A Guerra das Mulheres

Alexandre Dumas · Capítulo 2 de 5 · parte 3/3

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A Guerra das Mulheres

Capítulo IV

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Courtauvaux tratará disso. Venha cá Courtauvaux. Vá à estalagem do senhor Biscarros, e veja se o senhor de Canolles terá voltado. Se não o encontrar, pergunte por ele, informe-se, procure-o naquelas imediações. Tenho todo o empenho em almoçar com esse gentil-homem; parta sem mais detença.

Courtauvaux partiu. E Biscarros, que

observava o silêncio e o enleio das duas personagens, deu mostras de querer emitir um novo expediente.

- Não percebe - atalhou Francineta -

que a senhora lhe faz sinal para que se retire?...

- Mais um momento! - exclamou o

duque. - Que indiscrição! Dir-se-ia que não sabe o que faz, minha cara Nanon; e então os assados!... Sucede-me o mesmo que a si! Estou morrendo de fome. Venha, senhor Biscarros; junte estes seis luíses aos outros: é para pagar a história que acaba de contar-nos.

Após isto, deu ordem ao historiador

para que cedesse o lugar ao cozinheiro: e, apressemo-nos a dizê-lo, o senhor Biscarros não brilhou na segunda ocupação menos que na primeira.

Contudo, Nanon tinha feito as suas reflexões e abrangido de um só relance toda a situação em que a colocava a suspeita de Biscarros: em primeiro lugar, seria exata, essa suposição? E, afinal, se o fosse, Canolles não seria desculpável? Com efeito, que cruel logro não era para um bravo gentil-homem como ele, ver que não se realizava aquele encontro ajustado de antemão; que vexame, para ele, ver-se assim espiado e perseguido pelo duque d’Épernon, e reduzido à necessidade que lhe era imposta de assistir, por assim dizer, ao triunfo do rival! Era tal a paixão de Nanon, que, atribuindo esta fuga a um exagerado ciúme, não só desculpou, mas até lamentou Canolles, chegando a ponto de quase se aplaudir por ser suficientemente amada para provocar em Canolles esta pequena vingança. Mas também, primeiro do que tudo, era preciso deter os progressos desse novo amor apenas nascido.

Aqui, uma reflexão terrível deslizou

pelo espírito de Nanon, produzindo nela o efeito de um raio que lhe caísse aos pés.

"Se aquele encontro de Canolles e do

pequeno gentil-homem tivesse sido premeditado!..."

Mas isso era uma loucura da parte dela,

visto que o pequeno gentil-homem esperava um cavaleiro de bigodes; visto que tratara Canolles com dureza; visto que o próprio Canolles não reconheceu talvez o sexo do desconhecido, senão quando, por acaso, encontrara uma das suas luvas.

Não importa: era preciso contrariar

Canolles.

Então, armando-se de toda a sua

energia, voltou para junto do duque, que acabava de despedir Biscarros, carregado de cumprimentos e de recomendações.

- Que desgraça, senhor - disse ela - ver-

se aquele louco do Canolles privado, pelo seu estouvamento, de uma honra como a que se dignava conceder-lhe! Se estivesse presente, a sua sorte futura estava assegurada. Com a sua ausência, talvez que perca quanto podia esperar.

- Mas - disse o duque - se tornarmos a

encontrá-lo...

- Oh! tal não acontecerá - disse Nanon. -

Se o negócio é de mulher, decerto não terá voltado.

- A isso não posso dar remédio, minha

querida - respondeu o duque. - A juventude é a idade dos prazeres; é jovem, e diverte-se.

- Mas eu - disse Nanon - que sou mais

razoável do que ele, sou de opinião de que se lhes deveria turbar um tanto aquela alegria intempestiva.

- Ah! irmã ralhadora... - exclamou o

duque.

- Ele não levaria isso a bem, no

primeiro momento - continuou Nanon - mas decerto ficar-me-ia mais tarde agradecido.

- Ora bem, vejamos: concebeu algum

plano? Nada mais desejo, caso tenha algum, do que adotá-lo eu mesmo.

- Está então decidido a isso? - Sim, senhora; explique-se. - Não quer mandá-lo à rainha, para lhe levar a toda a pressa uma notícia?

- Sem dúvida; mas se ele não tiver

voltado?...

- Ordene que corram atrás dele; e visto

que segue a estrada de Paris, em todo o caso será outro tanto caminho ganho.

- Pela minha fé! Tem razão. - Deixe isso por minha conta, e Canolles

receberá esta ordem hoje à noite, ou amanhã, o mais tardar. Eu lho afianço.

- Mas quem mandará?

- Precisa de Courtauvaux? - Nenhuma necessidade tenho dele. - Ponha-o à minha disposição, e eu o

enviarei com as minhas instruções.

- Oh! que boa cabeça de diplomata!

Muitos progressos fará, Nanon.

- Fique eu eternamente na escola de um

tão bom mestre - disse Nanon - é tudo quanto desejo.

E lançou o seu braço ao pescoço do

velho duque, que estremeceu de alegria.

-Que deliciosa partida pregaremos ao nosso namorador! - disse ela.

- Há-de ser coisa digna de se contar, minha querida.

- Na verdade, bem quereria correr atrás

dele, para ver a cara que fará ao mensageiro...

- Desgraçadamente... ou antes:

felizmente, não é coisa possível, e tem de ficar a meu lado.

