A Filha do Pastor das Árvores
Gillian Summers
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
dos dedos, querendo se livrar da sensação. Seu estranho dom realm ente
persistia naquele lugar. Achou que talvez tosse fruto de sua im aginação,
m as não era. Não havia deparado com m uita m adeira no avião nem no táxi
e sem pre evitara árvores vivas. Im possível fazer isso ali.
Aberração. Desde o j ardim de infância, as zom barias ecoavam em sua
m ente. Keelie aprendera a m anter em segredo sua estranha m aldição. Não
era nem um pouco útil identificar m óveis. Algum as pessoas evocavam
espíritos; ela, árvores.
Só fora proveitoso um a vez, quando a garota identificara corretam ente,
num a aula, toda a m adeira de lei da escola, sem consultar o guia prático.
Seu professor de biologia fizera um com entário a respeito de sua
percepção peculiar. Em bora as am igas tivessem ficado im pressionadas,
achando que ela havia estudado, o sr. Brooks observara-a de perto.
Percebera que Keelie descobria o nom e depois de tocar na casca de cada
árvore. Pena que ela arruinara o m om ento ao passar m al e vom itar. Mal
conseguira se esconder atrás de um arbusto e j á liberara o alm oço.
Keelie m eteu as m ãos no bolso para protegê-las e dar um basta à
trem edeira. Assim que tocou no quartzo rosa, o zum bido e o form igam ento
passaram . Será que fora por causa da pedra? Tirou a m ão dali.
Um a caixa ao redor cham ou sua atenção, com seus veios
pronunciados, que lem bravam as veias de um a pele pálida. Ela teve
vontade de tocá-la. Fechou as m ãos com força e, em seguida, m eteu-as de
novo no bolso, agarrando o quartzo rosa. A sensibilidade em relação à
m adeira passou de novo, perm itindo que Keelie apreciasse a beleza do
artefato. Ela ficou boquiaberta ao ver um a série de bancos e cadeiras.
Vinhas retorcidas haviam sido usadas para m anter as peças unidas,
fazendo-as se parecerem com os m óveis da corte de um reino encantado
na floresta. Cristais reluzentes cintilavam nos nós dos ram os e nas
ranhuras criadas pelas vinhas conectoras. Keelie nunca m ais largaria
aquela pedra.
Algo peludo encostou em seu tornozelo. Assustada, ela gritou e tentou
dar um passo atrás, m as tropeçou. Com o estava com as m ãos no bolso, não
conseguiu recuperar o equilíbrio e caiu, batendo com força os j oelhos. De
novo, não!, pensou, desanim ada. Seu celular bateu num a pedra e
desm ontou, partindo-se em dois pedaços lam acentos. O quartzo rosa saiu
voando.
Após algum tem po, a dor passou, perm itindo que Keelie respirasse de
novo, em bora o zum bido houvesse voltado. Um gato laranj a im enso estava
sentado ali perto, fitando-a com olhos cor de folha. Era um olhar
significativo, que dava a entender que o bichano reconhecera Keelie e
sabia o m otivo de sua vinda. Mas a m enina achou tam bém que transm itia
certo ressentim ento em virtude de sua presença.
— Acredite, eu não quero ficar aqui — sussurrou ela, esfregando os j oelhos m achucados. Duas quedas num a só m anhã. Não costum ava ser tão
desaj eitada. O gato piscou e desviou o olhar, com o típico desinteresse
felino.
Keelie sentou-se e esticou as pernas. Seus j oelhos latej avam sob a
calça arranhada. Um a gotícula de sangue escorria num a das pernas. Ai.
Ela teve m edo de olhar. Com eçou a sentir um a onda de enj oo. Não por ter
visto sangue, pois conseguia lidar com isso, m as por causa da m adeira ao
redor, que a incom odava. Procurou às cegas o quartzo rosa e suspirou
aliviada quando o tocou.
— Você está bem ?
Ela ergueu os olhos. A sra. Talbot estava ao seu lado, de pé.
— Vou sobreviver — respondeu Keelie, sentindo ter voltado a ser um
pouco m ais a garota californiana que era. — Mas com certeza vou ficar
cheia de hem atom as. — Pedaços de lam a seca cobriam o chão no local
onde ela caíra. — Pelo m enos um pouco desse lodo desgrudou.
— Não estaria toda enlam eada se tivesse ficado com igo — ressaltou a
advogada.
A m ão de dedos longilíneos de alguém pegara um a das partes do
celular suj o de lam a de Keelie. Ela estendeu a m ão para pegá-lo, m as o
aparelho desapareceu, e dedos gelados agarraram sua m ão enlam eada e
im unda. Ela ergueu os olhos, pasm a.
O hom em esguio que ela vira na penum bra estava no ponto exato em
que a sra. Talbot estivera m inutos antes. Keelie perdeu o fôlego ao olhar
para a im agem fam iliar, porém estranha, tão parecida com ela. Ele tinha os m esm os olhos verdes esquisitos, a m esm a ossatura, o m esm o cabelo. Ali
estava a fonte de sua aparência física. Não a m ãe, com os cabelos pretos e
lisos e os olhos castanhos, de form ato am en- doado. A m enina sentiu um
nó na garganta.
Keelie queria que o calor que vira naqueles olhos fosse para ela.
Estaria traindo a m ãe se deixasse que o pai tom asse conta dela? Ansiara
por aquele m om ento desde pequena. A m ãe sabia disso. Keelie pigarreou
e, em seguida, falou:
— Pai.
— Keelie.
Ela sentiu os dedos dele trem erem em contato com os seus. Os olhos
do pai estavam arregalados, observando-a com o se ele quisesse guardar na
m em ória cada traço seu. A m ão dele apertou a dela.
