke, as árvores estavam com m edo. Elas m e transm itiram
isso quando a tem pestade chegou.
O pai suspirou.
— Elas tam bém m e passaram esse sentim ento. A m agia negra per-
turbou o equilíbrio energético na floresta.
— Encontram os cogum elos, Zeke, e isso não é bom — com entou
Janice, que se levantara do sofá e fora até a cozinha. Então colocou a
caneca na m esa da cozinha, as pulseiras tinindo. Keelie notou que usava
um suéter roxo e j eans, roupas norm ais, para variar um pouco. Estava com
ótim o visual.
— Tam bém vi cogum elos. Estavam por toda parte na Horda de
Dragões.
— Dá para sentir o cheiro deles antes m esm o de vê-los. — As
sobrancelhas de lagarta de Sir Davey vibraram . — Aquelas aves vão ficar
na m inha loj a até que as gaiolas sej am consertadas. Você se im porta se eu passar a noite aqui, Zeke?
— Boa idéia. Tem outra frente fria chegando, e o tem po pode piorar de
novo. — Ele deu à filha um a xícara de chá. — Posso fazer café para vocês
dois. Ainda sobrou um pouco.
— Você tem café? — Janice arregalou os olhos.
Zeke deu de om bros.
— Um pouco da m istura de Sir Davey . Ele a trouxe para Keelie esta
m anhã. Ela passou m eio m al depois da em polgação de salvar Moon.
— Eu tom o suco de laranj a se não tiver problem a. — A garota ansiava
pelos raios de sol, e algo que os lem brasse, m esm o rem otam ente, j á
quebrava o galho.
— Nada de café? — O pai deu a im pressão de ter ficado chocado.
Sir Davey pegou a m ão de Keelie e a virou. Um tom verde perdurava
na palm a.
— Muita acidez vai desequilibrar a fotossíntese que o corpo dela está
tentando neutralizar. Nada de suco de laranj a.
— Café, então. — Keelie sentou-se no sofá e abraçou um a alm ofada
esverdeada. — Estou cansada. — Ela se inclinou para a frente para
exam inar os m apas m eteorológicos espalhados na m esa de centro.
Estranhos sím bolos rúnicos haviam sido traçados nas Montanhas
Rochosas. Havia pontos verdes delim itando as florestas. Em algum as
delas, escrevera-se "Sensitivas". E havia pontos de tom m arrom em que se
m arcara "Terra". A garota perguntou: — O que significa isso?
— Esses são os centros de m agia sobre as m ontanhas — explicou o pai.
Sir Davey sentou-se perto de Keelie.
— Não há m uitos centros de m agia terrena, porém eles são profundos
e ancestrais. Florestas aparecem e desaparecem , m as a terra está ali para
sem pre.
— Com o funciona essa m agia?
— Pensei que nunca ia perguntar! — Sir Davey deu um largo sorriso
para ela. — Estenda a m ão. Não tenha m edo. — Keelie o fez, com a palm a
da m ão virada para cim a, e ele colocou um a bola gelada de argila fresca,
não assada, na m ão dela. O m aterial era, a um só tem po, rígido e flexível,
m as, felizm ente, não era com o a lam a. Onde o anão o conseguira? A garota
o im aginou peram bulando por lá com bolas de lodo nos bolsos. — Lem bre,
Keelie. Lem bre-se de tortas de lam a, de caixas de areia, de pisadas em
poças num a noite quente de verão.
Ela fechou os olhos e envolveu a argila gelada com os dedos. Era
reconfortante, com o um bálsam o para seu coração ferido. Sua fadiga
dim inuiu.
A lem brança de brincar com água, j unto com Laurie, na piscina
inflável cor-de-rosa da am iga lhe veio à m ente, de súbito, com clareza. Ela
se esquecera dessa piscina e de com o fizera tortas de lam a perto dela,
organizara chás da tarde debaixo d'água e brincara com as bonecas por
horas enquanto a m ãe ficava na espreguiçadeira lendo a revista Glam our.
