A Fórmula de Deus

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 5 de 7 · parte 2/3

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A Fórmula de Deus

Capítulo XXVII

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

"O que quer você dizer com isso?"

"O que eu quero dizer é que não foi você que conseguiu fugir, ouviu? Fomos nós que o

deixamos escapar."

"Como assim?"

"A transferência de Evin para a Prisão 59 não foi senão um pretexto para possibilitar a sua fuga."

Tomás mirou Ariana, acreditando e não querendo acreditar.

"Isso é verdade?"

O silêncio da iraniana foi eloquente.

"Foi a doutora Pakravan quem planejou tudo", revelou o coronel, como se falasse por ela. "A sua transferência, o teatro no meio da rua para o convencer de que estava a ser resgatado, tudo."

O recluso manteve o olhar preso em Ariana, atordoado.

"Foi então tudo uma encenação..."

"Tudo", repetiu Kazemi. "Ou você pensa que é normal um preso escapar-se com toda aquela facilidade das nossas mãos, uh?" Sorriu com uma expressão sarcástica. "Se você fugiu, foi porque nós queríamos que você fugisse. Entendeu?"

Tomás mostrava-se perplexo, os olhos agora saltitando entre os dois iranianos.

"Mas... com que objetivo? Para quê isso tudo?"

O coronel suspirou.

"Ora, para quê?", perguntou com desprezo. "Porque tínhamos pressa, claro. Porque queríamos que você nos conduzisse ao segredo sem mais perda de tempo." Acomodou-se no banco. "Não tenha dúvidas de que você cantaria como um canário se o puséssemos no Prisão 59."

"Então por que não me mantiveram lá?"

"Porque não somos parvos. Se você foi apanhado à noite no Ministério da Ciência a roubar um manuscrito relacionado com o nosso programa nuclear, era evidente para toda a gente que não fez isso porque lhe apeteceu. Você estava a mando da CIA ou de qualquer outra organização americana. E, se estava envolvido com a CIA, é claro como água que a última coisa que iria confessar era esse fato." Encolheu os ombros. "Quer dizer, você acabaria por confessar, é evidente. Mas poderia levar meses. E nós não temos meses."

"E então?"

"E então? E então a doutora Pakravan apresentou a sugestão que resolveu o problema.

Deixamo-lo fugir e, depois, era uma questão de lhe seguir os passos. Entendeu?"

Tomás voltou a mirar Ariana.

"Portanto, não passou tudo de uma encenação."

"Hollywood", disse Kazemi. "E do melhor. Mantivemo-lo sob vigilância e, depois, foi só uma questão de o seguir e ver para onde nos levaria."

"Mas o que vos levou a prever que eu continuaria a busca? Afinal de contas, o manuscrito estava em Teerã."

O coronel riu-se.

"Caro professor, o senhor não me entendeu bem. É evidente que você não iria procurar o documento. O que você iria procurar eram pormenores sobre as investigações do professor Siza."

"Ah!", exclamou Tomás. "O professor Siza. O que fizeram vocês dele?"

Kazemi tossiu.

"Bem... uh... houve um pequeno acidente."

"Como assim, um pequeno acidente?"

"O professor Siza foi nosso convidado para visitar Teerã."

"Convidado? Vocês têm por costume entrar à bruta em casa dos vossos convidados e escancararem-lhes o escritório?"

O oficial sorriu.

"Digamos que o professor Siza precisou de ser um pouco... enfim... um pouco... convencido a vir visitar-nos."

"E o que lhe aconteceu?"

"Bem, se calhar é melhor começarmos pelo princípio", disse Kazemi. "No ano passado, um dos nossos cientistas, um tipo que trabalha na central de Natanz, regressou de uma conferência de físicos em Paris com uma informação muito interessante. Ele disse-nos ter escutado uma conversa entre outros físicos, um dos quais confidenciou possuir um manuscrito desconhecido com a fórmula da maior explosão jamais vista e que estava a ultimar investigações que completariam as descobertas contidas nesse documento. O nosso homem apurou o nome do cientista que segredava estas coisas. Era um tal professor Augusto Siza, da Universidade de Coimbra."

"Foi assim que souberam da existência de A Fórmula de Deus.”

"Sim. Ao tomar conhecimento disto, e depois de algumas hesitações, montamos uma operação para nos apossarmos desse segredo. Como sabe, ao longo deste ano tem havido uma grande pressão internacional sobre o nosso programa nuclear, com ameaças veladas de sanções, bombardeamentos e tudo o mais que se possa imaginar. Ora, perante isso, o governo decidiu apressar as investigações, de modo a tornar a nossa posição... uh... inexpugável."

"Vocês querem desenvolver armas nucleares, é o que é."

"Claro. Quando as tivermos, ninguém se atreverá a atacar-nos, não é? Olhe para o exemplo da Coréia do Norte." Arqueou as sobrancelhas, enfatizando a ideia. "De modo que decidimos avançar. Com a ajuda de uns amigos libaneses, fomos lá a Coimbra, deitamos a mão ao professor Siza, convencemo-lo a mostrar-nos onde se encontrava o manuscrito e, claro, convidamo-lo a vir conosco para Teerã. Foi um diálogo caloroso, mas ele acabou por se deixar convencer quando o seu nariz tomou contacto com uma persuasiva quantidade de clorofórmio." Sorriu, muito satisfeito com a forma como apresentara a situação. "Uma vez em Teerão, pusemo-nos a ler o manuscrito de Einstein e houve umas coisas que... enfim, não pareciam muito claras. De modo que fizemos umas perguntas ao professor. Primeiro fomos muito gentis, muito polidos, mas ele resolveu armar-se em casmurro e não disse nem uma palavra. Teimoso como um burro. De modo que tivemos de empregar os grandes meios."

"O que lhe fizeram?"

 

"Pusemo-lo na Prisão 59."

"Puseram-no na Prisão 59? Sob que acusação?"

Kazemi riu-se.

"Não são precisas acusações para pôr alguém na Prisão 59. Lembre-se de que a Prisão 59 oficialmente não existe e que, para efeitos formais, o professor Siza não estava sequer no Irã."

"Ah, pois."

"De modo que lá o internamos num quarto com serviço de cinco estrelas."

"E então?"

"Fizemos-lhe um interrogatório. Começamos com uma versão suave, mas ele voltou a não colaborar. Dava sempre umas respostas disparatadas, evidentemente concebidas para nos enganar. De modo que tivemos de passar aos grandes meios."

"Os grandes meios?"

"Sim. O problema é que a coisa não correu bem. O professor tinha, aparentemente, um problema cardíaco para o qual não fomos antecipadamente prevenidos."

"O que aconteceu?"

"Ele morreu."

"Como?"

"Ele morreu no interrogatório. Tínhamo-lo pendurado de cabeça para baixo e estávamos a dar-lhe umas vergastadas quando o corpo se tornou inerte. Pensamos que ele tinha perdido os sentidos e tentamos reanimá-lo, mas ele não voltou a si. Fomos examiná-lo e descobrimos que estava morto."

"Filhos da puta."

"Foi um bocado chato", comentou Kazemi. "O velho morreu antes de poder revelar qualquer coisa. Isso atrapalhou-nos um bocado a vida, como deve calcular."