- Sim, mas não percamos tempo.

Vamos, senhor duque, escreva a sua ordem, e coloque Courtauvaux à minha disposição.

O duque pegou na pena e escreveu

num pedaço de papel:

Bordéus, não.

E assinou-o. Depois, no invólucro deste

lacônico despacho, escreveu o seguinte endereço:

A Sua Majestade a Rainha Ana de

Áustria, regente da França.

Nanon, da sua parte, escreveu duas

linhas, que juntou ao papel, depois de as haver mostrado ao duque:

Meu querido barão:

Como muito bem vê, o despacho

incluso é para Sua Majestade a Rainha. Fica responsável pela sua entrega. Leve-o sem a mínima demora; trata-se da salvação do reino.

Sua boa irmã, Nanon.

Ainda mal tinha acabado este bilhete,

quando se ouviu no fundo da escada um ruído de passos, e Courtauvaux, subindo apressadamente, abriu a porta, com o risonho semblante do homem que traz uma notícia que sabe ser esperada com impaciência.

- Aqui está o senhor de Canolles, que

encontrei a cem passos daqui - disse o picador.

O duque arrancou uma exclamação de

benevolência e surpresa. Nanon engoliu em seco e correu para a porta, dizendo em voz baixa:

"Está pois escrito que não o evitarei!" Neste momento, uma nova

personagem se apresentou à porta, vestido com magnificência, de chapéu na mão, e sorrindo-se com o modo mais gracioso.

Um raio que tivesse caído aos pés de

Nanon não lhe teria decerto causado maior sobressalto do que esta inesperada aparição, nem lhe teria provavelmente arrancado uma exclamação mais dolorosa do que aquela que a seu pesar lhe escapou da boca.

- Ele! - exclamou Nanon.

- Sem dúvida minha boa irmãzinha -

respondeu uma voz muito meiga.- Mas perdoe - continuou o proprietário desta voz, dando com os olhos no duque d’Épernon - talvez que vos venha causar incômodo...

E fez a mais profunda cortesia ao

governador da Guiena, que o recebeu com um gesto benévolo.

- Cauvignac... - disse Nanon, mas em

voz tão baixa que este nome antes foi pronunciado pelo coração do que pelos lábios.

- Seja muito bem-vindo, senhor de

Canolles - disse o duque, dando mostras de grande satisfação. - Sua irmã e eu não fizemos mais que falar de si desde ontem à noite, e desde ontem à noite muito o desejamos.

- Ah! desejavam-me, na verdade?. -

disse Cauvignac, fixando em Nanon os olhos onde transluzia uma indefinida expressão de ironia e dúvida.

- Sim - corroborou Nanon. - O senhor

duque teve a bondade de desejar que lhe fosse apresentado.

- O receio de ser importuno, senhor -

disse Cauvignac, inclinando-se diante do duque - é que unicamente me impediu de reclamar mais cedo essa honra.

- Com efeito, senhor barão - volveu o

duque - tenho admirado a sua delicadeza; mas não posso deixar de estranhá-la.

- A mim, senhor!? Estranhar a minha

delicadeza?!... Ah! ah!...

- Sim, porque se a sua boa irmã não

tivesse tomado a peito os seus assuntos...

- Ah! - disse Cauvignac, lançando um

olhar de eloqüente repreensão a Nanon - Ah! minha boa irmã tomou a peito os assuntos., do senhor?...

- Seu irmão! - disse com viveza Nanon.-

Que coisa pode haver mais natural?...

- E ainda hoje mesmo, a que devo eu o

prazer de o ver?

- Sim - disse Cauvignac - a que deve,

senhor, o prazer de ver-me?

- Ao acaso! Ao simples acaso, que

contribuiu para que regressasse.

"Ah! - pensou Cauvignac - parece que

eu tinha partido..."

- Sim, havia partido, meu irmão, sem

disso me prevenir senão com duas palavras, que nada mais fizeram do que agravar a minha inquietação.

- Que quer, minha querida Nanon? É

preciso perdoar alguma coisa aos enamorados - disse o duque, sorrindo.

"Oh! oh! isto vai-se complicando muito

- murmurou Cauvignac consigo. - Estou enamorado, segundo parece..."

- Vamos - disse Nanon - confesse que o está.

- Não o negarei - replicou Cauvignac,

com um sorriso triunfante, lidando por alcançar de todos os olhos algum sintoma da verdade, com o socorro do qual pudesse forjar uma alentada mentira.

- Sim, sim - disse o duque - mas

almocemos, se for do seu agrado. Contar-nos-á os seus amores, senhor barão, enquanto almoçarmos. Francineta, um talher para o senhor de Canolles. Creio, capitão, que não terá almoçado...

- Não, senhor, e até confessarei que o

fresco da manhã me deu boa vontade de comer.

- Diga que o da noite, travesso mancebo

- emendou o duque - visto que desde ontem anda correndo pelas estradas.

"Pela minha fé! Que desta vez -

ruminou em voz baixa Cauvignac - o cunhado adivinhou. Seja assim, embora eu confesse, o ar da noite..."

- Pois então - disse o duque, dando o braço a Nanon e passando para a sala de jantar, seguido por Cauvignac - aí tem, pelo menos assim o espero, com que satisfazer o seu apetite, por muito violento que seja.

