A garota do calendário: Janeiro

Audrey Carlan · Capítulo 1 de 10

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A garota do calendário: Janeiro

Dedicatória

Para Ginelle Blanch

Você está comigo desde o início...

Sua leitura beta me salvou inúmeras vezes.

Obrigada por acreditar em mim e em minhas histórias e por amá-las como eu amo você

e suas peças.

Namastê, minha amiga.

1

 

Amor verdadeiro não existe. Passei anos imaginando que existisse. Na verdade, achei que tivesse encontrado. Quatro vezes, para ser mais exata. Vejamos:

Taylor. Meu namorado do colégio. Ficamos juntos durante todo o ensino médio. Ele era a estrela do time de beisebol. O melhor que a escola já teve. Grande, tinha mais músculos que cérebro e o pinto do tamanho de um amendoim com casca. Provavelmente graças aos esteroides que tomava escondido de mim. Ele me abandonou na noite da formatura. Fugiu com a minha virgindade e a chefe das líderes de torcida. Ouvi dizer que ele largou a faculdade e está trabalhando como mecânico em uma cidadezinha sem nome, com dois filhos e uma mulher que não torce mais por ele.

Depois, teve o assistente do professor na minha turma de introdução à psicologia na Faculdade Comunitária de Las Vegas. Seu nome era Maxwell. Eu achava que ele era o cara. Acontece que ele sapateou em cima do meu coração, porque pegava uma garota de cada turma em que era assistente. Na verdade, ele prestava assistência a peitos e bundas, e sempre tinha muitos deles à disposição. Tudo bem. Ele acabou engravidando duas meninas na mesma época e foi expulso da faculdade por má conduta. Aos dezenove anos, já tinha duas mães na sua cola, exigindo que ele pagasse pensão. Pensando bem, havia algo muito poético nisso. Graças a Deus, sempre exigi que ele usasse camisinha comigo.

Aos vinte, dei um tempo. Passei o ano todo servindo mesas no MGM Grand, na Las Vegas Strip. Foi aí que conheci o afortunado número três, Benny. Só que nem eu nem ele tivemos sorte. Ele contava cartas no pôquer. Na época, dizia que era da área de vendas, rodava os cassinos e adorava jogar. Tivemos um romance que nem foi tão romântico assim. Acho que passei a maior parte do tempo bêbada e debaixo dele, mas, infelizmente, acreditei que ele me amava, já que me dizia isso o tempo todo. Durante dois meses, nós bebemos, nadamos na piscina do hotel e transamos a noite toda em um dos quartos que eu conseguia arrumar com um amigo que trabalhava na limpeza. Eu servia bebidas de graça para esse cara e os amigos dele e, em troca, ele me dava a chave de um quarto na maioria das noites. Funcionava. Até o dia em que não funcionou mais. Benny foi pego contando cartas e desapareceu. No primeiro ano de seu desaparecimento, fiquei desesperada. Então descobri que ele tinha sido espancado quase até a morte. Ele passou um bom tempo no hospital e depois se mandou da cidade, me deixando para trás sem uma palavra.

O último erro foi o que podemos chamar de a gota-d’água. É o motivo pelo qual eu acredito que o amor verdadeiro é uma coisa criada pelas empresas que vendem cartões e por pessoas que escrevem livros sentimentais e roteiros de comédia romântica. Ele se chamava Blaine, mas seu nome deveria ser Lúcifer. Era um executivo de fala mansa. “Executivo” é bondade minha. Na verdade, ele era um agiota. O mesmo que emprestou ao meu pai mais dinheiro do que ele poderia pagar. Primeiro ele mirou em mim, depois no meu pai. Naquela época, eu achava que o nosso amor era de contos de fadas. Blaine me prometeu o mundo e me deu o inferno na Terra.

— É por isso que eu acho que você deve pegar o emprego que a sua tia ofereceu e ver o que acontece. — Minha melhor amiga, Ginelle, mascou seu chiclete de um jeito barulhento do outro lado da linha. Afastei um pouco o telefone da orelha. — É a única solução. De que outra maneira você vai conseguir livrar o seu pai do Blaine e dos capangas dele?

