A Guerra das Mulheres

Alexandre Dumas · Capítulo 5 de 5 · parte 2/3

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A Guerra das Mulheres

Capítulo IV

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

- Não ignora decerto o provérbio latino:

"Ne nimium crede colori". O sábio não julga pelas aparências. Ora, eu faço questão de ser um sábio; e resulta daí que sob esse trajo enganador reconheci...

- O quê? - perguntou o viajante com

impaciência.

- Eu não lhe disse já? Uma mulher. - Mas se eu sou uma mulher, porque

me detém?

- Essa não é má! Porque no tempo em

que vivemos as mulheres são mais perigosas do que os homens; e, por isso, a nossa guerra, falando com propriedade, poderia chamar-se a Guerra das Mulheres. A rainha e a princesa de Conde são as duas potências beligerantes. Tomaram por tenentes-generais a senhora de Chevreuse, a senhora de Montbazon, a senhora de Longueville... e a si. A menina de Chevreuse é o general do senhor de Beaufort; senhora de Longueville é o general do senhor de La Rochefoucauld, e a senhora... tem todo o ar de ser o general do duque D’Épernon.

- Está louco, senhor - disse o jovem

viajante, encolhendo os ombros.

- Não acreditarei mais em si, minha

bela senhora, do que há um momento acreditava num belo mancebo que me fazia o mesmo cumprimento.

- Talvez tenha querido manter que ela

era um homem...

- Justamente. Eu, que reconhecera o

meu gentil-homenzinho, porque já o havia visto numa certa tarde dos princípios de Maio, girar à roda da estalagem do Biscarros, não me deixei enganar com as saias, toucas e voz aflautada; como também me não deixo enganar com o seu casaco azul, chapéu e botas; e disse-lhe: - Meu jovem amigo, tome o nome que quiser, adote o trajo que bem lhe parecer: não deixará por isso de ser o visconde de Cambes.

- O visconde de Cambes?! - exclamou o

jovem viajante.

- Ah! vejo que este nome, segundo me

parece, o impressiona; dar-se o caso de o conhecer?

- Um homem muito jovem que quase

parece uma criança?...

- Que terá, quanto muito, dezessete a

dezoito anos.

- Muito louro?

- Muito louro.

- Olhos grandes e azuis?

- Muito grandes e muito azuis. - Ele está aqui?

- Está ali.

- E diz que está...?

- Disfarçado de mulher, aquele malicioso, como a senhora, maliciosa, o está de homem.

- E que vem ele aqui fazer? - exclamou

o jovem cavaleiro, com uma veemência e turbação que cada vez se tornavam mais visíveis, à medida que Cauvignac, pelo contrário, se tornara mais sóbrio de gestos e mais avaro de palavras.

- Ele - respondeu Cauvignac,

carregando em cada uma das suas palavras - diz que tem de se encontrar aqui com um dos seus amigos.

- Um dos seus amigos?

- Sim.

- Um gentil-homem?

- É provável que o seja.

- Um barão? -Talvez que o seja. - E como é que se chama? A fronte de Cauvignac enrugou-se com

um complicado pensamento que pela primeira vez se apresentava ao seu espírito, e que penetrando nele, produzia uma autêntica revolução no seu cérebro.

"Oh! oh! - disse ele consigo - será isto

um enredo premeditado?"

- Como é que se chama? - repetiu o

jovem viajante.

- Espere um momento - replicou

Cauvignac - espere... O nome acaba em olles...

- O senhor de Canolles?! - exclamou o

jovem viajante, cujos lábios se cobriam de uma palidez mortal, o que contribuía para que, de um modo sinistro, ainda mais sobressaísse o negro da sua máscara sobre a alvura da pele.

- É esse mesmo, senhor de Canolles -

replicou Cauvignac, observando atentamente as partes visíveis do rosto, e a revolução que se operava em todo o corpo do mancebo. - O senhor de Canolles, disse muito bem. Então, conhece o senhor de Canolles? Pelo que vejo, conhece toda a gente!...

- Nada de gracejos - balbuciou o

mancebo, a quem todo o corpo tremia, e que parecia estar a ponto de desmaiar. - Onde está essa senhora?

- Naquele quarto; olhe: é a terceira

janela a contar desta, cujas cortinas são amarelas.

- Quero vê-la! - exclamou o viajante. - Oh! oh! ter-me-ia eu enganado - disse

Cauvignac - e será o senhor o tal Canolles que ela espera! Ou não será antes o senhor de Canolles aquele belo cavaleiro que aí vem chegando a trote, seguido por um lacaio que parece de papelão?...

O jovem viajante lançou-se ao vidro da

frente da carruagem com tamanha precipitação, que o fez em pedaços.

- É ele! É ele! - exclamou, sem sequer

reparar em que algumas gotas de sangue lhe saíam de uma ligeira ferida. - Oh! desgraçada! Ele chega, vai encontrá-la, estou perdida!...

- Ah! vê-se agora bem que é uma

mulher!

- Eles tinham aprazado um ponto de

reunião - continuou o mancebo, torcendo os braços... - Oh! vingar-me-ei.

Cauvignac queria ensaiar um novo

gracejo, mas o mancebo fez-lhe um sinal imperioso com uma das mãos, enquanto com a outra arrancava a máscara, e então viu-se o rosto pálido de Nanon apresentar-se, todo ele ameaças, aos calmos olhos de Cauvignac.

- BONS-DIAS, maninha - disse

Cauvignac a Nanon, estendendo a mão à jovem senhora, com a fleuma mais imperturbável.

- Bons-dias. Não há dúvida de que me

reconheceu...

- No mesmo instante em que a vi; não

era suficiente ocultar o rosto, devia também encobrir esse lindo sinalzinho, e esses dentes de pérola; ponha uma máscara completa, pelo menos quando quiser disfarçar-se, minha garrida menina; mas isso não lhe serve...

- Basta! - disse Nanon em tom

imperioso. - Falemos a sério.

- Isso é o que eu quero; só falando seriamente se concluem os bons negócios.

- Diz então que está aqui a viscondessa

de Cambes?

- Ela mesma, em pessoa. - E que o senhor de Canolles entra

agora mesmo na estalagem?