Keelie dava risadinhas, recordando-se do sol quente e do esconde-
esconde com Laurie no j ardim florido. A m ãe reclam ara dos lírios
com pridos que a vizinha plantara e que, agora, cresciam no quintal delas, perto da cerca tam bém . De repente, outra lem brança veio à tona. A garota
ficou boquiaberta ao se lem brar das pequenas pessoas em form a de inseto
que participavam das brincadeiras.
Podia quase sentir o calor de um a noite californiana anim ada por
vagalum es que cantavam para Keelie. Ela dançava com as luzinhas, as
estrelas reluzindo tanto quanto os pirilam pos cintilantes, a pele
form igando com a carícia da m agia deles.
Quando a m ãe avisava "Está na hora de entrar", a filha não queria
fazê-lo, e Katherine ligava os refletores. A garota sabia que eles eram m ais
que insetos, pois sem pre desapareciam quando se acendia a luz. Depois do
ocorrido na floresta, ela nunca m encionara as fadas para a m ãe.
Mãe. Usava short de brim com um a blusa branca bonita, cheia de
rosas bordadas no bolso. Keelie apertou com m ais força a argila. Queria
voltar no tem po e ser de novo aquela garotinha que a m ãe ainda colocava
para dorm ir. Não brincaria com as fadas se pudesse tê-la de volta.
A lem brança com eçou a esvair.
— Não! Mãe, volta!
A garota apertou ainda m ais a argila. Então com eçou a sentir enj oo e
cansaço. Abriu os olhos e deixou a lam a esm agada cair no chão.
Sir Davey a observava, com os olhos de tom cinza sérios. Keelie
fechou os olhos de novo e viu im agens de Moon, do rosto do hom em no
álam o e da criatura de gravetos voando à sua frente. Por fim , surgiu a face
da m ãe, exatam ente da form a com o se recordava dela. A filha não
esquecera. Ela abriu os olhos e notou que os do anão estavam m arej ados. Ele segurou sua m ão.
Lágrim as escorreram pelo rosto de Keelie tam bém . Não conseguiu
im pedi-las. Tentou em purrar toda a tristeza de volta para a caixa que criara
para seus sentim entos, m as a fechadura havia sido quebrada. A tristeza
sobrepuj ante j á não cabia ali. Crescera dem ais para que a garota pudesse
escondê-la, e não teve outra escolha a não ser deixar parte dela escapulir.
— Mais — sussurrou Keelie.
Sir Davey balançou a cabeça.
— Eu não fiz nada, Keelie. Você evocou essa lem brança sozinha. Seu
quartzo funciona da m esm a form a que a argila. Elem entos da Terra fazem
você pôr os pés no chão e focar suas energias sem se distrair.
Ela m al prestou atenção em Sir Davey . Levantou-se, afastando a m ão
dele. Não queria que argila e cristais a fizessem pôr os pés no chão. Queria
a m ãe. Keelie andou cam baleante e teria caído se o pai não a tivesse
segurado. Ele segurou os braços da filha, e ela relaxou. Só daquela vez se
aferraria ao pai. Só daquela vez deixaria que a consolasse, até a tristeza
encolher o bastante para poder guardá-la de volta na caixa e construir
outra m uralha sólida de tij olos ao redor.
Zeke cingiu a filha, que, por sua vez, abraçou-o e chorou em seu
om bro. Ele deu um beij o em sua testa.
— Tenho saudades dela tam bém , Keelie. Tenho saudades da m inha
Katy .
Keelie pediu licença para lavar o rosto. Quando foi até o quarto, Knot
se encontrava na cam a dela, os estranhos olhos verdes focados na garota. Ela viu o próprio reflexo na j anela, diante da escuridão cada vez m aior lá
fora. Estava cedo dem ais para anoitecer. Outra tem pestade chegava.
Enquanto ela observava, um raio ilum inou o céu silenciosam ente, m ais
além da floresta.
A garota ouviu o celular tocar. O gorj eio suave que a m ãe insistira que
usasse. O som vinha do criado-m udo. Keelie pegou o aparelho cheio de
lam a e olhou para a tela, só que estava em branco. Teria que cham ar a
com panhia telefônica e solicitar outro. Perguntou-se que tipo de serviço
ofereciam na Floresta do Pânico.
