A Filha do Pastor das Árvores

Gillian Summers · Capítulo 4 de 6 · parte 2/3

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A Filha do Pastor das Árvores

garota estava preparada para m anter as…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Conform e as duas garotas se retiravam do deque, puderam ouvir a voz

m onótona do próxim o falante.

— Você m e salvou, Raven. Acho que eu teria m orrido de tédio.

— Haverá corpos e m ais corpos lá. Com o sobrevivente das reuniões

anteriores do festival, preciso avisar você: não cam inhe, fuj a correndo da

próxim a vez que um a for anunciada.

Nas gaiolas, a m enina despediu-se da am iga, que foi pegar dinheiro na

loj a da m ãe. Keelie colocara o seu na bolsinha do cinto naquela m anhã.

Cam eron cam inhava com Moon no om bro. Ela ficara ali para orientar os

consertos que j á estavam sendo feitos.

— Oi, Cam eron.

— Oi, Keelie.

— Pensei em deixar Ariel voar enquanto vou até a Cabana do

Rebolado. Acho que ela está com um nam orado, pois tem outro falcão

rondando por aqui.

Cam eron parou e olhou para cim a.

— Isso não é bom .

— Por que não? Acho que é legal.

— Keelie, Ariel está parcialm ente cega. Não pode caçar sozinha, m uito

m enos se defender se outro falcão a atacar.

— Com o assim ?

— Parta ou m orra. Se esse que acaba de chegar for territorial, não está

a fim de fazer am igos. Quer que Ariel vá em bora ou m orra. Keelie, ela

nunca poderá ser libertada.

Nunca poderá ser libertada. A garota olhou para o falcão parcialm ente

cego e pensou nos próprios planos de fugir para a Califórnia.

Poderia levar Ariel j unto. Pensou na ave m orando entre as palm eiras e os shoppings ou em seu antigo bairro, em que arbustos floridos form avam

a vegetação m ais alta.

O falcão se sentiria infeliz, com o Keelie lá — porém , será que ela

m esm a ainda se sentia assim ? A garota fizera novos am igos e contava com

o pai ali; além do m ais, as árvores podiam contar com ela para protegê-las

da m agia negra. Zeke não poderia fazê-lo sozinho.

Quando Keelie parara de sentir tristeza?

Quinze

de se encontrar com Raven. Poderia conversar com a am iga, que

conhecia am bos os m undos tam bém .

Knot a seguia, conform e ela cam inhava. Ia furtivam ente de um a

árvore a outra, depois sum ia. Tarl veio andando na outra direção,

carregando um m onte de asas de fada m anchadas e suj as. Outra

participante do show de lam a o seguia, com itens sim ilares.

Tarl deu um largo sorriso.

— Bons-dias, Keelie.

— O que está fazendo com isso? — Ela ouvira falar que a pobre

coitada que adm inistrava a barraca das asas de fada estava arrasada,

porque todo o estoque dela fora arruinado na tem pestade.

— Com prei tudo para o show de lam a. Não fiz suj eira, j oguei lim po. — Não fez suj eira. Saquei. Ha.

— Podem os dar a você um papel no novo show: Lam açal da Noite de

São João. Você pode ser a Fada da Lam a Musguenta.

— Dispenso, m as valeu pelo convite.

— Se m udar de idéia, sabe onde pode encontrar a gente. — Os dois

prosseguiram com passadas ruidosas pelo cam inho lam acento.

Para quem gostasse de lam a, aquele lugar era o paraíso. O céu

escurecera de novo, garantindo ainda m ais poças e substâncias viscosas.

Raven estava parada à porta do herbanário, parcialm ente coberto com

um a lona azul. Ela acenou para Keelie.

— Ei, você espera um segundinho? Vou ter que cuidar de algo para a

m am ãe.

— Claro. — Keelie adorou a oportunidade de poder entrar na loj a

cheirosa. Viu um rabo cor de laranj a pendurado num galho de árvore à

entrada balançando de um lado para o outro com o um pêndulo. O restante

do gatinho pirado devia estar escondido atrás das folhas. Ela se lem brou do

Gato Risonho de Alice no país das m aravilhas, cuj o sorriso era a últim a

coisa a desaparecer.

Teria sido um livro m ais curto se o bichano tivesse feito xixi na

bagagem da Alice.

Keelie ignorou Knot. Por que não podia ter um gato norm al? Não,

espere aí. O gato não era dela. Ele pertencia ao pai. Se ela fosse ter um

anim al de estim ação, não haveria de ser um m aluco. Claro que até um gnu

seria com um com parado a Knot.

Com o a porta do herbanário estava escorada, m as aberta, Keelie

entrou.

— Janice? Sou eu, Keelie — avisou.

Ela esfregou os dedos na saia para fazer com que parassem de

form igar. A porta da loj a era de pinheiro. A garota respirou profundam ente,

ansiando pelo arom a e pela energia curativa das ervas. Tossiu. O am biente

cheirava a água sanitária e cogum elo estragado. A tem pestade destruíra a

atm osfera.

Janice apareceu com um a longa vela feita de ervas. Cam inhava

devagar para não apagar a cham a.

— Que bagunça, né? Tivem os que j ogar tudo fora e, ainda assim , não

conseguim os nos livrar do fedor. — Ela colocou a vela no m eio de um a

m esa.

— Posso aj udar em algo? — perguntou Keelie.

— Tem m ais velas nos fundos. Pode pegar, vam os acendê-las aqui.

A parte de trás da loj a ainda contava com um telhado. Sacos plásticos

cheios de ervas estavam nas estantes laterais, e havia velas grossas em

pratos de porcelana. Keelie pegou três e apoiou um a em cim a da outra; em

seguida, apanhou um a caixa de fósforos na m esa perto delas e voltou para

a parte da frente.

