A Filha do Pastor das Árvores

Gillian Summers · Capítulo 4 de 6 · parte 3/3

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A Filha do Pastor das Árvores

garota estava preparada para m anter as…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

gravetos e folhas.

Um m ovim ento no chão cham ou a atenção de Keelie. Era Elianard,

ela podia ter j urado, m as ele se m ovia apressado rum o às árvores. Então,

houve outro deslocam ento, m ais rápido, rum o a ela, com aquele cheiro!

Canela e cogum elo, dois arom as que certam ente a fariam sentir náuseas

pelo resto da vida. A péssim a com binação entupia o nariz dela.

O Barrete Verm elho atacou Sir Davey , em seguida, eles saíram

rolando da rocha para o chão. A boca do duende abriu-se, adquirindo um a

dim ensão fora do norm al, com o a de um sapo gigante, m as cheia de dentes

am eaçadores. Seus olhos concentravam -se em Keelie, e ele ria enquanto

sugava a aura de Sir Davey . Gavinhas em form a de névoa, de tom bronze,

brilhavam à m edida que a criatura inalava.

Keelie desceu do rochedo e pegou um cristal para atacar o Barrete

Verm elho. Mas ele se tornara m ais poderoso ao consum ir a força vital de

Sir Davey . As bhata caíam do céu ao redor da garota, conform e a energia

delas era sugada pela criatura m aligna, que criara um vórtice de m orte ao

redor de si.

A garota caiu, e um raio atingiu o solo ali perto. A eletricidade eriçou

seus cabelos e fez sua pele form igar. Gotas de chuva caíram sobre ela e

trovej ou, o som aum entando até se tornar ensurdecedor.

A boca de Keelie estava cheia de poeira. Ela cuspiu, pensando na

m agia terrena, e seu peito ardeu. A garota levou a m ão até ali para tirar o

que quer que a estivesse queim ando, só que não era um a brasa e sim seu

colar. O coração cham uscado reluzia em tom verde e batia ao ritm o da

seiva da floresta, com o brilho forte do verão.

Keelie foi rastej ando adiante e m eteu o coração na boca do Barrete

Verm elho. Ele gritou, rangeu os dentes e recuou. Ela foi se arrastando até

ele, sendo circundada por um a luz clorofilada ao passar pelas bhata que se

haviam recuperado e voavam para o alto.

A garota podia sentir as árvores ao redor, um a com panhia sólida que abrangia o prado e as m ontanhas. Todas elas estavam com Keelie, que

agarrou Sir Davey e puxou a energia que restava dele em direção ao verde.

Talvez ele fosse m orrer. Talvez j á estivesse m orto.

Debaixo dela, a terra trem eu. Ela sentiu-a ondular sob si. O que

fizera?

O Barrete Verm elho trincou os dentes e se levantou; em seguida,

fitou-a enfurecido e com eçou a cantar. Keelie vislum brou algo prateado no

dente dele. O colar!

Atrás do duende, a terra borbulhou da form a com o fizera quando Sir

Davey evocara as m inhocas para assustar Elia.

As borbulhas aum entaram , e raízes saíram do solo, oscilando no ar,

com o se algo enterrado no subsolo buscasse apoio na tem pestade.

Keelie segurou Sir Davey com firm eza quando o Barrete Verm elho foi

se aproxim ando. Um a das raízes arrem eteu, derrubando o duende.

O coração cham uscado saiu rolando livrem ente, e a garota esticou-se

para pegá-lo. O suj eitinho m aligno tentou abocanhar Keelie com seus

dentes pontudos, chegando a alcançar a m anga da roupa dela e a arranhá-

la. Então, ela pegou a corrente do colar e puxou-a, o braço ardia em

virtude da m ordida da criatura. Será que ele era venenoso?

O Barrete Verm elho se virou, rosnando, m as parou quando um livro

grande apareceu na superfície ondulante da terra. Pedaços de lam a

endurecida caíam da capa, da qual saía um brilho prateado forte, apesar da

escuridão provocada pelo tem poral, revelando um desenho de espinhos

cercados de raios. Em sua m ente, Keelie sentiu a energia do pai unindo-se à das árvores. Ele canalizou ainda m ais energia, extraindo poder da

m ontanha ali perto.

O duende gritou e deu um salto rum o ao livro. Outra raiz arrem eteu

contra ele, que a m ordeu, partindo-a em duas.

Atrás dela, Keelie ouviu um grito e, pensando que seu pai viera, virou-

se para avisá-lo. Mas era Elianard, com os olhos fixos no livro.

A garota agarrou o coração cham uscado. Não havia com o alcançar o

duende antes que ele pegasse o livro.

Jogue-o, Keelie. A voz do pai ressoou em sua m ente.

Eu não posso. Sir Davey está ferido. Está m orrendo, pai.

Você tem que fazer isso. Jogue o coração. Tente acertar o livro.

Ela soltou Sir Davey e se levantou com esforço, cam baleando por

causa do Pânico e da m agia negra. Keelie levou o braço direito para trás e

j ogou o coração cham uscado com toda a força, os olhos grudados nos

espinhos brilhantes da capa do livro. O coração, que cintilava em tom

verde, fez um arco sobre a cabeça do Barrete Verm elho e caiu na lam a

perto do livro; em seguida, rolou para trás, até atingi-lo. A prata reluziu

esverdeada quando o duende estendeu a m ão e tocou no livro.

Um relâm pago caiu sobre a terra, cegando Keelie. Ela gritou de dor e

foi j ogada para trás, im pulsionada pela explosão do raio. As árvores

bradaram quando suas raízes queim aram , e Keelie caiu com força no chão.

Então, tudo ficou escuro.