- Ainda não; apeia-se, e dá a rédea ao

seu lacaio. Ah! ele também foi visto daquele lado. Eis a janela de cortinas amarelas que se abre, e a cabeça da viscondessa que se mostra. Ah! dá um grito de alegria. O senhor de Canolles corre para a casa; oculte-se, maninha, se não quer deitar tudo a perder.

Nanon deitou-se para trás, apertando

convulsivamente a mão de Cauvignac, que olhava para ela com ar de paterna compaixão.

- E eu que ia ter com ele a Paris -

exclamou Nanon. - Eu que a tudo me arriscava para tornar a vê-lo.

- Ah! fazer sacrifícios, mana, e por um

ingrato! Na verdade, pode empregar melhor os seus favores.

- Agora que estão reunidos, o que dirão

eles? O que farão?

- Na realidade, querida Nanon,

incomoda-me com semelhante pergunta - disse Cauvignac. - Que quer que lhe diga? O que suponho é que vão amar-se muito.

- Oh! tal não acontecerá - exclamou

Nanon, roendo com raiva as unhas, lisas como marfim.

- E eu, pelo contrário, entendo que tal

acontecerá - respondeu Cauvignac - pois Ferguzon, que tinha ordem de não deixar sair ninguém, nenhuma recebeu para se opor à entrada. Neste mesmo instante, com toda a probabilidade, a viscondessa e o barão de Canolles estão dizendo mil gentilezas, e fazendo mil afagos e carícias um ao outro. Ah! minha querida Nanon, chegou muito tarde.

- Assim julga - replicou a jovem

senhora, com uma expressão indefinida de profunda tristeza e malícia odienta. - Assim julga! Pois então, tome lugar na sege, junto de mim. Pobre diplomático!

Cauvignac obedeceu.

- Ouça, Bertrand - continuou Nanon,

dirigindo-se a um dos seus porta-mosquetes - diga ao cocheiro que dê volta sem afetação, e vá colocar-se naquele arvoredo que deixamos à nossa direita quando entramos na aldeia.

Depois, voltando-se para Cauvignac: - Não estaremos nós ali bem para

conversar? - disse ela.

- Muito bem; mas permita-me que eu

também, por meu turno, tome as minhas precauções.

- É muito justo que assim faça. Cauvignac fez sinal a quatro dos seus

seis homens que andavam à roda da estalagem, conversando ao sol.

- Faz bem em levar consigo esses

homens - disse Nanon - e, se me der crédito, leve seis de preferência a quatro; talvez que possamos dar-lhes que fazer.

- Bom - disse Cauvignac - que fazer é

justamente o que se torna necessário.

- Então ficará satisfeito - respondeu a

jovem senhora.

E a sege, rodando sobre si mesma,

levou Nanon, a quem abrasava o fogo do seu pensamento, e Cauvignac, sossegado e frio na aparência, mas nem por isso deixando de dar profunda atenção às propostas que tencionava fazer a sua irmã.

Durante este tempo, Canolles, atraído

pelo grito de alegria que ao avistá-lo dera a senhora de Cambes, entrara correndo pela estalagem dentro, e chegara ao quarto da viscondessa, sem reparar em Ferguzon, que se encontrava de pé no corredor, mas que, não tendo recebido ordem alguma relativamente a Canolles, nenhuma dificuldade teve em deixá-lo entrar.

- Ah! senhor - exclamou a senhora de

Cambes, dando com os olhos nele - venha depressa, que é grande a impaciência com que o espero.

- Eis palavras, senhora, que me

tornariam o mais feliz dos homens, se a sua palidez e a sua perturbação me não dissessem claramente que não é só por amor de mim que me espera.

- Sim, senhor, tem razão - replicou

Clara, com o seu encantador sorriso - e quero dever-lhe mais uma obrigação.

- Qual?

- A de me pôr a salvo de não sei que

perigo que me ameaça.

- Um perigo?

- Sim. Espere.

Clara dirigiu-se à porta e correu o

ferrolho.

- Fui reconhecida - disse ela, voltando-

se da porta.

- E por quem?

- Por um homem, cujo nome ignoro,

mas cujo rosto e voz me são estranhos. Parece-me ter ouvido a sua voz na noite e neste mesmo quarto, recebeu a ordem de partir sem a mínima demora para Nantes; creio ter reconhecido o seu rosto na caçada de Chantilly, no dia em que representei o papel de princesa de Conde.

- E que conceito faz de semelhante

homem?

- O conceito que dele faço é ser um

agente do duque D’Épernon e, por conseguinte, um inimigo.

- Será possível?! - disse Canolles. - E diz

que foi conhecida?...

- Tenho a certeza. Chamou-me pelo

meu nome, teimando unicamente em que eu era um homem. Estes arredores estão cheios de oficiais do partido real, sabem que sigo o partido dos príncipes, e talvez estejam resolvidos a inquietar-me. Mas ei-lo aqui, e já nada receio. O senhor mesmo é oficial, é do mesmo partido que eles seguem, e, portanto, será a minha salvaguarda.

- Ai! - disse Canolles. - Tenho grande

receio de não poder oferecer-lhe outra defesa, nem outra proteção, a não ser a da minha espada.

- Como assim!?

- Desde este momento, senhora, deixei de estar ao serviço do rei.

- Fala verdade?! - exclamou Clara, não

cabendo em si de alegria.

- Decidi mandar pedir a minha

demissão, do lugar onde a encontrasse. E como a encontrei, a minha demissão será datada de Jaulnay.

- Oh! livre! livre! está livre! Já pode

abraçar o partido da justiça, da lealdade. Já pode servir a causa dos príncipes - isto é: a de toda a nobreza. Oh! eu sabia muito bem que era um muito digno gentil-homem, e que mais tarde ou mais cedo seria um dos nossos.

E Clara estendeu a Canolles a sua mão,

que este beijou com transporte.

- Diga-me - disse-lhe ela - o que deu

lugar a isso? O que é que se passou? Informe-me de tudo o mais circunstanciadamente possível.

- Oh! não será preciso muito tempo.

