A garota do calendário: Janeiro

Audrey Carlan · Capítulo 9 de 10

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A garota do calendário: Janeiro

Capítulo 9

 

— O que você quer fazer hoje? — Wes perguntou quando entrei na cozinha. Para minha surpresa, ele estava cozinhando; virando panquecas, para ser mais exata. Olhei em volta, procurando a sra. Croft.

— Cadê a Judi?

— Dei folga para ela. Já que é o seu último dia, eu queria ficar sozinho com você. — Ele sorriu e piscou.

Sentei-me na banqueta em frente à ilha onde ele estava terminando de preparar o café da manhã. As panquecas pareciam perfeitas e tinham um cheiro delicioso. Fiquei olhando, com admiração, para a pequena pilha. A manteiga escorria pelas laterais sedutoramente, misturando-se à calda grossa. Então ele apertou uma lata de chantili por cima, fazendo um tipo de desenho no topo. Com um movimento, deslizou o prato à minha frente. No topo da pilha havia uma carinha sorridente.

— Comida feliz. — Ele balançou as sobrancelhas e eu ri. Esse homem era uma contradição. Viciado em trabalho, surfista, contratante de acompanhante, andava de jipe, um cara rico que fazia panquecas com carinhas. — Que foi? — Ele apoiou os cotovelos no balcão e inclinou a cabeça. Seu rosto tinha a barba rala que eu me acostumara a ver todas as manhãs e adorava. Usei a ponta dos dedos para tocar a superfície áspera.

Balancei a cabeça e cortei a pequena pilha de cinco panquecas perfeitamente redondas.

— Você me surpreende. Toda vez que eu acho que já te desvendei, você vem e me surpreende mais uma vez.

Wes encolheu os ombros e atacou o próprio café da manhã.

— O que eu posso dizer? Gosto de manter você em suspense. — Ele sorriu e eu pude jurar que todos aqueles filmes melosos de mulherzinha que eu tentava evitar estavam certos. Um cara legal pode iluminar o ambiente e tornar o mundo menor, como algo que se encaixa perfeitamente no espaço onde está o seu foco.

— Voltando a sua pergunta inicial... — falei, com a boca cheia das melhores panquecas que eu já tinha comido (incluindo as minhas). — Eu gostaria de dar um passeio na minha moto — respondi.

— Estou dentro. Aonde vamos?

Sorri e joguei o cabelo rebelde, recém-saído da cama, por cima do ombro.

— Para onde a moto nos levar. A questão não é o destino. É a viagem que conta.

Wes veio até meu lado, se sentou na banqueta e virou em minha direção. Encarei-o, achando que iria me beijar. Era sempre a primeira coisa que ele fazia pela manhã, mas hoje foi diferente. Tudo neste último dia estava tão pesado, oprimido pela minha partida. Em vez de um beijo, ganhei uma bolota de chantili no nariz.

— Que profundo — ele disse, sem expressão.

Eu o empurrei.

— Cala a boca!

Ele riu.

— Qual é, Mia? Não é o destino, e sim a viagem? Onde você leu essa merda? Fale a verdade. Estava escrito na etiqueta quando você comprou a moto, não é?

— Mas é verdade! — Balancei a cabeça e começamos a tomar o café. De vez em quando ele me cutucava com o cotovelo. De leve, só para lembrar que estava ali e mexer comigo. Para ser sincera, eu iria sentir muita saudade de Wes. Mais do que eu gostaria de admitir. Muito mais.

 

— Deus do céu — Wes disse quando entrei na garagem onde minha moto fora guardada. Seu olhar passeava sobre mim. Desde a jaqueta de couro preta que eu usava por cima da regata do Radiohead, passando pelo jeans skinny que evidenciava minha bunda, até as botas na altura dos joelhos.

— Gostou? — Joguei o quadril para o lado, sabendo que aquilo acentuava minhas curvas, que ele tanto apreciava. Ele me disse muitas vezes que era apaixonado pelo meu corpo. Wes preferia mulheres com carne. As magérrimas não faziam o seu tipo. Pelo menos era o que ele dizia. Ele podia estar me enrolando, mas, se o olhar em seu rosto era uma indicação, ele gostava do que estava vendo.

Ele jogou a jaqueta de couro sobre o banco da moto, deu a volta ao redor do jipe e, em dois segundos, sua boca estava colada na minha. Beijar para Wes era mais do que preliminares. Era uma marca, algo que ele gravava em minha pele e que eu levaria comigo todos os dias. Caramba, eu nunca esqueceria seus beijos. Eram tão bons. Às vezes ele mordiscava levemente; em outros momentos, sua língua me invadia, seguida por movimentos profundos. E suas mãos, ah, suas mãos eram magníficas. Ele sabia exatamente que pontos acariciar, apertar, tocar e manipular, coisas que estava fazendo naquele instante com minha bunda e meu seio. Uma mão em cada um. Ninguém jamais poderia dizer que Wes não era bom com as mãos.

Chupei sua língua e mordi seu lábio até ele gemer. Ele se afastou e colou a testa na minha.

— Achei que fôssemos andar de moto — sussurrei contra seus lábios, depois os lambi.

— É, até eu ver você assim. Agora o meu pau tem outros planos. — Ele pressionou os quadris contra os meus. Pude sentir a ereção através do jeans.

Com grande esforço, eu me afastei, segurei seu rosto e olhei em seus belos olhos verdes.

— Mais tarde. A espera torna tudo mais doce. — Finalizei mordiscando seus lábios mais uma vez. Ele tentou me segurar, mas eu me afastei.

Balançando ainda mais os quadris, para que ele tivesse uma boa visão da minha bunda, passei uma perna sobre a moto.

— Ei, garota. — Acariciei o tanque e o guidão. — Está pronta para mostrar ao Wes o que você pode fazer, docinho? — falei baixinho para Suzi.