Com efeito, Biscarros havia-se

esmerado; as iguarias não eram numerosas, mas deliciosas e suculentas. O vinho branco de Guiena e o vinho tinto de Borgonha caíam da garrafa como pérolas de ouro e cascatas de rubis.

Cauvignac não comia; devorava. - Este rapaz tem bom apetite -

constatou o duque. - Mas a senhora, Nanon...

- Passou-me a vontade.

- Querida irmã! - exclamou Cauvignac.-

Quando penso que foi o prazer de me ver que lhe tirou o apetite, não posso, na realidade, deixar de repreendê-la por tanto me amar.

- Nanon, esta asa de frango?... - incitou

o duque.

- É para meu irmão, senhor, para meu

irmão - disse a jovem senhora, que via despejar-se com medonha rapidez o prato de Cauvignac, e receava vê-lo renovar a farsa depois da desaparição dos víveres.

Cauvignac adiantou o seu prato com

um sorriso de sumo agradecimento. O duque pôs a asa no seu prato, e Cauvignac colocou-o diante de si.

- Vamos lá: que nos conta de bom,

Canolles? - perguntou o duque, com uma familiaridade que Cauvignac tomou por muito bom agouro. - Está entendido que não lhe falo de amores.

- Antes pelo contrário, fale deles,

excelentíssimo senhor; nada de constrangimento - disse o mancebo, a quem os vinhos de Bordéus e Borgonha, combinados em doses sucessivas e iguais, começavam a desaferrolhar a língua e que, tomando um nome emprestado, não receava ser desmascarado por quem conhecia a fraude.

- Oh! senhor, ele é muito galhofeiro -

disse Nanon.

- Então podemos convidá-lo a dizer alguma coisa acerca do pequeno gentil-homem?... - perguntou o duque.

- Sim - prosseguiu Nanon - do pequeno

gentil-homem que encontrou ontem de tarde.

- Ah! sim, no caminho que eu seguia -

aventurou Cauvignac.

- E depois na estalagem de Biscarros -

ajuntou o duque.

- E depois na estalagem de Biscarros! -

replicou Cauvignac. - Não há dúvida de que assim foi!

- Então, encontrou-o, realmente?... -

perguntou Nanon.

- Aquele pequeno gentil-homem?... - Sim.

- Como é ele? Vejamos! Diga-me com

franqueza.

- Pela minha fé - continuou Cauvignac -

que era um mocinho encantador: louro, delicado e elegante, viajando com uma espécie de escudeiro.

- É isso mesmo - disse Nanon,

mordendo os lábios.

- E está namorado dele?

- De quem?

- Do pequeno gentil-homem louro,

delicado e elegante...

- Ora, essa não é má! - bradou

Cauvignac. - Que quer dizer! ?

- Conserva sempre a luvinha sobre o

coração?... - continuou o duque, rindo sorrateiramente.

- A luvinha?...

- Sim, aquela que ontem à noite cheirava e beijava tão apaixonadamente...

Cauvignac não sabia já às quantas

andava.

- Aquela, enfim, que lhe forneceu a

suspeita do ardil, da me-ta-mor-fo-se - continuou o duque, carregando a cada sílaba.

Cauvignac tudo compreendeu ao ouvir

esta única palavra.

- Ah!? - exclamou ele - o gentil-homem

era então uma mulher?... ora, pois, dou-lhes a minha palavra de honra que tive algumas desconfianças.

"Já não resta a mínima dúvida" -

murmurou Nanon.

- Dê-me pois de beber, minha mana -

disse Cauvignac. - Não sei quem despejou a garrafa que está do meu lado, mas dentro dela já nada há.

- Vamos, vamos... - sentenciou o duque

- a coisa ainda é remediável, visto que o seu amor não o impede de beber, nem de comer; e disso não resultará dano algum para os negócios do rei.

- Dano algum para os negócios do

rei?!... - exclamou Cauvignac.- Isso nunca! Os negócios do rei estão primeiro do que tudo. Os negócios do rei, isso é coisa sagrada! À saúde de Sua Majestade, excelentíssimo senhor.

- Então, senhor barão, podemos confiar

no seu zelo?

- No meu zelo em servir o rei?... - Sim.

- Muito bem, creiam que podem confiar em mim. Eu, que me deixaria fazer em postas por amor a ele, e até...

- E assim é de esperar - disse Nanon,

receando que, no entusiasmo que lhe davam os vinhos de Bordéus e de Borgonha, Cauvignac se esquecesse da personagem cujo papel representava para tornar a entrar na sua própria individualidade - e assim é de esperar: não é um capitão ao serviço de Sua Majestade, graças às bondades do senhor duque?...

- Jamais disso me esquecerei -

assegurou Cauvignac, com uma comoção lacrimosa e pondo uma das mãos sobre o coração.

- Ainda mais faremos, barão, sim, ainda

mais faremos para o futuro - disse o duque.

- Obrigado, senhor, muito obrigado! - E nós já começamos a tratar disso. - Sério?...

- Sim; é demasiado tímido, meu jovem

amigo - continuou o duque d’Épernon. - Quando precisar de proteções, deverá recorrer a mim; agora, que é inútil usar de rodeios; agora, que nenhuma necessidade já tem de se ocultar, agora, que estou ciente de que é irmão de Nanon...

- Senhor - exclamou Cauvignac - de ora

em diante, dirigir-me-ei a si diretamente!