Escrevi desde logo ao senhor Mazarino, a inteirá-lo do que se tinha passado; chegado a Nantes, recebi ordem de ir a casa dele. Disse-me que eu era uma cabeça sem miolos; respondi-lhe que a dele é que tinha falta de juízo. Pôs-se a rir, e eu agastei-me. Elevou a voz, e eu mandei-o para a terra dele, além dos montes. Recolhi-me à minha estalagem. Esperei que se dignasse mandar-me encerrar na Bastilha, e ele esperou que alguma boa reflexão me fizesse sair de Nantes. Ao cabo de vinte e quatro horas ocorreu-me aquela boa reflexão. E a si também a devo, porque me lembrei do que me havia prometido, e pensei que talvez me esperasse, ainda que não fosse senão o espaço de um segundo. Então, respirando o ar livre, desobrigado de toda a responsabilidade, de todo o dever, sem partido, sem empenho, e quase sem dar preferência a coisa alguma, de uma só me lembrei: e era de que a amava, senhora, e que lho podia agora dizer, alta e afoitamente.

- Deste modo, perdeu o posto, caiu em

desagrado, e está arruinado por amor de mim! Querido senhor de Canolles, como lhe pagarei jamais tamanhas obrigações? Que provas lhe darei do meu reconhecimento?

E com um sorriso, com uma lágrima -

que restituíam ao jovem cem vezes mais do que perdera - a senhora de Cambes fez cair Canolles a seus pés.

- Ah! senhora - disse-lhe ele - desde este

momento, muito pelo contrário, sou rico e feliz, visto que vou segui-la, visto que de si não mais me apartarei, visto que vou ser ditoso com a sua presença e rico com o seu amor.

- Então não há coisa alguma que o

detenha?

- Não, senhora.

- É todo meu, e guardando para mim o

seu coração, posso oferecer o seu braço à princesa?

- Sem dúvida que pode fazê-lo. - Portanto, enviou a sua demissão? - Ainda não. Queria tornar primeiro a

vê-la. Mas, como lhe disse, agora que tornei a vê-la, vou escrevê-la aqui, neste mesmo momento. Reservava para mim a honra de ter de obedecer-lhe.

- Escreva, pois! Escreva antes de tudo!

Se não escreve, será considerado um trânsfuga; até deve esperar, antes de dar algum passo decisivo, que a sua demissão seja aceite.

- Querida diplomaticazinha, nada

receie, conceder-me-ão, até de muito bom grado; a inaptidão que demonstrei em Chantilly não lhes deixa muitas saudades minhas. Não me disseram eles - ajuntou Canolles, rindo-se - que era um cabeça sem miolos?

- Sim, mas indeniza-lo-emos do

conceito que fizeram de si, não se preocupe. A sua ação em Chantilly será mais bem vista em Bordéus do que em Paris, pode acreditar-me. Mas escreva, barão, escreva depressa, a fim de que possamos pôr-nos a caminho; porquanto, confesso-lhe a estada nesta estalagem não me inspira a mínima confiança.

- Do passado é que sem dúvida quer falar, e não sei para que se há-de assustar tanto com meras recordações! - disse Canolles, volvendo os olhos em torno de si, e fixando-os numa alcovazinha com duas camas que já por diferentes vezes haviam chamado a sua atenção.

- Não, falo do presente, e não lhe cabe

parte alguma nos terrores que sinto. Hoje, não é já de si que receio.

- Então quem receia? Que pode recear? - Ah! meu Deus! Quem sabe? Neste momento, como para justificar os

receios da viscondessa, bateram três vezes na porta, com uma gravidade solene.

Canolles e a viscondessa guardaram

silêncio olhando um para o outro, com inquietação, e interrogando-se mutuamente.

- Em nome do rei - disse uma voz -

abram!

E a fraca porta voou logo em estilhaços.

Canolles quis lançar mão à espada, mas já um homem lha tolhia, havendo-se arremessado de permeio.

- Que quer isto dizer!? - perguntou o

barão.

- Não é o senhor de Canolles? - Sem dúvida que o sou.

- Capitão do regimento de Navailles? - Sim.

- Enviado com uma comissão pelo

duque D’Épernon?

Canolles fez um aceno afirmativo com

a cabeça.

- Neste caso, em nome do rei e de Sua

Majestade a rainha-regente, está preso.

- Onde está a ordem?

- Ei-la aqui.

- Mas, senhor - disse Canolles,

restituindo o papel, depois de haver corrido por ele os olhos - se me não engano, parece-me que o conheço.

- Sem dúvida que me conhece! Não foi

nesta mesma aldeia onde hoje lhe dou a voz de prisão, que lhe trouxe, da parte do duque d’Epernon, a comissão de partir para a corte? O seu futuro dependia do bom êxito desta comissão, meu gentil-homem; foi mal sucedido - tanto pior para si.

Clara abateu-se e foi cair debulhada em

lágrimas numa cadeira; E ela, da sua parte, tinha conhecido o indiscreto interrogador.

- Mazarino vinga-se - resmungou

Canolles.

- Vamos, senhor, partamos - disse

Cauvignac.

Clara não se movia. Canolles, indeciso,

parecia estar a ponto de enlouquecer. A sua desgraça era tamanha, tão acerba, tão inesperada, que o respectivo peso esmagava-o; curvou, portanto, a cabeça e resignou-se.

Naquela época, as palavras “Em nome

do rei” ainda tinham toda a sua magia, e ninguém se atrevia a resistir-lhes.

- Para onde me conduz, senhor? - disse

ele. - Ou também o proibiram de me dar a consolação de saber para onde vou?...

- Não, senhor, vou dizer-lho.

Conduzimo-lo à fortaleza da Ilha de São Jorge.

- Adeus, minha senhora - disse

Canolles, inclinando-se com respeito diante da senhora de Cambes. - Adeus!

"Vamos, vamos - disse Cauvignac

consigo mesmo - as coisas não estão tão adiantadas como eu o julgara; di-lo-ei a Nanon, e isto dar-lhe-á prazer."

Depois, chegando-se à porta: - Quatro homens para escoltar o

capitão! - bradou ele - e os outros quatro para diante.

- E a mim? - exclamou a senhora de

Cambes estendendo os braços para o preso. - E a mim, para onde me levam? Pois se o barão é culpado, oh! eu o sou muito mais do que ele!