Acendê-las fez com que se lem brasse da m ãe, que gostava de com er à

luz de velas. Recordou-se da face dela, reluzindo do outro lado da m esa,

em m eio à ilum inação dourada. Sabia quando Katherine tivera um dia

ruim , j á que então ela servia o j antar na m esinha para dois sob os m obiles m usicais na varanda. As cham as das velas bruxuleavam e oscilavam ,

repetindo o cintilar dos vaga-lum es, que adej avam em torno das flores na

cerca de trás.

Keelie se perguntou se aqueles insetos realm ente eram bichos. A m ãe

com certeza teria gostado que ela pensasse assim .

Janice interrom peu seus pensam entos.

— Parece que Knot a seguiu. Está sentado no m eu terraço, lam bendo-

se. O que você fez para m erecer tal acom panhante?

Keelie correu até a porta da frente da loj a e olhou para o outro lado do

cam inho, m as o rabo laranj a j á tinha sum ido.

— Sei lá. Vivo falando que ele é noj ento, m as ele só ronrona.

A face de Janice ilum inou-se com um sorriso.

— É porque você gosta de anim ais. Ouvi dizer que aj udou a salvar as

aves de Cam eron.

A garota ficou séria.

— Aj udei. Já teve notícias dos rapazes que foram parar no hospital?

— As feridas deles estão cicatrizando bem , m as continuam sob

observação psiquiátrica. Contaram para os m édicos que foram perseguidos

e m ordidos pelo Barrete Verm elho — com entou ela, revirando os olhos.

Keelie prendeu a respiração por alguns instantes.

— E foram ?

— Bom , tinham m arcas de m ordida nos braços e nas pernas. — Ela

suspirou. — São trabalhadores tem porários, sabe? Universitários.

Não têm m uito j uízo. Mas eu disse para seu pai que isso é preocupante, porque o Barrete Verm elho perm itiu que o vissem . Esses

rapazes têm sorte de estar vivos.

— Você acha que ele ia m atar os universitários? — A garota lem brou-

se da risada diabólica e das m ãos afogando-a. O duende ia se livrar dela

tam bém , m as Knot o im pedira.

— O Barrete Verm elho é m uito perigoso. E ninguém sabe por que está

por aqui. Outro m istério é por que veio para o herbanário, entre tantas

opções.

— Ele veio aqui? — Claro. Os cogum elos podres que Raven tirara com

a pá eram um sinal infalível. — Vocês estão em perigo?

Janice m ordeu o lábio.

— Raven vai voltar a estudar em breve, e eu tam bém vou em bora. Não

tenho com o recuperar m inhas ervas e acabar com este fedor nas próxim as

duas sem anas. Então vou em bora daqui a alguns dias. Preciso deixar a loj a

consertada e preparada para o inverno antes de ir em bora. Mas a gente vai

se ver de novo. Vou para Nova York, e você e seu pai irão para lá daqui a

um as três sem anas. — Ela sorriu de um j eito m aternal. Keelie deu um

passo à frente, aceitando seu abraço.

A m ulher cheirava a ervas e consolo, o que elim inou o fedor de água

sanitária e de putrefação. Um a onda de calor espalhou-se pelo corpo de

Keelie, antes de a culpa atingi-la com o um cam inhão de cim ento. O que

Janice pensaria dela quando Keelie fugisse? Não haveria Nova York.

— Ei, quase esqueci. Tenho um a coisa para você. — Janice foi rápido

até os fundos da loj a e trouxe um a garrafa azul-cobalto com tam pa de conta-gotas. — Aqui está um extrato para intoxicação por clorofila. Três

gotas pela m anhã sem pre que receber am or dem ais das árvores.

Ela precisava perguntar a alguém antes que seu coração aum entasse

m ais de tam anho e em purrasse a m ãe para fora.

— Janice, lem bra quando m encionou que sua m ãe m orreu quando

você era j ovem ? Foi se esquecendo dela com o passar dos anos?

As pulseiras da m ulher tiniram quando ela estendeu a m ão para tocar

no om bro de Keelie.

— Ah, querida. Não. Eu nunca, j am ais m e esqueci da m inha m ãe.

Penso nela todos os dias. Sinto falta dela, apesar de ter 45 anos. Sem pre

serei filha dela, ela sem pre será m inha m ãe. Ninguém pode substituí-la.

Assim com o ninguém pode ficar no lugar de Katherine. Leva tem po para a

gente sanar a dor em virtude da perda de alguém , m as, quando o

sofrim ento vai em bora, ficam as boas lem branças.

— E se eu m udar? E se m e tornar tão diferente da garota que m inha

m ãe am ava, a ponto de ela não gostar da pessoa que virei?

Janice afastou um cacho da testa de Keelie.

— Sua m ãe a reconheceria se entrasse aqui agora. Ela a am aria m esm o

que você se perm itisse am ar seu pai. Ela am aria você m esm o com sua

roupa nova, que a faz parecer um a princesa de conto de fadas da

Renascença.

— Ela m e am aria m esm o se eu acreditasse que existe m agia e que

consigo ver fadas de graveto? Mesm o se eu pudesse sentir o espírito de

um a árvore? Mesm o se eu visse Knot usando botas e em punhando um a espada?

Janice abraçou Keelie.

— Ah, claro que sim . Ela a am aria sim plesm ente porque é a filha dela.

Katherine am ou Zeke, e você é parte do seu pai tam bém . Nada que você

faça im pedirá esse am or.

Aquilo quebrou a fechadura da caixa que continha a dor de Keelie. As

palavras saíram com rapidez da boca da garota, com o se a j ovem receasse

que, se parasse, j am ais as diria.