— Hum, acho que você precisa ir mais para trás, para que eu possa guiar. — Wes fez um gesto para subir na moto.

— Acho que não entendi bem. Você quis insinuar que eu iria na garupa? — Minhas sobrancelhas se ergueram e eu estreitei o olhar.

Ele pôs uma mão no guidão e a outra ao lado do corpo.

— Se isso significa que as suas pernas vão me apertar e eu vou poder sentir o seu calor atrás de mim, então, sim, é exatamente isso que estou sugerindo. — Ele lambeu os lábios e examinou meu corpo mais uma vez. Novamente, não deixei passar batido aquele olhar sobre mim. Era como se fossem suas mãos, porque eu podia senti-lo me tocando cada vez que ele me olhava daquele jeito.

— Bom, acredito que estamos num impasse, então. A Suzi é a minha garota, e eu sou a única que a dirige. Você, meu amigo, vai precisar passar suas coxas grossas ao meu redor. — Cheguei para a frente e abri espaço na garupa. — A menos que esteja preocupado com a sua masculinidade.

Wes me surpreendeu mais uma vez. Vestiu a jaqueta de couro e passou a perna comprida por cima da moto. Então, antes que eu pudesse ligar Suzi, foi ele que me deixou ligada. Moldou seu corpo ao meu, deslizou a mão para frente e para cima, sob a minha regata, empurrando meu sutiã, tirando-o do caminho para alcançar a pele nua. Em seguida, seus dedos apertaram e puxaram o bico, fazendo-o endurecer. Gemi quando sua boca desceu em meu pescoço, chupando e mordiscando a pele sensível. Curvei-me para trás, inclinando a cabeça em seu ombro e pressionando seu pau. Assim que virei o pescoço em direção a ele, o botão do meu jeans foi aberto e o zíper, puxado para baixo.

— Ah, Wes... — sussurrei quando sua mão fez contato, indo direto para dentro da minha calça. Aqueles dedos talentosos não demoraram a encontrar meu centro de calor. Ele enfiou dois deles profundamente em mim enquanto girava o polegar sobre o nó apertado que pulsava, ansiando pelo seu toque. Wes não decepcionou. Com os braços poderosos, arqueou meu corpo, usando meu sexo e meu seio como âncora. Seus dedos se enterraram profundamente, até que eu gritei, apertando os olhos com força quando os espasmos sinalizaram que minha libertação estava próxima.

Seus dentes mordiscaram meu pescoço, e eu forcei os quadris para trás, usando os saltos como apoio. Eu sabia que ele manteria a moto de pé com suas pernas musculosas, então fui para cima dele com força, lutando para atingir o ápice do prazer.

— Monte em mim, linda — Wes sussurrou em meus cabelos. Aquele timbre murmurado me levou ainda mais para o caminho da felicidade. Fiz o que ele disse. Como uma devassa, me inclinei mais para trás sobre ele, movimentando os quadris, forçando seus dedos a me comerem mais fundo. Sua mão não era nada além de um borrão entre minhas pernas enquanto me acariciava. Então ele apertou meu mamilo, mordeu meu pescoço e enfiou a mão mais profundamente ainda, enganchando os dedos para cima e puxando para baixo, esmagando meu clitóris com a palma da mão.

E eu estava perdida.

No doce e abençoado estado de inconsciência.

— É isso aí, linda. Volte para mim — Wes disse em meu ouvido, seu polegar ainda acariciando meu clitóris, enviando doces tremores que se espalhavam por todas as direções enquanto eu voltava à Terra. — Tenho que dar o braço a torcer — ele sussurrou antes de virar meu pescoço e me beijar.

— Dar o braço a torcer por quê? — perguntei, ainda perdida em algum lugar feliz.

— O destino foi bom, mas o importante é mesmo a viagem. Ver você gozar tão loucamente nos meus braços, em cima desta moto, é algo que eu nunca vou esquecer.

Nem eu.

 

Passeamos por toda a Highway One, tendo como vista a Malibu Canyon Road e a Mugu Rock. Wes indicou uma saída perto da placa desgastada de uma praia pública. A entrada ficava fora do caminho asfaltado, mas ele sabia aonde estávamos indo. Parei a moto em uma área diminuta com uma trilha de terra que levava a uma pequena enseada. Quando chegamos lá, Wes pegou um cobertor fino na mochila. Nós o esticamos sobre a areia e nos sentamos, olhando para o mar. O lugar era público, mas estava completamente deserto. Não havia casas nem pessoas por quilômetros. Wes remexeu na mochila novamente e pegou sanduíches.

— Você fez o almoço também? Desse jeito vai me acostumar mal. Panquecas incríveis e agora isso? Me deixe adivinhar: peru com homus e folhas frescas? — Arqueei uma sobrancelha, e ele cobriu a boca enquanto ria.

— Tente mais uma vez, princesa. — Me entregou metade de um sanduíche.

— Pasta de amendoim e geleia? — Olhei para baixo e balancei a cabeça, dando uma mordida no pão. Tinha a proporção perfeita de pasta de amendoim e geleia de frutas vermelhas. Ele sorriu e me entregou uma garrafa térmica. Eu esperava que fosse água, mas era leite gelado. — Leite?

— Só o melhor para você, srta. Mia. — Ele deu uma grande mordida e pegou o leite.

— Esse é o meu sanduíche favorito, sabia? — Seus olhos se arregalaram. — É sério, eu adoro. E sabe o que mais? Eu adoro tudo isso. Estar sentada aqui com você, depois de uma longa viagem. É... Bom, eu vou me lembrar disso, Wes. De estar aqui com você. Este mês foi o melhor da minha vida. E não só pelo sexo. — Ele levantou as sobrancelhas. — Tudo bem, talvez pelo sexo. — Nós dois rimos.

