A Guerra das Mulheres
Capítulo XV
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Não ajuntou um único gesto, nem uma
palavra mais, ao que desejara dizer ou fazer. O que seria dele, oh, grande Deus! se esta magnânima princesa o reconhecesse repentinamente; se para ele olhasse com horror, no seu castelo de Chantilly, como desconfiara na estalagem de Biscarros; se renovasse a acusação já esquecida, e acreditasse que, graças a um título oficial, graças a um título real, quereria continuar solicitações desculpáveis talvez para o visconde ou viscondessa de Cambes, mas insolentes e quase criminosos, quando se tratava de uma princesa de sangue?
"Mas - disse consigo subitamente - será possível que uma princesa deste nome e desta graduação tenha andado a viajar só, sem mais companhia do que a de um criado!?..."
E como sempre acontece em
semelhantes ocasiões, em que o espírito vacilante e turbado busca alguma coisa que lhe sirva de apoio, Canolles, atônito, olhou em volta, e os seus olhos fixaram-se no retrato daquela mulher segurando o filho pela mão. Quando tal viu, uma iluminação súbita lhe passou pelo espírito, e, mau grado seu, deu um passo para se aproximar do retrato. A falsa princesa não pôde, por sua vez, deixar de dar um ligeiro grito, e quando, ao ouvir este grito, Canolles se voltou, viu que o seu rosto já velado, estava agora absolutamente mascarado.
"Oh! oh! - perguntou Canolles a si
mesmo - que quer isto dizer!? Ou foi a princesa que encontrei na estrada de Bordéus, ou sou alvo de algum logro, e não é ela quem está na cama... Em todo o caso, cumpre-me deslindar este negócio."
- Senhora - disse ele de súbito - agora
sei o que devo pensar do seu silêncio, e reconheci...
- Que é que reconheceu? - exclamou
com vivacidade a senhora do leito.
- Reconheci - replicou Canolles - que
tive a desgraça de lhe inspirar a mesma opinião que já tinha inspirado à senhora princesa viúva.
- Ah! - não pôde de deixar de dizer a
voz da suposta princesa, dando um suspiro de alívio.
A frase de Canolles talvez não fosse
muito lógica, e até não viesse muito a propósito; mas o golpe estava dado. Canolles observara o movimento de angústia que o interrompera, e o movimento de júbilo com que foram recebidas as suas últimas palavras.
- O que não posso - continuou o oficial -
deixar de dizer a vossa alteza, apesar do desgosto que isto lhe possa dar, é que tenho de ficar no castelo, e de acompanhar vossa alteza a toda a parte para onde queira ir.
- Deste modo - exclamou a princesa -
nem no meu quarto poderei estar só?... Oh! senhor, isso é mais do que indignidade!...
- Eu disse a vossa alteza quais eram as
minhas instruções; fique, porém, vossa alteza sossegada - ajuntou Canolles cravando um olhar penetrante na senhora da cama, e carregando em cada palavra - pois deve saber melhor do que ninguém que eu sei obedecer à súplica de uma mulher...
- Eu? - exclamou a princesa, com um
acento em que havia mais turbação do que espanto. - Na realidade, senhor, que não sei o que quer dizer; ignoro a que circunstâncias faz alusão.
- Senhora - continuou o oficial,
inclinando-se - eu julgava que o criado da câmara que me introduzira tinha dito o meu nome a vossa alteza... Eu sou o barão de Canolles.
- Ora pois! - disse a princesa, com voz
firme - que me importa isso, senhor?
- Eu acreditava que, havendo já tido a
ventura de ser agradável a vossa alteza...
- A mim?! E como assim!? Rogo-lhe que
mo diga - replicou a voz, com uma alteração que recordava a Canolles certa entoação muito irritada, mas muito receosa ao mesmo tempo, que se lhe não apagara da lembrança.
Canolles pensou que se havia
adiantado bastante; além disso, quase que estava inteirado do que pretendia averiguar.
- Não executando estritamente as
instruções que me deram - replicou ele, com ares do mais profundo respeito.
A princesa pareceu sossegada. - Senhor - disse ela - eu não quero que
incorra em falta; execute as suas instruções à risca, sejam elas quais forem.