- Promete-mo?...

- A isso me obrigo.

- Fará muito bem. Entretanto, sua irmã

dar-lhe-á a saber qual é o negócio de que se trata: ela entregar-lhe-á uma carta da minha parte. Talvez que o seu futuro dependa da mensagem que lhe confio, em virtude da sua recomendação. Siga os conselhos de sua irmã, mancebo; siga os seus conselhos. É uma boa cabeça, um espírito distinto, um coração generoso! Ame sua irmã, barão, e fique certo do meu afeto.

- Senhor - exclamou Cauvignac, com

veemência - minha irmã sabe até que ponto a amo, e que nada desejo tanto como vê-la feliz, poderosa e... rica.

- Esse ardor agrada-me - disse o duque.- Fique então na companhia de Nanon, enquanto eu mesmo vou ocupar-me de um certo tratante. Mas, a propósito, barão - continuou o duque - talvez me possa dar algumas informações acerca daquele bandido...

- De boa vontade o farei - disse

Cauvignac. - Basta que eu saiba quem é o bandido de que vossa excelência quer falar; há-os em grande número e de toda a espécie, neste desgraçado tempo.

- Tem razão, mas este é um dos mais

impudentes que eu tenho encontrado.

- Palavra!? - disse Cauvignac. - Aquele miserável, em troca da carta

que sua irmã lhe escrevera ontem, e de que se apossou por uma violência infame, extorquiu-me um papel assinado em branco.

- Uma assinatura em branco é negócio

muito sério! Mas que interesse tinha - perguntou Cauvignac, com ar de ingenuidade - em possuir uma carta de irmã para irmão?

- Esquece-se que eu ignorava um tal

parentesco?...

- Ah! é verdade.

- E de que tinha a loucura (perdoa-mo,

não é assim, Nanon?) - continuou o duque estendendo a mão à jovem senhora - de ter ciúmes de si.

- Na realidade?! Ciúmes de mim!... Ah!

senhor, nenhuma razão tinha para isso.

- Desejava, pois, perguntar-lhe se tinha

alguma suspeita de quem seria o sujeito que representou para mim o papel de delator.

- Nenhuma idéia, com efeito... Mas bem

compreende, senhor, que tais ações não ficam impunes, e algum dia saberá quem a cometeu.

- Sim, por certo, algum dia o saberei -

disse o duque - e para isso tenho tomado as minhas precauções: mas preferia sabê-lo já.

- Ah! - replicou Cauvignac, apurando o

ouvido. - Tomou as suas precauções, excelentíssimo senhor...

- Sim, sim. E o tal tratante muito feliz será se a minha assinatura em branco o não fizer enforcar brevemente.

- Oh! - fez Cauvignac.- E como poderá

distinguir aquela assinatura em branco das outras ordens que dá?

- Àquela eu pus-lhe um sinal. - Um sinal?...

- Sim; invisível para todos, mas que eu

poderei reconhecer mediante um processo químico.

- Ora essa! - disse Cauvignac- o que fez,

excelentíssimo senhor, é uma prova de grande engenho; mas é mister tomar cuidado de que o poltrão não tenha alguma suspeita do laço.

- Oh! por isso não é de recear; quem

quer que lho diga?...

- Ah! é verdade - replicou Cauvignac. -

Não será Nanon. Não serei eu...

- Nem eu - completou o duque. - Nem o senhor! Portanto, tem razão,

excelentíssimo senhor, não poderá deixar de saber, algum dia, quem é aquele homem, e então...

- E então, como estarei desobrigado da

palavra que lhe dei, visto que em troca da assinatura em branco lhe terão dado o que desejava, mandá-lo-ei enforcar.

- Amém! - finalizou Cauvignac. - E agora - continuou o duque - visto

que me não pode dar informação alguma relativamente àquele patife...

- Não, senhor; realmente nada lhe

posso dizer a seu respeito.

- Ora, pois, como ia dizendo, deixo-o

com sua irmã. Nanon - continuou o duque - dê a este mancebo as informações precisas, e sobretudo que não perca tempo!

- Pode ficar descansado, senhor. - Assim, cá vos deixo a ambos. E o duque fez com a mão uma

saudação benévola a Nanon, um gesto amigável ao irmão, e desceu a escada, prometendo que provavelmente voltaria antes que anoitecesse.

Nanon acompanhou o duque até ao patamar.

"Em boa estava eu metido! - pensou

Cauvignac. - Fez muito bem aquele digno senhor em prevernir-me. Vamos, vamos, não é tão tolo como parece! Mas que farei eu da assinatura em branco?... Com todos os diabos! farei o que se faz com uma letra de câmbio: negociá-la-ei."

- Agora, senhor - disse Nanon,

tornando a entrar, e fechando a porta - como acaba de dizer o senhor duque d’Épemon, eis-nos aqui sós.

- Sim, minha querida irmãzinha -

respondeu Cauvignac - eis-nos aqui sós. Eu vim unicamente para falar consigo; mas a fim de bem conversar é preciso estar sentado. Sente-se, pois, rogo-lhe.

E Cauvignac chegou uma cadeira para

junto de si, e fez com a mão sinal a Nanon de que esta cadeira era destinada para ela.

Nanon sentou-se, com um franzimento

de sobrancelhas que nada anunciava de bom.

- Em primeiro lugar - disse Nanon - porque não está onde devia estar?

