A Filha do Pastor das Árvores
legal nem sim pático com ela. Era…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
A garota se aj oelhou e perscrutou as árvores ao redor. Nada de falcão.
Sentiu um enorm e alívio. A ave tinha ido em bora.
Keelie se levantou. Algo roçou a parte de trás de sua cabeça com um
leve golpe. Ela entrou em pânico. Ficou totalm ente im óvel e, em seguida,
sua respiração acelerou quando o falcão pousou com suavidade num a
cerca ali perto. As garras da ave penetraram na m adeira enquanto Keelie
tentava se equilibrar, as asas longas estendidas, porém ligeiram ente
dobradas.
Com a boca seca, a garota contem plou os olhos dourados do falcão
enquanto ele a exam inava. A ave virou a cabeça, e o tem or de Keelie
dim inuiu, sendo substituído por com paixão. Um dos olhos do falcão
m ostrava-se leitoso. Cego.
Durante toda a sua vida, Keelie nunca ficara tão perto de um anim al
m aj estoso e lindo com o aquele. A cegueira do falcão não dim inuía seu poder; a proxim idade levou a garota a sentir algo dentro de si — com o se
um botão tivesse sido ligado em sua alm a.
Um a brisa suave fez as penas da ave esvoaçarem . O bipe irritante
vindo do telefone público desviou a atenção de Keelie, que parou de se
concentrar no falcão, dando-se conta de que a ligação para Laurie caíra,
assim com o a conexão com sua casa.
Ela estendeu a m ão, pegou o fone e se aproxim ou do telefone para
pressionar as teclas e ligar para a am iga. Sorriu para o falcão. A ave a
observou, sem se m over, até a garota apertar os botões de m etal. Então
grasniu de novo, com o se lhe perguntasse: "O que é que está fazendo? Por
que quer ir em bora?"
Keelie largou o telefone público, cam inhou até a cerca de m adeira e
tocou nela. Era cedro, e em sua m ente viu fileiras de árvores plantadas.
Um a fazenda com arvoredo.
O falcão soltou outro grasnido. Keelie se virou e viu os dois hom ens
que tinham passado apressados havia apenas alguns m inutos. Eles
cruzaram os portões com torre e, em seguida, pararam quando ouviram a
ave grasnar de novo. O olhar de Keelie foi dela para os hom ens.
— Esta ave é de vocês?
Um dos hom ens gritou:
— Não se m ova, garota.
O outro estendeu o braço em que usava um a luva de couro grossa e
rígida.
— Vem , Ariel, vem aqui com igo — bradou.
O prim eiro suj eito fez gestos cautelosos para Keelie.
— Não se m ova, ela é perigosa.
Ah, agora você m e avisa.
O falcão desviou o rosto dos hom ens para observar a garota outra vez.
Devia ter sido ele a fugir durante o show de aves de rapina quando Keelie
chegara no dia anterior.
No alto, as árvores sussurravam um as para as outras. A garota sentiu
seu toque na brisa que acariciava seu rosto. Leve com o um a plum a.
Plum as. Keelie intuiu que o falcão não iria com aqueles hom ens, m as
talvez fosse com ela.
Ariel virou o olho dourado na direção de Keelie e, quando os olhares
delas se encontraram , am bas se conectaram . Um a com preensão fluiu
entre as duas alm as feridas, cheias de dor. Naquele m om ento, a garota se
deu conta de que tinha um a am iga no Festival da Renascença de
Montanha Alta.
Keelie aproxim ou-se do falcão.
— Você vem com igo?
A ave balançou a cabeça, com o se dissesse que sim . Ariel foi
cam inhando pela cerca, m ovendo as garras até se aproxim ar de Keelie.
— Melhor se m over bem devagar — avisou o hom em de luva. Em
seguida, tirou a luva e j ogou-a virada para cim a na direção da garota. Ela
caiu aos pés da m enina. Ariel inclinou-se para trás, com o se pronta para
saltar na luva, m as se acalm ou. — Ponha a luva e depois estenda o braço.
Cuidado, as garras dela são tão afiadas quanto navalhas.
Keelie pôs a luva, m ovendo-se com cuidado para não assustar o falcão.
Ficou feliz por contar com aquela proteção contra as garras afiadas.
Ariel m eneou a cabeça para cim a e para baixo, exam inando a garota e,
em seguida, lançou-se rum o a ela e pousou em seu antebraço. Era enorm e,
m as não tão pesada quanto Keelie im aginara. A garota m anteve a cabeça
afastada, receando o bico perigoso perto de seu rosto. Ariel baixou a
cabeça e inclinou-se para a frente. Keelie im itou seu m ovim ento e a ave
encostou a testa na da garota.
— Minha nossa!
— Olhe só para isso!
Ignorando as exclam ações dos hom ens, Ariel e Keelie se tocaram ,
pena com pele, até, por fim , a m enina erguer a cabeça.
— Nós duas devíam os ter alçado voo para bem longe daqui quando
tivem os a oportunidade — sussurrou ela, perto da cabeça suave do falcão.
***
Na gaiola das aves de rapina, Keelie ficou sabendo da história triste de
Ariel por m eio dos dois hom ens. Uns adolescentes tinham atirado nela
com um a pistola de ar com prim ido, e o chum bo danificara
perm anentem ente seu olho esquerdo.
Sem conseguir m ais enxergar bem o bastante para caçar, ela fora
levada aos reabilitadores de aves de rapina. Com o podia voar, vivia
tentando escapar, m as sem pre voltava quando ficava com fom e. O pro-
blem a era que sua visão debilitada a colocava em risco de se ferir ou de ser
m achucada.
Aquela era a prim eira vez que ela voara até alguém , e os dois suj eitos
pareciam ter ficado im pressionados com Keelie conform e a ladearam no
cam inho até as gaiolas.
