A Filha do Pastor das Árvores

Gillian Summers · Capítulo 2 de 6 · parte 3/3

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A Filha do Pastor das Árvores

legal nem sim pático com ela. Era…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

chegara àquele festival, vira coisas que podia j urar que estavam ali, m as,

quando olhava m elhor, j á não estavam . Era com o se a linha entre a

realidade e a fantasia houvesse se dissipado. Será que ela realm ente queria

ver figurinhas de graveto?

Não.

Keelie afastou-se da árvore e enxugou as lágrim as. Se Raven estivesse

ali, teria passado pela ponte e ido até Nova York. Mas e se a garota ouvisse

aquela voz assustadora de novo? Seguindo o exem plo da am iga, Keelie

j untou coragem , ou o que restava dela, e cam inhou com determ inação.

Que diferença fazia outra voz esquisita na sua cabeça? Ela voltaria ao

festival, daí regressaria para a Califórnia o m ais rápido possível.

Keelie fez m enção de tocar no corrim ão de sequoia, m as então tirou a

m ão. Já bastava. Seus dias de com unicação espiritual com a m adeira

tinham term inado. Pelo canto dos olhos, viu um a figura pequena correr entre as árvores. Era rápida dem ais para ser um guaxinim e, além disso,

m ovia-se de um j eito diferente de qualquer outro bicho do Anim al Planet.

Keelie estrem eceu. Não. Ela não deixaria os lim ites entre a realidade e a

fantasia se m isturarem com o duas cores prim árias.

Precisava apenas atravessar a ponte e voltar para o festival.

— Sobre o riacho, pela floresta, até o bangalô do m eu pai, eu vou. —

Sua canção sussurrada foi se esvaindo quando ela ouviu a voz aquosa sob a

ponte.

— Keliel. Perigo.

A garota parou.

Galhos estalaram na floresta. Em m eio às nuvens escuras, a lua

banhou de um tom prateado o bosque no m om ento em que um a m ancha

averm elhada se m oveu com rapidez entre as árvores. Ao longe, trovej ou.

Adrenalina espalhou-se pelo corpo de Keelie conform e ela atravessou

correndo a ponte.

Do outro lado, ela tropeçou num a pedra, rolou pela m argem e caiu de

barriga para baixo na água rasa. Assim que se ergueu, apoiada nas m ãos,

algo pesado e sólido pousou em suas costas. Aquilo, fosse lá o que fosse,

em purrou a cabeça de Keelie de novo para a água.

O líquido penetrou por seu nariz e por sua boca. Ela não conseguia

respirar. Bateu as pernas na tentativa de girar para tirar o troço de cim a de

si. Abriu os olhos, m as não conseguiu ver nada. A voz assustadora que

ouvira sob a ponte surgiu m ais clara e forte.

— Toque na ponte.

Keelie procurou desesperada por ela. Em bora o pilar estivesse a

centím etros de sua cabeça, ela não conseguia alcançá-lo. A garota

esforçou-se para chegar até ele, apoiando os cotovelos no leito arenoso

enquanto a criatura pesada em suas costas em purrava ainda m ais sua

cabeça para baixo, dentro da água. As pontas dos dedos de Keelie por fim

roçaram na m adeira. Um a energia fluiu por ela. De súbito, o peso sólido

em suas costas sum iu. Ela ergueu a cabeça, quase sem fôlego.

Filetes de água escorriam por sua face e por seu corpo conform e

Keelie se aj oelhou, tintando os dentes.

Estava em choque, m orrendo de frio. Alguém tentara m atá-la. Ou

algo, pensou, ao fitar um anão de rosto enrugado, barrete verm elho e

dentes pontudos, gesticulando furiosam ente para ela enquanto dançava

um a giga, saltitando do outro lado do riacho. Parecia um elfo natalino do

m al.

— Morte à filha. E pesar ao pai — cantava num tom de voz baixinho e

ritm o m onótono. O m om ento além da im aginação foi interrom pido por

um a bola peluda laranj a que parou na frente do asqueroso

Rum pelstiltskin.

Knot bufou enquanto agitava o rabo de um lado para o outro com o um

chicote m ortal. Com os dentes à m ostra e as orelhas abaixadas, paralelas à

cabeça, deu um longo berro.

— Pega esse troço, Knot — gritou Keelie e, em seguida, parou. E se

aquela criatura abom inável o m achucasse?

O duende rosnou de volta, cerrando os dentes. O gato arqueou-se m ais, o traseiro m ovendo-se para a frente e para trás, pronto para atacar.

Keelie prendeu a respiração, sem saber com o aquilo acabaria. Arqueou-se

tam bém , procurando um pedaço de pau. Se Knot precisasse, ela daria um a

paulada naquele m onstrinho.

A criatura de barrete verm elho tocou no solo e pegou um cogum elo

preto e deteriorado. Um fedor horrível espalhou-se no ar à m edida que o

fungo se desintegrava. O duende fez um a giga e outros cogum elos

surgiram abaixo. As velhas folhas de outono do solo da floresta giraram em

torno do terrível duende, form ando um tornado folhoso e escon- dendo-o.

Knot atacou, m as, quando pousou, havia apenas folhas secas e antigas

e um a substância viscosa de cogum elo. Ele agitou a perna esquerda

dianteira e, então, a direita, para tirar o fungo noj ento da pata. O fedor era

abom inável.

O gato m iou e virou a cabeça para Keelie. Seus olhos verdes

pantanosos reluziram com o duas luas cheias cor de árvore. Ele se afastou

do riacho e rum ou para a floresta, balançando o rabo. Seu pelo laranj a

brilhava em virtude da fosforescência.

— Você conhece este lugar m elhor do que eu, gato velho.

Ela o seguiu. O felino era odioso e danado, m as fora salvá-la. Ela

olhou de esguelha para a ponte, m as só viu escuridão.