Quando ela despertou, um tom cinza a circundava. Abriu bem os

olhos. A penum bra era interrom pida por brilhos averm elhados. Carros de bom beiros. Um a m ultidão se j untara. A face do pai surgiu sobre Keelie.

— Você acordou. — Ele parecia a um só tem po preocupado e feliz.

Um a estranha com binação.

— O que aconteceu? — Com o Keelie não sentia cheiro de fum aça,

sabia que não havia incêndio na floresta. — Sir Davey ?

— As sobrancelhas dele estão cham uscadas, m as ele está bem .

— O Barrete Verm elho? — Ela queria poder dizer frases com pletas,

m as sua garganta doía tanto que o pouco que falava saía num tom rouco.

— Ele se foi. Queim ado. Tudo o que resta é um a cratera com a capa

de um livro e um gorro verm elho. Nós, hã, tiram os os dois itens dali antes

da chegada dos bom beiros.

— Minha cabeça dói.

— Você foi lançada com bastante força. Com o está seu braço

esquerdo?

Keelie o m oveu.

— Dolorido. Bom , acho.

O pai ergueu o braço da filha para que ela o visse. Cicatrizes pro-

fundas, em ziguezague, cobriam seu antebraço. Pareciam feridas curadas

havia m uito tem po.

— O Barrete Verm elho m e m ordeu. Mas j á cicatrizou. — Ela fitou o

antebraço, im pressionada.

— Foram as árvores. Sir Davey sobreviveu.

— O Barrete Verm elho estava sugando a energia vital dele. Com o fez

com o espírito.

— Sim , o espírito. Você fez m uitos am igos, filha. O espírito convocou

as bhata e as feithid daoine para avisá-la.

— Eu achei que elas estavam m e atacando.

— Tenho algo para você. — O pai abriu a m ão dela e colocou um

obj eto ali. Algo tosco e arredondado.

Keelie olhou para a m ão em concha. Um fragm ento de prata — tudo o

que restara da corrente derretida — e o coração cham uscado. A Rainha

Álam o salvara todos eles.

Dezoito

a noite ilum inada pelos vaga-lum es, que cintilavam ao seu redor. Ela

se cobriu m ais com o xale da m ãe. As folhas das árvores

cantarolavam um a canção farfalhante de paz. De algum ponto no

alto, um ronronado ressoou, acom panhando-as. Ela observou a silhueta do

felino encurvado em contraste com o céu.

Keelie olhou de relance para o apartam ento, onde o pai dorm ia no sofá, cobrindo o rosto com um a alm ofada verde cheia de adornos de

árvores prateadas. Ele tinha bebido várias canecas de hidrom el com Sir

Davey , alegando que apaziguavam seus nervos em frangalhos de pai. E os

piratas estiveram lá tam bém , bebendo m ais do que todo m undo na

Taverna do Caçador.

Um a brisa suave fez os cabelos da garota esvoaçarem . A fragrância de

flores m isturada com a de canela. Keelie olhou ao redor. Cheiro de elfo.

Seria Elia? Alguém estava parado debaixo da cornij a da loj a do pai e, então,

m oveu-se até ficar sob o reflexo das luzes internas. Sean. Ele levou o dedo

aos lábios e fez um gesto com a m ão para que ela descesse. O coração de

Keelie disparou. O que ele fazia ali?

Os roncos do pai continuavam a ecoar sob a alm ofada. Melhor não

acordá-lo. Aquele descanso era m erecido.

Os vaga-lum es ilum inaram o cam inho de Keelie. Contendo-se para

não descer correndo os degraus am plos de m adeira, a garota desceu com

passadas lentas e firm es. A m ãe aconselhara a não parecer ansiosa dem ais

quando se encontrasse com seus paqueras. Mantenha um ar de m istério,

dissera. Keelie esfregou as palm as da m ão na calça, caso estivessem

suadas.

Sean estendeu a m ão, e ela colocou a sua ali com charm e, com o vira

Elia fazer.

— Por que veio aqui?

O rapaz usava um a blusa bordada, bem no estilo elfo, e j eans. Seu

m odo de se vestir m isturava o m undo hum ano com o de seu povo. Tal com o Keelie.

— Eu vim vê-la, m inha donzela.

Ela sentiu um frêm ito de satisfação percorrer sua espinha.

— Venha cam inhar com igo até a j usta — convidou Sean, apertando a

m ão dela.

Será que tinha algum a festa lá?

— Está bem . Mas vam os ficar na trilha, certo?

Sua face charm osa e delgada ilum inou-se com um sorriso de com -

preensão.

— Claro.

Nenhum dos dois disse nada enquanto cam inhavam , m as am bos

estavam à vontade. Keelie gostou de sentir a pele dele tocando a sua.

Depois de um tem po, o silêncio se tornou um ruído. Ela vasculhou o

cérebro em busca de algo inteligente para dizer. Queria ser espirituosa,

im pressionar Sean com sua perspicácia, porque, depois de ele ter

nam orado Elia, um a garota esperta seria um a m udança m uito bem - vinda.

Keelie, que atraíra raios, derrotara o Barrete Verm elho e salvara o

festival, não conseguiu pensar em nenhum com entário.

— Todo m undo está falando do que você fez hoj e. Foi m uito coraj osa.

Salvou m uitas vidas.

— A garota sorriu, em parte por causa do elogio e em parte porque ele

fora o prim eiro a dizer algo.

— Obrigada.

Ela queria que ele a beij asse. Gostava m uito dele e talvez não tivesse outra oportunidade. Daí, claro, se Elia descobrisse que Sean beij ara

Keelie, a fada petulante perderia o controle com o nunca antes.

Mais silêncio. Os vaga-lum es cintilavam , e o vento dançava entre as

árvores. Keelie podia sentir o zum bido clorofilado delas enquanto se

regozij avam por causa do esvaecim ento da m agia negra. Em bora a garota

não as visse, sabia que as bhata e as feithid daoine tam bém estavam

com em orando na floresta. Sua pele vibrava em harm onia com a m agia

delas.