Ele deu outro gole no leite e respondeu:

— Eu sei o que você quer dizer. Estar com você é fácil. — Levantei a cabeça e ele sorriu. — Não fácil desse jeito. Só... é bom. Você não faz jogo comigo. Suas necessidades são simples, e você não fica fazendo drama. Eu não sabia que um relacionamento podia ser assim, fácil.

— Nunca foi fácil para mim também. Sempre tinha algo no caminho — admiti. Wes olhou ao longe enquanto eu examinava seu perfil. No que se refere a homens bonitos, Weston Channing estava no topo. Ele nem precisava se esforçar para ter uma boa aparência. Era naturalmente bonito. Casual, profissional, mesmo quando acabava de acordar e tinha remela nos olhos, ele ainda era de parar o coração de tão lindo. Agora, desfrutando deste momento na praia comigo, compartilhando um pouco de si mesmo, ele estava irresistível. — Você já se apaixonou alguma vez?

Seus olhos encararam os meus, uma sugestão de sorriso nos lábios. Ele se apoiou nos cotovelos e balançou a cabeça.

— Não, acho que não de verdade. Algumas poucas vezes pensei que estava apaixonado, mas, como eu disse, nunca foi fácil. E eu acho que, quando você ama alguém, deve ser fácil. As coisas simplesmente se encaixam, sabe?

Assenti.

— Os planetas se alinham e tudo simplesmente funciona?

Ele riu.

— Mais ou menos assim. E você?

— Eu o quê?

— Já se apaixonou? — Pensei longamente em sua pergunta. Tanto que sua mão veio até meu ombro e o apertou com ternura. — Você não precisa me contar.

— Não, não é isso. É que seria mais fácil me perguntar se alguma vez eu não me apaixonei. De alguma forma, eu me apaixonei por cada homem com quem já estive. Infelizmente agora, sentada aqui com você, estou me questionando se eu estava de fato apaixonada, ou só com tesão, ou se simplesmente me deixei dominar por eles.

— Por que você acha isso?

Eu ri, encostei as pernas em meu peito e apoiei o queixo sobre os joelhos.

— Não tenho certeza. É uma sensação diferente com você.

— Então você ficou comigo por um mês. Admitiu que foi o melhor sexo da sua vida inteira. — Revirei os olhos, mas ele continuou: — Concordou que é diferente comigo. Isso quer dizer que você me ama?

— Talvez — falei honestamente, sem saber de que outra forma responder.

— Que foda.

— Vamos fazer isso mais tarde, lembra? Expectativa? — brinquei.

Ele riu, depois se virou de lado e apoiou a cabeça na mão.

— E se eu disser que estou me apaixonando por você?

— Wes — adverti. Ele sabia que não deveria seguir por esse caminho.

— Não, vamos conversar sobre isso. — Ele me obrigou a me inclinar para trás e imitar sua pose, de modo que ficamos deitados de lado, olhando nos olhos um do outro. — Se você talvez me ama e eu estou me apaixonando por você, não deveríamos fazer algo a respeito?

Eu sorri.

— Nós vamos fazer. Vamos continuar amigos. Você vai trabalhar e dirigir o seu filme. Nós vamos manter contato, e, quando a minha dívida estiver paga... — Olhei profundamente em seus olhos e parei.

— Quando a sua dívida estiver paga, o quê?

— Eu volto para casa, em L.A., onde você vai estar — sugeri.

— Mas ainda assim você vai embora amanhã. — A tristeza em seus olhos verdes roubou meu fôlego. Foram longos momentos antes que eu pudesse responder.

— Sim. Eu vou embora amanhã.

Ele assentiu com a cabeça e olhou para baixo.

— Então, quando você voltar... — Desta vez suas palavras sumiram.

— Eu não quero que você fique me esperando, Wes. Se você encontrar algo de bom com alguém, aproveite. Divirta-se. Um homem como você, com a aparência que tem, não vai ter dificuldade para encontrar uma mulher para aquecer a sua cama.

— É isso que você vai fazer? Deixar os clientes aquecerem a sua cama? — Seu tom de voz era duro, mais do que eu esperava, mas eu sabia que estávamos pisando em terreno perigoso. Isso poderia arruinar tudo o que tivemos no decorrer do mês e o que poderíamos ter no futuro. Era hora de pegar leve.

— Só estou dizendo que, pelo próximo ano, vamos seguir caminhos separados. E vamos fazer o que quisermos.

Ele deixou escapar um lento e longo suspiro e se sentou.

— Isso significa que você não vai esperar por mim. — Ele soltou o ar com força, como se estivesse segurando um acesso de raiva.

Balancei a cabeça.

— É, não. Vou fazer o que achar certo para mim no momento. E quero que você faça o mesmo. Mas não quero que você saia da minha vida.

Ele lambeu os lábios e, em seguida, agarrou minha mão, levando-a à boca para um beijo.

— Eu não quero que você saia da minha também. Só estou tentando encontrar um jeito de fazer parecer certo você ir. Porque não parece certo.

Segurei sua mão com força e a levei aos lábios para retribuir o beijo.

— Não parece para mim também, mas é o que vai acontecer. Por favor, respeite a minha decisão. Você pode fazer isso por mim? E, no futuro, vamos ver no que dá. Isso tem que ser suficiente.

— Está longe de ser suficiente, Mia. Mas, se é tudo o que eu tenho, vai ter que servir por enquanto. — Ele me puxou para o seu lado e me abraçou apertado. Agarrei-me a ele, sabendo que, em breve, estaria partindo.

 

Todas as minhas coisas foram colocadas no SUV, e observei quando o carro saiu da garagem de Wes e seguiu para o meu apartamento. O motorista levou a chave de casa, então guardaria tudo e deixaria o chaveiro com o zelador.