"Que coisas esperava que ele revelasse?"

"A interpretação do manuscrito de Einstein, claro. Pois se o manuscrito continha enigmas e o seu proprietário tinha morrido, como poderíamos nós compreender o documento? Ficou montado um grande problema, o que pensa você? Houve cabeças que estiveram para rolar." Passou a mão pelo pescoço, como se a sua fosse uma delas. "Felizmente que os nossos serviços do VEVAK tinham referenciado previamente todo o círculo de pessoas próximas do professor Siza. Foi assim que percebemos que ele era amigo de um matemático chamado... uh... qualquer coisa Noronha."

Tomás abriu a boca, horrorizado.

"O meu pai."

"Um homem com quem o professor Siza conversava muito, ao que parece." Kazemi inclinou-se no banco, uma expressão quase conspirativa nos olhos. "O que nós precisávamos de saber era se, durante essas muitas conversas de amigos, o defunto físico revelara algum dos segredos do manuscrito de Einstein ao distinto matemático. Está a perceber? Portanto, bastava-nos fazer umas perguntinhas ao matemático." Encolheu os ombros. "O problema é que o matemático, viemos nós a perceber, estava gravemente doente. Nem pensar em repetir o número que já tínhamos montado com o professor Siza. A coisa acabaria outra vez mal e atrairíamos atenções indesejadas. Mas

precisávamos de ter a resposta ao nosso problema, não é? O que fazer?" Fez uma pausa, para efeitos dramáticos. "Foi então que descobrimos que esse matemático tinha um filho que era criptanalista. A coisa encaixava na perfeição. Trazíamos cá o filho e ele ajudar-nos-ia a decifrar os enigmas do manuscrito. Se não conseguisse, era provável que, descobrindo a proximidade entre o pai e o professor Siza, lhe fizesse algumas perguntas. Parecia perfeito."

"Estou a ver."

"As coisas correram inicialmente bem. Você foi a Teerã, viu as cifras e começou a trabalhar nelas. A doutora Pakravan fez-nos relatórios muito elogiosos, comunicando-nos até um grande sucesso no que diz respeito ao primeiro enigma, o do poema. Estávamos todos muito satisfeitos. O problema foi o assalto ao Ministério da Ciência. As coisas descambaram aí. Quando fomos informados de que você tinha sido detido naquelas circunstâncias, percebemos nesse instante que a

CIA estava metida ao barulho. E isso, como deve calcular, complicava grandemente a situação."

"Pois claro", ironizou Tomás. "Deve-vos ter estragado a noite toda."

"Nem imagina", confirmou Kazemi. "Foi uma chatice. Pensamos primeiro em arrancar-lhe a informação à força, mas depressa se tornou evidente que você não sabia tudo. Com muita propriedade, ali a doutora Pakravan chamou-nos a atenção para o fato de que você nem sequer tivera ainda tempo de questionar o seu pai. Ora, tínhamos de criar essa oportunidade, não é? Tínhamos de deixá-lo falar com o seu pai e depois seguir-lhe os passos, ver até onde nos conduziria."

"Mas vocês acreditam mesmo que o meu pai sabe de alguma coisa?"

O coronel encolheu os ombros.

"É uma possibilidade."

"E que coisa ele saberá?"

"Saberá, por exemplo, onde está guardado o segundo manuscrito."

"Qual segundo manuscrito?"

"Ora. A segunda parte de Die Gottesformel."

"Qual segunda parte de Die Gottesformel? Mas do que raio está você a falar?"

Kazemi suspirou, quase como se estivesse a dirigir-se a uma criança.

"Existe uma segunda parte do manuscrito. O documento que levamos para Teerã encontra-se incompleto. Onde está a segunda parte? Foi isso o que perguntámos ao professor Siza. Onde está a segunda parte? Ele não nos respondeu."

"Mas como é que vocês sabem que há uma segunda parte?"

"Por causa da cifra."

"Qual cifra?"

"A cifra assinalada no manuscrito." Ajeitou-se no banco. "Eu sei que você não pôde ler Die Gottesformel, mas eu vou-lhe explicar. A determinado ponto do texto, já bem perto do final, Einstein escreve que descobriu a fórmula que provocará a grande explosão e que essa fórmula se encontra registada noutro sítio. Depois acrescenta see sign e a cifra. Acreditamos que essa é a chave para a descoberta da segunda parte do manuscrito."

"Mas onde está essa segunda parte?"

Kazemi suspirou, uma ponta de nervosismo na sua postura agressiva.

"Não sei", exclamou. "Diga-me você."

"Eu? Mas o que quer que eu lhe diga? Eu não faço a mínima idéia sobre o paradeiro dessa... dessa segunda parte. Aliás, só agora estou a saber que existe uma segunda parte do manuscrito."

"Não se faça de parvo", rosnou o iraniano. "Não é isso o que eu quero saber."

"Então é o quê?"

"Eu quero saber o que lhe revelou o seu pai."

“O meu pai? O meu pai não me revelou nada."

"Está a querer convencer-me de que não falou com ele?"

"Claro que falei", disse Tomás. "Mas não sobre o manuscrito de Einstein."

"E sobre as investigações do professor Siza?"

"Também não. Nunca me passou pela cabeça que ele pudesse saber alguma coisa de relevante para o caso."

Kazemi esboçou uma expressão impaciente.

"Ouça, aconselho-o a não brincar comigo, ouviu?"

"Eu não estou a brincar consigo. Que eu saiba, os únicos que andam para aqui a brincar são vocês!"

"Então o que está você aqui a fazer?"

"Eu? Eu estou aqui porque vocês me sequestraram, ora essa! Aliás, exijo ser imediatamente..."

"O que está você aqui a fazer no Tibete?", cortou o iraniano, redireccionando a pergunta.

"Ah", entendeu Tomás. "Bem... uh... vim à procura do rasto do professor Siza, claro." Fez um ar resignado. "Mas se vocês o mataram, acho que já encontrei a minha resposta, não é?"

"E por que razão veio ao Tibete procurar o professor Siza? Porquê o Tibete?"

Tomás hesitou, interrogando-se sobre o que poderia contar ao homem do VEVAK.

 

"Porque... porque me apercebi de que ele mantinha contactos com o Tibete."

"Que contatos?"

"Uh... não sei."

"Você está a mentir. Que contatos?"

"Não sei, já lhe disse. Estou a tentar descobrir."

"E o que vai fazer?"

"Eu? Eu já não vou fazer nada. Que eu saiba, o professor Siza morreu."

"Sim, mas onde o iria tentar localizar?"

"Já tentei."

"Onde?"

"No Potala, pouco antes de vocês me sequestrarem."

"Porquê o Potala?"

"Porque... uh... porque encontrei em casa dele um postal do Tibete com a imagem do Potala."

"Onde está esse postal?"

"Deixei-o... deixei-o em Coimbra."

Era mentira, claro. Trouxera-o para o Tibete, mas felizmente o postal ficara com Jinpa, quando o foi visitar ao templo de Jokhang, pelo que não havia agora maneira de os iranianos terem acesso a essa correspondência.

"E quem lhe remeteu esse postal?"