Os dois passaram pela ferraria. Estava bem escuro e silencioso

naquele m om ento, ao contrário dos fins de sem ana em que o m artelo do

ferreiro batia contra o aço enquanto ele fazia espadas e outras lem branças

caras para os m undanos com prarem .

Sean parou e se virou para Keelie. Em bora j á houvesse anoitecido,

um a reflexo suave da luz do poste ilum inava o rosto dele.

Algo quentinho e peludo esfregou-se na perna da garota. Knot os

seguira. O rapaz acariciou o rosto de Keelie com a ponta dos dedos. Ela se

inclinou para a frente, aguardando o beij o que, com certeza, viria a seguir.

Estar tão pertinho daquele j eito era bom dem ais.

A garota se lem brou da noite no Condado, quando o capitão Randy se

aproxim ara dela e tocara seu seio, e com o ela não quisera que ele parasse.

A sensação do corpo dele pressionando o dela fora ótim a, e Keelie queria

sentir o m esm o com Sean. Mais até, porque o rapaz era alguém que, na

verdade, ela poderia nam orar.

Ele abaixou o rosto em direção ao dela. Ia m esm o beij á-la. Ela ergueu a face, j á prevendo a sensação dos lábios dele tocando os seus.

Knot m eteu as garras na calça dela, atingindo sua perna, fazendo-a

suspirar e recuar. Um a unha afiada do bichano arranhara sua pele. A

garota forçou-se a ignorar a dor. Queria prolongar aquele m om ento com

Sean. Ela sacudiu a perna, na tentativa de se livrar do felino diabólico, m as

o bichano não arredou o pé.

— Você está bem ? — perguntou o rapaz, preocupado.

Ela enrubesceu, constrangida. Apontou para baixo.

— Knot.

Os olhos do gato reluziram quando ele olhou furioso para Sean.

Keelie sussurrou:

— Você vai virar um protetor de orelhas feito de pelos de gato laranj a.

O felino arqueou as costas e bufou, m as afastou-se.

Sean sorriu e se inclinou m ais em direção a Keelie; então, seus lábios

pressionaram os dela com suavidade. Um trem or percorreu as costas da

garota, cuj o coração com eçou a bater m ais rápido. Quando o rapaz se

afastou, ele franziu o cenho e deu um sorriso forçado. Keelie sentiu o

nervosism o virar enj oo. Sean tinha ficado desapontado com seu beij o. Ela

fizera algo errado.

Em basbacada, a garota inclinou-se e apoiou-se na barra da cerca.

Carvalho da Dakota do Norte.

— Algo errado? — perguntou ela.

Ele ergueu o j oelho e m ostrou Knot preso à sua perna. O gato

balançava o rabo e bufava com o um bichano pirado e esquisito. Keelie deu um as batidinhas na cabeça dele.

— Sai daí.

O felino ronronou.

— Ele foi o guardião da sua m ãe — com entou Sean, com o se isso

explicasse o com portam ento estranho. — Está protegendo você agora.

— Que tipo de guardião?

O rapaz agitou a perna na tentativa de tirar o gato m aluco dali.

— Eu lem bro que ele atacava qualquer um que j ulgasse ser um a

am eaça para ela. Está bem m ais tranqüilo desde então.

— Uau. Você devia ter uns cinco anos quando m inha m ãe se casou

com m eu pai. Que m em ória!

— Não, isso foi há apenas quinze anos. — Sean sorriu para ela. — Eu

estava com setenta — acrescentou ele em tom casual.

Keelie ficou pasm a e se sentiu feliz por estar apoiada no poste; do

contrário, teria se espatifado no chão por causa do choque. Som ou setenta

m ais quinze m entalm ente e deixou escapar a resposta.

— Você tem oitenta e cinco anos!

A im agem de um velhinho enrugado lhe veio à m ente.

O rapaz anuiu. Knot desenganchou-se da calça de Sean, saltou até a

terra e saiu saracoteando com o rabo em pinado. O rapaz pareceu ter ficado

aliviado.

— Sou um dos elfos m ais novos autorizados a lidar com os cavalos. E

acho que quando pedir perm issão a seu pai para cortej á-la, ele ficará

im pressionado. — Sean notou a expressão da m enina e franziu o cenho. — Eu disse algo errado?

— Não, está tudo bem . — Keelie se perguntou se o rapaz estaria

brincando, m as ele não era do tipo que gostava de pregar peças.

Um silêncio constrangedor surgiu entre os dois com o um a cortina

invisível.

— Ainda posso cortej á-la?

— Não faço a m enor ideiado que isso significa. Estou tão confusa. —

A garota passou a m ão na própria testa. Sean não aparentava ter oitenta e

cinco anos. Parecia um trem endo gato de dezenove, e Keelie sentia um

frêm ito agradável ao olhar para ele, exceto pelo núm ero oitenta e cinco

m artelando em sua m ente. Ela visualizou cabelos ralos, passos vacilantes,

m ãos enrugadas e cobertas de m anchas am arronzadas. Nada disso aparecia

ali. Qual seria o significado daquilo em relação ao processo de

envelhecim ento dela? Keelie era um híbrido de seres hum anos e elfos. Sua

vida duraria com o a de um a fada? Ou com o a de um a hum ana? Alguém

sabia?

Zeke tinha que responder a m uitas perguntas.

— Sean, você pode m e acom panhar até Heartwood? Preciso conversar

com m eu pai.

— Zeke não lhe contou. — Não era um a pergunta. Os olhos de Sean

arregalaram -se quando leu a resposta no rosto dela. — Acho que ele vai ter

um a longa noite.