Wes esperava que eu estivesse aqui quando ele chegasse do trabalho, para que pudéssemos fazer nossa última refeição juntos. Mas eu sabia que isso acabaria comigo. Pior: me arruinaria. Depois do nosso momento na praia ontem, voltamos para casa e passamos a tarde e a noite inteiras fazendo amor. Exatamente. Não trepamos nem transamos. Fizemos amor várias vezes, até estarmos exaustos e desmaiarmos, aconchegados em sua cama gigante. Então, ele recebeu um telefonema que o obrigou a ir para o estúdio esta manhã. Ele disse que estaria em casa às seis para me levar para o nosso último jantar. Só que eu não estaria aqui. Seria difícil demais dizer adeus depois de tudo o que passamos.

Em vez disso, decidi compartilhar meus pensamentos com ele por escrito, deixando uma carta clichê, porém sincera. Basicamente, eu era uma covarde.

 

Weston Charles Channing III,

Escrever seu nome completo assim me faz rir descontroladamente.

Você já disse o seu nome em voz alta? Diga. Por mim. É engraçado.

Você vai rir. Eu ri. §

Agora, com toda a seriedade, quero lhe agradecer por este mês. Eu

estava esperando odiar cada segundo deste trabalho, e, em vez disso,

acabou sendo a coisa mais emocionante que já fiz na vida. Conhecer

você foi um presente. Você é um presente, Wes. Eu sei que isso soa

piegas, e quase risquei essa parte, mas você precisa ouvir isso de alguém

que se importa. E eu me importo. Muito. Mais do que deveria.

Estar com você, passar esse tempo juntos, me transformou. Para

melhor, acho. Agora, sinto que posso passar por este ano e aprender

alguma coisa com ele, além de salvar meu pai. Acho que, no fim, vou

estar salvando a mim mesma. É hora de viver para mim. Se eu

ficasse e deixasse você cuidar dos meus problemas, saldar a dívida do

meu pai, me arrependeria pelo resto da vida. Isso estaria sempre pairando

sobre a minha cabeça e o nosso relacionamento. Partindo desta forma,

estou saindo nos meus termos. E nós vamos ser bons amigos. Melhores

amigos. Amigos coloridos? <piscadela>

Estou triste por ir embora? Sim. Não quero ir, mas você já sabe

disso. Sei que o que estou fazendo é chato para nós dois, mas também

sei que é a única maneira de poder ser verdadeiramente livre. O que as

pessoas dizem sobre isso mesmo? “Se você ama uma pessoa, deixe-a

livre. Se ela não voltar, não era para ser.”

Espero voltar um dia. Se tiver que ser, será. Certo? Se não for

para ser, vamos ter sempre um amigo com quem contar. Realmente

espero que você entenda isso e perceba de onde estas palavras estão vindo.

Desejo o melhor para você. Seu filme vai fazer o maior sucesso,

porque você o escreveu, e suas palavras são lindas.

Hoje pela manhã, quando achou que eu estava dormindo e me deu

um beijo de adeus, você disse baixinho: “Lembre-se de mim”. Wes, eu

prometo que nunca vou esquecer nossos momentos juntos, e o mais

importante: eu nunca vou te esquecer.

Com tudo o que sou,

Mia

 

Então, beijei a carta junto ao meu nome, deixando a marca de meus lábios carnudos e rosados. Um último beijo para Wes.

 

Os dias seguintes foram um pesadelo, cheios de compromissos que tia Millie agendou para mim antes do encontro com o artista gostosão, Alec Dubois. Arrumar os cabelos e fazer as unhas era bom, apesar de incrivelmente tedioso. Eu gosto de ficar bonita, como toda mulher, mas passar quatro horas fazendo o cabelo e mais duas fazendo as unhas era ridículo. Depois disso, Millie me mandou para a esteticista.

“Esteticista” é outro nome para torturadora. Elas começam com uma máscara facial relaxante, acalmando seus sentidos com aromas agradáveis, música tranquila e massagem. Em seguida ligam um holofote gigante. Nesse momento, suas opções são fechar os olhos ou perder uma retina. Fechar os olhos serve para te ajudar quando elas trazem a escavadeira, quer dizer, o extrator. Também conhecido como estourador de espinhas ou pá de escavação de cravos, ele remove todos os restos de imundície nojenta deixados pela maquiagem diária. É um negócio sério, mas vou dizer: meu rosto nunca esteve melhor. Brilhante, a pele impecável, parecendo bumbum de nenê. Ficou muito suave ao toque.

Aí meu dia se tornou uma merda total. Depilação. Em toda parte. O artista tinha exigências muito específicas. Se eu fosse tirar a roupa, e ele fosse pagar um adicional de vinte e cinco mil, eu não poderia ter pelos em nenhum lugar, exceto na cabeça. A penugem dos meus braços foi poupada, felizmente. Minhas regiões baixas, nem tanto. Se você nunca teve o prazer de fazer uma depilação à brasileira, considere-se sortuda. Primeiro a torturadora, quer dizer, a esteticista, cobre cada centímetro de suas partes femininas com cera quente, quase provocando queimaduras. Depois que a cera esfria e endurece, a mulher arranca uma camada de pele com cada fio de pelo, deixando tudo lisinho e suave, fazendo você parecer menos uma mulher e mais uma criança.

É degradante, e não posso imaginar por que as mulheres passam por isso por vontade própria se não estão recebendo uma bolada. Pelo menos eu sei que vou receber no fim do meu sofrimento. Qual é a justificativa delas?

 

Meu telefone emitiu um sinal sonoro no bolso de trás. Eu tinha recebido uma mensagem de texto. As pessoas ainda estavam se acomodando antes da decolagem, então pude ler a mensagem de Wes e talvez tivesse tempo para responder.

 

Recebi sua carta. Desculpe não ter entrado em

contato antes. Achei melhor dar um tempo.

Quero te desejar boa viagem. Tem uma coisa na

sua bolsa, no bolso da frente. Ligo pra você em

breve. Lembre-se de mim.