- Ah! minha querida irmãzinha, essa

pergunta, da sua parte, não me lisonjeia muito. Se me achasse onde deveria estar, não estaria aqui, e por conseqüência, não teria o prazer de me ver.

- Não havia desejado receber as Ordens

sacras?

- Eu não, senhora; diga que algumas

pessoas que por mim se interessam (a senhora mesmo, em particular) tiveram vontade que eu as recebesse; mas quanto à minha pessoa, não tive uma vocação suficientemente intensa para a Igreja.

- Contudo, a sua educação foi toda

religiosa...

- Sim, minha querida, e julgo ter-me

aproveitado dela santamente.

- Nada de sacrilégios, senhor; nada de

zombarias quando se trata de coisas santas.

- Eu não estou zombando, minha

querida manazinha. Não faço mais do que narrar. Escute: enviou-me para o Convento dos Meninos de Angolana, a fim de ali fazer os meus estudos...

- E então?

- E então... eu fi-los. Sei grego como

Homero, latim como Cícero, e teologia como João Huss. Portanto, não tendo já nada que aprender no convento daqueles dignos meninos, passei dali, sempre em cumprimento das suas ordens, para o dos Carmelitas de Ruão, a fim de ali professar.

- Esquece-se de dizer que eu tinha

prometido estabelecer-lhe uma renda anual de mil francos, e que cumpri a minha promessa. Mil francos para um carmelita, era, no meu entender, mais do que suficiente.

- Não o nego, querida irmã; mas, sob o

pretexto de que eu não era ainda carmelita, o convento é que recebeu constantemente essa renda.

- E quando assim fosse? Não fez o

senhor, consagrando-se à Igreja, voto de pobreza?...

- Minha irmã, se eu fiz voto de pobreza, juro-lhe que cumpri exatamente este voto: ninguém tem sido mais pobre do que eu.

- Mas, como saiu do convento? - Ah! eu conto. Como Adão saiu do

Paraíso; a ciência é que me deitou a perder, minha irmã. Era demasiado sábio.

- Como é que pode ser demasiado

sábio?

- Sim; veja que entre esses carmelitas

que bem longe estão de serem uns Erasmos e uns Descartes, eu passava por um prodígio... de ciência, bem entendido; de onde resultou, quando o senhor duque de Longueville foi a Ruão solicitar que esta cidade se declarasse a favor do Parlamento, de onde resultou, digo, enviarem-me àquele mesmo senhor de Longueville, para o cumprimentar, o que fiz em termos tão elegantes e tão seletos, que não só deu mostras de ficar muito satisfeito com a minha facúndia, mas até me perguntou se eu queria ser seu secretário. Isto aconteceu justamente no instante em que ia pronunciar os meus votos.

- Sim, disso estou bem lembrada; e até,

sob pretexto de fazer as suas despedidas do mundo, pediu-me mil francos, que eu lhe mandei por mão própria.

- E dou-lhe a minha palavra de honra

que foram os únicos que recebi.

- Mas devia renunciar ao mundo. - Sim, senhora, essa era a minha

intenção. Mas tal não foi a da Providência, que sem a mínima dúvida lá tem os seus desígnios a meu respeito; ela dispôs de mim de outro modo, pela mão do senhor de Longueville. Não quis que eu fosse frade. Conformei-me, pois, à vontade daquela boa Providência, e, cumpre-me confessá-lo, não me arrependo de assim ter feito.

- Então já não está na religião? - Não, querida irmã; ao menos por ora.

Dizer-lhe que nela não tornarei algum dia a entrar, é o que me não atreveria a fazer, porquanto qual é o homem que pode na véspera dizer o que fará no dia seguinte?... O senhor de Rance não acaba de fundar a Ordem de Cartuxa?... Quem sabe se não farei como o senhor de Rance, e se não inventarei alguma ordem nova. Mas neste momento estou aplicado à guerra, como bem vê, e por algum tempo, o que me tornou profano e impuro; na primeira ocasião que se me ofereça, purificar-me-ei.

- O senhor, homem de guerra?! - volveu

Nanon, encolhendo os ombros depreciativamente.

- E porque não?... Não lhe direi que sou

um Dunois, um Dugues-clin, um Bayard, um cavaleiro sem medo e sem mancha. Não, não chega o meu orgulho a ponto de dizer que nada tenho de que possa arguir-me, e não perguntarei, como o ilustre cabo de partidários Sforza, que é isso de medo. Sou um homem, e, como diz Plauto: "Homo sum, et nihil humanum a me alienum puto"; o que quer dizer: "Eu sou homem, e nada do que é humano me é estranho." Tenho, pois, tanto medo como a todo o homem é permitido que o tenha; o que não obsta a que seja bravo quando a ocasião se oferece. Sei manejar assaz agradavelmente, quando a isso me vejo obrigado, a espada e a pistola; mas a minha verdadeira inclinação, a minha vocação decidida, é para a diplomacia, como bem vê. Se não estou muito enganado, minha querida Nanon, chegarei a ser um grande político, e a política é uma bela carreira; para isso, basta olhar para Mazarino, que, se não for enforcado, irá longe. Ora pois, eu sou como Mazarino; e por isso, um dos meus medos, o maior de todos, é que me enforquem. É uma felicidade para mim que aqui esteja, querida Nanon, o que me dá muita confiança e alento.

