A Guerra das Mulheres

Alexandre Dumas · Capítulo 5 de 5 · parte 3/3

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A Guerra das Mulheres

Capítulo IV

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

- Agora - disse-lhe este aproximando-se

misteriosamente - só falta ao senhor governador ver um quarto e uma só pessoa.

- Que diz? - perguntou Canolles. - O quarto dessa pessoa é ali - disse o

oficial, estendendo o dedo para uma porta que efetivamente Canolles ainda não tinha aberto.

- Ah, é ali? - disse Canolles. - É.

- E a pessoa também está ali? - Também.

- Ótimo. peço-lhe, porém, que me

desculpe: estou muito cansado de ter viajado dia e noite, e esta manhã não me sinto muito bom da cabeça; faça, pois, o favor de se explicar um pouco mais claramente.

- Ora, pois, senhor governador -

continuou o oficial, com o mais fino sorriso - o quarto...

- Da pessoa... - acrescentou Canolles. - ...que o espera, é ali... Agora, creio que me percebe...

Canolles fez um movimento como se

voltasse do país das abstrações.

- Sim, sim, muito bem - disse ele. - E

posso entrar ali?...

- Sem dúvida alguma, visto que o

esperam.

- Então vamos! - disse Canolles. E com extraordinárias palpitações de

coração, não vendo já coisa alguma, sentindo-se confundirem-se os seus receios e os seus desejos a ponto de ter medo de enlouquecer, Canolles empurrou uma segunda porta, e viu atrás de uma tapeçaria a risonha e ardente Nanon, que deu um grande grito, como se quisesse assustá-lo, e foi lançar os braços ao pescoço do gentil-homem.

Canolles ficou inerte, de braços

pendentes e olhos fixos.

- Você! - balbuciou ele.

- Eu! - disse ela, redobrando de risos e

de beijos.

A recordação das suas culpas apresentou-se ao espírito de Canolles, que, adivinhando imediatamente o novo favor daquela fiel amante, ficou esmagado ao peso do remorso e do reconhecimento.

- Ah! - disse ele - foi quem me salvou,

enquanto eu me perdia como um insensato; velava por mim; é o meu anjo da guarda.

- Não me chame o seu anjo, porque sou

um demônio - disse Nanon. - Só apareço nos bons momentos, confesse-o!

- Tem razão, minha querida amiga, pois

na verdade creio que me livra do cadafalso.

- Também assim penso. Mas, oh! barão,

pois, o senhor, tão perspicaz, tão fino, como fez para se deixar enganar por aquelas delambidas princesas?

Canolles corou; porém, Nanon tomara

o partido de não ver nada daquela confusão.

- Na verdade - disse ele - não o sei; ou

mesmo não o posso compreender.

- Oh! é porque elas são astuciosas. Ah!

meus senhores, querem fazer a guerra às mulheres!... Será verdade o que me contaram? Mostraram-lhe, em lugar da jovem princesa, uma dama de honra, uma camarareira... não sei o quê!...

Canolles sentia a febre subir dos

trêmulos dedos ao extravasado cérebro.

- Julguei ver a princesa - disse ele - não

a conhecia.

- E então, quem era?

- Uma dama de honra, segundo creio. - Ah! pobre rapaz! A culpa é daquele

traidor de Mazarino. Pois, com todos os demônios! Quando se encarrega alguém de uma missão tão difícil como aquela, dá-se-lhe um retrato! Se tivesse possuído ou visto um retrato da princesa, decerto a teria reconhecido. Mas não falemos mais nisso. Não sabe que aquele indigno Mazarino, a pretexto de que havia atraiçoado o rei, queria dar-lhe cabo da pele?...

- Eu bem desconfiava disso. - Mas eu disse: pois não há-de ser

assim; quero-o para mim! Fiz bem? Diga.

Por muito preocupado que estivesse com a recordação da viscondessa, e apesar de trazer sobre o peito o seu retrato, Canolles, não pôde resistir a tão delicada bondade, ao espírito que refulgia nos mais lindos olhos do mundo; abaixou a cabeça, e aplicou os lábios na linda mão que se lhe oferecia.

- E veio esperar-me aqui? - Ia ter consigo a Paris, para o trazer

para aqui. Levara-lhe a nomeação; aquela ausência era muito grande; o senhor D’Épernon não fazia mais do que aumentar a monotonia da minha vida. Tive notícia da sua desventura. A propósito (tinha-me esquecido de dizer): é meu irmão; não sabia?...

- Parece-me adivinhá-lo, ao ler a sua

carta.

- Não há dúvida, tinham-nos

atraiçoado. A carta que lhe escrevi caira em más mãos. O duque chegou furioso. Nomeei-o, e declarei-o meu irmão, pobre Canolles! E agora, estamos protegidos pela mais legítima união. Ei-lo quase casado, meu pobre amigo.

Canolles deixou-se arrastar pelo incrível atrativo desta mulher. Depois de haver beijado as suas brancas mãos, beijou os olhos pretos. A sombra da senhora de Cambes teve de fugir, cobrindo lugubremente a cabeça.

- Desde então - continuou Nanon -

previ tudo e determinei tudo: fiz do senhor d’Épemon o seu protetor, ou, para melhor dizer, o seu amigo; abrandei a ira de Mazarino. Finalmente, escolhi para meu retiro São Jorge, porque, como bem sabe, querido amigo, sempre me querem apedrejar. No mundo, só o senhor me ama um pouco, meu querido Canolles. Vejamos, diga que me ama!

E a encantadora sereia, lançando os

braços ao pescoço de Canolles, cravou o seu olhar ardente nos olhos do mancebo, como se quisesse penetrar-lhe o pensamento no mais profundo do coração.

Canolles sentiu naquele coração, em

que Nanon procurava ler, o que nele se passava, que não podia tornar-se insensível a tão extremoso zelo. Um secreto pressentimento dizia-lhe que havia alguma coisa mais do que amor em Nanon, que havia generosidade, e que não somente ela o amava, mas que também lhe perdoava.