- Senhora - replicou Canolles - por
felicidade minha, ignoro como se persegue uma mulher; e, com maior razão ainda, como se ofende uma princesa. Tenho, pois, a honra de repetir a vossa alteza o que disse à senhora princesa viúva: que sou um seu muito humilde servidor... Digne-se dar-me a sua palavra de que não sairá do castelo sem que eu a acompanhe, e ficará livre da minha presença, que, muito bem compreendo, deve ser odiosa a vossa alteza.
- Mas em tal caso, senhor - disse a
princesa com vivacidade - não executará as ordens que recebeu...
- Farei exatamente o que a minha
consciência me disser que devo fazer.
- Senhor de Canolles - disse a voz -
juro-lhe que não sairei de Chantilly sem que lho participe.
- Em tal caso, senhora - volveu Canolles
- perdoe-me por haver sido a causa involuntária da sua cólera momentânea. Vossa alteza só tornará a ver-me quando me mandar chamar.
- Os meus agradecimentos, barão -
disse a voz, com uma expressão de alegria que pareceu ecoar entre a cama e a parede. - Vá, vá, agradeço-lhe. Amanhã terei o gosto de tornar a vê-lo.
Desta vez, o barão reconheceu, sem já
poder enganar-se, a voz, os sorrisos indizivelmente voluptuosos do ente encantador que, por assim dizer, lhe escapara das mãos, aquela noite em que o cavaleiro desconhecido lhe viera entregar a ordem do duque d’Épernon. Eram aquelas subtilíssimas emanações que perfumam o ar respirado pela mulher amada, era aquele tépido vapor semelhante a um corpo cujos contornos uma alma apaixonada julga abraçar, esforço superior da imaginação, fada caprichosa que se alimenta com a idealidade, tal como a matéria com o positivo.
Uma vista de olhos que por fim lançou
ao retrato - por muito mal alumiado que este estivesse - mostrou ao barão, cujos olhos, além disso, se iam habituando àquela meia escuridão, o nariz aquilino dos Maillés, o cabelo negro e os olhos encovados da princesa, ao mesmo tempo que, diante dele, a mulher que acabava de representar o primeiro ato do papel tão difícil que tomara à sua conta, não tinha os olhos encovados, o nariz era direito, a boca um tanto aberta por hábito do sorriso, e aquelas faces arredondadas que afastam toda a idéia das laboriosas meditações.
Canolles sabia tudo quanto queria
saber; saudou-a, pois, com o mesmo respeito devido na presença da princesa, e recolheu ao seu quarto.
XVII
CANOLLES não havia tomado
qualquer resolução definitiva; e por isso, entrando no quarto, pôs-se a andar de um lado para outro, ao acaso, como costumam fazer as pessoas indecisas, sem reparar que Castorin, à espera que ele voltasse, se levantara quando o viu, e o seguia segurando nas mãos um roupão todo desdobrado, o qual lhe encobria o corpo. Castorin esbarrou num traste, e Canolles voltou-se.
- Então - disse-lhe ele - que faz aí com
esse roupão?
- Espero que o senhor dispa o fato. - Não sei quando largarei o meu fato.
Ponha esse roupão numa cadeira, e espere.
- Então o senhor não quer despir o fato?
- perguntou Castorin, que, sendo um criado caprichoso por natureza, estava naquela noite mais rabugento do que o costume. - O senhor não faz conta de se deitar?
- Não.
- Então quando faz o senhor conta de se
deitar?
- Que lhe importa isso?
- Importa-me muito, porque estou
bastante cansado.
- Ah, sim?... - disse Canolles, parando e
encarando Castori - está muito cansado?...
O gentil-homem leu visivelmente no
semblante do seu lacaio aquela expressão insolente dos criados desejosos de serem despedidos.
- Muito cansado! - disse Castorin.
Canolles encolheu os ombros. - Saia daqui - disse-lhe ele - e deixe-se
ficar na antecâmara; quando precisar de si, tocarei a campainha.
- Previno o senhor de que se tardar
muito tempo, não me encontrará já na antecâmara.
- Faça o favor de me dizer onde o
encontrarei...
- Na minha cama: parece-me que
depois de haver caminhado duzentas léguas, é muito razoável que me deite.