"Não sei", voltou a mentir. "O postal vinha em branco."

O coronel fitou-o com ar desconcertado.

"Mas, então, o que o levou a pensar que o postal podia ter alguma relação com o paradeiro do professor?"

"O fato de vir do Tibete. Achei estranho, só isso. Como não dispunha de nenhuma outra pista, pareceu-me que valia a pena explorar esta."

"Hmm", murmurou Kazemi, tentando encaixar as peças deste complicado puzzle. "Não estou convencido com a sua explicação. Quer dizer, ninguém vem para um sítio tão remoto e inacessível como o Tibete só com base num vago palpite, não é?"

 

O prisioneiro rolou os olhos com ar de enfado e respirou fundo, como se a sua paciência tivesse chegado enfim ao limite.

"Ouça lá, não acha que está na hora de pôr fim a esta estúpida encenação?"

"O que quer você dizer com isso?"

"O que eu quero dizer é que vocês têm de encarar a realidade."

O iraniano mirou-o sem perceber.

"Como assim?"

"O manuscrito de Einstein. Vocês ainda não perceberam que ele não é o que vocês pensam que é?"

"Ah, não? Então?"

"O manuscrito não tem nada a ver com armas atômicas."

"Então tem a ver com quê?"

Tomás estendeu-se no tapete tibetano de barriga para cima e assentou a nuca nas mãos entrelaçadas por detrás da cabeça, parecia estar na praia a apanhar sol. Cerrou as pálpebras, como se gozasse um calor imaginado, e, pela primeira vez, deixou um largo sorriso brilhar-lhe no rosto.

"Tem a ver com algo muito mais importante do que isso."

 

XXXI

 

A manta deixada pelos iranianos na cela revelava-se largamente insatisfatória para o proteger do gelo que assentara com brutalidade durante a noite. Tomás encolheu-se o mais que pôde por baixo da manta, assumindo a posição fetal, mas o calor que o seu corpo gerava e que o tecido grosso lograva reter era manifestamente insuficiente para compensar o frio que o fazia tremelicar sem controlo.

Percebendo que assim não conseguiria adormecer, o prisioneiro pôs-se a fazer flexões com os braços e, depois, com as pernas; era um esforço desesperado para gerar mais calor e que se revelou parcialmente bem sucedido. Sentiu-se mais quente quando parou, pelo que se deitou de novo, encolheu-se na manta e tentou adormecer. Minutos volvidos, porém, o frio voltou a atacar e Tomás tomou consciência de que jamais iria adormecer com tranquilidade; sempre que o gelo apertasse, teria de voltar às flexões, era a única maneira de conseguir aguentar a noite. Paciência, pensou. Dormiria depois do sol nascer, quando a parca luz do dia aquecesse a cela. O problema é que os iranianos deveriam voltar por essa altura e uma nova sessão de interrogatório não se afigurava como a melhor forma de recuperar de uma noite em branco.

Clique, dique.

O som da chave na fechadura surpreendeu Tomás. Não sentira a aproximação de passos lá fora, era como se alguém se tivesse acercado furtivamente, em bicos de pés, e só agora, ao introduzir a chave na porta, denunciasse a sua presença.

Claque.

A porta abriu-se e Tomás ergueu a cabeça, tentando identificar o visitante. Mas tudo permanecia escuro e o desconhecido viera sem lanterna.

"Quem é?", perguntou, sentando-se no tapete tibetano.

"Chiu."

O som foi soprado com urgência, mas num tom doce que achou familiar. Inclinou a cabeça, arregalou os olhos num esforço para captar o mais pequeno pormenor perceptível e tentou adivinhar o vulto que cruzava a porta.

"Ariana?"

"Sim", sussurrou a voz feminina. "Não faça barulho."

"O que se passa?"

"Não faça barulho", implorou num sopro. "Venha comigo. Vou tirá-lo daqui."

Tomás não precisou de ouvir esta promessa segunda vez. Pôs-se de pé num pulo e observou o vulto com atenção, expectante.

"E os outros?"

Sentiu o toque suave da mão de Ariana.

"Chiu", insistiu ela, a voz sempre muito baixa, era quase apenas o rumorejar de uma expiração. "Venha comigo. Mas em silêncio."

 

A mão quente de Ariana entrelaçou-se-lhe entre os dedos e puxou-o em direcção à porta. O prisioneiro deixou-se guiar pela escuridão, ambos caminhando muito devagar, quase tacteando na treva, mas sempre procurando evitar o barulho. Subiram umas escadas, passaram por um pátio, meteram por um corredor aquecido e saíram por uma porta.

Tomás sentiu o ar frio da noite bater-lhe no rosto e viu finalmente luz. Um poste de iluminação pública emitia uma claridade amarelada que deixava antever os contornos da estrada, da vegetação em redor e de um jipe escuro. Estavam ao ar livre. Ariana voltou a puxá-lo e conduziu-o na direcção do jipe. Destrancou as portas e fez sinal a Tomás para entrar.

"Depressa", murmurou. "Despache-se antes que eles acordem."

 

Saíram daquele setor ainda noite cerrada, deambulando pelas ruas poeirentas de Lhasa, o piso iluminado pelos faróis do jipe e pelos escassos postes públicos da cidade. Tomás voltou a cabeça para trás e pareceu-lhe tudo calmo, ninguém os seguia. A carga do jipe chamou-lhe a atenção; viam-se jerry cans com combustível, dois garrafões de água e uma caixa, aparentemente com mantimentos. Tudo aquilo tinha ar de ser uma fuga cuidadosamente planificada.

O jipe guinou para a direita e meteu para oeste, algures na direção do aeroporto, afastando-se assim do centro da cidade.

"Para onde vamos?", quis saber.

"Para já vamos sair da cidade. É demasiado perigoso ficar aqui."

"Espere", exclamou ele. "Tenho primeiro de ir ao hotel buscar as minhas coisas."

Ariana olhou-o com ar espantado.

"Tomás, você está louco? Quando eles se aperceberem de que nós desaparecemos, esse é o primeiro lugar para onde irão, o que pensa?" Voltou a fixar a estrada. "Aliás, um dos recepcionistas está a ser pago para nos informar sobre todos os seus movimentos. Nem pensar em voltar ao hotel."

 

"Então para onde vamos?"

Ariana carregou no travão com força e o jipe guinchou até parar na berma da estrada, próximo de um posto de combustíveis da PetroChina. A condutora manteve as luzes ligadas e puxou o travão de mão antes de olhar para o seu passageiro.

"Diga-me você, Tomás."

"Como assim, digo-lhe eu? Você é que planeou esta fuga, não fui eu."

A iraniana suspirou.

"Tomás, esta fuga não nos levará a nada se não formos consequentes."

"O que quer você dizer com isso?"

"O que eu quero dizer é que não nos basta fugir. Para onde quer que fujamos, eles vão-nos encontrar. Hoje, amanhã, na próxima semana, daqui a um mês ou dentro de um ano, não interessa. Eles vão-nos apanhar, percebe?"

"E então? O que sugere?"

"Sugiro que lhes provemos que não têm motivos para nos perseguirem."

"E como é que lhes poderemos provar isso?"

"Você ontem deu-me uma ideia", disse ela, os olhos de caramelo a brilharem na escuridão.