 

Sorri e peguei a bolsa debaixo da poltrona da frente. Dentro de um dos bolsos havia uma pequena caixa preta, com cerca de sete centímetros de largura por dois de altura. Assim que a abri, o que vi me fez dar um sorriso tão largo que meu rosto poderia estourar. Dentro da caixa havia uma chave de bronze pendurada em uma pequena prancha amarela e rosa. Era a chave que eu usava enquanto morei com Wes. A minha chave. Só que, desta vez, o chaveiro ganhou um pequeno acréscimo. Um coração vermelho brilhante balançava ao lado da prancha.

Um bilhete estava preso na parte inferior da caixa. Eu o abri.

 

Mia,

Você esqueceu sua chave. Ela abre muito mais do

que uma porta. Um dia, espero que você a use.

Wes

 

Peguei o chaveiro onde estavam as chaves da Suzi e as do meu apartamento e prendi nele a prancha e a chave da casa de Wes. Sua intenção não poderia ser mais clara. Se eu quisesse voltar para ele, precisaria estar pronta para lhe dar o meu coração, porque o dele já era meu.

1

 

As portas de ferro retorcidas e enferrujadas do antigo elevador fizeram um barulho alto quando o motorista as puxou para fechá-las. Ele não havia dito uma palavra além de “Você é a Mia?”, quando desci a escada rolante do setor de desembarque do Aeroporto Internacional de Seattle-Tacoma. Achei que seria seguro acompanhá-lo, já que ele exibia uma placa com meu nome completo, e tia Millie avisara que eu deveria esperar um homem gigante com aparência de lenhador para me levar ao meu próximo cliente. A parte do gigante não era brincadeira, e ela não estava falando da estatura. O cara era apenas alguns centímetros mais alto que eu, mas o que lhe faltava em altura ele compensava em largura. Me fez pensar em um lutador profissional ou um fisiculturista.

Ao chegar ao décimo andar, o elevador parou bruscamente, balançando e me atirando contra o brutamontes ao meu lado. Ele era uma parede, e nem piscou quando o atingi; apenas grunhiu como um animal. As portas enormes se abriram e ele me conduziu para o que parecia ser um galpão. As vigas e tubulações eram visíveis, e o teto estava a uma distância de pelo menos dez metros do chão de concreto. Havia pessoas por todos os lados, metade delas nua.

No que foi que eu me meti agora?

Flashes brilhavam, canhões de luz e refletores eram movimentados em carrinhos, enquanto eu, parada na entrada, tentava assimilar tudo aquilo. O brutamontes encostou minha bagagem em uma parede lateral e apontou para um homem agachado com uma câmera colada ao rosto.

— Sr. Dubois — ele resmungou. Então se virou abruptamente e entrou no elevador do qual tínhamos acabado de sair, me deixando ali sozinha.

— Um homem de poucas palavras. — Soltei lentamente o ar que enchia meus pulmões. Eu não sabia o que fazer. Deveria me sentar em um canto e esperar que alguém se aproximasse, torcendo para que não fosse um dos homens ou mulheres nus espalhados por todo lado, ou seria melhor incomodar o cara que estava fotografando alguma coisa que eu não conseguia ver?

Em vez de esperar, decidi fazer o reconhecimento do ambiente e andar por ali. Era um loft, mas não era usado para morar. Janelas frágeis cobriam as paredes à direita, algumas totalmente abertas e outras bem fechadas. Parecia necessário ter uma manivela para abri-las, o que eu achei muito legal e retrô. Mulheres nuas e seminuas estavam ali, me avaliando enquanto se moviam diante de telas brancas gigantescas. Elas não estavam posando, na verdade. Só ficavam na frente das telas, se movimentando, enquanto assistentes vestidos de preto aperfeiçoavam cada posição com mudanças sutis nos cotovelos ou nos pés delas. A cada nova mudança, os assistentes se afastavam, tiravam uma única foto e começavam tudo de novo. Minúsculos movimentos novamente, e depois outra foto. Era muito esquisito.

Fui para outra área, onde um casal nu estava deitado sobre uma enorme tela branca, que devia ter pelo menos três metros por três. Um dos assistentes subiu em uma pequena escada, indo até uma plataforma que ficava exatamente em cima do casal, e lentamente despejou o que parecia ser tinta azul brilhante sobre cada centímetro dos dois corpos.

— Não se mexam! — ele gritou. — Vamos ter que começar tudo de novo, e o sr. Dubois não vai gostar disso — acrescentou, com firmeza. O casal se manteve unido, as mãos da modelo ao redor da cabeça do homem, como se estivesse prestes a beijá-lo. Os braços dele estavam em volta dela: uma das mãos na bunda, segurando uma perna em cima de seu quadril, e a outra na parte de trás da cabeça.

A tinta escorria pelas pernas do casal e pingava na tela.

— Continuem assim — o homem ordenou. Eu estava tão fascinada com aquela cena estranha que não ouvi quando uma pessoa se aproximou por trás de mim, até que meu cabelo foi afastado do pescoço.

— Perfeição — ouvi um sussurro em meu ouvido, antes que um beijo me tocasse a pele nua, onde o ombro e o pescoço se encontram.

Eu me afastei sem olhar para onde estava indo, tentando escapar do estranho que havia me tocado, quando esbarrei em algo atrás de mim. Antes que eu pudesse me virar, minha bota enganchou na borda da tela e eu caí em cima da plataforma onde o cara irritado segurava o balde de tinta. O que veio a seguir foi um caos absoluto. O homem com o balde foi tombando para a frente e a tinta azul pegajosa voou, espirrando na tela e na lona que protegia o concreto.

O casal embaixo deve ter percebido o que estava para acontecer, pois o homem rolou com a garota nua como se tivesse sido treinado pelas forças armadas. Ele se poupou de ser encharcado com mais tinta e escapou da plataforma, prestes a desabar sobre eles.