- A senhora - respondeu Cauvignac -

pode retirar-se; está livre.

E saiu, levando consigo o barão. A senhora de Cambes levantou-se,

reanimada por um raio de esperança, e preparou tudo para a partida, a fim de que não pudessem estas boas disposições dar lugar a ordens contrárias.

"Livre - disse ela - então poderei não o

perder de vista; partamos."

E, chegando à janela, viu a guarda que

acompanhava Canolles, disse-lhe adeus com a mão pela última vez, e, chamando Pompeu, que, contente por fazer um alto de dois ou três dias, havia já tomado posse do melhor quarto que pôde encontrar, ordenou-lhe que fosse preparar tudo para a partida.

O caminho tornou-se para Canolles

ainda mais triste do que esperava. Com efeito, o cavalo, que dá ao preso, por muito guardado que esteja, um falso ar de liberdade, fora substituído por um velho e pesado carroção; além disso, tinha os joelhos travados nos de um homem que tinha nariz de águia, cuja mão estava pousada com uma espécie de amor-próprio na coronha de uma pistola. Algumas vezes, durante a noite, tinha esperanças de surpreender a vigilância do novo Argos; mas, ao lado do nariz de águia, brilhavam dois grandes olhos de mocho, redondos, chamejantes, e muito próprios para as observações noturnas. De modo que, para qualquer lado que se voltasse, Canolles via sempre aqueles dois olhos redondos luzirem na direcção do seu olhar.

Enquanto dormia, um dos dois olhos

também dormia - mas um só; era uma faculdade que a Natureza dera àquele homem, de só dormir com um dos olhos.

Canolles passou assim dois dias e duas

noites em fúnebres reflexões, porque a fortaleza da Ilha de São Jorge, fortaleza que não era para aterrar, tomava aos seus olhos umas proporções medonhas, à medida que o receio e os remorsos iam invadindo mais profundamente o seu coração.

Sentia remorsos, porque compreendia

que a sua comissão junto da princesa fora uma comissão de confiança, a qual vendera barato aos seus amores, e que o resultado da falta que cometera nessa ocasião era terrível. Em Chantilly, a senhora de Conde não era mais do que uma mulher fugitiva. Em Bordéus, a senhora de Conde era uma princesa rebelde.

Sentia receio, porque sabia por tradição

de que sombrias vinganças era capaz uma Ana de Áustria encolerizada.

Outro remorso ainda sentia mais

secreto; porém, talvez mais pungente, do que o primeiro. Existia neste mundo uma mulher jovem, bela, espirituosa, uma mulher que não empregara a sua influência senão para promover a sua melhoria, que não empregara o seu crédito senão para protegê-lo, uma mulher que pelo amor que lhe tinha, vinte vezes pusera em risco a sua posição, o seu porvir, a sua fortuna. Pois esta mulher, não só a mais encantadora das amantes, mas ainda a mais ardente e extremosa das amigas, fora por ele brutalmente abandonada, sem desculpa, sem motivo, no momento em que o tinha na sua lembrança; e em vez de se vingar, concedera-lhe novas graças; e o seu nome, em lugar de se apresentar com o acento da repreensão, ressoara aos seus ouvidos com a doçura acariciadora de um favor quase régio. Verdade é que este favor chegara num mau momento, num momento em que decerto Canolles teria preferido um desfavor; mas era isso culpa de Nanon? Nanon, nesta comissão junto de Sua Majestade, outra coisa não vira do que um engrandecimento de fortuna e de consideração para o homem que trazia constantemente presente no seu espírito.

Por isso, todos aqueles que amaram

duas mulheres ao mesmo tempo - peço perdão às minhas leitoras, este fenômeno, incompreensível para elas, que nunca tiveram senão um amor, é comum entre nós, os homens - por isso, digo eu, todos aqueles que amaram duas mulheres ao mesmo tempo, compreenderão que à medida que Canolles se engolfava nas suas reflexões, Nanon ia recobrando cada vez mais no seu espírito aquela influência que ele julgava perdida. As angulosas asperezas do caráter que ferem no contacto da intimidade, e dão lugar a passageiros despeitos, apagam-se com a distância, enquanto, pelo contrário, certas recordações mais doces recobram a sua intensidade com a ausência. Enfim, é triste ter de dizer-se que o amor etéreo que só promete favores se volatiliza quando isolado; ao passo que, nesse mesmo estado, pelo contrário, o amor material ocorre à memória, armado de todas as suas fruições terrestres, que não deixam de ter o seu preço. Bela e perdida, boa e enganada - eis o que parecia agora Nanon a Canolles.

Acontecia assim, porque Canolles

mergulhava ao íntimo do seu coração com ingenuidade, e não com a má vontade daqueles acusados a quem obrigam a fazer uma confissão total. Que havia feito Nanon para que a abandonasse? Que havia feito a senhora de Cambes para que a seguisse? O que havia, pois, de tão apetecível, de tão magnificamente amoroso no engraçado cavaleiro da estalagem Bezerro de Ouro? Como podia a senhora de Cambes ultrapassar Nanon de um modo tão triunfante? Dar-se-ia o caso de os cabelos louros merecerem uma tal preferência sobre os cabelos pretos, para que um homem seja perjuro e ingrato para com a amante; traidor e desleal para com o seu rei - sem outro fim do que trocar tranças pretas por tranças louras? E, contudo, oh, miséria da condição humana! Canolles fazia para si mesmo todos estes raciocínios, muito assizados, como bem se vê, e não se dava por convencido.

O coração está cheio de mistérios

semelhantes a estes, que fazem a ventura dos amantes e o desespero dos filósofos.

Todavia, isto não impedia que Canolles

se indignasse contra si mesmo, e se repreendesse com aspereza.