— Lam a idiota.
Um a vozinha veio do celular. Surpresa, ela levou-o à orelha.
— Eij você atendeu! — A voz de Laurie.
— Você nem ia acreditar. Este aparelho está acabado. Até agora, eu
não tinha conseguido fazer com que funcionasse — explicou Keelie. —
Tudo bem ? Com o vai todo m undo na escola?
— Legal. — A am iga pareceu im paciente. — Minha prim a Addie vai
aj udar a gente. Ela vai ao festival no dom ingo à tarde para liberar você.
— Dom ingo. — Keelie deveria estar feliz, m as sentia desânim o.
— Isso, restam poucos dias agora para você sofrer nesse Festival de
Aberrações.
Ouvindo passos fora do quarto, a garota sussurrou:
— Tenho que ir, Laurie. Liga para m im am anhã.
Num piscar de olhos, ela m eteu o celular debaixo do travesseiro
quando o pai m eteu a cabeça entre as cortinas do quarto.
— Você não vai sair? — quis saber ele.
Knot a observava. Quando ela o olhou, o olhar dele foi do travesseiro
para ela, com o se o bichano soubesse o que a garota planej ava.
— Vou. Só estava dando um a olhada nas roupas novas. — Aquilo foi
péssim o.
O rosto do pai sum iu. Keelie sentiu um tem or intenso à sua volta. A
voz de Hrok lhe veio à m ente, Filha do Pastor das Árvores, aj ude-a.
Ela gritou quando caiu no chão. Teve a sensação de que seus braços
estavam sendo arrancados quando o vento arrastou seu corpo com o um
zéfiro diabólico, exigindo que a garota dançasse com ele. Os galhos do
carvalho do lado de fora da loj a não só golpeavam o vidro da j anela com o
tam bém o arranhavam . A voz de Hrok ecoou em sua cabeça. Pastor das
Árvores, faça a tem pestade parar.
Fazer a tem pestade parar? Com o seu pai poderia dar um basta
naquilo? Keelie sentia com o se seus braços e suas pernas estivessem sendo
puxadas e seus cabelos arrancados pela raiz.
Então a garota perdeu sua conexão com Hrok e ouviu, em vez dele,
um riso sádico em m eio ao uivo do vento. O Barrete Verm elho. Um a onda
de pânico foi se apossando de Keelie, escapulindo na form a de um berro.
Em m eio à escuridão e ao frio, o pânico clorofilado das árvores
espalhava-se conform e elas transm itiam sob a terra, de raiz em raiz. num
zum bido, seu aviso de perigo.
Um calor súbito cham ou a atenção de Keelie e, em seguida, ela ouviu
a rádio m eteorológica transm itir seu aviso de tem pestade. Mãos. Mãos a seguravam .
— Abra os olhos, Keelie — pediu Janice.
— Nós estam os aqui, m oçoila. Abra os olhos. — Era Sir Davey .
Foi o que a garota fez, e viu os dois aj oelhados, um à sua direita, o
outro à esquerda.
— Pai — falou ela com a voz rouca.
— Ele vai ficar bem . Você está conosco agora? — A voz de Sir Davey
parecia um porto seguro, um a rocha firm e que a m anteria no lugar, em
segurança.
Keelie fechou os olhos de novo quando outro pedido de socorro lhe
veio à m ente. Era um álam o longo e m aj estoso, que crescia na floresta do
outro lado da m ontanha. A garota sentiu que essa árvore era a rainha, e
que as m enores ao redor podiam ser consideradas súditas ou m em bros de
sua corte da zona florestal. As árvores estavam em perigo, cercadas de
escom bros rodopiando no sentido anti-horário. Um raio caiu e atingiu o
álam o. O fogo consum iu sua casca fina. Naquele m om ento, Keelie sentiu
a energia vital da árvore esvair.