— Eu gritei com m inha m ãe no dia em que ela partiu. Mam ãe não

queria que eu fizesse um piercing no um bigo. Eu disse que não a am ava,

que ela era m á. Com o ela j á estava atrasada para pegar o voo, acabou

falando que a gente conversaria sobre isso quando voltasse. E m e disse

que m e am ava, só que eu não respondi.

Janice a abraçou.

— Deixe isso para lá, m inha querida. Deixe isso para lá. Katherine sabe

que você a am a. As m ães sabem que as filhas as am am , m esm o quando

discutem . Entenda: se a sua vida for diferente da que ela idealizou para

você, continua sendo a sua vida, não a dela. Não viva a vida de Katherine.

O presente dela e do seu pai para você é a sua própria existência. Ela ia

querer vê-la feliz.

Enxugando um a lágrim a, Keelie desej ou estar tendo aquela conversa

com o pai. Será que ele entenderia?

— Com o você sabia o que eu estava pensando?

— Não sabia. Adivinhei. Minha m ãe queria que eu m e tornasse m édica por causa de toda a m inha experiência com o câncer. Mas eu não

quis seguir a via da m edicina ocidental. Tinha dom para usar ervas. Por

isso, segui m inha intuição, e estou fazendo o que m inha m ãe queria, só

que do m eu j eito.

— Minha m ãe sem pre foi m uito rigorosa quanto à escola e ao m eu

futuro com o advogada.

— Talvez consiga dar um j eito de m isturar um pouco do que ela queria

com o que você quer.

Raven m eteu a cabeça pelo vão da porta.

— Está pronta para fazer com pras na Cabana do Rebolado? Vocês duas

estão tendo um m om ento tipo program a da Oprah? O que eu perdi?

Keelie riu, constrangida, e enxugou as lágrim as.

— Não estou m uito fashion, estou.

Raven deu um largo sorriso.

— As roupas do show de lam a é que não eram fashion. Você se livrou

delas.

— Devia ver as asas de fada que o Tarl conseguiu para a trupe dele.

— De j eito nenhum ! — A am iga riu e pôs a m ão na testa. — Vam os

fazer com pras. Preciso tirar essa im agem da m ente.

— Keelie, sem pre que quiser, pode vir conversar com igo sobre a sua

m ãe ou o que quer que sej a. —Janice afagou seu braço.

— Acho que vou aceitar sua oferta.

A m enos que fosse em bora no dom ingo.

***

Um arom a de incenso exótico espalhava-se no ar do lado de fora da

Cabana do Rebolado, e, quando Raven abriu a porta, um a onda hipnótica

de toques de tam bores ressoou. A am iga de Keelie estalou os dedos e girou

o quadril ao entrar no am biente cheio de burburinho.

Keelie ficou parada no degrau da escada, im pressionada com as cores

da loj a. Era com o estar no interior de um arco-íris, da caverna de Aladim ,

de outro m undo.

Um fogão à lenha aquecia de um j eito aconchegante o am plo

am biente interno, deixando-o seco. Nuvens de fum aça finas espalhavam -

se no ar, oriundas de incensos colocados em diversas partes. Tapetes e

alm ofadões cobriam o piso, ocupados por garotas que folheavam revistas e

faziam , por um lado, desenhos nas m ãos um as das outras e, por outro,

m uita algazarra.

A área atrás de um biom bo intricadam ente pintado no canto servia de

cabine de provas. Um rabo laranj a peludo aparecia sob ele. O gato

pervertido estava espiando as pessoas tirarem a roupa. Keelie disse a si

m esm a que não se trocaria m ais na frente dele.

Nas paredes, havia ganchos com lenços de seda coloridos, organizados

por m atiz. Saias adornadas com pedras e espelhinhos, bustiês de

lantej oulas e peças com franj as ficavam num lado da loj a, ao passo que no

outro se viam roupas em estilo tribal, de tons escuros: verm elhos, azuis e

verdes revestidos de preto. Em um balcão, havia kits de hena para a

pintura de faces e m ãos.

Keelie exam inou tudo, fascinada.

Um a m ulher alta, de cabelos escuros e ondulados, traj ando um bustiê

brilhante, adornado com m edalhas, e usando um a saia verm elha de cintura

baixa, cam inhou descalça, com a roupa retinindo, rum o a elas.

— Raven, seu véu chegou.

— Eu esperava que j á tivesse chegado. — A am iga seguiu a m ulher,

que se abaixou atrás de um balcão de m adeira e pegou um tecido dobrado.

Keelie observou enquanto Raven o estendia com um leve puxão, segurava-

o com as pontas dos dedos de am bas as m ãos e girava-o graciosam ente em

torno do corpo.

— Uau. — Keelie se perguntou quanta prática era necessária para se

m over com tanta perfeição.

— Keelie, esta é Aviva. A dona deste lugar incrível.

A garota sorriu, pensando que um aperto de m ãos certam ente não

condizia com aquele tipo de loj a.

A dona deu um largo sorriso para ela.

— Quer dizer que é a herdeira de Heartwood. Ouvi coisas boas sobre

você, Keliel.

— Valeu. — Todo m undo conhecia seu nom e esquisito? Segundo

Raven, fora Aviva que perdera o tal anel. Keelie buscou o aro de prata na

bolsinha de couro pendurada na cintura. — Isso é seu?

Raven o fitou, de olhos arregalados.

— É o seu anel.

— Pode crer. — Aviva estendeu a m ão, e Keelie o colocou na palm a da

m ulher.

— Achei na floresta ontem .

— Eu nunca vou para a floresta. — Aviva olhou para Keelie com

desconfiança. — Você por acaso sabe onde está o MP3 do Zak?

