A Guerra das Mulheres

Alexandre Dumas · Capítulo 4 de 5 · parte 3/3

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A Guerra das Mulheres

Capítulo XV

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Clara compreendeu todo o partido que

um homem enamorado, como estava Canolles, podia tirar de semelhantes instruções; mas compreendeu também que serviço rendia à princesa prolongando a seu respeito o engano da corte.

- Escreva pois - disse ela, em tom de

mulher resignada.

Canolles interrogou-a com os olhos, e

ela também com os olhos lhe mostrou um cofrezinho, onde se continha quanto era preciso para escrever; o mancebo abriu-o, retirou papel, pena e tinta, colocou tudo em cima de uma mesa, e chegou-a para o pé de si o mais que lhe foi possível; pediu, como se Clara fosse sempre a princesa, licença para sentar-se, a qual lhe foi concedida, e escreveu a Mazarino o seguinte despacho:

Senhor:

Cheguei ao Castelo de Chantilly as

nove horas da noite, pelo que claramente verá que fiz toda a diligência, pois tive a honra de me despedir de Vossa Eminência às seis horas e meia.

Encontrei as duas princesas na cama; a

princesa viúva gravemente enferma, e a princesa cansada de haver durante o dia assistido a uma grande caçada.

Segundo as instruções de Vossa

Eminência, apresentei-me a Suas Altezas, que no mesmo instante despediram todos os convidados, e neste momento guardo à vista a senhora Princesa e seu filho.

- E seu filho... - replicou Canolles

voltando-se para a viscondessa. - Ora, parece-me que minto... e, contudo, bem quisera não mentir...

- Sossegue - respondeu Clara a rir. - Se

ainda não viu meu filho, vai já vê-lo.

- E seu filho... - continuou Canolles a

rir.

E continuando a carta no ponto em que

a interrompera:

Do próprio quarto da princesa, e

sentado à cabeceira do seu leito, tenho a honra de escrever esta carta a Vossa Eminência.

Depois assinou-a; e após ter pedido

com todo o respeito licença a Clara, puxou pelo cordão da campainha: um criado de quarto entrou imediatamente.

- Vá chamar o meu lacaio - disse

Canolles - e quando ele chegar à antecâmara, venha avisar-me.

Passados cinco minutos, vieram avisar

o barão de que Castorin havia chegado.

- Aqui tem - disse-lhe Canolles.- Vá

levar este bilhete ao oficial que comanda os meus duzentos homens; diga-lhe que o envie a Paris por um expresso.

- Mas, senhor barão - respondeu

Castorin, a quem a execução de uma tal comissão, dada a meio da noite, parecia muito desagradável - julgava ter-lhe dito que o senhor Pompeu me ajustara para entrar no serviço da princesa...

- E também em nome da princesa é que

lhe transmiti esta ordem. Vossa Alteza - disse Canolles, voltando-se - dignar-se-á confirmar as minhas palavras? Sabe muito bem qual a importância de que esta carta seja entregue imediatamente.

- Vá - disse a falsa princesa, em tom e

gestos cheios de majestade.

Castorin inclinou-se até ao chão, e

partiu.

- Agora - disse Clara, estendendo para

Canolles as suas pequenas mãos juntas e suplicantes - retirar-se-á, não é assim?

- Perdoe... - respondeu Canolles - mas

seu filho, senhora?

- Tem razão - respondeu Clara,

sorrindo. - Vai vê-lo.

Com efeito, apenas acabou de proferir

estas palavras, ouviu-se esgaravatar à porta, segundo o costume daqueles tempos. Foi o cardeal de Richelieu quem, sem dúvida por causa do amor que tinha aos gatos, pusera em voga este modo de bater à porta. Durante o seu dilatado valimento, tinham, portanto, esgaravatado à porta de Richelieu; depois à do senhor de Chavigny, que sem dúvida tinha direito a esta sucessão, ainda que só fosse a título de herdeiro natural; e, finalmente, à de Mazarino. Podia, pois, muito bem esgaravatar-se à porta da princesa.

- Ei-lo que vem - disse a senhora de

Cambes.

- Muito bem. Nesse caso, revisto-me do

meu caráter oficial. - Canolles arredou a mesa, tirou a cadeira, tomou a pegar no chapéu, e deixou-se ficar respeitosamente a quatro passos do leito da princesa.

- Entre! - disse a viscondessa. No mesmo instante, o mais

cerimonioso acompanhamento que se podia ver entrou no quarto. Eram as mulheres, os oficiais, os camareiros, todos os que estavam empregados no serviço ordinário da princesa.

- Senhora - disse o primeiro criado da

câmara - foi-se acordar o duque de Enghien; pode, portanto, receber agora o mensageiro de Sua Majestade.

Um olhar de Canolles à senhora de

Cambes disse-lhe mais claramente do que o teria podido fazer a voz: "Era, pois, isto o que combinamos?"

Este olhar, em que se encerravam todas

as súplicas de um coração angustiado, foi compreendido maravilhosamente, e, sem dúvida, em agradecimento de tudo quanto Canolles fizera, e talvez que também para de algum modo exercer aquela malícia eternamente oculta no mais íntimo do melhor dos corações femininos, ela ordenou:

- Tragam aqui o duque de Enghien. O

senhor verá meu filho na minha presença.

Apressaram-se a obedecer, e, passado

um momento, o jovem príncipe foi introduzido no quarto.

Dissemos que o barão, observando com

todo o cuidado os últimos preparativos da partida da princesa, pusera os olhos no jovem príncipe, que andava brincando e correndo, mas sem que lhe visse o rosto. A única coisa em que reparara fora no seu trajo, que consistia num simples trajo de caça; pensou, pois, que não era em atenção a ele que lhe haviam vestido o esplêndido trajo em que o apresentavam aos seus olhos. A idéia que já tivera de que o príncipe partira com a mãe, tornou-se, portanto, quase em certeza: examinou, durante algum tempo e em silêncio, o herdeiro do ilustre príncipe de Conde, e, sem que o respeito que impusera a toda a sua pessoa sofresse a menor quebra, um imperceptível sorriso de ironia deslizou-lhe pelos lábios.