— Graças às estrelas e aos planetas, Ariel voltou para nós — com entou
um a m ulher alta e delgada, de cabelo bem curtinho e diferente. Keelie a
reconheceu: era Cam eron, a m ulher que segurara a coruj a-das-neves no
dia anterior, e a única no festival com corte curto com o o seu. — Você
deve ser m uito especial. Ela não deixa ninguém tocá-la além de m im e
Tom . — Cam eron fez um gesto em direção ao suj eito que em prestara a
luva para Keelie.
A garota ficou feliz com o elogio. O vento da tem pestade, que se
aproxim ava, j ogou um a m echa em sua testa, m as ela não ousou tirá-la.
Cam eron virou-se para os hom ens.
— Vocês j á foram apresentados a Keelie Heartwood?
Os dois a fitaram atentam ente.
— Está vendo agora? — disse um deles.
O outro anuiu com o se tivesse ficado sabendo de algo especial.
— Faz sentido.
A m ulher franziu o cenho ao notar as árvores balançando ao vento no
alto.
— A tem pestade está chegando. Vam os colocar as outras aves nos
abrigos.
Os hom ens foram cuidar disso, apressados. O om bro de Keelie estava
doendo de segurar o falcão. Ela girou o pescoço, tentando fazer o sangue circular de novo.
— Com o você sabia o m eu nom e?
— A gente se conheceu ontem , lem bra? — Cam eron dirigiu o olhar
perspicaz a Keelie. — Os anim ais sem pre gostaram de você? Você sabia
que tam bém tem o dom da cura?
— Eu nunca estive perto deles, exceto do gato da m inha am iga. — Ela
não respondeu a pergunta a respeito do dom . Im agine. A m ãe sem pre
considerara que a m edicina não era a carreira adequada para Keelie.
Cam eron abriu a porta de um a grande gaiola de aço e cham ou a
garota.
Em bora não quisesse fazê-lo, Keelie entrou lá com Ariel no braço e
colocou o falcão perto de um galho grande na parte interna. Por incrível
que parecesse, a ave deu um salto até o poleiro e se acom odou, com o se
sua fuga não tivesse sido nada fora do com um e agora estivesse na hora de
um a soneca.
— Incrível — salientou Cam eron. Ela sorriu m ais quando observou
Keelie soltar o falcão. Não havia nenhum desdém nem com placência em
seu olhar. — Se você não for do tipo m elindroso, pode vir aqui am anhã
alim entar Ariel na hora do alm oço dela.
— O que ela com e? — A garota im aginou um saco de ração de falcão.
— Ratos.
A expressão da m enina deve ter deixado transparecer sua decepção.
— Está a fim ? — quis saber Cam eron.
Keelie contem plou Ariel no poleiro. O olho leitoso do falcão estava voltado para ela. A ave não era totalm ente cega, pensou. O olho branco
assem elhava-se a um a lente que perm itia a percepção da alm a da ave, e
Ariel com partilhava a dor de ter perdido sua liberdade.
Em bora dar ratos para falcões fosse asqueroso, Keelie nem cogitou
não fazê-lo. Cam eron tirou a luva de sua m ão.
— A que horas?
— À um a da tarde — m arcou Cam eron. Seus olhos se voltaram com
agilidade para as aves e, em seguida, para Keelie. Ela m esm a podia ser
considerada um pássaro.
— Eu venho.
Keelie com eçou a se retirar, só que antes se virou para dar um a últim a
olhada em Ariel. O falcão fechou os olhos.
— Até am anhã, Ariel.
A cam inho da loj a do pai, a garota percebeu que m uita gente ia
em bora, fitando com apreensão as nuvens cada vez m ais baixas.
Keelie, que j á estava fam inta de novo, parou para com prar um m ilho
no espeto, cheio de m anteiga. Quando pagou, entreouviu um m undano
com entar que havia um aviso de tornado na região.
— Com licença, que horas são?
— Quatro. Essa sua roupa é de que, garota? — quis saber o hom em ,
rindo de sua saia.
Ela olhou para baixo.
— Sou um a princesa encantada. O que m ais?
Deixou o suj eito fitando-a boquiaberto e voltou rápido para a trilha.
Aviso de tornado. Isso não acontecia na Califórnia. O que ela deveria
fazer? Sua única experiência nesse âm bito vinha dos film es Twister e O
m ágico de Oz.
Keelie observou um velho enrugado, com barba com prida, passar por
ela, o robe roxo esvoaçando ao vento. Pensando bem , aquele lugar tinha
m uito a ver com Oz.
Ela ficara um longo tem po no Abrigo de Aves de Rapina, m ais do que
planej ara. O pai ficaria preocupado, m as, fosse com o fosse, fora ele m esm o
que lhe dissera para explorar o Festival da Renascença; ela só seguira seu
conselho. Na certa, ele nem sentira sua falta naquele dia. Ela podia
apostar que se m antivera ocupado com os m óveis e as fãs.
Interessante com o o tem po passou rápido quando estava com Ariel.
Tinha se esquecido por com pleto de Laurie tam bém . Precisava ligar para a
am iga de novo. Am anhã., pensou. Depois que alim entasse o falcão.
Keelie parou de súbito. Estivera tão distraída com endo o m ilho com
m anteiga de form a bagunçada que não prestara m uita atenção no
cam inho.
Ali estava: a área do show de lam a. Ela olhou para o corpete e, então,
observou as estam pas de m ão na parte de trás da saia. Teve de sorrir,
apesar de odiar aquela fantasia. O hom em cham ado Tarl, que lhe levara a
roupa, estava parado ali perto, conversando com um suj eito pequenininho.
