A Filha do Pastor das Árvores
Gillian Summers
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
os pés descalços nela e ficou feliz por estarem secas.
— Tom ara que não. Scott deduraria você para o seu pai. Mas é tão
viciado em trabalho que deve estar dorm indo num canto aconchegante. —
Raven riu e pôs o próprio capuz. Elas saíram na chuva torrencial.
— Por que ele contaria para o m eu pai... hã... para Zeke?
— E um trem endo puxa-saco. E com certeza seu pai não vai querer
você m etida com o pessoal do Condado. Às vezes a situação foge do
controle por lá.
— Com o assim ? — Ela pensou em Sean, em aranhado nos lençóis com
algum as m ulheres. Mas não com Cachinhos Dourados. Não quis nem
considerar essa possibilidade.
— Bebedeira, prostituição, briga. O de sem pre.
— Conheci um cara legal m ais cedo. Lorde Sean do Bosque. Sabe
quem é?
Raven parou e lhe lançou um olhar de Darth Vader.
— Sei, sim .
— E...?
— E... nada. E um babaca. E você não vai ver o Presunçoso Lorde
Sean ou os da laia dele no Condado. Eles têm o próprio acam pam ento.
— E onde fica isso?
— Na floresta. Melhor não ir até lá. Eles não gostam de com panhia.
Acha que são grosseiros em público? Experim ente ir até lá para ver!
A trilha que seguiram passava por um a floresta escura. Keelie segurou
com força o casaco de Raven e, com a outra m ão, agarrou o quartzo rosa.
As botas desam arradas ficaram bem folgadas à altura dos tornozelos.
— Raven, não consigo ver nada.
— Não se preocupe, j á passei por aqui m ilhares de vezes desde que era
pequena. Fique na trilha. Se por acaso se m eter na floresta, não vai saber
onde está até de m anhã cedo.
Keelie estrem eceu.
— Está vendo aquela clareira à esquerda?
— Não, só escuridão e chuva.
— Bom , tem um prado enorm e ali. Prim eiro atravessam os a ponte.
Está ouvindo o riacho?
— Não, só a chuva.
— Escute, sua bobona.
Keelie ouviu um ruído em m eio ao som do aguaceiro.
— Está bem , acho que estou ouvindo o riacho.
— Então, sem pre que com eçar a ouvir esse barulho, a ponte vai estar
bem na frente. Depois de atravessá-la, dê cinco passos. O prado fica no lado esquerdo. Passe pelo rochedo. São cinqüenta passos até a área do
acam pam ento. Mas, a essa altura, você j á vai ver as luzes de lá.
As duas percorreram a ponte, as botas de Keelie ressoando nas tábuas;
um som ecoou sob elas.
— Heartwood. — A voz aguda e fraca pareceu ter vindo debaixo delas.
Keelie puxou o casaco de Raven:
— Você ouviu isso?
— Não.
— Alguém disse o m eu nom e.
— Você se assusta com a m aior facilidade. Aposto que deve ser
divertido ver um film e de terror do seu lado.
— Minha m ãe dizia que eu era nova dem ais para vê-los. Quer dizer
então que a gente está indo para um a festa no Condado? — Raven
cam inhou m ais depressa, o que levou Keelie a se apressar.
Um clarão am arelado reluzia em m eio ao breu adiante. A chuva
dim inuíra um pouco, e Keelie escutou um burburinho ao longe.
— Estam os quase lá. Pode soltar o m eu casaco agora. Juro que achei
que você ia m e enforcar na ponte.
— Ouvi alguém dizer "Heartwood".
— Talvez alguém transando debaixo da ponte.
E dizendo o nom e dela? Não parecia m uito provável. A m enos que
tivesse sido seu pai com algum a m ulher.
No acam pam ento, viram um a variedade de barracas com pradas em
loj as, de todos os tam anhos, cam pistas recém -chegados, trailers grandes e incríveis barracas personalizadas. Elas passaram por um a alta e longa, com
a parte interna bem ilum inada. Havia um dragão de m adeira estilizado no
alto de um poste frontal de m adeira.
Deve ser a barraca do Tarl, pensou Keelie e, em seguida, apertou o
passo na frente do local ao ouvir o gem ido de um a m ulher vindo de dentro.
Enquanto passava adiante, entreviu um a silhueta na lateral da tenda,
m ostrando um suj eito com corpo em form a de pera, obviam ente pelado.
Keelie, que esperara com er algo na festa, perdeu o apetite na hora.
— A festa vai ser na últim a barraca desta fileira. Todas as tendas estão
m ontadas em círculo, e tem várias enfileiradas, form ando ruas no interior
dele.
Elas pararam na frente de um a barraca de tam anho m édio. Luzes e
risos as saudaram quando em purraram a aba da frente e entraram . Um a
nuvem de fum aça azulada e adocicada espalhou-se.
Keelie j á havia sentido o cheiro de m aconha antes, em festas, m as
nunca tanto em um só lugar. O interior estava ilum inado por velas em
pilares, e o piso coberto por tapetes orientais e alm ofadões nos quais as
ressoas se acom odavam .
— Oi, Raven. Quem é essa m enina aí?
— É Keelie, um a am iguinha.
Keelie acenava conform e ia sendo saudada por todos ao redor,
odiando Raven por tê-la cham ado de am iguinha. Tirou o casaco e colocou-
o em cim a da pilha de roupas m olhadas na entrada.
Um pirata sorridente, com os olhos pintados com o os de Johnny Depp, bateu de leve no tapete perto dele.