"Lembra-se de ter dito que o manuscrito de Einstein não tem nada a ver com armas nucleares?"

"Sim."

"Isso é mesmo verdade?"

"Estou convencido que sim, mas você é que leu o manuscrito, não é? O que diz ele?"

Ariana abanou a cabeça e fez uma careta.

"É um texto muito estranho, sabe? Nunca percebemos bem o que quer aquilo dizer. Mas Einstein é inequívoco na referência que faz ao modo de se provocar a grande explosão. Ele escreveu see sign e depois cifrou a fórmula com seis letras divididas em dois blocos, mais um ponto de exclamação logo à cabeça. São tão poucas letras que até já as memorizei todas, veja lá." Concentrou-se. "!Ya ovqo", recitou. "Ora, não me parece que uma fórmula tão importante possa ser assim tão pequena, pois não? Daí que acreditemos que se trate de uma cifra com a chave de acesso a uma segunda parte do manuscrito."

"Hmm... estou a ver."

"Mesmo assim", insistiu Ariana, "você acha que não se trata da fórmula para uma bomba atômica?"

"Ouça, não tenho a certeza", disse ele, prudente. "Mas parece-me que não."

"Então só temos uma coisa a fazer."

"O quê?"

"Temos de provar isso."

"Hã?"

"Temos de lhes provar que o manuscrito não esconde o segredo de uma bomba atômica de fabrico simples. É disso que eles estão à procura, não é? Se lhes provarmos que essa é uma busca sem futuro, eles deixam-nos em paz."

"Estou a perceber."

Fez-se um silêncio pensativo no jipe.

"Então?", perguntou Ariana.

Tomás suspirou.

"Então vamos a isso."

"É possível provar tal coisa?"

"Não sei. Mas é possível tentar."

"Muito bem", assentiu ela. "Então o que fazemos?"

"Partimos."

"Partimos para onde?"

Tomás abriu o guarda-luvas do jipe e localizou um mapa do Tibete. Abriu o mapa, estudou-o durante alguns segundos e pousou o dedo sobre um ponto uns duzentos quilômetros a oeste de Lhasa.

"Shigatse."

 

O sol nasceu lá para trás. Era primeiro um clarão que azulou o céu estrelado e logo a luz irrompeu para lá do horizonte serrado, cristalina, anunciando a aurora.

A manhã revelou uma paisagem bela, de tirar o fôlego, mas previsível; montanhas áridas e escarpadas, com os picos cobertos de neve, rodeavam a estrada, por vezes abrindo-se em vales verdejantes, pitorescos, de uma serenidade contagiante. Viam-se rebanhos de ovelhas a pastar, aqui e ali um nômade a passar, um iaque a carregar mantimentos ou uma tenda pregada ao solo, um trator e uma carroça arrastando-se ao passo lento da vida no campo; embora, no essencial, a natureza respirasse ainda livre, selvagem, pulsando ao ritmo milenar em que vivia aquele espantoso e vasto planalto recolhido do mundo.

Tomás sentia-se cansado, mas demasiado nervoso e excitado para poder repousar. Alimentava uma ressentida desconfiança em relação a Ariana e, após um longo silêncio, decidiu que não podia prosseguir sem esclarecer as suas dúvidas.

"O que me garante que você não está a fazer jogo duplo?"

Ariana, até então fixa na estrada, arqueou os belos olhos de mel.

"Hã?"

"Como posso ter a certeza de que você não me está a enganar outra vez? Afinal de contas, montou um belo teatrinho lá em Teerã..."

A iraniana abrandou e fitou-o nos olhos.

"Você acha que o estou a enganar, Tomás?"

"Bem... enfim... já me enganou uma vez, não é? O que me garante que não me está a enganar segunda vez? O que me garante que tudo isto não é mais uma encenação montada em conluio ali com o... com o coronel Drácula, ou lá como ele se chama?"

Ariana voltou a fixar a sua atenção na estrada.

"Compreendo que alimente essa suspeita", disse. "É perfeitamente natural, em função do que aconteceu. Mas pode ter a certeza de que, agora, não há encenação nenhuma."

"Como posso ter essa certeza?"

"As coisas são diferentes."

"Diferentes em quê?"

"Em Teerã eu fiz tudo para o proteger. A encenação foi parte do processo para o proteger."

"Como assim? Não estou a entender..."

"Ouça, Tomás", disse ela, cerrando os dentes. "O que acha que lhe ia acontecer depois de ter sido apanhado no Ministério da Ciência a meio da noite com um manuscrito secreto na mão e um maluco ao seu lado aos tiros?"

"Ia passar um mau bocado, acho eu. Aliás, passei um mau bocado."

"Claro que ia passar um mau bocado. A Prisão 59 é muito pior do que Evin, ou tem dúvidas?"

"Pois, está bem. Ia passar um bocado ainda pior."

"Ainda bem que já percebeu isso. E tem alguma ilusão quanto à inevitabilidade de confessar tudo?"

"Uh... por acaso tenho."

"Não diga disparates", exclamou ela. "Claro que ia confessar tudo. Poderia levar algum tempo, entre umas semanas e uns meses, mas acabaria por confessar tudo. Todos confessam."

"Pronto, está bem."

“E depois de confessar? O que lhe aconteceria?"

"Sei lá. Ia passar muito tempo na prisão, acho eu."

Ariana abanou a cabeça.

"Iria morrer, Tomás." Mirou-o fugazmente. "Percebe isso? Quando deixasse de ter utilidade, eles matá-lo-iam."

"Você acha?"

A iraniana voltou a observar a estrada.

"Eu não acho", disse. "Eu sei." Mordeu o lábio inferior. "Fiquei desesperada quando me apercebi disso. Foi então que tive aquela idéia. Por que não libertarem-no e depois seguirem-no para ver até onde as investigações o conduziriam? Afinal de contas, disse-lhes eu, talvez o seu pai soubesse mesmo alguma coisa que permitisse desvendar o mistério. Por que não deixarem-no voltar para o seu pai e manterem-no sob apertada e discreta vigilância? Não seria isso mais produtivo do que aquilo que planeavam fazer?" Sorriu sem humor. "A minha ideia, nascida do desespero em lhe salvar a vida, foi considerada muito interessante. Os falcões do regime, que antes exigiam a sua cabeça, começaram a reconsiderar. Afinal de contas, disse-lhes eu, a prioridade era desenvolver em segredo uma arma nuclear de fabrico fácil, uma daquelas armas que nem a Agência Internacional de Energia Atômica nem os satélites espiões americanos alguma vez lograssem localizar. Era esse o objetivo do exercício, não era? Então se era, e se a sua libertação servisse esse objectivo, por que não libertá-lo?" Voltou a mirar Tomás por uns instantes. "Está a perceber? Foi assim que os convenci a deixarem-no fugir. Depois, foi só uma questão de montar o teatrinho."

"Se assim foi, por que não se limitaram a abrir a porta da cadeia e a deixarem-me sair de forma legal? Para quê toda aquela cena no meio da rua, a fingir que me salvavam?"