— Aviva, cala a boca. Você perdeu o anel no Condado. Keelie só foi até

lá um a vez, na noite em que chegou. Sej a lá quem o encontrou...

— Roubou...

— Deve tê-lo deixado cair na floresta.

A m ulher desviou os olhos de Raven, que a fuzilava com o olhar.

— Você tem razão. Sinto m uito, Keelie. Obrigada por encontrar m eu

anel.

— De nada.

— Ei, pare!

As cabeças se voltaram para o grito atrás do biom bo. Knot estava se

esprem endo para passar debaixo dele com um a borla dourada na boca. Ele

olhou ao redor, com olhos esbugalhados, daí correu para a porta,

escapulindo por ali antes que esta se fechasse após a entrada de um a nova

cliente, um a m ulher que ficou espantada e deixou a trouxa que levava cair

no chão.

— Knot, volta aqui. — Keelie correu até a entrada, saltando sobre a

trouxa e em purrando a recém -chegada no afã de pegar o bichano. Ela viu

seu rabo laranj a aparecer em m eio ao capim alto do outro lado do

cam inho, com o um a bandeira. — Para, seu gato idiota. Isso não é seu.

A garota correu pelo capim e depois pela trilha, no outro lado do

pequeno prado. Passou pela barraca das asas de fada destruída, sem as m ercadorias estragadas, que seriam reutilizadas por Tarl, pela barraca do

arco e flecha, por algum as de com ida, em que havia bastante m ovim ento,

barulho de serra elétrica e arom a de m adeira cortada, e, então, pela área de

recreação infantil e pelo cheiro de ovelhas no zoológico interativo. Knot ia

saltitando adiante, a borla esvoaçando atrás dele conform e o felino

percorria a toda velocidade o cam inho.

O que planej ava fazer com aquilo? Aquela bola peluda idiota só queria

que Keelie a perseguisse. Sir Davey fitou os dois, atônito, quando eles

passaram depressa; em seguida, am bos deixaram para trás o herbanário e o

livreiro, e com eçaram a subir a Fileira das Árvores rum o à clareira.

Agora a garota sabia aonde o bichano se dirigia. E acenou para Scott

enquanto corria para Heartwood, tentando interceptar Knot na escada. Ele

era rápido dem ais para ela; subira a escada externa e passara pela

portinhola antes m esm o que Keelie pisasse no segundo degrau.

Era m elhor a borla estar em bom estado, porque ela com certeza não

pagaria por aquela m ercadoria. A garota bateu a porta com força quando

passou e gritou com o gato.

— Vai m e devolver isso j á, seu gato cleptom aníaco. Essa é a últim a vez

que vai m e envergonhar. — Keelie olhou debaixo da cam a e atrás do sofá.

Ele não estava no banheiro nem na cozinha. Um ponto m olhado no chão

cham ou sua atenção. Um a pegada. Então ela viu outras, rum ando para o

quarto do pai. O chão m olhado denunciara o gato.

A garota abriu a cortina com suavidade e, então, bradou:

— Não!

Knot estava se agachando na últim a gaveta do criado-m udo do pai,

prestes a aprontar o pior.

Dezesseis

o tom de advogada da m ãe. — Se fizer xixi na gaveta do papai, vai

ver só! Nem vou ser eu a encarregada da m atança.

Ele pestanej ou, os olhos verdes sem icerrados, a borla pendurada na lateral da boca com o um charuto dourado caído.

Keelie tentou pegar o gato, m as ele passou saltitando por ela e largou a

borla por fim . A garota pegou-a com a ponta dos dedos, evitando a baba

deixada por Knot.

Pelo visto não sofrerá danos. Ela se virou para fechar a gaveta, caso o

bichano resolvesse voltar, e parou. Havia um álbum de fotos em cim a de

um a coberta branca dobrada. Parecia velha, m as seu arom a era fam iliar.

Tão fam iliar que os olhos de Keelie ficaram m arej ados. Seu cheiro

lem brava a m ãe.

Ela se sentou no assoalho, apoiando as costas na lateral da cam a do

pai. Pôs o álbum no colo e pegou a coberta branca, que, na verdade, era

um xale de crochê delicado. Colocou-o ao redor do corpo, puxando-o pelos

om bros até o rosto, com o se a m ãe a estivesse abraçando de novo. Fechou

os olhos e deixou-se levar — perm itiu que rolassem as lágrim as de saudade

daquele rosto que nunca veria outra vez.

Quando se recuperou, abriu o álbum ao acaso. Era um a narrativa

cronológica da sua vida. Keelie o folheou, surpresa com as fotos. Com o o

pai conseguira todas elas? Cada um a fora legendada com a caligrafia

m etódica da m ãe. Katherine fizera aquele álbum . E para ele.

Ela voltou ao início. A prim eira fotografia m ostrava a m ãe bem

novinha, com cabelos longos e dourados espalhados por sobre os om bros.

Usava um vestido de noiva rendado, em estilo m edieval, com um cinto

com prido, adornado com pedras sem ipreciosas. Uau, era m esm o um a

guirlanda de flores nos cabelos da m ãe? Keelie sorriu. A m ãe ficaria tão constrangida em saber que a filha estava vendo essa versão antiga dela.

Zeke encontrava-se ao lado de Katherine na foto; os cabelos longos e

escuros presos em um rabo de cavalo. Estranho, m as parecia exatam ente

igual ao que era hoj e. Não envelhecera nada. À esquerda da m ãe estava a

avó Josephine, com um terninho escuro e a costum eira blusa branca

esvoaçante, e, ao lado do pai, achava-se um a m ulher de cabelos grisalhos

com pridos e ondulados, deixando à m ostra orelhas pontudas; usava um a

coroa fina de fios prateados. O belo vestido de chiffon desta fora bordado

com desenhos espiralados em tom prata. Keelie olhou de perto. Folhas. O

que m ais poderia ser?