De súbito, Keelie lem brou-se do pai carregando-a bem alto,
segurando-a com firm eza. Quantos anos será que tinha, então, para que
pudesse se apoiar no antebraço dele? Os dois haviam cam inhado pela
floresta cheia de árvores gigantescas, e ele lhe ensinara os nom es delas,
que ficavam em m eio à vegetação exuberante, com suas copas nos tons
brilhantes do outono. O pai apontara para um am ieiro e dissera que um a
dríade vivia nele. Por que ela se lem brara disso de repente?
O rosto da m ãe passou pela cabeça de Keelie, que visualizou de novo
a pequena ruga que se form ava entre os olhos dela quando desaprovava
algo. Sentiu-se fraca e boba por ceder daquele j eito à necessidade de ter
um pai. Ter pena de si m esm a não era m otivo para cham ar Zeke Heartwood de "pai", um a palavra que, a seu ver, estava tão cheia de am or
quanto "m ãe". Era um título que precisava ser conquistado.
Com o podia querer am ar alguém que a abandonara quando pequena?
Laurie teria rido dela se estivesse ali. Certam ente a aconselharia a deixar
de ser tão carente.
Keelie enrubesceu. Não queria que o pai a visse chorar. Tirou
depressa a m ão da dele e se levantou. Pôs a m ochila no om bro e estendeu
a m ão para receber o celular.
Ele perscrutou seu rosto com os olhos cor de bosque — do m esm o
tom dos dela, incom uns, a ponto de estranhos perguntarem se ela usava
lente de contato. No fundo, secretam ente, Keelie sem pre se orgulhara de
tê-los herdado do pai. Era um a parte dele que seria eternam ente sua.
Às vezes, a m ãe acariciava seus cabelos e dizia: "Keelie, seus olhos são
lindos." E m antinha um olhar distante. Seus olhos castanhos podiam ser
tão obscuros e frios quanto fragm entos de rocha. Mas, em geral, ela não
era m elancólica.
O pai entregou o celular e a bateria à filha. Ela j untou os dois e
colocou o aparelho de volta na m ochila, sem se dar o trabalho de lim pá-lo.
— Cadê a sra. Talbot?
Ele deu a im pressão de ter ficado desapontado. O que esperava, um a
trem enda festa?
— Ela j á foi em bora — inform ou o pai, ainda aj oelhado na laj ota.
Keelie em palideceu. Seus lábios enrij eceram e gelaram . Em bora não
gostasse da sra. Talbot, ela era sua últim a conexão com a vida que com partilhara com a m ãe e, agora, estava largada ali, naquele show de
aberrações m edievais.
— Mas ela nem se despediu — salientou em voz alta, odiando o tom
triste de sua voz.
O pai levantou-se, form ando um a figura im ponente ao lado da filha.
— A sra. Talbot disse que tinha que pegar o avião de volta para a
Califórnia. Não se preocupe, Keelie. Vai dar tudo certo. Não vou
abandonar você.
— Outra vez, você quer dizer? — Ela lutou contra as lágrim as. O
sem blante m agoado do pai fez com que se sentisse m elhor. Keelie estava
triste havia duas sem anas. Tom e isso, Zeke Heartwood. É o que acontece
quando você obriga um a pessoa a sair de casa, tirando-a de suas raízes.
Um a m ulher pigarreou.
— Com licença, quanto custa essa côm oda? — perguntou ela, olhando
para Zeke, aguardando a resposta.
Os cabelos pintados de louro m ostravam um centím etro de raiz
escura. Ela traj ava um colete de couro de am arrar, sem nenhum a blusa por
baixo, e um a saia longa do m esm o m aterial. Um as canecas, um a espada e
um a bolsinha de couro estavam penduradas em um cinto preto, enfeitado
com pontas de prata. A m ulher usava pulseiras grossas, igualm ente de
pele, ao estilo de Xena, a princesa guerreira, tam bém cheias de detalhes
pontudos e prateados.
Nenhum a das m ulheres a caráter que Keelie vira até aquele m om ento
se vestira de um j eito tão ousado.
O pai, que deu a im pressão de analisar a reação da garota, virou-se
para a cliente.
— Já venho responder à sua pergunta. Preciso atender m inha filha
prim eiro.
Apesar de ter tom ado a decisão de ser m enos carente, Keelie sentiu
um nó na garganta quando ele a cham ou de filha.
— Vam os para o nosso apartam ento — disse Zeke. Nosso apartam ento.
Um dos suj eitos do show de lam a, que brincara com Keelie antes,
entrou na m arcenaria. Trazia um a sacola de papel, na qual se via um
m ontículo de tecido am arelo no alto. O hom em pareceu ter ficado
constrangido quando viu a garota.
— Oi, Zeke — cum prim entou o suj eito, olhando casualm ente para a
m ulher de roupa de couro. — Achei que sua filha gostaria disso aqui
em prestado. A gente achou que os visitantes podiam confundi-la com um a
das participantes do show de lam a, j á que a roupa dela está toda
enlam eada, daí resolveu dar um j eito nisso. — Deu um largo sorriso e
entregou a sacola para o pai dela.
Zeke abriu-a e tirou um m onte de tecido. Então o agitou, e o m aterial
se abriu, revelando um a túnica, que parecia lim pa, m as m anchada a ponto
de ter adquirido um tom encardido de lodo, e um a saia am arela, im ensa e
am pla. Ele virou a peça para o outro lado, a fim de exam iná-la.