"Porque a CIA perceberia logo que tínhamos uma jogada fisgada. Então apanhávamo-lo no ministério à noite com um documento daqueles na mão e um agente da CIA ao lado aos tiros e, dias depois, deixávamo-lo ir embora? Abríamos-lhe a porta da cadeia assim sem mais nem menos? Não acha que a CIA consideraria esse nosso comportamento suspeito?" Abanou a cabeça, completando o diálogo entre si mesma. "E evidente que não o podíamos libertar assim do pé para a mão, não é? Tinha de ser uma fuga. Só podia ser uma fuga. E teria de ser uma fuga credível."

"Estou a perceber", assentiu Tomás. "Mas por que não me disse nada?"

"Porque não podia! Porque, quando me encontrava consigo, também eu estava a ser vigiada, o que pensa você? Além do mais, era importante que você agisse de uma forma natural. Se eu alguma vez lhe revelasse o que quer que fosse, punha tudo em risco."

O historiador passou a mão pelo cabelo.

"Estou a entender", disse. "E agora, depois de me ter tirado daquele buraco aqui em Lhasa? Não está você também em risco?"

"Claro que estou."

"Então... por que o fez?"

Ariana levou algum tempo a responder. Ficou um longo instante calada, os olhos presos na estrada.

"Porque não podia deixar que o matassem", murmurou por fim.

"Mas, ouça... agora é você que... que também pode morrer."

"Não, se conseguirmos provar que o manuscrito nada tem a ver com armas atômicas."

"E se não conseguirmos provar isso?"

A iraniana fitou-o com os olhos a brilhar, uma expressão triste a ensombrar-lhe o rosto bonito.

"Então morreremos os dois, receio bem."

 

Fazia uma fornalha infernal dentro do jipe. O sol raiava alto e o calor que irradiava tinha tal intensidade que aquecia o interior da viatura para além do suportável, escaldava de tal modo que tiveram de baixar os vidros e sentir o vento fresco secar-lhes o suor. O jipe atingiu um desfiladeiro e percorreu o trilho aos solavancos, cruzando um vale coberto por um mar de seixos e libertando uma vigorosa nuvem de poeira no encalço.

Com o rosto a enfrentar o vento retemperador, Tomás admirou o espectáculo sereno da natureza a adaptar-se àquelas paragens. A paisagem tibetana, percebeu ele, tinha a intensidade nua da claridade e da força bruta das cores. Aqui os vermelhos eram mais enérgicos, os verdes mais fortes, os amarelos mais dourados, as cores irradiavam tal luminosidade que pareciam brilhar por entre as montanhas, quase rebentavam numa explosão cromática, berrante até, tão vivas e excessivas que chegavam a entorpecer os sentidos.

Foi então que o viram. Uma mancha azul radiante relampejou à direita. Era uma jóia polida, um espelho anil brilhante cravado na terra dourada, uma cintilante safira cerúlea embutida num quadro de ouro fúlgido. A luz que emitia era tão intensamente azul que parecia iluminada por dentro, alumiava um brilho vigoroso, quase hipnótico.

"O que é aquilo?", perguntou Tomás, sem tirar os olhos daquela visão magnetizante.

Ariana também já se tinha apercebido da presença da mancha resplandecente e contemplava-a fascinada.

"É um lago."

Um lago.

Pararam o jipe e deixaram-se extasiar por aquele banho de azul que lhes inundava os sentidos.

O lago parecia um espelho iluminado, era lápis-lazúli polido a vários tons, mar intenso lá ao fundo, azul-cobalto flamante mais próximo, verde-opal junto à margem, as águas a beijarem na praia uma areia branca brilhante; dava a impressão de um atol miraculosamente pousado no meio de uma cordilheira dourada e púrpura, as montanhas exibindo picos lácteos cintilantes e projectando sombras de um opaco vermelho-acastanhado. Uma orgia de cores.

"Aquilo não pode ser água", comentou Tomás, dominado pela exuberância da visão. "Não assim tão brilhante."

"Então o que é?"

Era uma pergunta retórica, claro, uma vez que ambos sabiam muito bem que o lago, apesar da sua surpreendente cor luzidia, só podia mesmo ser de água.

"Não tem fome?", perguntou ele.

Ariana desligou o motor, saiu do jipe e abriu a porta de trás, tirando uma cesta. O meio-dia aproximava-se e aquele era o local perfeito para o almoço. Tomás ajudou-a com a cesta e desceram ambos a encosta da estrada, na direção do lago.

O sol batia forte, tão forte que escaldava a pele. Começaram por se sentar junto a uma rocha, nas margens do lago, onde a água se apresentava tão transparente que não se percebia o seu limite; mas o sol era tão violento que se mudaram para uma zona de sombra, no sopé da montanha. Logo que cruzaram a linha de sombra, porém, sentiram-se enregelar. O frio revelava-se aqui muito intenso. Mudaram-se de novo, agora para o ponto de fronteira entre sol e sombra, o tronco na sombra, as pernas ao sol. Tomás não queria acreditar na amplitude da temperatura, era pelo menos uma dezena de graus de diferença. As pernas ardiam-lhe de calor, o tronco tremia de frio.

Olharam um para o outro e riram-se.

"É o ar", observou Ariana, divertida.

"O que tem o ar?"

"E demasiado rarefeito", explicou ela. "Não consegue absorver o calor do sol nem filtrar a sua força. É por isso que está a acontecer isto." Inspirou o ar. "Quando eu era miúda e ia passear pelas montanhas Zargos, no Irão, às vezes sentia este efeito, mas não assim de forma tão radical. Já viu? O ar aqui é tão fraco que não retém o calor nem nos protege dos raios ultravioletas." Mirou a zona iluminada e fez uma

careta. "Mal por mal, mais vale ficarmos aqui à sombra."

Tomás colocou a cesta sobre uma rocha e ambos serviram-se da merenda, umas sanduíches em pão de forma e umas garrafas de sumo. Sentaram-se em cima dessa mesma rocha e ficaram a comer enquanto contemplavam a vista em redor. Era de cortar a respiração.

O céu revelava-se escuro e profundo, contrastando com a paisagem nua e exuberante na sua depravação de cores; misturavam-se os diversos tons de veludo azul e verde da água, as pedras vermelhas e douradas, as montanhas castanhas e brancas. Parecia que, aqui, a luminosidade obedecia a regras diferentes; era como se a fonte da luz não estivesse no céu, mas na terra, como se o arco-íris fosse fenómeno do chão, não do ar.

"Tenho frio", queixou-se Ariana.

Quase sem pensar, como se obedecesse a uma reação instintiva de macho protetor, Tomás aproximou-se dela, tirou o casaco e cobriu-a. Ao fazê-lo, encostou-lhe o corpo. Foi um movimento suave, inocente, destinado a aquecê-la com um pouco do seu calor, mas gerou algo de inesperado. Um toque mágico. Sentiu-lhe a pele macia, a respiração baixa a acelerar, o brando perfume a lavanda que lhe emanava dos cabelos. Intuiu-lhe sobretudo a vontade de não se afastar e essa constatação desencadeou um turbilhão de sentimentos.

Olharam-se.