"Vou ser punido - dizia consigo,

pensando que a punição apaga a falta. -Tanto melhor! Irei encontrar-me com algum bom capitão, muito rude, muito insolente, muito brutal, que me lerá, do alto da sua dignidade de carcereiro-chefe, uma ordem de Mazarino; que me indicará com o dedo uma enxovia, e que me mandará sepultar num profundo subterrâneo em companhia dos ratos e dos sapos - enquanto poderia ter vivido em pleno dia, e florescer ao sol, nos braços de uma mulher que me amava, a quem eu amei, e a quem, pela minha fé! talvez que ainda ame. Maldito viscondezinho, que os espíritos diabólicos te levassem! Porque havias tu de servir de envoltório a uma tão encantadora viscondessa!? Sim; mas haverá no mundo uma viscondessa que valha o que esta me vai custar?... E o pior é que todo o mal não está no governador, e na sua enxovia subterrânea; se julgarem que sou traidor, tudo quererão investigar; causticar-me-ão acerca da minha estada em Chantilly, para a qual não haveria expiação bastante, convenho, se houvesse sido mais frutuosa; mas que, ao fim e ao cabo, nada mais me rendeu do que três beijos na mão. A verdade é que fui um grandíssimo toleirão, pois tendo a força, e podendo dela abusar, nenhum uso dela fiz. Cabeça desmiolada, como disse Mazarino, que foi traidora, e que não soube fazer-se recompensar pela traição! E agora, quem ma pagará?"

E Canolles encolhia os ombros,

respondendo com desprezo, pelo movimento que fazia, à interrogação do seu pensamento.

O homem dos olhos redondos, que por

muito perspicaz que fosse, não podia compreender esta pantomima, olhava-o com espanto.

"Se me interrogarem - prosseguiu

Canolles - não responderei; que resposta poderia eu dar? Que não gostava de Mazarino? Então não devia servi-lo. Que amava a senhora de Cambes? Bela razão para dar a uma rainha e a um primeiro-ministro! Portanto, nada responderei. Mas os juizes são entidades muito susceptíveis; quando interrogam, querem que lhe respondam. Torturar-me-ão. Deslocar-me-ão estes delicados joelhos de que tanto me ufano, e enviar-me-ão todo desconjuntado para a companhia dos tais ratos e dos sapos. O resultado de tudo isso será ficar manco toda a vida, como o príncipe de Conti, o que é uma coisa muito feia, supondo ainda que a clemência de Sua Majestade me acuda - o que decerto não fará."

Além do governador, dos ratos, dos

sapos, das torturas, restavam ainda certos cadafalsos onde eram decapitados os rebeldes, certas forcas onde eram enforcados os traidores, e certas praças de armas onde eram arcabuzados os desertores. Mas tudo isto nada era para um belo mancebo como Canolles - o que se compreende - em comparação com a hipótese de ficar manco.

Assim, decidiu esclarecer-se, e

interrogar a este respeito o companheiro de viagem.

Os olhos redondos, o nariz de águia, e

o ar carrancudo do indivíduo não encorajavam o preso a iniciar o diálogo. Contudo, dado que por muito impassível que seja um rosto, é impossível que não haja momentos em que se desenrugue um pouco, Canolles aproveitou-se do momento em que uma carantonha, que se assemelhava a um sorriso, passava pelo rosto do esbirro subalterno que tão cuidadosamente o guardava.

- Senhor... - disse ele.

- Senhor... - respondeu o esbirro. - Desculpe-me, se o arranco às suas

reflexões...

- Não tem de que pedir-me desculpa,

senhor; nunca reflito.

- Olá! Possui, senhor, pelo que vejo,

uma feliz organização.

- Não tenho razão de queixa. - Ora pois, outro tanto não me acontece

a mim, porque tenho boa vontade de me queixar.

- De quê, senhor?

- De que assim me levem à força, no

momento em que menos pensava, a fim de me conduzirem não sei para onde.

- Bem o sabe, senhor, pois que já lho disseram.

- Tem razão. Vamos para a Ilha de São

Jorge, não é assim, senhor?

- Isso mesmo.

- Crê que eu fique ali muito tempo? - Ignoro, senhor; mas pelo modo como

me foi recomendado, julgo que sim.

- Ah!... é coisa muito feia, a Ilha de São

Jorge?

- Não conhece aquela fortaleza? - Não conheço o interior, visto que

nunca ali entrei.

- Posso assegurar-lhe, senhor, que não é

coisa muito bela, e à exceção dos quartos do governador, que acabam de mandar renovar e que são muito confortáveis, o resto do edifício, ao que parece, forma uma habitação bem triste.

- Belo. Julga que me farão perguntas? - Pelo menos, assim é costume. - E se eu não responder?

- Se não responder?...

- Então?

- Em tal caso, bem o sabe, recorre-se à

tortura.

- Normal?

- Ordinária ou extraordinária, conforme

a gravidade da acusação.

- Receio - disse Canolles - ser acusado

de crime de Estado.

- Ah! nesse caso, gozará das torturas

extraordinárias... Água, e mais água...

- Como!? Água e mais água?... - Sim, encher-lhe-ão a barriga de água. - Então a água é o que está em moda,

na Ilha de São Jorge?

- Não é de espantar, senhor;

compreenda que no Garona...

- É muito justo; têm a coisa à mão. E

que quantidade de água?

- Quanta puderem fazer-lhe beber. - Então, incharei.

- Por certo que sim. Mas se tiver a

cautela de suavizar o carcereiro...

- E então?

- Então, a coisa tornar-se-á mais suportável.

- E em que consiste, tenha a bondade

de dizer-me, o serviço que o carcereiro pode prestar-me?

- Pode fazer-lhe beber azeite. - Então o azeite é um tonificante? - E soberano, senhor!

- Julga isso?

- Falo por experiência; vi um homem

beber enorme quantidade de água com extrema facilidade, graças ao azeite que lhe havia preparado convenientemente as vias. Verdade é que inchou, como sempre acontece; mas com um bom fogo fizeram-no desinchar sem que sofresse grandes avarias. Nisto consiste o essencial da segunda parte da operação. Lembre-se bem destas palavras: Aquentar, sem queimar.

- Muito bem, compreendo - disse

Canolles. - O senhor era talvez executor da Alta Justiça, não?

- Não, senhor! - replicou o interlocutor,

com uma modéstia acompanhada de urbanidade.

- Ajudante, talvez...

- Não, senhor, não era mais do que um

simples curioso.

- Ah! ah! E o senhor chama-se... - Barrabás.

- Belo nome, antigo nome, muito bem

conhecido nas Escrituras.