- Portanto, é homem de guerra?... - E homem de corte, em caso de

necessidade. Ah! a minha estada junto do senhor de Longueville foi-me muito útil.

- E que aprendeu, a seu lado? - O que se aprende ao lado dos

príncipes: a guerrear, a intrigar, e a atraiçoar.

- E onde o levou isso?

- À mais alta posição.

- Que perdeu...

- E então? Isso que tem?... O senhor de

Conde também perdeu a sua. Ninguém tem os acontecimentos na mão. Querida irmã! Tal como me vê, governei Paris; eu mesmo!

- O senhor?!

- Sim, eu!

- Quanto tempo?

- Uma hora e três quartos, contados

pelo relógio.

- Governou Paris?

- Como se fora um imperador. - E como pôde tal suceder? - De uma maneira muito simples. Não

ignora que o coadjutor, o senhor de Gondy, o abade de Gondy...

- Muito bem.

- Era senhor absoluto da cidade. Ora,

pois, naquele momento, eu estava com o senhor duque de Elboeuf. É um príncipe loronês, e nenhuma vergonha pode haver em estar com o senhor de Elboeuf. Ora, naquele momento, o senhor de Elboeuf era inimigo do coadjutor. Suscitei, pois, um motim a favor do senhor de Elboeuf, durante o qual lancei mão...

- De quem? Do coadjutor? - Nada disso, não saberia que fazer

dele, e ver-me-ia muito embaraçado. Lancei mão da sua amante, da senhora de Chevreuse.

- Mas isso é uma coisa horrorosa!... -

exclamou Nanon.

- Não é coisa horrorosa que um padre

tenha amante?... Foi justamente o que eu disse comigo. Portanto, o meu intento era apoderar-me dela e levá-la para tão longe que jamais ele a tornasse a ver. Mandei-o prevenir de qual era a minha intenção; mas aquele diabo de homem tem umas razões a que não é possível resistir: mandou-me dez mil francos.

- Pobre mulher! Ver-se assim posta em

leilão!...

- Como assim!? Deveria, pelo contrário,

dar-se por muito satisfeita; provou-lhe o quanto a amava o senhor de Gondy! Outro qualquer talvez não mostrasse tanto zelo em garantir-lhe a liberdade.

- Então, deve estar rico...

- Eu? - admirou-se Cauvignac. - Sem dúvida, por meio dessas

surripiaduras.

- Não me fale mais em tal; saiba,

Nanon, que sou desgraçado! A circunspeta criada da senhora de Chevreuse, a quem ninguém tratara de resgatar, e que, por conseqüência, ficara comigo, roubou-me aquele dinheiro.

- Quanto mais não seja, resta-lhe, assim

o espero, a amizade daqueles a quem serviu ofendendo o coadjutor...

- Ah! Nanon, é fácil ver que não

conhece os príncipes! O senhor de Elboeuf reconciliou-se com o coadjutor. No tratado que fizeram entre si, fui eu o sacrificado. Vejo-me, portanto, obrigado a pôr-me ao serviço de Mazarino; mas este é um bigorrilha, e como não proporcionava a recompensa pelo serviço, aceitei a oferta que me foi feita, de tentar o novo motim em honra do conselheiro Broussel, e que tinha por objetivo dar cabo do senhor chanceler Séguier. Mas a minha gente, pouco destra, não o fez completamente. No meio do motim corri o maior perigo que jamais me ameaçara. O senhor de La Milleraye disparou contra mim um tiro de pistola, quase à queima-roupa. Quis a fortuna que nesse momento eu me abaixasse; a bala passou por cima da cabeça, e o ilustre marechal apenas matou uma velha.

- Que mão-cheia de horrores! -

exclamou Nanon.

- Mas não querida irmã: são as

conseqüências necessárias da guerra civil.

- Agora compreendo que um homem

capaz de tais coisas se tenha atrevido a fazer o que ontem fez.

- Então, o que é que eu fiz? - perguntou

Cauvignac, com o ar mais inocente do mundo. - A que me atrevi eu?...

- Atreveu-se a zombar, na sua própria

presença, de uma personalidade tão considerada como o senhor d’Épernon! Mas o que não compreendo, o que nunca teria imaginado, confesso, é que um irmão, cumulado dos meus benefícios, tenha friamente concebido o projeto de arruinar a irmã.

- Arruinar minha irmã?... Eu?! -

admirou-se Cauvignac.

- Sim, o senhor! -replicou Nanon. - Não

me foi preciso esperar pela narrativa que acaba de fazer, e que prova ser capaz de tudo, para reconhecer a letra deste bilhete. Veja! Negará que esta carta anônima seja escrita por si?...

E Nanon pôs debaixo dos olhos do

irmão a carta de delação que o duque lhe entregara na véspera à noite. Cauvignac leu-a sem dar mostras de turbação.

- Ora, pois - disse ele - que tem contra

esta carta? Acaso estará mal concebida?... Pena sentiria, se assim fosse... isso provaria que é uma iletrada.

- Não se trata da redação, senhor; do

conteúdo é que se trata. Foi ou não o senhor quem a escreveu?

- Nenhuma dúvida há de que fui eu. Se

quisesse negar o fato, teria disfarçado a letra; mas isso era inútil. Nunca tive intenção de me ocultar a seus olhos; eu até desejava que soubesse que a carta era obra minha.