- Senhor Castorin - disse Canolles - é
um patife.
- Se o senhor entende que um patife
não é digno de ser seu lacaio, basta que o senhor diga uma única palavra, e eu desembaraçá-lo-ei do meu serviço - respondeu Castorin, compondo um ar majestoso.
Canolles não tinha nesse momento
paciência, e se Castorin tivesse podido vislumbrar apenas a sombra da tempestade que ia engrossando no espírito do amo, decerto que, por muita pressa que tivesse de se ver em liberdade, teria esperado outro momento para lhe fazer a proposta que acabava de proferir. Por esta razão, o gentil-homem atirou-se ao lacaio, e tomando um dos botões do seu sobretudo entre o polegar e o índex, movimento que depois se tornou familiar a um homem mais célebre do que jamais o foi Canolles, ordenou:
- Repita o que disse!
- Repito - respondeu Castorin, com a
mesma imprudência - que se o senhor não está contente comigo, eu o livrarei dos meus serviços.
Canolles largou Castorin, e foi com
toda a gravidade pegar no seu bastão, Castorin compreendeu qual era a intenção.
- Senhor - exclamou ele - tome cuidado
com o que vai fazer... Eu não sou já um simples lacaio. Estou ao serviço da princesa.
- Ah! ah! - disse Canolles, baixando o
bastão - ah! está ao serviço da princesa?...
- Sim, senhor, há um quarto de hora -
disse Castorin, endireitando-se.
- E quem o ajustou nesse serviço? - O senhor Pompeu, seu mordomo. - O senhor Pompeu?!
- Sim, senhor.
- Então porque não havia de dizer isso
logo!?... - exclamou Canolles. - Sim, sim, faz muito bem em deixar o meu serviço; e eis aqui vinte libras para indenizá-lo das bastonadas que estive a ponto de lhe dar.
- Oh! - disse Castorin, sem se atrever a
pegar no dinheiro - que quer isto dizer?... O senhor quer zombar de mim?...
- Longe de mim tal pensamento! Antes
pelo contrário: levo muito a bem que sejas lacaio da princesa, meu amigo. Diz-me somente quando é que deve começar o teu serviço.
- No momento em que o senhor me
tenha dado a liberdade.
- Pois bem! Eu dou-te a liberdade a
contar de amanhã pela manhã.
- E daqui até amanhã pela manhã? - Daqui até amanhã pela manhã,
continuas a ser meu lacaio, e deves obedecer-me.
- De muito bom grado! Que ordena o
senhor? - disse Castorin, resolvendo-se a pegar nas vinte libras.
- Ordeno, visto que tens vontade de
dormir, que te dispas e te deites na minha cama.
- Como!?... Que quer dizer com isso,
senhor?... Não posso compreendê-lo.
- Nenhuma necessidade tens de
compreender, mas sim de obedecer, eis aí tudo. Despe-te, que eu vou ajudar-te.
- Como!? O senhor quer ajudar-me?!... - Sem dúvida, pois já que vais fazer o
papel de cavaleiro de Canolles, cumpre-me fazer o de Castorin.
E sem esperar pelo acordo do seu
lacaio, o barão despiu-lhe o casaco, que logo vestiu, tirou-lhe o chapéu, que pôs na sua cabeça, e, dando duas voltas à chave, deixou-o fechado no quarto antes que tornasse a si do sobressalto, e desceu rapidamente a escada.
Canolles começara finalmente a
compreender todo este mistério, se bem que uma parte dos acontecimentos ainda se encontrassem para ele envolvidos numa densa nuvem. Tudo quanto vira, tudo quanto ouvira, de duas horas a essa parte, não lhe parecia perfeitamente natural. A atitude de toda a gente em Chantilly era compassada; parecia-lhe que quantas pessoas encontrava representavam um papel, e os incidentes tinham por base uma harmonia geral que dava a conhecer ao vigia enviado pela rainha que se não quisesse cair em algum engano, deveria ser cada vez mais vigilante.