- Na Paixão, senhor.

- Isso é o que eu quero dizer; mas, por

hábito, servi-me de outra palavra.

- O senhor prefere as Escrituras; então,

o senhor é huguenote?

- Sim, mas huguenote muito ignorante.

Acredita que apenas sei uns três mil versos dos salmos?...

- Na realidade, é muito pouca coisa. - Eu aprendia melhor a música... Na

minha família, houve muitos enforcados e queimados.

- Alegro-me de que ao senhor não o

espere uma tal sorte!

- Não, hoje há mais tolerância; submergir-me-ão, e com isto se darão por contentes.

Barrabás desatou a rir.

O coração de Canolles estremeceu de

alegria, porque havia conquistado o seu guarda. Com efeito, se este carcereiro interino viesse a ser o seu carcereiro permanente, tinha todas as probabilidades de alcançar o azeite. Decidiu dar seguimento à conversa no ponto em que a deixara.

- Senhor Barrabás - disse ele - teremos

nós em breve de nos separar, ou far-me-á a honra de continuar na minha companhia?

- Senhor, uma vez que cheguemos à

Ilha de São Jorge, terei o vivo pesar de me separar de si, porque tenho de voltar para a companhia.

- Muito bem; então faz parte de uma

companhia de guardas?

- Não, senhor, de uma companhia de

soldados.

- Armada pelo ministro?... - Não, senhor, pelo capitão Cauvignac, o mesmo que teve a honra de o prender.

- E servem o rei?

- Creio que sim, senhor.

- Que diabo está dizendo!? Não está

certo disso?

- A gente de nada está certo neste

mundo.

- Então, se tem dúvidas, deveria, a fim

de se decidir, fazer uma coisa.

- Qual?

- Permitir que me evada. - Isso não é possível, senhor. - Mas eu pagar-lhe-ei muito

honradamente a sua complacência.

- Com quê?

- Com que há-de ser? Com dinheiro! - O senhor não o tem.

- Quem lhe disse que não o tenho? - Assim o suponho.

Canolles levou a mão com viveza às

algibeiras.

- Cem efeito - disse ele - a minha bolsa

desapareceu; quem lançaria mão dela?

- Eu senhor - respondeu Barrabás,

fazendo-lhe uma saudação respeitosa.

- E para quê?

- Para que o senhor não me pudesse

corromper.

Canolles olhou para o digno esbirro

com admiração, e como lhe parecesse que o argumento não tinha réplica, nada mais lhe disse.

Em resultado disto, tendo os dois

viajantes mantido novamente o silêncio, a viagem reassumiu, ao aproximar-se do fim, aquele aspecto melancólico que tivera no início.

PRINCIPIAVA já a romper o dia

quando o carroção chegou à aldeia mais próxima da ilha. Apenas Canolles o sentiu deter-se, passou a cabeça através de uma pequena seteira, postigo destinado a dar espaço às pessoas livres, e muito cômodo para o interceptar aos presos.

Uma linda aldeiazinha, composta por

cem casas apinhadas em torno de uma igreja, no declive de uma montanha, e dominada por um castelo, oferecia-se à vista, no ar límpido da manhã dourada pelos raios de Sol, o qual afugentava uns restos de vapores semelhantes a gases ondulantes.

Nesse momento, o carroção subia uma

encosta, e o respectivo cocheiro, tendo-se apeado, caminhava junto dele.

- Meu amigo - perguntou Canolles - é

desta terra?

- Sim, senhor, sou de Libourne. - Então deve conhecer esta aldeia. Que

casa branca é esta? Que lindas choupanas são aquelas?

- Senhor - respondeu o camponês -

aquele castelo é o de Cambes, e a aldeia é uma das suas propriedades.

Canolles estremeceu e passou num

instante do mais vivo rubor a uma palidez quase lívida.

- Senhor - disse Barrabás, a cujos olhos

redondos nada escapava - ter-se-á por acaso ferido nesse postigo?

- Não, agradeço-lhe o cuidado. Depois, continuando a interrogar o

camponês:

- E a quem pertence esta propriedade? -

perguntou ele.

- À viscondessa de Cambes. - A uma jovem viúva?

- Muito linda e muito rica. - E por conseguinte, muito solicitada... - Sem dúvida alguma: bom dote e

bonita mulher. Com isso nunca faltam pretendentes.

- Boa reputação?

- Sim, mas fanática partidária dos

príncipes.

- Efetivamente, parece-me que assim

ouvi dizer.

- Um demônio, senhor, um verdadeiro

demônio!

"Um anjo - disse consigo Canolles, que

todas as vezes que se lembrava de Clara, nela pensava com transportes de adoração. - Um anjo."

Depois, em voz alta:

- Ela reside aqui algumas vezes? - Raras vezes, senhor; porém, viveu

muito tempo neste sítio. O marido nele a deixou, e enquanto ela aqui esteve foi a bênção da terra. Agora, segundo dizem, está com os príncipes.

O carroção, depois de ter subido a

encosta, ia iniciar a descida, e o condutor fez um sinal com a mão para pedir licença de se sentar no seu lugar. Canolles, que receava levantar suspeitas continuando o interrogatório, recolheu a cabeça para o interior da portinhola; e continuaram o caminho a trote, que era o melhor andamento possível.

No fim de um quarto de hora, durante

o qual, sempre sob a vigilância de Barrabás, Canolles ficara mergulhado nas mais sombrias reflexões, o carroção parou.

- Pararemos aqui para almoçar? -

perguntou Canolles.

- Pararemos aqui definitivamente, senhor, estamos chegados. Eis a Ilha de São Jorge. Falta-nos somente atravessar o rio.

- É verdade - murmurou Canolles. - Tão

perto, e tão longe!

- Senhor, lá vem gente ter conosco -

disse Barrabás. - Apreste-se a apear-se.

O segundo guarda de Canolles, que

estava sentado junto do cocheiro, saltou em terra, e abriu a portinhola, que tinha uma fechadura, cuja chave estava na mão do guarda.

Canolles voltou os olhos, do pequeno

castelo branco, que não perdera de vista, para a fortaleza que ia ser a sua morada. Logo do outro lado de um braço do rio bastante caudaloso, viu uma barca, e, perto dela, um grupo de oito homens e um sargento.

Atrás do posto, elevavam-se as obras

da cidadela.

"Bom - disse Canolles - esperam-me e

tomaram precauções..."

- São esses os meus novos guardas? -

perguntou ele em voz alta a Barrabás.

- Bem desejaria responder

acertadamente ao senhor - disse Barrabás - mas na verdade não sei.

Nesse momento, depois de ter dado um

sinal que foi repetido pela sentinela de guarda à porta do carroção, os oito soldados e o sargento entraram na barca, atravessaram o Garona, e desembarcaram no momento em que Canolles se apeava.

No mesmo instante, o sargento, vendo

um oficial, aproximou-se dele, e saudou-o militarmente.

- É ao senhor barão de Canolles, capitão

do regimento de Navailles, que tenho a honra de falar? - perguntou o sargento.

- A ele mesmo - respondeu Canolles,

admirado pela polidez do homem.

O sargento voltou-se imediatamente

para os seus homens, ordenou-lhes que aperrassem as armas, e mostrou com a ponta da sua lança a barca, a Canolles. Canolles entrou dentro dela e colocou-se no meio dos seus dois guardas: os dois soldados e o sargento entraram depois dele, e a barca afastou-se da praia enquanto pela derradeira vez Canolles lançava os olhos para Cambes, que estava a ponto de desaparecer por detrás de um outeiro.

Quase toda a ilha estava coberta de

escarpas, contra-escarpas e bastiões; um pequeno forte, em muito bom estado, dominava todas aquelas obras. Entrava-se nela por uma porta arqueada, diante da qual passeava de um para outro lado a sentinela.

- Quem vive? - gritou ela. A pequena tropa fez alto, o sargento

separou-se, aproximou-se da sentinela, e disse-lhe algumas palavras.

- Às armas! - gritou a sentinela. Sem a mínima demora, uns vinte

homens, de que se compunha o posto, saíram de um corpo de guarda, e, acudindo muito apressados, puseram-se em linha diante da porta.

- Venha, senhor - disse o sargento a

Canolles. O tambor principiou a tocar a marcha.

"Que quer isto dizer?" - disse o

mancebo consigo.

E aproximou-se do forte, não

compreendendo já nada do que ali se passava, pois todos aqueles preparativos mais pareciam honras feitas a um superior, do que cautelas tomadas contra um preso.

Ainda, porém, não estava aqui tudo:

Canolles não observara que no momento em que se apeara da sege, uma janela da casa do governador se abrira, e que um oficial observara atentamente os movimentos da barca, e a recepção que se fizera ao preso e aos seus dois beleguins.

Aquele oficial, quando viu que

Canolles acabava de pôr o pé na ilha, desceu rapidamente, e saiu-lhe ao encontro.

- Ah!... - disse Canolles ao vê-lo - eis o

comandante da praça que vem reconhecer o inquilino.

- Na realidade - disse Barrabás - parece,

senhor, que não se há-de enfastiar, como certas pessoas a quem deixam oito dias inteiros num vestíbulo. Arranjar-lhe-ão lugar imediatamente.

- Tanto melhor - disse Canolles. Entretanto, o oficial ia-se aproximando.

Canolles tomou a atitude altiva e digna de um homem perseguido.

À distância de alguns passos de

Canolles, o oficial tirou o chapéu.

- É ao senhor barão de Canolles a quem

tenho a honra de falar? - perguntou ele.

- Senhor - respondeu o preso - tanta

urbanidade da vossa parte deixa-me na realidade confuso. Sim, sou o barão de Canolles; agora trate-me, peço-lhe, com a cortesia de um oficial para com outro, e aloje-me o menos mal que puder.

- Senhor - respondeu o oficial - a sua

habitação é a melhor que possa ser; pois, como se quisessem prevenir os seus desejos, fizeram-se nele todos os reparos possíveis...

- E a quem devo eu agradecer estas

precauções desusadas? - perguntou Canolles sorrindo-se.

- Ao rei, senhor, sem dúvida... Deus me

livre de caluniar Sua Majestade, sobretudo nesta ocasião! Todavia, não me desgostaria obter certas informações...

- Se o ordenar, senhor, estou à sua

disposição. Contudo, tomarei a liberdade de lhe observar que a guarnição o espera para o reconhecer.

"Que tal, hem?...- disse consigo

Canolles - uma guarnição inteira para reconhecer um preso." Depois, em voz alta:

- Eu é que estou às suas ordens, senhor

- replicou ele - e pronto para segui-lo aonde quiser levar-me.

- Permita-me, pois - disse o oficial - que

vá adiante de si, para fazer as honras.

Canolles seguiu-o, dando a si próprio

os parabéns por haver caído nas mãos de um homem tão cortês.

Chegando ao pátio da cidadela,

Canolles deparou com uma parte da guarnição em armas. Então, o oficial que o conduzia desembainhou a espada, e inclinou-se diante dele.

"Tantas cerimônias, meu Deus?" -

murmurou Canolles.

No mesmo instante, ouviu-se o tambor

na abóbada vizinha;

Canolles voltou-se e uma grande fileira

de soldados, saindo daquela abóbada, foi colocar-se atrás da primeira. Nesse momento, o oficial apresentou duas chaves a Canolles.

- Que quer isto dizer!? - perguntou o

barão. - que faz?

- Não fazemos mais do que cumprir o

cerimonial costumado, segundo as mais rigorosas leis da etiqueta.

- Então por quem me toma!? -

perguntou Canolles, cujo espanto era indizível.

- Por quem é, e creio que me não

engano: pelo senhor barão de Canolles.

- E que mais?

- Governador da Ilha de São Jorge. Foi tal a perturbação de Canolles, que por pouco não saiu por terra.

- Daqui a um momento - continuou o

oficial - terei a honra de entregar ao senhor governador os despachos que recebi esta manhã, acompanhados desta carta que me anuncia a sua chegada hoje mesmo.

Canolles olhou para Barrabás, cujos

olhos fixos estavam plantados nele com uma expressão de estupefação impossível de descrever.

- Então - balbuciou Canolles - sou

governador da Ilha de São Jorge?...

- Sim, senhor - respondeu o oficial - e

Sua Majestade fez-nos grande favor com uma tal escolha.

- Está bem certo de que não há

engano?... - perguntou Canolles.

- Senhor - respondeu o oficial - digne-se

acompanhar-me aos seus aposentos, e ali verá a sua nomeação.

Canolles não podia conceber

semelhante acontecimento, que tão longe estava de se assemelhar ao que ele esperava; pôs-se em marcha, seguindo, sem dizer palavra, o oficial, que lhe mostrava o caminho, por entre o som dos tambores, e dos soldados que apresentavam as armas, e de todos os habitantes da fortaleza, que erguiam aos ares as aclamações; saudava, pálido e trêmulo, para a direita e para a esquerda, e interrogava Barrabás com olhos espantados.

Finalmente, tendo chegado a uma sala

bastante elegante, e de cujas janelas logo notou que se podia avistar o castelo de Cambes, leu a nomeação, escrita em boa forma, assinada pela rainha, e referendada pelo duque D’Épernon.

Quando tal viu, não pôde manter-se de

pé, e caiu estupefato numa poltrona.

Contudo, depois de todos os clarins,

das descargas de mosquetaria, das estrondosas demonstrações, das homenagens militares, e sobretudo depois do primeiro sobressalto que estas demonstrações lhe haviam produzido, Canolles desejou saber a razão por que a rainha lhe confiava o posto, e levantou os olhos, que durante algum tempo tivera pregados no pavimento.

Viu então diante de si, não menos

estupefato do que ele, o seu ex-carcereiro, que se tornara em seu muito humilde servo.

- Ah! é você, senhor Barrabás - disse-lhe

ele.

- Sou eu mesmo, senhor governador. - Poderá explicar-me o que acaba de se

passar, que muito me custa a não tomar por um sonho?

- A explicação que lhe posso dar,

senhor, é que quando eu lhe falava de torturas extraordinárias, julgava, por quem sou, que lhe dourava a pílula...

- Estava então convencido de que...? - De que o conduzia até aqui, senhor,

para ser rodado.

- Muito obrigado - disse Canolles,

estremecendo a seu pesar. - E agora formou alguma opinião acerca do que me acontece?

- Sim, senhor.

- Faça, pois, o favor de me dizer qual é.

- Ei-la, senhor: a rainha terá conhecido

quão difícil era é comissão de que o encarregara. Passado o primeiro momento de cólera, ter-se-á arrependido, e como, ao fim e ao cabo, não é homem aborrecível, Sua Graciosa Majestade tê-lo-á recompensado por o haver castigado com demasiado rigor.

- Isso é inadmissível! - respondeu

Canolles.

- Parece-lhe que seja inadmissível?... - Pelo menos, inverossímil. - Inverossímil?

- Sim.

- Nesse caso, senhor governador, o que

me resta é apresentar-lhe os meus humildes respeitos. Pode ser feliz como um rei na Ilha de São Jorge; há nela excelente vinho, caça que fornecem os campos, bom peixe, que todas as marés trazem nos barcos de Bordéus... e as mulheres de São Jorge... Ah, senhor, tudo isto é milagroso!

- Muito bem. Tratarei de seguir os seus

conselhos. Receba esta ordem assinada por mim, e vá a casa do pagador, que lhe entregará cem libras. Eu mesmo de boa vontade lhos daria em mão própria; porém, visto que por prudência me tirou o meu dinheiro...

- E fiz muito bem, senhor! - exclamou

Barrabás - porque, ao fim e ao cabo, se me tivesse corrompido, teria fugido, e se tivesse fugido, teria naturalmente perdido a elevada posição a que chegou, do que nunca me teria consolado.

- Mil vezes bem pensado, senhor

Barrabás. Já notei que era fortíssimo em lógica. Entretanto, receba lá este papel como testemunho da sua eloqüência. Os Antigos, como muito bem o sabe, representavam a Eloqüência com cadeias de ouro que lhe saíam dos lábios.

- Senhor - replicou Barrabás - ousaria

observar que seria inútil passar por casa do pagador...

- Como!? Recusa?! - exclamou Canolles,

admirado.

- Não, senhor, Deus me defenda disso!

Não sou dotado, graças à Providência, de tão falsos orgulhos; porém, vejo alguns cordões que saem de um cofre colocado no seu fogão, e que me parecem ser de uma bolsa.

- É bom entendedor em matérias de

cordões, senhor Barrabás - disse Canolles, muito admirado, pois efetivamente via-se embutido na lareira um cofre antigo, de prata e ornado de esmaltes. - Vejamos se as suas previsões são exatas.

Canolles levantou a tampa do cofre e,

de fato, achou uma bolsa, e dentro desta dez mil libras, com este bilhetinho:

Para a caixa particular do senhor

governador da Ilha de São Jorge.

- Com os diabos! - disse Canolles,

corando. - A rainha faz as coisas muito bem feitas!

E, contra sua vontade, as recordações

de Buckingham ocorreram-lhe à mente; talvez que a rainha tivesse visto, por trás de alguma cortina, a figura vitoriosa do formoso capitão... Talvez ela o protegesse com um interesse muito terno... Talvez... (lembremo-nos de que Canolles era gascão...)

Infelizmente, a rainha tinha então vinte

anos mais do que no tempo de Buckingham.

Todavia, fosse lá como fosse, e viesse

de onde viesse, Canolles meteu a mão na bolsa, e dela tirou cem libras, que entregou a Barrabás, o qual saiu fazendo as mais repetidas e respeitosas cortesias.

Barrabás saiu, Canolles chamou o

oficial, e pediu-lhe que o guiasse na revista que queria passar aos seus novos domínios.

O oficial colocou-se imediatamente às

suas ordens. À porta, deparou com uma espécie de estado-maior, composto pelas outras principais individualidades da cidadela; conduzido por eles, conversando com eles, pedindo explicações acerca de todos os recursos da localidade, viu os bastiões, as esplanadas, as meias-luas, as casamatas, os subterrâneos, e os celeiros. A escolta retirou-se então, e Canolles ficou só com o oficial que ao princípio encontrara.

Continuar: parte 3 de 3