O mancebo fez um sinal com a cabeça,

que respondia à pergunta de Nanon, pois com a boca não ousaria dizer-lhe que a amava, ainda que no fundo do seu peito todas as recordações advogassem a seu favor.

- Escolhi, pois - continuou ela - a Ilha de

São Jorge, para pôr em segurança o meu dinheiro, as minhas jóias, e a minha pessoa. Quem, a não ser o homem que me ama - disse eu comigo - poderá defender a minha vida? Quem melhor do que o meu senhor pode conservar os meus tesouros? Tudo está nas suas mãos, meu caro amigo, existência e riquezas; velará cuidadosamente por tudo isso? Será fiel amigo e fiel guarda?

Neste momento, uma trombeta

retumbou no pátio e vibrou no coração de Canolles; tinha diante de si o amor mais eloqüente que jamais existira, e a cem passos de distância a guerra ameaçadora, a guerra que inflama e que embriaga.

- Oh! sim, Nanon - exclamou ele - a sua

pessoa e os seus bens estão em segurança junto de mim, e morrerei, eu juro-lhe, para a salvar do menor perigo.

- Muito obrigada - disse ela - meu

nobre cavalheiro; tão certa estou do seu valor como da sua generosidade. Ah! - acrescentou ela, sorrindo - bem quereria estar igualmente certa do seu amor!

- Oh! - disse Canolles - pode ter toda a

certeza...

- Bem, muito bem - cortou Nanon. -

Amor não se prova com juramentos, mas sim, com obras; pelo que fizer, senhor, faremos idéia do seu amor.

E passando à roda do pescoço de

Canolles os mais lindos braços do mundo, inclinou a cabeça sobre o peito arquejante do mancebo.

"Agora é preciso que ele esqueça... - disse ela consigo - e há-de esquecer."

NO dia em que Canolles fora preso em

Jaulnay sob os olhos da senhora de Cambes, esta partira com Pompeu ao encontro da princesa, que estava à vista de Coutras.

O primeiro cuidado do digno escudeiro

foi querer provar à ama que se o bando de Cauvignac não exigira resgate algum, nem cometera violência alguma contra a bela viajante, à sua catadura resoluta, e à sua experiência da guerra devia ela atribuir tal ventura. A senhora de Cambes, menos facilmente persuadível do que Pompeu julgara ao princípio, observou-lhe que durante mais de uma hora ele desaparecera de todo; porém, Pompeu explicou-lhe que durante aquela hora ficara escondido num corredor, onde, com o auxílio de uma escada, preparara uma fuga certa para a viscondessa - mas que precisara de fazer frente a dois soldados desenfreados que lhe disputavam a posse da escada, o que fizera, já se sabe, com aquele invencível denodo de que todos sabiam ser dotado. Esta conversação permitiu muito naturalmente a Pompeu fazer o elogio dos soldados do seu tempo, terríveis para o inimigo, como o tinham provado no assédio de Montauban e na batalha de Corbie; porém, meigos e corteses para com os compatriotas, qualidades em que, cumpria dizê-lo, não faziam empenho os soldados contemporâneos. O fato é que, sem de tal desconfiar, Pompeu acabava de escapar a um imenso perigo: o de ser alistado por força. Como marchava por costume com olhos radiantes, peito largo, inteiramente militar, e ar marcial, salientara-se logo aos olhos de Cauvignac; porém, graças aos acontecimentos subseqüentes, que tinham mudado o curso das idéias do capitão, graças às duas mil libras que recebera de Nanon para somente se ocupar do barão de Canolles, graças à reflexão filosófica de que o ciúme é a mais magnífica das paixões, e que é necessário aproveitá-lo quando o encontramos no nosso caminho, esquecera o querido Pompeu e deixara continuar a senhora de Cambes o seu caminho para Bordéus. Na realidade, Nanon bem quisera que Bordéus não estivesse tão perto de Canolles.

Ela bem teria querido que a

viscondessa se achasse no Peru, nas índias, na Groelândia.

Por outro lado, quando Nanon se

lembrava de que, para o futuro, teria ela só, entre boas muralhas, o seu querido Canolles, e que excelentes fortificações, muito pouco acessíveis aos soldados do rei, encerrariam também a senhora de Cambes, prisioneira na sua rebelião, sentia-se dominada, e gozava com delícia aquelas alegrias infinitas que só as crianças e os amantes conhecem sobre a Terra.

Vimos como aquele sonho se realizara,

e como Canolles e Nanon se tinham encontrado de novo na Ilha de São Jorge.

Ora, pelo seu lado, a senhora de

Cambes viajava triste e trêmula. Pompeu, apesar de todas as suas jactâncias, estava bem longe de tranqüilizá-la, e não foi sem grande susto que, sobre a tarde do dia em que partira de Jaulnay, viu surgir, seguindo um caminho transversal, um considerável bando de cavaleiros.

Eram aqueles mesmos gentis-homens

que voltavam do famoso enterro do duque de La Rochefoucauld, enterro que, com o fundamento de render as honras devidas ao pai, servira de pretexto ao príncipe de Marsillac para tirar da Picardia e outras províncias toda a nobreza que conseguia detestar Mazarino mais ainda do que era afeiçoada aos príncipes. Porém, uma coisa singular causou admiração à senhora de Cambes, e sobretudo a Pompeu: entre aqueles cavaleiros, uns traziam o braço ao peito e outros uma das pernas rodeada de chumaços; muitos tinham na fronte ligaduras ensangüentadas; era, pois, necessário olhá-los de muito perto para reconhecer naqueles gentis-homens, tão desfigurados, os ligeiros e formosos caçadores que haviam caçado o veado no parque de Chantilly.

Porém, o medo tem olhos penetrantes:

Pompeu e a senhora de Cambes reconheceram sob daquelas tiras ensangüentadas alguns dos seus conhecimentos.

- Que lhe parece, senhora? - perguntou

Pompeu. - Eis um enterro que teve lugar por bem maus caminhos. É forçoso que a maior parte deles tenham caído dos cavalos abaixo! Olhe como vão maltratados.