- Dou-me por muito feliz - disse ele,

inclinando-se - ao ser-me dada a honra de apresentar as minhas homenagens ao duque de Enghien.

A senhora de Cambes, em quem o

menino tinha cravado os olhos fez-lhe sinal com a cabeça para que saudasse, e como lhe pareceu que Canolles observava todos os incidentes desta cena com suma atenção:

- Meu filho - disse ela com um cálculo

de maldade que fez estremecer Canolles, que já adivinhava, pelo movimento dos lábios da viscondessa, que ia ser vítima de alguma traição feminina - o oficial que vê diante de si é o senhor de Canolles, enviado por Sua Majestade; dê a sua mão a beijar ao senhor de Canolles.

Ao ouvir esta ordem, Pedrito, que fora

convenientemente doutrinado por Lenet, que, tal como prometera à princesa, se encarregara da educação do garoto, estendeu a mão, que não tivera tempo nem modo para converter em mão de gentil-homem; e Canolles viu-se obrigado a imprimir, no meio do riso sufocado dos circunstantes, um beijo naquela mão, que um homem, ainda quando fosse menos esperto nesta matéria do que Canolles, teria facilmente reconhecido não pertencer à aristocracia.

"Ah! senhora de Cambes - disse

Canolles consigo - pagar-me-á este beijo!..."

E inclinou-se respeitosamente ante o

Pedrito, para lhe agradecer a honra que lhe concedera.

Entendendo então que depois de haver

passado por uma tal prova, a última do programa, lhe era impossível ficar mais tempo na câmara de uma mulher, afirmou, voltando-se para o leito:

- Senhora, a minha comissão está

terminada por esta noite; tenho, pois, de lhe pedir licença para me retirar...

- Vá, senhor - disse Clara. - Vê que

estamos muito sossegados, aqui. Pode, portanto, dormir descansado.

- Antes disso, tenho de pedir-vos,

senhora, um grande favor.

- Que favor? - perguntou a senhora de

Cambes com inquietação, porque compreendia pela entoação da voz do barão que se dispunha a tirar a sua desforra.

- Que me conceda a mesma graça que

acabo de receber do príncipe seu filho.

Desta vez, a viscondessa não podia

escapar-lhe; não havia modo de recusar a um oficial do rei o cerimonioso favor que desta maneira pedia à vista de todos. A senhora de Cambes estendeu, pois, a sua trêmula mão ao senhor de Canolles.

Este adiantou-se para a cama como se

teria adiantado para o trono de uma rainha, pegou com a ponta dos dedos na mão que se lhe oferecia, pôs um joelho no chão, e imprimiu naquela pele fina, branca e estremecida, um comprido beijo, que todos atribuíram ao respeito, e que, para a viscondessa somente, foi um ardente penhor de amor.

- Prometeu-me, até me jurou - disse

Canolles em voz submissa levantando-se - que não sairia do castelo sem que disso me prevenisse. Tenho toda a confiança na sua promessa e no seu juramento.

- E pode tê-la, senhor - disse a

viscondessa de Cambes, tornando a cair sobre o travesseiro, quase desmaiada.

Canolles, a quem a expressão da voz

fizera estremecer, tentou descobrir nos olhos da formosa prisioneira a confirmação da esperança que lhe dera o tom da voz. Mas os olhos da viscondessa estavam hermeticamente fechados.

Canolles pensou que os cofres fechados

são os que encerram os mais preciosos tesouros, e retirou-se com o paraíso no coração.

Dizer como essa noite se passou para o

gentil-homem, dizer como a vigília e o sono não passaram de um sonho constante, durante o qual ponderou e tornou a ponderar todas as circunstâncias da quimérica aventura que lhe dava a posse do mais precioso tesouro que avarento algum tenha jamais abrigado sob as asas do seu coração; dizer os projetos que fez para sujeitar o futuro aos cálculos do seu amor, e ao capricho da sua fantasia; dizer as razões que a si próprio deu para se convencer de que agia acertadamente - seria coisa impossível; pois a loucura é uma fadiga para qualquer outro espírito que não seja o de um louco.

Era tarde quando Canolles adormeceu,

se é que pode chamar-se dormir ao febril delírio que sucedeu à vigília; e, contudo, apenas o dia alumiava os cumes dos álamos, sem que ainda tivesse baixado até à superfície das belas águas onde dormem os nenúfares de largas folhas, cujas flores só ao sol se abrem, já Canolles saltava da cama, vestindo-se à pressa, e descia para o jardim. A sua primeira visita foi ao lado do edifício ocupado pela princesa, o primeiro olhar para a janela do seu quarto; quer não tivesse ainda adormecido, quer tivesse já despertado, o certo é que uma luz demasiado viva para que fosse a de uma lamparina avermelhava as cortinas de damasco corridas hermeticamente. Canolles deteve-se perante a descoberta, a qual, sem dúvida, lhe inundou o espírito com um bom número de conjecturas insensatas, e, sem prolongar o passeio, procurou o abrigo do pedestal de uma estátua que o ocultava de forma conveniente, e encetou a sós com a sua fantasia, aquele eterno diálogo dos corações amorosos, que encontram o objeto amado em todas as poéticas emanações da Natureza.

Havia talvez meia hora que o barão

estava no seu observatório, olhando com indizível ventura para aquelas cortinas, diante das quais qualquer outro que não ele teria passado com indiferença, quando viu abrir-se uma janela da galeria, e essa janela quase no mesmo instante servir de moldura ao honrado rosto do senhor Pompeu. Tudo quanto se relacionasse com a viscondessa inspirava um poderoso interesse em Canolles; assim, desviou os olhos das cortinas tão atrativas, e acreditou ver que Pompeu tentava estabelecer com ele uma correspondência de sinais. Ao princípio, Canolles duvidou de que os sinais lhe fossem dirigidos, e pôs-se a olhar em torno. Mas Pompeu, que observou a dúvida em que o barão estava, acompanhou os sinais, para lhe chamar a atenção, de um assobio - o qual teria parecido insolente da parte de um escudeiro para com um embaixador de Sua Majestade o rei da França, se esse assobio não fosse justificado por uma espécie de ponto branco quase imperceptível para todos e quaisquer olhos que não fossem os de um namorado, o qual desde logo reconheceu nesse ponto branco um papel enrolado.