— Keelie. — Ela ouviu a voz do pai, m as na m ente, em m eio a um a
brum a esverdeada e reconfortante que a envolveu. Ela se esforçou para
falar.
— Tornado.
Pavor e dor a inundaram . Um a dor quente queim ava seus tornozelos.
Parecia que dedos grosseiros os tinham agarrado e os puxavam . As raízes
do álam o estavam sendo arrancadas da Terra. O últim o pensam ento consciente da árvore inundou Keelie. Protej a a m agia, filha do Pastor das
Árvores.
O m anto clorofilado, que reverberava com a m agia de seu pai,
envolveu-a conform e a árvore caiu no chão da floresta. O espírito dela
desapareceu de sua m ente, m as restou-lhe a im agem do tornado abrindo
cam inho pela floresta com o um titã furioso do ar.
Treze
para ver a face preocupada do pai enquanto ele a colocava na
cam a.
— Já acabou, Keelie
— Ah, pai, ela está m orta, e algo a m atou. Aquela não foi um a
tem pestade de verdade, m as sim um feitiço. Você ouviu os risos? Quando
a árvore m orreu, a torm enta riu.
Sir Davey estava ao lado dela, com expressão som bria.
— O Barrete Verm elho, com certeza — disse ele. Zeke anuiu.
— Acho que você tem razão. Am anhã vam os procurar a árvore para
fazer o Lorem Arboral. Keelie vai participar, claro. A Rainha Alam o falou
direto com ela.
Sir Davey arqueou as sobrancelhas.
— Surpreendente — com entou.
— O que é o Lorem Arboral? Algum tipo de funeral?
— Você poderia cham á-lo assim . E um a cerim ônia de despedida e
respeito, em que a m agia da árvore será colhida e devolvida à Terra.
Algo quente e peludo aconchegou-se perto da cabeça de Keelie. Um
ronronado suave e hipnótico levou-a a um estado de torpor, porém ela
ainda entreouviu Sir Davey e Zeke conversarem em voz baixa.
— Ousam os ter a esperança de que ela é a escolhida?
— Não sej a ridículo. Ela é m inha filha.
— Só nas lendas se vê um a pastora com a conexão que Keelie tem .
Em bora apenas estej a tom ando contato com a m agia, os álam os falam com
ela, invocando-a do outro lado da m ontanha.
A garota não queria essa conexão. Não queria sentir árvores m orrendo.
Já era difícil o bastante lam entar a perda da m ãe. Não conseguiria
agüentar lidar com um a floresta inteira.
— Estou assustado, Jadwy n. Só agora Keelie voltou a fazer parte da
m inha vida, e não quero perder m inha filha. E se ela for a escolhida?
Alguns não vão aceitar. Minha m ãe, por exem plo.
— Vocês dois podem ficar quietos? — m andou Janice, em tom de
reprim enda. — A garota j á enfrentou o bastante nos últim os dois dias; deixem a pobre coitada descansar.
Keelie queria se sentar, m as o ronronado ficava cada vez m ais alto, e
ela cada vez m ais sonolenta. Quer dizer então que sua avó não a aceitaria?
Aquilo doía um pouco, em bora não devesse. Antes daquele m ês, ela nem
m esm o sabia da existência da m ulher. Iria pagar na m esm a m oeda.
***
— Você não funciona bem de m anhã, funciona? — perguntou Keelie.
Sir Davey lançou-lhe um olhar ferino do outro lado da m esa da
cozinha. Os pelos de suas sobrancelhas grossas apontavam para várias
direções.
— Hum ! Não dá para acreditar que Zeke não tem café aqui.
—A gente tom ou tudo ontem . Preciso de um a infusão do Starbucks.
— E eu preciso dorm ir. Árvores batendo na j anela, Zeke entrando e
saindo a noite inteira e aquele gato. Você precisa cortar as unhas dele.
Ela se inclinou na m esa. Quer dizer que tinha Sir Davey com o aliado
contra Knot. Ha!
— O que foi que ele fez?
— Além de roncar, ele m e m anteve acordado com o ruído que fazia
afiando as garras nas m inhas costas.