Horrorizada, Keelie viu que a saia tinha m arcas de m ãos grandes e
verm elhas estam padas na parte de trás. O últim o item que o pai tirou da
sacola não fora m ais reconfortante — um corpete roxo com laços cor-de-rosa desbotados. Na parte da frente e na de trás, havia im ensos rem endos
quadrados, costurados com pontos grandes em zigue-zague.
— Isso não pode ser para m im — m urm urou ela.
— Você vai precisar de um a roupa para o dia a dia — salientou o pai.
— Quer se enturm ar, não quer?
— Me enturm ar onde, no circo? — Ela chegou até a enrubescer ante a
perspectiva de andar com aquele troço abom inável.
O suj eito do show de lam a riu, m as Zeke olhou contrariado para
Keelie, com o se tivesse percebido de repente que filhas não eram
santinhas. Você m erece, pensou Keelie.
— Elas estão lim pas — disse o pai. — Só vai ter que usá-las até
conseguirm os outras roupas para você. Obrigado, Tarl.
— Você não vai obrigar a pobrezinha a usar essa roupa de palhaço com
cores cheguei, vai? — A m otoqueira renascentista, de cabelo oxigenado,
parecia indignada.
O hom em do show de lam a deu de om bros.
— Para m im , tanto faz — disse ele. — Eu só estava tentando aj udar.
Ah, está bem , pensou Keelie. Tentando aj udá-la a ser condenada ao
ostracism o, isso, sim . Ela usaria as m esm as roupas norm ais para sem pre,
se fosse o caso. Mas com eçou a sentir um a com ichão por causa da lam a
seca grudada em sua pele. Daria tudo para tom ar um banho quente.
— Querido, todo m undo vai rir da cara dessa m enina se você obrigá-la
a usar esses farrapos. Ela precisa de roupas decentes. — A loura olhou
para Keelie e balançou a cabeça. "Hom ens", parecia dizer.
Keelie sorriu para ela, grata pela aj uda, em bora o conceito da m ulher
de traj e decente certam ente devesse ser ilegal em algum lugar. Engraçado
aquele pesadelo da m oda em pessoa defendê-la. O olhar da garota foi do
hom em do show de lam a ao pai e, em seguida, à m otoqueira gostosona.
Keelie nunca se enturm aria com aquela gente. E não tinha a m enor
intenção de viver usando fantasias num m undo de faz de conta.
A m otoqueira m edieval com eçou a se afastar para exam inar outros
m óveis. Zeke deu a im pressão de ter ficado aliviado. Tarl ficou olhando
para a m ulher.
— Olha, eu estou acam pado lá no Condado — inform ou ele para ela.
— Minha barraca é a viking, que tem um dragão de m adeira na frente. Por
que não passa lá para tom ar um a cervej inha depois?
A m otoqueira olhou-o de alto a baixo.
— Claro. Vou sim . Depois que anoitecer, está bom ?
Keelie sentiu náuseas. A ideiadaquelas duas relíquias ancestrais j untas
era repugnante.
Zeke não pareceu notar nada estranho.
— Obrigado pelas roupas, Tarl — disse ele. — Agradeço sua aj uda. —
Em seguida, trocou um olhar cúm plice com o tapado suj o de lam a.
O que significaria? Talvez um a alusão ao fardo que a filha
representava? Algum tipo de "só nós, os hom ens"? Ou quem sabe se
referisse à m otoqueira renascentista? Caram ba!
Keelie observou as clientes que peram bulavam pela loj a e que, de vez
em quando, lançavam olhares sequiosos ao seu pai. É, ela com certeza cortaria as asas dele.
Tarl, do show de lam a, sorriu para Keelie, que não retribuiu o sorriso.
Ela se virou e fingiu olhar para as m ãos. Então notou a suj eira acum ulada
sob suas unhas pintadas à francesinha. Eca!
— Até m ais tarde, Zeke. Tchau, Keelie.
A garota fingiu não tê-lo ouvido. Sabia que estava sendo um a pen-
telha, m as não dava a m ínim a. Que o velho Zeke descobrisse no que tinha
se m etido. Talvez a m andasse de volta, com o um cachorrinho ganhado de
presente no Natal, que acabara crescendo dem ais depois. Ela se im aginou
chegando ao Aeroporto Internacional de Los Angeles com um bilhete
preso na blusa: SINTO MUITO. EU NÃO SABIA QUE AS MENINAS
PODIAM SER TÃO DESAGRADÁVEIS.
Keelie passou as m ãos num a cadeira de m adeira. Sentiu o m óvel
vibrar de energia assim que o tocou. Tirou a m ão de supetão e ficou
olhando fixam ente para o artefato. Sua reação alérgica piorara ali. A m ãe
dissera que sua alergia vinha do lado do pai, da fam ília de Zeke. No
entanto, aquele não era o m om ento de perguntar. A garota notou que j á o
aborrecera.
— Vou lhe m ostrar onde vai m orar — disse o pai, com aparência
cansada. Não, certam ente não era o m om ento de perguntar. —Venha,
pode se trocar lá em cim a — acrescentou ele, entregando-lhe a sacola de
papel com as roupas horrorosas enfiadas dentro.
Com relutância, Keelie pegou-a. Nao que pretendesse m udar, sej a de
roupa, sej a se tornando filha dele. Seria sem pre apenas a filha querida da m ãe. Eternam ente Keelie Ham ilton. Por enquanto estava atrelada ao
Heartwood, m as, para ela, aquele não passava de um sobrenom e. Era a
filha de Katherine Ham ilton.
— O que é o Condado?
— Um lugar aonde você não deve ir. — Zeke cum prim entou um a
m ulher que passava. — É o acam pam ento dos trabalhadores do festival
que não têm um a área para dorm ir nas próprias loj as.