Os olhos verdes cristalinos tocaram nos dourados dela, era a água diante do mel, o frio perante o quente, o temperado a ansiar pelo doce. Viu-lhe os lábios grossos entreabrirem-se, convidativos, e inclinou-se devagar, aproximando-se daquelas pétalas escarlates, o corpo tremendo de antecipação.

 

Tocaram-se.

Provou o veludo quente e palpitante dos lábios de Ariana, mergulhou dentro dela e experimentou-lhe a língua molhada e ardente, era como se saboreasse um doce, um chocolate, um creme de caramelo. Primeiro beijaram-se com brandura, com infinita ternura, depois o beijo tornou-se guloso, era como se quisessem mais e mais, o toque tímido transformou-se num lamber sôfrego, o carinho passou a desejo, o amor tornou-se volúpia.

Os seios comprimiram-se-lhe contra o peito e, sem mais se poder conter, enfiou-lhe a mão pelo colarinho do pullover até a palma se encher com aquela superfície macia e gelatinosa. Apertou-lhe a mama com desejo e lambeu-lhe a boca com mais saliva. Sentiu-lhe as mãos procurarem desajeitadamente o cinto e desabotoarem as calças até o libertarem da roupa que o aferrolhava. A fome tomou conta de ambos. Acossado pelo frio que se lhe enroscava às pernas, Tomás foi à procura do calor; levantou-lhe as saias e arrancou-lhe as cuecas, mas fê-lo com tão desastrada ansiedade que lhe rasgou o tecido.

Passou-lhe o dedo por entre as pernas e sentiu-lhe a abertura quente e húmida; era um caldo a ferver. Ariana gemeu com o toque e esticou a mão, tocando-lhe com a ponta dos dedos; acariciou-o para experimentar a sua rigidez e depois pegou nele, abriu as pernas e dirigiu-o para onde lhe sentia a falta. Tomás apercebeu-se daquele corpo trémulo e ofegante a convidá-lo para dentro de si e não hesitou; projectou um movimento suave e a flor, pulsando de antecipação, desabrochou.

Entrou.

Teve a sensação instantânea de ter mergulhado num pote de mel infinitamente delicioso. Os sentidos inebriaram-se-lhe, as sensações emanadas pelo corpo de Ariana tornaram-se mais fortes, o cheiro perfumado a lavanda mais intenso, o amarelo dos olhos mais dourado, o toque na pele mais macio, o calor do corpo mais quente, o sabor da saliva mais doce. As montanhas, o lago, as cores, o frio, a luz, tudo isso desapareceu, tudo isso se esfumou perante a intensidade daquele momento de paixão.

O universo resumia-se agora a duas coisas e a duas só. Tomás e Ariana, ele e ela, o verde e o dourado, o ferro e o veludo, o suor e a lavanda, o chocolate e o mel, o tronco e a rosa, a prosa e a poesia, a voz e a melodia, o yin e o yang, dois corpos fundidos num só, dissolvidos sobre a pedra dura, unidos num movimento ritmado, moldados numa dança longa, lenta e rápida, sôfrega, esfaimada, os gestos coordenados, bailando ao ritmo dos gemidos, ele dando e ela recebendo, sempre com mais força, mais força, mais força.

Gritaram.

No momento em que sentiu uma explosão de cores e luzes e sensações percorrerem-lhe o corpo, em que toda a eternidade se estendeu por um efémero e infinito instante, em que a paixão se elevou acima da montanha mais alta e a fusão ficou enfim completa, nesse momento de epifania Tomás soube que a sua busca terminara, que aqueles olhos de mel eram a sua perdição, que aqueles lábios eram a sua flor, que aquele corpo era a sua casa.

Que aquela mulher era o seu destino.

 

XXXII

 

O primeiro sinal da aproximação a Shigatse surgiu numa curva, era uma longa arcada erguida à esquerda com uma sucessão de janelas sobre portões azuis. Tomás ia agora ao volante, Ariana a dormitar no seu ombro, quando se apercebeu que estava a entrar nos arredores da cidade e abrandou a marcha. Apareceram fileiras de pukhang, as casas tradicionais tibetanas feitas de adubo branco, com as suas típicas janelas negras e lungdas coloridas ao vento; as bandeiras de orações encontravam-se firmemente amarradas ao telhado escuro, na esperança de atraírem bom karma aos lares. Entraram numa avenida larga, flanqueada por postos de combustível da PetroChina e por muros vermelhos com entradas guardadas por sentinelas chinesas em sentido, tratava-se evidentemente dos quartéis das forças de ocupação. Árvores gadjan lançavam largas sombras sobre a estrada, aqui já asfaltada; viam-se poucos automóveis, mas havia muitas bicicletas a circular e alguns caminhões descarregavam nos passeios.

A iraniana despertou e ficaram ambos a observar a urbe que se espraiava pelo vale. Chegaram a um semáforo e, pela largura da avenida e o aspecto inestético das construções, perceberam que se encontravam na zona chinesa da cidade, feita de blocos e mais igual a outras cidades. Pararam junto a um aglomerado de chineses e Ariana baixou o vidro.

"Hotel Orchard?", perguntou Tomás, esticando-se quase por cima de Ariana.

"Uh?", respondeu um chinês.

Era evidente que não percebia a pergunta. Mais valia o recém-chegado concentrar-se na palavra-chave.

"Hotel?"

O homem falou num imperceptível mandarim e apontou para diante. Tomás agradeceu e o jipe arrancou na direcção indicada. Acabaram efectivamente por dar com um hotel, mas não era o Orchard. Ariana saiu e foi pedir direcções na recepção.

Percorreram as ruas largas da parte chinesa de Shigatse rumo ao ponto que lhes fora indicado. Chegaram ao cruzamento e voltaram à esquerda; as ruas tornaram-se aqui mais estreitas, era evidente que tinham acabado de penetrar no bairro tibetano. Um monte coroado por ruínas envoltas em andaimes assinalava o Shigatse Dzong, o velho forte da cidade, uma estrutura que apresentava visíveis semelhanças com o magnífico Potala, embora mais pequena e reduzida a destroços pelos ventos destruidores da repressão chinesa.

Na esquina viraram de novo à esquerda, passaram por uma rua deslavada e, ao fundo, viram uma fachada ricamente ornamentada, néons brancos no topo a anunciar que aquele era o Tibet Gang-Gyan Shigatse Orchard Hotel. O seu destino.

Estacionaram diante do hotel e penetraram no lobby. O átrio era dominado por uma enorme mesa central, coberta por coloridos dragões; à esquerda encontrava-se uma banca envidraçada para venda de souvenirs e à direita estendiam-se confortáveis sofás negros.

Um rapaz tibetano, a pele trigueira por causa do sol, sorriu-lhes do balcão da recepção quando os dois entraram.

"Tashi deleh", cumprimentou.

Tomás devolveu o cumprimento com uma vênia com a cabeça.

"Tashi deleh", disse. Fez um esforço para se recordar das instruções que Jinpa lhe dera no Potala. "Uh... quero falar com o bodhisattva Tenzing Thubten."

O rapaz fez um ar atônito.

"Tenzing?"

"Sim", assentiu Tomás. "Preciso que Tenzing me mostre o caminho."