- Oh! - admirou-se Nanon, com um

gesto de horror. - Confessa!?

- É uma réstia de humildade, querida

irmã; não posso deixar de dizer-lho: eu fui impelido por uma espécie de vingança.

- De vingança?...

- Sim, muito natural.

- Vingança para comigo, desgraçado!?

Mas, pondera o que diz! Que mal lhe fiz eu para que a idéia de se vingar de mim se apresente ao seu espírito!?

- O que me fez?... Ah! Nanon, ponha-se

no meu lugar. Saí de Paris, porque ali tinha muitos inimigos; desgraça esta que acompanha todos os homens políticos. Volto para si, imploro-lhe. Lembra-se disso?... Recebeu três cartas. Não dirá que não reconheceu a minha letra, que era absolutamente a mesma do bilhete anônimo. Além disso, as cartas estavam assinadas. Escrevi-lhe três, a pedir uns miseráveis mil francos. Mil francos, a si, que possui milhões! Era uma miséria. Ora, pois, minha irmã repele-me. Apresento-me em casa de minha irmã, e minha irmã não me quer receber. Era muito natural que me informasse, como eu o fiz. Talvez que ela ande na penúria - disse eu comigo. - É chegado o momento de lhe provar que os seus favores não caíram em terra ingrata; talvez que já não seja senhora de si: neste caso, é digna de desculpa. Como pode perceber, o meu coração tentava desculpá-la. E então soube que minha irmã estava livre, feliz, rica, riquíssima! E que um barão de Canolles, um estranho, usurpa os meus privilégios e se faz proteger em meu lugar. Então, os ciúmes transtornaram-me a cabeça.

- Diga antes que a cobiça. Vende-me ao

senhor d’Épernon, do mesmo modo que vende a senhora de Chervreuse ao coadjutor. Que lhe importa, pergunto, que eu tivesse relações com o senhor barão de Canolles?...

- A mim?... Nada; nem me passaria pela

idéia inquietar-me com isso, se tivesse continuado a ser diferente comigo.

- Não sabe que se eu dissesse uma

única palavra ao senhor duque d’Épernon, se lhe fizesse uma confissão franca, ficaria perdido?...

- Com toda a certeza.

- O senhor mesmo bem o ouviu ainda

agora, e da sua própria boca: qual é a sorte que destina àquele que lhe arrancou a assinatura em branco.

- Não me fale disso; estremeci até à

medula dos ossos; foi-me preciso todo o poder que tenho sobre mim mesmo, para não me trair.

- E então não treme, o senhor, que todavia confessa saber o que é medo?!...

- Não, senhora, porque a tal confissão,

feita com franqueza, provaria que o senhor de Canolles não é seu irmão; porque os termos da sua mensagem, se dirigidas a um estranho, oferecem um significado muito desagradável. Vale mais, creia, ter feito uma confissão capciosa, como a que acaba de fazer, ingrata (não me atrevo a chamar-lhe pois conheço-a demasiado para lhe dar tal nome); mas pondere, pois, quantas vantagens, por mim antevistas, resultam desta pequena altercação preparada pelos meus cuidados. Em primeiro lugar, estava sumamente embaraçada e receara imenso ver chegar o senhor de Canolles, que, não estando prevenido, teria um horrível papel no meio do seu romancezinho de família. A minha presença, pelo contrário, tudo salvou. Seu irmão não é já um mistério. O senhor d’Épernon adotou-o, e até com muita bizarria, cumpre-me dizê-lo. Agora, o irmão não precisa ocultar-se, pois é da casa; daí resulta a facilidade da correspondência, e o poder encontrar-se consigo, tanto exterior, como interiormente - tendo, todavia, cuidado, para que o irmão de cabelos e olhos pretos não tenha a indiscrição de vir olhar cara a cara o senhor duque d’Épernon. Um capote assemelha-se enormemente a outro capote; e então, quando o senhor d’Épernon vir sair de sua casa um capote, quem lhe irá dizer se é ou não o capote do irmão? A única coisa que fiz, ao prestar-lhe este serviço, foi desbatizar-me: chamo-me agora Canolles, o que não deixa de ser molesto. Deverá testemunhar-me agradecimento por este sacrifício que por si faço.

A este fluxo redundante, resultado de

uma incrível ousadia, Nanon, estupefata, não sabia que razões opusesse; e por isso Cauvignac, aproveitando-se desta vitória alcançada por assalto, continuou:

- E além disso, querida irmã, já que

depois de uma longa ausência, nos vemos reunidos; já que, depois de tantos contratempos, tornou a achar um verdadeiro irmão - confesse que doravante poderá dormir descansada, graças ao escudo com que o amor a cobrirá; viverá tão sossegadamente como se toda a Guiena a adorasse, o que não acontece, como muito bem o sabe; mas que remédio terá ela, senão passar pelo que nós quisermos. Com efeito, não me arredarei do limiar da sua porta, o senhor d’Épernon far-me-á coronel, e em vez de seis homens terei dois mil às minhas ordens. Com estes dois mil homens renovo os doze trabalhos de Hércules; nomeiam-me duque e par; a senhora d’Épernon morre; o senhor d’Épernon casa consigo...

- Antes de tudo isso, duas coisas -

atalhou Nanon, em tom um tanto desabrido.

- Quais, querida irmã? Fale, estou

pronto a ouvi-la.