- É justamente o que estava a ver - disse

a senhora de Cambes.

- Isto recorda-me o regresso de Corbie -

volveu Pompeu com orgulho. - Porém, daquela vez não era os bravos que voltavam, mas sim os bravos a quem levavam.

- Mas - perguntou Clara, com um certo

receio pela empresa que se apresentava sob de tão tristes auspícios - aqueles gentis-homens não são comandados por ninguém? Não têm um chefe? Esse chefe teria morrido, pois não o vemos... Olhe.

- Minha senhora - respondeu Pompeu,

empertigando-se orgulhosamente na sua sela - nada há mais fácil do que reconhecer um chefe no meio da gente que comanda. Normalmente, no esquadrão, o oficial marcha no centro com os seus oficiais; na ação, marcha atrás, ou sobre o flanco da tropa. Lance, pois, os olhos para os diferentes lugares que designo, e ficará elucidada.

- Não vejo nada, Pompeu; mas parece-

me que nos seguem; olhe para trás...

- Oh! não, senhora - disse Pompeu

tossindo, mas sem se voltar, com medo de efetivamente ver alguém. - Não, ninguém. Mas espere! O chefe não será aquele de penacho encarnado?... Não... Aquela espada dourada?... Não... Aquele cavalo malhado, semelhante ao do senhor de Turenne?... Não... Isto não deixa de ser singular; não há contudo perigo algum, e o chefe bem podia mostrar-se; aqui não é como em Corbie.

- Está enganado, senhor Pompeu - disse

atrás do pobre escudeiro que esteve a ponto de cair de costas, uma voz estridente e trocista - está enganado: é pior do que em Corbie.

Clara voltou apressadamente a cabeça,

e viu, a dois passos de si, um cavaleiro de mediana estatura, e em trajos de afetada simplicidade, que olhava para ela com uns olhos radiantes e encovados como os da raposa. Com os seus densos cabelos pretos, lábios delgados e móveis, palidez biliosa, a fronte carregada, aquele cavaleiro inspirava tristeza em pleno dia; de noite teria inspirado terror.

- Senhor príncipe de Marsillac! -

exclamou Clara, muito agitada. - Ah! seja muito bem-vindo, senhor.

- Diga duque de La Rochefoucauld,

minha senhora, porque, agora que o duque meu pai morreu, herdei o seu nome, sob o qual, boas ou más, vão inscrever-se as ações da minha vida.

- Regressa... - disse Clara, com

hesitação.

- Voltamos derrotados, minha senhora. - Derrotados?! Oh! céus!

- Digo que voltamos derrotados,

senhora, porque eu sou pouco fanfarrão por natureza, e porque digo a verdade a mim mesmo, como a digo aos outros; se assim não fora, poderia dizer que voltávamos vencedores; mas, na realidade, fomos derrotados, visto que os nossos projetos acerca de Saumur se malograram. Cheguei muito tarde, perdemos aquela importante praça que Jarzé acabava de entregar. De agora em diante, supondo que a princesa tenha Bordéus, como se lhe prometeu, toda a guerra vai concentrar-se na Guiena.

- Mas, senhor - perguntou Clara - se,

como me pareceu compreender, a capitulação teve lugar sem que se disparasse um tiro, o que significa o que vemos e porque é que todos esses cavaleiros estão assim feridos?

- Porque encontramos algumas tropas

reais - disse La Rochefoucauld, com uma espécie de orgulho, que não pôde dissimular apesar do domínio que tinha sobre si mesmo.

- E houve combate? - perguntou com

vivacidade a senhora de Cambes.

- Oh! meu Deus, sim, senhora. - Quer dizer - murmurou a viscondessa

- que o primeiro sangue francês já foi derramado por franceses, e foi o senhor duque quem deu o exemplo!

- Fui eu, senhora.

- O senhor, tão sossegado, tão frio e tão

sisudo?!

- Quando se defende um partido

injusto contra mim, à força de me apaixonar pela razão, torno-me por vezes muito pouco razoável.

- Ao menos não está ferido? - Não. Desta vez fui mais feliz do que

nas linhas de Paris. Então, julgava ter recebido lição suficiente da guerra civil para não me meter mais nisso. Porém, havia-me enganado. Que quer? O homem sempre forma projetos sem consultar a paixão, o único e verdadeiro arquiteto da sua vida, que reforma o seu edifício, quando não o derruba inteiramente.

A senhora de Cambes sorriu; lembrava-

se de que o senhor de La Rochefoucauld dissera que, pelos lindos olhos da senhora de Longueville, fizera a guerra aos reis, e a faria aos deuses.

Este sorriso não escapou ao duque; e,

não dando tempo à viscondessa de fazer seguir o pensamento àquele sorriso que lhe dera lugar:

- Mas, minha senhora - continuou ele -

deixe-me fazer-lhe os meus cumprimentos, porque na verdade é um modelo de valor.

- E por quê?

- Viajar assim só, com um único

escudeiro, como uma Clorinda ou uma Bradamante!... Oh! a propósito, contaram-me a sua linda atuação em Chantilly. Segundo me referiram, enganou admiravelmente um pobre diabo, oficial do exército real... Vitória fácil, não é assim? - juntou o duque, com aquele sorriso e olhar que nele queriam dizer tantas coisas.

- Como assim!? - perguntou Clara,

muito agitada.

- Digo fácil - continuou o duque -

porque não combatia com armas iguais consigo. Todavia, uma coisa me admirou no relato que me fizeram dessa aventura...

E com mais pertinácia do que nunca, o

duque cravou os olhos na viscondessa.

Não havia meio algum para a senhora

de Cambes fazer uma retirada honrosa. Preparou-se, por conseqüência, para uma defesa, que decidiu fazer com todo o vigor que pudesse.

- Fale, senhor duque - disse ela. - Que

foi que o admirou tanto?

- A sua extrema habilidade, senhora,

em fazer aquele pequeno papel cômico; com efeito, se é verdade o que me disseram, o oficial já tinha visto o seu escudeiro, e até me parece que a si mesma.