O tibetano pareceu um pouco hesitante. Olhou em redor, voltou a fixar os olhos escuros em Tomás, mirou fugazmente Ariana e, tendo-se aparentemente decidido, fez-lhes sinal para se sentarem nos sofás do salão. Depois saiu à pressa do hotel e Tomás viu-o atravessar a rua e a pequena praceta ajardinada do outro lado.

 

Um monge veio à porta do hotel, trazido pelo recepcionista, e curvou-se numa vénia diante dos desconhecidos. Trocaram os habituais tashi deleh, desejando-se mutuamente boa sorte, e o tibetano deu-lhes indicação para o seguirem. Dirigiram-se para uma enorme estrutura religiosa que se erguia, esplendorosa, mesmo em frente, no sopé de um monte esverdeado; o complexo branco e avermelhado apresentava belíssimos telhados dourados, as pontas curvadas para cima à maneira dos pagodes, as janelas negras contemplando sobranceiramente a cidade.

"Gompa?", perguntou Tomás, usando a palavra mosteiro, que memorizara em Lhasa, enquanto apontava para o edifício.

"La ong", assentiu o monge, ajeitando os tradicionais panos púrpura que lhe cobriam o corpo. "Tashilhunpo gompa."

"Tashilhunpo", disse Ariana. "É o mosteiro de Tashilhunpo."

"Conheces?"

"Já ouvi falar neste mosteiro, sim. Parece que é aqui que está enterrado o primeiro Dalai-Lama."

"Ah, sim?"

"E é também o mosteiro que alberga o Panchen Lama."

"Quem é esse?"

"O Panchen Lama? É a segunda figura mais importante do budismo, só suplantada pelo Dalai-Lama. Acho que panchen significa grande mestre. Os chineses têm usado o Panchen Lama para desafiar a autoridade do Dalai-Lama, mas sem grande sucesso. Dizem que o Panchen Lama acaba sempre por virar antichinês."

O sol batia forte e o ar era seco. Um desagradável fedor a lixo e a urina pairava pelas ruas, mas, à vista do portão do mosteiro, o odor fétido foi substituído pelo aroma perfumado a incenso. Cruzaram a entrada e deram consigo num grande pátio com vista para todo o mosteiro; dali tornava-se claro que se encontravam diante de um gigantesco e esplêndido complexo, todo o perímetro cercado por um longo muro. Na base da elevação sobre a qual assentava Tashilhunpo aglomeravam-se edifícios brancos, claramente uma área residencial monástica, e em cima erguiam-se construções avermelhadas cobertas pelos vistosos telhados dourados.

Tomás e Ariana seguiram o monge, escalando uma tranquila ruela de pedra que ascendia pela encosta. O tibetano galgou rápido o chão inclinado, mas os dois visitantes depressa tiveram de parar, arfantes, à sombra de uma garbosa árvore yonboh. Shigatse ficava ainda mais alto do que Lhasa e o ar rarefeito da altitude escasseava-lhes nos pulmões.

"Fala inglês?", perguntou Tomás, dirigindo-se ao monge que o aguardava uns metros mais adiante, sorridente e expectante.

O tibetano aproximou-se.

"Um pouco."

"Vamos encontrar-nos com um bodhisattva", observou o historiador. Arfou um pouco, ainda a recuperar o fôlego. "O que é um bodhisattva exatamente?"

"É uma espécie de Buda."

"Uma espécie de Buda? O que quer dizer com isso?"

"É alguém que atingiu a iluminação mas saiu do nirvana para ajudar os outros seres humanos.

É um santo, um homem que recusou a salvação para si enquanto não se salvarem os outros."

O monge deu meia-volta e arrastou-os para o topo do complexo. Chegaram a um caminho que percorria lateralmente uma estrutura de edifícios avermelhados, e o tibetano virou à esquerda, subindo umas escadas de pedra preta e mergulhando num bloco rubro. Os visitantes foram atrás, sempre ofegantes, e penetraram no mesmo local; atravessaram um alpendre escuro e desembocaram num pátio tranquilo, onde monges se afadigavam em torno de uma vasilha de gordura gemada. Era o átrio do templo de Maitreya.

O tibetano fez-lhes sinal para entrarem num pequeno compartimento sombrio, à direita, apenas iluminado por velas e pela luz difusa que penetrava por uma discreta janelinha. Tudo ali tinha um ar austero, quase primitivo. Cheirava a uma mistura de manteiga de iaque e incenso, um odor que competia com o aroma doce e perfumado de uma nuvem cinzenta, era o fumo libertado pelo carvão que ardia num antiquado fogão de ferro. A chama amarela do fogão lambia uma velha chaleira negra, lançando clarões quentes e tremelicantes sobre as sombras do cubículo, como se pulsasse de vida.

Os dois sentaram-se em bancos cobertos por tapetes thangka vermelhos e viram o monge pegar no bule pousado sobre o fogão, encher duas chávenas e estendê-las em direção a si.

“Cha she rognang."

Era chá de manteiga de iaque.

"Obrigado", disse Tomás, disfarçando um esgar de repulsa perante a perspectiva de ter de beber aquela mistela gordurosa. Olhou para Ariana. "Como é que se diz obrigado em tibetano?"

"Thu djitchi."

"Isso." Fez uma vênia na direção do monge. "Thu djitchi.'"

O monge sorriu e esboçou um gesto com as palmas das mãos, pedindo-lhes para aguardarem.

"Gong da", disse, antes de desaparecer.

 

Não se passaram sequer vinte minutos.

O monge que os viera acolher reapareceu na salinha, mas trazia alguém consigo. Era um outro monge, muito magro e pequeno, dobrado pela idade, que caminhava com dificuldade, apoiado num cajado e com o ombro direito nu. O primeiro ajudou o mais velho a acomodar-se numa enorme almofada. Trocaram algumas palavras em tibetano, ao fim das quais o primeiro curvou-se numa vênia e retirou-se.

Fez-se silêncio.

Apenas se ouviam os pássaros a chilrear pelo pátio, lá fora, e o carvão a estalar suavemente no fogão de ferro. Tomás e Ariana observaram o recém-chegado, mirrado sobre a grande almofada. O velho monge ajeitou o pano do tasen púrpura que o cobria e endireitou-se; os olhos desfocaram-se e perderam-se num ponto infinito, como se se alheasse do mundo que o rodeava.

Silêncio.

O budista parecia ignorar a presença dos dois forasteiros. Talvez estivesse em meditação, talvez tivesse mergulhado num transe. Fosse como fosse, o ancião nada dizia, limitava-se apenas a permanecer ali. Tomás e Ariana entreolharam-se, baralhados e divertidos, sem saber se deveriam falar, se o tibetano entrara ali por engano, se aquele era algum costume local ou se porventura estaria cego. Por via das dúvidas mantiveram-se em silêncio e aguardaram o desenrolar dos acontecimentos.

O mutismo prolongou-se por dez tranquilos minutos.

O velho monge permanecia quieto, os olhos congelados, a respiração pausada; até que, sem que nada o parecesse justificar, estremeceu e ganhou vida.

"Eu sou o bodhisattva Tenzing Thubten", anunciou com uma voz afável. Falava um inglês surpreendentemente perfeito, com um acentuado sotaque britânico. "Ouvi dizer que me procuravam para vos mostrar o caminho."