"Um bilhete!... - exclamou Canolles

consigo; - ela escreve-me... O que quer isto dizer?..."

E aproximou-se todo trêmulo, embora

o seu primeiro movimento fosse de uma grande alegria; mas nas grandes alegrias dos namorados nunca deixa de haver uma certa apreensão, a que talvez represente o maior encanto dela; estar convencido da sua felicidade, é não ser já feliz.

À medida que Canolles se aproximava, Pompeu mais se arriscava a mostrar o papel; por fim, Pompeu estendeu o braço, e Canolles o chapéu. Estes dois homens entendiam-se, pois, às mil maravilhas, como bem se vê; o primeiro deixou cair o bilhete; e o segundo recebeu-o com muita destreza, procurando logo o abrigo de um caramanchão para o ler à vontade; e Pompeu, que sem dúvida receava constipar-se, tornou a fechar logo a janela.

Todavia, nenhum homem pode ler sem

algum receio o primeiro bilhete da mulher a quem ama, sobretudo quando este bilhete é inesperado não há razão alguma a temer, a não ser algum ataque à sua felicidade. Com efeito, que lhe poderia querer dizer a viscondessa, se não tivesse sofrido alguma alteração o programa entre eles concertado na véspera? Portanto, o bilhete em causa não podia deixar de conter alguma fatal notícia.

Canolles estava tão convencido disso

que nem sequer chegou o papel aos lábios, como costumam fazer os amantes em tais circunstâncias. Antes pelo contrário, deu-lhe mil voltas, com um receio que cada vez mais crescia. Contudo, como mais tarde ou mais cedo acabaria por ver o que se lhe escrevia, socorreu-se de toda a sua coragem, abriu-o, e leu:

Senhor:

Ficarmos mais tempo na situação em

que nos encontramos - e entendo que pensará como eu - é coisa absolutamente impossível; há-de magoá-lo muito passar aos olhos de toda a gente da casa por um desagradável vigia; por outro lado, receio recebê-lo melhor do que o faria a princesa, caso se encontrasse no meu lugar, e que adivinhem representarmos nós uma duplicada comédia, cujo desenlace seria a perda certa da minha reputação.

Canolles enxugou a testa: os seus

pressentimentos não o tinham enganado. Com o dia, esse grande caçador de fantasmas, todos os sonhos dourados desapareciam. Abanou a cabeça, arrancou um suspiro do peito, e continuou:

Finja que descobriu o ardil de que nos

servimos; para chegar a essa conclusão há um meio muito simples, e que eu mesma lhe oferecerei, se me prometer anuir à minha súplica. Bem o vê, eu não dissimulo, nem a si mesmo, o muito que dependo de si. Se aceder aos meus rogos, enviar-lhe-ei um retrato em que figuram o meu nome e as minhas armas. Dirá que este retrato foi por si descoberto numa das suas rondas noturnas, e que por ele ficou a saber que eu não era a princesa.

Devo dizer-lhe que, em memória da

dívida agradecida que guardarei no íntimo do coração, se partir esta mesma manhã, autorizo-o, supondo que lhe agradará, a guardar a miniatura.

Separe-se, pois, de mim, sem me tornar

a ver, se assim for possível, e o meu reconhecimento acompanhá-lo-á a toda a parte, enquanto, do meu lado, a recordação da sua pessoa me acompanhará como a de um dos mais nobres e mais leais gentis-homens que conheci na minha vida.

Canolles leu de novo o bilhete e ficou

atônito. Qualquer que seja o favor contido numa carta de despedida, por muito açucarada que seja uma recusa ou um adeus - adeus, recusa, despedida, não deixam por isso de ser um dos mais cruéis logros que se possam atirar ao coração. Não havia a mínima dúvida de que o retrato seria posse muito grata; mas o motivo pelo qual era oferecido roubava-lhe grande parte do seu valor. Além disso, qual o valor do retrato, quando o original ali se encontra, quando o temos à mão, e quando podemos não o largar?

Sim, mas Canolles, que não tinha

recuado ante a cólera da rainha e de Mazarino, tremia ante um franzimento de sobrancelhas da senhora de Cambes.

Contudo, esta mulher zombara dele,

em primeiro lugar na estrada, depois em Chantilly, fazendo as vezes da princesa, e, por fim, dando-lhe na véspera uma esperança que lhe roubava no dia seguinte! Mas de todos os desenganos este era o mais cruel. Na estrada ela não o conhecia, e desembaraçava-se de um companheiro incômodo, eis tudo. Tomando o lugar da princesa de Conde, obedecia a uma ordem que lhe davam, desempenhava um papel prescrito pela sua senhora e ama; não podia agir de outra maneira; mas, desta vez que o conhecia, depois de haver dado mostras de apreciar o seu fervoroso zelo, depois de ter pronunciado duas vezes aquele nós, cuja vibração se fizera sentir no íntimo do coração do mancebo - arrepiar caminho, não reconhecer a sua bondade, negar o seu agradecimento, escrever, enfim, uma tal carta, tudo isso era aos olhos de Canolles mais do que crueldade, quase que uma zombaria.

Foi esta a razão por que se agastou, por

que se encolerizou, repassado de um doloroso despeito, sem observar que, por detrás daquelas cortinas, onde toda a luz se apagara, como se o dia a tivesse tornado inútil, uma espectadora oculta pelo damasco observava a pantomima do seu desespero e talvez se deleitasse.