Não se via nem o diabinho de barrete verm elho nem o dono da voz

sob a ponte. Keelie estrem eceu e correu para alcançar Knot, os sapatos

ressoando na floresta, de outro m odo silenciosa. Som ente trovoadas

rom piam a estranha serenidade da floresta; a lua desaparecera sob um m anto de nuvens.

Relâm pagos espalhavam -se pelo céu, e, em m eio à lum inosidade

m om entânea, ela viu o cam inho. Suspirou de alívio.

Ao longe, a garota ouviu o pai cham ando-a.

Knot m iou alto em resposta e, então, desapareceu na floresta, rum o à

voz de Zeke. Bem típico daquele gato ir salvá-la, daí m etê-la em confusão.

Apesar de quase ter sido afogada por um anão m aníaco com um a roupa

horrenda de elfo, a garota tinha consciência de que levaria um a trem enda

bronca, daquelas que só os pais costum avam dar. Keelie abraçou a si

m esm a na tentativa de proteger o corpo do frio, da floresta e de qualquer

outro acontecim ento assustador do festival.

Enquanto Zeke cam inhava apressado rum o à filha, Knot o

acom panhava, m iando com o se relatasse o que acabara de acontecer. O

pai assentiu, com o se tivesse com preendido o gato, e passou a cam inhar

ainda m ais rápido. Aquele bichano danado a estava dedurando.

O pai parou, respirou fundo e, em seguida, aproxim ou-se e abraçou a

filha.

— Por tudo o que é abençoado no Grande Silvus, você está bem .

Keelie afastou-se do abraço paternal.

Abaixando as m ãos, Zeke cerrou o punho.

— Metade das pessoas do festival está procurando por você. Você

correu grande perigo!

Os dentes da filha com eçaram a bater, m as ela não iria confirm ar nem

negar. Ele a abandonara catorze anos atrás. A m ãe e o pai nunca tinham se divorciado.

Você foi para o Condado? Lá é um a zona proibida, Keelie, achei que

tinha entendido isso. Correu grande perigo.

— Eu sei. Estive lá.

— Está de castigo. E não vai andar sozinha sob nenhum a

circunstância. Sir Davey ou eu vam os acom panhá-la.

Beleza. Um a nova caretice.

— Eu não estou na creche, Zeke. Sei tom ar conta de m im m esm a.

Um brilho ali perto fez com que ela desviasse o olhar do rosto zangado

do pai. Seria o cara pequenininho que voltava para term inar o serviço?

Aquilo podia acabar com o aquele film e de terror sobre o duende m aligno

que ela vira no canal de ficção científica. A m ãe odiava aquele canal.

A luz aproxim ou-se. Era um lam pião, carregado por Sean. Que

vergonha. Keelie m al ouviu as palavras furiosas do pai, concentrada na

terrível hum ilhação de levar bronca no cam inho, com o cara m ais gato do

festival ouvindo. Onde ele estava dez m inutos atrás, quando ela precisou

ser salva?

— As regras com uns não se aplicam aqui. Eu deveria ter avisado, m as

você só está aqui há um dia e j á m e desobedeceu. Não posso confiar em

você. Eu ia deixar que usasse o telefone para ligar para suas am igas na

Califórnia, m as não vou m ais, até sentir que vai obedecer às regras.

De castigo? O que poderia ser pior? Ela viu Sean, que entreouvira

tudo, virar-se para alguém , que saiu da som bra. Elia. Elia com um largo

sorriso. Se aquele anão m aníaco precisava de um a vítim a, Keelie tinha alguém para recom endar. Isso depois de lhe dar um a surra por tentar

afogá-la.

Hora de reverter a situação no que dizia respeito ao velho e querido

pai. Jogar com a com paixão talvez aj udasse a reduzir sua sentença.

Ela deu um a fungada bem convincente, j á que provavelm ente pegara

pneum onia.

— Eu m e perdi na floresta e conheci o pai de Elia. Elianard m e

assustou.

— Onde você o conheceu?

— Na casa dele. Sou obrigada a dizer, eles vivem bem m elhor do que

você. Com o ele classifica a torre de pedra? Tipo conto de fadas, m as legal.

— Zeke a fitou com o se som ente naquele instante houvesse notado

que ela estava encharcada. Tirou um espinho da m anga da filha.

— O que foi que aconteceu exatam ente?

— Eu caí no riacho e fui atacada por um gnom o de j ardim rabugento,

com dentes pontudos. Knot m e salvou. — Tentou m inim izar o ocorrido,

m as seus m úsculos se contraíram , e ela com eçou a trem er. O duende sem

dúvida tentara m atá-la.

Keelie olhou fixam ente para o gato. Tão terrível ter de agradecer ao

anim al que estragara sua roupa.

— Precisam os cham ar a polícia para que os tiras peguem aquele

gnom o dem ente, m etam o suj eitinho na cadeia e j oguem fora a chave.

— Esse gnom o usava um barrete verm elho?

— Usava. Você conhece o cara?

— Não. — Ele pareceu ter se ofendido até pela pergunta. — Mas isso

confirm a nossas suspeitas. Não é um gnom o. Vou ter que avisar os outros.

— Ei, e que tal buscar j ustiça para m im ? Quero prestar queixa. Quero

ver aquele anão na cadeia. Quero Rum pelstiltskin num a fila de

identificação de suspeitos.

Zeke deixou escapar um suspiro fatigado.

— Esse é um problem a do festival. Nós vam os nos encarregar dele.

— O quê? Você não andou indo até o Condado, andou? — Ela se

inclinou para sentir o hálito dele. Cheirava a canela.

Raven veio correndo pelo cam inho, com um cobertor no braço.

Janice a seguia.

— Keelie, você está bem ? Soube que se m olhou!

— Andou conversando com Knot? Ele é m uito tagarela.

Raven deu um a risada sarcástica.