— Por que não posso ir até lá?
— Porque eu disse que não.
Keelie riu. Ele parou e fitou-a.
— O que foi? Acha que pode m e dizer o que posso e não posso fazer?
Até parece, velho!
— Sei que aqui não é igual a Los Angeles. Acontece que você não faz a
m enor ideiade quanto é diferente. Até isso acontecer, é m elhor ficar perto
de casa.
— Minha casa fica em Hem lock Drive, 125, Los Angeles, Califórnia.
Eu adoraria perm anecer ali, Zeke.
Os om bros dele se encolheram , m as ele se virou e continuou a andar.
À m edida que ela seguia o pai em m eio ao labirinto de m óveis, foi
m arcando m entalm ente itens de sua lista de obj etivos na vida: term inar o
ensino m édio, ir para a universidade, estudar direito. Ia se tornar advogada,
com o a m ãe sem pre quis. Talvez até passasse a ser sócia de alguém num a
firm a um dia. Katherine Ham ilton tam bém sonhara com isso, e a filha
daria um a festa quando isso acontecesse.
— A sra. Talbot falou algum a coisa sobre a m inha bagagem ? —
perguntou ela. — A com panhia aérea incom petente perdeu tudo.
Os pertences m ais valiosos de Keelie estavam dentro daquelas m alas.
Os obj etos tangíveis que a conectavam à m ãe: o m acacão lilás que usara
no prim eiro dia do j ardim de infância, o coelhinho de pelúcia desbotado e
os álbuns com as fotografias da m ãe. Nem podia olhar para eles agora, m as
queria-os de volta.
O pai deu de om bros.
— A sra. Talbot m e deu sua pasta. Na verdade, não tivem os tem po de
conversar. Mas ela disse que tudo de que eu precisava estava ali: carteira
de vacinação, certidão de nascim ento, histórico escolar.
Lágrim as repentinas surgiram nos olhos de Keelie. Ela os arregalou
algum as vezes para afugentá-las e não ter de enxugá-las. Tudo que o pai
rrecisava saber a respeito dela estava num arquivo? Ele não tinha a m enor
noção de nada sobre a filha. Perdera quase toda a vida dela. .Àgora, a
advogada da m ãe reduzira sua existência a três papéis. Keelie virou a
cabeça. Não choraria. Nunca deixaria o pai vê-la chorar.
Um trovão ressoou, e a chuva com eçou a pingar no solo enlam eado. A
m ultidão dava continuidade à ovação na j usta, em polgada ou tola dem ais
para fugir da tem pestade. Keelie se perguntou se seu cavaleiro louro
ganhara.
Raios percorreram as nuvens escuras, e a lum inosidade cegou a garota
por um instante. Keelie teve a sensação de que pegava fogo. Achou que
sua cabeça partiria.
— Socorro — gritou. — No prado... fogo.
Vagam ente, ela viu o pai, boquiaberto, fitando-a.
— Hein? Fogo onde?
Keelie agarrou a cabeça, tentando conter a dor.
— Tem um a árvore pegando fogo. No prado. Está pedindo socorro.
Zeke saiu correndo, deixando-a ali, sozinha e sem analgésico.
O que estava acontecendo? Será que ela com eçara a receber correio
de voz de árvores agora? Onde ficava aquela desgraça de prado?
Keelie continuou sentada na laj ota, sem confiar nas cadeiras de
m adeira perto de si, pensou que poderiam enviar algum a m ensagem por
seu traseiro. Com o não sabia aonde ir, esperaria que o pai voltasse. Já vira
em que posição estava na lista de prioridades dele: em últim o lugar.
Assim que pudesse, ligaria para Laurie e daria início ao seu plano.
Tinha que voltar para a Califórnia.
Três
Heartwood? — Keelie estava sentada no sofá verde
superestofado, coberta com um edredom cor de folha,
segurando um a caneca de chá quente. Seus cabelos
desalinhados e úm idos roçavam seu rosto enquanto ela exam inava o apartam ento sobre a loj a.
O pai levara duas horas para voltar; seria bem feito para ele se Keelie
m orresse de pneum onia. Ao m enos ela estaria com a m ãe.
— Pode m e cham ar de papai.
— Isso vai dar um nó na m inha cabeça.
— Knot é o gato. Eu sou seu pai.
— Bom , você não age com o um . Por que sair correndo daquele j eito?
Foi só um a árvore idiota.
Ele parou de sorrir.
— Com o você sabia que a árvore estava pegando fogo? Viu o raio
atingi-la?
Keelie sentiu-se aliviada ao se dar conta de que o próprio pai lhe
sugerira a resposta.
— A-hã. E vi a fum aça.
Zeke pareceu não acreditar nela.
— Fui correndo até lá porque incêndio é algo m uito sério aqui. Nós
m oram os num a floresta. Se o fogo tivesse se espalhado, poderíam os correr
perigo.
— Ah. É a prim eira coisa que alguém diz que faz sentido neste lugar
pirado.
Da j anela ao seu lado, Keelie podia ver a j usta ao pé da colina. Os
cavaleiros haviam partido, e a pista estava vazia, exceto por alguns
faxineiros recolhendo o lixo.
Ela perguntou-se de novo se seu cavaleiro louro havia ganhado e im aginou-o inclinando-se para receber um beij o da garota com os cabelos
im pecáveis, iguais aos de Cachinhos Dourados. Franziu o cenho. Que
im agem m ais baixo-astral! Tinha que visualizá-lo beij ando a si m esm a.
O que estava pensando? Não ficaria lá por tem po suficiente para
segurar a m ão dele, m uito m enos para beij á-lo.