"Sim, sim - pensava ele, acompanhando

o seu pensamento de gestos análogos ao sentimento que o preocupava. - Sim, é uma despedida muito regular, muito formal, um grande acontecimento coroado de um desfecho vulgar, uma poética esperança convertida em brutal desengano. Eu, porém, não me prestarei a fazer o ridículo papel que me reservam. Prefiro o seu ódio a este suposto reconhecimento que me promete. Ah! sim, fiar-me agora na sua promessa!... O mesmo que fiar-me na constância do vento e na calmaria do mar! Ah! senhora, senhora - continuou Canolles, voltando-se para a janela - por duas vezes que me escapa. Mas eu lhe juro, se outra ocasião semelhante se me oferecer, não me escapará terceira."

E Canolles tornou a subir ao seu

quarto, com a intenção de vestir-se e de entrar, por força ou às boas, na câmara da viscondessa. Todavia, ao entrar no quarto, e lançando os olhos ao pêndulo, viu que apenas eram sete horas.

Ninguém ainda estava levantado no

castelo. Canolles atirou consigo para cima de uma poltrona, fechou os olhos para refrescar as idéias e expulsar, se possível, os fantasmas que dançavam em torno dele, e não os abria senão para consultar de cinco em cinco minutos o relógio.

Deram oito horas, e começaram a

despertar no castelo, onde em breve tudo era movimento e ruído. A muito custo, Canolles ainda esperou coisa de meia hora; por fim, não pôde já conter-se, e desceu. Aproximou-se de Pompeu, que respirava muito ufano o ar fresco da manhã no grande pátio, rodeado de lacaios, a quem dava conta das suas campanhas na Picardia sob o comando do rei defunto:

- É você o mordomo de Sua Alteza? -

disse-lhe ele, como se fosse a primeira vez que visse Pompeu.

- Sim, senhor - replicou Pompeu, atônito.

- Vá dar parte a Sua Alteza de que

desejo ter a honra de lhe apresentar os meus respeitos.

- Mas, senhor... Sua Alteza... - Está levantada.

- Contudo... - Vá.

- Eu julgava que a partida do senhor... - A minha partida dependerá da

conferência que vou ter com Sua Alteza.

- Digo isto porque não tenho ordem de

minha ama.

- E eu digo isto porque tenho ordem do

rei.

E Canolles, dizendo estas palavras,

bateu majestosamente no bolso do seu casaco, gesto que adotou como o mais satisfatório de quantos pudera empregar na véspera. Mas, ao mesmo tempo que tentava esta atrevida empresa, o nosso negociador via que lhe ia faltando o alento. Com efeito, desde a véspera, a sua importância sofrera grande quebra: havia perto de doze horas que a princesa - a verdadeira - partira; devia sem dúvida ter caminhado toda a noite, e estaria portanto a vinte ou vinte e cinco léguas de Chantilly. Por maior que fosse a diligência com que Canolles fizesse marchar a sua gente, não podia de modo algum alcançá-la; e caso a alcançasse, tendo partido com um cento de gentis-homens, quem lhe assegurava que a escolta da fugitiva não contasse àquela hora trezentos ou quatrocentos partidários? Restava sempre a Canolles, como na véspera dissera, o recurso de se fazer matar; mas teria ele o direito de consigo fazer matar os homens que o acompanhavam, e impor-lhes deste modo o sofrimento da sanguinolenta pena dos seus caprichos amorosos? Se na véspera se tivesse enganado relativamente aos sentimentos da senhora de Cambes para com ele, se a perturbação dela não fosse mais do que uma comédia, que lhe dava a certeza de que a senhora de Cambes não zombaria abertamente dele? Então, haveria apupada dos lacaios, apupada dos soldados ocultos na floresta, desvalimento para com Mazarino, cólera da rainha, e - muito pior que tudo isso - ruína para o seu amor nascente; porquanto, nunca mulher nenhuma amou aquele a quem por um só momento teve a intenção de tornar ridículo.

Enquanto volvia e revolvia todos estes

pensamentos no seu espírito, Pompeu veio de cabeça baixa dizer-lhe que a princesa o aguardava.

Desta vez todo o cerimonial fora

banido; a viscondessa esperava-o numa salazinha contígua ao quarto, vestida e em pé. Vestígios de insônia, que em vão diligenciara apagar, marcavam no seu belo rosto; grandes olheiras, sobretudo, denunciavam que os seus lindos olhos se não haviam fechado.

- Bem vê, senhor - disse-lhe ela, sem lhe

dar tempo de ser quem primeiro falasse - inclino-me perante o seu desejo, mas com a esperança, confesso-o, de que esta entrevista seja a última, e de que o senhor, por seu turno, também cederá ao meu desejo.

- Perdoe-me, senhora - disse Canolles -

mas em conseqüência da nossa conversa de ontem, esperava menos rigor nas suas exigências, e confiava em que, como remuneração pelo que fizera por amor de si (de si somente, pois que não conheço a princesa de Conde; creio que me compreenderá...), dignar-se-ia consentir em ficar mais tempo em Chantilly.

- Sim, senhor, confesso - disse a

viscondessa - no primeiro momento... a perturbação inevitável da posição em que me encontrava, a grandeza do sacrifício que fez por mim... o interesse da princesa, a quem muito importava que eu ganhasse tempo, puderam arrancar da minha boca algumas palavras que não estavam de acordo com o meu pensamento; mas, durante esta longa noite, tenho refletido: uma demora maior de si ou de mim neste castelo, é coisa que se torna impossível.

- Impossível, senhora?! - estranhou Canolles. - Esquece-se então de que tudo é possível, a quem fala em nome do rei?...

- Senhor de Canolles, congratulo-me

que antes de tudo seja gentil-homem, e não abusará da posição em que me colocou o meu extremoso afeto a Sua Alteza.

- Senhora - respondeu Canolles - antes

de tudo sou um louco; já percebeu isso muito bem, ai de mim! só um louco podia fazer o que eu fiz. Pois então compadeça-se da minha loucura: não me desterre da sua presença, suplico-lhe!

- Em tal caso, senhor, serei eu quem se

ausentará daqui. Serei pois eu, senhor, quem, embora o contrarie, o restituo ao desempenho dos seus deveres. Veremos se me quer deter por força, e expor-nos ambos a um estrondoso escândalo. Não, não senhor - continuou a viscondessa, com um acento que Canolles ouvia vibrar pela primeira vez - não. Não deixará de ponderar que não pode ficar eternamente em Chantilly; lembrar-se-á de que em outra parte o esperam.