— Está bem , foi um a noite longa, garota cansada. Você precisa se

secar, dona Pirada. — Ela estendeu o cobertor. Era, na verdade, um a capa

de lã com capuz. Raven colocou-a no om bro de Keelie e puxou o capuz.

Keelie pensou que na certa seu aspecto refletia o que sentia: total

exaustão.

— Não posso acreditar que a deixou ficar parada aqui, m orrendo de

frio, Zeke. —Janice cam inhou com apreensão até a garota e fechou bem a

capa. — Ela precisa de roupas secas.

— Estas são as m inhas únicas roupas — explicou Keelie, fungando

para causar m ais sensação.

As duas m ulheres viraram -se para Zeke boquiabertas.

— Tam bém estou sem roupa íntim a. Knot fez xixi nas m inhas coisas

que estavam dentro da m ala. — Fungou outra vez.

— Já basta. Vam os levá-la para fazer com pras am anhã. — Janice

aparentava estar decidida.

Zeke ergueu os braços.

— Eu ia fazer isso. Ela só está aqui há um dia.

— Vam os ao shopping. — Raven deu um largo sorriso para Keelie.

— Eu disse que ia levá-la. Vam os am anhã — ressaltou ele, parecendo

derrotado.

— Você? — Raven olhou para a m ãe, que devolveu o olhar incrédulo.

— Nunca foi a um shopping center!

Raven riu.

— Isso eu quero ver. Zeke Heartwood no shopping. Um m om ento

histórico do Festival da Renascença de Montanha Alta. Mal posso esperar

a reação de Keelie quando ela vir o seu veículo. Vou com vocês. Ela vai

precisar de apoio m oral.

— Está bem . Você quer dirigir? — perguntou Zeke, arqueando a

sobrancelha.

— Não, im agine — respondeu a m oça, depressa. — Só vou j unto.

Nem passara pela cabeça de Keelie que tipo de carro o pai teria.

— O que é, um duende? — quis saber a filha, dando um a risada.

Raven balançou a cabeça.

— Você não vai acreditar.

— Você vai ver — acrescentou o pai. Um trovão ressoou de form a

am eaçadora no alto.

Só m uito tem po depois, quando j á estava deitada, Keelie se deu conta

de que não perguntara ao pai o que Elianard quisera dizer com

"hum aninha m estiça".

Nove

do pai. Ela passara a m anha lavando roupa com o sabonete de

ervas de Zeke. Agora suas calcinhas cheiravam a xixi de gato e

alfazem a.

Até tentara usar as m áquinas de lavar e secar, m as parara a alguns

m etros de distância da área, longe da vista de seus ocupantes.

A pequena lavanderia, com fachada de vidro, na qual se encontravam

as duas lavadoras e secadoras industriais, estava cheia de piratas

parcialm ente pelados. Tom avam hidrom el, j ogavam dados e agitavam os

braços, na certa contando histórias uns para os outros, sem nada além da

cueca.

Keelie supôs que lavavam as roupas, m as não ia se aproxim ar dali, por

m ais charm osos que fossem . No entanto, foi divertido olhar para alguns.

Ela poderia até vender ingressos. O Grande Randy — um novo show de

piratas.

Tinha sido um saco lavar toda a roupa à m ão. Da próxim a vez, com ou

sem piratas, usaria as m áquinas, do contrário, seria ela a pela- dona. Mas

tudo isso talvez fosse irrelevante. Dali a duas horas estaria no shopping.

***

Keelie ficou olhando de queixo caído para a cam inhonete velha, de capô

enferruj ado. Dera com ida para Ariel às pressas por causa daquela

geringonça?

— Com o se eu fosse andar nesse chalé de esqui am bulante — disse a

garota. — Todo m undo que m e vir sair desse troço vai achar que vou

cantar feito um a tirolesa.

A ideia de ir fazer com pras num shopping de verdade a deixara quase

eufórica, m as ela desanim ara ao ver o veículo horrendo do pai.

A cam inhonete em si não era tão ruim assim . Parecia até legal, fazia o

tipo caubói à antiga. Mas o trailer estilo chalé alpino fixado atrás, decorado

com o um bolo de aniversário de loj a, com enfeites de biscoito de gengibre,

deixara Keelie horrorizada. Zeke suspirou.

— É o único carro que tenho, Keelie, então, se quiser ir ao shopping

com prar roupas novas, vai ter que ir nesse chalé am bulante.

— Não sei com o você cham a a atenção da m ulherada desse j eito

com entou a filha. — Essa charrete deixa bem claro: "Asilo Terras Naturebas."

— É só um m eio de transporte. E sou m ais velho do que pareço, m as

não estou em idade de m e aposentar.

— Quantos anos você tem ? — Não lhe ocorrera antes fazer essa

pergunta a ele.

— Idade suficiente para ser seu pai. — Ele abriu o trailer.

— Gostaria de fazer a grande turnê, m adem oisellâ

Ela ia recusar, m as o arom a de cedro espalhou-se, oriundo do interior

escuro, com o um perfum e de floresta. Irresistível.

Keelie estendeu a m ão e tocou com as pontas dos dedos a m adeira da

estrutura do trailer. Eram abeto-branco e cedro, de um a área florestal

rem ota no norte de Alberta, no Canadá. Adorável.

A garota estava se acostum ando cada vez m ais com o sistem a interno

de identificação de m adeira com o qual aparentava ter nascido. Em Los

Angeles, ele fora im perceptível, m as ali, em m eio àquela floresta antiga,

atuava com o um equipam ento de som no m áxim o volum e.

O interior do trailer parecia um a casa de bonecas. Um m inifogão e

um a geladeira pequena haviam sido colocados atrás, perto dos dim inutos

balcão e pia. Réstias de alho e de m alagueta desidratada tinham sido

penduradas num gancho, no alto.

— Mas que bonitinha! — Desde que ficasse ali estacionada.

Keelie passou os dedos pelo edredom feito à m ão, com lindos apliques

de árvores, que forrava o colchão, cuj a base encaixava na parede.