A união de Pompeu com o visconde de
Cambes aclarava muitas dúvidas. Se algumas ainda restavam a Canolles, acabaram por se dissipar quando, assim que entrou no quarto, viu, apesar da profunda escuridão da noite, adiantarem-se quatro homens, e disporem-se a entrar pela mesma porta que acabava de franquear; e estes quatro homens eram conduzidos pelo mesmo camareiro que o introduzira nos aposentos das princesas. Outro homem, embuçado num capote, ia atrás deles.
No limiar da porta, o pequeno grupo
parou, esperando pelas ordens do homem encapotado.
- Sabe onde o alojaram - disse este, com
voz imperiosa, dirigindo-se ao camareiro. - Conhece-o bem, visto que foi quem o introduziu. Vigie-o, pois, de maneira que não possa sair. Coloque os seus homens na escada, no corredor, onde quiser, isso pouco importa, contanto que ele, sem que disso tenha a mínima suspeita, esteja guardado, em vez de ser ele quem guarde a suas altezas.
Canolles ocultou-se cuidadosamente no
ângulo em que a noite lançava a sua sombra mais densa; dali, sem que o enxergassem, viu desaparecer debaixo da abóbada os cinco guardas que lhe eram destinados, enquanto o homem encapotado, depois de se ter certificado de que executavam as suas ordens, voltou pelo mesmo caminho por onde viera.
"Isto nada me diz; preciso de muito
mais para me esclarecer - pensou Canolles, seguindo-o com os olhos - pois talvez que o despeito os obrigue a pagarem-me na mesma moeda. O pior de tudo é se aquele diabo do Castorin se põe a gritar, a chamar, e se faz alguma asneira!... Fiz mal em não lhe pôr uma mordaça. Agora, desgraçadamente, já é tarde. Vamos, iniciemos a nossa ronda."
No mesmo instante, Canolles, depois
de lançar em torno um olhar investigador, atravessou o pátio, e chegou à ala do edifício por detrás da qual estavam situadas as estrebarias.
Toda a vida do castelo parecia ter-se
refugiado nesta parte do edifício. Ouvia-se o estrépito dos cavalos e os passos apressados da gente. A casa dos arreios retumbava com o tinido dos freios e dos jaezes. Tiravam as carroças das cocheiras; e algumas vozes, sufocadas pelo susto, mas cujo sentido se podia colher aprestando o ouvido, chamavam-se mutuamente e respondiam-se.
Canolles ficou um momento à escuta.
Não podia ter a mínima dúvida: tudo se aprontava para uma partida.
Atravessou todo o espaço
compreendido entre uma e outra ala, meteu-se por baixo de uma abóbada, e chegou à fachada do castelo, onde parou.
Com efeito, as janelas térreas brilhavam
com uma luz muito viva, e, portanto, era fácil adivinhar que grande quantidade de tochas estavam acesas no interior delas; e como essas tochas se moviam de um lado para o outro, derramando grandes sombras e largas listras luminosas pela relva do jardim, Canolles compreendeu que ali estava o centro da atividade, e ali era o foco da empresa.
A princípio, Canolles hesitou em
surpreender o segredo que lhe queriam ocultar, mas em breve refletiu que o seu título de enviado da rainha, e a responsabilidade que lhe impunha esta comissão, o desculpavam, mesmo para com as consciências mais escrupulosas.
Adiantando-se, portanto, com
precaução, e cosido à parede, cuja base era tanto mais escura quanto mais resplandecentes estavam as janelas à altura de seis ou sete pés do chão, subiu a um pilar, pousou os pés num ressalto da parede, agarrou-se com uma das mãos a uma argola, e com outra à borda da janela, e por um canto da vidraça lançou um olhar penetrante, e o mais atento que jamais tinha penetrado no recinto de uma conspiração.
Eis o que viu:
Junto de uma mulher em pé, e que
pregava o último alfinete destinado a segurar na cabeça o seu chapéu de viagem, algumas criadas acabavam de vestir um menino em trajos de caça; o menino tinha as costas voltadas para Canolles, que apenas viu o seu cabelo louro. A senhora, porém, cujo rosto era alumiado pelo clarão de dois candelabros de seis braços que a ambos os lados do toucador dois criados em pé seguravam, semelhantes a cariátides, ofereceu aos olhos de Canolles o original exato daquele retrato que há pouco vira na parede do quarto da princesa: era, na realidade, o rosto comprido, a boca severa, o nariz aquilino e imperioso de mulher cuja viva imagem Canolles agora reconhecia: o seu gesto atrevido, o seu olhar cintilante, os movimentos arrebatados da sua cabeça, tudo nela denunciava a soberania. Nos que a rodeavam, pelo contrário, as saudações, a precipitação em trazer-lhe o objeto pedido, a prontidão em responder à voz da sua soberana - tudo dava mostras de obediência.