Ela fitou a fotografia, um m om ento de outros tem pos. A m ãe parecia

m uito feliz. Estava de braços dados com Zeke e o fitava, com um sorriso no

rosto. Era óbvio que o am ara de verdade, pelo m enos no início. Por que

m udara?

Keelie acariciou o papel lustroso da fotografia com o se pudesse tocar

em Katherine. Mãe, por que você m e afastou dele? Por que separou nossa

fam ília?

A filha nunca saberia. O pai tinha a própria versão da verdade, m as a

m ãe partira para sem pre.

Na segunda fotografia, Katherine estava sentada de pernas cruzadas

no chão, ao lado de um bebê com um a cabeleira encaracolada rebelde.

Sorrindo, Keelie tocou em seus cabelos na foto. Caram ba, eles j á eram

cheios e assanhados naquela época. Do outro lado da neném de cabelo

crespo, o pai agitava um cachorrinho de pelúcia, tentando cham ar sua atenção com um sorriso m aroto nos lábios. A m enina se concentrava nas

peças à sua frente, ignorando os pais.

Keelie aproxim ou-se da foto. As peças de m ontar pareciam ter sido

feitas de cerej eira. Ela deu um tapa na própria testa. Com eçava a ficar

obcecada com m adeira. Será que ia identificar tudo quanto era obj eto

desse m aterial pelo resto da vida?

Outra fotografia m ostrava Keelie um pouco m ais velha, sentada no

colo de Zeke, segurando um a boneca. A m enina ria. A bonequinha tinha

orelhas pontudas. De onde será que viera? O sorriso do pai era tão m aroto

quanto nas outras im agens. Ali estava um hom em apaixonado pela esposa

e pela filhinha.

Ocorreu à garota que, às vezes, quando Zeke achava que ela não o via

observando-a, m antinha aquele sorriso m aroto nos lábios.

Keelie olhou para o alto. Se a m ãe estava em algum a nuvem com os

outros anj os, a filha queria que descesse e fosse conversar com ela. Que

respondesse às suas perguntas. A garota fechou os olhos. Quando os abriu,

continuava sozinha no quarto do pai.

Estrem eceu, em bora a m anhã gelada da m ontanha não estivesse m ais

fria do que de costum e. Com o o xale caíra enquanto Keelie olhava as

fotografias, ela o recolocou, envolvendo-se bem . Talvez fosse apenas

psicológico, m as se sentia m ais aquecida e segura com ele.

Keelie ainda tinha alguns dias para decidir se pertencia ao m undo do

pai ou se voltaria ao que a m ãe lhe dera. Um a terceira opção lhe ocorreu.

Zeke poderia ir para a Califórnia. Não Los Angeles, m as talvez as m ontanhas florestais do Norte. Podiam virar um a fam ília de novo, e Ariel

m oraria com eles.

A garota ainda ficaria perto das am igas e das lem branças que guardava

da m ãe e da avó Josephine; porém , ela ainda não sabia ao certo se seu

lugar era aquele. Tivera certeza da resposta quando chegara ao festival,

m as, agora, não m ais.

A ideiadeixou-a inquieta. Talvez precisasse dar um a cam inhada para

espairecer. Tinha decisões a tom ar a respeito da sua vida. E queria saber

m ais sobre o que era ser um a fada. Fora um grande passo para um a

patricinha californiana descobrir que não era totalm ente hum ana,

conversar com árvores e lutar contra forças m alignas na floresta. Mais

parecia o enredo de um videogam e, m as era a vida.

Se Keelie realm ente fosse com Addie para a Califórnia, sabia que

partiria o coração do pai. Os dois tinham se aproxim ado m uito depois de

todos aqueles anos de separação.

Mas ele não deixara a filha com a m ãe todos aqueles anos? Cartas

esporádicas de festivais da Renascença por todo o país e brinquedos eram

enviados pelo correio. De qualquer form a, não se podia considerar isso

um a criação paternal. O pai não estivera presente nos m om entos difíceis.

Quando Keelie perdera um dente andando de patins ou quando um garoto

paquerado por ela a convidara para ir a um a festa e depois lhe dera bolo. A

m ãe, sim , estivera lá. A m ãe entendera.

Um a voz longínqua em sua m ente perguntou: E quanto à vez em que

você viu aquela criatura na floresta e sua m ãe lhe disse que não havia nada ali? Mas havia. E Katherine vira tam bém . E não se podia dizer que era um

cavalo branco, não com aquele chifre enorm e.

Keelie sentiu um a ânsia súbita de sair e ficar entre as árvores.

Envolveu-se ainda m ais com o xale. Já com a sensação de ser bem

diferente da Keelie Heartwood que tentara alcançar a sra. Talbot apenas

um a sem ana atrás, ela foi até o patam ar da escada externa.

O que a fizera m udar? O pai? Ariel? Com certeza não fora aquele gato

odioso. Ela tam bém ficara obcecada por m adeira e ansiava ficar em torno

de árvores vivas. Se voltasse para Los Angeles, poderia ir à praia, m as

haveria apenas plantas im portadas, palm eiras e arbustos com quem trocar

ideias; ela se perguntou que tipo de faces teriam . Talvez pudesse cultivar

ervas para satisfazer sua necessidade de m anter contato com plantas ou

com prar um a árvore nova.

Keelie m eneou os dedos dos pés descalços, sorrindo. Sir Davey dissera

que lidar com a lam a faria a m agia se desviar de sua m ente e conectar-se

com seu coração. Quem sabe andar sem sapatos na terra não surtiria o

m esm o efeito? Talvez devesse ir até o prado conversar com o álam o. A

garota lem brou-se da onda de energia que ele enviara por m eio dela

quando tocara Moon.