Esta insinuação, que brilhou como um

relâmpago aos olhos de Canolles, recordou-lhe a cena da estalagem de Biscarros, a descoberta que a senhora de Cambes fizera sobre a ligação de Nanon com o mancebo, e então descobriu qual a razão para tudo aquilo.

Aquela insônia não era causada pelas

ansiedades do presente, mas sim pelas recordações do passado. Aquela resolução matutina de fazer afastar Canolles, não era o resultado da reflexão, mas sim a expressão do ciúme.

Houve então entre os dois seres, de pé

em frente um do outro, um silêncio momentâneo; mas, durante este silêncio, cada um deles escutava a palavra do seu próprio pensamento, que falava em seu peito com as palpitações do coração.

"Ciumenta! - dizia Canolles. -

Ciumenta! Oh! desde este momento tudo compreendo. Sim, sim! Quer certificar-se de que a amo bastante para lhe sacrificar outro qualquer amor! Quer experimentar-me..."

Por sua vez, ela dizia consigo mesma: "Sou para o senhor de Canolles uma

distração de espírito; encontrou-se comigo no momento, sem dúvida, em que se via obrigado a sair da Guiena, e seguiu-me como o viajante segue o fogo-fátuo; mas o seu coração ficou naquela pequena casa rodeada de árvores, para onde se encaminhava naquela tarde em que nos encontramos. É portanto impossível que deixe ficar junto de mim um homem que ama outra mulher, e a quem eu, se com ele convivesse mais tempo, talvez tivesse a fraqueza de amar. Oh! não só atraiçoaria a minha honra, mas atraiçoaria também os interesses da princesa, se tivesse a baixeza de amar o agente dos seus perseguidores!"

E por isso exclamou subitamente,

respondendo ao seu próprio pensamento:

- Oh! não, não, é preciso ausentar-se,

senhor; se não se ausentar, ausento-me eu.

- Esquece-se, senhora - disse Canolles - de que me deu a palavra de não se ausentar sem primeiro me avisar da partida...

- Pois então, senhor, dou-lhe parte de

que vou sair de Chantilly neste mesmo instante.

- E crê que eu consinta em tal?...- disse

Canolles.

- Como!? - exclamou a viscondessa. -

Deter-me-ia pela força?!...

- Senhora, eu não sei o que farei, mas o

que sei é que não posso separar-me de si.

- Então estou presa e é o meu

carcereiro, não é assim?

- A senhora é uma mulher que já por

duas vezes perdi, e a quem não quero perder terceira vez.

- Em tal caso, temos violência, não? - Sim, senhora, violência - respondeu

Canolles - se não tiver outro processo de mantê-la aqui.

- Oh! - exclamou a senhora de Cambes -

que felicidade, com efeito, a de guardar uma mulher que geme, que clama pela liberdade, que não o ama, que o detesta!...

Canolles estremeceu, e esforçou-se por

distinguir rapidamente o que havia na palavra e o que havia no pensamento. Compreendeu que era chegado o momento de se aventurar a tudo ganhar, ou tudo perder.

- Senhora - disse ele - as palavras que

acaba de pronunciar, com um acento tão verdadeiro que não é possível enganar-me quanto ao seu significado, põem termo a todas as minhas incertezas. Gemendo, escrava?... Eu, o guarda de uma mulher que me não ama, que me detesta?... Não, senhora, fique sossegada: tal não acontecerá. Eu acreditara, tamanha era a felicidade que experimentava quando a via, que lhe não era desagradável a minha presença; consolara-me com a idéia de que, depois de haver perdido a consideração, o repouso da consciência, o futuro, a honra talvez, me indenizaria deste sacrifício concedendo-me o favor de algumas horas que sem dúvida nunca mais se me oferecerão. Tudo isso era possível, se me amasse... e até se olhasse com indiferença, porquanto é boa pessoa, e teria feito por compaixão o que outra faria por amor; mas agora não é já com a indiferença que tenho de lutar, mas com o ódio; e desde logo tudo muda. Tem razão. Perdoe-me somente, senhora, não ter compreendido que pudesse ser maçador um homem que ama com tanto ardor. A si cumpre ficar, rainha, senhora e livre, neste castelo como em qualquer outra parte; eu é que tenho de retirar-me e, portanto, retiro-me. Dentro de dez minutos terá reconquistado toda a liberdade. Adeus, senhora, adeus para sempre!

E Canolles, numa perturbação que, de

fingida que era no início, se tornara depois real e dolorosa, por fim saudou a senhora de Cambes, rodou nos calcanhares, procurando a porta com que não acertava, e repetindo a palavra adeus com um acento, tão profundamente pesaroso, que partindo do coração, penetrava o coração. As verdadeiras aflições têm, como as tempestades, uma voz que lhes é própria.

A senhora de Cambes não esperava

uma tal obediência da parte de Canolles; chamara em seu socorro todas as suas forças para uma luta, e não para uma vitória; e, por seu turno, ficou confusa e atônita, vendo tanta resignação acompanhada de tanto amor; e quando o mancebo já dera dois passos para a porta, estendendo os braços ao acaso, e arrancando uma espécie de soluço, sentiu pousar-lhe no ombro uma firme mão, com pressão mais do que significativa; não lhe tocavam só, detinham-no. Voltou-se então. A senhora de Cambes estava diante dele. O seu braço, estendido com graça, ainda lhe tocava no ombro, e a momentânea expressão de dignidade que antes tinha impressa no rosto, tornara-se em delicioso sorriso.

- Então, senhor - disse ela - é assim que

obedece à rainha?... Seria capaz de atraiçoá-la a ponto de partir quando tem ordem de ficar aqui?...

Canolles deu um grito, caiu de joelhos,

e encostou a sua fonte ardente às duas mãos que ela lhe estendia.

- Oh! não sei como não morro de

alegria! - exclamou ele.