— Então, o que vai ser? Papai? — Ele ainda buscava um a designação.
— Isso vai dar um nó na m inha cabeça. — Ela j á falara isso, m as fora
um erro. Deixara-se levar pelo m om ento. "Papai" parecia tão íntim o, tão
próxim o. Tudo o que não eram .
— Que tal "pai", então? — Ele pegou a própria caneca, adornada com
desenhos de folhas.
— Form al, m as aceitável — respondeu ela. — Prefere Zeke ou Lorde
Fulano de Tal quando eu falar de você para os outros?
Ele lhe deu um largo sorriso.
— Lorde Fulano de Tal? Agora, quem está sendo form al?
A filha retribuiu o sorriso. Apesar do recente com portam ento inde-
licado, Keelie costum ava ser bem legal. E sentiu-se feliz por travar com
Zeke a prim eira conversa norm al. Não queria afastá-lo totalm ente de sua
vida. Onde passaria as férias?
Ela perguntou-se que tipo de show de aberração o dia de Ação de
Graças seria ali. Certam ente incluiria aquela bola peluda diabólica.
Depois que o pai voltara, Keelie caíra num a poça de lam a quando se
preparava para subir a escada da loj a. Sua calça capri ficara encharcada,
toda m anchada de lodo am arronzado, tudo porque aquele gato idiota da loj a esbarrara nela e a fizera se estabacar de novo. De propósito, a garota
tinha certeza disso.
Ainda sentada na poça gelada, com a calcinha grudada na pele, ela
vira o gato passar por seu pai rum o aos degraus; Zeke lançara um olhar
desaprovador para Knot antes de o bichano saltar lá de cim a, com
agilidade, para ficar ao lado de Keelie.
Zeke inclinou-se para acariciar as orelhas do felino. Ele ergueu o
queixo e ronronou, de olhos fechados.
— O que este gato está fazendo aqui? Não sabia que você tinha um .
Ele deixou escapar um suspiro, com o se j á estivesse cansado de lidar
com ela.
— Você precisa tom ar cuidado com Knot. Ele é danado.
Keelie fitou Zeke, sem acreditar que ele criava um bichano. Tinha
tem po para um felino, m as não para a filha?
— Sabia que a m am ãe era alérgica a gatos?
— Era o que ela dizia. — O pai não deu a im pressão de estar con-
vencido disso. Quer dizer então que, agora, a m ãe de Keelie tam bém era
m entirosa? — Knot é diferente da m aioria dos gatos, tanto que era o único
que Katherine conseguia acariciar. — O pai sorriu ante algum a lem brança
longínqua. — Nós éram os um a fam ília feliz, por incrível que pareça.
Keelie ficou arrepiada. Um a fam ília feliz. Ela perscrutou o rosto do pai
e detectou dor em seu olhar. Talvez tivessem sido felizes no passado, só
que ele pusera tudo a perder quando fora em bora. Qualquer chance que
eles tivessem de form ar um a fam ília de novo, apenas os dois, j á estava com prom etida por esse fato. Treze anos de nada não dava a ele o direito de
ser cham ado de pai. Ela o cham aria de Zeke.
O gato abriu os olhos e fitou-a, quase com o se a desafiasse. Será que
os felinos podiam ser tão inteligentes assim ? A vontade de Keelie era dar
um belo chute no traseiro daquele anim al, lançando-o j anela abaixo.
Aquele bichano era um a relíquia de sua infância, da época em que o
pai e a m ãe estavam j untos. Keelie retribuiu o olhar do felino danado. Não
aparentava ser tão velho assim . Quanto tem po os gatos viviam ?
— Knot deve ser bem velhinho.
— Muito. Mas ele descende de um a linhagem de felinos de vida longa.
Pode viver m ais que a gente. — O pai sorriu.
— A hipoterm ia m ata m ilhões de pessoas todos os anos, Zeke. Eu
posso ser a próxim a vítim a.
— Tem um a banheira enorm e no banheiro — inform ou o pai,
apontando para o único am biente fechado do apartam ento. — Você pode
lavar suas roupas na pia. Coloquei a sacola com a fantasia que Tarl trouxe
perto da sua cam a. Não precisará usá-la por m uito tem po, só até receber
sua bagagem da com panhia aérea e tirar suas m edidas para ganhar boas
indum entárias.
Ela fez um a careta ao se lem brar da fantasia horrorosa do show de
lam a.
— Obrigada, acho. Ao m enos estão secas. O que é indum entária?
— É com o cham am os os traj es que usam os aqui. Com o este é um
Festival da Renascença, você vai usar fantasias desse período, ao m enos durante o dia, quando os m undanos estiverem na área.
— Mundanos? Mais parece um a doença.
Zeke riu.
— Às vezes, podem até ser, sabe? Mas a palavra se refere ao que
cham am os de visitantes.
— Ah. — Havia um m undo de sentim entos nesse m onossílabo.
O pai olhou para a filha, calado.
— Claro que tam bém os cham am os de ganha-pão e sem pre som os
gentis com eles. Muito corteses, na verdade.
— Não vou m e esquecer disso. — Será que ele achava que a filha era
algum a criancinha? Usaria a fantasia de palhaço até que o conj unto de
blusa e casaco de lã e a capri fossem lavados e secassem . Em breve o pai
ficaria sabendo que ela não ia se vestir com o os m alucos daquele hospício.
Nesse ínterim , Keelie telefonaria para a com panhia aérea e usaria sua
linguagem de advogada para exigir que encontrassem sua bagagem e a
devolvessem . A m ãe se orgulharia da iniciativa, do tom decidido e da
antevisão da filha exercendo a m esm a profissão que ela.