Os dois subiram j untos a trilha, e os dedos do rapaz tocaram a m ão

dela com o se pedissem perm issão para ir além . Ela deixou que envolvessem os seus e, em seguida, pressionou com suavidade a m ão dele.

Um pensam ento indiscreto ocorreu a Keelie, que não resistiu e

indagou:

— Sean, se você tem oitenta e cinco, quantos anos Elia tem ?

— Ele deu um largo sorriso, com o se viesse aguardando aquela

pergunta.

— Tem só sessenta. Mas tom e cuidado com ela. Acho que planej a

fazer algo contra você. Ela não ficou nada satisfeita com o respeito que

você ganhou agora da parte dos elfos.

— O que isso significa?

Sean suspirou.

— Tem alguns que a consideram um a aberração por causa do seu

sangue hum ano, m as outros m udaram de opinião.

Pasm a, ela com entou:

— Quanta generosidade da parte deles.

Um a aberração? A m enina com eçava a gostar cada vez m enos da

fam ília do pai. Não fora à toa que a m ãe se m andara da floresta. Com a

m ão livre, ela fechou m ais o xale em torno do corpo.

Conform e Sean e Keelie cam inhavam de m ãos dadas, o único ruído ao

redor era o de seus passos na terra com cascalhos. Vaga-lum es dançavam

em torno de am bos, e ela se perguntava, àquela altura, se eram m esm o

insetos.

A revelação do rapaz a respeito de sua idade não a incom odara tanto

quanto a ideiade que os elfos não gostavam dela, e tudo por causa de sua ascendência. Keelie queria se tranqüilizar e curtir o m om ento com Sean.

Já fora difícil o bastante aceitar o fato de que ele era um elfo; ela supôs

que a questão da idade era m ais um fator ligado a isso. Perguntou-se que

outras surpresas a aguardavam . Tipo, se Sean tinha oitenta e cinco,

quantos anos teria seu pai?

Se aquela era a nova realidade de Keelie, ela queria saber todos os

detalhes. Capacidade de falar com as árvores — sim . Alvo de duendes

m alévolos com barretes verm elhos — sim . Não totalm ente hum ana —

sim . O que m ais não lhe contaram ? Na escola, a garota aprendera que

inform ação era poder, e precisava de dados naquele m om ento.

Os dois pararam ao pé da escada, e Knot passou correndo entre

am bos. O felino fez um a pausa na m etade da escada, balançando o rabo de

um lado para o outro, com o se para apressá-los. Beleza, agora ela aprendia

linguagem de rabo de gato.

Sean era bem m ais alto do que ela. Keelie se perguntou se ia beij á-la

de novo e subiu um degrau para facilitar a em preitada, caso ele quisesse.

Até aquele m om ento, aquela tinha sido a m elhor noite da vida dela. Mal

podia esperar para contar tudo a Laurie. Tudo m enos a parte sobre os

elfos.

O rapaz segurou com suavidade o queixo de Keelie para que ela não

desviasse os olhos.

— Quando nos conhecem os, tentei m e convencer de que m eus

sentim entos por você eram fraternais, m as não foi esse o caso. E j á faz

algum tem po. Quero ser m uito m ais do que um irm ão.

Keelie estrem eceu e se perguntou por que Knot bufou de um j eito

am eaçador.

— Knot, cala a boca.

O bichano estava arruinando seu m om ento rom ântico. Ela agarrou o

corrim ão, buscando reconfortar-se na m adeira fam iliar.

Sean colocou a m ão sobre a dela.

— Depois desta noite, eu tam bém vou proteger você. Quando o festival

term inar, nossos cam inhos vão se separar, m as vam os nos encontrar de

novo na Floresta do Pânico. Vou ficar pensando em você, Keelie

Heartwood. Espero que m e deixe roubar m ais beij os antes do térm ino do

festival.

Knot bufou. A garota colocou a m ão atrás das costas, fechou o punho

e agitou-o na direção do bichano.

— Não precisa roubar nenhum . São seus, Sean. — Ela tirou a m ão

debaixo da dele, apoiou-a no peito do rapaz e inclinou-se para a frente a

fim de beij á-lo.

Sean abraçou a j ovem , que fechou os olhos e sentiu a m aciez da boca

dele na sua, a força dos braços que a cingiam . Ela não tinha experiência,

m as ele, com certeza, tinha. De oitenta e cinco anos. O pensam ento deve

tê-la feito recuar um pouco, porque ele a beij ou no rosto.

— Boa-noite, Keelie.

A garota abriu os olhos e viu-o partir em m eio à escuridão. Oitenta e

cinco anos. Em que ela estava se m etendo?

Um a m ancha alaranj ada o acom panhou. A situação j á não seria m otivo de pânico na Floresta do Pânico. Ela só precisava dar um j eito de superar a

questão da idade dele.

Lá em cim a, Keelie ergueu a alm ofada verde do rosto do pai e j ogou-a

nas pernas dele. Zeke levantou-se de supetão.

— O quê? Filha, você está bem ?

Ela pôs as m ãos no quadril.

— A gente precisa conversar. Agora!

***

Keelie gostou de seu novo look. O espelho m ostrava um a m orena de

cabelos encaracolados com talento para se vestir de um j eito fashion.

Provavelm ente a m ãe teria gostado da form a com o a filha renovara o estilo

renascentista com seus toques contem porâneos.

Suas novas botas estilosas eram um par antigo da m ãe, que o pai

guardara durante todos aqueles anos. Serviam perfeitam ente.

Ela achou que estava ótim a, exceto pelos restos de lam a nas pontas

dos dedos. Podia até ouvir a m ãe dizendo: "Keelie, olhe só isso! Precisa

fazer as unhas!"

A garota levou a m ão ao coração.

— Você está aqui, m ãe. Vou am ar você para sem pre.