- Ah! não se regozije ainda - disse a

viscondessa - pois se eu o detenho é para que não nos separemos deste modo, é para que não vá com a idéia de que sou uma ingrata, é para que me desobrigue voluntariamente da palavra que lhe dei, é para que ao menos veja em mim uma amiga, visto que os nossos partidos opostos obstam a que eu jamais possa ser para si outra coisa.

- Oh! meu Deus! - queixou-se Canolles -

será possível que ainda me tenha enganado outra vez?... não me ama!...

- Não falemos dos nossos sentimentos,

senhor barão, mas sim dos perigos que ambos corremos se aqui ficarmos; vejamos: ou parte o senhor, ou deixa-me partir; assim é necessário.

- Que me diz, senhora!?

- A verdade. Deixe-me aqui; volte para

Paris; diga a Mazarino, diga à rainha o que lhe aconteceu. Ajudá-lo-ei em tudo quanto de mim depender; parta, porém; parta!

- Mas... será preciso repetir-lho?... -

exclamou Canolles. - Separar-me de si é morrer!

- Não, não, não morrerá, pois

conservará a esperança de que nos tornaremos a encontrar em tempos mais felizes.

- O acaso colocou-me no seu caminho,

senhora, ou, para melhor dizer, colocou-a já por duas vezes no que eu seguia; o acaso cansar-se-á, e se eu me separar de si, não tornarei jamais a encontrá-la.

- Pois então, se assim for eu é que o

procurarei, senhor de Canolles.

- Oh! senhora, peça-me que morra por

si; a morte é um instante de dor, nada mais. Mas não torne a pedir-me que me aparte de si. Com esta única idéia sinto despedaçar-se-me o coração. Mas peço-lhe que se lembre de que apenas a tenho visto, e pouco lhe tenho falado...

- Então, se eu lhe permitir que fique

hoje aqui, se todo o dia puder ver-me e falar-me, dar-se-á por contente? Diga!

- Nada prometo.

- Em tal caso, nem eu tão-pouco. E o

único compromisso que consigo tinha contraído era o de avisá-lo do momento em que tivesse de partir. Saiba pois que parto dentro de uma hora.

- Terei então que fazer tudo o que

quiser? Terei de obedecer-lhe em tudo e por tudo? Terei de fazer abnegação de mim mesmo para seguir cegamente a sua vontade?... Sendo assim, já que tanto é preciso, ficará satisfeita. Já não tem diante de si mais do que um escravo pronto a obedecer-lhe. Dê-me as suas ordens, senhora.

Clara estendeu a mão ao barão, e com a

voz mais doce e mais meiga, disse-lhe:

- Um novo acordo, em troca da minha

palavra - disse ela. - Se eu não me separar de si desde este momento até às nove horas da noite, partirá às nove horas?...

- Juro-lhe que sim!

- Então, venha comigo! O céu azul e

sem nuvens, promete-nos um dia delicioso: há orvalho na relva, perfumes no ar, bálsamo nos bosques... Vem cá, Pompeu!

O digno mordomo, que sem dúvida

recebera ordem de não se arredar da porta, entrou no mesmo instante.

- Os meus cavalos, para ir dar um

passeio - disse a senhora de Cambes, com o seu ar de princesa. - Vou esta manhã aos lagos, e volto pela herdade, onde almoçarei... Acompanhar-me-á, senhor barão - continuou ela. - Isto faz parte das atribuições do seu cargo, visto que recebeu de sua majestade a rainha ordem de não me perder de vista.

Uma nuvem de júbilo sufocador cegava

o mancebo, e envolvia-o como aqueles vapores que outrora arrebatavam os deuses do céu; deixou-se conduzir sem oposição, e quase sem vontade; estava arquejante, embriagado, louco. Em breve, no meio de um bosque encantador, à sombra de árvores misteriosas, cujos ramos caíam flutuantes na sua fronte descoberta, abriu de novo os olhos às coisas materiais. Estava de pé, mudo, com o coração apertado de uma alegria quase tão pungente como a dor; via-se caminhando de mãos dadas com a senhora de Cambes, que estava tão pálida, tão muda, e sem dúvida tão feliz como ele.

Pompeu caminhava após eles, bastante

perto para tudo ver, e convenientemente longe para nada ouvir.

O termo deste dia inebriante chegou

como sempre chega o fim de um sonho; as horas haviam-se passado como segundos para o afortunado gentil-homem, e, contudo, parecia-lhe que adquiria neste simples dia recordações para três existências vulgares. Cada uma das ruas do parque fora enriquecida com uma palavra, com uma lembrança da viscondessa; um olhar, um gesto, um dedo posto na boca, tudo tinha o seu significado... Entrando no barco, ela apertara-lhe a mão; quando voltara para terra, encostara-se ao seu braço; costeando o muro do parque, sentira-se cansada, e sentara-se. A cada um destes deslumbramentos, que passavam como relâmpagos diante dos olhos do mancebo, a paisagem, iluminada por um clarão fantástico, conservara-se presente na sua memória, não só no seu todo, mas também nas mais ligeiras circunstâncias.

Canolles não devia separar-se da

viscondessa durante todo o dia; ao almoço convidara-o a jantar, e ao jantar convidara-o a cear. No meio de todo o esplendor com que a falsa princesa devia receber o enviado de um rei, Canolles distinguiu as meigas atenções da mulher enamorada. O mancebo esqueceu-se dos criados, da etiqueta, do mundo; até se esquecera da promessa que fez de se retirar, e julgou-se estabelecido por toda a ditosa eternidade naquele paraíso terrestre, de que ele seria o Adão e ela a Eva.

Todavia, quando chegou a noite,

quando a ceia também, por sua vez, acabou do mesmo modo que se tinham cumprido todos os outros atos desse dia - isto é: numa inefável alegria; quando à sobremesa uma dama de honra trouxe Pedrito, sempre disfarçado de duque de Enghien, e que se aproveitara da circunstância para comer tanto como o teriam feito quatro príncipes de sangue juntos; quando o som do pêndulo começou a ecoar, e a senhora de Cambes, levantando os olhos, ficou certa de que iam dar nove horas, disse-lhe, suspirando:

- Agora são horas.