Naquele m om ento, aquela energia curativa viria a calhar para Keelie.

Seu ceiuiar tocou lá dentro. Ela seguiu o toque até a bolsa, que estava

no chão, perto da cam a e, claro, cheia de pelos de Knot.

— Alô — atendeu.

— Oi. Os planos continuam de pé para a Grande Fuga.

Keelie não queria pensar nessa escapada, não quando planej ava a

Grande Conciliação.

— A gente pode conversar am anhã? Meu pai está m e cham ando.

— Pai? Achei que fosse o genitor, o ogro, o velho, o doador de

esperm a.

— Am anhã. A gente conclui os planos.

— Está bem , Keelie. Am anhã, então. — Laurie pareceu estar brava

com ela.

Keelie m eteu o celular debaixo do travesseiro, depois se cobriu bem

com o xale, sentindo-se culpada. Knot estava em cim a da cam a, lançando-

lhe um olhar furioso com aqueles olhos esquisitos cor de gás pantanoso.

Ele bufou.

— Cala a boca, seu m asoquista idiota. Eu não vou pagar por essa borla.

Espere só até eu contar para o papai.

Zeke cham ou-a lá de fora.

Os pelos de Knot eriçaram -se com o o rugido de um leão.

— Fica frio, sua bola peluda. Eu não vou a lugar nenhum .

O gato bufou de novo, ainda bravo, e deu um passo atrás, com o se

estivesse pronto para atacar.

— Fica quieto, seu gato pirado.

Ele com eçou a ronronar alto.

— Ei, você não ouviu quando cham ei? — O pai parou à entrada

cortinada. Então ficou olhando fixam ente para o xale.

— Pai, eu posso explicar.

— Então explique, por favor. — O olhar dele passou para Knot, que se

deitara na cam a e fingia que dorm ia.

— A culpa é dele. — Keelie tocou no gato com o dedo. — Ele roubou

um a borla da Cabana do Rebolado, e vim correndo atrás dele para

recuperar a peça. Daí ele se m eteu no seu quarto, e, com o pensei que o

danado ia fazer xixi na sua gaveta, só quis proteger suas coisas.

— Entendo.

— Quando Knot saiu de lá, vi o álbum de fotografias e o xale. O cheiro

era tão parecido com a m am ãe...

O tom de voz de Zeke suavizou.

— Sei. — O pai se virou por um instante e, em seguida, olhou para a

filha. Seus olhos aparentavam estar m ais brilhantes, com o se ele estivesse

tentando conter as lágrim as. — Pode ficar com ele. Eu ia dar para você de

qualquer form a.

— Obrigada. Por que estava m e cham ando?

— Você recebeu um a caixa da m inha m ãe. Da sua avó. Vam os abri-la e

ver o que ela m andou.

Ela o seguiu até a sala, lem brando-se do que ele dissera a Sir Davey a

respeito de Keelie ser "a escolhida". E, sej a lá o que isso significasse, sua

avó não aceitaria. A garota recordou-se da zom baria de Elia sobre gente

m etade hum ana e de Elianard cham ando-a de m estiça. Será que a m ãe de

Zeke pensava assim tam bém ?

— Vam os abrir a caixa. — O pai cortou o papel pardo que envolvia o

pacote, e um arom a forte de canela espalhou-se pela sala. Keelie recuou. Tinha o cheiro de Elianard. Ela pegou o papel e o alisou. O endereço do

rem etente era: "Floresta do Pânico, Oregon." Será que a avó m orava num

lugar com esse nom e?

Keelie observou o pai abrir a caixa e olhou dentro.

— Uau. Quer ver o que sua avó lhe m andou?

— Não tem nada aí que m orda? — Nunca se sabia, naquelas bandas.

— Não. — Ele riu e afagou os cachos de cabelo da filha, com o se ela

fosse um a garotinha. Keelie os aj eitou e se inclinou para olhar a caixa.

— Pai, que tal se, em vez de a gente m orar na Floresta do Pânico, a

gente fosse para o norte da Califórnia, sabe, tipo lá onde ficam as grandes

sequoias.

— A nossa casa fica na Floresta do Pânico. — Zeke a olhou com

curiosidade. — Por que está perguntando?

— Se a gente m orasse na Califórnia, eu ficaria perto das m inhas

am igas, e ainda assim podíam os viver num a floresta. Eu até podia cuidar

da Ariel. Form aríam os um a fam ília.

— Já som os um a, Keelie. E a sua avó m ora no Oregon. Tem os m uitos

parentes lá tam bém .

— Talvez você tenha, m as eu não. Nunca recebi um cartão de

aniversário, nem um telefonem a, nem um puxa, você ainda está viva da sua

m ãe desde... hum , deixa ver... ah, sim , desde que nasci, durante a m inha

vida inteira — gritava, em bora não tivesse essa intenção.

O pai a fitou.

— De onde veio isso?

— Você é tão desligado. Não som os um a fam ília. Estam os com eçando

a nos entender, m as isso não significa que você pode m e m eter no seu

m undinho silvestre com o se eu fosse um esquilo ou algo assim . Eu não sou

um a árvore. Você não é o m eu pastor.

— Eu nunca disse que era. Eu sou seu pai. — Ele tam bém gritava

agora.

— Pare de gritar.

— Não fui eu que com ecei, foi você.

— Ah, cresça e apareça, Zeke. Você é um trem endo Peter Pan com

suas fãs e seu j eitinho elfo de ser. Um natureba que se dedica a

cerim ônias com árvores. Eu preciso dar o fora daqui. Tenho que tocar em

algo concreto. Tchau.

