A Filha do Pastor das Árvores
conter a profunda em oção. Ela poderia…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
enxugando as m ãos no pano de prato. O pai com eçara a fazer o j antar.
Havia um a panela com m olho de espaguete no fogo e, em outra, m aior,
água fervente. — Estou falando sério, fique longe das m inhas roupas novas
e de m im tam bém . Você é m ais do que m aluco.
Knot ronronou, com o se ela o tivesse elogiado. Algo dim inuto, de tom
azul, sobressaía em m eio a um em aranhado de pelo no dorso dele. Keelie
estendeu a m ão depressa e pegou o obj eto. Era um a peninha azulada. De
que tipo de pássaro tinha vindo aquilo?
O gato bufou e fez m enção de dar um a patada nela, m as, então,
pensou m elhor e se afastou com toda a tranqüilidade, com o se não fizesse
diferença.
Ela acendeu duas velas de cera de abelha, que estavam em castiçais
de m adeira na pequena m esa da cozinha. As cham as bruxulearam ,
resplandecendo de form a aconchegante o am biente, em contraste com a
escuridão do tem po nublado lá fora.
Zeke entrou.
— O arom a não está delicioso aqui? Estou fazendo m olho de
espaguete.
— O cheiro está ótim o m esm o.
— Você m e aj uda a preparar? Preciso voltar lá para baixo.
— Claro. — O estôm ago de Keelie roncou.
Ele abriu um arm ário, tirou um escorredor e colocou-o na bancada.
— A gente precisa conversar — disse o pai.
Alguém bateu à porta.
Zeke continuou olhando para a filha.
— Entra.
Era Scott.
— Sinto m uito perturbar essa aconchegante cena fam iliar, m as estou
com a m aior dificuldade. Você pode dar um pulinho lá em baixo, Zeke?
Keelie fuzilou o rapaz com os olhos. Podia apostar que ele não
lam entava nem um pouco a interrupção.
Zeke suspirou.
— Fiquei tão cansado hoj e que dorm i e não desci para ver a árvore.
Está em péssim o estado. — Ele foi até as velas na m esa e apagou-as. O
brilho dourado se foi.
Scott acendeu a luz pelo interruptor perto da porta, e a lum inária da
cozinha reluziu irritantem ente.
— Keelie, você poderia servir o espaguete e levar os pratos lá para
baixo? Vam os com er enquanto trabalham os.
— Ótim o. Espaguete para o j antar. — O rapaz deu um a risadinha
afetada. — Zeke e eu j á com em os m uitas vezes assim . Ah, e Keelie, põe
pim enta no m eu. Dá um toque especial, m eio com o os piratas curtem .
— Ah, com o aqueles que estavam do seu lado quando encontrei você
no pub, j á que se esqueceu de m e buscar?
Scott lhe lançou um olhar furioso e, em seguida, olhou de esguelha
para Zeke, a fim de checar a reação dele.
— Assim que a gente term inar, vou para o Condado. Vai rolar a m aior
festa lá hoj e à noite. Roda de tam bor e tudo o m ais. Todo m undo vai sentir
sua falta — ressaltou o rapaz, piscando.
Ela ia m atar aquele cara.
— Keelie. Scott. Já chega — gritou Zeke. — Vam os trabalhar. Filha, há
tam bém um a j arra de chá gelado de hortelã na geladeira.
— Está bem , — A garota se sentiu a em pregada deles.
Os dois saíram , m as Scott voltou a abrir a porta.
— Ah, Keelie? Eu tom o o m eu com gelo. Ciao.
Ela queria gritar. Desde quando tinha virado garçonete? Prim eiro,
com eçara a servir ratos para um falcão e, depois, espaguete para Scott, o
Babaca.
Keelie abriu o arm ário da cozinha e j ogou os pratos de cerâm ica com desenhos de folhas na bancada.
— Vou dar um toque especial no dele.
Ela escorreu o espaguete na pia e colocou-o num a tigela. Algo agarrou
seu j eans novo. Keelie olhou para baixo e viu dois olhos verdes brilhantes
encarando-a.
— Se não soltar a m inha calça, vou dar um chute no seu traseiro.
Um m ontículo de alho picado estava abandonado num a tábua de
m adeira.
— Aposto com o isso é para você, m as você não tem pulgas, tem ?
Quem está cheio delas é o Scott.
Keelie agitou o pé de novo. Knot analisou a garota enquanto ela m exia
com tranqüilidade o espaguete; em seguida, foi correndo até um a cadeira e
sentou ali, com o se estivesse pronto para ser servido.
— Eu não vou dar isso aqui para você. Tam bém não sou sua garçonete.
Ela se dirigiu à bancada e distribuiu porções iguais de espaguete em
três pratos. Estava a ponto de colocar o m olho em cim a quando pensou no
alho de novo.
— Quer saber? Scott disse que queria um toque especial no m acarrão.
Keelie escondeu o alho com cuidado na porção caprichada de
espaguete. Inspirada, perscrutou o arm ário de tem peros da cozinha.
— Beleza!
Colocou pim enta m alagueta em pó num pouco de m olho e pôs no
prato do rapaz.
— Venham , venham todos, ao novo show do festival! O tapado cuspidor de fogo!
Knot ronronou ao observá-la. Ela colocou os três pratos pequenos de
espaguete num a bandej a, lem brando a si m esm a que o de Scott era o azul-
escuro. Acrescentou talheres e guardanapos e, então, levantou a bandej a e
com eçou a rum ar para a escada. Eles teriam de pegar o próprio chá, pois
Keelie não conseguiria carregar a com ida e as bebidas j untas.
Assim que a garota abriu a porta, que dava para a escada externa Knot
passou correndo por ela.
— Felino lesado!
O gato desceu correndo a escada. Keelie parou no últim o degrau.
Podia ouvir o zum bido de centenas de abelhinhas. No entanto, não havia
nenhum inseto voando por ali que j ustificasse aquele barulho.