Eu não tive tanta sorte.

Quando caí para trás, meu outro salto atravessou a lona grossa e ficou preso, enquanto meu corpo se curvava na direção oposta. Gritei quando meu tornozelo torceu dolorosamente e levei um baita tombo sobre a tinta azul e a lona rasgada.

— Deus do céu! — O homem de quem tentei fugir entrou naquela bagunça e me puxou pelos braços. Seus olhos castanho-dourados eram hipnotizantes e pareciam preocupados. Pequenas linhas nos cantos dos olhos revelavam que ele provavelmente era uns dez anos mais velho que eu. O cabelo castanho-claro, com mechas naturais em nuances douradas e avermelhadas, estava preso em um pequeno coque. A mandíbula era perfeita, e os lábios grossos eram margeados por uma barba cuidadosamente aparada. Nunca saí com alguém de barba, mas encarar esse homem, com seus braços fortes me segurando bem junto a seu corpo alto e musculoso, me levou a perguntar por que eu nunca tinha experimentado. Ele era tão lindo que foi quase impossível desviar o olhar. Lembrava o Ben Affleck, só que mais gostoso.

— Eu não queria assustá-la. Vi você ali, parada, e a sua beleza estava muito além da de qualquer modelo. Eu tinha que beijar sua pele dourada. Você deve ser a minha Mia — ele disse. Os olhos cor de caramelo me esquadrinharam da ponta dos cabelos até os saltos das botas. Por sinal, eu queria jogar essas botas longe assim que conseguisse libertar meu tornozelo, que inchava rapidamente.

Apoiei o pé machucado no chão para fazer um teste rápido. A dor atingiu o tornozelo, irradiando pela perna. Gritei e agarrei os antebraços do homem, enfiando as unhas em sua carne.

— Meu Deus, você se machucou de verdade!

— Não diga. — Revirei os olhos quando ele passou os braços longos por baixo dos meus joelhos, me pegando no colo como se eu fosse uma princesa, e me levou até uma namoradeira. Mas não era uma namoradeira comum. O encosto era curvado, começando alto em uma extremidade e diminuindo até chegar à outra. Era o tipo de móvel que se vê em filmes românticos antigos, aqueles nos quais a donzela em perigo desmaia sobre ela com a mão na testa e um belo suspiro. Já eu estava rangendo os dentes, pronta para morder qualquer um que tentasse mover minha perna.

— Vou chamar um médico! — Um dos homens de preto disse ao estranho, que, a essa altura, eu imaginava ser meu cliente.

— Não, ce n’est pas nécessaire — meu protetor respondeu rapidamente, em um francês perfeito. — Entre em contato com o 3B. É uma médica amiga — continuou, com os olhos presos nos meus. — Você vai ficar bem, Mia — ele assegurou. Quando falou com aquele leve sotaque, pensei que eu fosse desmaiar. Senti um aperto forte entre as coxas. Homens com sotaque são insuportavelmente sensuais. Ok, a sensação pode ter sido causada pela dor intensa, mas eu tinha certeza de que era a primeira opção.

Em poucos instantes, uma mulher miúda entrou correndo, segurando o que parecia ser uma maleta de médico daquelas antigas. Ela se apresentou e me ajudou a tirar a bota sem que doesse ainda mais. Mãos abençoadas. Ouvi um riso abafado atrás de mim enquanto a médica examinava meu tornozelo. Olhei para meu cliente, que eu sabia ser Alec Dubois, embora ainda não tivéssemos nos apresentado.

— Que foi?

— Suas meias. Realmente encantadoras, ma jolie — ele terminou em francês, e isso foi sexy pra caramba, embora me irritasse ainda mais, porque eu não sabia o que significava. Poderia ser algo como “desajeitada” ou “idiota”; eu nunca saberia. Olhei para minhas meias natalinas e em seguida para a médica. Os lábios dela se curvaram, mas a mulher manteve a postura profissional enquanto me examinava. Dela eu gostei, mas o bonitão da câmera ainda estava sob avaliação.

— Bem, não está quebrado. Você sofreu uma entorse leve. Vou imobilizar o seu pé e ele vai melhorar em algumas semanas. Você precisa descansar, colocar bastante gelo, deixar o pé para o alto, acima do coração, sempre com a tala. Sugiro que use muletas para se movimentar — ela disse. Meus ombros caíram com a sensação de derrota. Eu odiava muletas. O mundo inteiro odeia muletas. Elas são um saco. Droga. Tudo o que eu não queria era que a pele ao redor das minhas axilas ficasse em carne viva ou tão ferida quanto o tornozelo, especialmente em um trabalho novo. Eu me perguntei se o homem desistiria da compra. O pânico invadiu meu coração quando pensei em meu pai e no dinheiro da próxima parcela. O que eu diria a Blaine se o francês não me quisesse mais?

— Vou cuidar muito bem de você, ma jolie. Não precisa se preocupar com nada. — Alec sentou-se ao meu lado, colocando um braço protetor ao redor da minha cintura e me puxando para perto, tão perto que era como se me conhecesse havia anos, e não alguns instantes. Definitivamente, ele não sabia o que era invasão de privacidade. Mesmo assim, aquilo foi bom e me deixou aliviada por saber que o cara não me mandaria para casa. — Retournez au travail. — A instrução óbvia foi pontuada com alguns movimentos de braço antes que ele me levantasse como se eu não pesasse nada.

— O que foi que você disse? E o que está fazendo? — Eu me agarrei a seus ombros para não cair enquanto ele caminhava em direção ao elevador.

— Levando você para casa, para descansar. Deve estar exausta da viagem. E agora, com o tornozelo machucado, precisa se deitar. — Seus olhos eram gentis quando ele me encarou. — E eu falei para o meu pessoal voltar ao trabalho. — O sotaque estava mais forte agora, mas era óbvio que ele estava nos Estados Unidos havia muito tempo. Seu inglês era perfeito.