— Knot tam bém m e usa com o arranhador. — Keelie lhe m ostrou o
tornozelo ferido.
O hom enzinho balançou a cabeça.
— Nunca na m inha vida escutei um bicho tão barulhento. Parecia até
que eu estava dorm indo com um m am ute sofrendo de congestão nasal.
— Onde está m eu pai agora?
— Ele saiu ao am anhecer e ainda não voltou. Mas avisou que se não
voltasse a tem po que fôssem os aj udar Cam eron com as aves. E, em bora eu
estej a m uito grato a Zeke por ter m e perm itido dorm ir aqui ontem , m al
posso esperar para voltar a m inha casa. Sem aves — acrescentou.
A cam inho das gaiolas, Keelie ficou surpresa com os diversos tipos de
dano provocados nas loj as. Um telhado de m etal tinha sido arrancado da
loj a de instrum entos m usicais, onde eram vendidas flautas irlandesas,
harpas e saltérios. Cogum elos estragados circundavam a barraca das asas
de fada, que estava em borcada, na área de recreação infantil. As asas de
fada haviam ficado cobertas de lam a, m as, em m eio à luz m atinal e pálida
do sol, cintilavam , transm itindo um a atm osfera m elancólica com seus
restos de brilho.
Do outro lado da rua, Janice estava fora da loj a, aj eitando a lona sobre
a entrada do herbanário. Olhou para eles, m as continuou a trabalhar.
— Vam os falar com ela. Parece aborrecida.
Keelie seguiu Sir Davey apressada.
— Bom -dia. Pelo visto houve alguns estragos na sua loj a, m as não tão
grandes quanto os de alguns — com entou ele.
Janice soltou um suspiro fatigado.
— Com um pouco de aj uda de Zeke, posso consertar o dano provocado
pelo vento.
Raven puxou para o lado a lona, que ainda pendia.
— Abram cam inho! — gritou. Ela usava um a bandana preta nos cabelos, um a blusa preta do Festival de Wildewood, um a regata em que se
lia Nova York e um j eans de cós baixo. Fazia um a careta, pois carregava
um a pá de lixo cheia de cogum elos estragados. — Nossa, isso é tão
noj ento. Nunca m ais vou com er cogum elo.
Keelie tapou o nariz.
— Eca! Fede que nem a caixa de areia de Knot.
— A gente conversa depois — disse a am iga. — Tenho que levar este
troço podre até a com postagem . — Ela correu, a pá na frente com o se
fosse um a oferenda m aligna.
Sir Davey franziu o cenho.
— Foi só isso o que aconteceu lá dentro? Cogum elos?
— Não, não. Acabei de com eçar a checar tudo. A m aior parte das ervas
secas está coberta de m ofo e de cogum elos. Não posso vender assim . —
Janice aproxim ou-se e baixou a voz. — É o Barrete Verm elho. Magia
Negra. Isso tem que parar, Davey . Peles e Raven levaram de carro alguns
dos universitários para a sala de em ergências ontem à noite. A tem pestade
danificou bastante o Condado.
De súbito, ela ficou calada enquanto Tania passava com um am igo,
com expressão zom beteira.
— Estou surpresa por vocês terem tido estragos aqui; nós não tivem os
nenhum .
Janice deu as costas. Pelo visto, não tinha nenhum com entário
agradável para dar com o resposta.
Keelie reconheceu o am igo de Tania com o um dos donos do pub. Ele parou e os saudou com um m ovim ento de cabeça.
— Bons-dias, senhores.
Tania seguiu cam inho, sem cum prim entar nem Sir Davey nem Keelie,
que ficou olhando fixam ente para ela. Que bruxa!
— Com o vai, Al? — perguntou Janice.
Ele respondeu:
— Não m uito bem . Vej o que você tam bém sofreu danos. Alguns dos
barris de cervej a arrebentaram , e acabei ficando com um lago de Guinness
no chão. Vou gastar um a fortuna para repor tudo. Não sei nem se vou
conseguir arcar com o prej uízo.