Os dois hom ens estavam conversando na m arcenaria. Knot tinha
sum ido de vista. Por m ais chato que aquele rapaz fosse, ela o invej ava.
Scott conhecia Zeke m elhor do que ela. O pai se interessara por ele e lhe
ensinara a lidar com m adeira. Ela ganhara um presente aqui e ali.
Keelie entrou, m as nenhum dos dois a notou. Zeke estava com as
m ãos num tronco enorm e e danificado, preso num cavalete, com o um
paciente na m esa de cirurgia. Tocava-o com reverência, acariciando a
casca.
Errado. Havia algo m uito errado ali. Ela sentia a vibração no ar, com o
ondas que saíam da árvore e iam até ela.
— E aí? — As m ãos de Scott estavam ao lado do seu corpo, bem
afastadas do tronco.
— Ela ainda está angustiada e não quer que m udem sua form a. Foi
tirada antes do tem po. Sente falta do sol. Quer fincar suas raízes de novo
na Mãe Natureza.
— Do que é que você está falando? — perguntou Keelie, arrancando
um a lasca cham uscada da m esa (carvalho). Teve a ligeira im pressão de
raio e incêndio. Um a im agem lhe veio à m ente, num piscar de olhos.
Os dois hom ens olharam de soslaio para ela, m as o tronco enorm e era
sua m aior preocupação.
— A m adeira. Venha tocá-la, Keelie — disse Zeke.
— Acha que ela deveria fazer isso? — perguntou Scott, dando a
im pressão de estar contrariado.
A garota sorriu com doçura para ele e lhe entregou o prato.
— Para você.
— Cadê o chá?
— Lá em cim a. Vá você m esm o pegar.
Ela tocou na árvore, porém tirou a m ão quando viu um rosto fem inino
delicado, contraído de dor, observá-la do interior da casca. Fechou os
olhos, depois olhou outra vez, m as não passava de um a árvore. Não havia
entalhe.
Keelie recuou.
"Mam ãe, o povo das árvores diz que m e conhece e que conhece o
papai." A garota voltara, de súbito, à infância, no parque com a m ãe,
estendendo o braço para pegar a m ão dela.
"Não existe um povo das árvores, Keelie", salientara Katherine.
Mesm o aos cinco anos, a filha sabia que ela estava m entindo. A m ãe
dissera que a garota tinha um a alergia a m adeira que a levava a ver e a
ouvir coisas, m as, caso se m antivesse longe desse m aterial, não teria
problem a. Então Keelie nunca m ais falara de sua sensibilidade à m adeira
com Katherine.
Zeke disse:
— Tem algo errado?
— Só a m inha alergia — com entou a filha, afastando-se do tronco. Não
podia tocá-lo. Im aginava o desespero da árvore que a envolvia. Se
colocasse as m ãos nela, iria ser consum ida pelo pesar e j á estava m agoada
dem ais. E tudo coisa da m inha m ente, pensou.
Mas o suposto pesar da árvore trouxe à tona o seu. A situação não
devia ser aquela. Era para a m ãe dela estar ali, viva e forte, a face voltada
para o sol, os pés firm es na terra. Keelie estrem eceu. Teve vontade de
chorar.
— Mãe. — A palavra escapou num gem ido.
O pai a abraçou.
— Está tudo bem , Keelie. Estou aqui para apoiar você. Não vou deixar
que vá em bora de novo.
A filha o abraçou.
Scott gritou:
— Caram ba, com o isto está apim entado!
Knot saltou rum o ao tronco. Keelie deu um passo atrás, m as Zeke a
cingiu com um dos braços e a aproxim ou.
O zum bido que ela ouvira se tornou m ais forte e m ais m arcante, com o
pequenos fragm entos de um a conversa, os sussurros de dim inutas vozinhas
se m isturando.
Os olhos estranhos de Knot eram bolas de gude pretas, rodeadas de
verde. Seu rabo oscilava com o um a naj a se contorcendo. Suas orelhas
estavam inclinadas para trás, ressaltando a área sem pelos da cabeça. Ele
bufava, fitando um ponto no ar acim a de si.
Keelie olhou ao redor para checar se outro gato o desafiava, m as não
havia nada ali, exceto aquele ruído esquisito, que aum entava cada vez
m ais. Talvez o gato estivesse tendo um troço.
Knot pulou do tronco para o chão, atravessou correndo a clareira e
subiu quase dois m etros de um carvalho ali perto. Então saltou da árvore
para o solo, deitando-se de costas para dar patadas no ar, golpeando um
inim igo invisível. Com a m esm a rapidez, deu a volta e correu em torno do
tronco de carvalho três vezes; depois parou e deu um a patada no solo. Em
seguida, desceu a toda o cam inho diante da j usta, rum o ao lago. O
zum bido e o burburinho cessaram , com o se perseguissem o gato.
— Ele está doente? — quis saber Keelie. Realm ente parecia que o
bichano tinha perdido a cabeça. Talvez não devesse ter lhe dado espaguete
com tanto alho. Ela fitou Scott, que devorara o j antar, e viu que seu rosto
estava rubro e brilhante de suor.
— Você vai buscar o chá? — perguntou Scott. — Minha boca está
pegando fogo.
— Scott, qual é o seu problem a? Vá pegar seu chá! — m andou Zeke, de cenho franzido. Ele apertou com suavidade o braço da filha. — Eu
queria que você fosse se adaptando aos poucos à nova vida, queria lhe dar
tem po antes que com eçasse a ficar a par de m im , da m inha fam ília, do
m eu m undo. Acho que não está dando certo.
— Do que está falando? O que esta árvore tem a ver com isso?
— Foi atingida por um raio no dia em que você chegou. Lem bra que
você viu a fum aça? Você salvou algum as vidas naquele dia, Keelie. Só que
esta j á não tem salvação, e sua m agia está presa em seu interior. Com o
pastor das árvores, tenho que conduzir seu espírito adiante e transform ar
sua m agia em energia curativa.
— Sei. Tipo um arborista e sacerdote?