Ela se lem brou das silhuetas e dos gem idos vindos da barraca dele no
Condado na noite anterior. Provavelm ente não conseguiria conversar com
ele com expressão séria. O indivíduo com quem ele conversava parecia m uito com Sir Davey Morgan. Keelie observou m elhor. Era o próprio. Ela
esperava que ele não a constrangesse trazendo à tona aquela baboseira de
m agia terrena.
Um lado seu quis sair dali correndo, sem nem falar com os hom ens, e
o outro, o com passivo, despertado por Ariel, quis ficar. Tarl tinha sido bem
legal com ela, aj udando-a. Apesar de aquela roupa ser um farrapo
abom inável, fora um gesto am ável da parte dele. Bem diferente do que
Keelie podia dizer de certas pessoas. A im agem de Elia lhe veio à m ente.
Janice, a m ulher das ervas, tinha sido gentil com ela tam bém , m as Keelie
chegara à conclusão de que a dona do herbanário só queria se dar bem
com o seu pai. E ainda havia Raven. Um a m oça legal, a irm ã m ais velha
que nunca tivera.
Num im pulso, decidiu ir até Tarl para agradecer a roupa e avisar que
sua bagagem devia estar chegando logo. Tentaria não rir ao se lem brar da
im agem de sua silhueta nua, em form a de pera.
Tarl a viu e acenou.
Ela retribuiu o gesto e cam inhou até os dois hom ens. A im agem dos
contornos do hom em despido na barraca passou por sua cabeça de novo.
Eca.
Pigarreando, a garota tentou encontrar as palavras certas e acabou
dizendo:
— Obrigada pela roupa.
Tarl sorriu.
— De nada, Keelie. Ficou bem em você. Quero lhe apresentar Sir Davey Morgan. — Ele fez um gesto em direção ao m osqueteiro m iniatura.
— E esta é Keelie Heartwood.
Sir Davey fez um a reverência e, daquela vez, sua pena de avestruz
passou pela lam a.
— Já tive o prazer de conhecer Lady Keelie, Sir Tarl.
Lady Keelie. Ela gostou disso.
— Seu chapéu — exclam ou a garota. A plum a estava agora fina e
m arrom , arruinada com os fragm entos de lam a.
Sir Davey tirou o chapéu e a exam inou de cenho franzido. Voltou a
colocá-lo.
— Um a bela lam a lim pinha nunca fez m al a ninguém , fez, Tarl?
— Lam a é m inha vida, Sir Davey . — O hom enzarrão olhou de es-
guelha para um grupo de participantes do show. — Vou até lá com os
outros. Estam os ensaiando um a nova apresentação. Quer vir conosco?
— Acho que lidei com m ais lam a nas últim as vinte e quatro horas do
que vou querer fazer pelo resto da vida — ressaltou a garota.
Sir Davey agitou a m ão em cim a dos restos de lam a do chapéu.
Pedacinhos de lodo saíram da plum a. Keelie ficou pasm a. A ponta antes
m arrom e grudada da pena de avestruz m ostrava-se agora branca, com o se
tivesse sido m etida em neve fresca.
— Com o o senhor fez isso? — perguntou ela. — Foi um truque?
— Conte-m e, Keelie Heartwood, quando criança, você fazia torta de
lam a?
— Torta de lam a? Eu? Não.
— Perdeu um aspecto im portante da sua infância, m oçoila.
— Por quê? É ruim não fazer tortas de lam a?
Sir Davey acom odou-se na beira do palco e deu uns tapinhas no lugar
ao seu lado. Keelie sentou-se.
O pequeno hom em pegou um punhado de lam a e apertou-o entre os
dedos.
— Isto faz parte da Terra.
— Certo. — Ela podia dispensar as lições de ciências do Capitão
Óbvio.
Sir Davey arqueou a sobrancelha grisalha para ela.
— Não acha que é im portante?
Keelie deu de om bros.
— Pense nos artistas que trabalham com argila... As crianças, bom ,
todas elas são artistas e criam do fundo do coração. Já as viu brincando na
lam a, na caixa de areia? Não dizem "eca, que noj eira!".
Ela teve de sorrir diante da im itação do sotaque de um a garota
californiana.
Eu brinquei m uito na praia quando era pequena. Só que nunca com
lam a.
— A-há, ela adm ite que brincou. — Sir Davey lhe deu um largo
sorriso. — E com areia. Até m esm o os elem entais estão surpresos com
essa afirm ação.
— Elem entais?
— Eu explico depois. Prim eiro, quero que sinta a lam a, que a pegue.
A repulsa levou-a a estrem ecer.
— Já lidei o bastante com lam a, obrigada.
— Não sej a covarde.
— Covarde? — Ela estendeu a palm a direita. Sir Davey colocou a bola
de lam a em sua m ão.
— Você pode criar com o coração, sem que sua m ente interfira no
processo. — Sir Davey pôs a m ão sob a dela e fechou os dedos da garota
de m aneira que envolvessem a argila, que se espalhou na hora.
— Eca. — Mas não era bem assim .
O barro deixou escapar um arom a terroso, totalm ente diferente das
m assinhas perfum adas com as quais Keelie brincara quando criança.
Com seus dedos pequenos, Sir Davey form ou outra bola. Com sua
argila, a garota form ou tam bém um a bola e deixou-a cair no piso do palco.
Meteu o indicador nela.
— Eu fiz xícaras rústicas para m inha m ãe na aula de arte quando
m exem os com barro no ensino fundam ental. A professora as queim ava no
forno. Mam ãe pegou um a delas para usar com o porta-caneta no escritório.
Ela fez outro furo no bolo de lam a.
Sir Davey continuou a form ar algo com o dele. Keelie não sabia
exatam ente o que era, m as aquilo lhe trouxe um a lem brança.