Bufei, mas me segurei a ele.

— Isso é tão estranho. Desculpe pela tinta e pela bagunça. Agora eu estou com o tornozelo torcido quando, supostamente, deveria ser uma musa espetacular.

— Ah, mas você é muito spectaculaire. Tem os melhores atributos, e as metades do seu rosto são imagens perfeitamente espelhadas — explicou, como se anunciasse algo surpreendente, embora eu realmente não tenha entendido nada.

Balancei a cabeça.

— Não sei o que você quer dizer com “imagens espelhadas”.

Um dos homens de preto de Alec nos seguiu até o elevador, carregando minha única mala. Apertou o botão do décimo segundo andar, que era o último. Alec não respondeu à minha pergunta enquanto saíamos do elevador e eu era carregada para outro loft. Este tinha o mesmo estilo e tamanho do anterior, mas era completo, com cozinha, sala de estar e uma escadaria que presumi levar a um quarto. Não havia paredes, exceto no canto, onde existia uma porta. Se eu fosse uma mulher de apostas, coisa que sou — meu pai me ensinou tudo o que sabe sobre jogos de azar —, apostaria que atrás daquela porta havia um banheiro.

Ele me levou até lá e, sim, era um banheiro. Fui até a pia pulando em um pé só quando ele me soltou. Do nada, minha mala apareceu e Alec a vasculhou, puxando uma camiseta e um short de pijama.

— Aqui, vista isso. Vou pegar algo para você colocar a roupa suja. — Em instantes, ele voltou e me entregou um saco plástico. — Tudo bem? — perguntou, com a mão sobre a maçaneta.

— Sim. Obrigada. — Senti o rosto esquentar enquanto ele fechava a porta.

Idiota, idiota, sua desajeitada idiota! O mais rápido possível, joguei no saco o jeans e a camiseta cobertos de tinta e vesti a roupa limpa. Quando terminei, lavei toda a tinta que consegui ver no meu corpo. Eu precisava de um banho, mas agora tinha que resolver as coisas com meu cliente, avaliar seu estado de espírito e saber se ele estava com raiva de mim.

Quando abri a porta do banheiro, ele estava lá e me pegou no colo novamente.

— Oooops! — Engoli em seco quando ele me carregou e me colocou sentada num sofá de veludo no tom mais profundo de roxo. Tão escuro que era quase preto, mas, se você passasse a mão sobre ele, as fibras se moviam e deixavam um tom mais claro, de berinjela. Assim que me acomodei confortavelmente, com o pé sobre o pufe à minha frente, Alec se sentou, puxando meu tornozelo dolorido para seu colo. Inclinei-me para a frente e segurei as laterais da minha perna, sem saber como responder a um homem que me tocava com tanta liberdade.

— Vamos à sua pergunta sobre imagens espelhadas?

Assenti e mordi o lábio. Ele levantou a mão e traçou o centro do meu rosto com o dedo. Partiu da linha dos cabelos, passou pela testa, por cima do nariz, entre os lábios e parou no queixo. Um arrepio percorreu meu corpo com aquele toque morno, ou talvez tenha sido a maneira sensual como ele me olhou, como se eu fosse a mulher mais linda do mundo. Wes me olhava assim. Droga, Wes me fazia sentir assim. Uma pontada de culpa me atingiu, mas eu a afastei. Wes e eu não éramos um casal. Amigos coloridos, certamente... com a esperança de algo mais. Um dia, talvez. Não agora.

— Se você cortar o seu rosto aqui, bem no meio — ele traçou minha face com a ponta do dedo, o olhar aparentemente perdido nessa tarefa —, cada lado vai espelhar o outro.

Fiz uma careta.

— Isso aconteceria com o rosto de qualquer pessoa.

Sua mão pousou em minha bochecha, os longos dedos se entrelaçando em meus cabelos escuros, segurando minha nuca.

— Sim, ma jolie, mas o rosto das outras pessoas não é simétrico. O seu é perfeito. Igual dos dois lados. Nenhum lado é melhor ou pior que o outro. Isso é incomum. Surpreendente. Você é única. — Alec estava muito perto de mim e pressionou um beijo quente em minha bochecha. — Amanhã nós começamos a trabalhar, oui? Hoje, descanse. — Ele colocou meu tornozelo inchado sobre o pufe novamente, depois de arrumar um travesseiro embaixo dele. — Tenho coisas a fazer agora — anunciou, movendo-se como se já estivesse distraído com as tarefas que tinha pela frente.

Cara interessante esse Alec Dubois.

Durante toda a tarde, sem disposição para enfrentar as escadas até o andar de cima do loft em uma perna só, tentei caminhar por ali, cochilei, liguei para minha melhor amiga, Ginelle, e avisei a tia Millie que tinha chegado. Tanto Gin quanto tia Millie acharam hilário o fato de eu ter torcido o tornozelo e estar presa, à mercê de um artista francês sensual. Gin me chamou de vaca sortuda, e tia Millie encerrou a ligação com um “Divirta-se, boneca”.

Ouvi a campainha do elevador e o barulho do metal quando as portas foram abertas. Eu não conseguia ver nada de onde estava, no sofá, mas não precisei esperar muito. Alec atravessou a sala carregando muletas e uma embalagem branca de restaurante delivery, com um cheiro delicioso de comida chinesa. Sem demora, colocou o pacote sobre a mesa de centro e encostou as muletas na lateral do sofá. Em seguida, veio para o meu lado e se sentou.

Antes que eu pudesse abrir a boca, Alec segurou meu pescoço com as duas mãos, os polegares sobre minhas bochechas, e deu um beijo em cada uma. Seus lábios estavam quentes, e continuei a sentir seu calor muito tempo depois de ele ter se afastado para olhar em meus olhos.

— Como você está, ma jolie?