Keelie e Zeke conversaram por horas. Ele respondera a algum as das

perguntas da filha, em bora ela ainda estivesse confusa.

— Espere, Keelie. — Raven foi correndo até ela, usava algum as das

roupas novas tam bém . — Soube que você saiu com Sean ontem à noite.

Elia ficou fora de si.

— É m esm o? — A garota sentiu um m isto de raiva e satisfação.

Receava o que a outra pudesse aprontar, m as era ótim o saber que sofria.

Tentou sentir um pouco de com paixão pela fada, m as não conseguiu.

Ficou feliz por Raven não ter feito nenhum com entário a respeito de sua

saída repentina da loj a da dança do ventre. — Quer dizer que ela está

furiosa?

— Com certeza. Só hoj e, até agora, Elia j á puxou o cabelo da m elhor

am iga, deu um tapa num suj eito da Corte Real e teve um acesso de raiva

na frente da Pérgula das Rosas. — A am iga riu. — Todo m undo está

curtindo isso. Nunca a vim os tão brava antes.

— Fico m e perguntando com o será que ela descobriu. — Ou a m enina

tinha um espião na floresta ou Sean lhe contara. Ou ela m esm a os seguira.

Essa últim a opção não parecia m uito provável.

Keelie pensou em Elia, com seus sessenta anos. Não fazia ideiado

quanto Raven sabia, m as tinha certeza de que alguns aspectos da vida dos

elfos, incluindo talvez sua existência com o povo diferente, não eram

com partilhadas com os seres hum anos. Zeke dissera que a filha

envelheceria bem m ais devagar do que as pessoas com uns, m as que ela

não viveria até os quinhentos anos com o a avó.

O pai não aparentava ter 327 anos. Tinha ótim a aparência. Ele disse à

filha que o lado bom disso seria que, quando Keelie envelhecesse, não

teria rugas. Nem precisaria aplicar Botox no rosto.

Raven voltou para a loj a da m ãe, e Keelie foi até as gaiolas, ainda

pensando nos elfos. Agora que os problem as haviam term inado, as árvores não conversavam . Talvez elas soubessem de algo que a garota pudesse

fazer para aj udar Ariel. Talvez o carvalho no prado lhe dissesse algo,

em bora a ideiade voltar até lá não a entusiasm asse.

Nas gaiolas, Keelie colocou a luva de couro e abriu a gaiola do falcão.

Ariel deu um grasnido e agitou as asas. A garota não conseguia aceitar que

aquela ave nunca seria livre. Se não havia um tratam ento m édico que a

curasse, talvez algum tipo de m agia desse conta do recado.

Ariel subiu no pulso de Keelie.

Cam eron apareceu, vindo da parte dos fundos.

— Oi. Estava lim pando as gaiolas. — Riu quando viu o falcão no pulso

de Keelie. — Você faz m aravilhas com ela. Ariel sabe quando você está

vindo.

O falcão esfregou a cabeça em plum ada no rosto da garota. Seu olho

dourado reluziu e sua cabeça oscilou de cim a para baixo, com o se a ave

sentisse que havia algo diferente em sua m elhor am iga hum ana. Keelie

gostaria de poder conversar com falcões tam bém .

Cam eron prosseguiu:

— E quem diria que Sir Davey e Louie se dariam bem daquele j eito.

— Eu vou visitá-lo agora. Daí aproveito para ver com o vai o abutre

tam bém — disse Keelie.

— Obrigada.

Um a vez fora das gaiolas, Keelie soltou Ariel, que se dirigiu aos álam os

perto da loj a Horda de Dragões. No cam inho, sua asa direita esbarrou

num a árvore, e a ave com eçou a despencar, m as, então, recuperou-se e voou até um galho.

A garota sentiu alguém segurar seus om bros. Não se virou. Seus olhos

m arej ados concentravam -se no falcão.

— A gente vai ter que decidir em breve, Keelie. Seria j usto m antê-la

num a gaiola pelo resto da vida dela?

Keelie não queria ouvir o lado com passivo de Cam eron.

— Tem que haver um j eito de aj udá-la. — Ela fechou os olhos e

conectou-se com as árvores. — Olhem Ariel.

As folhas farfalharam em resposta.

O falcão a seguiu, voando de árvore em árvore até chegar à loj a Horda

de Dragões.

— Não vá m uito longe — avisou a garota.

As vitrines da loj a reluziam com cristais. Keelie inspirou. Cheiro de

café. Sir Davey fizera a m istura contra dor de cabeça. Ela ouviu um

gem ido nos fundos e foi até lá.

O hom enzinho estava sentado no pequeno sofá, com um pedaço

enorm e de hem atita pressionado contra a testa. Louie se acom odara na

beira do m óvel, os olhos fixos em Sir Davey .

Ele abriu os olhos.

— Estou m orrendo, m oçoila. Minha cabeça não para de latej ar e,

sem pre que levanto os olhos, vej o o m ensageiro da m orte assom ando no

alto. Está esperando que eu bata as botas.

Keelie disse:

— O senhor precisa se levantar e dar um a cam inhada. Fazer o sangue circular. Deu certo com igo.

Sir Davey soltou outro gem ido.

— No seu caso, você foi atingida por m agia. Eu atraí isso para m im

m esm o.

Ela foi até a cozinha. Serviu café, grosso e forte, num a caneca de

cerâm ica e levou-a para ele.

Louie abriu as asas quando o anão se sentou e aceitou a bebida.

— Esta loj a não para de girar.

— Tom e seu café. Vai ver com o aj uda. Confie em m im . Eu sei.

— Acho que sim , m oçoila. Nenhum efeito colateral por causa de

ontem ?

— Não, estou bem .

— Você parece diferente. Acho que são seus olhos. Dão a im pressão

de serem m ais de elfo que de ser hum ano. Com o se você soubesse de

detalhes que outras pessoas desconhecem .