- Horas de quê? - perguntou Canolles,

diligenciando sorrir, e tentando rebater com um gracejo uma grande desgraça.

- Horas de cumprir a palavra que me

deu.

- Ai! senhora - replicou Canolles, com

tristeza - então de nada se esquece?...

- Talvez me tivesse esquecido, como o

senhor - disse ela - mas eis algo que me restitui a memória...

E tirou da algibeira uma carta que

recebera no momento de se sentar à mesa.

- De quem é essa carta? - perguntou

Canolles.

- Da princesa, que me chama para junto

dela.

- Quanto mais não seja, sempre é um

pretexto, e tenho de agradecer-lhe a lisura com que me trata.

- Não se iluda, senhor de Canolles -

respondeu a viscondessa, com uma tristeza que não tentava ocultar. - Ainda que não tivesse recebido esta carta, tê-lo-ia lembrado à hora combinada, como acabo de fazê-lo, da vossa partida. Crê que as pessoas que nos rodeiam deixariam em breve de observar a nossa mútua inteligência? As nossas relações, e nisto não pode deixar de concordar, não são as de uma princesa perseguida com o seu perseguidor. Mas agora, se esta separação é para si tão cruel como dá a entender, permita-me que lhe diga, senhor barão, que só de si depende que não nos separemos.

- Fale! oh! fale! - exclamou Canolles. - Pois não adivinha?...

- Oh! senhora, pelo contrário, muito

bem o adivinho! Quer falar-me em acompanhá-la, e que vá consigo reunir-me à princesa. Não é isso?

- Ela própria me fala disso, nesta carta -

disse com viveza a senhora de Cambes.

- Agradeço que essa lembrança não lhe

ocorresse a si, e também agradeço a perturbação com que me faz tal proposta. Não que a minha consciência se indigne com a idéia de servir este ou aquele partido. Não, eu, da minha parte, não me sinto dominado por convicção alguma; quem é que, nesta guerra, pondo de parte os interessados, a pode ter? Quando a espada estiver desembainhada, que me importa a mim que o golpe seja daqui ou dali? Eu não conheço a corte, não conheço os príncipes: independente pela minha fortuna, sem ambição, nada espero nem de uns nem de outros. Sou oficial, eis tudo.

- Nesse caso, consentiria em

acompanhar-me?...

- Não, senhora.

- Mas porque não, se as coisas são como

as diz?

- Porque baixaria na sua estimação. - É esse o único obstáculo que o detém? - Juro-lho.

- Oh! então nada receie.

- A senhora mesma não acredita no que

diz neste momento - replicou Canolles, levantando o dedo e sorrindo. - Um trânsfuga é sempre um traidor; a primeira palavra não soa tão mal; porém, ambas têm o mesmo valor.

- Concordo consigo, tem razão - disse a

senhora de Cambes - e, portanto, não insistirei mais. Caso se encontrasse numa posição neutra, teria tentado fazer com que abraçasse a causa dos príncipes; mas, sendo um enviado do rei, encarregado de uma missão de confiança por Sua Majestade a rainha-regente, e pelo primeiro-ministro, honrado com a benevolência do duque D’Épernon, que, apesar das desconfianças que eu logo concebera, o protege, segundo me asseguram, de um modo muito especial... (Canolles corou.) Serei portanto o mais discreta possível. Mas, preste-me atenção, senhor barão: nós não nos separamos para sempre, fique certo disso; tornar-nos-emos a encontrar, os meus pressentimentos assim mo dizem.

- E onde? - perguntou Canolles. - Não o posso saber; mas decerto

tornaremos a ver-nos.

Canolles abanou tristemente a cabeça. - Não o creio, senhora - disse ele. -

Entre nós há guerra: isto é demasiado, quando ao mesmo tempo não há amor.

- E o dia de hoje? - perguntou num tom

arrebatadora a viscondessa. - Não tem significado para si?...

- É o único em que eu tenho toda a

certeza de haver vivido desde que existo no mundo.

- Então, vê perfeitamente que é um

ingrato.

- Conceda-me um segundo dia

semelhante a este - insistiu Canolles.

- Não posso, tenho de partir esta noite. - Não peço para amanhã, para depois

de amanhã; peço-lhe para o futuro, seja quando for. Marque o tempo que quiser, escolha o lugar que quiser, contanto que eu viva com uma certeza; muito teria ainda a sofrer se não tivesse mais do que uma esperança.

- Para onde vai agora?

- Para Paris, dar conta da minha

missão.

- E depois?

- Talvez para a Bastilha.

- Mas supondo que não irá para lá... - Volto para Libourne, onde deve estar

o meu regimento.

- E eu para Bordéus, onde estará a

princesa. Conhece alguma aldeia pouco freqüentada no caminho de Bordéus para Libourne?

- Conheço uma, cuja recordação quase

que me é tão cara como Chantilly.

- Jaulnay? - disse sorrindo a

viscondessa.

- Jaulnay - repetiu Canolles. - Pois então, são precisos quatro dias

para chegar a Jaulnay; hoje é terça-feira; no domingo, demorar-me-ei lá todo o dia.

- Oh! muito agradecido! - exclamou

Canolles, comprimindo nos lábios a mão da senhora de Cambes, que esta não tivera o ânimo de retirar.

Depois, passado um momento: - E agora - disse ela - ainda temos de

representar a nossa comediazinha.

- Ah, sim! a comédia que deve tornar-

me ridículo aos olhos de toda a França. Mas não tenho de que me queixar: eu é que assim o quis, eu é que, se não escolhi o papel que nela represento, pelo menos preparei o desfecho que a coroa.

A senhora de Cambes baixou os olhos. - Agora diga-me o que tenho de fazer -

disse Canolles, impassivelmente.- Espero as suas ordens, e para tudo estou pronto.

Clara estava tão comovida que

Canolles apercebia, sob o vestido de veludo, as palpitações desiguais e precipitadas do seu peito.