Dei um gole na água fresca, enquanto o sol da Califórnia dividia as gotas em fragmentos de luz salpicados na garrafa.

— Não sei o que fazer, Gin. Não tenho essa grana toda. Não tenho grana nenhuma. — Suspirei, de um jeito alto e dramático demais até para os meus ouvidos.

— Olha, você sempre curtiu se apaixonar...

— Não mais! — lembrei à minha melhor amiga de toda a vida. Eu podia ouvir o barulho de Vegas pelo telefone. As pessoas acham que o deserto é um lugar tranquilo. Não na Strip. Máquinas caça-níquel tilintavam e campainhas soavam constantemente em qualquer lugar em que você estivesse. Não dava para escapar.

— Eu sei, eu sei. — Ela mexeu no telefone, fazendo-o estalar no meu ouvido. — Mas você gosta de sexo, não é?

— Eu não sou uma Barbie, Gin. Por favor, não me faça perguntas idiotas. Estou em uma situação complicada aqui. — Ou melhor, se eu não encontrar um jeito de conseguir um milhão de dólares, meu pai é que estará.

Ginelle gemeu e mascou seu chiclete.

— O que eu quero dizer é que, se você pegar o trabalho de acompanhante, só vai precisar estar sempre bonita e transar muito. Você não fica com ninguém há meses. Poderia muito bem aproveitar a chance, né?

Ginelle era a única pessoa capaz de transformar um trabalho de garota de programa — muito bem pago — no emprego dos sonhos.

— Não estamos no filme Uma linda mulher, e eu não sou a Julia Roberts.

Caminhei até minha moto — uma Suzuki GSX-R600 que apelidei de Suzi. Era a única coisa de valor que eu tinha. Passei a perna sobre o banco e coloquei o telefone no viva-voz. Separei meu cabelo, grosso e pesado, em três partes e fiz uma trança.

— Olha, eu sei que você tem boas intenções, mas, sinceramente, não sei o que vou fazer. Não sou uma prostituta. Pelo menos não quero ser. — O simples pensamento fazia meu peito estremecer de pavor. — Mas tenho que pensar em alguma coisa. Preciso ganhar muito dinheiro, e rápido.

— Sim, eu sei. Depois me conta como foi o encontro na Exquisite Acompanhantes de Luxo. Se puder, me ligue à noite. Merda, estou atrasada para o ensaio e ainda tenho que me vestir. — Sua voz soava entrecortada e eu podia imaginá-la correndo pelo cassino para chegar ao trabalho, o telefone colado ao ouvido, sem dar a mínima para quem a observava ou achava que ela era louca. Era isso o que a tornava tão especial. Ela falava as coisas do jeito que eram... sempre. Assim como eu.

Ginelle trabalhava no show burlesco Dainty Dolls, em Vegas. Assim como o nome do espetáculo, minha melhor amiga era pequena e meiga, e sabia exatamente a melhor forma de balançar o traseiro. Homens do mundo todo vinham assistir ao show sensual na Strip. Mesmo assim, ela não ganhava o suficiente para emprestar a mim ou ao meu velho. Não que eu tenha pedido.

— Tá bom. Te amo, sua vaca — falei docemente, enquanto enfiava minha trança dentro da jaqueta de couro, para que ela caísse entre as omoplatas.

— Te amo mais, vadia.

Virei a chave no contato, acelerei e abaixei a viseira do capacete. Enquanto guardava o telefone no bolso interno da jaqueta, coloquei o pé no pedal e saí em alta velocidade, em direção a um futuro que eu não queria, mas não tinha como evitar.

 

— Mia! Minha querida — minha tia falou, enquanto envolvia os braços finos ao meu redor, me esmagando contra o peito. Para uma mulher franzina, ela era muito forte. Seu cabelo preto estava preso num coque francês elegante. Ela usava uma blusa branca, suave como seda (provavelmente porque era de seda), por dentro de uma saia lápis justa, de couro, e salto agulha altíssimo com solado vermelho. Li maravilhas a respeito daquele sapato quando passei os olhos na última Vogue. Ela estava linda. Mais que isso, ela parecia cara.