— Doce Keelie, fique aqui com igo um pouquinho.
Ela tirou as botas, com o Raven fizera.
— Vá sentar ali perto da Aviva — disse a am iga a Keelie, apontando
para um a m oça de cabelos escuros com fantasia de dançarina do ventre.
O sósia de Johnny Depp deu um largo sorriso e um as batidinhas na
alm ofada a seu lado. Lisonj eada, Keelie com eçou a se sentar, m as se
levantou de um salto quando a m ão dele apoiou seu traseiro. Ela o fuzilou
com os olhos.
— Sinto m uito, doçura. Só segui as instruções estam padas no seu
bum bum .
— Ha, ha. Não. — Keelie sentou-se ereta e aj eitou a saia de form a que
as estam pas de m ãos não aparecessem . Precisava de outra roupa urgente.
Escutou a conversa, sentada, bastante ciente do suj eito a seu lado. Ele
se aproxim ou m ais.
— Está trem endo, m ocinha. Chegue m ais perto do capitão Randy , eu
esquento você.
Quantos anos ele tinha? Keelie não quis sair correndo feito um a
garotinha m edrosa. Se estivesse à beira da piscina na festa de um a am iga
em casa, saberia exatam ente o que fazer.
Raven estava à sua frente, apoiada no peito m usculoso de um tocador
de tam bor com corte de cabelo selvagem , que largara o instrum ento
m usical aos pés. Ela parecia à vontade.
Keelie tentou se recostar um pouco. O pirata posicionou o braço perto dela, perm itindo que a m enina se acom odasse em seu om bro. Ela se
sentiu bem e apreciou o calor do contato.
O suj eito pegou a garrafa que circulava entre os presentes.
— Hidrom el — sussurrou ele ao ouvido de Keelie, a respiração lhe
fazendo cócegas. — Doce com o m el. Prove.
A garota olhou com desconfiança para a garrafa sem rótulo. Não que
eles fossem passar algum produto anticongelante, m as aquele troço não
parecia seguro. Ela esfregou o gargalo da garrafa com o casaco e, em
seguida, tom ou um golinho. Era bom . O capitão Randy riu quando Keelie
tom ou um gole caprichado.
— Esquenta a barriga, não esquenta? — perguntou ele.
— Com certeza — respondeu Keelie.
O capitão Randy pegou a garrafa e pôs-se a tom ar a bebida, sem se dar
o trabalho de lim pá-la antes. Pelo visto, não o incom odava a possibilidade
de com partilhar germ es. Ele piscou para ela ao beber, e o coração da
garota disparou.
Keelie torceu para que o suj eito não sentisse o trem or que se
espalhara por seu om bro e sua nuca. Ela não sabia se estava com m edo,
em polgada ou am bos.
A garota sentiu a respiração dele em sua nuca e estrem eceu. O
capitão Randy envolveu-a pela cintura, tranquilizando-a.
— Ei, Raven, dança para a gente.
O pedido em voz alta foi reforçado pelo de outras pessoas. O tocador
pegou sem pressa o tam bor e iniciou um a batida rítm ica. A am iga de Keelie levantou-se e com eçou a se m over de acordo com o ritm o, num a
dança do ventre, agitando o quadril de um lado para o outro, arqueando as
costas enquanto m ovia os braços de form a serpenteante. A batida
acelerou, tom ando um ritm o m ais rápido e m alicioso. Raven rebolou, os
m úsculos do abdom e destacando-se quando ela m ovia a parte superior do
corpo.
Keelie ficou olhando fixam ente, hipnotizada, com a sensação de ter se
separado do corpo. A fum aça que se espalhava pelo am biente j á não a
incom odava m ais, e ela se sentia bem .
A dança de Raven era bem diferente daquela que fazia a gorducha do
restaurante m arroquino. Os m ovim entos da am iga m ostravam -se firm es e
sensuais.
Todos os presentes estavam inclinados naquele m om ento, os olhares
ávidos grudados no corpo de Raven. A dançarina sorria de form a
enigm ática para todos. Keelie sentiu a m ão do pirata em sua cintura puxá-
la para m ais perto. Perm itiu que o fizesse.
Ela nunca tinha ido a um a festa tão legal com o aquela.
A m ão do pirata com eçou a acariciar a lateral do corpo de Keelie, os
dedos m ovendo-se por suas costelas e penetrando no corpete, no ritm o do
tam bor. Ela com eçou a respirar m ais rápido. Se olhasse para o capitão
Randy , talvez ele o tom asse com o perm issão para seguir adiante. Assim ,
concentrou-se na am iga. A bela Raven, a sensação da festa.
A dançarina com eçou a rodopiar, apoiando-se num dos pés descalços,
e olhou para Keelie no m om ento em que o pirata tocou a parte inferior do seio dela. A garota parou de respirar. O que ele faria a seguir? E o que ela
deveria fazer? Naquele lugar, todo m undo podia perder o controle, não
podia?
Os olhos de Raven escureceram , e ela fez um gesto brusco com a
m ão. No m esm o instante, o rapaz parou de tocar o tam bor.
— Ah, Raven! — protestaram as pessoas.
— Minha am iga precisa ir dorm ir, gente. Eu danço de novo num a noite
m enos chuvosa. Vam os, Keelie.
— Eu não tenho hora para voltar. Aqui está tão legal. — Ela se virou
para o capitão Randy , buscando apoio.
— Deixe a garota ficar, Raven. Eu m esm o levo a donzela para casa
quando ela quiser. Por que você quer acabar com a noite dela?