Estas últimas palavras, ainda que

proferidas com toda a habilidade circunspeta de um homem de tato, não deixaram de impor uma profunda sensação à senhora de Cambes.

- Já me tinha visto, diz o senhor? - Tenha paciência, senhora, entendamo-

nos; não sou eu quem o diz, eu não faço mais do que repetir o que outros dizem; e ao poder destes dizeres os reis estão sujeitos como os últimos dos seus súbditos.

- E onde me tinha ele visto? - Dizem que foi na estrada de Libourne

para Chantilly, numa aldeia chamada Jaulnay; mas que a entrevista não fora longa, tendo o mancebo recebido ordem do senhor D’Épernon para partir no mesmo instante rumo a Nantes.

- Mas se aquele gentil-homem me tinha

visto, senhor duque, como não me reconheceu ele então?

- Ah! segundo o famoso dizer de que

ainda agora lhe falava, e que para tudo tem resposta pronta, a coisa era impossível, visto que a entrevista tivera lugar nas trevas.

- Desta vez, senhor duque - replicou a

viscondessa, sumamente agitada - já não sei na verdade o que quer dizer.

- Então - continuou o duque, com

fingida ingenuidade - talvez tenha sido mal informado; além de que, supondo que assim seja, que significa o encontro de um instante?... Na verdade, senhora - ajuntou cortesmente o duque - tem um garbo e um rosto que devem deixar uma profunda impressão, ainda que na seqüência de um encontro momentâneo.

- Mas isso não era possível - replicou a

viscondessa - visto que o senhor mesmo diz que a entrevista teve lugar nas trevas...

- Tem razão, senhora, e é forçoso

confessar que se defende habilmente; sou eu, pois, quem se engana... A não ser, todavia, que aquele mancebo, antes dessa entrevista, a tivesse já visto; então, a aventura de Jaulnay já não seria exatamente um encontro...

- E que será então? - respondeu Clara. -

Pondere as suas palavras, senhor duque.

- Por isso, como vê, não vou mais

longe; a nossa querida língua francesa é tão pobre, que em vão procuro uma palavra que exprima a minha idéia. Será... um "appuntamento", como dizem os italianos... uma "assignation", como dizem os ingleses.

- Mas, se não me engano, senhor duque

- disse Clara - estas duas palavras traduzem-se em francês pela de "rendez-vous".

- E então? - replicou o duque - não digo

eu uma parvoíce em duas línguas estrangeiras, e justamente diante de uma pessoa que entende essas duas línguas?... Minha senhora, perdoe-me; afinal, parece-me que o inglês e o italiano são tão pobres como o francês.

Clara apertou o coração com a mão

esquerda para poder respirar mais livremente; estava quase sufocada; ocorria-lhe uma coisa de que sempre desconfiara: de que o senhor de La Rochefoucauld fizera, pelo menos em pensamento e em desejo e por amor dela, uma infidelidade à senhora de Longueville, e que ao falar assim era um sentimento de ciúme que o obrigara. Efetivamente, dois anos antes, o príncipe de Marsillac fizera-lhe a corte tão assiduamente quanto o permitiam aquele caráter dissimulado, aquelas perpétuas incertezas, e aqueles eternos acanhamentos, que faziam dele o mais rancoroso inimigo, quando não era o amigo mais reconhecido. Por isso a viscondessa preferiu não romper abertamente com um homem que tanto tomava a peito os negócios públicos como os interesses mais familiares.

- Não sabe senhor duque - disse ela -

que é um homem precioso, sobretudo nas circunstâncias em que estamos, e que Mazarino, que se preza de ter uma boa polícia, não a tem, todavia, tão boa como a sua?...

- Se eu de nada soubesse, minha

senhora - replicou o duque de La Rochefoucauld - parecer-me-ia muito com esse ministro, e então nenhum motivo teria para fazer guerra. E por isso é que trato de estar pouco mais ou menos inteirado de tudo.

- Até dos segredos das suas aliadas, se

elas os tivessem?...

- Acaba de proferir uma palavra que se

interpretaria muito mal se a ouvissem: um segredo de mulher. Aquela viagem e aquele encontro eram, então, um segredo?

- Entendamo-nos, senhor duque,

porque só em parte tem razão. O encontro era um acaso. A viagem era um segredo, e até um segredo de mulheres, visto que, na realidade, só eu e a princesa sabíamos dela.

O duque sorriu. Esta boa defesa

aguçava a sua perspicácia.

- E de Lenet? - disse ele - e de Richon? e

do senhor de Tourville? e até de um certo visconde de Cambes, que não conheço, e de quem pela primeira vez ouvi falar naquela ocasião... Verdade é que quanto a este último, sendo seu irmão, dir-me-á que o segredo não saiu da família...

Clara pôs-se a rir para não irritar o duque, cujas sobrancelhas já começavam a franzir-se.

- Sabe uma coisa, senhor duque? - disse

ela.

- Não, mas diga-me; e se é um segredo,

senhora, prometo-lhe que serei tão discreto como a senhora e que o não direi senão ao meu estado-maior.

- Embora assim o faça, tanto melhor,

ainda que com isso eu corra o risco de me tornar inimiga de uma grande princesa, em cujo ódio não é bom incorrer.

O duque corou imperceptivelmente. - Então, esse segredo? - disse ele. - Na viagem que me fizeram

empreender, não sabe qual era o companheiro que a princesa me destinava?

- Não.

- Era o senhor mesmo.

- Com efeito, lembra-me que a princesa

me mandou perguntar se podia servir de escolta a uma pessoa que voltava de Libourne para Paris.

- E recusou-se a isso.

- Encontrava-me então detido no

Poitou, por negócios indispensáveis.

- Sim, tinha que receber os correios da

senhora de Longueville.

La Rochefoucauld olhou com

vivacidade para a viscondessa, como para sondar o íntimo do seu coração antes que o rasto dessas palavras tivesse desaparecido, e, aproximando-se dela, replicou:

- Censura-me por causa disso? - De maneira nenhuma: está tão bem

colocado naquele lugar, senhor duque, que, em vez de censuras, só tem direito a esperar louvores.