Sob a cam a grande havia um a cam inha para anim al de estim ação forrada de lã e decorada com renas. Mesm o que não tivesse adivinhado se

tratar da cam a de Knot, teria reconhecido os pelos laranj a do bichano. Ela

com eçou a sorrir de um j eitinho m alicioso. Quer dizer que o gatinho tinha

um a cam inha de rena. A garota se lem braria de zom bar dele na próxim a

vez que o visse.

Keelie olhou pela j anela e viu a paisagem m aj estosa das m ontanhas

rochosas, que se destacavam com o dentes gigantes de rocha, e a área do

festival, estabelecido ao pé da cadeia enorm e com o um vilarej o de conto

de fadas dos irm ãos Grim m .

Ela passou os olhos pelo interior pequenino. Havia um a atm osfera

aconchegante e independente ali. A garota adorou o chalé, m as algo tinha

que ser feito a respeito do exterior caipira e m ontanhês.

— Está fazendo a turnê de cinqüenta centavos? — Raven m eteu a

cabeça na porta aberta. — E aí, Keelie, o que acha?

— É um a gracinha. Com o um a casinha de boneca.

Zeke sorriu para a filha.

— Eu só não queria ser vista dentro dela. — Keelie viu o sorriso do pai

desaparecer.

— É, im agine com o vai ser aprender a dirigir um chalé. Você tem

quinze, certo?

Aprender a dirigir? Aquele troço? Ela segurou a porta. Olm o.

Pelo visto o pai ficara m eio atordoado tam bém .

— Aprender a dirigir? Já?

— Perca catorze anos, daí pode parecer interessante, né? — Keelie se endireitou. Não ia de j eito nenhum aprender a dirigir naquela charrete,

m as, se Zeke se sentia pouco à vontade com aquilo, ela faria questão de

fazê-lo pensar que queria. — Mam ãe tinha um Volvo. Um carro

superseguro. — A garota deu um piparote no portal.

Raven sorriu para a am iga.

— Minha m ãe m e ensinou a dirigir na velha Kom bi dela. Foi com o

conduzir um a caixa. E o pior é que cheirava a patchuli m ofado.

Raven colocou a bolsa no om bro. Estava ótim a com o j eans de cintura

baixa e vários casacos. Quando ergueu a m ão, Keelie viu um obj eto

dourado reluzir no cós da calça dela. Um piercing.

A garota ficou m orrendo de invej a. Queria tanto ter um ! Com certeza

o faria antes do fim do verão.

— Terra para Keelie. Está pronta para ir até o shopping? — Raven lhe

dava um largo sorriso.

Shopping! Ela se distraíra da m issão de com prar roupas novas. Queria

— não, precisava — fazer com pras. E isso não tinha a ver apenas com

roupa íntim a. Ansiava pelo ar artificial, pelo cheiro de roupa nova da venda

a varej o, sem falar nas fragrâncias de café sofisticado e recém - passado, de

am ostras de perfum e e de arom as m isturados da praça de alim entação —

pão doce de canela, batata frita e com ida chinesa — que restaurariam suas

células sangüíneas. Keelie saltou do chalé, salpicando água ao pisar no

chão.

— Estou pronta.

Se tivesse de andar no trailer alpino para chegar lá, então, caram ba, era o que faria. A m ãe se orgulharia de ver a filha não deixar nenhum

obstáculo im pedi-la de fazer com pras.

Zeke acom odou-se no banco do m otorista da cam inhonete velha, ligou

o carro, e o m otor tossiu com o um paciente com enfisem a, um fum ante

inveterado que Keelie conhecera quando participara das rondas do grupo

de voluntárias, com a avó Josephine.

Raven sentou-se ao lado de Keelie depois que ela entrou, em purrando-

a contra Zeke e, em seguida, bateu a porta do carona.

Por fim , o m otor estalou, dando sinais de vida. Zeke saiu do

estacionam ento de cascalho, situado nos fundos do Festival da

Renascença, onde os atores e vendedores deixavam seus veículos pessoais.

A área estava cheia de trabalhadores do festival usando roupas

com uns, desfrutando do dia de folga. Keelie não viu o capitão Randy . Ela

quase riu ao pensar no tanto que vira dele. Dava um novo significado à

expressão "cova pirata".

— Durante a sem ana, os artesãos fazem seus artigos, deixando

estoques para os fins de sem ana — explicou Zeke.

Outra cam inhonete se aproxim ou deles, m as aquela era totalm ente

norm al, sem am assados e, sobretudo, sem chalé na parte de trás. Estava

cheia de caras de cabelos com pridos. O m otorista se inclinou e atirou

beij os para eles. O capitão Randy ! Será que a tinha visto?

Zeke balançou a cabeça.

Raven revirou os olhos.

— Aquele idiota. Na certa foi até a adm inistração pegar o contracheque — com entou ela.

— Contracheque? — Não ocorrera a Keelie que aqueles caras

ganhavam salário. Achava que todos vendiam artigos, com o seu pai.

A am iga olhou-a ressabiada.

— Isso aqui não é a Terra Média. Quem não é artesão trabalha com o

ator ou artista.

— A Elia recebe salário tam bém ?

— Recebe.

— Não pela personalidade, com certeza. — Quando se aproxim aram

da rodovia, Keelie se abaixou.

— Vai tirar um a soneca? — O perfil perfeito de Zeke estava voltado

para a estrada.

— Não. Só porque eu tive um a recaída tipo Os pioneiros no trailer não

quer dizer que quero que m e vej am passando pelas m ontanhas com o um a

parente de Jed Clam pett.

— Jed o quê?

Keelie deixou escapar um suspiro. O cara era totalm ente tapado no

que dizia respeito à m ídia.

— Aposto que você nunca vê assitcom s da Nickelodeon, vê? Poxa! A

fam ília Buscapé?