— Tia Millie! É tão bom rever você — comecei a falar quando dois dedos, com unhas muito compridas pintadas de vermelho-sangue, me silenciaram.

Ela estalou a língua.

— Aqui você vai me chamar de sra. Milan. — Revirei os olhos dramaticamente. Ela estreitou os seus. — Boneca, em primeiro lugar, não revire os olhos. Isso é grosseiro e nada feminino.

Ela apertou os lábios.

— Em segundo lugar... — Caminhou ao meu redor, me avaliando como se eu fosse uma obra de arte, uma estátua. Algo frio e impenetrável. Talvez eu fosse. Enquanto me avaliava, abria e fechava um leque preto de renda, batendo-o ocasionalmente na palma da mão. — ... nunca me chame de Millie. Essa mulher se foi há muito tempo. Morreu quando o primeiro homem em quem eu confiei fez picadinho do meu coração e deu para os cachorros comerem.

A imagem era feia, mas tia Millie era extremamente honesta.

— Cabeça para cima. — Bateu na parte de baixo do meu queixo, me obrigando a erguê-lo de imediato. Então repetiu o gesto na base da minha coluna, onde a camiseta justa com estampa de banda não cobria o cós do jeans desbotado que eu adorava, deixando um pouco de pele à mostra.

Instantaneamente endireitei a postura, forçando os peitos para a frente. Seu sorriso de lábios vermelhos se ampliou, exibindo dentes brancos, perfeitamente alinhados. Eram os mais bonitos que o dinheiro podia comprar e uma despesa regular para as mulheres ricas de Los Angeles. Eu não conseguia andar um metro e meio sem encontrar alguém que ia mais ao dentista do que é medicamente necessário, ou ao dermatologista para aplicações mensais de botox. Tia Millie era, obviamente, uma cliente assídua desse tipo de tratamento. Ainda assim, mesmo beirando os cinquenta anos, ela estava, definitivamente, com tudo em cima.

— Bem, você é muito bonita. Mas vai ficar ainda melhor depois que a colocarmos em algo mais apresentável e fizermos o ensaio fotográfico. — Seu rosto se contorceu em uma careta quando ela olhou para minha roupa de motociclista.

Dei um passo para trás e bati numa cadeira de couro logo atrás de mim.

— Ainda não concordei com nada.

Os olhos de Millie se estreitaram novamente.

— Você não disse que precisava de muito dinheiro, e rápido? Por causa do imprestável do meu cunhado, que estava no hospital? Com problemas? — Ela se sentou delicadamente, cruzou as pernas e apoiou os braços, com leveza, no couro branco da cadeira.

Tia Millie nunca gostou do meu pai. O que era uma pena, pois ele fez o melhor que pôde como pai solteiro, especialmente quando a irmã dela — minha mãe — abandonou as duas filhas. Eu tinha dez anos na época. Madison tinha cinco e, desde então, não tem lembrança nenhuma da nossa mãe.

Mordi o lábio e olhei em seus olhos verdes. Éramos tão parecidas. Tirando todas as cirurgias plásticas que ela tinha feito, era como olhar em um espelho, vinte e cinco anos à frente. Seus olhos tinham o mesmo tom de verde, quase amarelo, que as pessoas passaram a minha vida toda elogiando. Verde-ametista, diziam. Como olhar para um diamante verde raro. Nosso cabelo tinha o mesmo tom de preto, tão escuro que, quando exposto à luz, você podia jurar que era azulado.

Ajeitando os ombros contra a desconfortável cadeira, respirei fundo.

— Sim, dessa vez o meu pai se meteu num grande problema com o Blaine. — Millie fechou os olhos e balançou a cabeça. Mordi o lábio, lembrando do meu pai, pálido e magro, com hematomas cobrindo cada centímetro de seu corpo enquanto ele jazia sem vida no hospital. — Ele está em coma. Foi duramente espancado há quatro semanas. Ainda não acordou. Os médicos acham que pode ser devido ao trauma no cérebro, mas ainda vai demorar para saber. Muitos ossos foram quebrados. Ele está com o corpo todo engessado — terminei.