— Quando eu estava no terceiro ano, fiz um broche de inseto para
m inha m ãe. E era um bicho feio. Pintei o troço de preto com bolinhas cor-
de-rosa, e ainda assim ela o usou para ir à igrej a no Dom ingo de Páscoa.
Não com binava nem um pouco com o vestido de grife com estam pa de flores am arelas, m as m am ãe disse que aquele broche era um a obra de arte
e que todas as outras m ães ficariam com invej a dela naquele dia.
Sir Davey abriu a m ão e m ostrou um a réplica de lam a do broche de
inseto que Keelie fizera para Katherine. O coração da garota encheu-se de
pesar. Ela j á não podia duvidar da m agia. A tristeza deixou a caixinha na
qual Keelie a m antivera trancafiada com tanta firm eza quanto sua raiva. O
broche de inseto do hom enzinho destrancara a fechadura.
Keelie fechou os olhos, tentando im pedir as lágrim as antes que ele as
visse. Quando os abriu, o inseto desaparecera e, em seu lugar, surgira um
pedaço rústico de lam a.
— A terra sob nós nos conecta. Estam os todos sobre sua superfície, da
qual dependem os para sobreviver — disse Sir Davey . — Às vezes, ela pode
ser lam acenta e desordenada; às vezes, protetora e terapêutica. E é só um a
pequena parte do seu m undo, Keelie. Não se esqueça disso nos próxim os
dias e m eses.
A garota ouviu o pai cham ando-a. No início, achou que fosse parte da
lição do hom enzinho, m as, então, deu-se conta de que ouvia de fato a voz
dele. Zeke estava a poucos m etros dali.
— Keelie, aí está você. Onde é que andou o dia inteiro? Procurei você
por toda parte.
A filha afastou a m elancolia e com parte de seus sentim entos de
tristeza. Foi com o guardar um a caixa secreta e trancada, cheia de tesouros.
Ela não queria que o pai notasse sua nostalgia e, de algum m odo, achava
que ele poderia captá-la. Acrescentou um a barreira invisível de tij olos ao redor do que sentia.
— Zeke. Que bom ver você. — Sir Davey fez um a reverência em
direção ao pai de Keelie, que o cum prim entou m eneando a cabeça.
— Davey , então j á conheceu Keelie.
— Foi um a honra. — Ele saltou do palco e fez um a m esura para a
garota; em bora a pena de seu chapéu tenha roçado na lam a, perm aneceu
intacta, branca. — Gostei da nossa conversa. Venha m e ver am anhã, e vou
lhe m ostrar com o fiz.
Keelie sentiu um calafrio e percebeu, surpresa, que era por causa da
expectativa. Sorriu para Sir Davey . Ele levou o dedo aos lábios. Nosso
segredo.
— Venha. Vam os para casa — cham ou Zeke.
— Para a sua casa — corrigiu a m enina.
O pai soltou um suspiro.
— Vam os.
Eles estavam bem longe da loj a, e o silêncio entre os dois fez a
distância parecer ainda m aior. Quando se aproxim aram de lá, Keelie foi
correndo à frente, subiu depressa a escada e abriu a porta. Perscrutou o
quarto, em busca de suas m alas, m as, para sua decepção, não havia
nenhum sinal delas.
O pai, pelo visto, analisou seu rosto.
— Procurando o gato?
— Não, a m inha bagagem . Achei que chegaria hoj e.
Ele deixou escapar um suspiro ainda m ais forte.
— A com panhia aérea telefonou e avisou que ainda vai dem orar m ais
alguns dias; parece que suas roupas e outros pertences foram parar em
Istam bul.
— Istam bul? Por acaso não é um subúrbio de Fort Collins, é?
— Fica na Turquia.
Ela se j ogou na cam a.
— Não dá para acreditar! Aqueles idiotas não conseguem entregar um a
sim ples m ala! — Muito m enos dez.
— Elas foram rastreadas de Los Angeles até o Havaí e, depois,
encontradas em Hong Kong. Agora estão a cam inho de Istam bul.
—Achei que ficaria alguns dias sem as m inhas roupas, m as, na
verdade, podem ser sem anas, né? Não posso m ais ficar andando por aí
usando essa fantasia ridícula. É hum ilhante dem ais.
— Concordo. Não fica bem em você — disse o pai. — Mas precisa de
outros itens além de roupa. Vou levá-la para fazer com pras am anhã.
Keelie o fitou e, em seguida, teve um acesso de riso.
— Você? Vai m e levar para fazer com pras?
Ele balançou a cabeça.
— Inacreditável, eu sei. Vam os tentar os shoppings de Fort Collins. E
você pode ir até o Cantinho de Galadriel para com prar alguns traj es estilo
renascença.
Shopping. A palavra que a fazia feliz.
— Não vai ser tão ruim assim , eu prom eto — acrescentou Keelie,
colocando os pés na cam a. — Sério, há quanto tem po você participa deste festival de Fort Collins?
— Três m eses por ano nos últim os sete — respondeu ele.
— Tudo isso? — Ela fez as contas. Desde que a filha tinha nove anos.
— Já foi ao shopping?
— Nunca.
— Nunca? Com licença, m as em que século a gente está?
Ele riu.
— Não se preocupe, filha. Acho que não vai ser difícil encontrar o
lugar.
— Você sabe dirigir?
— Keelie, eu sei interagir no universo m undano.
— O que alguns cham am de m undo real.
— Por falar em m undo real, os livros da sua nova escola devem chegar
esta sem ana. Acho im portante darm os início aos seus estudos o quanto
antes.
Se o pai quis que ela parasse de pensar nas roupas ao trazer esse
assunto à tona, conseguiu. Já estavam quase no verão.
Keelie pegou um a alm ofada verde com um a linda árvore bordada em
tons dourados e abraçou-a diante do peito.