— Mais ou m enos. Nem todo m undo pode fazer o que eu faço, e você
herdou o m eu poder. Aliás, no seu caso, a coisa vai além ; Sir Davey e eu
suspeitam os que você é m uito m ais poderosa que eu.
— Sério? — Até que superpoderes viriam a calhar, m as, caso se
relacionassem apenas a árvores, seriam m eio lim itados. O que ela podia
fazer? Assustar esquilos? Não estava acreditando naquela história. A m ãe
avisara que o pai era estranho, adepto da Nova Era. Ele deveria ter ido
para a Califórnia. Teria se adaptado bem .
Keelie se deu conta de que estava boquiaberta; fechou a boca. Seus
olhos m ostravam -se m arej ados, m as eram lágrim as de raiva.
— Existem fadas boas tam bém , e algum as vieram se despedir do
carvalho que serviu de abrigo para elas. Knot se m eteu. Conhecendo
aquele gato, na certa ele profanou o círculo de cogum elos delas, usando-o com o caixa de areia. — O pai balançou a cabeça. Estava gostando daquela
história.
— Pare, Zeke. Achei que nos divertim os m uito no shopping. Cheguei
até a pensar que m e tratava com o parte da fam ília em vez de turista. Mas
agora lá vem você de novo com essa ladainha m aluca de conto de fadas. —
Ela se afastou dele, satisfeita com sua expressão m agoada. Ele m erecia.
Não era à toa que a m ãe tinha saído do m undo de Zeke. Ele não conseguia
separar fantasia de realidade. — Eu não sou um a m undana, sabe?
O pai parecia sério.
— Keelie, você com certeza não é um a m undana. Longe disso.
— Eu vou aj udar Cam eron a cuidar de Ariel. Espero que gostem do
espaguete. — Ela atravessou a clareira para pegar o cam inho rum o às
gaiolas.
Atrás dela, o pai a cham ou.
— Keelie? Espere um m inuto. Vou com você. E perigoso você ficar
sozinha.
Ela acenou sem se virar, com eçou a andar m ais rápido e, então, a
correr. Quando voltasse para a escola, estaria em tão boa form a que o resto
da equipe de corrida em trilha com eria sua poeira. Barracas escuras
passavam rápido, os donos nos trailers ou nos apartam entos no andar de
cim a. A garota foi m ais devagar ao passar pela floresta do outro lado da
j usta.
Um a criança fantasiada cam inhava entre as árvores. Keelie parou ao
perceber o que via — o que pensava que via. Era Knot, de botas, andando apoiado nas pernas traseiras e segurando um a espada com a pata da frente.
E não estava sozinho. Um a criatura folhosa, um em aranhado de gravetos e
vinhas, lutava contra ele com um bastão.
Keelie correu m ais depressa ainda, ansiando fugir da im aginação fértil.
***
Há m uito estresse e pesar na m inha vida, pensou Keelie, ao acariciar as
penas verm elho-escuras do rabo de Ariel, satisfeita pelo fato de o falcão,
com toda a sua elegância e seu porte im ponente, ser apenas um a ave e
nada m ais.
Ela ouviu o pai conversando com Cam eron em voz baixa. Ele correra
atrás dela ao longo de todo o percurso. A filha nunca lhe diria o quanto
ficara feliz por tê-lo ali, por m ais brava que estivesse por ele tratá-la feito
um bebezinho. Fadas? Está bem .
Ariel a observava com o olho dourado. Cam eron não estava ali quando
Keelie chegara às gaiolas. Jam es, um dos falcoeiros, perm itira que a garota
tirasse Ariel da gaiola e com partilhara sua m acarronada com ela.
Felizm ente, espaguete norm al. Zeke entrara segundos depois dela, m as
sum ira assim que a vira com Jam es.
Ainda abalada com a cena superestranha da m arcenaria, ela se
perguntou se precisava ir a um psiquiatra. Não, na verdade, se qualquer
análise fosse necessária, o pai e Scott encabeçariam a fila.
Claro que talvez tivesse a ver com drogas. Talvez houvesse algo no chá
de ervas que todo m undo ali tom ava. Ou nas sem entes de cristal da sra.
Butters. Pelo visto, eram perigosas.
Tudo parecia um a grande alucinação. Rostos em árvores, bolas de
lam a m ágicas e insetos invisíveis em itindo zum bidos. Knot com sua roupa
de Gato de Botas Mosqueteiro. Ela nunca conseguiria contar isso para as
am igas sem ter um troço. Aliás, "ter um troço" era um a locução que não
devia usar m uito naqueles dias.
Com o podia explicar aquele gato? A cada dia que passava no festival,
distinguia m enos o real da ficção. Com o explicar a face de um a m ulher
num tronco de carvalho, senão com o um a estranha visão provocada por
alergia? Com o explicar logicam ente o conhecim ento que tinha a respeito
das árvores, que surgia sabe-se lá de onde? Quanto m ais rápido desse o
fora daquela Terra Maluquete, m elhor. Não à toa a m ãe a tirara daquele
m undo do pai anos atrás.
Ariel cam inhou centím etro a centím etro ao longo da luva, rum o ao
rosto de Keelie, e apoiou sua cabeça na bochecha da garota, que ficou
im óvel. Falcões não eram gatinhos. Será que se tratava de um gesto de
confiança e am izade, ou Ariel estava prestes a rasgar sua face?
Em bora a cabeça do falcão fosse quente e rígida, suas penas
m ostravam -se incrivelm ente m acias. Ariel não fez nenhum m ovim ento
para atacá-la, e Keelie sentiu aquele lado de si m esm a ativado pela ave
aum entar cada vez m ais, fazendo com que se sentisse bem , apesar da
m anhã assustadora.
A voz de Cam eron interrom peu o m om ento.
— Keelie, ainda bem que está aqui — disse ela, em um tom de voz
ansioso. — Preciso da sua aj uda. — Seu pânico era tão grande que a j ovem não notou o falcão apoiado no rosto da garota.