- Faz por mim um enorme sacrifício,

bem o sei; mas pelo Santo Nome de Deus, pode acreditar-me! Ficar-lhe-ei eternamente agradecida. Sim, por amor de mim vai cair no desagrado da corte; sim, vai ser julgado com toda a severidade. O que lhe peço, senhor, é que tudo isso despreze, se lhe dá algum prazer o pensamento de me haver tornado feliz.

- Farei, senhora, tudo o que de mim

depender.

- Creia-me, senhor barão - continuou a

senhora de Cambes. - Essa fria dor a que o vejo entregue, causa-me um horrível remorso. Talvez que outras o recompensassem mais amplamente do que eu faço; mas, senhor, uma recompensa que se concedesse com tanta facilidade não seria uma paga digna dos seus sacrifícios.

E, dizendo estas palavras, Clara

baixava os olhos, dando um suspiro de pudico sofrimento.

- É tudo quanto tinha que me dizer? -

perguntou Canolles.

- Aqui tem - disse a viscondessa,

tirando do peito um retrato, que apresentou a Canolles. - Leve-o, e a cada mágoa que lhe causar este desgraçado negócio, olhe para ele, diga que, quando sofre, é por amor daquela cuja imagem tem nas mãos, e que cada um dos seus sofrimentos é pago com pesares.

- E nada mais?...

- Com estimação.

- É tudo?...

- E com simpatia.

- Ah! senhora, uma palavra mais! - exclamou Canolles. - Que dificuldade pode ter em fazer-me completamente feliz?...

Clara fez um movimento rápido para o

mancebo, estendeu-lhe a mão, e abriu a boca para ajuntar: "E com amor."

Mas ao mesmo tempo que abria a boca,

abriram-se as portas, e o suposto capitão dos guardas apresentou-se a uma delas, acompanhado de Pompeu.

- Em Jaulnay direi o resto - disse a

viscondessa.

- Da frase, ou do pensamento? - De ambos; a frase é sempre a

expressão do pensamento.

- Senhora - disse o capitão das guardas

- a carruagem de Vossa Alteza está pronta para partir.

- Dê mostras de espanto - disse em voz

baixa Clara a Canolles.

O gentil-homem teve um sorriso de

lástima que a si próprio dirigia.

- Para onde vai Vossa Alteza? -

perguntou ele.

- Vou partir.

- Mas Vossa Alteza não se lembra que

recebi de Sua Majestade a comissão de me não separar de si um só momento?

- Senhor, a sua comissão terminou. - Que quer dizer com isso? - Que eu não sou Sua Alteza a princesa

de Conde, mas tão-somente a viscondessa de Cambes, sua primeira dama de honra. A princesa partiu ontem à noite, e eu vou ter com ela.

Canolles ficou imóvel; era visível a sua

repugnância em continuar a representação desta comédia diante de uma platéia de lacaios.

A senhora de Cambes, para dar alento

a Canolles, envolveu-o então num terno olhar; olhar que lhe deu alguma coragem.

- Então o rei foi enganado?!... e o duque

de Enghien onde está!?

- Ordenei a Pedrito que tornasse às

suas mantilhas - disse uma voz grave, à entrada do quarto.

Esta voz era a da princesa viúva, que

estava em pé à porta, encostada a duas damas.

- Volte para Paris, para Nantes, para

São Germano, volte para a corte, enfim: a sua comissão terminou aqui. Dirá ao rei que as pessoas perseguidas recorrem à astúcia, o que malogra o emprego da força. Contudo, tem toda a liberdade de ficar em Chantilly, para me vigiar a mim, que não saí, nem sairei deste castelo, porque tal é o meu desígnio. É tudo quanto se me oferece dizer-lhe, senhor barão; receba a minha saudação de despedida.

Canolles, vermelho de vergonha, teve

apenas força para se inclinar, olhando para a viscondessa, e resmungando em tom de repreensão:

- Oh! senhora! senhora!

A viscondessa compreendeu este olhar,

e ouviu as palavras.

- Permita-me Vossa Alteza - disse ela,

dirigindo-se à princesa viúva - que represente ainda no espaço de um segundo o papel da princesa. Quero agradecer ao barão de Canolles em nome das ilustres pessoas que saíram desta casa, o respeito e a delicadeza com que se houve no desempenho de uma comissão tão difícil; tenho o atrevimento, senhora, de crer que Vossa Alteza é deste parecer, e de esperar, por conseguinte, que se dignará juntar aos seus agradecimentos os meus.

A princesa viúva, abalada por ouvir

estas palavras tão firmes, e a quem a sua profunda sagacidade talvez revelasse uma das faces deste novo segredo acrescentado ao anterior, pronunciou então, com uma voz não isenta de certa comoção, as seguintes palavras:

- De tudo o que fez contra nós, senhor,

esquecimento; por tudo o que fez a favor da minha casa, reconhecimento.

Canolles pôs um joelho no chão, diante

da princesa, que lhe deu a beijar aquela mão que Henrique IV tantas vezes beijara.

Era este o complemento da cena, era

esta a despedida irremissível, nada mais, portanto, restava já a Canolles senão partir, tal como ia fazer a senhora de Cambes; recolheu pois, ao seu quarto, e foi à pressa escrever a Mazarino, dando-lhe parte de quanto se passara nos termos mais furibundos que lhe ocorreram: com este relatório esperava evitar os primeiros repentes do seu sobressalto ao receber tal notícia. Depois, atravessando, não sem algum receio de por eles ser insultado, as fileiras dos criados do castelo, chegou ao pátio, onde já tinham um cavalo pronto.

No momento de pôr um pé no estribo,

uma voz imperiosa proferiu estas palavras:

- Façam as honras ao enviado de Sua

Majestade o rei, nosso amo e senhor.

Estas palavras fizeram curvar todas as

frontes diante de Canolles, que depois de se ter inclinado defronte da janela onde se encontrava a princesa viúva, deu de esporas ao cavalo e desapareceu de cabeça levantada.

Castorin, desencantado do belo sonho

com que Pompeu o embalara no seu falso papel de mordomo, seguiu o amo, de cabeça baixa.