— Aonde você vai? Volte aqui. A gente não term inou.

— Ah, term inou, sim . — Keelie bateu a porta ao sair, m as ela

entreabriu; então a garota a reabriu e bateu com toda a força.

Enquanto Keelie descia a escada com passadas pesadas, viu Knot na

j anela do quarto, olhando-a boquiaberto, em estado de choque felino. Isso

a fez se sentir ótim a. Ela m ostrou a língua para ele e se dirigiu ao

Condado.

Precisava de com panhia hum ana. Se não estivesse rolando um a festa,

Keelie daria início a um a.

Scott fez m enção de lhe dizer algo, depois se virou e foi para o outro

lado. Ela olhou de esguelha para o espelho sobre um a m esa na loj a. Seus

olhos estavam averm elhados e inchados. Beleza. Sean ficaria de j oelhos ao vê-la — daí vom itaria.

As nuvens no céu estavam agitadas tam bém , um reflexo perfeito dos

sentim entos de Keelie. Ela ansiava por trovões e raios. Ao pé da colina, viu

a ponte e foi m ais devagar, lem brando-se do Barrete Verm elho. Talvez não

devesse estar sozinha ali. E devia ter trazido a capa.

A garota pisou na ponte, esperando ouvir a voz sob ela, m as ouviu

apenas a água correr borbulhando pelas pedras. A gram a estivera

escorregadia e lam acenta até ali, e cogum elos pontilhavam as m argens.

Keelie deu de om bros. O Barrete Verm elho estivera ali, provavelm ente

depois da tem pestade que fizera o riacho encher. Onde estava a criatura

que a salvara? E o que seria?

A conclusão lógica, em se tratando da Travessa do Espírito da Água,

levava a um a entidade espiritual.

— Oi? Espírito? Eu queria agradecer a você o outro dia. Salvou a

m inha vida. — Nenhum a resposta.

Ela saiu da trilha e andou rio abaixo, observando a água que

circundava as árvores inclinadas sobre o riacho. A m argem era m ais alta

ali, e abaixo Keelie via áreas arenosas, pequenas praias que assinalavam

depósitos de sedim ento.

A garota teria adorado brincar ali quando pequena. Na curva seguinte

do riacho, notou um m ovim ento perto da água. Um peixe enorm e ofegava,

atolado na m argem arenosa.

— Coitadinho, vou aj udar você. — Em bora talvez fosse tarde dem ais,

ela foi até lá, segurando-se em raízes conform e descia.

O peixe dirigiu os olhos grandes e castanhos para Keelie e disse o

nom e dela arfando.

Ela recuou, batendo a cabeça num a raiz. Álam o. Algo subiu em seu

om bro, vindo das sam am baias que se inclinavam sobre a m argem . Keelie

ficou paralisada, torcendo que não fosse um a cobra ou um baita inseto. O

rosto m usgoso que a observou a apenas dois centím etros lhe parecia

fam iliar agora.

— Bhata.

A figurinha de gravetos parecia satisfeita. Um bracinho sim ilar a

folhas em form a de agulha tocou com suavidade o rosto da garota e o outro

apontou para o peixe.

Keelie se aj oelhou perto do peixe. Ele piscou para ela, tinha fios de

barba longos nas laterais da enorm e boca sem lábios e ergueu um a

barbatana fina e ossuda, em que se via a m ãozinha com três dedos interli-

gados por m em branas natatórias.

— Keliel.

— Espírito?

A criatura fechou os olhos e, em seguida, abriu-os de novo.

— É você. Está m achucado? Quer que eu o coloque de volta na água?

O que posso fazer para aj udar?

Pelo canto dos olhos, Keelie viu que outras fadas de graveto haviam

chegado, bem com o algum as do tipo inseto, que o pai cham ara de outro

nom e. As m argens com eçavam a ficar cheias delas.

Ela hesitou, m as, em seguida, estendeu a m ão e em purrou o espírito, fazendo um a careta ao sentir a textura viscosa e gelada de peixe. Eca.

O espírito gritou, e seus bracinhos agarraram o pulso dela, os dedos

pegaj osos grudando em sua pele. Keelie titubeava entre gritar, correr e

aj udar a pobre criatura.

A com paixão venceu. Ela olhou ao redor, buscando algo que pudesse

usar com o encosto, e viu o álam o sobre si com o tronco delgado erguendo-

se até a copa, as raízes parcialm ente expostas, em virtude da erosão.

Keelie tirou o pingente de coração cham uscado e o colocou no

espírito. Não aconteceu nada. Com os olhos fixos na criatura, ela estendeu

a m ão para trás e pegou um a raiz grossa.

O m undo ficou verde. No prado, a m etros dali, ela viu Hrok e, m ais

adiante, no rochedo, estava Sir Davey , cercado de equipam ento científico,

concentrado no trabalho.

A garota olhou para o espírito.

— Cure.

Nada aconteceu. Keelie pensou na noite em que curara Moon no

prado. Será que precisava ser um a árvore específica?

Hrok, aj ude-m e.

Abaixe seus escudos, Keliel que Fala com Árvores. Deixe a m agia fluir

por você. Pare de tem er.

Que tem or? O espírito era m eio noj ento, m as não assustava Keelie. De

que a garota tinha m edo? Do Barrete Verm elho. Da raiva do pai. De si

m esm a. De seus planos. Do futuro. Do que ela se tornara.

Não, do que sem pre fora. Essa era a verdade que tem ia. O que era?

Que Keelie não podia ser considerada totalm ente hum ana. Mas que os

pais haviam agido de um j eito hum ano dem ais. Haviam se am ado e

desistido desse am or por ela. E agora a filha planej ava abandonar o pai.