Keelie tam bém usaria a m esm a linguagem para continuar a usar as
roupas "m undanas". Não faria, de j eito nenhum , o papel de um dos
Munchkins de O m ágico de Oz.
O pai desceu pelas escadas, e ela se levantou para exam inar a nova
casa. Tem porária, lem brou a si m esm a. A sala de estar principal era um
am biente espaçoso e ventilado. Mobiles m usicais haviam sido pendurados
nas quatro vigas im ponentes de m adeira, que iam de um lado a outro do teto. Nas paredes brancas, viam -se tapeçarias cheias de flores e
unicórnios. Duas áreas haviam sido isoladas com cortinas, form ando
quartos. Um a delas estava com o cortinado preso num cordão de seda com
borla. Ali havia sido colocada um a cam a de m adeira alta com um colchão
coberto de alm ofadas coloridas. Ao lado, Keelie viu, no chão, um a sacola
de papel rústica, com a estam pa de m ão verm elha claram ente visível no
tecido am arelo, que aparecia em cim a.
Peram bulou por ali, sem tocar em nada, os olhos passeando de um
detalhe a outro, tentando absorver tudo de um a vez. Fora com o entrar
num a casa de conto de fadas.
Keelie foi sentindo cada vez m ais entrosam ento e liberdade, em bora
aquele lugar fosse o verdadeiro oposto da casa dela na Califórnia. A m ãe
preferia os m óveis de cerej eira de tom escuro, que pertencera a Jo, a avó
de Keelie. As peças im ensas sem pre pareceram opressivas e nada propícias
para a garota. A m enina costum ava m anter-se longe delas, preferindo o
visual retrô de seu quarto, com crom o e fibra de vidro.
Dos m obiles ressoava um a m úsica não só constante com o tam bém
reconfortante. Keelie sorriu. A m ãe teria achado aquele lugar ventilado
dem ais.
A garota notou um conj unto de porta-retratos num a m esa de canto.
Foi até lá e pegou um deles, com corações talhados no alto. Ela m esm a,
aos seis anos, sorrindo, orgulhosa da boca banguela.
Todas as fotografias eram dela. O pai tinha cada um a das fotos da
escola tiradas desde o j ardim de infância, até m esm o a do ano anterior.
Ela virou-se assim que a porta se abriu atrás dela.
— Keelie, vou participar de um a reunião perto dos portões principais e
deve durar até tarde; daí podem os conversar — disse o pai. — Se você
sentir fom e, pegue algo na geladeira. Não se afaste m uito daqui. Escurece
rápido.
Descalça, a filha deu a volta.
— Mas você vai voltar para o trabalho? Eu acabei de chegar. — Keelie
queria ficar sozinha, m as não parecia j usto Zeke abandoná-la. Claro que
ele era bom nesse cam po. Havia praticado à beça.
— Eu tam bém gostaria de ficar com você, m as tenho essa reunião de
vendedores do festival.
— Sinto m uito a m am ãe ter escolhido um m om ento tão inconveniente
para m orrer — gritou a filha. Em seguida, não se m oveu, chocada.
Geralm ente não era um a louca descontrolada. O que estava acontecendo
com ela?
O pai ficou pasm o.
— Não, Keelie, não foi isso o que eu quis dizer.
O rosto da garota ardia por causa do esforço para conter as lágrim as
m ais recentes.
— Vá em bora, está bem ? Preciso ficar sozinha. — Ela deixou escapar
um soluço e engoliu saliva com força, na tentativa de não soluçar m ais.
— Depois que você se vestir, por que não vai dar um a volta?
— sugeriu Zeke. — Há m uito que ver, em bora as barracas j á tenham
fechado. Só não vá até o Condado. — Ele suspirou. — Mas tam bém pode ficar aqui se preferir. A sra. Talbot tinha m e dito que você só chegaria na
sem ana que vem , por isso eu não estava preparado; m as, j á que veio agora,
vam os dar um j eito. É m inha responsabilidade cuidar de você, e, para isso,
tenho que zelar pelo aspecto financeiro, pelos m eus negócios. Foi o que eu
quis dizer, Keelie. Você não é um fardo nem um a inconveniência.
O pai andou até a filha e deu-lhe um beij o no rosto. Ela aceitou o
carinho, sem olhá-lo. Realm ente precisava ficar sozinha e com er algo —
sua barriga roncava. Estava com fom e e confusa.
Depois que Zeke foi em bora, a garota encontrou o banheiro atrás de
um a porta enrabuada. Um a banheira im ensa, com pés em form a de garra e
equipada com chuveirinho portátil, ocupava quase todo o am biente, j unto
com um a reluzente pia de porcelana, cuj a cuba apresentava estam pas de
folhas verdes interligadas. Keelie encontrou toalhas lim pas num a cesta e
sabonete com arom a de alfazem a na banheira. Tudo bem do j eito a que
estava acostum ada. Aquilo fez com que se lem brasse dos banheiros da
Fonte Term al Chico, onde esteve para passar férias com a m ãe.
Ela levou um tem po enorm e se lavando, m as, por fim , conseguiu
livrar-se da lam a. Sentiu-se outra pessoa, sobretudo depois de colocar as
roupas horrorosas que o suj eito do show de lam a lhe em prestara. Tal com o
suspeitara, parecia um a verdadeira idiota. Pensou na garota linda de saia-
balão e cachos dourados im pecáveis, aquela que estaria beij ando Sean, o
cavaleiro louro. Observou os laços cor-de-rosa desbotados do corpete roxo.