Sir Davey disse:
— Volto m ais tarde. Tenho que dar um a olhada na m inha loj a, e
prom eti a Keelie que iríam os até as gaiolas. — Ele m eneou a cabeça para o
cara do pub. — Fico m uito triste em saber da Guinness derram ada no
chão.
— Ah, eu teria um trabalho enorm e para lim par, m as o gato de
Heartwood vem tom ando tudo, a m anhã toda. Não sabia que um bichano
podia tom ar tanta cervej a assim . Ele pode beber m ais que um viking.
Keelie lem brou a si m esm a que devia guardar seu traj e novo j unto com
as roupas da La Jolie Rouge no Chalé Suíço — bem longe do gato. Todo
m undo sabia que cervej a tinha o efeito colateral das idas ao banheiro.
Na loj a Hordas de Dragão, Zeke aj udava Jam es a colocar um m ocho-
orelhudo num a caixa de m adeira. A ave parecia tranqüila. O am igo de seu
pai fechou o trinco.
— Pronto. Obrigado, Zeke. Não sei com o eu teria feito se você não
estivesse aqui para aj udar.
— Conte com igo. Som os um a fam ília aqui.
— Nem todo m undo pensa com o você. Nós som os m uito gratos.
— Ele pegou a caixa e saiu da loj a. — Cuidado. Coruj a passando.
— Keelie e Sir Davey não puderam ver o que estava dentro do
recipiente. Mas o m ocho-orelhudo arrulhou.
— Bom -dia, vocês dois — disse o pai para am bos. Para quem tinha
passado m etade da noite acordado, ele nem estava com olheiras. Claro que
Keelie era igual: podia ficar acordada a noite inteira estudando e, na
m anhã seguinte, não precisava nem passar base, com o fazia a m aioria das
suas am igas na Escola Bay wood.
Da parte dos fundos da loj a, Keelie ouviu um grasnido fam iliar,
seguido de um crocito. Tinha-se a im pressão de que eram duas aves
pequenas fazendo pirraça. Ela passou rápido pelas vitrines de pedras de Sir
Davey .
Havia duas m oças e um cara bonito com roupas hospitalares fazendo
anotações em pranchetas. Pareciam universitários.
— Confira se elas estão am arradas. Eu não quero que balancem m uito
na viagem — disse Cam eron, agitando um envelope fino. — Estou com a
história clínica aqui neste arquivo.
Ariel balançou as asas, batendo na gaiola.
— O que está acontecendo? — perguntou Keelie, aj oelhando-se para
acalm ar o falcão. No m esm o instante, a ave se tranqüilizou, tal com o o abutre na gaiola.
— Vou enviar algum as delas para o centro de aves de rapina da
universidade. A m aioria das gaiolas foi destruída ontem à noite, durante a
tem pestade, e a previsão é de m ais tem po ruim até o restante da sem ana.
Ainda vam os tentar fazer o show dos pássaros sábado e dom ingo, m as vou
m e sentir m elhor sabendo que as outras contam com um abrigo.
— O quê? E Ariel? — A garota não queria que o falcão fosse enviado
para longe com o ela, para m orar com estranhos. — O lugar dela é aqui.
O abutre bicou os aram es da gaiola quando o cara gato tentou pegar a
alça. O rapaz praguej ou e tirou a m ão.
— Senhorita, ninguém consegue chegar perto desse abutre.
Keelie inclinou-se sobre a gaiola, a ave dobrou as asas e aproxim ou-se
dela.
-— Uau. Que incrível — falou o veterinário, que tinha cabelos louros
encaracolados. — Você tem j eito com as aves.
— Valeu. — A garota enrubesceu quando o rapaz piscou para ela.
Apesar de ele ser um a graça, não levaria seu falcão para um a universidade.
— Cam eron, eu posso aj udar com Ariel. Por favor, não a m ande em bora.
Zeke apoiou-se no m arco da porta.
— Eu aj udo m inha filha a fazer isso.
Cam eron disse:
— Bom , não posso pedir m elhor encoraj am ento que esse. — Ela se
virou para o rapaz. — Diga para os outros que j á vou.