— Não conheço esse pessoal, não.

Raven riu e com eçou a cantar a trilha sonora.

— E você com certeza tem idade o bastante para ter visto o program a

assim que ele estreou — acrescentou Keelie.

Ele sorriu.

— Provavelm ente tenho.

— Pelo m enos não choveu m uito até agora. — A am iga observou as

nuvens escuras e baixas.

— Os negócios não andam bem por causa dessa chuvarada. — Zeke

dirigia com am bas as m ãos no volante. Katherine, com um a na direção e a

outra no celular.

— Elianard não parece estar tendo problem as financeiros — com entou

a filha, lem brando-se da túnica luxuosa e da casa sofisticada.

— Ele não aparece m uito no festival. Deve atuar em algum a outra área

— acrescentou Raven.

— É professor. — Zeke acendeu o farol quando a chuva os atingiu.

Keelie não conseguia nem im aginar o que aquele hom em arrogante,

de nariz adunco, podia ensinar. Decerto não educara direito a filha.

Duas horas depois, após andar em m eio à chuva torrencial por inú-

m eras ruas, chegaram ao shopping. Interessante — de acordo com

Cam eron, deviam ter levado apenas m eia hora do Festival da Renascença

até lá.

Com o hom em típico, o pai se recusara a parar para pedir inform ações.

Sem pre que Raven sugerira que ele parasse num posto de gasolina para

perguntar, ele dissera: "Eu sei o que estou fazendo." Se a m ãe estivesse

dirigindo, usaria o radar de liquidação para detectar o lugar exato. Ou o

GPS.

Keelie suspirou com satisfação ao exam inar os grandes tem plos da venda a varej o. Tinha levado seu dinheiro, m as não o gastaria, a m enos que

fosse necessário. O pai lhe devia. Ela recorreria ao dele prim eiro. Além do

m ais, talvez precisasse de grana quando fosse para Los Angeles.

— Vão entrando enquanto eu estaciono.

A filha desceu e foi correndo para a porta, sem ansiar ser vista saindo

do chalé alpino am bulante.

Ela e Raven passaram pela porta giratória e entraram perto de um a

fonte borbulhante. Ouvia-se a m úsica am biente e o burburinho das

centenas de clientes.

Keelie respirou fundo, pronta para um a dose do cheiro daquele

shopping. Aquela garota californiana estava m ais do que preparada para

ele.

No entanto, o ar parecia em bolorado, com um cheiro de reciclado que

lhe pareceu fam iliar, m as ruim . Artificial. Não a levava de volta à sua

antiga vida, com o esperava. O prim eiro ar da atm osfera dos shoppings

sem pre deixara a garota cheia de expectativa. Ela fitou os j ardins internos

bem -cuidados, a fonte de água, as cores cham ativas dos letreiros das loj as,

as vitrines m eticulosam ente m ontadas. Tudo aparentava ser falso.

Não entre em pânico, disse a si m esm a. Tinha tido m uito estresse e

precisava entrar em um a loj a. Um a de verdade, com roupas de verdade; aí,

sim , ia se sentir com o a verdadeira Keelie.

— Estou pronta para um latte grande e um a dose de terapia de

shopping — declarou Raven.

Zeke uniu-se a elas, dando a im pressão de estar desorientado e totalm ente deslocado.

— Por onde a gente com eça? — perguntou. — Esse é o seu am biente

natural?

Keelie fez um gesto am plo e dram ático com o braço, e rodopiou

apoiada num pé só, com o um a bailarina.

— Este é o m eu m undo.

— Então pode com eçar a fazer a grande turnê com igo.

Ela exam inou a lista de loj as e encontrou sua favorita.

— La Jolie Rouge fica no terceiro andar. Vam os com eçar por ela.

— Adoro as roupas de lá. — Raven passou o dedo pelo letreiro

lum inoso de vidro. — Aqui está a cafeteria. Querem ir com igo ou m e

encontro com vocês depois?

— Vam os acabar logo com isso. — Zeke parecia não estar bem .

Keelie queria fazer tudo, m as, se o pai ia im por um lim ite de tem po,

precisava seguir um a estratégia.

Com pre um latte extragrande, dose dupla. E, se tiverem biscotti de

am êndoas,.dois. — Ela olhou para o pai. — E você? Chá de ervas?

— Chá verde — pediu ele. — Com m el.

— Mel oriundo de com ércio j usto. — Raven riu. — Está bem , a gente

se vê daqui a pouco. — E sum iu em m eio à m ultidão.

Zeke pisou desaj eitadam ente no degrau da escada rolante, e a filha

segurou seu braço. Ela não queria que ele caísse e interrom pesse antes do

tem po sua viagem de com pras. O pai endireitou-se, ficou ereto e afagou a

m ão de Keelie, em bora olhasse para cim a, em direção à clara- boia, onde a chuva batia nos painéis de vidro. Os cabelos dele haviam se separado em

torno da orelha, perm itindo que a filha visse com o era pontuda.

Ela tocou na própria orelha direita arredondada e, em seguida, na

esquerda, a que tinha a ponta fora do com um , que ela sem pre m antinha

coberta com os cabelos ou um a faixa. A m ãe lhe dissera que era um a

espécie de m arca de nascença. Agora Keelie sabia a quem culpar.

Talvez todas as orelhas pontudas que vira antes não fossem artificiais.

Com o estava no shopping, deixara para perguntar ao pai depois.

Na loj a La Jolie Rouge, ela foi depressa à seção de adolescentes, onde,

na m esm a hora, com eçou a escolher um as roupas para provar. Depois

reduziu o que pegara para dez blusas e cinco calças de cintura baixa. Zeke

sentou-se num banco de m adeira à j anela e apoiou a cabeça na parede de

vidro, de braços cruzados e olhos fechados. Fazer com pras, obviam ente,

não era a atividade favorita dele.