- Em primeiro lugar, restituirá a

assinatura em branco ao duque, pois se o não fizer, está perdido. Bem ouviu a sentença da sua própria boca. Depois, sairá daqui no mesmo instante, pois de outro modo eu ficaria perdida, o que para si nada vale; mas perder-se-ia comigo, razão que, no meu entender, fará tomar a minha perda em consideração.

- Duas respostas, querida senhora: a

assinatura em branco é propriedade minha, e não pode impedir-me de me fazer enforcar, se tal for a minha vontade.

- Nem eu a isso me oponho. - Muito obrigado! Mas nada disso

acontecerá, esteja sossegada. Ainda agora lhe exprimi a minha repugnância por esse gênero de morte. Guardarei a minha assinatura em branco, a não ser que tenha alguma vontadezinha de ma comprar, e, em tal caso, poderíamos chegar a um ajuste...

- Não tenho qualquer necessidade dela.

As assinaturas em branco sou eu que as dou.

- Feliz Nanon!

- Portanto, conserva-a?

- Sim.

- Correndo o risco que daí pode resultar?

- Nada receie, sei o emprego que lhe

devo dar. Quanto a retirar-me, não cometerei uma tal indelicadeza, estando aqui com autorização do duque. Ainda há outra coisa: nesse seu desejo de se desembaraçar de mim, esquece-se de uma coisa...

- Qual?

- Aquela comissão importante de que o

duque me falou, pela qual ganharei a minha fortuna.

Nanon empalideceu.

- Mas, desgraçado homem - disse ela -

sabe muito bem que essa comissão não lhe está destinada! Sabe muito bem que, apesar da atual situação, seria um crime, e um crime que mais cedo ou mais tarde não deixaria de ser castigado.

- E por isso não quero abusar. Só queria

usar - eis tudo.

- Além disso, o senhor de Canolles está

designado na comissão.

- E então, não me chamo eu barão de Canolles?...

- Sim, mas no destino conhecem muito

bem não só o seu nome, mas também o seu rosto. O senhor Canolles já por diferentes vezes foi à corte.

- Seja então, eis uma boa razão; é a

primeira que me dá, e portanto, bem o vê, e a ela cedo.

- Além do que, tornar-se-ia a encontrar

com os seus inimigos políticos - acrescentou Nanon - e talvez que a vossa cara, se bem que por motivos diferentes, não seja menos conhecido do que a do senhor de Canolles.

- Oh! isso não obstaria se, como disse o

duque, a comissão tem por objectivo prestar um grande serviço à França. A mensagem servirá de salvaguarda ao mensageiro. Um serviço desta importância torna um homem digno de ser agraciado, e a anistia do passado é sempre a primeira condição das conversações políticas, portanto, acredite-me, querida irmã, não cabe a si impor-me condições, mas sim a mim propor-lhe as minhas. -Vejamos quais são elas...

- Desde logo, como ainda agora lhe

dizia, o primeiro de todo e qualquer trabalho - isto é: anistia geral.

- Nada mais?...

- Depois, o saldo das nossas contas. - Então, segundo parece, sou-lhe

devedora de alguma coisa...

- Devia-me os mil francos que eu lhe

tinha pedido, e que tão desumanamente me recusou.

- Eis aqui dois mil.

- Seja então, aí está como já reconheço a

sua generosidade, Nanon.

- Mas sob uma condição... - Qual?

- A de reparar o mal que fez. - É muito justo. Que devo fazer para

isso?

- Vai montar a cavalo e correr pela

estrada de Paris, até que tenha encontrado o senhor de Canolles.

- Nesse caso, perco o seu nome...

- Restituir-lho-á.

- E que devo dizer-lhe?

- Deve entregar-lhe esta ordem, e

certificar-se de que partiu no mesmo instante para a executar.

- É tudo quanto determina? - Tudo, absolutamente.

- Será necessário que ele saiba quem eu

sou?

- Pelo contrário: é de suma importância

que o ignore.

- Ah! Nanon, será que se envergonha

de me ter por irmão?... Nanon nada respondeu e ficou pensativa.

- Mas - disse ela passado um momento

- como poderei ter a certeza de que desempenhou fielmente a minha comissão? Se para si houvesse alguma coisa sagrada, exigiria um juramento.

- Faça ainda melhor...

- O quê?

- Prometa-me outros mil francos,

depois de cumprida a comissão.

Nanon encolheu os ombros. - Está combinado - disse ela. - Ora, pois, olhe; eu não lhe peço

juramento algum, e a sua palavra basta. Portanto, dará mil francos à pessoa que lhe entregar da minha parte o recibo do senhor de Canolles.

- Sim; mas fala de uma terceira pessoa:

acaso tencionará não mais voltar?...

- Quem sabe? Um certo negócio chama-

me a mim mesmo aos arredores de Paris.

Nanon não pôde reprimir um

movimento de alegria involuntária.

- Ah! isso não lhe cai bem -observou

Cauvignac, a rir. - Mas não importa, cara irmã; nada de rancores.

- Nada de rancores. Mas a cavalo. - A cavalo, no mesmo instante: não

peço mais do que o tempo necessário para beber um gole.

Cauvignac deitou no seu copo o resto

da garrafa de vinho de Borgonha, saudou a irmã com um gesto muito respeitoso, e montando a cavalo de um pulo, desapareceu pouco depois, num turbilhão de poeira.