— Claro. O que foi? — Keelie se levantou devagar para não assustar
Ariel. A expressão de Cam eron estava séria de tanta preocupação, e ela
tam bém usava roupas norm ais: um casaco cinza, j eans e tênis Nike.
Parecia totalm ente norm al. Era j ustam ente disto que Keelie necessitava:
algo que não fosse fora do com um .
— Moon passou o dia inteiro doente, e pode ser que o que vou lhe
pedir pareça estranho, m as preciso que vá em frente, sem questionar.
A filha de Heartwood ficou triste. Por um instante, pensou que
Cam eron a m andaria m atar a ave, para acabar com sua dor. Mas não. A
própria j ovem o faria quando chegasse o m om ento. Adorava Moon, a
coruj a-das-neves. Tinha de ser outra coisa, e Keelie sabia que faria o que
fosse necessário para aj udar a ave.
— Claro.
— Venha com igo.
— Espere aí. — Zeke colocou-se na frente de Cam eron. — Ela não
pode fazer isso. Não está pronta.
— Tem que ser ela. — A j ovem olhou ao redor e, em seguida, falou
m ais baixo. — Sei que você j á ficou sabendo tam bém . Moon está no
prado, no álam o m ais alto, Hrok. O Barrete Verm elho não pode alcançá-la
ali.
O prado, local de m aus presságios.
— O que tenho que fazer? Por que eu? — Keelie tentou atrair o olhar
de Cam eron, m as a j ovem fitava Zeke, com o se aguardasse sua aprovação. O pai da garota deu a im pressão de estar aturdido, m as, por fim ,
assentiu e pôs-se de lado.
— Vou m anter a área segura.
— Esperem aí. Eu preciso de um a resposta. Lem bram -se de m im ?
Keelie? A pessoa de quem estão falando?
Ao que tudo indicava, Ariel sentira o estado de ânim o deles. Voou do
braço da garota até o poleiro sem que ninguém precisasse pedir que o
fizesse. Cam eron fechou a porta da gaiola e, então, virou-se para Keelie.
—Vou contar para você no cam inho até o prado. Não tem os tem po.
Os três se dirigiram depressa até lá, pela atm osfera estranham ente
am arelada e silenciosa. Keelie continuava com a luva reforçada de couro.
Passaram pela área de recreação infantil. O m astro enfeitado para
festej os e o picadeiro de pôneis pareciam esquisitos, vazios. Já avistando a
casa de chá da sra. Butters, eles pegaram a esquerda, para cruzar um
portão com um a placa de "Som ente funcionários" e seguir cam inho pela
Travessa do Espírito da Água, rum o ao prado.
Assim que passaram pelo portão, Keelie ouviu o ruído de tam bores. O
Condado ficava ali perto, e a festa com eçava sem ela.
Os três passaram por um pequeno aglom erado de árvores; o prado
ficava à direita. O lugar dava a im pressão de ser am plo e acolhedor em
m eio à luz som bria do dia, com um a série de álam os na parte m ais lon-
gínqua e outras árvores de m adeira de lei aqui e ali. Havia um rochedo no
m eio.
Keelie viu o brilho pétreo em m eio às árvores distantes. A área de Elianard. Apesar da aparência sim pática, ela sabia que o lugar era
perigoso. A sensação de pânico aum entou quando se aproxim ou, e a garota
sentiu um a estranha vibração vindo da terra no m eio do prado.
Da árvore em que estava pendurada sua gaiola, Moon piou e agitou as
asas, batendo-as contra o engradado de aram e.
Cam eron estalou a língua de form a reconfortante quando eles se
aproxim aram . Zeke observou a floresta com cautela, e Keelie lutou para
dar cada passo, quando o que queria fazer era correr para o Condado e se
esconder num a barraca.
Os álam os aparentavam ser anciãos, e a garota pôde senti-los; eram
espíritos fortes, com o guardiões de um lugar sagrado. Os ram os m ais altos
do m aior deles estavam ressecados, e seu tom preto escam oso parecia um a
ferida intensa em contraste com o verde das árvores que o cercavam .
Já da extrem idade do prado, Keelie notou que a coruj a estava doente.
Norm alm ente, ela estaria no poleiro, com olhar atento. Exausta em virtude
de seus esforços, a ave m ostrava-se apática, com as penas brancas e sem
brilho caindo, os olhos enorm es fechados. Não se m oveu nem m esm o com
o ruído da aproxim ação dos três.
O que quer que estivesse errado com ela provavelm ente ia além do
âm bito de qualquer rem édio caseiro.
— Você não acha m elhor a gente cham ar um veterinário?
— Eu sou veterinária. A m edicina m oderna não vai aj udá-la —
respondeu Cam eron com firm eza. — De m anhã cedo um a m úsica m e
acordou, e as aves estavam enlouquecidas, fazendo um a barulheira danada. Quando saí para ver quem tocava a m úsica que perturbou as aves,
vi na hora que havia algo errado com Moon.
— Quer dizer que um m aluco tocou um a m úsica qualquer e feriu a
coruj a? Acha que ela foi envenenada? — Keelie sabia que algo m ais sério
estava acontecendo, porém não queria se aproxim ar daquelas árvores
m edonhas.
Cam eron deu a im pressão de ter ficado intrigada; em seguida,
sobressaltada.
— Zeke, achei que você tinha conversado com ela. Keelie, quer dizer
que você não entende qual é seu papel aqui?
— Aquelas fábulas sobre Barretes Verm elhos e despedidas de árvores?
— Em bora a garota não adm itisse, não podia negar, por um lado, sua
afinidade fora do com um com árvores e m adeira e, por outro, que andara
vendo m uita coisa estranha.
— Keelie, preciso canalizar a energia curativa do álam o para Moon.
Seu pai não consegue curar anim ais, m as sinto que você pode fazer isso.
Pode ser que não dê certo, m as ela não tem m uito tem po. — A j ovem
tocou nas penas da coruj a.
Zeke olhou para a filha.