- Ah! - disse o duque, suspirando

contra vontade - Oxalá tivesse feito aquela viagem consigo!

- E por quê?

- Porque não teria ido a Saumur -

respondeu o duque, num tom que dava a entender que tinha outra resposta pronta, mas que não ousava, ou não queria dá-la.

"Richon é que lhe há-de ter dito tudo" -

pensou Clara.

- Porém - continuou ainda o duque -

não me queixo da minha desgraça particular, visto que dela resulta uma felicidade pública.

- Que quer dizer, senhor duque? Não o

compreendo.

- Quero dizer que se tivesse estado

consigo, a senhora não terá encontrado aquele oficial, que a fortuna (tão evidente é que Deus protege a nossa causa) quis que fosse o mesmo que Mazarino enviou a Chantilly.

- Ah! senhor duque - exclamou Clara,

com uma voz sufocada por dolorosa e recente recordação - não graceje acerca daquele infeliz oficial!

- Porquê? É alguma pessoa sagrada? - Deve sê-lo agora, porque as grandes

desgraças, para os corações nobres, são sagradas como as grandes fortunas. Esse oficial estará talvez morto a estas horas, senhor, e terá pago com a vida o seu erro, ou o seu ardente zelo.

- Morto de amor? - perguntou o duque. - Falemos seriamente, senhor; sabe bem

que, se desse o meu coração a alguém, não o faria a pessoas que se encontram pelas estradas. Digo-lhe que aquele infeliz foi preso hoje mesmo por ordem de Mazarino.

- Preso?! - admirou-se o duque. -E

como sabe disso? Por algum novo encontro?

- Oh! meu Deus! sim. Eu passava por

Jaulnay... Conhece Jaulnay?...

- Perfeitamente: recebi aí uma cutilada

no ombro... Passava então por Jaulnay... Aliás, não é nessa mesma aldeia que segundo os boatos que correm...

- Deixemo-nos de boatos, senhor duque

- respondeu Clara, corando. - Passava eu, pois, por Jaulnay, quando vi um grupo de gente armada que prendia um homem e o levava; esse homem era ele.

- Ele, diz a senhora? Ah! pondere, bem,

senhora! - disse ele.

- Sim, ele, o oficial. Oh! meu Deus, senhor duque, como é profundo! Ponha de parte as suas espertezas e se não tem compaixão por aquele infeliz...

- Compaixão, eu?! - exclamou o duque.

- Ah! senhora, porventura tenho eu tempo de ter compaixão, sobretudo por homens que não conheço?...

Clara olhou furtivamente para o pálido

rosto de La Rochefoucauld, e para os seus delgados lábios arrepiados por um sorriso sem irradiação, e não pôde deixar de estremecer.

- Senhora - continuou o duque -

desejara ter a honra de escoltá-la mais longe. Porém, tenho de deixar uma guarnição em Montrond; desculpe-me, pois, se me separo de si. Vinte gentis-homens, mais felizes do que eu, servir-lhe-ão de guarda até que se tenha reunido à princesa, a quem lhe peço que tenha a bondade de apresentar os meus respeitos.

- Não vai para Bordéus? - perguntou

Clara.

- Por ora não; vou-me reunir-me na

Turenne com o senhor de Bouillon. Rivalizamos, a ver qual de nós será general desta guerra; o meu contrário é muito forte; porém, quero vencê-lo e ficar seu tenente.

Ditas estas palavras, o duque saudou

cortesmente a viscondessa, e tomou, a passo lento, ao caminho da sua tropa de cavaleiros.

Clara seguiu-o com os olhos,

murmurando:

"A sua compaixão! Eu invocava a sua

compaixão!... Ele disse bem: não tem tempo para isso."

Viu então um grupo de cavaleiros

destacar-se ao encontro dela, e com o resto da tropa ir, pensativo, com as rédeas lançadas no pescoço do cavalo, aquele homem de olhar falso e mãos brancas, que mais tarde inscreveria, no princípio das suas memórias, esta frase bastante singular num filósofo moralista:

"Creio que é necessário contentarmo-

nos em mostrar compaixão, mas abstermo-nos de a ter. É esta uma paixão que para nada é útil no interior de uma boa alma; que só serve para enfraquecer o coração, e que se deve deixar ao povo, que nunca executa coisa alguma pela razão, e necessita da paixão para fazer as coisas."

Dois dias depois, a senhora de Cambes

reunia-se à princesa.

A senhora de Cambes havia pensado

muitas vezes, instintivamente, no que poderia resultar de um ódio como o do senhor de La Rochefoucauld; porém, reconhecendo ser jovem, bela e válida, não entendia que aquele ódio - supondo, todavia, que existisse - pudesse ter uma influência funesta na sua vida. Apesar disso, quando a senhora de Cambes soube, sem margem para dúvidas, que ele se inquietara a seu respeito a ponto de estar inteirado de tudo, antecipou-se-lhe, e deu conta disso à princesa.

- Senhora - disse à princesa, em

resposta aos elogios que lhe eram feitos - não me lisonjeie muito acerca da suposta destreza que mostrei nessa ocasião, já que não deixa de haver quem assegure que o oficial enganado sabia muito bem a quantas andava, relativamente à verdadeira ou falsa princesa de Conde.

Como, porém, esta suposição retirava à

princesa de Conde a parte de merecimento que julgava haver desenvolvido na execução do ardil, a nada quis dar crédito.

- Sim, sim, minha querida Clara -

respondeu ela. - Sim, compreendo muito bem: hoje, que o nosso gentil-homem vê que o enganamos, quereria dar a entender que nos favoreceu; por infelicidade sua, acordou muito tarde, pois esperou por cair em desgraça para assim proceder. Mas, a propósito: não me disse que tinha encontrado o senhor de La Rochefoucauld por esses caminhos?

- Sim, senhora.

- Que lhe contou ele de novo? - Que ia para a Turenne, a fim de se

entender com o senhor de Bouillon.