Tomás quase suspirou de alívio. Ali estava enfim, diante de si, Tenzing Thubten, o remetente do enigmático postal que encontrara em casa do professor Siza. Era este talvez o homem que lhe podia dar as respostas que procurava, que lhe podia solucionar os segredos levantados pela sua busca, ou, quem sabe, que lhe podia até acrescentar mais alguns enigmas aos muitos mistérios que já o apoquentavam.

"Eu sou Tomás Noronha, professor de História da Universidade Nova de Lisboa." Fez um gesto em direcção a Ariana. "Esta é Ariana Pakravan, física nuclear no Ministério da Ciência, em Teerã." Curvou a cabeça. "Muito obrigado por nos receber. Fizemos um longo caminho para aqui estar."

O monge curvou os lábios.

"Vieram-me ver para que eu vos ilumine?"

"Uh... de certo modo, sim."

"Serei um bom médico para os doentes e sofredores. Conduzirei ao caminho correcto aqueles que se extraviaram. Serei uma luz brilhante para os que estão na noite escura e farei com que os pobres e indigentes descubram tesouros escondidos", entoou. "Assim reza o Avatamsaka sutra." Ergueu a mão. "Bem-vindos a Shigatse, viajantes na noite escura."

"É nosso prazer estar aqui."

Tenzing apontou para Tomás.

"Você disse que é de Lisboa?"

"Sim."

"É português?"

"Sou."

"Hmm", murmurou. "Foram portugueses os primeiros ocidentais a chegar ao coração do Tibete."

"Perdão?", admirou-se Tomás.

"Eram dois padres jesuítas", disse Tenzing. "O padre Andrade e o padre Marques ouviram rumores da existência de uma seita cristã num vale perdido do Tibete. Disfarçaram-se de peregrinos hindus, atravessaram a índia e chegaram a Tsaparang, uma fortaleza erguida no centro do reino Guge, no vale Garuda. Construíram uma igreja e estabeleceram o primeiro contacto entre o Ocidente e o Tibete."

"Quando foi isso?"

"Em 1624." Fez uma vénia. "Bem-vindo, peregrino português. Se não vens disfarçado de hindu, qual a igreja que nos trazes desta vez?"

Tomás sorriu.

"Não lhe trago nenhuma igreja. Apenas umas perguntas."

"Procuras o caminho?"

"Procuro o caminho de um homem chamado Augusto Siza."

Tenzing reagiu com bonomia ao nome.

"O jesuíta."

"Não, não", disse Tomás, abanando a cabeça. "Ele não era jesuíta. Nem sequer religioso. Era professor de Física na Universidade de Coimbra."

"Eu chamava-lhe o jesuíta", disse Tenzing, como se nem tivesse escutado aquela retificação.

Riu-se. "Ele não gostava, claro. Mas eu não o fazia por mal. Chamava-lhe o jesuíta em homenagem aos seus antepassados que há quatrocentos anos vieram até aqui, ao reino Guge. Mas era também uma piada, relacionada com o trabalho em que ambos andamos metidos."

"Qual trabalho?"

O bodhisattva baixou a cabeça.

"Não lhe posso dizer."

"Porquê?"

"Porque ficou acordado que seria ele a fazer o anúncio."

Tomás e Ariana entreolharam-se. O historiador respirou fundo e mirou o velho tibetano.

"Tenho uma má notícia para lhe dar", disse. "Receio bem que o professor Augusto Siza tenha falecido."

Tenzing permaneceu hirto.

"Era um bom amigo", suspirou, como se a informação não o chocasse. "Desejo-lhe felicidades para a nova vida."

 

"A nova vida?"

"Reencarnará lama, de certeza. Será um homem bom e sábio, respeitado por todos os que o vierem a conhecer." Ajeitou o manto púrpura que o cobria. "Muitos de nós somos acossados pela duhkha, pela frustração e pela dor que nos traz a vida, mantendo-nos agarrados às ilusões criadas pela maya. Mas tudo isso é avidya, é a ignorância acima da qual precisamos de nos erguer. Se o fizermos, libertar-nos-emos do karma que nos acorrenta." Fez uma pausa. "Eu e o jesuíta caminhamos juntos durante algum tempo, como companheiros de viagem que decidem descobrir-se um ao outro. Mas

depois chegámos a uma bifurcação, eu escolhi um caminho e ele escolheu outro. Os nossos trilhos tornaram-se diferentes, é verdade, mas o destino permaneceu sempre o mesmo."

"E qual é esse destino?"

O bodhisattva respirou fundo. Cerrou os olhos, adoptando a postura de meditação. Era como se ponderasse o que fazer; como se elevasse a sua consciência até à sunyata, o grande vazio; como se fundisse o seu ser com a eterna Dhartnakaya e procurasse aí a resposta ao seu dilema. Poderia contar tudo ou deveria manter-se calado? Será que o espírito do seu velho amigo, o homem a quem chamava o jesuíta, viria em seu socorro para o guiar?

Abriu os olhos com a decisão tomada.

"Eu nasci em 1930 em Lhasa, filho de uma família nobre. O meu primeiro nome foi Dhargey Dolma, que significa o Progresso com a deusa Dolma dos Sete Olhos. Os meus pais deram-me este nome porque acreditavam que o desenvolvimento era o caminho do Tibete e que era preciso estar atento à mudança, estar atento com sete olhos. Quando eu tinha quatro anos, no entanto, mandaram-me para o mosteiro de Rongbuk, no sopé do Chomo-langma, a grande montanha a que nós chamamos Deusa Mãe do Universo." Fitou Tomás. "Vocês chamam-lhe Evereste." Retomou a pose anterior. "Tornei-me profundamente religioso quando tomei contacto com os monges de Rongbuk. A tradição budista estabelece que todas as coisas existem por causa de um nome e de um pensamento, nada existe por si. Em conformidade, mudei de nome para me tornar outra pessoa. Aos seis anos, passei a chamar-me Tenzing Thubten, ou o Protector do Dharma que segue o Caminho do Buda. Por essa altura, o Tibete estava a abrir-se ao Ocidente, uma evolução que era do agrado da minha família. Quando atingi os dez anos, em 1940, os meus pais chamaram-me a Lhasa para assistir à cerimónia que entronou o décimo quarto Dalai-Lama, Tenzing Gyatso, aquele que ainda nos guia e em quem me inspirei para o meu novo nome. Logo a seguir fui mandado para uma escola inglesa em Darjeeling, como era costume entre as famílias de alta sociedade do Tibete."

"O senhor estudou numa escola inglesa?"

O bodbisattva assentiu com a cabeça.

"Durante muitos anos, meu amigo."

"Daí o seu inglês tão... uh... tão britânico. Calculo que tenha achado tudo um pouco diferente..."

"Muito diferente", confirmou Tenzing. "O tipo de disciplina era diferente e os rituais também.

Mas a principal diferença radicava na metodologia. Quando se trata de analisar uma questão, há todo um universo a separar-nos. Descobri que vocês, os ocidentais, gostam de dividir um problema em vários problemas menores, gostam de o separar e isolar para melhor o analisar. É um método que tem as suas virtudes, não o nego, mas possui um defeito terrível."

Continuar: parte 3 de 3