— Tenho dois m otivos — respondeu a am iga, apoiando as m ãos na
cintura. — Prim eiro, ela tem quinze anos.
O sorriso do pirata dim inuiu um pouco, m as depois ele olhou com
prazer para Keelie:
— Um a garota precoce.
— Segundo, ela é filha de Zekeliel Heartwood.
O suj eito soltou a cintura de Keelie. Ela se virou, intrigada, e viu o
pirata afastando-se em m eio aos alm ofadões.
— O quê? — Ele olhou para a garota e se inclinou para lhe dar um
beij o no rosto. — Boa-noite, doçura. A gente se encontra por aí.
Keelie saiu da barraca nas nuvens, adorando o festival, sobretudo o
Condado, m as irritada com Raven. Quem ela achava que era, sua irm ã? Lá fora, a am iga lhe entregou o casaco. Parara de chover e dava para
discernir o brilho tênue da lua no céu encoberto.
— Você se divertiu?
— Nossa, Raven, eu não im aginava que você podia dançar daquele
j eito. Foi m uito legal!
— E, todo m undo gosta. Eu ensino para você se quiser.
— Quando? E posso ter um a dessas roupas pequenas e decotadas com
sinos?
— Claro. Elas são vendidas aqui na Cabana do Rebolado, a loj a da
Aviva. — Raven subia a colina de form a enérgica. — Então você e o
capitão Randy estavam se dando bem ...
— Esse é o nom e dele?
— Não exatam ente. Só aqui no festival. O verdadeiro é Donald
Satterfield. Fora de tem porada, ele trabalha com o caixa de superm ercado
em Denver. Mora no porão da m ãe e fica j ogando no com putador o dia
inteiro.
— Não. — Ela pensou em seu pirata charm oso. Na m ão dele em seu
seio. — Por que é legal que um pirata passe a m ão em você, m as não um
caixa de superm ercado?
— Os piratas optam por atuar fora da lei. Só um trem endo preguiçoso
se torna perdedor.
— Mas ele tem um em prego. — Podia não ser sexy ser caixa de
superm ercado, m as era um trabalho.
— O capitão Randy tem 28 anos, Keelie.
— Não parece ter tudo isso. Então você parou de dançar porque viu
que ele estava m e acariciando?
— Ótim a visão.
Quando elas passaram pela ponte, Keelie não escutou seu nom e
daquela vez. Só conseguia pensar na sensação da m ão do pirata em seu
seio. Mal podia esperar para contar a Laurie.
Ainda subindo a colina em direção à casa do pai, a garota notou que o
apartam ento em cim a da loj a continuava escuro. Zeke não havia chegado
ainda. Ótim o, porque ela cheirava a hidrom el e a baseado. Por sorte, a
cam inhada a fizera pensar com m ais clareza.
— A gente se vê am anhã, Keelie.
Raven foi em bora, pegando a trilha rum o ao herbanário.
No segundo andar, um longo m iado de protesto rom peu o silêncio
assim que a garota acendeu a luz. Da poltrona do pai, o gato Knot lhe
lançou um olhar acusatório.
—Ainda bem que você não pode falar. — Ela se dirigiu ao banheiro
para elim inar os indícios de seu com portam ento im prudente.
***
Keelie esticou os dedos dos pés sob o cobertor quente e aconchegante. Ao
acariciar a lã m acia e se cobrir m ais, pensou no corpo caloroso do pirata
pressionando o dela.
Pirata?
Ela acordou de supetão e sentou repentinam ente, lem brando-se da
festa na noite anterior. Só que não sentiu o cheiro de baseado, m as sim de biscoitos assando. Mas a m ãe não fazia isso. Sem pre com prava uns
recheados, em form a de duende, no superm ercado. Keelie sentiu um nó
na garganta. Ah, m ãe!
Lem brou-se de que ela nunca m ais lhe com praria biscoitos. De que
não a abraçaria m ais. De que estava m orta. Sentiu-se culpada por ter se
divertido na noite anterior. Aquele lugar era um conto de fadas do inferno,
com exceção do Condado — este, sim , podia ser considerado divertido.
Sua m ãe teria ficado horrorizada, ainda m ais se soubesse que Keelie
deixara o pirata apalpá-la. Erguendo a blusa até o diafragm a, ela passou os
dedos pela costela, no ponto em que o suj eito a tocara. E se deparasse com
ele no festival?
Keelie não se im portava com o que o capitão Randy fazia no m undo
real; no entanto, não tinha certeza de que queria que o ocorrido na noite
passada se repetisse. Claro que a conversa sedutora dele podia ter sido
apenas parte do papel que ele desem penhava. Será que ela gostara do
personagem , e não da pessoa? O que era real ali? Não queria dar um a de
idiota pensando que havia algo de especial no que acontecera na noite
passada. Ela seria legal, com o Raven.
A garota se j ogou para trás, deitando, e observou as colunas da cam a.
As quatro im itavam vinhas retorcidas e se interligavam no alto, form ando
um nó, do qual saíam cortinas ondulantes, de tecido branco e
transparente, que iam até o piso em am bas as laterais da cam a. Linda. Se
sua m ãe estivesse viva, se Keelie estivesse apenas visitando o pai, ia se
sentir feliz da vida. Ainda m ais se ele a tivesse convidado para ir até lá; ela sairia com Raven, e as duas seriam am igas. Keelie pretendia visitar o pai
depois que se instalasse em Los Angeles. Morar com Elizabeth não seria o
m esm o que estar com a m ãe, m as seria um am biente fam iliar. Poderia
conversar com ela, que fora a m elhor am iga de Katherine e, além disso, era
a m ãe de sua m elhor am iga, Laurie. As duas garotas se tornariam irm ãs.