— Vam os ver se entendi direito: você quer que eu fique fazendo dever
de casa durante as férias de verão? Aqui, e não num a escola com outras
garotas da m inha idade?
— Daqui a três sem anas, nós vam os para o Festival da Renascença de
Nova York. Ficarem os oito sem anas lá, e você vai poder m anter as lições em dia por correspondência. Quando finalm ente voltarm os para casa, no
Oregon, j á estará atualizada em relação aos seus colegas de classe.
— Acha que eu vou para Nova York e para o Oregon com você.
— Foi m ais um a afirm ação que um a pergunta. A resposta era óbvia.
— Acho, Keelie. Você é m inha filha. Nós som os um a fam ília.
Precisam os ficar j untos.
A garota sentiu um a fúria dom iná-la. Jogou no sofá a alm ofada, que
ricocheteou e caiu no piso. Então, levantou-se e chutou-a.
— Eu e m inha m ãe éram os um a fam ília. Você largou a gente, lem bra?
Meu lugar é na Califórnia. Lá, sim , é m inha casa. Não o Oregon. Não com
você.
Zeke pareceu ter ficado m agoado. Bem feito.
— Keelie, lam ento m uito que estej a m agoada. Sei que sente m uita
falta da sua m ãe. Mas seu lugar é aqui, com igo.
— Por acaso j á pensou no que eu perdi? Não só a m am ãe com o
tam bém as m inhas am igas e até o m eu quarto? — Ela estava brava consigo
m esm a naquele m om ento. Iria chorar? — Você tom ou todas as decisões.
Num m inuto eu estava em casa, noutro aqui, neste... neste...
— Gesticulou com as m ãos, sem encontrar as palavras.
— É outro m undo, não é? — O pai olhou ao redor, no quarto.
— Minha vida m udou tam bém . Não estou acostum ado a ter um a
criança por perto. Nem um a m ulher.
— Ah, sim , aposto que as suas fãs estão tendo que fazer análise em
grupo de tão tristes que estão.
Ele arregalou os olhos.
— Fãs?
— Não m e diga que não nota todas as m ulheres se atirando em cim a
de você o tem po todo. E que história é essa de Keliel? E das orelhas tipo
Spock que todo m undo usa aqui? Este lugar é m ais que bizarro.
— Ela deu outro chute na alm ofada. — Eu quero ir para casa. Para a
Califórnia. Quero a vida que levava antes de volta.
— Ainda que sua m ãe ainda estivesse viva, você viria para cá m ais cedo
ou m ais tarde.
— Até parece! Quer dizer que de um a hora para outra eu ia querer um
pai depois de anos sem um ?
— Você precisaria vir até aqui para aprender a controlar seu dom .
— Pelo visto, falava sério.
Ela olhou para o pai. Zeke sabia? Ela passara o pão que o diabo
am assara a vida inteira, achando que era algum tipo de m utante genética,
e ele soubera?
— Mam ãe sabia? — sussurrou Keelie, os lábios dorm entes.
Zeke baixou os olhos, evitando fitá-la.
— Sabia, foi um dos m otivos que a fez ir em bora.
— Mam ãe foi em bora? Mas ela disse que tinha sido você.
— Seu m undo virara de ponta-cabeça de um a hora para outra. A m ãe
m entira para ela?
— Nós estávam os no Oregon. Então ela pegou você e voltou para a
Califórnia. — O tom de voz dele foi se suavizando a cada palavra.
— Então por que você não pediu a m inha guarda? Claro que agora não
teria adiantado nada, porque j á tenho quinze anos. Depois de doze, j á se
pode escolher, e eu com certeza não viria para cá.
Seu pai, de súbito, ficou im óvel, com o se prendesse a respiração.
— Foi o que sua m ãe lhe disse? Que abandonei você e que não a
queria?
— Bom , não com tanta clareza assim . Mas a gente estava na
Califórnia, e você se dedicava à sua vida de cigano. E nunca pediu m inha
guarda, m uito m enos para fazer visitas. — Todas as am igas de Keelie que
tinham pais divorciados contavam com visitas regulares.
— Visitas? Guarda? — Ele deu a im pressão de estar totalm ente
transtornado e tam bém um pouco furioso. — Inacreditável, Keelie. Sua
m ãe e eu nunca nos divorciam os.
Oito
rodopiavam na cabeça de Keelie, deixando-a tonta. Ela se j ogou
na cam a alta e abraçou um travesseiro.
As lágrim as ardiam em seus olhos, e Keelie fechou-os com força. Não
choraria. Mas por que não? Quem veria? Então ela afundou a cabeça no
travesseiro e deixou as lágrim as rolarem .
Keelie tinha vontade de atirar ou quebrar algo, ou até m esm o de rasgar
algum a coisa até a raiva passar.
Colorado, Nova York, Oregon. Mas não a Califórnia.
Nunca.
Nunca.
Nunca.
Algo ronronou perto de sua cabeça. Ela abriu os olhos. Ali, lem brando
um a pilha peluda de folhas de outono, estava Knot, enrolado no canto do
travesseiro.
— O que está fazendo aqui?
Ele ronronou com m ais força ainda.
— Vá em bora.
O ronronar aum entou.
— Aquele cavalo teria feito você em pedacinhos se eu não tivesse
gritado com ele.
O ronronado parou.
— Gato m al-agradecido.
E recom eçou.
— Detesto felinos.
Ele parecia m ais um m otor de autom óvel.
— Odeio você em especial.
O gato abriu os estranhos olhos verdes e piscou, fitando-a.
A cada insulto, a fúria devastadora que sentia por dentro foi
dim inuindo um pouco.
— Você é feio.
Knot espreguiçou-se e bocej ou.
— Deixa pelo em tudo quanto é lugar.
O gato sentou-se.
— Tinha m ais era que apanhar por ter feito xixi na m inha m ala.