— Estou aqui para aj udar você.
— Que história é essa de vocês com as árvores, hein? — A garota os
fitou.
O lado de Keelie que pertencia à m ãe dizia: "Se m anda daqui! Não
faça isso, está virando um deles." Mas o lado despertado por Ariel estim ulou-a a estender a m ão e tocar no álam o. Ela não queria tocar
naquela árvore, pois lem brava-se da tristeza sufocante que sentira com o
carvalho na loj a do pai.
Os olhos de Cam eron estavam m arej ados.
— Por favor, Keelie. Eu adoro Moon. Sei que tem condições de aj udá-
la. Você consegue se im aginar se recusando a aj udar Ariel?
— Não é isso, Cam eron. É que não tenho nenhum poder. Você está
falando de m agia, não de m edicina. — E das árvores. A garota estrem eceu.
Havia algo ali em baixo. Algo ruim . O que significava aquilo?
— Você tem o poder da m agia, Keelie — disse Cam eron.
Keelie pensou em Ariel, na cabeça ossuda do falcão apoiada na sua.
A ave confiava nela. Em seguida, recordou-se da m ãe, que afirm ava
que a m edicina era superestim ada e que ela não acreditava em nada,
exceto nas leis.
A garota teria desafiado a m ãe para salvar Ariel. E, para salvar Moon,
precisaria desafiar a lem brança de Katherine, suas crenças. Ou
descrenças.
Não deixaria a coruj a m orrer, m esm o que isso significasse se expor à
esquisitice da árvore, à m á vibração vinda do solo.
— Está bem , o que tenho de fazer? É só um a tentativa, Cam eron. Não
prom eto nada. Mas vou fazer um esforço por você e por Moon.
Zeke pôs a m ão no om bro da filha.
— Muito bem . Vou ficar de olho. Nada nem ninguém vai se aproxim ar
— disse ele.
As lágrim as escorriam dos olhos de Cam eron.
— Obrigada, Keelie.
Cam eron tirou a coruj a da gaiola. A ave abriu os olhos devagar. A
garota não viu nenhum a ferida, m as pôde sentir algo cercando
Moon, sim ilar a um cobertor invisível de m á intenção rodeando-a.
Quem quer que lhe tivesse desej ado m al fizera-o de um j eito bem m aligno.
A treinadora colocou a coruj a no braço de Keelie. As garras de Moon
pressionaram a luva da garota, que ergueu a outra m ão, para equilibrar o
anim al. A ave se inclinou na palm a da m enina, que aproxim ou o braço do
peito para que a coruj a pudesse se apoiar em seu corpo, em bora estivesse
ciente do bico superafiado tão perto de sua pele. Ariel confiava em Keelie,
m as ela não tinha lidado com Moon antes. Talvez um a ave doente, com o
um cachorro enferm o, atacasse por m edo.
Keelie engoliu em seco.
— Pronto. E agora?
— Tem que tocar no álam o para deixar a energia da árvore fluir por
você até a Moon — explicou Cam eron, que apontou para a planta e
recuou.
Tocar na árvore? A garota estrem eceu. Do outro lado do prado, a
batucada se intensificara, intercalada por gritos entusiasm ados e uivos. A
dança havia com eçado.
A árvore parecia saudável e verdej ante, um a versão viva do tronco
partido que vira na loj a de Zeke. Keelie cam inhou até ela com as m ãos
trêm ulas, então se sobressaitou quando viu a face de um j ovem observá-la da casca. Aquilo não era alergia coisa nenhum a.
— Por favor, Keelie — insistiu Cam eron atrás dela.
A garota fechou os olhos para bloquear a alucinação estranha e
colocou a m ão livre no álam o. Um calor espalhou-se da casca rígida por
seus dedos, depois pelo braço e por seus olhos fechados; e aquela energia
parecia ter um tom esverdeado, com o seiva viva. Keelie j á não sentia
m edo. Estava tudo bem . Ou, ao m enos, não doía.
O que desej a, filha do Pastor das Arvores?
Keelie abriu os olhos. A árvore falara m entalm ente com ela. Suas
palavras aparentavam ser clorofiladas tam bém , e partes delas chegaram a
germ inar, enraizando-se em seu cérebro.
Moon deu um leve pio. O tem po se esgotava para a coruj a. Keelie
fechou os olhos e pressionou a m ão com m ais firm eza contra a casca.
Chegara a hora de ela confiar tam bém .
Ela se im aginou abrindo a caixa em que m antinha trancados seus
sentim entos. A caixa se abriu, revelando o vazio escuro da parte interna.
Será que poderia curar esta coruj a,? Ela precisa de sua aj uda, pensou
a garota. Eu não sei o que fazer.
Filha do Pastor das Arvores, você atendeu ao m eu cham ado quando
fom os atingidas pelo fogo das nuvens. Meu poder está à sua disposição. A
luz clorofilada que se espalhara por seu braço passou a fluir da árvore por
Keelie, preenchendo aquela caixa de sua m ente. A garota im peliu a energia
da árvore para dentro da coruj a doente e seu entorno.
Keelie visualizou Moon saudável e m anteve essa im agem na m ente.
Conform e a energia arbórea, que form igava em sua pele, fluía em seu
corpo, a garota im aginou a luz clorofilada dissolvendo as trevas que
infectavam a ave.
Ficou im óvel, m antendo a coruj a na m agia curativa do álam o, até
com eçar a se sentir fraca e seus j oelhos debilitarem -se. Ela endireitou o
j oelho direito e se apoiou na árvore, e o contato perm itiu que a energia
fluísse ainda m ais.
Após alguns m inutos, Keelie caiu no chão. O corpo leve de Moon se
tornara um fardo pesado.
— Sinto m uito — sussurrou a garota. Já não conseguia segurá-la m ais.
Ela sentiu um a últim a carícia clorofilada da árvore e um m urm úrio de
despedida, filha do Pastor das Árvores, então ouviu Cam eron dizer:
— Você conseguiu, Keelie. Salvou Moon.