— Conversei m uito com m eu pai. Aliás, quantos anos o senhor tem ?

Sir Davey deu um a risadinha no m om ento em que ia tom ar um gole

de café. Fez um a expressão de dor ao engolir.

— Ah, quer dizer que ficou sabendo da questão da idade?

— Fiquei. Então, quantos anos o senhor tem ?

— Sou velho o bastante para saber das coisas e j ovem o bastante para

seguir adiante. — Ele ergueu um dedo, com o se tentasse sentir o vento.

— Não vai m e contar.

— Não. Preciso m anter alguns segredos. Cultivar certo ar de m istério. As m ulheres gostam disso. — Sir Davey agitou as sobrancelhas cinza-

chum bo, parecidas com lagartas, e fez outra careta.

Keelie levantou-se.

— O senhor ainda não m elhorou de todo, m as é m elhor descansar

agora.

Louie se acom odou de novo na beira do sofá. O anãozinho fechou os

olhos e cobriu-se, levando a m anta até o queixo.

— Você fez bem , Keelie.

Ela apagou a luz.

— Eu sei.

Lá fora, o sol do início da tarde estava forte, e o ar revigorante e lim po.

A garota ergueu o rosto, perm itindo que o calor reconfortante a cobrisse. A

sensação era sim ilar à satisfação de um banho quente, em contraste com o

que ela sentira quando Sean a beij ara.

O rapaz dissera que queria m ais que am izade, e Keelie estava pronta

para explorar esse cam inho tam bém , independentem ente da idade dele.

Keelie subiu pela Trilha do Ferrageiro rum o ao herbanário, onde

notou que a lona azul tinha sido substituída por um a porta novinha em

folha. O arom a de alfazem a espalhou-se pela loj a.

Aviva cam inhava por ali. Enrubesceu quando viu Keelie e passou

depressa por ela. Tente fazer um a boa ação, e algum as pessoas agem de

um j eito desprezível.

Ela bateu na porta da frente.

— Vocês j á abriram ?

Raven abriu a porta. Estava destrancada.

— Com o está Sir Davey ?

— De ressaca. Vai sobreviver. Quer dar um pulo lá em Heartwood?

— Não posso. Ainda precisam os fazer um a faxina aqui. E m am ãe

continua acendendo velas. Daqui a pouco, a loj a vai infringir as leis

antifum aça. Eu vou até a Cabana do Rebolado m ais tarde. Não quer ir

tam bém ?

Keelie m eteu a m ão no bolso e tirou um a nota de cinco dólares.

— Você paga pela borla do Knot? Eu m e sinto m al à beça por causa

disso. E espero que Aviva não ache que peguei o anel dela. Ela acabou de

passar por m im e estava com cara de poucos am igos.

Raven agitou a m ão.

— Esquece. Eu fiquei bem irritada com ela e deixei bem claro que

aquilo não era j eito de tratar um a ótim a am iga m inha. Afinal de contas,

você devolveu o anel. De que planeta ela é?

— Podia ser com o Elia, um a el...

— Um a fada com o Elia? Não, Aviva andou bebendo e fum ando dem ais

no Condado. E eu sei tudo sobre os elfos, garota.

Keelie deu um largo sorriso.

— Raven, você sabe tudo de tudo.

— Espere aí, tenho algo para você. — Ela foi até os fundos e voltou

com um a caixinha. — Abra.

— O que é?

— Um presente, sua boba.

Keelie abriu a tam pa e tirou um a série de borlas douradas. Riu.

— Valeu, eu acho.

Raven deu de om bros.

— Não pareceu legal Knot ficar com um a, ainda m ais depois de você

ter saído correndo atrás dele. Então, achei que realm ente queria um a

dessas.

— Claro, vou até dar nós nelas. Afinal, Knot com nó se paga. — Keelie

tentou ficar séria.

A am iga lhe deu um a cotovelada.

— Pode parar, ou vou acabar com você. Olhe, vai ter um festaço no

Condado hoj e. Estão dizendo que os piratas m ontaram um a barraca em

hom enagem ao capitão Dandy Randy . Parece que o nosso Don Satterfield

vendeu um j ogo de software que criou para um a daquelas grandes

em presas.

— Quer dizer então que todo aquele tem po que ele passou no porão da

m ãe j ogando videogam e valeu a pena? Que bom para ele.

— Está a fim de ir? Vou ser sua guarda-costas se for. Os piratas não

vão m exer com você. A m enos que queira, claro.

— Eu adoraria ir. Eu sabia que o capitão Donald tinha m ais do que um

traseiro bonito.

Raven revirou os olhos.

— Quando a gente for para o Festival de Nova York, vou levar você

para passear. Eles realm ente sabem dar festas em Valfenda.

— Valfenda? É o nom e da cidade?

— É de O senhor dos anéis, garota californiana.

Tudo parecia ter saído direto daquele livro. Keelie precisava lê-lo.

— A gente se vê de noite, lá pelas nove — disse Raven.

— Até m ais.

Ariel voou e roçou na cabeça de Keelie, quando ela se dirigia ao

Cam inho do Rei. A loj a de vitral estava fechada; o falcão pousou num

cedro, em m eio às árvores, entre o estabelecim ento e o portal da frente. Os

pelinhos da nuca da garota arrepiaram -se. Ela olhou ao redor, m as não viu

nada fora do norm al. Sentira o m esm o na presença do Barrete Verm elho,

porém agora ele tinha ido em bora para sem pre.

O falcão pousou num galho alto e observou-a.

Keelie fitou os telefones públicos. Precisava ir adiante. Laurie tinha de

saber que a Grande Fuga seria cancelada. Keelie não voltaria para a

Califórnia naquele m om ento. Seu lugar era ao lado do pai e de Ariel.