Um a vendedora novinha, com piercing na sobrancelha, aj udou a

cliente a levar as roupas até a cabine de provas.

— Onde é que você fez esse piercing? — perguntou Keelie em um

sussurro, olhando de esguelha para o pai cochilando.

A m oça, com um crachá em que se lia "Gabrielle", respondeu:

— O único lugar legal para ir aqui é o Tio Harry Mac.

— Tio Harry Mac? — repetiu Keelie. Mais parecia o nom e de um a

lanchonete.

— E. Ele tem loj as em todo o Colorado. E faz tudo: tatuagem , piercing

de sobrancelha, orelha, um bigo. — Gabrielle levantou a blusa e m ostrou o outro piercing. Um berloque de fada o enfeitava. Fadas. Keelie não

conseguia se livrar daqueles troços.

Eu tam bém queria fazer um piercing no um bigo.

— E aí, quem é o gatão que está com você? — perguntou a vendedora.

Em seguida, apontou para Zeke, que continuava de braços cruzados e

olhos fechados, só que agora com a cabeça m eio inclinada para a

esquerda, roncando. Gatão? De j eito nenhum .

— É o m eu pai.

— Uau, cara. — Gabrielle olhou fixam ente para Zeke, e dele para ela.

Keelie pegou de supetão o resto das calças e blusas da vendedora. A

m oça podia ter bom gosto para roupas, m as para hom ens — fala sério! Seu

pai!

Ela provou um a regata com a palavra "Vam pira" escrita com lante-

j oula reluzente à altura do peito. Com o era curta, deixava bastante pele à

m ostra. O j eans vestiu com o um a luva no quadril, em bora Keelie não

gostasse do ar gelado nas covinhas das costas. O que as am igas estavam

usando na Califórnia? Ela com certeza era um a garota fashion, e não um a

renascentista.

Keelie passou a m ão pelo um bigo.

— A gente vai dar um pulo lá no Tio Harry Mac — falou para a

barriga. — Mas nada de berloque de fada. Um aro sim ples ou talvez com a

m inha pedra zodiacal.

Independentem ente do que Zeke dissesse, a m ãe j á prom etera. Bom ,

prom etera discutir o assunto quando voltasse da viagem de negócios. O m undo lhe devia um piercing no um bigo.

— Está vestida? — perguntou Raven, j á m etendo a cabeça no alto da

porta da cabine de provas.

— E se não estivesse? — Keelie tentou dar a im pressão de estar brava,

daí viu a m ão aparecendo sobre a porta, com um grande copo descartável

de café. —Ai, que ótim o. Pode entrar.

E foi o que a am iga fez, sorvendo a bebida.

— Legal essa roupa. Am ei.

Keelie girou para m ostrar a parte de trás.

— Acha que o m eu pai vai m e deixar com prar?

— Sem chance. Mas, considerando que ele está lá cantando a

vendedora, então você pode se aproveitar da situação.

— Hein? — Keelie m eteu a cabeça para fora da porta. Gabrielle estava

sentada bem pertinho de Zeke, que observava a vendedora com

perplexidade. Eca. Keelie tinha que pôr um basta naquilo. Saiu em um

salto e fez um a pose de "tchã". — E aí, pai, o que é que você acha?

Gabrielle sorriu.

— Roupa legal. Está poderosa, hein, gata?

O pai de Keelie franziu o cenho.

— Vam pira? De j eito nenhum .

— Com o assim de j eito nenhum ? O que você entende de m oda?

Ele se levantou e cruzou os braços à altura do peito, com o o gigante

verde da em presa alim entícia Green Giant.

— Não entendo de nada relacionado à m oda, m as conheço vam piros.

Não vou com prar isso para você.

Gabrielle arregalou os olhos.

— Irado.

— Ah, fala sério. Eu trouxe o m eu próprio dinheiro e vou com prar, se

for preciso. — Keelie olhou para Raven em busca de um pouco de apoio.

A am iga bebia o café e os observava com o se eles fossem um program a de

TV ligeiram ente interessante. — Vou com prar.

— Está bem . Com pre. Desperdice o seu dinheiro. Tenho certeza de

que Knot vai concordar com igo. É m uito adulto para você, e os vam piros

são m aus. Não vai usar isso.

— Com o assim , Knot vai concordar com você? Ele é um gato.

— Lem bra o que aconteceu com a sua roupa íntim a?

A vendedora pareceu confusa.

— Seu gato escolhe a sua calcinha e o seu sutiã?

A am iga j á havia se inclinado e lim pava o café do nariz.

— Dá um a força aí, Raven. Você não está aj udando em nada. — Keelie

se virou para Zeke e Gabrielle. — Eu realm ente não vou falar dos m eus

sutiãs e das m inhas calcinhas com você. — Ela não chegou a especificar a

quem aquele "você" se referia.

Na cabine de provas, tirou com raiva a regata da vam pira pela cabeça.

Um a coisa que a m ãe tinha ensinado era a não desperdiçar dinheiro,

m esm o se fosse para m agoar alguém . Keelie observou as roupas: se não ia

levar aquela regata, as outras roupas tam bém não dariam certo. Exceto,

talvez, pela blusa de algodão verde com cordão à altura do peito e m angas bufantes. Estilo Galadriel. Qual era o nom e daquela loj a idiota? Cantinho

de Galadriel. Na certa toda a galera peram bulando com as orelhas

protéticas fazia com pras ali. Não Keelie. Ela cobriu a orelha pontuda com

os cabelos.

Saiu da cabine de provas. Zeke olhava um as cam isetas num cabideiro

redondo. Raven o acom panhava, com um cabide apoiado no om bro. A

vendedora estava com três pendurados no braço.

— Poxa, ficou superlegal. Tipo O senhor dos anéis, sabe — disse

Raven.

Keelie pigarreou.

— Aí, cara, essa roupa caiu feito um a luva em você — disse Gabrielle.