— Está bem . — Ele escreveu algo na prancheta e foi em bora.
Keelie olhou para o abutre, que pestanej ou com os olhos pequeninos e
brilhantes para a garota, com o se perguntasse se podia ficar com ela.
Sentiu pena dele.
Sir Davey com entou:
— O feioso pode ficar com igo.
— Com o? — Várias vozes perguntaram ao m esm o tem po.
— Ele pode ficar com igo. — Sir Davey pronunciou alto e bom som
cada palavra.
— Alguém precisa de café — com entou Keelie.
— Vou preparar um pouco em breve, m as não está havendo falta de
cafeína. Posso cuidar do abutre. — Ele olhou para o predador engaiolado.
— Nunca im aginei que gostasse de aves. Você reclam ou tanto ontem
quando as trouxem os para cá. — Cam eron deu um largo sorriso.
— Acho então que Louie pode acam par com você.
Zeke riu.
— Acha que vai aum entar as vendas, Davey ?
— Melhor do que aquele seu gato. Ouvim os dizer que ele andou
tom ando cervej a derram ada no pub.
— De novo não! Pelo visto vou encontrar Knot j unto com os piratas.
— O pai de Keelie balançou a cabeça. — Espero que não tenha
deixado um a conta.
— Diz que está brincando, vai! — pediu a filha.
— Queria poder ficar, m as tenho que ir depressa para o centro de aves
de rapina de Fort Collins. — Cam eron pegou um a gaiola com um pequeno falcão dentro. — O atendente da loj a de conveniência m e deu um a notícia
interessante. Estão correndo boatos por aí de que as terras do festival serão
vendidas para um shopping a céu aberto. Eu não ficaria surpresa se a
adm inistração tentasse fazer algo com o fechar o festival m ais cedo, por
causa dos estragos. Talvez até em bargar algum as construções agora
m esm o.
Zeke arqueou as sobrancelhas.
— Você ficou sabendo dessa história de shopping a céu aberto pelo
atendente?
Ela assentiu.
— Lá no posto perto da saída.
— Vou precisar checar isso — salientou ele.
Ariel esfregou a cabeça cheia de penas nos dedos de Keelie, que sorriu
para o falcão. Ao m enos ainda passariam m ais tem po j untos.
— Deixei m inha lista de reparos a serem feitos na m esa do Davey , nos
fundos. — Cam eron rum ou para a porta, carregando a gaiola no alto, bem
longe das m ercadorias.
— Vou tratar deles quando voltar. Keelie e eu tem os planos para esta
tarde. — Ele pôs a m ão no om bro da filha.
A lista de tarefas do pai aum entava cada vez m ais. Ia precisar de um
BlackBerry para lidar com aquilo tudo. A garota se perguntou se ele seria
contra um , j á que não via necessidade para m icra-ondas nem celulares.
— E Ariel? — quis saber a filha. Ela não queria deixar a ave naquela
gaiola portátil dim inuta.
— Pode vir j unto. Vam os entrar na floresta. Ariel vai ficar bem .
Anim ada, Keelie colocou a luva pesada e m eteu o braço dentro da
gaiola para que Ariel subisse nela.
Conform e os dois cam inhavam pela Trilha do Ferrageiro, Ariel ia
em poleirada, com as asas abertas para m anter o equilíbrio. Assim que eles
cruzaram a ponte, Keelie deu um a espiada para checar se conseguia ver a
criatura m isteriosa que vivia na água e que a salvara do Barrete Verm elho.
Talvez a tem pestade a tivesse levado na correnteza.
O pai se virou para a filha.
— Vam os entrar na floresta, e quero que você só observe. Não fale,
m esm o se o que acontecer for estranho. Vou responder a todas as suas
perguntas depois. Melhor nos apressarm os, o m om ento está para chegar.
Aquilo pareceu tão estilo contos de fada dos irm ãos Grim m . O m om ento
está para chegar. Sei. O pai dem onstrava o lado m ístico em relação às árvores.
Desde que ele não levasse um bastão com um a bola de cristal no alto, a