A garota abriu os olhos e viu a treinadora acariciando a coruj a-das-
neves apoiada em seu peito. Keelie sentiu-se a um só tem po exausta e
feliz. Salvara a vida de Moon com a aj uda da árvore.
Zeke se inclinou, o rosto assom ando diante da filha.
— Você está bem ?
Ela anuiu e, em seguida, estendeu a m ão atrás de si para acariciar a
casca da árvore.
— Obrigada — sussurrou.
Você é am iga das árvores, m urm urou o álam o.
Keelie com eçou a ouvir um zum bido, com o se houvesse um m osquito
voando por perto. Ela escutara aquele ruído antes quando ele perseguira Knot.
Ela virou a cabeça, seguindo o som , e viu um inseto pousando na
casca suave do álam o. Ele reluziu, com os olhos perspicazes voltados para
a garota, e estendeu as asas.
Keelie não desgrudou os olhos do inseto, achando que ele partiria se
ela fechasse os olhos. Muito acontecera, e j á não podia m ais deixar de
acreditar.
— Keelie, não. — O tom de voz do pai pareceu prem ente.
— Você é um a fada? — Ela aproxim ou o rosto do inseto grande, e ele
recuou um pouco. Estendeu a m ão e, em seguida, o bicho aproxim ou-se e
pôs um a perna em seu dedo.
Então o inseto recuou, e um borrifo tênue atingiu a face de Keelie. As
partículas pareceram adquirir vida. Em instantes tinham atingido seus
olhos, dando a im pressão de ganhar velocidade à m edida que chegavam
perto deles.
Keelie ouviu a si m esm a tossir e, depois, tudo ficou escuro.
Doze
perto de bebidas alcoólicas, pensou Keelie, acabada. Sua cabeça
latej ava j unto com as batidas de seu coração. Ela puxou as cobertas
para cim a, até a altura do peito, e fez um a careta por causa do ruído
alto dos lençóis roçando sua pele.
Raven segurou um vestido verde com bilhões de m etros de tecido nas
m angas rastej antes.
— Que tal este aqui?
Laços verdes destacavam -se do vestido. Devia haver algo errado.
Keelie desej ou ter aceitado o chá de casca de salgueiro enviado por Janice. Pó de fada idiota. Quando pusesse as m ãos naquele terrorista m iúdo, ele ia
servir de com ida para Knot. Mas com o distinguir um inseto-fada de um
inseto de verdade?
— Keelie? Este vestido? — Raven a observava com as sobrancelhas
arqueadas.
A garota tirou as cobertas.
— Exagerado — sussurrou, desej ando que a am iga tam bém o fizesse.
— Tentador dem ais para Knot. Claro que ele poderia se sufocar nele, o
que seria um a vantagem . — Tinha sido o gato que irritara as fadas
prim eiro, de qualquer form a.
Fadas. Keelie soltou um gem ido e pressionou a palm a da m ão na testa.
— Raven, você poderia m e deixar sozinha, por favor? Preciso m orrer.
— De j eito nenhum — respondeu a outra, com um largo sorriso. Seus
dentes eram tão, tão... brilhantes.
Raven sorriu e pendurou o vestido no cabideiro de m adeira que ela e
Janice haviam levado, cheio de fantasias para Keelie provar. Pegou o
próxim o.
Keelie gem eu de novo. Naquela m anhã se sentara rigidam ente, com o
coração em disparada, lem brando-se de Moon, do álam o, da criaturinha de
gravetos e do inseto venenoso. A terrível dor de cabeça perdurava, com o se
alguém estivesse a um só tem po batendo na parte posterior dela e
apertando suas têm poras, com o os foles que os ferreiros usavam nas
bigornas.
Fadas zangadas, dissera Zeke. Ela perdera toda a tarde adorm ecida por causa do pó de fada. Ele tam bém m encionara que a criaturinha devia ter
ficado brava com Keelie por ela ter curado Moon. Se a garota não tivesse
visto com os próprios olhos, teria pensado se tratar de m ais um a das
esquisitices do pai. Claro que tudo o que ocorrera no prado fazia Zeke
parecer m enos estranho a cada instante.
— Você precisa daquele chá para dor de cabeça — disse Raven.
— Pode trazer. Quero um duplo. — Keelie olhou ao redor, verificando
se a horripilante criaturinha voadora estava por ali, em algum lugar. — Por
que as fadas m e atingiram ?
A am iga deu uns tapinhas em seu om bro.
— Seu pai está averiguando. — Ela deu um a olhada nos vestidos do
cabideiro. — Você pode ficar deitada um pouco m ais, m as é até m elhor se
m over.
Zeke j á fora para a loj a quando a filha acordara do sono provocado pela
fada e descobrira que sua m ão estava verde. Janice estivera sentada ao lado
de Keelie, com um a xícara de chá reconfortante, adoçado com m el, pronto
para ela. O líquido j á esfriara àquela altura. Raven assum ira a função
depois de um a hora, quando a m ãe voltara à loj a para cuidar da
contabilidade.
Keelie estendeu a m ão para pegar a xícara oferecida pela am iga.
— Então você acredita em fadas tam bém ? — O chá estava gelado, m as
seu arom a era delicioso.
— Eu nunca as vi. Mam ãe as cham a de bhata. — Raven pronunciou
"uata" e deu a im pressão de estar m eio triste. — Mas o tal do Barrete Verm elho que está deixando todo m undo preocupado? Já vi o que ele pode
fazer. Dois caras quase se m ataram no Condado por causa de um MP3
perdido, e nenhum deles era do tipo brigão. Foi a m á vibração, m uito
esquisito. Estranho de dar m edo.
— Estranho de dar m edo? Vindo da m ulher-que-adora-film es-de-
terror?
— Ei, não gosto de participar deles! — Raven inclinou o fundo da
xícara com o dedo. — Tom e, criança, depois vam os fazer seu sangue
circular.