Keelie precisava conversar com Laurie para dar continuidade ao plano.
Antes m esm o do final da sem ana j á estaria de volta a Los Angeles.
Yirando-se para o lado, ela abraçou com força o enorm e travesseiro de
penas diante do peito e cobriu-se até o queixo. Havia chorado m uito no dia
anterior. Era só o que faltava m esm o: na hora em que sentia vontade de
desabafar, as lágrim as não vinham .
Fechou os olhos e esforçou-se para voltar ao m om ento em que
acordara, quando achou que estava em casa, dorm indo na própria cam a, e
que a m ãe estava no andar de baixo, assando biscoitos de aveia.
Um ruído irritante de lam bidas interrom peu seu devaneio. Quando
abriu os olhos e se virou, viu Knot com endo algo de um a tigela de
cerâm ica colocada num a bandej a de m adeira em sua cam a. Havia um
copo de suco de laranj a ao lado da tigela, com um cartão verde em que
alguém escrevera algo com letra bonita. Ela estendeu a m ão para pegá-lo,
arriscando-se a levar um a patada do gato, e leu: "Para você, Keelie."
O gato ergueu a cabeça da tigela, com restos de m ingau de aveia
pendurados no bigode lem brando m elecas grotescas. Seus olhos verdes
transm itiam um presunçoso brilho de satisfação.
A barriga de Keelie roncou quando ela viu outro vestígio de m ingau, m as ver o gato todo m elado fez com que perdesse o apetite. Não queria
m ais saber do café da m anhã do pai.
Nossa! Alguém preparara o café da m anhã para ela. Fora a prim eira
vez. A m ãe sem pre estim ulara sua autossuficiência e independência.
Quando Keelie fez m enção de pegar o suco de laranj a, Knot bufou e
golpeou-a com a pata. Keelie im itou o chiado, agarrou depressa o copo e
deu vários goles, direto. Em seguida, colocou o copo com força na bandej a,
levando-o a esbarrar na tigela e tinir. O bichano lançou um olhar hostil
para ela, com os estranhos olhos verdes.
Pelo visto, o pai am ava Knot, e não a filha. Keelie sentiu a raiva
fervilhar dentro de si, fluindo com o lava quente. O felino virou-se e
continuou a com er seu m ingau.
A m enina pegou o travesseiro na cam a e j ogou-o no gato. Errou o alvo
e acabou atingindo a ponta da bandej a, que caiu no chão. A tigela com o
m ingau quebrou, j unto com o copo de suco praticam ente vazio. Cacos de
vidro e restos de com ida num a poça de suco de laranj a suj avam o assoalho
polido.
O bichano idiota pulou da cam a para o piso, virou-se e lançou um
olhar furioso para Keelie. Balançou o rabo, com o quem diz: "Ha, ha, você
errou!" Em seguida, saiu andando, passando pela gororoba e pelos cacos,
sem um restinho de aveia no pelo.
Ruídos de passadas ressoaram na escada e, então, a porta se abriu de
supetão. O pai abriu a cortina, aparentem ente assustado.
— Você está bem ? — Knot deixou escapar um m iado lam entoso quando Zeke se aproxim ou rápido da cam a. — Keelie, você está bem ? O
que foi que houve?
Ela queria gritar: "Não, não estou bem . Quero voltar para casa." Mas
não o fez.
Olhou fixam ente para o gato.
— Foi ele.
Knot m iou de novo, encolhido, com o se fosse ele a vítim a.
— Knot, seu danado — disse o pai, com suavidade. Em seguida, viu a
bagunça no piso. — Fique aí. Não saia da cam a. Pode cortar os pés.
O pai voltou com um rolo de papel-toalha com estam pa de unicórnios
e um a lixeira de m adeira.
Parecia não ter nada que não se originasse de um a árvore. Zeke j ogou
os cacos m aiores do vidro e da tigela no lixo. Depois, deu para a filha seus
tênis outrora brancos, que agora tinham ficado encardidos de lam a.
Quando ela os pegou, deveria ter agradecido, m as não o fez.
Continuava brava. Então, evitou olhar para ele, que a fitava.
— Por que deu esse nom e para o gato? — perguntou Keelie.
O pai sorriu.
— Por causa do nó que nos une?
Keelie não retribuiu o sorriso; em vez disso, lançou o costum eiro olhar
de adolescente com raiva. A m ãe o cham ava de fuzilante, porque, se a filha
estivesse num a praça de touros sendo atacada por um deles, só aquele
olhar faria o anim al fugir com o rabo entre as pernas.
Zeke ficou sério.
— Sua avó m e olha assim sem pre que fica brava com igo.
— Olhava, Zeke. Minha avó Josephine teve um derram e e m orreu dois
anos atrás.
— Eu soube. Lam ento m uito você ter perdido sua avó Josephine, m as
eu m e referi à m inha m ãe. Cham a-se Keliatiel. O seu nom e é um a
hom enagem a essa avó. Conversei ontem com ela, que está louca para se
encontrar com você.
Keelie fitou o pai. Um a avó que a m ãe nunca m encionara. A ideiade
ter outra ainda viva a deixou pasm a. Por quê?
O pai estalou os dedos.
— Boas notícias tam bém . A com panhia aérea m andou um entregador
ontem à noite com um a das suas m alas. — Ele afagou o om bro da filha ao
se levantar. Os dedos dele eram longos com o os dela, m as fortes e
bronzeados. — Melhor eu ir pegar um a pá para recolher o resto dos cacos.