Olhou de esguelha por sobre o om bro. As estam pas de m ãos grandes e
verm elhas sobressaíam à altura do traseiro na saia am arela. A blusa estava encardida, m as lavada. Pelo m enos j á se livrara das crostas de lam a
grudadas na pele. Deveria ter colocado um a roupa extra na m ala.
Keelie tentou desem baraçar alguns nós do cabelo, penteando-o com
os dedos. Seu spray desem baraçador ficara na m ala, j unto com o xam pu, o
condicionador, a chapa e o gel. Anéis e cachos espetaram por toda a sua
cabeça em virtude da um idade. Ela passou um a m echa do cabelo castanho
pelos dedos. Com exceção da m ulher da coruj a, ninguém naquele festival
tinha cabelos curtos, o que, na verdade, não fazia diferença. De qualquer
m aneira, Keelie não queria se enturm ar.
Ela tocou o próprio rosto, no ponto em que o pai a beij ara. Fora um
m om ento estranho. A garota nem tentara se afastar. O dia inteiro havia
sido fora do com um . Em algum as ocasiões, ela tivera vontade de fugir, de
voltar para a civilização e, em outras, de ser a garotinha nos braços do pai.
Tudo provavelm ente por causa do estresse provocado pela m orte da m ãe e
pela m udança.
Talvez devesse se m anter ocupada, encontrar um a atividade que não
lhe deixasse m uito tem po para pensar. Sem pre que se pusesse a refletir,
ela se lem braria da m ãe e de quanto sua vida m udara, e recom eçaria a
chorar.
Keelie contem plou a paisagem pela j anela de vidro quadriculado que
dava para a j usta. Parara de chover, e os cavaleiros treinavam na pista em
m eio às som bras. Com o o festival estava encerrado, ela resolveu dar um a
checada nas atividades após o expediente, em bora, na verdade, só quisesse
ver se Sean estava lá sem a Princesa-Elia-dos-Cabelos-Im pecáveis.
Olhou para os pés. Estava descalça, m as, se pisasse nos canteiros de
gram a, seus pés se m anteriam lim pos ou ao m enos sem lam a. Afinal de
contas, aj usta ficava praticam ente ali do lado. Keelie voltou correndo para
o banheiro, em cuj o chão deixara as roupas suj as. Sua capri estava um
desastre, m as ela só lavaria roupa m ais tarde. Buscou no bolso da calça o
quartzo rosa e colocou-o no sutiã. Felizm ente, com o a parte de cim a da
roupa era bem folgada, provavelm ente ninguém notaria a estranha
protuberância.
Um a rápida busca na dim inuta cozinha m ostrou que não havia m uito
que com er, m as ela achou um a lata cheia de biscoito de aveia. Perfeito.
Pôs um na boca, pegou m ais dois e, em seguida, saiu batendo a porta.
Desceu a escada com os pés descalços form igando.
Descer a colina saltando de um canteiro de gram a verde a outro fora
bem m ais difícil do que im aginara. Quando chegou a um a parte em que o
canteiro seguinte ficava a m ais de um m etro, a m enina lam entou ter
desistido do balé. Pulou e caiu bem no m eio da poça de lam a.
Um a placa perto da tribuna, antes cheia de turistas — os m undanos
no j argão local —, indicava a j usta. Ao redor de Keelie, cavaleiros se
desafiavam em suas m ontarias, arreios tiniam e o som m etálico de
arm aduras ressoava. Ela se perguntou em que parte ficava o Condado.
Deixara o m apa, que ficara encharcado com o o restante de seus pertences,
em casa. De qualquer form a, a área de acam pam ento dos funcionários
provavelm ente não constava nele.
Dois cavaleiros de arm adura e sem os capacetes passaram galopando, tão suj os de lam a quanto ela estivera m ais cedo. Não deram a im pressão
de se im portar. Um acenou para Keelie ao cruzar com ela.
Quando a garota fez m enção de retribuir o aceno, eles j á haviam ido
em bora.
Restava apenas um par de canteiros de gram a à sua frente, entre
Keelie e a cerca rústica de m adeira, nos lim ites da pista. Um cavalo
enorm e estava atrelado a um dos postes. Ele virou a cabeça grande e fitou-
a; em seguida, relinchou, com o se a saudasse.
Foi quase com o se quisesse conhecê-la. Keelie nunca havia ficado tão
perto de um anim al tão im ponente, m as não sentiu m edo. Calculou a
distância até o próxim o canteiro e saltou, só que errou de novo, salpicando
água para todos os lados.
O cavalo balançou a cabeça, com o se em sinal de aprovação, e ela riu.
A garota parou, pasm a, assim que se deu conta de que era a prim eira vez
em dias que o fazia.
Com água à altura do tornozelo, continuou a soltar risadinhas.
Quando o anim al a tocou com o focinho, ela o acariciou.
— Legal conhecer você tam bém — saudou Keelie. Em seguida,
ofereceu-lhe o biscoito de aveia. O anim al com eu-o de form a ruidosa.
Cavalos gostam de biscoitos! Quem diria!
— Eu devia ter adivinhado que você era da turm a dos lam acentos —
disse alguém .
Quando Keelie se virou, viu a srta. Cachinhos Dourados Im pecáveis
de braços dados com Sean. Beleza. Os dois tinham visto as m arcas de m ão na parte posterior da saia dela.
Mas Keelie resolveu encarar a situação. Estendeu a m ão direita.
— Oi de novo. Não deu para a gente se apresentar direito. Sou Keelie
Heartwood. Vou m orar no alto da colina com m eu pai. — Ela se sentiu
estranham ente bem ao dizer isso.
Lorde Sean fez um a reverência, sorrindo.