Ele lam beu o pelo do rabo com a língua rosada.
— Eca! Que noj o!
O felino saltou da cam a e dirigiu-se, cam baleante, à porta. Então,
sentou-se, a cabeça voltada de um j eito esperançoso para Keelie.
Ela saiu da cam a, foi até Knot e encarou o bichano insolente, com as
m ãos na cintura.
— Não sou sua porteira não, viu?
Ele piscou.
— Está bem . — Keelie abriu a porta e o gato saiu, esprem ido. Ela
chegara à conclusão de que, se não o tivesse deixado sair, ele teria feito xixi
no quarto, que ficaria com um fedor insuportável. Por sinal, era bem
possível que nem conseguisse tirar o cheiro horrível da urina dele de sua
roupa íntim a e de sua m ala.
Keelie ouviu o pai conversar com alguém ao pé da escada. Podia
entrever suas costas e entreouvir a resposta sussurrada da m ulher.
Encostou a porta, deixando um a fresta para poder ver e ouvir.
— Não sei com o m e aproxim ar dela — dizia Zeke.
A m ulher aconselhou:
— Melhor dar tem po à sua filha, Zeke. Ela acaba de chegar a um
m undo novo, totalm ente diferente do que ela conhecia; para com pletar,
ainda está sofrendo por causa da perda da m ãe.
A voz assem elhava-se à da introm etida Janice. Keelie não precisava que ninguém a defendesse. Se vinha chocando o pai com sua atitude
rebelde, então seu plano estava dando certo. Ele ia querer se livrar da filha
o quanto antes, o que significava que ela poderia ir m orar com Laurie em
Los Angeles.
Keelie estava fazendo um favor ao pai.
Ela observou os om bros dele se encurvarem .
— Eu nunca deveria ter concordado em não m e m eter na educação
dela anos atrás. Mas era o que Katy queria. Ela receava o que poderia
acontecer com Keelie no futuro. Com o se m antê-la longe de m im pudesse
m udar os fatos.
A garota prendeu a respiração. Não fora ideiada m ãe que Zeke não a
visse. Com o ele ousava j ogar a culpa de sua ausência em Katherine!
— O que você vai fazer? Não restam dúvidas quanto ao que ela é —
com entou a m ulher. — Todo m undo está falando de sua filha aqui no
festival. Ela precisa saber, Zeke, e aprender a se controlar. Já andou
causando estragos. O gato, por exem plo. E a pobre Elia; não que a m enina
não m erecesse. Mas, se os m undanos notarem , vai ser bastante
com plicado para todos nós.
Keelie quase saiu do esconderij o. Eles tinham enlouquecido?
O pai se sentara na escada e esticara as longas pernas. Então apoiara a
cabeça nas m ãos.
— Ela não quer saber m ais a respeito dos dons que tem . Katy a fez
pensar que tínham os nos divorciado e que eu tinha abandonado as duas.
Então era verdade. Ela sentiu a cabeça pesar.
Knot deu um salto e foi para o colo de Zeke, que o afagou atrás da
orelha, distraído. O gato fechou os olhos e abanou o rabo.
Keelie m ovim entou os lábios, form ando a palavra "fedorento".
O bichano abriu os olhos, que reluziram com o um estranho gás
pantanoso esverdeado. Mais esquisito ainda foi o gato ter olhado direto
para Keelie, com o se a tivesse escutado. Ele com eçou a ronronar tão alto
que ela o ouvia lá de cim a.
Keelie fechou a porta com cuidado. Quer dizer que ela era o assunto
do m om ento no Festival da Renascença? Bom , grande coisa. Ela estava
indo em bora de qualquer form a.
De j eito nenhum ficaria esperando que Zeke quisesse ter outra
conversinha sobre sua nova vida. Esperou o pai sair da escada e voltar a
trabalhar, daí calçou o sapato e pôs-se a descer a colina. Precisava ver
Ariel. Tinha m uito em com um com aquele falcão preso. Talvez
conseguisse conversar com ele.
O céu estava bem m ais escuro do que o norm al naquela hora do dia,
em bora j á tivessem cancelado o aviso de tornado. Keelie na certa perderia
o j antar, se é que Zeke planej ava preparar algo. O m ais provável era que a
m andasse ir com er de novo na casa de chá da sra. Butters. Que
m ulherzinha esquisita.
Keelie passou por com erciantes, que guardavam as m ercadorias e
fechavam as loj as. Alguns olharam de esguelha para ela e, em seguida,
voltaram a se concentrar nas tarefas. A garota franziu o cenho. Estaria com
m au hálito? Lá estava ela, vestida com o um a deles, m orando lá e, ainda assim , sendo tratada com o um a pária. Não que quisesse se tornar a
princesa do pedaço. Mas, ainda assim , que m al faria se eles a saudassem ?
Ela dim inuiu o passo quando chegou ao palco de apresentação das
Aves de Rapina. Um a plaquinha perto de um pinheiro enorm e inform ava:
"Gaiolas." Atrás se encontrava a área em que ficavam as aves. Estava
escura e silenciosa.
E se ela entrasse ali e acordasse os bichos? As coruj as grandes, os
abutres, os falcões? O grasnido atrairia um a m ultidão. Keelie parou e
olhou ao redor. A loj a de Sir Davey ficava ali perto, m as ela não estava a
fim de outra lição sobre areia e lam a. Ouviam -se os trovões no alto,
em bora parecessem distantes.
Talvez acordar as aves fosse m á idéia. Ela precisava de aconchego e de
pessoas à sua volta. Pensou no Condado. A garota se virou rum o ao
cam inho. Talvez tom asse m ais que alguns goles da garrafa quando a
passassem . Necessitava de algo que não só a esquentasse por dentro com o
tam bém por fora.