Ela j á não podia ser considerada a m esm a que passara por aqueles portões

dias antes, em bora a filha de Katherine ainda estivesse ali, dentro dela.

A m enina pegou um as m oedas na bolsinha e m eteu-as na abertura do

telefone. Discou o núm ero de Laurie.

—Alô? — A voz da am iga parecia tão norm al que fazia a garota se

lem brar de com o sua vida fora com um na Califórnia.

— Laurie sou eu, Keelie.

Ela teve de afastar o fone da orelha para proteger o ouvido do grito

dado pela am iga.

— Ah. Meu. Deus. Achei que você nunca fosse ligar. Sabe, tipo, estou tentando falar com você há séculos e m ais séculos.

— Do que você está falando? A gente tem se falado um dia sim outro

não sobre a Grande Fuga. Você precisa ligar para sua prim a Addie e avisar

que não vai ter nada no dom ingo.

— Que prim a Addie? Do que você está falando? Não falo com você

desde que m e ligou naquela noite de um telefone público. Sabe, que

desespero. Ligar a cobrar de um telefone público.

Os pelinhos na nuca de Keelie se arrepiaram . Sentiu a presença da

m agia negra que vivenciara com o Barrete Verm elho.

— Keelie, você está aí? — perguntou Laurie, apesar de sua voz apa-

rentar estar bem longe.

Elia estava debaixo dos cedros. Ela levou o polegar e o dedo m indinho

à orelha, sim ulando um telefonem a; daí deu um largo sorriso.

Keelie engoliu em seco. Não agüentava m ais. Aquela fada estava

ferrada.

— Laurie, eu ligo para você àepois. Tenho que ir.

— Está bem , m as m e telefona logo. Preciso contar tudo sobre o novo

nam orado da Constance, e a blusa linda que ela com prou na La Jolie

Rouge. Um arraso.

— Tchau, Laurie. — Keelie desligou, e o fone encaixou com o som

m etálico característico.

Um a batida de asas alertou a garota a tem po de ela erguer o braço

com a luva de couro. Ariel pousou em seu pulso.

A energia clorofilada das árvores fervilhou sob a pele de Keelie.

Cuidado.

Elia estava parada bem m ais perto, os olhos pequenos sem icerrados

fitavam a garota e a ave. Com o ela fizera aquilo? Keelie não vira a m enina

se m over.

— Você deveria ter ido em bora quando teve a oportunidade — disse a

outra.

Keelie ergueu Ariel, deixando-a m ais perto de si. O falcão m oveu-se,

irrequieto. A garota acariciou as costas m acias e em plum adas da ave,

reconfortando-a.

— Eu não vou em bora, Elia. Meu lugar é ao lado do m eu pai.

— Você é um erro. Mestiça. Com o esse seu pássaro idiota. E nós,

elfos, sabem os o que fazer com erros. Nós os consertam os. — O ar em

torno delas brilhou. A sensação que se tinha era a de m agia, m as não a

acalentadora das árvores. Aquela se assem elhava m ais a unhas arranhando

a pele de Keelie.

Ariel soltou um grasnido e tentou bater as asas, m as pendeu para o

lado. Keelie pegou-a e puxou-a para perto. O falcão parou de se

m ovim entar em seus braços.

— O que você fez com ele? — quis saber a garota, assustada.

— Ele não está m orto; só o am aldiçoei, nada m ais.

— Com o você am aldiçoou Ariel? Desfaça o feitiço.

— Me obrigue. — Elia se afastou, sorrindo. — Isso m esm o, você não

pode... sua hum ana. Agora isso vai provar para todo m undo que você não é

tão especial. Você não passa de um a m estiça.

De repente, Ariel acordou, m ovim entando a cabeça para a frente e

para trás. Seu bico arranhou Keelie, fazendo-a sangrar.

A garota gritou, m as não por causa da dor. Quando o falcão virou a

cabeça, Keelie notou o m otivo de seu estresse. Am bos os olhos de Ariel

m ostravam -se, naquele m om ento, leitosos. Ela estava totalm ente cega.

Elia bradou quando um a bola laranj a e peluda berrou e saltou do

telhado triangular da loj a de vitral em cim a de seus cachos dourados;

parecia que Knot se fundira com a caoeça dela. Elia saiu correndo

pelo Cam inho do Rei, gritando e golpeando o felino, que se aferrara a ela

com o se ele fosse um caubói de rodeio.

***

Keelie observou Janice tirar o cataplasm a do olho de Ariel. Apesar de ter

passado 24 horas sob os cuidados de Janice, Cam eron e Sir Davey , o

falcão continuava cego.

Raven aparecera algum as vezes, encoraj ando Keelie a ir à festa dos

piratas, m as a garota ficara com Ariel. Elia ia pagar pelo que fizera.

— Querida, tentam os de tudo — disse Janice. — Preparei todos os

rem édios para lesões no olho que conheço.

Sir Davey acrescentou com tom de voz grave:

— Usei todo feitiço de cura que conheço, m oçoila, m as não consigo

quebrar a m aldição de um elfo.

Keelie pôs a ave no antebraço coberto com a luva de couro. Apoiou-se

na divisória de m adeira que separava as gaiolas. Aproxim ou o falcão de si, e

a ave esfregou a cabeça em seu rosto. A m aciez das penas fez a garota se lem brar dos beij os de boa-noite da m ãe. Ficar perto de Keelie era a única

coisa que acalm ava Ariel, que parara de com er.

Janice parecia estar prestes a dizer algo, porém , de súbito, calou-se.

Keelie ergueu os olhos. Cam eron cam inhava na direção deles, j unto com

Zeke. A garota sentiu um aperto no peito.

A treinadora olhou para ele, em seguida, para a ave.

— Keelie, precisam os conversar.