Em seguida, olhou de esguelha para Zeke, na m aior paquera. — Quer

dizer, se o seu pai quiser, né?

Ele anuiu.

— Essa está m elhor. Você está linda, Keelie.

Gabrielle entregou m ais blusas.

— Dá um a olhada nestas. Seu pai que escolheu.

A garota pegou-as. Beleza, se você fosse para um a rigorosa escola

particular para princesas encantadas. Ela não voltaria com um guarda-

roupa com o o de Elia.

Um a blusa branca, transparente, com bordado colorido em torno da

gola era a única decente. Keelie a estendeu.

— Esta aqui não é tão ruim assim .

Raven m ostrou o que tinha em seu cabide. Um j eans, um suéter de m anga com prida j usto e um a cam isa de m anga bufante, de tecido

transparente, enfeitada com contas: tudo preto.

Zeke as olhou.

— Decentes, m as deprim entes.

— Todo m undo se veste assim em Nova York. — Raven estendeu o

braço com o cabide, adm irando suas escolhas. — Se você não gosta destas,

vou com prá-las para m im .

— Têm tudo a ver com você — concordou Keelie. — Não sei o que

com prar.

— Algo colorido que sirva. Algo para m oças. — Zeke olhou para

Gabrielle em busca de conselho.

— A Buttons'n Lace fica lá — disse ela, apontando para um lado do

shopping. — E a Noir Leather, ali. — E indicou o outro lado. — As

m eninas usam esse tipo de roupa.

Gabrielle estava tentando aj udar, m as Zeke a olhou de um j eito

contrariado.

— Vocês decidem . Vou dar um a olhada na Noir Leather — avisou

Raven, pegando seu café e se levantando. — A nam orada do Tarl faz

com pras lá. Você sabe quem é, Keelie. Ela estava de olho no traseiro do

seu pai outro dia.

Keelie tam bém se lem brou das silhuetas na barraca dele.

— Ui, eca.

A garota observou a am iga sair. Ia acertar contas com ela depois por

tê-la deixado à m ercê do gosto do pai.

Depois de provar m ais j eans e cam isetas, Keelie colocou a blusa verde

com m angas bufantes e o j eans de cintura baixa, itens que não expunham

as covinhas de suas costas. O pai com prara para a filha cinco blusas e

cinco calças. Ela usara o próprio dinheiro para com prar a regata de

vam pira. Não a deixaria ali. E, se Knot aprontasse algum a, Keelie ganharia

protetores de orelha de pelo de gato.

Segurar as duas sacolas pesadas de La Jolie Rouge definitivam ente

equilibrou a garota. Ela se sentiu m ais com o a Keelie de sem pre.

Seu pai, entretanto, aparentava estar m ais pálido do que nunca —

m esm o m ais branco do que quando Gabrielle registrara as roupas e

anunciara o total. Não pareceu ter feito diferença a filha garantir a ele que

gastar quinhentos dólares na La Jolie Rouge não era tão ruim assim . Elas

até tinham saído baratas. Ele é que não entendia de com pras.

Após pararem num a sapataria, onde Zeke com prou para Keelie o tênis

Nike recém -lançado, ela j ogou os Skechers lam acentos na caixa,

rebaixando-os à condição de tênis de bater. Zeke ficara pálido outra vez

quando a atendente do caixa lhe dera o valor de 107 dólares. Keelie

precisou acariciar seu braço para deixar claro que era aquilo m esm o.

Ela pegou o cartão de crédito da m ão do pai quando ele ia guardá-lo

na carteira.

— Banco da Floresta do Pânico? Existe m esm o?

A atendente sorriu.

— Claro que sim , ou pelo m enos o com putador confirm a. Zekeliel

Heartwood. Adorei o nom e. — Sua voz pareceu adocicada o bastante para atrair form igas.

Keelie im aginou form igas-de-fogo na m inissaia da m ulher e sorriu.

Devolveu o cartão ao pai.

— Pânico tam bém é o nom e do cachorro do Elianard. O pai da Elia

disse que nem acreditou quando eu consegui passar por ele.

Zeke engasgou com o chá verde que tom ava.

Eles se encontraram com Raven na Noir Leather. Entrar na loj a j á era

instrutivo, m as para adultos. Zeke tirou a filha depressa dali e obrigou-a a

esperar no corredor enquanto ele procurava a am iga.

Keelie ficou olhando para a roupa íntim a das m anequins na vitrine.

Parecia que Knot tinha dado um j eito naquela indum entária. Desfiadas,

com correntes.

Raven saiu cheia de sacolas tam bém .

— Um as com prinhas básicas.

A últim a parada foi num a loj a de departam entos para a aquisição de

calcinhas, sutiãs e m eias sem xixi. Raven aj udou m uito a am iga ali e,

duzentos dólares depois, até Keelie teve de adm itir que estava exausta. O

cartão de crédito Banco da Floresta do Pânico tinha sido posto à prova.

Todas as m ulheres do Shopping Colorado olharam para Zeke com o se

ele fosse um a espécie de Adônis, m as seu pai não olhou de volta.

Concentrou a atenção na filha, que gostou disso.

— Ei, Zeke, e se a gente com er algo antes de voltar para o festival?

Tem um a praça de alim entação ali. — Raven se virara para observar um

corredor e cheirara o ar.

A barriga de Keelie roncou quando ela sentiu o arom a de com ida de

verdade, não m edieval. Chinesa. De repente, ficou m orrendo de vontade

de com er rolinho prim avera.

— É parecida com a praça real? — quis saber o pai.

— Com certeza, está dando um a de bobo da corte — respondeu a

filha.

Zeke parou e sorriu para ela.

— Você acabou de fazer um a brincadeira — com entou ele.

— E, ela j á está se sentindo m elhor — acrescentou Raven, cutucando

o om bro da am iga.