- Sim, há uma luta entre eles, bem o sei;

afetando recusarem essa honra, andam a competir, a ver qual dos dois será generalíssimo dos nossos exércitos. Com efeito, quando fizermos a paz, quanto mais temível tiver sido o rebelde, mais direito terá a fazer pagar cara a sua reconciliação. Mas para os reconciliar tenho um plano da senhora de Tourville.

- Oh! oh! - disse a viscondessa, sorrindo

ao ouvir este nome. - Então Vossa Alteza reconciliou-se com a sua conselheira costumada?

- Não houve remédio; foi ter conosco a

Montrond, trazendo o seu rolo de papel com uma tal gravidade, que eu e Lenet não pudemos deixar de rir. "Posto que Vossa Alteza - disse ela - nenhum caso faça destas reflexões, fruto de laboriosas vigílias, venho oferecer o meu tributo à associação generosa".

- Mas então, era um verdadeiro

discurso?

- Sobre três pontos.

- A qual deles respondeu Vossa Alteza? - A nenhum; cedi a palavra a Lenet.

"Senhora - disse ele - nós nunca duvidamos do seu zelo, e ainda menos das suas luzes; são para nós tão preciosas, que a princesa e eu todos os dias por elas suspirávamos"... Numa palavra: disse-lhe ainda um mar de coisas lindas, que a seduziram a ponto de acabar por lhe oferecer o plano.

- Qual é?...

- Não nomearmos generalíssimo nem o

senhor de Bouillon, nem o senhor de La Rochefoucauld, mas sim o senhor de Turenne.

- Ora, pois - acrescentou Clara - parece-

me desta vez que a conselheira aconselha assizadamente. Que diz a isso, senhor Lenet?

- Digo que a viscondessa tem razão, e

que junta um voto mais às nossas deliberações - respondeu Lenet, que entrava justamente naquela hora com um rolo de papel, o qual segurava tão gravemente como teria feito a senhora de Tourville. - Infelizmente, o senhor de Turenne não pôde ausentar-se do exército do Norte, e o nosso plano exige que marche sobre Paris quando Mazarino e a rainha marcharem sobre Bordéus.

- Há-de reparar, minha querida amiga,

que Lenet é o homem das impossibilidades. Por isso, não é nem o senhor de Bouillon, nem o senhor de La Rochefoucauld, nem o senhor de Turenne, o nosso generalíssimo; é Lenet! Que tem aí Vossa Excelência? Alguma proclamação?

- Sim, senhora.

- A da senhora de Tourville, bem

entendido...

- Sim, senhora, salvo algumas

necessidades de redação. O estilo de chancelaria, bem sabe...

- Bom! Bom! - disse rindo a princesa. -

Contanto que lá esteja o espírito, a letra pouco deve importar.

- O espírito está, minha senhora. - E o senhor de Bouillon, onde deve assinar?

- Na mesma linha que o senhor de La

Rochefoucauld.

- Isto não é dizer-me onde há-de assinar

o senhor de La Rochefoucauld.

- O senhor de La Rochefoucauld há-de

assinar a seguir ao duque de Enghien.

- O duque de Enghien não deve assinar

um tal papel! É uma criança, pondere bem, Lenet.

- Já ponderei, senhora! Quando o rei

morre, o delfim sucede-lhe, ainda que não tenha senão um dia... Porque não seria na casa dos Condes como na casa de França?...

- Mas o que dirá o senhor de La

Rochefoucauld? O que dirá o senhor de Bouillon?

- O primeiro já disse, senhora, e foi-se

embora depois de ter dito; o segundo, há-de saber a coisa quando ela estiver feita, e, portanto, dirá o que quiser, e isso pouco nos importa!

- Eis, pois, a causa da frieza que o duque lhe testemunhou?

- Deixe-o frio, senhora - disse Lenet. -

Ele aquecerá com os primeiros tiros de artilharia que nos atirar o marechal de La Milleraye. Esses senhores querem fazer a guerra: façam-na então!

- Tenhamos todo o cuidado em não os

descontentar demasiado, Lenet - recomendou a princesa. - Não temos senão eles...

- E eles não têm senão o seu nome; que

tentem combater por conta deles, e verá quanto tempo se agüentam. Nada de hesitações.

Havia já alguns segundos que a

senhora de Tourville entrara, e ao ar radiante e alegre do seu rosto sucedera uma sombra de inquietação, que aumentou com as múltiplas palavras do conselheiro sem rival.

Adiantou-se com vivacidade, e

afirmou:

- O plano que propus a Vossa Alteza

teria a desgraça de não alcançar a aprovação do senhor Lenet?

- Pelo contrário, senhora - respondeu

Lenet, sorrindo. - E até conservei cuidadosamente a maior parte da sua redação; a única diferença é que em lugar de a proclamação ser assinada pelo duque de La Rochefoucauld, será assinada pelo duque de Enghien, e os nomes daqueles senhores seguir-se-ão ao do príncipe.

- Quer comprometer o jovem príncipe,

senhor?

- É muito justo que se comprometa,

senhora, visto ser por amor dele que combatemos.

- Mas os bordeleses amam o duque de

Bouillon, adoram o duque de La Rochefoucauld, e nem sequer conhecem o duque de Enghien.

- Está enganada - respondeu Lenet, que

segundo o seu costume, tirou um papel daquela algibeira cujo conteúdo sempre causava admiração à princesa - pois está aqui uma carta do presidente de Bordéus, na qual me roga que faça assinar as proclamações pelo jovem duque.

- Ora, deixe-se de parlamentos, Lenet! -

exclamou a princesa. - Que vantagem nos traria escapar ao poder da rainha e de Mazarino, caso tornássemos a cair no dos parlamentos?...

- Vossa Alteza quer entrar em Bordéus?

- perguntou Lenet.

- Sem dúvida.

- Pois essa é a condição "sine qua non",

não dar um tiro por qualquer outro que não seja o duque de Enghien.

A senhora de Tourville mordeu os

lábios.

- Quer dizer - disse a princesa - que nos

fez fugir de Chantilly, fez-nos correr cento e cinqüenta léguas, para recebermos uma afronta dos bordeleses?...