Ela nem respondeu. Seu coração disparou. Sabia que rum o a conversa

tom aria.

Ariel abriu as asas, e Keelie obrigou-se a relaxar os punhos cerrados.

Zeke estendeu a m ão para pegar a da filha.

— Pai, Elia fez isso.

Ele sussurrou:

— Eu sei, e ela vai ter que enfrentar a assem bleia dos elfos por causa

disso. Elianard avisou que se encarregaria do castigo de Elia.

Keelie sentiu até náusea.

— Ele não vai castigar a filha. Acho que o vi com petindo com o Barrete

Verm elho por aquele livro e, quando Elia m e atacou, senti a presença da

m agia negra.

— Mais um m otivo para aguardar — ressaltou o pai. —Acho que essa

situação vai além de Elianard e, sej a lá por que m otivo, seu destino está

ligado a ela. Precisam os tom ar cuidado. Você tem que m e prom eter que

não vai se aproxim ar de Elia para tirar satisfações sobre Ariel. Não é assim

que os elfos agem . A assem bleia retom ará a discussão em Nova York. Elianard e Elia estarão lá tam bém . E, quando form os, vam os levar o falcão

e cuidar dele. Prom eto que vou fazer o que puder para descobrir um a cura

e devolver a visão a Ariel. Há textos antigos na Floresta do Pânico, nos

quais talvez encontrem os um a solução.

Keelie soltou um suspiro.

— Pai, vou tentar evitar Elia, m as, se ela se aproxim ar de Ariel em

Nova York, vou usar toda a m agia que puder para proteger o falcão. Essa é

a form a de agir dos seres hum anos.

Epílogo do trailer alpino. Já aceitara o fato de o pai ser um elfo com poderes

m ágicos e de ela m esm a ser m etade fada; m as seu lado de garota

californiana estilosa não suportava aquela casinha de m adeira decorada

com arabescos rebocada pela cam inhonete enferruj ada.

Havia coisas aparecendo por tudo quanto era j anela, e o pai vinha

usando palavras que deviam ser uns trem endos palavrões em linguagem de

elfo enquanto tentava guardar tudo.

— Você vai ter que com prar um trailer m aior — gritou a filha.

Ele se inclinou pela j anela e olhou para baixo, na direção dela.

— Basta aum entar este aqui. Só preciso acrescentar m ais espaço na

cabine.

— Pai. Não. Vai ficar parecendo um troço saído dos contos da Mam ãe

Ganso. Sabe, a casa torta da viela torta? Só que esse vai ser o chalé torto

sobre rodas.

— Acho que você vai ter que dividir a cam a com Knot.

Keelie pensou na cam inha de lã com adornos de rena. Onde aquele

bichano se m etera?

Um a buzina tocou, e, em m eio a um a nuvem de fum aça, chegou um a

picape cheia de piratas a caráter. O veículo parou na frente de Keelie.

Todos os rapazes na carroceria ergueram as canecas de cervej a e deixaram

escapar a um só tem po um argh.

O capitão Dandy Randy dirigia. Ele fitou Keelie com um brilho

libidinoso nos olhos e m andou-lhe beij inhos. A garota pôs as m ãos na

cintura e retribuiu o cum prim ento. Podia interpretar m uito bem o papel de m ulher da vida de pirata. O capitão pôs o chapéu e abriu a porta da

picape. Suas botas ressoaram ao pisar no cascalho do estacionam ento.

Ele foi andando com seu j eitão arrogante até Keelie. Os outros piratas

gritavam na carroceria, ainda erguendo as canecas. Bradaram vários "salve,

m aruj os".

O capitão Randy piscou para a garota.

— Estou devolvendo um am igo pirata para a senhorita, j á que estão

prestes a zarpar.

Ele abriu a porta do passageiro. Um a m assa inform e peluda, laranj a,

de quatro patas, saiu. Estava com um a bandana verm elha em torno das

orelhas e ronronou ao passar pela garota. O rabo m ostrava-se hasteado.

— Knot? — perguntou Keelie.

O capitão Randy assentiu.

— No fundo, um verdadeiro pirata. Tom ou várias canecas de hidrom el

com igo e com o pessoal. Vam os sentir saudades dele. A gente veio se

despedir.

Knot subiu na cabine da cam inhonete de Zeke. Keelie se virou.

— Ei, sou eu que vou do lado do m eu pai, sua bola peluda. — Ela se

voltou para o capitão. — Parabéns pelo program a.

— Obrigado. — Keelie percebeu que, atrás da fachada de pirata, havia

um cara j ovem e tím ido. Ele ergueu a cabeça e sorriu para ela.

— Você vai para Nova York?

O capitão Randy balançou a cabeça.

— Talvez. A senhorita Raven vai trabalhar na divulgação do m eu novo program a.

Ela sorriu.

— Legal. Bom , se a gente não se encontrar em Nova York, então até o

ano que vem .

Ele fez um gesto de despedida e virou-se; em seguida, parou e lançou

outro olhar sensual de pirata para a garota.

— Quer saber? — perguntou.

Andou até Keelie, abraçou-a, inclinou-a para trás e lhe deu um beij o

nos lábios — um profundo, de língua e tudo. Ouviram -se m ais gritos e

assobios vindos da picape.

O capitão Randy endireitou-a. Ela ficou parada, pasm a.

— Lem bre-se de m im , m ocinha. — E, então, cam inhou de form a

arrogante até o autom óvel. Todos os piratas o aplaudiram . Daí, ele ligou a

picape e se m andou em m eio a um a nuvem de poeira.

Keelie com entou:

— Louco.

O pai se pôs ao seu lado.

— Por que ele fez isso? — quis saber Zeke.

A filha deu de om bros.

— Piratas. São im previsíveis. — Ela se afastou, sussurrando: