A Guerra das Mulheres
Capítulo IV
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
- Por onde andou hoje, meu querido Richon, que tudo encara pelo lado mais desfavorável? - perguntou-lhe o mancebo.- A guerra civil é coisa triste, sei-o bem; porém, às vezes torna-se necessária.
- Sim, como a peste, como a febre
amarela, como a febre negra, como as febres de todas as cores. Crê, por exemplo senhor visconde, ser necessário que eu, que esta noite apertei com tamanho gosto a mão daquele bravo Canolles, vá amanhã enterrar-lhe a espada na barriga, só porque sirvo a princesa de Conde - que de mim zomba - e ele Mazarino, que dele zomba igualmente?... E isso, todavia, é o que acontecerá.
O visconde fez um movimento de
horror.
- A não ser - continuou Richon - que
apesar de tudo eu me engane, e que seja ele quem me fure a barriga; mas seja de que maneira for - Ah! não compreende o que é a guerra. Não vê senão um mar de intrigas, e nele mergulha como no seu elemento natural. Disse isto no outro dia, a sua alteza, e ela concordou. Vivem todos numa esfera de onde os fogos de artilharia - que nos matam - vos parecem simples fogos de artifício.
- Na verdade, Richon - disse o visconde
- que me assusta: e se não tivesse a certeza de tê-lo a meu lado para proteger-me, não ousaria pôr-me a caminho; mas, protegido pela sua escolta - ajuntou o mancebo, estendo a delicada mão ao partidário - nada tenho a recear.
- A minha escolta... - recordou-se
Richon. - Ah! agora por falar nisso: terá de passar sem ela, senhor visconde, pois não posso acompanhá-lo.
- Mas não deve voltar comigo para
Chantilly?...
- Só no caso de aqui não ser necessário
para lá devia voltar: mas, tal como lhe dizia, a minha importância tanto tem crescido que recebi ordem formal da princesa para me não afastar dos arredores do forte, acerca do qual parece que há algum projeto.
O visconde fez uma exclamação de susto.
- Partir deste modo, sem si?!... - disse
ele.- Partir com aquele digno Pompeu, que é cem vezes mais temeroso do que eu?! Atravessar assim metade da França só, ou quase só?!... Oh! não partirei, juro-lhe! Morreria de susto antes que chegasse!
- Oh! senhor visconde - replicou
Richon, dando uma gargalhada. - Então não se lembra já da espada que tem pendente ao lado?...
- Ria, ria... (tanto melhor); mas eu não
partirei. A princesa prometeu-me que o senhor me acompanharia, e só sob essa condição dei a minha palavra.
- Fará o que lhe aprouver, senhor
visconde - disse Richon, com afetada gravidade. - Contudo, em Chantilly contam consigo e - pondere isto bem - olhe que os príncipes perdem a paciência com grande facilidade, sobretudo quando esperam dinheiro.
- E para cúmulo da desgraça - lamentou-se o visconde - tenho de partir durante a noite...
- Tanto melhor - disse Richon, a rir. -
Não verão que tem medo, e encontrará algum mais poltrão ainda, a quem fará fugir.
- Isso é o que julga - volveu o visconde,
a quem esta promessa pouco alento dava.
- Além disso - acrescentou Richon - há
um meio de tudo conciliar. Não é por causa do dinheiro que tem medo?... Ora bem: deixe-me o dinheiro; mandá-lo-ei por três ou quatro homens de confiança. Mas considerando bem, o meio mais seguro, aconteça o que acontecer, é ser o senhor o portador.
- Tem razão. Vou partir, Richon; e como
cumpre ser completamente bravo, guardo o dinheiro. Creio que sua alteza, pelo que me diz, tem mais necessidade do dinheiro do que de mim; quem sabe se não seria mal recebido, caso chegasse sem ele...
- Eu bem lhe disse, quando entrei, que
parecia um herói; além de que, por toda a parte, há soldados do rei, e ainda não estamos em guerra; mas não se fie muito nisso, e recomende a Pompeu que carregue as pistolas.
- É para me alentar que me diz isso?... - Sem dúvida; quem tem consciência do
perigo não se deixa surpreender. Parta, pois - continuou Richon, levantando-se. - A noite há-de estar boa, e antes que amanheça, pode chegar a Monlieu.
- E o nosso barão, não se porá à espreita
da nossa partida?...
- Oh! neste momento faz o que nós
acabamos de fazer - quer dizer: está ceando. E ainda que a ceia dele não valha tanto como a nossa, não é homem que se levante da mesa sem algum motivo poderoso. Além disso, vou ter com ele, e tratarei de demorá-lo.
- Então, apresente-lhe as minhas
desculpas acerca da minha incivilidade para com ele. Não quero, caso o encontre algum dia em menos generosa disposição do que hoje estava, que tenha agravos comigo. Cá para mim, entendo que o seu barão não é para graças.
- Com razão o diz; seria muito capaz de
segui-lo até ao fim do mundo, ainda que mais não fosse para medir a espada com a sua. Mas fique sossegado, eu o cumprimentarei da sua parte.
- Sim; mas peço-lhe somente que espere
até que me tenha posto a caminho.
- Não deixarei de fazer assim. - E para sua alteza, não tem nenhuma
mensagem?...
- Olá, se tenho! Acabo de recordar-me o
mais importante.
- Escreve-lhe?
- Não, senhor; o que é necessário
transmitir-lhe não passa de duas palavras.
- Quais?
- Bordéus - Sim.
- Ela saberá o que querem dizer?.,. - Na perfeição. E ouvidas estas duas
palavras, pode partir com toda a segurança; dir-lhe-á que respondo por tudo.
- Vamos, Pompeu - ordenou o visconde ao criado, que nesse momento metia a cabeça pela abertura da porta, a qual estivera por abrir um tanto. - Vamos, meu amigo; é preciso partir.
- Oh! oh! partir!... - disse Pompeu. - O
senhor decerto não repara que estamos ameaçados por uma horrorosa tempestade.
- Que dizes, Pompeu!?... - respondeu
Richon. - Não vejo uma só nuvem no céu!...
- Mas durante a noite poderemos
enganar-nos no caminho...
- Não seria fácil; basta que tenham o
cuidado de seguir a estrada real; além disso, faz um luar magnífico.
- Luar! luar!... - rosnou Pompeu. -
Compreenda, senhor Richon, que não é por amor de mim que assim falo.
- Sem dúvida; um velho soldado!... - Quando um homem combateu contra
os espanhóis, e foi ferido na batalha de Corbie... - continuou Pompeu, inchando o peito.
- Já se não tem medo de coisa nenhuma, não é assim? Ora, pois isso vem muito a propósito, porquanto o senhor visconde não deixa de ter alguns receios, previno-te disso.
- Oh! oh! - disse Pompeu, enfiado. -
Tem medo?...
- Indo contigo, meu bravo Pompeu, não
tenho - assegurou o mancebo. - Conheço-te bem, e sei que te farias matar antes que a mim chegassem.
- Sem dúvida, sem dúvida - replicou
Pompeu. - Mas se tem demasiado receio, seria bom esperar até amanhã.
- Não é possível, meu bom Pompeu.
Vai colocar este ouro na garupa do teu cavalo, que eu já vou ter contigo no mesmo instante.
- É uma quantia muito avultada para
expô-la assim - sentenciou Pompeu, tomando o peso dos alforjes.
- Não há perigo algum; pelo menos
assim o diz Richon. Vejamos: está tudo pronto? Pistolas, espadas, mosquetes?...
- Sem dúvida se esquece - respondeu o
velho escudeiro - de que nunca deixa de ter tudo aprontado o homem que foi soldado toda a vida. Sim, senhor visconde, tudo está no devido lugar.
- Veja - disse Richon. - Não se pode ter
medo com semelhante companheiro! Boa viagem, pois, senhor visconde.
- Agradeço-lhe o seu bom desejo; mas o
caminho é longo - respondeu o visconde, com um resto de angústia que o ar marcial de Pompeu não podia dissipar.
- Qual! - volveu Richon.- Todo o
caminho tem princípio e fim. Apresente os meus humildes obséquios à princesa; diga-lhe que sou todo dela, e do senhor de La Rochefoucauld, até à morte. E não se esqueça das duas palavras que lhe disse: "Bordéus - Sim". Eu vou ter com o senhor de Canolles.
- Diga-me, pois, Richon - replicou o
visconde, segurando-o pelo braço no momento em que punha o pé no primeiro degrau da escada - se esse Canolles é tão bravo capitão e tão bom gentil-homem como me afirma, porque não faz você uma tentativa para chamá-lo ao nosso partido?... Poderia reunir-se-nos em Chantilly, ou durante a viagem; tendo já algum conhecimento dele, eu o apresentaria.
Richon olhou para o visconde com um
tão singular sorriso, que este, lendo sem dúvida nos traços do partidário o que se passava no seu espírito, apressou-se a dizer-lhe:
- Quanto ao mais, Richon, dê por não
dito o que lhe disse, e faça a este respeito o que entender. Adeus!
E, estendendo-lhe a mão, recolheu-se
ao quarto, ou porque receasse que Richon visse o súbito vermelhão que assomara ao rosto, ou porque receasse ser ouvido por Canolles, cujas estrondosas gargalhadas chegavam ao primeiro andar.
Deixou pois o partidário descer as
escadas, seguido de Pompeu, que levava a mala com uma negligência aparente, a fim de não dar lugar a que se suspeitasse o respectivo conteúdo; e, deixando passar alguns minutos, apressou-se a verificar se não esquecera coisa alguma; apagou as velas, desceu por seu turno com precaução, atreveu-se a lançar uma tímida vista de olhos através da fenda luminosa de uma porta no andar térreo; depois, embuçando-se num capote que Pompeu lhe pusera sobre os ombros, meteu o seu pezinho na mão do escudeiro, saltou com ligeireza para cima do cavalo, queixou-se, sorrindo, da lentidão do velho soldado, e desapareceu na escuridão.
No momento em que Richon entrava
no quarto de Canolles, a quem havia de entreter enquanto o viscondezinho fizesse os seus preparativos de partida, um grito de alegria dado pelo barão, meio tombado na cadeira, provou que este não era homem que conservasse rancor.
Sobre a mesa, no meio de dois diáfanos
corpos, que haviam sido garrafas cheias, elevava-se, rechonchudo e orgulhoso da sua rotundidade, um garrafão envolto num entrançado de vimes, por entre cujos interstícios a viva luz de quatro velas fazia despedir centelhas de topázios e de rubis: era um garrafão daquele vinho velho de Collioure, cujo suave gosto tão grato é a um paladar já calejado. Apetitosas passas de uvas e figos, amêndoas, biscoitos, queijos picantes, revelavam o cálculo interesseiro do estalajadeiro, cálculo por cuja sábia exatidão respondiam duas garrafas despejadas, e outra em meio. Com efeito, nenhuma dúvida havia de que todo aquele que tocasse em tão provocadora sobremesa, necessariamente faria, por muito sóbrio que fosse, um avultado consumo de líquido.
Ora Canolles não fazia gosto em passar
por anacoreta. Talvez que também, na sua qualidade de huguenote (Canolles era de família protestante, e professava, bem ou mal, a religião do seu país), talvez, dizemos nós, que, na sua qualidade de huguenote, Canolles não acreditasse na canonização daqueles piedosos solitários que haviam ganho o Céu bebendo água e comendo raízes. Portanto, por muito triste ou por muito enamorado que estivesse, Canolles nunca era insensível à fragrância de um bom jantar, ao aspecto daquelas garrafas com formato especial, nem daquelas rolhas encarnadas, amarelas ou verdes, que vedam o mais puro sangue da Gasconha, da Champanha, ou da Borgonha. Nestas circunstâncias, Canolles cedera, como costumava, aos encantos da vista; da vista passara ao olfato, e do olfato ao gosto. E, como dos cinco sentidos com que o dotara aquela boa mãe comum a que damos o nome de senhora Natureza, três estavam completamente satisfeitos, os outros dois, cheios de paciência, esperavam que chegasse a sua vez, com suma resignação.
Neste pé entrou Richon, e foi dar com
Canolles bamboleando-se na cadeira.
- Ah! - exclamou este - chega muito a
propósito, meu querido Richon. Bem precisava encontrar-me com alguém a quem fizesse o elogio do senhor Biscarros, e estava a ponto de me ver constrangido a gabá-lo àquele biltre do Castorin, que não sabe o que seja paladar e a quem nunca pude ensinar a comer. Olhe para esta prateleira, e lance os olhos a esta mesa, à qual o convido a sentar-se... Não é este estalajadeiro do Bezerro de Ouro um verdadeiro artista, um homem digno de que eu o recomende ao meu amigo o duque d’Épernon?... Observe a delicadeza dos pratos, pois ninguém mais do que o senhor é capaz de avaliar o seu merecimento. Além de tudo isto, uma boa sobremesa e aquela garrafa de vinho de Collioure, que parece querer resistir, mas que terá de ser vencida, como as demais, sobretudo se a acometermos ambos. Viva a alegria! Estou de muito bom humor, e não posso deixar de confessar que Biscarros é um eminente professor. Sente-se ali, Richon; já ceou, mas isso que importa?... Eu também já ceei, não é razão para impedimento: principiaremos de novo.
- Muito obrigado, senhor barão - disse
Richon a rir. - Já não tenho fome.
- Convenho que assim seja: pode não
haver fome. Mas sede, sempre a deve haver: prove este vinho de Collioure.
Richon aproximou o seu copo. - Pelo que vejo - continuou Canolles -
ceou com o biltrezinho do seu visconde... Ah! Richon, perdoe-me. Não, engano-me: um lindo moço, pelo contrário, a quem devo o prazer de saborear a vida nos seus melhores aspectos, em vez de deixar fugir a alma pelos três ou quatro buracos que tencionava abrir-me na pele aquele bravo duque d’Épernon. Devo, pois, estar muito agradecido ao lindo visconde, àquele encantador Ganimedes. Ah! Richon, parece-me bem que você é o que todos dizem - isto é: um verdadeiro servidor do senhor de Conde...
- Ora! Deixe-se disso, senhor barão! -
exclamou Richon, soltando uma gargalhada. - Não tenha semelhantes idéias, far-me-ia morrer de riso.
- Morrer de riso!... Nem pense nisso,
meu caro. O que, porém, lhe posso assegurar, meu caro Richon, é que me causa horror o seu pequeno gentil-homem, interessar-se daquela maneira pelo primeiro belo cavaleiro que vê passar!...
E Canolles deixou-se cair na cadeira
rebentado de riso e retorcendo o bigode, com um extremo de hilaridade em que Richon não pôde deixar de tomar parte.
- Então - disse-lhe Canolles - não há
dúvida, meu querido Richon, com serenidade lhe digo, que conspire...
Richon continuou a rir, mas com um
sorriso menos franco.
- Talvez não saiba que eu tinha muito
boa vontade de mandá-lo prender, tanto a si como ao seu gentil-homem... Ora, não deixaria de ter a sua graça, e sobretudo seria muito fácil. Tinha à minha disposição os porta-cacetes do meu compadre d’Épernon. Ah! Richon para o corpo de guarda, e o pequeno gentil-homem também!... - E pôs-se a cantarolar.
Neste momento, ouviu-se o galope de
dois cavalos que se iam afastando.
- Olá. - disse Canolles, aplicando o
ouvido - que é isto, Richon!?... Sabe?...
- Creio saber o que seja.
- Fale, pois.
- É o pequeno gentil-homem que parte. - Sem me dizer adeus?!... - exclamou
Canolles. - Não há dúvida de que é um sevandija!
- Nada disso, meu querido barão: é um
homem que tem muita pressa, e nada mais.
Canolles franziu as sobrancelhas. - Que singulares maneiras! - disse ele.-
E onde seria criado esse rapaz? Richon, meu amigo, pode ficar certo de que a amizade dele não o honra. Não é procedimento de um gentil-homem para com outros gentis-homens. Com todos os demônios! Parece-me que se lhe pudesse chegar, lhe esfregaria as orelhas. O diabo leve o pobretanas do pai, que, sem dúvida por mesquinhez, nem um mestre lhe deu!
- Não se enfade, senhor barão - disse
Richon a rir. - O visconde não é tão malcriado como supõe, visto que, no momento de partir, me encarregou de lhe exprimir o quanto lhe pesava não ter tempo para lhe apresentar as suas despedidas, e recomendou-me que lhe entregasse mil cumprimentos de sua parte.
- Bom, bom! - condescendeu Canolles, -
Água benta da corte, que de uma grande insolência faz uma pequena descortesia; eis tudo. Estou levado dos diabos; brigue comigo, Richon! Não quer fazê-lo ?... Ora espere. Saberá, Richon, meu amigo, que o acho muito feio!
Richou desatou a rir.
- Com o mau humor por que está
dominado, senhor barão - disse-lhe ele - seria capaz, se nos puséssemos a jogar, de ganhar esta noite mais de mil libras.
Richon conhecia bem o gênio de
Canolles, e sabia o que fazia ao oferecer uma escape ao mau humor do barão.
- Ah! sim, o jogo! - exclamou ele. - Sim,
o jogo! Tem razão. Meu amigo, eis uma palavra que me reconcilia consigo. Richon, afinal, muito me agrada; Richon, é tão formoso como um Adonis, e dou o meu perdão ao senhor de Cambes. Castorin, traz-nos cartas!
Castorin logo se apresentou, seguido
de Biscarros: chegaram a banca de jogo, e os dois companheiros puseram-se a jogar. Castorin e Biscarros deixaram-se ficar de pé, um de cada lado da mesa para vê-los jogar. Em menos de uma hora, apesar da previsão feita a Canolles, Richon ganhou ao seu contrário uns oitocentos francos. Então Canolles, que não tinha já dinheiro consigo, ordenou a Castorin que o fosse buscar à sua mala.
- É escusado - disse Richon, que lhe
ouvira dar a ordem. - Não tenho tempo para a desforra.
- Como assim!? Pois não tem tempo?!... - estranhou Canolles.
- Não, senhor. São onze horas - disse
Richon - e à meia-noite tenho de estar no meu posto.
- Deixe-se de histórias! Está
gracejando?... -vociferou Canolles.
- Senhor barão - disse Richon, com
gravidade. - É militar, e, portanto, sabe muito bem qual é o rigor do serviço.
- Então, porque não partiu antes de
ganhar-me o meu dinheiro?- replicou Canolles, meio risonho e meio zangado.
- Acaso me criticará por lhe haver feito
uma visita? - perguntou Richon.
- Deus tal não permita! Contudo,
vejamos: não tenho a menor vontade de dormir, e não poderei deixar de me aborrecer aqui. E se me propusesse que o acompanhasse, Richon?...
- Recusaria essa honra, senhor barão.
Os negócios do gênero daqueles de que eu estou encarregado, tratam-se sem testemunhas.
- Muito bem! Vai... para que lado? - Ia rogar-lhe que me não fizesse essa
pergunta...
- E para que lado foi o visconde? - É dever meu responder-lhe que nada
sei a tal respeito.
Canolles fixou os olhos em Richon,
para ficar certo de que a zombaria não entrava por coisa alguma nestas respostas, algum tanto incivis; mas os olhos de bondade e o sorriso tão franco do governador de Vayres desarmaram, senão a sua impaciência, pelo menos a sua curiosidade.
- Vamos - disse Canolles - esta noite
está mergulhado em mistérios, meu querido Richon; haja, porém, liberdade completa; eu mesmo muito me teria zangado de que me houvessem seguido, ainda que, afinal de contas, o que me tivesse seguido se visse tão enganado como eu. Portanto, vá lá mais um copo deste vinho de Collioure, e boa viagem!
Dizendo isto, Canolles encheu os copos,
e Richon, depois de haver tocado o seu com o do barão e bebido à saúde deste, saiu sem que este se lembrasse sequer de examinar qual era o caminho pelo qual se afastava. Todavia, vendo-se só no meio das velas quase consumidas, das garrafas vazias, das cartas espalhadas, o barão sentiu uma daquelas tristezas que só podem ser compreendidas depois de experimentadas, porquanto a sua alegria durante toda a noite fora acompanhada pelo pesar de ver malogradas todas as suas esperanças, e por mais que quisesse aturdir-se e esquecer esse desgosto, não o conseguira completamente.
Arrastou-se pois para o seu quarto,
lançando através das vidraças do corredor um olhar pesaroso e colérico para a pequena casa isolada, na qual, uma janela, iluminada por um reflexo avermelhado, e de vez em quando atravessada por algumas sombras, indicava obviamente que a menina de Lartigues passava uma noite menos solitária do que a sua.
No primeiro degrau da escada, Canolles deu com a ponta do pé em alguma coisa; baixou-se, e apanhou uma das luvazinhas do visconde, que este deixara cair ao sair precipitadamente da estalagem de Biscarros, e sem dúvida não a julgara suficientemente preciosa para que perdesse o seu tempo a procurá-la.
Qualquer que fosse o conceito feito por
Canolles num momento de misantropia - muito perdoável a um amante que se vê, como ele, tão contrariado - o certo é que na pequena casa solitária não reinava maior satisfação do que na estalagem Bezerro de Ouro.
Nanon, inquieta e agitada toda a noite,
revolvendo no seu pensamento milhares de planos para prevenir Canolles, pusera em prática todo o espírito e velhacaria de que é capaz uma cabeça de mulher bem organizada, para sair da situação precária em que se encontrava.
Para isso não era preciso mais do que
um momento surripiado ao duque para falar com Francineta, e dois minutos para escrever uma nota a Canolles num pedaço de papel.
Todavia, dir-se-ia que o duque, tendo
suspeitado do que se passava e penetrado a inquietação do espírito dela através da máscara alegre com que cobrira o seu rosto, fizera propósito firme de lhe não permitir aquela liberdade de um momento, que todavia lhe era muito necessária.
Nanon queixou-se de uma dor de
cabeça, mas o senhor D’Épernon não quis consentir que se levantasse para ir buscar o seu fraquinho de sais, e foi-lho buscar ele próprio.
Nanon picou-se com um alfinete, pelo
que logo rebentou um rubi na ponta do seu dedo nacarado, e quis ir buscar à papeleira uma tira daquele famoso tafetá encerado que começava nessa época a ser apreciado. O senhor d’Épernon, infatigável na sua complacência, levantou-se, foi cortar a tirazinha do tal tafetá encerado, com uma destreza que muito a desesperava, e tornou a fechar a papeleira à chave.
Nanon fingiu que dormia
profundamente: quase no mesmo instante o duque pôs-se a ressonar; então Nanon tornou a abrir os olhos e, ao clarão da lamparina que estava sobre uma mesa, tentou tirar o pequeno bloco de notas da algibeira do casaco do duque, que estava ao pé da cama, e ao alcance da sua mão; mas no momento em que já tinha o lápis na mão, e acabava de rasgar uma folha de papel, o duque abriu um dos olhos.
- Que faz, minha querida? - interrogou
ele.
- Estava vendo se havia calendário no
bloco de notas - respondeu Nanon.
- E para quê - perguntou o duque. - Para ver em que dia calha a festa do
santo com o seu nome.
- Eu chamo-me Luís, e o meu
aniversário calha a 24 de Agosto, como sabe. Tem portanto bastante tempo para fazer os preparativos, minha querida.
E tornou a pegar no bloco que ela tinha
nas mãos, e meteu-o de novo na algibeira do casaco.
Nesta última manobra, Nanon ganhara
pelo menos um lápis e papel. Meteu uma e outra coisa debaixo da almofada, e apagou com toda a destreza a lamparina, esperando poder escrever nas trevas; mas o duque tocou no mesmo instante a campainha, e, acudindo Francineta, pediu-lhe em altos brados luz, asseverando que sem ela não poderia adormecer. Francineta chegou antes que Nanon houvesse tido tempo de escrever metade da sua frase, e o duque, com receio de que se repetisse um acidente semelhante ao que acabava de acontecer, ordenou a Francineta que pusesse duas velas acesas sobre a lareira. Foi então que Nanon declarou que não podia dormir com luz, e, toda abrasada numa febre de impaciência, voltou a cara para a parede, esperando o dia com uma ansiedade fácil de compreender.
Aquele dia, tão temido, começou por fim a raiar por cima dos ulmeiros, e fez empalidecer a luz das velas. O duque d’Épernon, que se prezava de seguir os hábitos da vida militar, levantou-se ao primeiro raio que filtrou pelas janelas, vestiu-se sem ajuda de ninguém, para se não apartar um só momento da sua pequena Nanon, envergou um roupão, e tocou a campainha, para saber se não haveria alguma coisa de novo.
A resposta que Francineta deu a esta
pergunta foi trazer-lhe um maço de despachos que Courtauvaux, o seu picador favorito, trouxera durante a noite.
O duque pôs-se a abri-los, e a lê-los
com um dos olhos; o outro, a que o duque se esforçava por dar a expressão mais amorosa que lhe era possível, não o tirava de Nanon.
Nanon, caso isso estivesse na sua mão,
teria feito em pedaços o duque.
- Sabe o que deveria fazer, minha cara
amiga?... - perguntou-lhe o duque, depois de haver lido uma parte dos seus despachos.
- Não, senhor - respondeu Nanon.- Mas
se quiser dar as suas ordens, serão pontualmente executadas.
- Mandar chamar o seu irmão - disse o
duque.- Acabo justamente de receber uma carta de Bordéus, que contém as informações que desejava, e ele poderia partir neste mesmo instante; deste modo, quando voltasse, eu teria um pretexto para lhe dar o comando que deseja.
O rosto do duque exprimia a
benevolência mais franca.
"Vamos - disse consigo Nanon - ânimo!
Quem sabe se Canolles lerá nos meus olhos, ou me compreenderá à primeira palavra que eu lhe dê..."
Depois, em voz alta:
- Mande-o chamar o senhor mesmo,
meu querido duque - respondeu ela, porque desconfiava que, caso se quisesse encarregar da comissão, ele se oporia.
O duque chamou Francineta, e
despachou-a para a estalagem Bezerro de Ouro, sem lhe dar nenhuma outra instrução mais do que estas palavras:
- Diga ao barão de Canolles que a
menina de Lartigues o espera para almoçar.
Nanon lançou uma vista de olhos a
Francineta, mas, por muito eloqüente que fosse esta vista de olhos, Francineta não podia adivinhar o que ela pretendia: "Diga ao barão de Canolles que eu sou sua irmã."
Francineta partiu, compreendendo que
haveria pedra escondida no sapato, e que essa pedra seria talvez algum grande calhau. Neste ínterim, Nanon levantou-se, foi colocar-se atrás do duque, de modo que, mal pusesse os olhos em Canolles, pudesse convidá-lo a que procedesse com cautela, e ocupou-se a compor uma frase artificiosa, por meio da qual, logo às primeiras palavras, o barão ficasse inteirado de tudo o que devia saber, para não tocar em notas discordes no terceto de família que se ia executar.
Olhando de esguelha, podia abranger
toda a estrada até àquele cotovelo onde na véspera o senhor d’Épernon se ocultara com os seus esbirros.
- Ah! - disse de súbito o duque - eis
Francineta que está de volta.
E cravou os olhos nos de Nanon, que
então se viu obrigada a desviar os seus da estrada, para corresponder ao olhar do duque.
O coração de Nanon palpitava com
força no peito; não pudera ver mais que Francineta, quando quisera ver Canolles, para procurar na sua fisionomia algum gesto que lhe desse alento.
Subiram os degraus: o duque preparou
um sorriso ao mesmo tempo nobre e amigável; Nanon repeliu o rubor que lhe assomava às faces, e alentou-se para o combate.
Francineta bateu ligeiramente à porta. - Entre - disse o duque.
Nanon engatilhou a famosa frase com
que devia saudar Canolles. A porta abriu-se; Francineta estava só. Nanon olhou para a antecâmara, e não viu nela vivalma.
- Senhora - disse Francineta, com a
imperturbável serenidade de uma lacaia de comédia - o barão de Canolles não está já na estalagem Bezerro de Ouro.
O duque arregalou os olhos, e tornou-
se sombrio. Nanon levantou a cabeça, e respirou.
- Como!? - disse o duque - o barão de
Canolles já não está na estalagem do Bezerro de Ouro?...
- Engana-se, decerto, Francineta -
ajuntou Nanon.
- Senhora - insistiu Francineta - repito o
que o senhor Biscarros em pessoa me disse.
"O meu querido Canolles terá sem
dúvida adivinhado tudo - pensou Nanon.- É tão espirituoso e destro como bravo e formoso."
- Vá neste instante dizer ao senhor
Biscarros que venha falar comigo - ordenou o duque, com a má catadura dos dias aziagos.
- Oh! presumo - disse Nanon precipitadamente - que terá sabido que se encontra aqui, e terá receado incomodá-lo. Aquele pobre Canolles é tão tímido!...
- Ele, tímido?!... - estranhou o duque. -
Não é essa a reputação de que goza, segundo me parece...
- Não, senhora - disse Francineta - o
barão de Canolles partiu realmente.
- Mas, senhora - disse d’Épernon -
como pode ser que o barão tenha medo de mim, visto que Francineta só estava encarregada de o chamar da sua parte?... Então, disseste-lhe que eu estava aqui, Francineta? Responde!
- Não podia dizer-lhe, senhor duque,
visto que ele já lá não estava.
Apesar desta pronta resposta de
Francineta, que se apresentava com toda a rapidez da franqueza e da verdade, o duque pareceu novamente dominado por toda a sua desconfiança. Nanon, contente, não tinha já vontade de dizer palavra.
- Sempre tenho de voltar para chamar o senhor Biscarros?... - perguntou Francineta.
- Mais do que nunca - disse o duque,
com a sua voz grossa. - Mas talvez seja melhor que aqui fiques, pois a tua ama poderia precisar de ti. Eu mando lá Courtauvaux.
Francineta desapareceu. Passados cinco
minutos, Courtauvaux estava entre portas.
- Vá dizer ao estalajadeiro do Bezerro
de Ouro - disse o duque - que venha falar-me; e quando vier, que traga o que for preciso para um bom almoço. Dá-lhe estes dez luíses de ouro para que a comida seja boa. Vai sem mais demora.
Courtauvaux guardou o dinheiro na
aba do seu gibão, e logo saiu, para executar as ordens do amo.
Era um moço esperto, que sabia do seu
ofício, e que podia dar lições a todos os criados do seu tempo. Foi ter com Biscarros.disse-lhe:
- Persuadi o meu senhor que lhe
encomendasse um almoço fino; deu-me oito luíses; dois devo guardá-los, pois me pertencem como minha comissão; eis aqui, portanto, seis para si; vá sem perder tempo.
Não cabendo em si de contente,
Biscarros atou em torno dos rins um avental branco, meteu na algibeira os seus luíses, e, apertando a mão a Courtauvaux, pôs-se a caminho após o picador, que o conduziu às carreiras até à pequena casa.
VIII
DESTA vez, Nanon não tremia: a
certeza que lhe dera Francineta sossegara-a absolutamente; até sentia o mais vivo desejo de falar com Biscarros. Foi, portanto, introduzido logo que chegou. Biscarros entrou, com o avental elegantemente arregaçado e com o seu barrete na mão.
- Não é verdade - perguntou Nanon -
que ontem tinha em sua casa um jovem gentil-homem, o senhor barão de Canolles?...
- Que foi feito dele? - perguntou o
duque.
Biscarros, assaz inquieto, porque o
picador e os seis luíses de ouro lhe faziam pressentir alguma grande personagem debaixo daquele roupão, deu logo uma resposta evasiva:
- Saiba, senhor, que ele partiu. - Partiu? - disse o duque. - Partiu,
realmente?...
- Realmente.
- Para onde foi? - perguntou Nanon,
por sua vez.
- Isso não posso dizer, pois que na
verdade o ignoro, minha senhora.
- Saberá pelo menos a estrada que
tomou?...
- A estrada de Paris.
- E a que horas se pôs a caminho? -
perguntou o duque.
- Seria meia-noite.
- E sem nada deixar dito? - perguntou
Nanon, com timidez.
- Sem nada dizer; deixou somente uma
carta, recomendando que fosse entregue à menina Francineta.
- E porque não entregastes essa carta? -
disse o duque. - É esse o respeito que tem pela recomendação de um gentil-homem?...
- Eu entreguei-lha, senhor. - Francineta! - bradou o duque. Francineta, que estava escutando, não
fez mais do que dar um salto da antecâmara para o quarto.
- Porque não entregaste a tua ama a
carta que o senhor de Canolles deixara para ela? - perguntou o duque.
- Excelentíssimo senhor... - disse
rosnando a criada, sumamente espantada.
"Excelentíssimo senhor!... - disse
consigo Biscarros, consternado, e indo alapardar-se no ângulo mais retirado do quarto. - Excelentíssimo senhor!... é sem dúvida algum príncipe disfarçado!..."
- Eu não lhe pedi - apressou-se a dizer
Nanon, toda enfiada.
- Dê-ma - ordenou o duque,
estendendo a mão.
A pobre Francineta apresentou
vagarosamente a carta, pondo em sua ama uns olhos que queriam dizer:
"Bem vê que a culpa não é minha...
Aquele estúpido do Biscarros é que deitou tudo a perder..."
Um duplo relâmpago saiu dos olhos de
Nanon, e foi apunhalar Biscarros lá no seu ângulo.
O desgraçado alagava-se em suor, e de
boa vontade daria os seis luíses que tinha na algibeira para se achar nos seus fornos, com o cabo de uma caçarola na mão. Durante este tempo, o duque pegara na carta, abrira-a, e estava lendo. Durante a leitura, Nanon, em pé, mais pálida e mais fria do que uma estátua, não sentia já em si vida senão no coração.
- Que quer dizer tudo isto? - perguntou
o duque.
Nanon compreendeu, ao ouvir estas palavras, que a carta não a comprometia.
- Leia em voz alta, e talvez eu posso
explicar - disse ela.
"Querida Nanon..." - leu o duque. E, depois destas palavras, voltou-se
para a jovem senhora que, serenando-se cada vez mais, suportou o seu olhar com uma admirável audácia.
"Querida Nanon - continuou o duque -
aproveito-me da licença que lhe devo, e vou, para distrair-me, passar algum tempo a galopar na estrada de Paris. Até à vista; recomendo-lhe a minha fortuna."
- Ora! Aquele Canolles não pode deixar
de estar doido!...
- Doido?! Então porquê? - perguntou
Nanon.
- Pois é lá possível que se parta assim à
meia-noite, sem motivo algum! - perguntou o duque.
"Com efeito!..." - acrescentou Nanon,
falando consigo mesma.
- Vejamos! Dê-me a explicação desta partida.
- Ah! meu Deus! - disse Nanon, com
um sorriso encantador - nada é mais fácil, excelentíssimo senhor.
"Ela também o trata por excelentíssimo
senhor! - rosnou Biscarros. - Não há dúvida de que é algum príncipe!"
- Vejamos, pois, fale!
- Será possível que não adivinhe de que
se trata?...
- Decerto que nada adivinho. - Ora, pois: Canolles tem vinte e sete
anos... é jovem, formoso, leviano. A que loucura julga que ele dá preferência?... Ao amor. Terá, portanto, visto passar pela estalagem de Biscarros alguma formosa forasteira, e tê-la-á seguido...
- Amoroso, julga-o?... - estranhou o
duque, sorrindo-se com esta idéia muito natural: que se Canolles era amoroso para uma forasteira, qualquer que ela fosse, não estava enamorado de nada.
- Ah! amoroso, sem dúvida. Não é assim, senhor Biscarros?... - disse Nanon, encantada de ver que o duque adotava esta idéia.- Vejamos, responda com franqueza: não lhe parece que adivinhei?...
Biscarros compreendeu que era
chegado o momento de se aliar à jovem senhora, falando no sentido dela; e quando lhe assomava aos lábios um sorriso de quatro polegadas de largo, afirmou:
- Com efeito, parece-me que a senhora
não deixa de ter razão.
Nanon deu um passo para o
estalajadeiro, e disse, estremecendo a seu pesar:
- Não é assim?...
- Eu pelo menos assim o julgo, senhora
- respondeu Biscarros, com certo ar de sagacidade.
- Assim o julga?...
- Sim, senhora. Espere um instante...
Com efeito, faz-me pensar no caso...
- Ah! conte-nos isso, senhor Biscarros -
replicou Nanon, começando a deixar-se dominar pelos primeiros crivos do ciúme. - Vejamos: diga quantas forasteiras pernoitaram em sua casa esta noite.
- Sim, diga-o - disse d’Épernon,
estirando as pernas e encostando os cotovelos numa poltrona.
- Não dei pousada a nenhuma
forasteira - afirmou Biscarros.
Nanon respirou.
- A única pessoa que lá passou a noite -
continuou o estalajadeiro, sem reparar que cada uma das suas palavras fazia palpitar o coração de Nanon - foi um pequeno gentil-homem, louro, delicado, gordinho, que não comia, nem bebia, e que tinha medo de se pôr a caminho durante a noite. Um gentil-homem que tinha medo -continuou Biscarros, fazendo um leve movimento de cabeça cheio de sagacidade. - Bem me compreende, não é verdade?...
- Ah! ah! ah! - disse com soberba alegria
o duque, caindo francamente na esparrela.
Nanon respondeu a este sorriso com um certo ranger de dentes.
- Continue - disse ela. - Isso não deixa
de ter a sua graça! E sem dúvida o pequeno gentil-homem esperava pelo senhor de Canolles, não?
- Não, senhora; esperava para cear um
corpulento senhor de bigode, e até tratou com alguma dureza o senhor de Canolles, quando este quis cear com ele; mas este bravo gentil-homem não se agastou por tão pouca coisa. É um camarada atrevido e empreendedor, segundo parece. E com verdade o digo! Depois da partida do grande, que seguiu pela direita, correu atrás do pequeno, que tomara à esquerda.
E após esta discussão, que nenhum
esclarecimento dava, Biscarros, vendo pintada a satisfação no rosto do duque, entendeu que lhe era permitido dar gargalhadas tão estrondosas que fizeram tremer as vidraças.
O duque, absolutamente sossegado,
teria abraçado Biscarros, se este tivesse a mais pequena dose de fidalguia. Quanto a Nanon, pálida, e com um sorriso convulsivo e gelado nos lábios, escutava cada palavra que saía da boca do estalajadeiro com aquela fé devoradora que impele os ciumentos a beberem a largos tragos, e até às fezes, o veneno que os mata.
- Mas que lhe permite pensar - disse ela
- que o pequeno gentil-homem seja uma mulher, que o senhor de Canolles esteja enamorado dela, e que não siga a estrada real por capricho, para matar o tempo?
- O que me dá lugar a pensá-lo? -
respondeu Biscarros, que se empenhava em fazer penetrar a convicção no espírito dos seus ouvintes. - Sejam pacientes, vou dizê-lo.
- Sim, diga-mo, meu querido amigo -
replicou o duque. - Na realidade, dá-nos muito prazer.
- Vossa excelência tem demasiada
bondade! - disse Biscarros. - Explico-me já.
O duque aplicou o ouvido. Nanon
ouvia, apertando os punhos.
- Eu de nada desconfiava, e até tomara
desde logo o pequeno cavaleiro louro por um homem, quando encontrei o senhor de Canolles no meio da escada, tendo na mão esquerda o seu castiçal, e na direita uma luvinha, que examinava e cheirava apaixonadamente.
- Oh! oh! oh! - fez o duque, cuja
vontade de rir era cada vez maior, à medida que se iam desvanecendo os receios relativamente à sua pessoa.
- Uma luva?... - repetia Nanon, fazendo
diligência por se lembrar se não seria ela quem tivesse deixado tal penhor nas mãos do cavaleiro. - Uma luva do gênero desta?...
E apresentou ao estalajadeiro uma das
suas luvas.
- Não - negou Biscarros. - Uma luva de
homem.
- Uma luva de homem?!... O senhor de
Canolles a olhar para uma luva de homem, e a cheirá-la com paixão!... Está louco!
- Não estou, não, pois era uma luva do pequeno gentil-homem; do lindo cavaleiro loiro, que não bebia, nem comia, e que tinha medo de se pôr a caminho de noite; uma luvinha tão pequena, alguma, ter uma mão muito delicada.
Nanon deu um pequeno grito surdo,
como se houvesse sido ferida por um dardo invisível.
- Congratulo-me - disse ela, fazendo
um violento esforço - de que esteja bastante inteirado, senhor, e de que saiba tudo quanto desejava saber.
E com os lábios trêmulos, dentes
apertados e olhos fixos, apontava com o dedo a porta a Biscarros, que, observando no rosto da jovem senhora estes sinais de cólera, nada podia compreender em tudo isso, e estava de boca aberta e olhos arregalados.
"Se a ausência deste gentil-homem -
disse ele lá consigo - é um tão supremo infortúnio, o seu regresso seria uma grande ventura. Lisonjeemos este nobre senhor, com uma doce esperança, a fim de que tenha boa vontade de comer."
Em virtude deste raciocínio, Biscarros
revestiu-se do ar mais gracioso que lhe foi possível, e, lançando com um movimento cheio de graça a perna direita para diante, afirmou:
- O certo é que o cavaleiro partiu,
enfim, mas também pode voltar a todo o momento...
O duque sorriu-se, quando ouviu isto. - É verdade - disse - e porque não
voltaria ele? Quem sabe se não estará já de volta... Vá ver, senhor Biscarros, e traga-me a resposta.
- Mas, o almoço?... - interpôs Nanon
com vivacidade. - Cá por mim estou morrendo de fome.
- É muito justo - disse o duque - e