— Jesus Cristo. Selvagens — ela sussurrou e deslizou a mão pelo cabelo, colocando um fio atrás da orelha e se recompondo silenciosamente. Eu já a tinha visto fazer aquilo. Millie era mestra em manipulação e podia controlar suas emoções melhor do que qualquer pessoa que já conheci. Eu cobiçava esse talento. Precisava disso.

— É. E na semana passada, quando eu estava de vigília ao lado da cama dele, um dos capangas do Blaine veio me ver. Disse que era o fim da linha para o meu pai. Se não receberem o dinheiro com juros, vão matá-lo. Depois vão vir atrás de mim e da Maddy. Eles chamaram de “dívida herdada”. Seja lá o que isso signifique. De qualquer forma, preciso juntar um milhão de dólares, e rápido.

Tia Millie apertou os lábios e bateu a unha do indicador contra o polegar várias vezes. O tique-taque incessante quase me deixou louca. Como ela podia estar tão calma, tão indiferente? A vida de um homem, a minha e a da minha irmã mais nova estavam em risco. Ela não ligava para o meu pai, mas sempre teve um fraco por mim e minha irmã.

Seus olhos encararam os meus, ferozes e brilhantes, com uma emoção desconhecida.

— Podemos conseguir em um ano. Você acha que eles lhe dariam esse tempo para pagar parcelado? — Sua sobrancelha se arqueou enquanto ela concentrava toda a atenção em mim.

Os pelos dos meus braços se arrepiaram e eu joguei os ombros para trás, em defesa. Balancei a cabeça.

— Não sei. Tenho certeza de que o Blaine quer o dinheiro, e, como tivemos um lance um tempo atrás, posso tentar pedir. Aquele filho da puta sádico sempre gostou de me ver de joelhos, implorando.

— Guarde as suas aventuras sexuais para você, boneca. — Ela sorriu maliciosamente. — Parece que vamos ter que colocá-la para trabalhar imediatamente. Só as melhores contas. Temos que adiantar tudo. Preciso de você aqui amanhã de manhã para a sessão de fotos. Vai durar o dia inteiro. Vamos tirar algumas fotos, fazer vídeos etc. Vou pedir aos meus rapazes que subam o material para o site seguro no dia seguinte.

Tudo estava acontecendo muito rápido. As palavras “podemos conseguir” soaram em meus ouvidos como uma tábua de salvação, um bote em mar aberto cercado de tubarões, porém ainda flutuando.

— Mas eu vou ter que dormir com eles? Quer dizer, eu sei que existem diferentes tipos de acompanhantes. — Fechei os olhos esperando pela resposta, até que senti algo quente apertar minhas mãos. Ela as estava segurando.

— Boneca, você não tem que fazer nada que não queira. Mas, para conseguir todo esse dinheiro, precisa considerar a possibilidade. Meus clientes e eu temos um acordo verbal, por assim dizer. Minhas meninas dormem com eles, e eles acrescentam vinte por cento à comissão. Esse percentual é deixado em dinheiro, num envelope, no quarto da garota. Nada disso é pago para mim ou para minha empresa, já que a prostituição é ilegal na Califórnia. — Millie tocou o próprio queixo com o indicador. — Mas as minhas meninas devem ganhar mais pela conveniência, você não acha? — Ela piscou.

Assenti num gesto de cabeça, sem jeito, sem saber o que pensar, mas concordando mesmo assim.

— Vou agendar você por mês. Essa é a única maneira de conseguirmos um cheque mensal de seis dígitos. — Seus olhos verde-claros estavam brilhantes. Tanto que eu quase acreditei que poderia ser fácil se eu tivesse a mente aberta. — Você vai ser enviada para onde o homem estiver e ser tudo o que ele precisar durante o mês. Mas eu não vendo sexo. Se você dormir com eles, vai ser uma decisão sua. Entretanto, quando der uma olhada nos homens que eu tenho na lista de espera, você vai pensar duas vezes sobre não ir para a cama com eles. Isso sem falar no pagamento extra. — Ela sorriu e depois se levantou. Caminhou ao redor da mesa de vidro, sentou-se e, em seguida, virou-se para o computador, me dispensando silenciosamente. Senti que estava presa à cadeira de couro, incapaz de me mover. Pensamentos de como é que eu ia dar conta desse trabalho rodeavam minha mente feito abutres ferozes, caçando e bicando minha moral, um a um, como se ela fosse uma presa disponível.

— Vou fazer isso — ouvi-me sussurrar.

— Claro que vai. — Ela olhou para mim por cima do computador. Seus lábios se abriram em um sorriso torto. — Você não tem outra opção se quiser salvar o seu pai.

 

O dia seguinte foi um turbilhão de atividades. Eu me senti como a personagem de Sandra Bullock em Miss simpatia. Fui cutucada, esfregada, depilada e massageada em cada centímetro do meu corpo. Era como se eu fosse uma almofada de alfinetes humana, e quase acabei espetando a consultora de beleza que Millie contratou para “me consertar”. Palavras dela, não minhas. Eu não tive como negar; contra fatos não há argumentos. Quando me olhei no espelho, quase não reconheci a mulher refletida ali. Meu cabelo preto e comprido estava mais brilhante do que nunca, caindo em ondas perfeitas sobre as costas e os ombros. Em qualquer ponto em que a luz tocava minha pele, um efeito de brilho cintilava de volta. O visual bronzeado que levei semanas para conseguir sob o sol da Califórnia agora reluzia como mel, destacando meus melhores atributos. O vestido que ela me fez usar era lilás, confortável e justo. Encaixou perfeitamente em cada curva arredondada e nos músculos tonificados do meu corpo, dando o efeito desejado. Sexy e elegante. Eu parecia um anjo negro quando o fotógrafo me colocou num banco frio de mármore branco. Ele me arrumou em algumas posições, e em pouco tempo peguei o jeito de fazer um bico sensual e olhar fixamente ao longe, desprovida de emoção. Era disso que eu precisava naquele momento. Não ter emoções.

Assim que terminamos e eu pude recolocar minhas roupas, que consistiam em calça jeans e camiseta justa, voltei para Millie, ou melhor, para o escritório da sra. Milan.

— Boneca, as fotos ficaram magníficas! Eu sempre soube que você seria perfeita como modelo. — Ela clicou em seu computador enquanto eu caminhava pela sala, então olhei para o que ela estava vendo. Perdi o fôlego quando vi minha própria imagem retratada pelo fotógrafo.

— Incrível. — Fiquei sem palavras por um momento. — Não posso acreditar que sou eu. — Balancei a cabeça enquanto uma foto após a outra apareciam no site da Exquisite Acompanhantes de Luxo. Se não tivesse passado por aquilo tudo, eu jamais acreditaria que era eu.

Um lento sorriso surgiu nos lábios da minha tia.

— Você é muito bonita. — Seus olhos claros se fixaram em mim. — Se parece tanto com...

— Que seja. — Balancei a cabeça e encostei o quadril em sua mesa de vidro, sem querer ouvir quanto ela achava que eu me parecia com minha mãe. — E agora? — perguntei, cruzando os braços sobre o peito, sentindo um estranho desejo de me proteger do que ia acontecer a seguir.

Ela se recostou na cadeira de couro preto, com os olhos brilhando.

— Quer ver a sua primeira missão?

Uma lenta sensação de medo subiu pela minha coluna, mas enrijeci os ombros e olhei para ela com uma expressão branda.

— Manda ver.

Millie riu e, em seguida, clicou algumas vezes no navegador, trazendo a imagem de um dos homens mais insuportavelmente lindos que eu já vira. Não havia nada que pudesse comprometer sua excelente aparência. Mesmo em uma foto de currículo corporativo, o cabelo loiro-escuro, os olhos verdes e o queixo esculpido eram de admirar. Seu cabelo era longo, cortado em camadas e com aquele jeito meio bagunçado mas perfeitamente arrumado que estava tão na moda. Mas algo ali não encaixava. O cara não devia ter mais de trinta anos. Além disso, não era o tipo de homem que precisaria contratar uma acompanhante. Parecia mais o tipo de cara por quem as mulheres ficam loucas, perdidas de desejo.

— Não entendo. Por que ele... — Apontei para o sorriso do monumento na foto. — ... precisaria contratar uma acompanhante?

Minha tia inclinou-se para trás, apoiou as mãos no colo e sorriu.

— Ele escolheu você.

Sei que devo ter parecido confusa, porque ela apressadamente continuou:

— Eu mesma enviei as primeiras fotos do seu ensaio para ele e a mãe. Trabalho muito com ela. Enfim, ele concordou com o encontro. Vai mandar um carro buscá-la amanhã de manhã. Ele é daqui da região, mas, ainda assim, você vai precisar ficar na casa dele pelos próximos vinte e quatro dias.

Senti como se minha cabeça tivesse sido atingida, em um golpe rápido, por um taco de beisebol imaginário.

— Vinte e quatro dias? Você está louca? Como é que eu vou conseguir trabalhos ou participar de audições? — Minha carreira de atriz não era grande coisa, mas eu tinha um agente que cobrava barato e me conseguia um contrato ou outro. E ainda tinha o restaurante onde eu dava expediente à noite.

Millie me olhou como se uma segunda cabeça tivesse crescido em mim. Seus lábios estavam apertados em uma linha fina, e seu nariz, franzido de uma forma nada atraente.

— Mia, você vai deixar todos os seus outros trabalhos por pelo menos um ano. Agora você é uma funcionária da Exquisite Acompanhantes de Luxo. Suas tarefas serão executadas no período de um a vinte e quatro dias, dependendo das necessidades do cliente. Já que você precisa ganhar muito dinheiro num curto espaço de tempo, precisa pegar trabalhos maiores. Depois dos vinte e quatro dias, você vai ter o restante do mês para ficar em casa, relaxar, se recuperar e providenciar qualquer cuidado de beleza que seja necessário. Na virada de cada mês, um novo encontro vai ser designado a você.

— Não posso acreditar nisso! — Comecei a andar pelo escritório, sentindo-me de repente como um animal enjaulado que precisa se libertar. Tinha acabado de me dar conta de que a vida com que eu estava acostumada havia acabado. Nada mais de encontros normais, não que eu tivesse saído com alguém nos últimos tempos. Nada de audições, o que faria da minha incipiente carreira uma lembrança distante, e pouco ou nenhum tempo para ver meu pai, Maddy ou Ginelle.

— Acredite, garota, isto aqui não é brincadeira. O que o seu pai e o seu ex-namorado fizeram determinou que seria assim. Você tem sorte por eu estar lhe oferecendo esta oportunidade. Não seja ingrata. Agora, sente-se e cale a boca! — A voz dela ficou completamente desprovida do calor habitual, adquirindo o tom frio e formal de uma empresária muito objetiva.

— Desculpe. — Ela estava tentando me ajudar, mas era tudo tão... repentino. Inacreditável. Caí na cadeira em frente a sua mesa e apoiei a cabeça nas mãos. Sacudi-la repetidamente não mudaria o resultado. Era como se eu estivesse para alugar. A cada mês seria atribuída a um novo homem e, se eu transasse com ele, ganharia vinte por cento a mais.

Balancei a cabeça e ri. Isso provou que eu estava maluca. Encostei a cabeça no couro da cadeira e olhei para o teto branco. Depois de um momento, uma decisão me acalmou. Era isso que eu tinha que fazer. Então deixaria um cara sexy me levar para jantares de negócios chatos e aonde mais ele quisesse. Eu não precisaria transar com ele e, mais importante, não tinha nenhuma chance de me apaixonar. Um novo homem todo mês não era tempo suficiente para que eu me apaixonasse, como tinha acontecido no passado. Quem disse que eu precisava desistir da minha carreira de atriz? Existiria melhor maneira de aperfeiçoar minhas habilidades de atuação do que fingindo ser quem esses caras queriam que eu fosse? Então, quando o mês acabasse, eu seria outra pessoa e meu pai se manteria seguro. Se eu conseguisse convencer Blaine a concordar com os pagamentos mensais, a coisa poderia dar certo.

Respirei fundo, levantei e estendi a mão para minha tia. Seu sorriso era cruel, mas ainda assim sexy. Ela era muito boa no que fazia.

— Certo, sra. Milan — enfatizei seu nome falso para que ela compreendesse meu comprometimento. — Parece que eu sou a sua nova Garota do Calendário.