Na noite anterior, a barraca estivera aconchegante e seca. Ela se
perguntou em qual dorm iria Sean. E se ele o fazia sozinho. Talvez Raven
soubesse. Keelie iria até o Condado e perguntaria a ela. Deu a volta e
com eçou a descer a colina, m antendo-se perto dos m ercadores do outro
lado de Heartwood, caso Zeke a visse.
Passou pelo Cantinho de Galadriel e dirigiu-se rápido para baixo,
rum o à ponte. Lem brou-se das instruções de Raven. "Atravesse a ponte e
depois o prado", sussurrara. Não saia do cam inho.
Quando Keelie viu os contornos da ponte, observou luzes à esquerda.
Isso m esm o. Ela se recordou dos am antes transando debaixo da ponte na
noite passada. Com tantas construções e barracas por ali, seria de pensar
que escolheriam um lugar m ais quentinho e seco. Ogros não viviam
debaixo da ponte. Ou viviam ?
Ela pensou nas lesm as, nos sapos e nas aranhas que com certeza
m oravam ali. Mais assustadores que qualquer ogro, na opinião dela.
Keelie tocou na cerca de m adeira. A m ão zuniu e form igou. E ela
soube. Sequoia da Califórnia.
— Está longe de casa, hein? — sussurrou ela. De súbito, tirou a m ão.
E inalou. Tinha que dar um basta àquilo. Precisava ficar com os outros
j ovens que frequentavam o Condado. Com otim ism o, encontraria Sean.
Ela se im aginou apoiando as m ãos no peito do rapaz enquanto ele a
abraçava. Visualizou o calor do corpo dele passando ao seu.
— Keliel.
Seu nom e espalhou-se no ar com o um perfum e parcialm ente
lem brado. Um espectro dele, carregado pela brisa leve e arrastado com o se
o falante estivesse cantando, m as se houvesse esquecido da m elodia.
Ela olhou ao redor com nervosism o. Keliel. A voz a cham ara
claram ente por seu nom e form al. Não Keelie, o apelido dado pela m ãe.
Quem além do seu pai e da sra. Talbot o conheciam ?
A brisa com gotículas de chuva fez seu cabelo esvoaçar.
— Keliel — repetiu a voz, num lam ento. A garota teve a im pressão de
que o som vinha de debaixo das tábuas sob seus pés. — Keliel, nade com igo.
Que diabos? Ela olhou para baixo. Que trem enda fria. Ela se lem brou
do m om ento em que cam inhara ali na noite anterior, com Raven,
conversando sobre film es de terror. Film es horripilantes em que m oças
que cam inhavam sozinhas no escuro sem pre acabavam partidas em
pedacinhos.
As garotas nesses film es eram tapadas dem ais para viver. Keelie não se
considerava im becilizada; então, o que é que fazia ali à noite? Não ia ficar
para descobrir quem ou o que conhecia seu nom e. Seu nom e verdadeiro.
De repente, ela se deu conta de que reinava a quietude. Não se viam
nem m esm o insetos. Luz. Keelie olhou para trás, para a subida rum o a
Heartwood. Nada de luz. Som ente a lua ilum inava o cam inho. Nuvens
m oviam -se depressa no céu arroxeado.
Ela olhou ao redor e, em seguida, parou. Havia um ponto ilum inado.
Situava-se no outro lado da clareira. A garota disse a si m esm a que não
estava com m edo ao com eçar a correr. O cascalho sob seus pés ressoava
enquanto ela se dirigia à luz. Devia ser o Condado.
Já saíra da trilha naquele m om ento, tentando ignorar a com ichão na
pele ao passar por um a árvore após a outra. Tantas. Pinheiro, pinheiro,
carvalho, pilriteiro. Havia algo neste arbusto. Mas Keelie não ficou lá para
descobrir o que era.
Correu m ais rápido, ansiando chegar ao trecho ilum inado. Tom ou o
sentido norte, com a lua ao lado direito. O prado por onde corria exalava
um a fragrância agradável em virtude do capim . No fim dele, havia um a floresta. E a luz vinha de lá. De súbito, um a nuvem de insetos saiu da
gram ínea. Yaga-lum es. Centenas e centenas deles.
As nuvens de tem pestade encobriram a lua e, de repente, escureceu.
Um verdadeiro breu. Sem estrelas. Keelie não tinha com o se orientar. Os
vaga-lum es brilharam m ais, parecendo se ilum inar com a escuridão.
Adej avam form ando um a cerca viva.
Ela parou, tem erosa. Os insetos não costum avam reluzir m ais. E
aqueles não cintilavam , acendendo e apagando com o os norm ais.
Sim plesm ente brilhavam . Com o lâm padas. Keelie com eçou a retroceder.
Não queria passar por eles. Sua barriga doía, com o se tivesse sido apertada
por um longo tem po. Ela estrem eceu. Tinha que encontrar o cam inho de
volta para casa. Queria sua m ãe.
Talvez devesse pedir instruções à voz na ponte sobre que rum o tom ar.
Está bem , talvez fosse m elhor não. Mas era estranho. Não tinha m edo do
escuro. E com certeza não tem ia insetos nem luzinhas.
Keelie se obrigou a dar um passo adiante. Vagalum es eram apenas
insetinhos. Bichinhos voadores costum avam ser assustadores, m as aqueles
ali podiam ser considerados inofensivos, com o as j oaninhas. Raven teria
seguido em frente — com certeza teria passado direto pela escuridão
assustadora, e o que quer que estivesse na floresta sentiria m edo dela.
A garota deu um passo em direção ao bosque, em seguida, outro. As
luzinhas se aproxim aram , m as, depois, sum iram de vista, pois ela estava
nos lim ites de um vilarej o, de um de verdade, nada lam acento com o o
festival.