Keelie obedeceu e tom ou tudo. Logo se sentiu m elhor, em bora o
quarto ainda pendesse para a esquerda se ela virasse a cabeça rápido
dem ais.
— Com o assim , fazer o m eu sangue circular?
Raven a olhou de um j eito m isterioso e, então, pegou no chão um
longo lenço preto, cheio de m oedinhas douradas retinintes. Em seguida,
levantou-se e agitou o quadril ao am arrar o lenço em torno dele e dar um
nó na frente.
— Hora da sua lição.
— Agora? Raven, eu estou m orrendo. Não é um bom m om ento.
— Levanta, preguiçosa. Dançar vai fazer você se sentir m elhor, eu
prom eto. — Ela pegou as cobertas e puxou-as até o chão, expondo ao frio
o pobre corpo m oribundo de Keelie.
— Puxa, quanta crueldade. Agora vou m orrer de pneum onia tam bém .
Debaixo da cam a, Knot ronronou.
Keelie ficou de bruços e abaixou a cabeça até a beira da cam a, segu-
rando as laterais do colchão para se apoiar. Debaixo dela, o gato m astigava
um a de suas m eias, babando sobre o tecido retalhado.
— Eu fui atingida por um a fada por sua causa, bola peluda. — Ficar de
cabeça para baixo não foi um a boa idéia. Sua cabeça latej ou ainda m ais.
Knot a fitou com os im ensos olhos verdes, então tentou golpeá-la com
a pata. Assim que ele se m oveu, ela viu seu celular aparecendo sob sua
lateral gorducha.
— Ei, m eu celular! — Keelie estendeu a m ão e o agarrou, evitando as
patas do gato. Então, tentou se endireitar, m as escorregou e caiu da cam a,
batendo o quadril no assoalho.
Raven tirou o celular de sua m ão.
— Eca, está coberto de lam a seca. — Ela raspou a cobertura
enlam eada com a unha. — Acho que não vai funcionar m ais.
Keelie continuava deitada no chão, olhando para cim a. A qualquer
m om ento peritos de cena de crim e apareceriam para traçar seu contorno
com giz.
— Mas nunca se sabe com certeza — prosseguiu Raven. — Talvez se
você o lim par com cuidado e secar bem rápido funcione.
A garota fechou os olhos.
— Preciso que funcione. E a única ligação com m inhas am igas em Los
Angeles. — Ela teve a im pressão de que ouviu Raven soltar um resm ungo,
m as achou que provavelm ente se equivocara. — Ontem foi tão estranho.
Pareceu um sonho. O dia com eçou norm al, m as depois saiu do controle. Acho que vi Knot de botas lutando contra aquelas fadas de gravetos,
em punhando um a espada.
— Eu não ficaria surpresa. — Foi a resposta da am iga. — Knot é um a
criatura interessante. Até um m istério, com o o Triângulo das Berm udas.
— Mistério? Eu diria m iséria. E m e vem um m onte de outras palavras
para descrever esse gato tam bém .
Aquele com entário fez Raven rir.
Knot ronronou ao se esfregar nas pernas da am iga de Keelie. Raven
deu um passo atrás.
— Ai, que noj o. Agora estou cheia de baba de gato. Ele babou toda a
m inha bota feita sob m edida.
Algo pesado pousou na cam a, em cim a da cabeça de Keelie. Ela nem
precisava olhar para saber que se tratava da bola peluda. Ele ronronou.
— Posso ver o vestido depois? Acho que preciso voltar para a cam a. —
Keelie pegou os óculos escuros que colocara no criado-m udo no dia em
que chegara e os pôs. Mais escuro, porém m elhor.
— Eles aj udam ? Você ainda está m eio verde.
A garota abriu os olhos.
— Pelo m enos não estou vendo serpentina verde saindo da sua cabeça.
Raven aj eitou a parte de cim a dos cabelos pretos.
— Ainda bem . Verde com certeza não é a m inha cor. — Ela fez um
gesto em direção ao cabideiro cheio de vestidos. — Aqui tem duas lin-
geries, aquelas duas brancas, que podem ser usadas tam bém com o
cam isolas. Há ainda três vestidos para você, incluindo aquele verde, e a m am ãe j á m ediu seus pés para as botas m edievais. São um m eio- term o
entre sapatilha e botas. Superconfortáveis, antilam a. Você deve recebê-las
daqui a alguns dias.
Daqui a alguns dias, Keelie esperava estar longe dali. Sentia-se
culpada por aceitar aquelas fantasias, m as precisava de roupas para usar
até lá e, além do m ais, poderia vesti-las quando fosse visitar o pai. Não
poderiam sair de m oda ou algo assim , j á que tinham passado uns qua-
trocentos anos da data de validade.
— Você e sua m ãe são tão legais. Essas realm ente são diferentes
daquela roupa do show de lam a. — Keelie tinha certeza de que Elia
encontraria algum com entário irritante para fazer de suas novas roupas e
faria questão de lem brar a todos a estam pa brega de m ãos da sua antiga
fantasia. Ela se perguntava o quanto aquela m enina sabia a respeito das
fadas. Será que tam bém podia ver todos aqueles troços estranhos, ou seria
algo relacionado à fam ília? Keelie lem brou-se de com o a chuva nem tocara
em Elia quando todos os dem ais ficaram encharcados.
Keelie passou a m ão direita na cam isola. A pele na parte de cim a e
nos dedos continuava verde, m as j á não transm itia a sensação de estar
queim ada do sol.
Raven não podia ver fadas nem faces em árvores. E se Keelie acabasse
tendo m ais em com um com Elia do que com a am iga? Estrem eceu. De
j eito nenhum .
Sir Davey deixou café para você. Está na cozinha. Mandou que
tom asse uns goles, dando um intervalo de alguns m inutos entre eles.
— Obrigada. — Café com o rem édio. Dem ais m esm o. Ela tam bém
precisava conversar com Sir Davey . Ele m encionara a m agia terrena.
Talvez tivesse sido isso que ela fizera no dia anterior.