Zeke saiu do quarto. Knot sentou-se, ergueu a pata esquerda, de
costas para Keelie, e pôs-se a lam ber o pelo com a língua rósea.
— Eca. — Ela calçou os tênis e foi até o bichano. Em purrou-o de leve
com o pé. — Vai fazer isso noutro lugar, seu gato idiota. — A garota
perguntou-se o que a avó até então desconhecida achava de Knot. Será
que adorava gatos? Será que ia am ar Keelie com o a avó Jo a am ara?
O bichano olhou-a de um j eito am eaçador e, em seguida, bufou. Deu
um a patada em seu tênis e, então, com o rabo erguido, saiu do quarto.
Mas que gato assustador. Keelie não se surpreenderia se ele tivesse
um em prego paralelo, que o levava a voar na vassoura de algum a bruxa no Halloween. Fosse com o fosse, j á conseguira o que queria. Ele tinha saído
de seu quarto.
O ruído de hom ens gritando veio lá de fora. Com um a das m ãos ela
abriu as cortinas brancas e contem plou a j usta. Já havia uns cavaleiros de
arm adura, m ontados a cavalo, treinando.
— Aqui está, Keelie — disse Zeke, colocando um a m ala em cim a da
cam a. A decepção fez Keelie sentir um a pontada na barriga. Ou talvez
fosse fom e.
A m ala recuperada era a pequena, de tapeçaria verde, na qual ela
guardara sua roupa íntim a. Ela esperava que fosse um a de suas m alas
grandes. Observou a calça lam acenta e o traj e do show de lam a, que ela
colocara no encosto de um a cadeira de m adeira. Continuava sem nada
decente para usar. A partir daquele m om ento, nunca m ais deixaria de pôr
um a m uda de roupa extra na bagagem de m ão. Aprendera a lição.
Keelie foi até a cam a, deixou-se cair nela e pôs a m ão na alça da m ala.
Não choraria. Não gritaria. Não reagiria. Queria ficar com a m ente e o
corpo entorpecidos.
Zeke aproxim ou-se e sentou-se ao lado da filha na cam a. Sorria de um
j eito esperançoso, porém cheio de ressalvas. Com o se a m ala fosse um a
oferta de paz fracassada.
— Pelo visto, não era a que você queria.
Keelie tinha de adm itir que o pai captava tudo com rapidez.
— Só tem sutiã e calcinha, achei que seria a que está com m inhas
roupas. — As norm ais, que a conectavam com a vida na Califórnia Que a conectavam com sua m ãe.
— Com certeza, até o fim do dia as m alas com as roupas e o restante
dos seus pertences chegarão — disse o pai. Parecia convencido disso.
Ela se encheu de esperança.
— Você acha m esm o?
— Acho. Enquanto isso, vista algo e vá até a casa de chá. A sra. Butters
está assando m uffins e pãezinhos agora e, quando você chegar lá, eles
terão acabado de sair do forno.
— Parece um a boa idéia. — Keelie lem brou-se da sra. Butters, do dia
anterior. — Ela é a esposa gorducha do bonequinho de gengibre?
Zeke m ostrou-se intrigado.
— Que bonequinho de gengibre?
— O do conto infantil, pai. Lem bra? Aqueles que você nunca leu para
m im ?
— Não gosto m uito de contos de fada. — Ele deu um tapinha no
j oelho dela e se levantou.
Keelie observou-o se afastar, notando com o era alto. Tentou im aginar
a m ãe executiva e bem -sucedida com o pai hippie, de visual roqueiro,
j untos, tem pos atrás. Muita coisa estranha acontecia no m undo, fatos
inexplicáveis, e, para ela, aquele era um deles. Os opostos se atraem ,
pensou. Ou isso, ou hidrom el e m aconha faziam parte do dia a dia naquela
época tam bém .
Ela abriu o zíper da m ala e sorriu. O conteúdo cheirava a alfazem a e
frutas cítricas, igualzinho a seu quarto em Los Angeles. A garota pegou um a calcinha de algodão e um sutiã esportivo do m esm o m aterial. Roupa
íntim a lim pa. Quem diria que pareceriam um luxo?
No banheiro, Keelie fez um a careta ao ver seus cabelos. Sem
condicionador e sem aparelho para dar um j eito neles, estava destinada a
ter cachos tonhonhons com binando com o vestido m edonho. Ela passou a
m ão úm ida neles e os escovou para evitar que espetassem .
Lavou o rosto com água gelada e escovou os dentes com a pasta e o
dedo. Com o fizera as m alas às pressas, esquecera a escova em seu suporte
em casa. A idiota da sra. Talbot. Keelie precisava de um a escova de dentes
e de outros itens. Tinha que encontrar a velha farm ácia das cercanias;
talvez Raven pudesse aj udá-la. Não pediria a Zeke.
Claro que isso talvez o constrangesse m ais que a am iga. Ela se
im aginou solicitando ao pai absorventes internos na frente de todas as fãs
dele.
Keelie viu a pele esfregada e averm elhada refletida no espelho e se
recordou da tez de pêssego, das bochechas rosadas e dos cabelos dourados
im pecáveis de Elia.
— Beleza. Se o m eu cabelo encrespar hoj e, vou parecer um dente-de-
leão m arrom . — Conform e observava, seus fios com eçaram a enrolar,
form ando m echas encaracoladas.