A garota não podia voltar para a Califórnia. Já não era m ais a m esm a

Keelie, m as sim Keliel que Fala com Árvores, a filha do Pastor das Árvores.

Precisava descobrir o que isso significava. Aquela seria sua vida dali para a

frente.

Um a onda de energia verde fluiu pela raiz, queim ando os m úsculos

dela conform e ia abrindo cam inho até o outro braço e descendo, descendo,

preenchendo o espírito. Keelie tentou soltá-lo, receando que tanta energia

o m achucasse, m as ele continuou a segurá-la com força, revigorando-se,

absorvendo a m agia com o um nadador ansiando por oxigênio.

Em torno de Keelie ouvia-se o zum bido e o tinido das fadas anim adas.

Por fim , os dedos estranhos e pegaj osos a soltaram , e ela largou a raiz.

O espírito esvaeceu, deixando o pingente de coração cham uscado na

m argem .

Keelie o pegou e tirou a areia que ficara nele. O espírito sum ira de

vista.

— Ingrato — m urm urou ela.

Então, a bhata a atacou.

Dezessete

braços, agradecendo ao álam o e m antendo o rosto na curva do

cotovelo para que a bhata não conseguisse arranhar sua face nem

atingir seus olhos.

Quando finalm ente pisou no solo, correu levantando a saia,

agradecida por aquelas m angas longas im pedirem que as criaturinhas tilin-

tantes de gravetos fossem para seus braços. Antes que ela chegasse à

trilha, um a nuvem de insetos veio da ponte, e a garota m udou de direção,

indo rum o ao prado. Os bichinhos voadores a alcançaram depressa e

agarraram seus cabelos, pinicaram seu couro cabeludo e beliscaram seu

pescoço.

A pele de Keelie form igava com a m agia delas, e a garota j á estava

m eio tonta por causa da clorofila que canalizara para salvar o espírito. Ela

apertou o passo e, então, a tontura se transform ou em tem or quando

chegou ao Pânico. Keelie sentiu um aperto no peito e teve a sensação de

que a floresta se fechava ao redor.

As bhata tiniam e pinicavam , perfurando sua roupa. Keelie gritou e

puxou a bainha da saia até a cabeça, tirando-a. Ela se livrara das

criaturinhas que cobriam a saia, só que outras tom aram o lugar delas.

— Sir Davey — bradou a garota. — Socorro!

Ele se virou e ficou boquiaberto ao ver o que a perseguia.

— Venha aqui, m oçoila. Rápido.

Rápido? E ela por acaso estava passeando? Keelie saltitou nos últim os

m etros e agarrou a rocha, os pés buscando desesperadam ente um apoio

nas laterais cheias de liquens.

Sir Davey a puxou para cim a do rochedo. As bhata que a cobriram

antes sum iram , m as as parecidas com insetos continuavam ali. O anão

fitou-as.

— As feithid daoine. Não se veem com m uita freqüência.

— Eu preferiria nem ver. Não sei o que foi que fiz para deixá-las tão

fulas da vida, m as elas m e atacaram com o se eu tivesse pegado o m el delas

ou algo assim .

— Onde?

Keelie contou a ele o que ocorrera com o espírito e sua invocação de

Hrok e do álam o para salvá-lo.

— E você está dizendo que o espírito desapareceu?

— Estou. — Com eçara a ventar m ais, o que trouxe o cheiro de chuva.

O pequeno hom em notou tam bém .

— Este rochedo não é o lugar m ais seguro para se estar num a

tem pestade com relâm pagos. Melhor eu ir deixá-la em casa.

— Para que todos esses troços? — O rochedo estava cheio de caixas,

grandes fragm entos de cristal envolvidos com aram es, um disco de m etal

que girava sobre um a vara de m adeira fixada num buraco escavado na

pedra. Parecia um experim ento científico do ensino fundam ental.

— Tem um feitiço ruim por aqui., em algum a parte. É arredio, e estou

tentando localizar.

— Feitiço ruim ? Você precisa de um equipam ento para encontrar? Ele

m e perseguiu desde o riacho!

Sir Davey parou de olhar para seu equipam ento e agitou as

sobrancelhas de lagarta.

— Elas não são feitiço ruim , m oçoila. São apenas feithid daoine.

— Feta o quê? Nunca vou m e lem brar disso. O povo-graveto é o bhata,

certo?

— Certo.

— Eles que com eçaram . Todos m e odeiam .

— Na certa eles tentavam dizer algo.

— Ah sim , que não vão com a m inha cara. Mensagem recebida, com a

m aior clareza — gritou Keelie em direção ao prado.

O disco de m etal no alto da vara com eçou a rodopiar, e os cristais a reluzir. Sir Davey os observou.

— Opa.

— O que significa?

— Está chegando. Agache-se. — Ele a em purrou para baixo assim que

um raio caiu bem acim a.

Keelie ouviu a canção m aníaca do Barrete Verm elho.

— Ouviu isso? — perguntou ela.

— Não, o quê? — Sir Davey sintonizava o aparelho. — É m elhor você

voltar para casa.

Keelie pensou no pai bravo e nas coisas terríveis que ela lhe dissera.

Zeke ou o Barrete Verm elho? Fosse com o fosse, estava ferrada. A garota

apertou o coração cham uscado.

A atm osfera ficou verde e densa com o um xarope. Ela fechou os

olhos, im peliu-o m entalm ente e sentiu Hrok por perto, m as nada além

disso. Então Hrok lhe m andou um aviso.

A garota abriu os olhos e viu que o vento levantara detritos da floresta,

que adej avam no ar. O líquen perto dela abriu a boca para gritar. As bhata

estavam sendo lançadas em rodopio pelo prado, com o um tornado de

Continuar: parte 3 de 3