— Prom eto que vou voltar m ais tarde. Tenho que dar um a olhada no
que está acontecendo no prado.
— No prado? O quê? — Keelie sentou-se e, em seguida, segurou a
cabeça. Caram ba. Com o se j á não estivesse latej ando há horas. Ela se
recordou do anão m aníaco assustador de barrete verm elho e do troço que
vivia no riacho. — O que está acontecendo no prado? E Moon? Ela está
bem ?
Raven aj udou a garota a se levantar.
— Moon está m elhorando. Lem bra o que falei? Não se preocupe com
o que está acontecendo. Tem a ver com o Condado. Nossa festa ontem
fugiu um pouco do controle. Eu volto. Prom eto. Eu e Peles vam os lá
investigar um as coisas. Aviva, um a das m inhas am igas dançarinas do
ventre, perdeu um anel de prata com folhas de sorveira-brava em alto-
relevo. É um a herança de fam ília. Talvez a gente encontre o MP3 que está
faltando.
— Está bem . Se você prom ete que vai voltar e m e contar tudo. — O
Condado fez festa, ela ficou verde. Se não se sentisse tão m al, brincaria a
respeito. — Posso adiar para outro dia a oferta da aula de dança?
— A-hã. Descanse e, quando se sentir m elhor, vou m ostrar a você
com o rem exer o quadril. — Raven aj udou-a a se deitar.
— Fazer o que com o quadril? — A garota apoiou-se nos cotovelos.
A am iga ergueu o quadril e, em seguida, baixou-o, num m ovim ento
suave e gracioso. Então, repetiu o m ovim ento diversas vezes, fazendo
as m oedinhas no lenço tinirem com o um pandeiro. A cabeça de Knot
m ovia-se para baixo e para cim a com o um ioiô peludo de gatinho enquanto
ele acom panhava o rebolado de Raven; Keelie ficou tonta. A am iga parou.
A garota se deixou cair no travesseiro.
— Eu nunca vou conseguir fazer isso.
— Provavelm ente não. Você é tão californiana. Até m ais. — Raven saiu
do quarto, m as, em seguida, voltou a m eter a cabeça pelo vão, sorrindo. —
Aliás, você perdeu a m aior noitada, m as eu entendo. Foi por um a boa
causa. —A am iga sum iu de vista de novo, Keelie ouviu o barulho da porta
e a voz da am iga dizer: — Oi, Zeke. Ela está bem m elhor.
O som de passos ressoou no piso de m adeira, incom odando a garota,
que fez um a careta, então seu pai apareceu na entrada cortinada.
— Bom ver você sentada. — Ele estava com um a bandej a, e nela havia
um a j arra de prata com tam pa de vidro em que reluziam diversas pedras
sem ipreciosas. Ela sentiu o arom a de café. — Achei que seria bom trazer
um pouco do café "acabe com o que quer que estej a lhe dando dor de
cabeça" de Sir Davey .
A filha anuiu.
— Café. Ótim o. Ainda estou viva. Assustada, m as viva.
— Quer ouvir um a boa notícia? — O pai colocou a bandej a no criado-
m udo e serviu café num a caneca de cerâm ica verde, com um a folha
dourada estam pada em relevo.
— Sobre?
Ele lhe entregou a caneca, que ela segurou com as m ãos. Keelie
sentiu o calor passar para sua pele e, em seguida, tom ou a bebida forte,
porém gostosa. Na m esm a hora, o latej ar de sua cabeça cessou.
— Parece que sua bagagem chegou a Londres. — Zeke sorria, m as
havia preocupação em seus olhos. Ele não acreditava que a filha estivesse
bem .
— Londres. Tipo na Inglaterra. Na Grã-Bretanha. —A cabeça de
Keelie deu um a palpitada. Não deveria ter concordado. Ela sorveu m ais do
café de Sir Davey .
— Está cada vez m ais perto. Deverá chegar à cidade de Nova York
daqui a alguns dias. Nova York, tipo no Estado de Nova York. Nos Estados
Unidos. — Ele sorriu. — Por que você não deita e descansa?
— Eu estou bem . Quero colocar m inha roupa nova. Já m e sinto
m elhor. Acho que posso m e m exer agora. — A cabeça ainda rodopiava,
m as não tanto quanto antes.
Apesar da dor de cabeça, ela ficou feliz com a boa notícia. Tudo
andava bem . Sua bagagem , incluindo as fotos da m ãe e seu coelhinho de
pelúcia, estava a cam inho e voltaria para as suas m ãos. Keelie precisava ver
as fotografias da m ãe. Precisava se certificar de que se lem brava do rosto
dela exatam ente com o era. E o abraço de um bichinho de pelúcia cairia
bem naquele m om ento.
— Se você não se im portar, eu queria cham ar um as pessoas aqui para
conversar sobre assuntos relacionados ao festival hoj e à noite. Só Janice e Sir Davey . Eles tam bém estão preocupados com você, e eu não queria
deixá-la sozinha. Nós podem os m udar a reunião se for um incôm odo para
você. — Ele olhou para as m ãos, a voz suave aprofundando-se por causa
do pesar. — Eu m e sinto m al pelo que aconteceu, Keelie, e tam bém por
você ter tido que lidar com aquilo sem estar preparada.
A filha abraçou a si m esm a. Será que o pai a carregara de volta desde
o prado? Ela não se recordava de nada desde a m ordida de inseto ou sej a lá
o que tinha sido aquilo.
— Você fica falando que a gente precisa conversar — disse Keelie.
— Me conte agora.
Ele deu de om bros, aparentando estar prestes a dizer algo, m as depois
m udou de ideia. Após pensar por um instante, ergueu a cabeça e olhou-a.
— Lem bra a árvore com a qual eu trabalhei ontem ?
— Com o podia esquecer? — respondeu a filha.
— Você m encionou algo sobre um a alergia, então as fadas atacaram
Knot, e não conversam os de novo. O que quis dizer?
— Mam ãe dizia que eu era alérgica a m adeira, desde que as árvores