Keelie desistiu e pôs o sutiã e a calcinha. No entanto, suas roupas
continuavam lam acentas. A fantasia do show de lam a, que colocara no
chão, estava úm ida, m as razoavelm ente lim pa. Ela não gostava da ideiade
usá-la de novo, m as, se podia ficar sem condicionador, podia m uito bem usar aquela fantasia ridícula outra vez. Em Rom a, faça com o os rom anos,
dizia a m ãe. No Festival da Renascença, faça com o os renascentistas. A
garota deixou escapar um suspiro. O resto de sua vida seria assim ?
Fazendo um a concessão após a outra? Talvez Zeke lhe desse um a saia
nova. Não que ela fosse ficar lá, m as aquelas estam pas de m ãos verm elhas
eram hum ilhantes dem ais.
Então ela sentiu um cheiro esquisito. De onde vinha aquele fedor?
Parecia xixi de gato. A porta do quarto estava parcialm ente aberta. Com o
coração batendo forte, Keelie olhou para a cam a e deparou com os
estranhos olhos verdes de Knot. O rabo do gato balançava de um lado para
o outro enquanto ele se abaixava de um j eito estranho na m ala.
Ela foi até ele e deu um golpe em sua direção.
— Saia das m inhas coisas, senão você vai deixar tudo cheio de pelo de
gato.
Knot saltou da m ala para a cam a e, em seguida, dirigiu-se para a porta.
Keelie cobriu o nariz e a boca. O fedor piorara. Ela olhou ao redor,
buscando a origem do m au cheiro, esperando que não fosse o que pensava.
Mas não teve essa sorte.
O gato usara sua m ala com o caixa de areia.
— Knot, pode se considerar um gato m orto!
Cinco
os dentes.
Estava do lado de fora da construção, no últim o degrau sem lam a,
procurando Knot. O sórdido felino não estava em nenhum lugar à vista.
Muito esperto, pensou Keelie. Danado, m as inteligente. Provavelm ente ele
sabia que, se ela se aproxim asse bastante para estrangulá-lo, era
exatam ente o que faria.
Pelo m enos parara de chover. O céu estava azul e lím pido. A garota respirou fundo e, em seguida, franziu o nariz ao sentir cheiro de carne
assando. Na certa eram aquelas coxas de peru repulsivas que ela vira as
pessoas devorarem com o se fossem bárbaros. Keelie não faria isso. Não
aceitava a desculpa de que com er com a m ão era algo m edieval. Copos de
plástico descartáveis não vinham daquela época e, no entanto, vira um
m onte de gente usando-os para beber ruidosam ente.
Naquele m om ento, Keelie precisava era de um a boa xícara de café e
de uns pãezinhos de m inuto. Onde ficava aquela casa de chá?
Ela puxou o cordão de sua bolsinha de couro, que encontrara na área
cortinada do banheiro. Dentro estavam seu dinheiro, seu m apa dobrado da
área do festival e seu quartzo rosa, que acabava com a com ichão provocada
pela m adeira, funcionando m elhor que litros de loção de calam ina.
Keelie abriu o m apa. A loj a do pai ficava no canto esquerdo, na parte
m ais longínqua do festival; havia a j usta de um lado da colina e, do outro,
um lago. Estava na hora de tom ar o café da m anhã, j á que o bicho-papão-
com edor-de-m ingau tinha estragado o seu.
A garota entreouviu a voz do pai num a conversa, seguida de um
sussurro entusiasm ado. Outra m ulher, pensou a filha. Ela devia ter
adivinhado. Seu velho era a versão do Festival de Matthew McConaughey .
Todas as m ulheres m ais velhas o adoravam .
Keelie pisou no solo ainda úm ido e foi até a extrem idade da loj a. O pai
conversava com um rapaz alto que usava um a túnica grande dem ais. Então
não era um a m ulher. Ótim o.
Ela precisava ter um a conversinha com Zeke a sós, para tratar de sua volta para a Califórnia. Ele deixou cair um saquinho de couro e se inclinou
para pegá-lo. Um a m ulher que passava, com um j eans j usto e um a blusa
de frente única, não desgrudou os olhos do traseiro dele, que usava calça
de couro e túnica curta com cinto.
Que horror. Keelie andou até a transeunte.
— Ele não está à venda — disse. Então apontou para o outro lado da
loj a. — Os m óveis estão lá.
A m ulher arregalou os olhos e ficou boquiaberta. A garota viu o pai
franzir o cenho. Opa. Grosseira com um a cliente — perderia dez pontos.
Keelie deu a volta e foi em bora, deixando que a m ulher visse bem as
estam pas de m ãos. Se aquela cliente queria olhar para traseiros, teria agora
um a vista panorâm ica.
Ela contornou a curva e parou perto da cerca, que separava o cam inho
da parte m ais inclinada da colina em que Heartwood se encontrava. As
atividades na pista do torneio cham aram sua atenção. Um hom em andava
a m eio-galope num cavalo enorm e. Usava um a túnica e um a calça m etida
em botas de cano alto e solto. Com os longos cabelos castanhos
esvoaçando atrás de si, m ais parecia a im agem de um livro de contos.
Keelie esquadrinhou a pista, buscando Sean.
Ei, espere aí! No que é que ela estava pensando? Eles eram de dois
m undos diferentes e, assim que Zeke escutasse o plano da filha e a
deixasse m orar com Elizabeth e Laurie em Los Angeles, aquele rapaz não
passaria de um a lem brança agradável.