— Hum... Bem, eu acho. — Pisquei e ele sorriu. — O que quer dizer ma jolie?

Os lábios de Alec se curvaram quando ele inclinou a cabeça de lado. Esticou a mão e afastou da minha testa uma mecha de cabelo, colocando-a atrás da orelha. O ar ao nosso redor era denso, prometendo alguma coisa que eu não sabia nomear.

— Significa “minha bela”.

— Ah, certo — sussurrei, incapaz de desviar o rosto daqueles olhos castanho-dourados.

— Com fome? — ele perguntou, o sotaque se acentuando.

Assenti com a cabeça. Minha garganta secou enquanto o observei se levantar, entrar na cozinha e voltar trazendo pratos e utensílios para servir, antes de se sentar bem perto de mim. O lado inteiro de seu corpo estava colado ao meu. Se eu me afastasse, ele perceberia, e eu não queria causar outra má impressão em meu cliente. Então, suportei seu calor. E seu cheiro. Aquele cheiro seria a minha morte. Era uma mistura de tinta fresca e Hugo Boss. A única razão para eu conhecer a fragrância era o fato de ter trabalhado em uma loja de perfumes num shopping em Las Vegas. Me faziam pulverizar todo tipo de porcaria nos clientes. Tanto que, quando eu saía da loja, parecia um saco de pot-pourri ambulante. O Hugo Boss tem um cheiro gostoso de homem que parece penetrar em minhas narinas e atingir o alvo na área entre minhas pernas.

Fazendo um esforço, tentei me afastar um pouco. Alec olhou para mim e piscou enquanto servia chow mein e frango xadrez num prato.

— Espero que você goste de comida chinesa. — Estendeu-o para mim.

Segurei o prato com avidez, levando-o para perto do rosto, fechei os olhos e inalei o aroma celestial de frango, molho e macarrão fumegante. O cheiro era tão bom que me deu água na boca, e eu gemi. Quando olhei para ele, Alec tinha parado de se servir e estava me encarando. O que vi quase me fez engasgar. Os olhos dele estavam em chamas. O desejo era visível. Ele nem tentava esconder.

— Sua beleza é impressionante. — Ele tocou minha bochecha e a segurou. Inadvertidamente, curvei o rosto na palma de sua mão, selando a conexão. Fazia apenas alguns dias, mas eu sentia falta de um toque masculino. Alec traçou meu lábio inferior com o polegar e sua voz ficou rouca. — Tu est un cadeau de Dieu au monde.

— O que significa?

— Um presente de Deus para o mundo. É o que você é. E eu pretendo mostrar a todos a glória desse presente.

Alec acha que eu sou um presente para o mundo. Um belo presente.

Não fui capaz de responder. Não quando ele deixou seu jantar de lado. Nem quando pegou meu prato e o colocou sobre a mesa. Muito menos quando se inclinou em minha direção até que estivéssemos a pouquíssimos centímetros um do outro. Mas respondi no momento em que meu cérebro, exausto, registrou seu beijo.

Quente, macio e doce. Sua boca roçou a minha antes que ele sugasse meu lábio inferior e passasse a língua ao longo da pele sensível. Isso foi o máximo que aconteceu antes que eu agarrasse seu pescoço e o puxasse para mais perto. Meus dedos tentaram se entrelaçar em seus cabelos. Não desisti quando me deparei com um elástico. Puxei-o até que cedesse, e um cabelo grosso, cheirando a limão, caiu em ondas contra meu rosto, envolvendo nosso beijo no refúgio das mechas longas. Alec segurou meu queixo e virou minha cabeça para o lado, deslizando a língua para dentro e para fora, descobrindo o que me fazia arrepiar, gemer e morder. E foi o que eu fiz. Mordisquei seus lábios como um animal faminto faria com um bife. Ele não pareceu se importar. Em certo momento, tive certeza de que ele rosnou — sim, rosnou —, tornando o beijo impossivelmente mais profundo.

A excitação rugiu através do meu corpo, e eu enrijeci, querendo trazer Alec para mais perto, precisando dele. Quando tentei me deitar no sofá para que ele ficasse em cima de mim, Alec se afastou. Sua testa descansou contra a minha.

— Très jolie fille — ele sussurrou, no idioma que estava rapidamente se tornando uma tara para mim. Não que antes não fosse, mas, depois que tive seus lábios nos meus e sua língua em minha boca, aquelas palavras acariciavam meus sentidos tão facilmente quanto eu imaginava que seu toque faria. Com vigor, desejo e luxúria. — Calma, chérie. — Seu tom era um murmúrio e um bálsamo para o calor que ardia dentro de mim. — Vai haver tempo de sobra para nós nos conhecermos fisicamente. Eu quero aproveitar você, antecipar o seu sabor na minha língua, a sua pele suave na ponta dos meus dedos, o seu corpo na minha tela.

Eu me afastei e nossos olhares se prenderam.

— Uau. — Mordi o lábio e engoli em seco. Ele sorriu.

— Acho que “uau” é um eufemismo. Vamos comer e conhecer um ao outro em todos os níveis. Só assim a manifestação física da nossa união vai ser tão doce quanto possível.

Alec Dubois era um cara bizarro. Quem fala assim? “A manifestação física da nossa união”? Ele deve ter passado muito tempo lendo o Yahoo! Respostas.

— Você é um cara estranho — falei, antes de pegar meu prato. Apoiei-o no colo e abocanhei uma grande garfada de macarrão. Dos deuses! Quase tão bom quanto o beijo que acontecera minutos antes.

Alec inclinou a cabeça para trás e gargalhou. Viu? Totalmente estranho.

Ele pegou seu prato e se serviu, depois se recostou no sofá, colocou os pés ao lado dos meus no pufe, virou a cabeça para o lado e olhou para mim.

— Ah, meu doce. Você não faz ideia, mas em breve vai saber. Vamos comer.