Ao se dar conta de que brincara, Keelie ficou surpresa. Devia ter a ver

com todas aquelas com pras. Tinha voltado ao m undo norm al. Precisava

tom ar cuidado — não podia se descuidar. Era bem provável que o pai

achasse que estavam se dando bem .

A cam inho da praça de alim entação, ela viu um a área com telefones

públicos. Um a tábua de salvação, um m eio de com unicação com Laurie.

Talvez conseguisse dar um a escapulida e ligar.

No fast-food de com ida chinesa, Keelie pediu frango agridoce e

rolinho prim avera. Zeke pediu um a gororoba vegetariana qualquer com

tofu.

Enquanto eles aguardavam a com ida na fila, Keelie com entou com o

quem não queria nada:

— Ei, preciso ir ao banheiro.

— Vai lá. A gente acha um a m esa.

— Eu vou j unto. — Raven cam inhou com ela em direção ao banheiro.

— Raven, eu realm ente queria telefonar para um a am iga m inha na

Califórnia. — Ela prendeu a respiração, pensando que a outra pudesse

contar a Zeke.

— Tudo bem . Eu vou lavar as m ãos, j á que toquei em tudo na Noir

Leather. — Raven deixou-a perto dos aparelhos de telefone e prosseguiu.

Keelie ligou para a telefonista. Ainda bem que não havia falcões ali.

— Para quem gostaria de fazer a cham ada a cobrar?

— Laurie Abernathy . Quer dizer, Elizabeth Abernathy , em Los

Angeles, Califórnia.

A ligação foi feita e, tal com o antes, a telefonista perguntou assim que

atenderam :

— Aceita um a cham ada a cobrar de Keelie Heartwood?

— Aceito, claro. — A voz de Laurie soou com o m úsica aos ouvidos de

Keelie, ainda m ais ali no shopping, com ela cercada de com pras. A garota

estava de m uito bom hum or. Sentiu-se m ais perto de sua m ãe.

— Prossiga — disse a telefonista, que, em seguida, desligou.

— Ei, o que aconteceu com você ontem , Keelie?

— É um a longa história.

— Com o vão as coisas? É tudo bem prim itivo com o a gente im aginou?

— Pior ainda. E você não im agina a bizarrice. Preciso m e m andar

daqui.

— Estou bolando um plano. Puxa, estou tentando ligar para o seu

celular há séculos.

— Eu deixei cair na lam a. Não está funcionando.

— Que droga, hein?

— É. E o pior é que as m inhas roupas extraviaram . Foram parar em

Istam bul.

— Tipo, na Turquia?

— Na capital. Pelo m enos o m eu pai teve que com prar roupas novas

para m im . Estou num shopping agora. E o plano qual é?

— Tem os problem as? A m am ãe não está achando m uito legal a ideiade

você se m udar para cá? Tipo assim , ela está de nam orado novo? — Ela

enfatizava o final da m aioria das frases, transform ando todas em perguntas.

— Bom , eu não cheguei a com binar tudo com ela.

— Keelie, achei que sim .

— Não tive tem po de deixar tudo acertado antes de a advogada

aparecer com as passagens de avião.

Keelie sabia que precisava voltar antes que Zeke achasse que tinha

caído dentro da privada, m as Raven ainda não saíra do banheiro.

— A gente teria acertado tudo se você não tivesse ido em bora tão

rápido. — Laurie deu a im pressão de estar chateada.

— Eu vou bolar um plano novo. De repente posso ficar aí com você até

isso acontecer.

— Claro, am iga. Mas tem certeza? Minha m ãe está, tipo, com a m aior

TPM esta sem ana. Até eu pensaria em dorm ir num a barraca para ficar

longe da Mam ãe Urso — salientou Laurie. — Ela m e fez até lavar roupa.

— Pelo m enos você tem um a m áquina de lavar. — Zeke tinha encontrado um a m esa. Keelie o viu perscrutando a área, querendo saber

onde estavam . — Vou tentar ligar de novo daqui a alguns dias. Zeke está

de olho em m im com o um falcão. — Falcão. Ela sentiu um a pontada de

dor no peito. Teoricam ente, tinha de dar continuidade à alim entação de

Ariel.

— Tudo bem . Se cuida, hein, Keelie? Vou ligar para a m inha prim a

que m ora em Boulder para ver se ela pode aj udar a gente.

— Ótim o. Tchau, Laurie. — Ela desligou. Estava com saudades da

am iga. Estudavam j untas desde o j ardim , e aquela separação lhe dava a

sensação de estar longe de um a irm ã.

Keelie fechou os olhos. Contenha as lágrim as. Manter o que sentia

trancafiado na caixa se tornava cada vez m ais difícil. Alguém colocou um

lenço de papel à sua frente.

— Valeu, Raven. — Ela pegou o papel e enxugou os olhos.

A am iga pareceu solidária.

— É dureza, eu sei. Vam os com er.

Solidária até certo ponto. Elas se dirigiram à m esa.

Zeke estava diante de um a porção enorm e de m acarrão com verduras

e pedaços de tofu. Keelie tinha perdido o apetite. Ficou beliscando a

com ida enquanto o pai devorava a dele.

Raven olhou para os dois e, em seguida, colocou os pauzinhos na

m esa.

— Acho que preciso voltar à loj a de artigos de couro. Esqueci um troço

lá.

— Quer que a gente vá j unto? — perguntou Zeke, de cenho franzido.

— Não, com am . Eu j á volto. Conversem vocês dois.

Quando ela saiu, Zeke virou-se para Keelie.

— Você está bem ?

A filha não respondeu. Com os pauzinhos, pegava ervilhas e cenouras

e as em pilhava num aterro vegetariano no canto do prato.

— Acho que vir para um shopping lhe dá a sensação de estar em casa e

faz com que se lem bre da sua m ãe.

Keelie olhou-o, surpresa por ele captar o que pensava.

— Por que deixou a m am ãe ir em bora?

Ele deu a im pressão de ter tentado m anter a expressão im passível e