Na pista, um bicho de pelo cor de folha outonal passou na frente do cavalo im enso. O coração de Keelie disparou. Fora aquele gato m ij ão e
idiota que quase tinha sido esm agado pelos cascos enorm es. O cavaleiro
estava olhando para o outro lado.
— Knot, saia daí! — gritou ela. Só porque agora sua roupa íntim a
fedia com o um a caixa de areia, não significava que queria ver o felino
estraçalhado.
Ou o gato não a escutou, ou a ignorou de propósito, pois caçava um
rato-do-cam po. Ela agarrou a cerca de m adeira enquanto o felino perseguia
o roedor, fazendo de novo um a traj etória que o colocaria sob os cascos do
tam anho de um prato grande.
Pare, sussurrou Keelie para o cavalo. Pare. A cerca que ela segurava
pareceu esquentar. Pinho, ocorreu a um dim inuto recôndito de sua m ente,
pois o restante se concentrava por com pleto naquele bolo de pelos
condenado. De súbito, a garota sentiu a presença de cada árvore ao seu
lado, todas diferentes, com o pessoas num a m ultidão. Ela ergueu as m ãos e
afastou-as da cerca.
Um a brisa circundou Keelie e, em seguida, passou por ela, um a brisa
que agitou seus cabelos, em bora as folhas das árvores ali perto não se
m ovessem . A garota observou, atônita, quando o cavalo parou de trotar, as
pernas subitam ente esticadas, o corpo inclinando-se para trás, num a
brecada repentina. O cavaleiro tam bém ficou pasm o, pois caiu sobre a
cabeça do cavalo e se estatelou na areia suj a da pista. Knot andou com
tranqüilidade até ele, cheirou o hom em caído e, em seguida, bufou e deu-
lhe um a patada, arranhando o traseiro do suj eito, que gritou e agarrou a coxa.
Ela fizera aquilo? Im possível. Não passava de um a estranha
coincidência.
Knot se virou e olhou para a colina. Parecia estar fitando Keelie. Dali,
ela só podia im aginar o tom verde assustador de seus olhos. Mostrou a
língua para ele. Se estivesse lá em baixo, ele a teria arranhado am bém .
Gato m al-agradecido. Não sabia nem por que se preocupara com ele
depois de tudo o que fizera com ela.
— Fui até o seu quarto — com entou o pai, atrás da filha. Ele deve ter
perdido o dram a que se desenrolara na j usta. Arqueou as sobrancelhas. —
Vi o que aconteceu com a sua m ala. — Balançou a cabeça. O que posso
dizer? Vam os ter que acrescentar roupa íntim a à lista cada vez m aior de
artigos de que você precisa.
— É. Aquele gato está frito.
— Nem dei dinheiro para você com prar o café da m anhã. Deve estar
com fom e. — Zeke pegou um saquinho de couro e tirou um a nota de dez
dólares. Esticou-a e colocou-a na palm a da m ão da filha.
Keelie observou-a.
— Só isso? Na Califórnia, não dá nem para com prar um latte.
O sorriso do pai foi desaparecendo até ele ficar sério.
— Não estam os na Califórnia.
A filha aceitou o dinheiro.
— Pode m e dar um pouco m ais para a m áquina de lavar? Tem um a
área com lavadoras autom áticas aqui, não tem ?
— Tem , perto dos portões da frente, atrás da adm inistração. Eu vou
pegar m ais dinheiro na caixa registradora.
— Vou levar a grana agora, m as só vou lavar roupa m ais tarde. Sabia
que seu gato danado quase foi m orto agora? — Ela lhe contou o que
ocorrera na pista, deixando de fora a parte da brisa inusitada e do cavalo
que pareceu obedecer-lhe.
Zeke balançou a cabeça.
— Knot só faz o que bem entende e, às vezes, nem dá para adivinhar o
que vai aprontar. Venha aqui na loj a um m inutinho para eu pegar uns
trocados.
O rapaz desengonçado, com a túnica im ensa, perm aneceu de costas
para ela conform e os dois foram se aproxim ando do balcão.
— Scott, esta é a m inha filha, Keelie.
O j ovem não se virou.
— Scott?
Ele então deu a volta, dando a im pressão de estar irritado.
— Keelie, este é Scott, m eu aprendiz. Eu ensino m arcenaria para ele,
que m e aj uda m uito. Mora num quarto nos fundos.
A filha tam pouco sorriu para o rapaz. Zeke não só tinha tem po para
um gato idiota com o tam bém para ensinar m arcenaria para aquele
im becilizado. Ela seguiu o pai quando ele foi para trás do balcão. Este, por
si só, era incrível. Mais alto que a cintura dela, tinha na borda frontal um
m onte de anim ais im aginários talhados, que pareciam participar de um a
corrida ao redor da peça. A parte de baixo fora esculpida de m aneira que sim ulasse raízes, com o se a loj a fizesse parte da Terra.
Com a m ão esticada à espera do dinheiro, Keelie ficou observando a
loj a. As colunas que apoiavam o segundo andar tam bém tinham raízes
talhadas na parte inferior. Estranho. Devia ser um tem a de Heartwood. As
raízes da filha estavam em outra parte, não estavam ?
Zeke lhe entregou algum as notas, depois abriu um rolo de m oedas de
vinte e cinco centavos, pegou m etade delas e colocou-as na m ão de Keelie.
— Ei, vam os precisar dessas hoj e, para ter trocado — protestou Scott,
de cara feia.
— O gato fez xixi na m inha m ala. Eu preciso lavar roupa. — Ela
tam bém o olhou com expressão carrancuda.
Scott riu.