- O que toma por uma afronta, senhora,

é uma honra. Que coisa, na verdade, pode haver de mais lisonjeira para a princesa de Conde, do que ver que a recebam a ela, e não aos outros?...

- Então, os bordeleses nem sequer

receberão os dois duques?

- Só a Vossa Alteza receberão. - O que posso eu fazer só? - Ah, meu Deus! Entre, entre de um

modo ou de outro; e, quando entrar, deixe as portas abertas, e os outros entrarão atrás de si.

- Não nos é possível passar sem eles. - Este é o meu parecer, e, dentro de

quinze dias, será também o parecer do Parlamento. Bordéus repele o seu exército, de que tem medo, e daqui a quinze dias chamá-lo-á para se defender. Terá então o duplo merecimento de ter feito duas vezes o que os bordeleses lhe hajam pedido, e então - fique sossegada: far-se-ão matar pela sua causa, desde o primeiro até ao último.

- Bordéus está então ameaçada? -

perguntou a senhora de Tourville.

- Muito ameaçada - respondeu Lenet. -

É por isso que se torna indispensável tomar ali posição. Enquanto lá não estivermos, Bordéus pode, sem comprometer a honra, recusar abrir-nos as suas portas; uma vez que lá estejamos, Bordéus não pode, sem se desonrar, expulsar-nos dos seus muros.

- E quem ameaça Bordéus? - O rei, a rainha e Mazarino. Neste

momento estão recrutando para o exército real; os nossos inimigos tomam posição; a Ilha de São Jorge, que só dista umas três léguas da cidade, acaba de receber um reforço, um abastecimento de munições, e um novo governador. Os bordeleses tentarão apoderar-se da ilha, e é muito natural que sejam repelidos, visto que têm de se medir com as melhores tropas do rei. Devidamente desancados, como convém a paisanos que querem fazer as vezes de soldados, chamarão em altos brados pelos duques de Bouillon e de La Rochefoucauld. Então, senhora, terá esses dois duques nas suas mãos, e imporá as suas condições aos parlamentos.

- Mas não seria mais acertado chamar

ao nosso partido o tal governador, antes que os bordeleses tenham sofrido uma derrota, que talvez os desanime?...

- Se estiver em Bordéus quando essa

derrota se registrar, nada terá que temer; quanto a subornar o governador, isso é coisa impossível.

- Impossível?! E porquê?

- Porque esse governador é inimigo

pessoal de Vossa Alteza.

- Meu inimigo pessoal?

- Sim, senhora.

- E de onde procede a sua inimizade? - Ele nunca perdoará a Vossa Alteza o

logro de que foi vítima em Chantilly. Oh! Mazarino não é tolo, como o julgam, senhoras, apesar de que eu não cesse de repetir-lhes o contrário; e a prova é que mandou para a Ilha de São Jorge, isto é, para a melhor posição ao país, adivinham quem?

- Já lhe disse que ignorava

completamente quem ele fosse.

- Ora, pois: é o tal oficial, de quem tanto

se têm rido, e que, por uma inexplicável incúria, deixou fugir Vossa Alteza de Chantilly.

- O senhor de Canolles?! - exclamou

Clara.

- Sim, senhora.

- O senhor de Canolles governador da

Ilha de São Jorge?!

- Ele mesmo, em pessoa.

- Isso não é possível! Eu vi-o ser preso,

na minha presença, perante meus olhos!

- É verdade. Mas deve sem dúvida ser

poderosamente protegido, e a sua desgraça converteu-se em graça.

- E se o julgava já morto, minha pobre

Clara! - disse rindo a princesa.

- Está bem certo disso, senhor? -

perguntou Clara, atônita.

Lenet, segundo o seu costume, meteu a

mão na famosa algibeira, e dela retirou um papel.

- Está aqui uma carta de Richon - disse

ele - que me dá todos os pormenores sobre a posse do novo governador, e na qual me exprime o seu pesar por Vossa Alteza o não ter despachado a ele próprio para a Ilha de São Jorge.

- A princesa despachar Richon para a

Ilha de São Jorge?! - disse a senhora de Tourville, com um riso triunfante. - Acaso dispomos nós das nomeações de governador para as praças de Sua Majestade?

- Dispúnhamos de uma, senhora -

respondeu Lenet - e é quanto basta.

- Então de qual?

A senhora de Tourville estremeceu

vendo que Lenet aproximava a mão da algibeira.

- A assinatura em branco do duque

D’Épernon! - exclamou a princesa. - É verdade, não me lembrava.

- Ora! Que vale isso? - disse

desdenhosamente a senhora de Tourville. - Um pedaço de papel, e nada mais.

- Este pedaço de papel, senhora - disse

Lenet - é a nomeação de que precisávamos para evitar, o que acaba de se fazer. E a posse da Ilha de São Jorge, é a nossa salvação: enfim: haverá alguma outra praça sobre o Dordonha, como a Ilha de São Jorge sobre o Garona?

- E está certo - replicou Clara, que nada

ouvira do que há cinco minutos se dizia, e que só ficara ciente da notícia dada por Lenet, e confirmada por Richon - de que é o mesmo Canolles que foi preso em Jaulnay quem agora governa a Ilha de São Jorge?

- Tenho toda a certeza absoluta,

senhora.

- Mazarino tem um modo singular -

continuou ela - de encaminhar os governadores aos seus governos.

- Sim - disse a princesa - certamente

que não deixa de haver algum mistério em tudo isto.

- Sem dúvida que há - corroborou

Lenet. - E a chave desse mistério talvez nos possa ser dada pela menina Nanon de Lartigues.

- Nanon de Lartigues?! - exclamou a viscondessa de Cambes, a quem uma terrível lembrança acabava de trespassar o coração.

- Aquela rapariga?! - disse a princesa,

com desprezo.

- Sim, senhora - respondeu Lenet. -

Aquela rapariga que Vossa Alteza não quis ver, quando solicitava ser-lhe apresentada, e que a rainha, menos severa do que a senhora relativamente às leis da etiqueta, recebera; o que justificou que ela respondesse ao vosso camarista que era possível ser Sua Alteza de Conde senhora de mais distinção do que Ana de Áustria, mas que decerto em Ana de Áustria há mais prudência do que na princesa de Conde.