Por que o lugar onde m orava o pai não tinha aquele aspecto tão bom ?
Ela pisou no tapete de folhas em form a de agulha da floresta e sentiu um
alívio im ediato, com o se tivesse se livrado de um a dor desconhecida.
Um a torre de pedra erguia-se rum o às copas das árvores, adornada
com folhas do m esm o m aterial e libélulas esculpidas e enfeitadas com
j óias. Poxa, o pai era habilidoso, m as aquela gente fizera um trabalho do
nível de designers.
Não chegava a ser um a m ansão de Bel-Air, m as, se Keelie fosse viver
sem com odidades, com certeza o faria daquele j eito. O lugar exalava um
arom a delicioso, com o se ela houvesse entrado num a loj a de sabonetes e
crem es. Que cheiro seria aquele? Parecia Natal ali. Um toque sutil de
canela im pregnava a floresta predom inantem ente de pinheiros.
Um m ovim ento na base da torre cham ou a atenção da garota. Elia
estava lá dentro, tocando a harpa. Caram ba. Keelie se aproxim ou de form a
sorrateira. Morava em cim a de um a m arcenaria, e Elia num a torre de
pedra, com o um a princesa? Não era m uito j usto.
Antes que conseguisse se aproxim ar, um hom em chegou perto dela.
Parecia saído de O senhor dos anéis. Alto, com cabelos louros com pridos,
rosto longo e glacial, usava um a túnica escarlate, que arrastou no solo da
floresta quando ele se pôs diante dela, im pedindo sua passagem .
— Uau. Nossa, que bom ver você. Pode m e dizer com o faço para voltar
para o festival?
— Quem é você? Com o chegou aqui?
Elia foi até a porta.
— Pai, tem algum a coisa errada? — Ela viu a garota e ficou paralisada.
— Keelie? Com o é que conseguiu passar pelo Pânico?
Aquele hom em era o pai de Elia! Na m esm a hora, Keelie notou a
sem elhança entre os dois. O sorriso sarcástico devia estar m esm o
em brenhado no código genético. A m enina inclinou a cabeça naquele
j eitinho pernóstico de sou-m elhor-do-que-você que tanto irritava Keelie.
Depois a filha de Heartwood teria que fazer um a im itação de Elia para
Raven.
Mas o Pânico? Quem era, seu cão de guarda?
— Eu não vi nenhum Pânico. Saí da trilha e m e perdi. Olhem , se m e
m ostrarem o cam inho de volta, vou dar o fora daqui agora m esm o. Ah, e
adorei a sua roupa. Onde com prou? — Folhas bordadas em dourado
enfeitavam as m angas am plas: um ostentoso tem a natural. Com binava
com a atm osfera de designer da área.
Fitando Keelie com raiva, o pai de Elia agitou um a corrente prateada
de um lado para o outro, com o um pêndulo.
— Você é a traquina de Heartwood. A hum aninha m estiça dele.
O estranho pêndulo atraiu a atenção da garota, um a vinha de espinhos
com um a noz de carvalho enroscada abaixo. Keelie estrem eceu quando
seus olhares se encontraram . O fruto da árvore balançava de um j eito
hipnótico. Agarrando a ponta do pêndulo, ele o guardou na m anga bufante.
Assim que o artefato desapareceu, a garota se encheu de coragem .
— Sou Keliel Heartwood — confirm ou, dando o nom e com pleto. — E
quem é você?
O hom em franziu o cenho de um j eito gélido.
Na cabeça da garota, surgiu um a voz clorofilada, com arom a de seiva,
em contraste com a fragrância forte de canela, dizendo-lhe com o ele se
cham ava.
— Elianard. É o seu nom e.
Ele deu um passo atrás.
— Com o ela sabia, pai? — Elia pareceu quase assustada.
De repente, um a escuridão acachapante envolveu Keelie. As árvores
oscilaram , sem , no entanto, que ela sentisse o vento; em vez disso, fez
calor. Ficou m uito quente e úm ido. O suor escorreu por Keelie à m edida
que ela se afastou, cam baleante, das im agens de Elianard e Elia. A túnica
carm esim dele transform ou-se num torvelinho averm elhado e escuro. Um a
risadinha insuportável circundou Keelie conform e ela se retirou correndo,
desaj eitadam ente, dali. Tinha que sair daquele lugar. Naquele instante.
Não podia ficar nem m ais um m inuto sequer. Se ficasse, não conseguiria
m ais respirar.
Algo arranhou suas pernas à m edida que ela correu. Keelie só tinha
um pensam ento em m ente: sair da floresta. Dedos fibrosos com unhas
pontudas e afiadas agarraram sua saia. Ela viu sarças e espinhos, e tam bém
teve a im pressão de ter vislum brado olhos, braços e pernas em m eio ao
caos.
Keelie foi depressa até um a faia e a abraçou. Pressionou o rosto contra
a casca suave. A seiva vivificante da árvore fluía pelo tronco com o o sangue
verm elho que circulava pelo corpo da garota. Um galho tocou o cabeça dela com dedos em form a de graveto de m aneira recon- fortante, com o a
m ãe fazia quando ela estava transtornada. Keelie sentiu o pesar vir à tona.
Lágrim as espontâneas fluíram por seu rosto, por um lado elim inando seu
m edo e, por outro, revelando um grande vazio dentro de seu coração.
Keelie perguntou, num m urm úrio suave:
— Mãe, cadê você? Qual é o cam inho do festival?
Com o em resposta, ela ouviu o fluxo de água ali perto. Tinha que ser o
riacho. Keelie ergueu a cabeça rum o à copa e podia j urar que, por um
instante, vira uns bonequinhos prim itivos feitos de gravetos, gram as e
folhas nos galhos m ais altos da árvore. Balançou a cabeça. Desde que