— E por isso que você está vestida desse j eito? Pensei que Tarl tinha
j ogado fora essa roupa depois que a Daisy reclam ou no ano passado.
— Scott, por que não m ostra a Keelie um lugar barato onde ela possa
com er? Aposto que pode ensinar a ela com o fazer esses dez dólares
durarem a sem ana toda.
Keelie ficou pasm a. Ah, beleza, ficaria passeando com aquele
m egaidiotizado, e as pessoas pensariam que form avam um casal. O capitão
Randy , por exem plo. E, se Scott a visse j unto com o pirata, certam ente
deduraria para seu pai.
— Não posso ir, Zeke. Tenho que term inar o m óvel do sr. Hum phrey .
Ele vem buscá-lo na sexta. — O rapaz pareceu ter ficado feliz da vida com
a desculpa.
O pai de Keelie deu um tapinha nas costas de Scott.
— Não se preocupe. Eu vou cuidar de tudo. Com o o festival acabou de
abrir, é um bom m om ento para Keelie conhecer tudo antes que a m ultidão
dificulte a passagem . — Ignorando o olhar ultraj ado da filha, ele fez um
gesto para o rapaz, estim ulando-o a ficar ao lado dela. — Nos dom ingos, a
m aior m ovim entação só com eça m esm o depois da um a da tarde. Pode
ficar fora até lá.
Scott e Keelie com eçaram a descer a colina, cada um no lado oposto
do cam inho.
Ele olhou de soslaio para ela e deu um a risada irônica.
— O que foi? — Keelie não via nada de engraçado.
— Então, agora que você está com essa roupa, vai participar do show
de lam a?
A saia. Keelie odiou aquela fantasia horrorosa do show m ais do que
nunca. Podia ser considerada um sím bolo, m as o errado. Seu uniform e da
Escola Bay wood fora o em blem a que inform ara ao m undo que ela era
alguém . Só os m elhores e m ais bem -relacionados entravam ali. Os tons
azul e preto da roupa deixavam claro não apenas que se tratava de um a
garota inteligente com o tam bém da filha de alguém im portante. Agora, ali
estava ela, um a garota m arginalizada, com um a fantasia patética.
— Você está rindo de m im ? — Ela parou no m eio do cam inho, com as
m ãos na cintura. Os olhos de Scott se arregalaram , e ele tentou parar, m as
as gargalhadas escapavam da boca dele, o m iserável.
— Não quer que eu aj a assim ? — O rapaz enxugou os olhos. —Você está usando essa roupa abom inável. De palhaço. — Ele soluçou.
— Olhe só para você. Está aqui há m uito m ais tem po do que eu e usa
um troço que pertence a um gigante. Ao m enos você tem escolha.
Keelie não tinha nenhum a. Onde m orar, o que vestir, com quem
cam inhar naquela trilha idiota. Aquelas gargalhadas, de repente, pare-
ceram dem ais para sua cabeça.
Ela deu a volta e correu. Descendo a colina a toda velocidade, virou à
direita e passou depressa por um a barca colorida, ancorada no lago, cheia
de pessoas com fantasias extravagantes. Cruzou com com erciantes abrindo
suas loj as e artistas abrindo seus estúdios.
Ouviu Scott segui-la por um tem po, m as, depois, j á não o escutou
m ais. Não que ela tivesse se virado para olhar. O rapaz nunca a pegaria
checando se ainda estava atrás. De qualquer form a, Keelie queria ficar
sozinha, bem longe. De Scott. Do pai. De todo aquele bizarro país das
m aravilhas.
A sensação da brisa no rosto agradou Keelie, cuj os m úsculos
alongaram e latej aram conform e a m enina aum entou as passadas. Ela
adorava correr; prova disso eram as fitas que ganhara após as corridas em
trilhas e que estavam na m ala extraviada. As pessoas a observavam
enquanto passava, m as ninguém tentava pará-la. Keelie não corria havia
sem anas. A sensação foi ótim a.
Após um longo tem po, fez o contorno e voltou à clareira de
Heartwood. Do outro lado do cam inho, viu o pai e Scott descarregarem
m adeira serrada. Agora eles podiam se concentrar no que lhes interessava. Ninguém estava preocupado com ela. Keelie ficou se perguntando o que o
rapaz teria dito a seu pai para explicar a volta prem atura. Podia apostar que
não fora a verdade.
Sua barriga roncou. Um m uffin e um latte grande cairiam bem . Ela
pegou o m apa da área do festival na bolsinha de couro pendurada na
cintura e o exam inou. Teve vontade de cortar cam inho pela floresta, m as
se lem brou do aviso de que deveria usar as trilhas.
Com eçou a percorrer a Travessa do Espírito da Água, apertando o
passo ao atravessar a ponte pela qual andara na noite anterior. Não ouviu
vozes naquele m om ento. O prado estava cercado de árvores, com o Raven
descrevera. Ela afugentou as vozes delas da m ente e correu.
A casa de chá era um a construção de tabique decrépita e inclinada.
Parecia só estar de pé por causa da hera verde-escura, que se espalhara de
um j eito viçoso tanto para o alto quanto para as laterais. Não havia nem
um a roseira sequer à vista.
Keelie foi até o deque, que era im enso, coberto por um caram anchão
cheio de — o que m ais poderia ser? — hera. Talvez essa planta tivesse
devorado as rosas.
Lá dentro, a sra. Butters tirava um a assadeira do forno. A m ulher
bonequinha de gengibre sorriu com am abilidade para Keelie, que não
retribuiu o sorriso. A garota não queria se acostum ar com ninguém rndo