- A memória não o ajuda, Lenet, ou

então quer poupar-me - exclamou a princesa. - Aquela insolente rapariga não se contentou em dizer: "Mais prudência", eu ouvi-a do princípio ao fim.

- Então fácil será compreender, senhora

- disse Lenet - que será essa mulher que lhe fará a guerra mais encarniçada. A rainha ter-lhe-ia enviado soldados a quem combater; Nanon mandar-lhe-á inimigos a quem será preciso esmagar.

- Talvez que no lugar de Sua Alteza -

disse com aspereza a senhora de Tourville a Lenet - a tivesse recebido com reverência...

- Não, senhora - negou Lenet. - Tê-la-ia

recebido rindo, e tê-la-ia comprado.

- Ora, pois, se somente se trata de

comprar, sempre estamos a tempo.

- Sem dúvida, sempre estamos a tempo;

com a única diferença de que, a esta hora, o preço há-de provavelmente ser demasiado alto para a nossa bolsa.

- Então, quanto vale ela? - perguntou a

princesa.

- Quinhentas mil libras, antes da

guerra.

- E hoje?

- Um milhão.

- Mas, por tal preço eu compraria

Mazarino!

- É possível - disse Lenet. - As coisas já vendidas e revendidas baixam de preço.

- Mas - insistiu a senhora de Tourville,

que sempre se inclinava aos meios violentos - se não a pudermos comprar, será necessário lançar mão dela!

- Senhora, faria um verdadeiro serviço

a Sua Alteza, se conseguisse tal resultado; mas dificilmente será possível, visto que se ignora absolutamente onde se encontra. Todavia, não nos ocupemos agora disso; entremos desde já em Bordéus, e depois entraremos na Ilha de São Jorge.

- Não, não - exclamou Clara. -

Entremos primeiro na Ilha de São Jorge.

Esta exclamação, saída do fundo do

coração da viscondessa fez com que as duas mulheres se voltassem para ela, enquanto Lenet olhava para Clara com a mesma atenção como teria podido fazer o senhor de La Rochefoncauld, mas agora acompanhada de benevolência.

- Mas tu estás louca! - disse a princesa. -

Bem vês que Lenet diz que a praça é inconquistável.

- É possível - disse Clara. - Porém, creio

que a tomaremos.

- Terá algum plano? - perguntou a

senhora de Tourville, com o ar de mulher que receia ver a casa assaltada. -Talvez - disse Clara.

- Mas - volveu a princesa, rindo - se a

Ilha de São Jorge tem de custar tão cara como diz Lenet, talvez não sejamos suficientemente ricos...

- Não se comprará - esclareceu Clara -

e, contudo, apoderar-nos-emos dela como se a tivéssemos comprado.

- Por meio da força, então - disse a

senhora de Tourville.

- Minha querida amiga, adote o meu

plano.

- É isso - disse a princesa. -

Ordenaremos a Richon que vá sitiar São Jorge; ele é desta terra, conhece as localidades, e se há alguém que seja capaz de tomar aquela fortaleza, que julgam ser tão importante, é ele!

- Antes de tentar esse meio - disse Clara

- deixe-me tentar a aventura! E se eu for mal sucedida, então, farão o que entenderem.

- Como!? - disse a princesa admirada -

atrever-te-ás a ir à Ilha de São Jorge?

- Irei, sim.

-Só?

- Acompanhada por Pompeu. - E não receia coisa nenhuma? - Irei como parlamentar, se realmente

Vossa Alteza quiser encarregar-me das suas instruções.

- Ah! eis uma coisa nova - exclamou a

senhora de Tourville. - A mim parece-me que os diplomatas não se improvisam deste modo, e que é preciso fazer um longo estudo dessa ciência; o senhor de Tourville, um dos melhores diplomatas da sua época, da mesma forma que era um dos melhores guerreiros, entendia ser essa profissão a mais difícil de todas.

- Seja qual for a minha insuficiência, senhora - respondeu Clara - farei contudo a experiência, se a princesa o permitir.

- Sem dúvida alguma que a princesa

lho permitirá - disse Lenet, lançando um olhar à princesa de Conde. - E estou convencido de que, se há no mundo pessoa alguma que possa sair-se bem de uma tal empresa, esse alguém é a senhora...

- Então, que fará a senhora que outros

não possam fazer?

- Entrará francamente em ajuste com o

senhor de Canolles, feito que um homem não poderia tentar sem correr o risco de ser lançado pela janela.

- Um homem... vá lá - replicou a

senhora de Tourville - mas uma mulher...

- Se é uma mulher que vai à Ilha de São

Jorge - disse Lenet - tanto faz, e até vale mais que seja a senhora do que outra, visto que foi a primeira a quem ocorreu essa idéia.

Neste momento, um mensageiro entrou

no aposento da princesa. Era portador de uma carta do Parlamento de Bordéus.

- Ah! - exclamou a princesa - é sem

dúvida a resposta à minha inquirição.

As duas mulheres aproximaram-se,

movidas por um sentimento de curiosidade e interesse. Quanto a Lenet, ficou no mesmo lugar com a sua costumada fleuma, sabendo sem dúvida de antemão o que continha a carta.

A princesa leu avidamente. - Querem-me, chamam-me, esperam-

me! - exclamou ela.

- Ah! - disse a senhora de Tourville,

com um acento de triunfo.

- Mas os duques, senhora? - disse Lenet

- mas, o exército?...

- Não dizem palavra a este respeito. - Então ficamos sem forças - disse a

senhora de Tourville.

- Não - disse a princesa - porque, graças

à assinatura em branco do duque D’Épernon, eu terei Vayres, que domina o Dordonha.

- E eu - disse Clara - terei São Jorge, que

é a chave do Garona.

- E eu - disse Lenet - terei os duques e o

exército, se, entretanto, me der tempo para isso.

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Alexandre Dumas

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