— Sou Lorde Sean do Bosque, e esta é Lady Elia.
Cachinhos Dourados olhou com desdém para a m ão estendida de
Keelie.
— As m ulheres fazem esta reverência, Katy . — Ela abaixou com
graciosidade, segurando as laterais da saia cor-de-rosa. — Assim .
— Ah. Assim ? — Keelie abriu em leque sua saia am arela horrorosa e
abaixou ligeiram ente, estendendo o pé esquerdo e batendo-o de propósito
na lam a à sua frente. Lodo pegaj oso e escuro espargiu por todos os lados.
— Puxa, sua desastrada! — gritou Lady Elia, esticando a saia e
procurando respingos. Os olhos cheios de ódio da m enina dirigiram -se,
então, para Keelie e observaram a roupa brega e descom binada. — Você
fez isso de propósito. E vai lam entar!
— Já lam ento. E m eu nom e é Keelie.
Elia saiu indignada, em pinando o nariz.
— Vam os, Lorde Sean. Vai chover j á, j á.
O rapaz ficou olhando para Keelie, lutando para evitar que o sorriso se
transform asse num a risada.
— Lady Elia detesta se m olhar.
— Já ouvi falarem isso de bruxas. Elas não derretem com a chuva?
Um dos cavaleiros que estava ali perto soltou um a gargalhada. Sean
deu de om bros e foi atrás de Elia.
Trovej ou de novo. Keelie tirou o quartzo rosa de seu esconderij o no
sutiã e ficou segurando-o, caso recebesse outro correio de voz de um a
árvore. Havia escurecido de novo, e o vento agitava os galhos no alto. O
grupo que estava por ali com eçou a se dispersar, e um cavaleiro foi tirar o
cavalo da área.
Quando grandes gotas de chuva com eçaram a atingir o solo, Keelie
ficou só. Não restou nenhum sinal do m undo real. O céu escuro ocultava
quaisquer aviões, e os únicos sons eram do aguaceiro e dos gritos distantes
de trabalhadores do festival tentando fechar seus estabelecim entos. Não
havia nenhum sinal da m ãe de Keelie, nem da sra. Talbot, nem de sua
antiga vida.
O que restava era aquele lugar verdej ante, estranho e úm ido, tão cheio
de gente que não a queria ali e tão diferente da Califórnia que ela
precisava de um guia de viagem para entendê-lo.
A tem pestade fez com que os cabelos de Keelie grudassem em sua
cabeça. A fantasia dela com eçara a pesar, m as as pernas continuavam
quentes e secas sob as cam adas de roupa.
Aos poucos, ela foi subindo a colina, afastando-se da j usta
abandonada, sem se im portar com a possibilidade de usar trilhas em que
cursos-d'água podiam se form ar de repente. Os pés descalços salpicavam
água e lam a de form a despreocupada.
Keelie precisava aceitar o fato de que estava presa. Presa no Inferno
Medieval... m as não ficaria ali por m uito tem po.
Quatro
continuava andando depressa rum o ao abrigo oferecido pela loj a
do pai. Outros passavam em disparada pela chuva. Ao pegar o
cam inho em direção à casa do pai, ela viu o rosto fam iliar da
j ovem gótica que dera indicações para a sra. Talbot m ais cedo; pelo visto,
rum ava tam bém para a loj a de Zeke. Keelie entrou correndo na área,
naquele m om ento escura, dos m óveis, aliviada por sair da chuva. A m oça
chegou instantes depois.
— Você conseguiu achar seu pai? — A gótica tirou o capuz da cabeça.
— Zeke? Achei, sim . Sou Keelie. — Estendeu a m ão, e as duas se cum prim entaram . A da j ovem estava fria e m olhada.
— Raven. Minha m ãe é dona do herbanário ao pé da colina.
— Raven. Legal o seu nom e.
A m oça deu de om bros.
— E um estorvo nas aulas de adm inistração. Ninguém leva a sério
alguém com o eu, com um nom e que significa Corvo.
— Onde você estuda?
— Estudo na Universidade de Nova York, em Manhattan. E você? Vou
com eçar o penúltim o ano do ensino m édio. Sou de Los Angeles. Pretendo
estudar direito na Universidade da Califórnia.
— Legal. Está com saudade da cidade grande?
— Bastante. Com o você agüenta toda essa esquisitice m edieval?
— Cresci neste m eio. Até gosto. Sinto que é a m inha casa. Mas adoro
Manhattan.
Manhattan. A m ãe de Keelie fora até lá diversas vezes a negócios e
prom etera levar a filha j unto um dia.
— Você sabe onde fica o Condado? — quis saber Keelie.
— Estava indo até lá agora. Para um a festa. Quer ir?
Enfim , a situação m elhorava. Um a nova am iga, sim plesm ente um a
estudante universitária de adm inistração, que sabia onde havia festa.
— Claro, seria ótim o.
Raven se dirigiu à parte dos fundos da loj a.
— Aonde você vai? — Para Keelie, a nova am iga não devia estar
peram bulando pela loj a de seu pai daquele j eito. A não ser que... não, Zeke não nam oraria alguém assim tão j ovem . Ao m enos, era o que a filha
esperava.
— Seu pai guarda casacos nesta parte. Já conheceu Scott?
— Quem é ele?
— O assistente de Zeke. Vai... gostar dele. — Ela deu um casaco preto
para Keelie e, em seguida, aj udou-a a am arrar o capuz no pescoço.
— Ele vai estar na festa? — Keelie pôs o capuz, sentindo-se com o um a
m onj a. Havia um a bota velha encostada à porta da m arcenaria. Ela m eteu