Alguns oficiais da casa, entre os quais
Canolles reconheceu o camareiro, metiam em malas, em baús e em caixotes, jóias, dinheiro, etc; e outros guardavam o grande arsenal das mulheres, a que se dá o nome de toucador. O principezinho, durante este tempo, brincava e corria por entre os atarefados criados. Por uma fatal singularidade, porém, Canolles não pôde ver-lhe o rosto.
"Eu bem suspeitava - disse ele entre
dentes. - Zombam comigo; esta gente faz preparativos de partida. Sim, mas eu, com um aceno, posso converter esta cena de logro em cena de luto, para isto não me é preciso mais do que subir ao terraço, tocar três vezes este apito de prata, e dentro de cinco minutos, ao áspero som que ele der, duzentos homens penetrarão neste castelo, prenderão as princesas, e darão garrote a todos estes oficiais que riem sorrateiramente. Pois é - continuou Canolles, e agora falava com o coração e não com os lábios - pois é, mas aquela que dorme lá em baixo, ou finge dormir, perdê-la-ia para sempre... olhar-me-ia com ódio, e desta vez com um ódio bem merecido. Mas ainda não é tudo: desprezar-me-ia, dizendo que levei até ao fim o meu ofício de espião, e, contudo, visto que ela obedece à princesa, por que razão não havia eu de obedecer à rainha?..."
Neste momento, como se o acaso
tivesse querido combater este impulso de resolução, abriu-se uma porta do quarto de vestir da princesa, e duas pessoas, um homem de cinqüenta anos e uma mulher de vinte, entraram muito alegres e apressados. Ao ver isto, o coração de Canolles parecia querer-lhe subir aos olhos. Acabava de reconhecer o belo cabelo, os lábios frescos, e os olhos inteligentes do visconde de Cambes, que, sorrindo ainda, foi beijar respeitosamente a mão de Clemência de Maillé, princesa de Conde. A única diferença consistia em que o visconde tinha o trajo próprio do seu verdadeiro sexo, e era agora a mais encantadora viscondessa que se poderia imaginar.
Canolles teria dado dez anos de vida
para ouvir a conversa; mas em vão aplicava o ouvido à vidraça: nada mais ouvia do que um sussurro ininteligível. Viu que a princesa fazia um gesto de despedida à jovem senhora, e a beijava na testa, recomendando-lhe alguma coisa que fazia rir todas as pessoas que a rodeavam, e que, depois, esta última voltava para os quartos de cerimônia com alguns oficiais subalternos, que vestiram uniformes de oficiais superiores; até viu que o digno Pompeu, que, inchado de orgulho, com uma farda cor de laranja agaloada de prata, inclinando-se airosamente com uma enorme farrusca à cinta, acompanhava sua ama, a qual levantava com suma graça o longo vestido de cetim; depois, à esquerda, por uma porta oposta, principiou a desfilar sem ruído a escolta da princesa, e esta também começou a sua marcha, não parecendo uma mulher fugitiva, mas sim uma rainha; após ela, seguiu o escudeiro Vialas, levando ao colo o pequeno duque de Enghien, envolvido num capote, Lenet, tendo nas mãos um cofre lavrado, e alguns maços de papéis, e, por fim, o capitão do castelo, fechando a marcha, que era aberta por dois oficiais com as espadas desembainhadas.
Toda esta gente saiu por um corredor
secreto; Canolles saltou logo do seu observatório, e correu para a abóbada, cujas luzes se haviam, entretanto, apagado; viu então passar todo o acompanhamento encaminhando-se em silêncio para as estrebarias; iam pôr-se a caminho.
Neste momento, a idéia dos deveres
que lhe eram impostos pela comissão de que a rainha o encarregava apresentou-se ao espírito de Canolles. Esta mulher que estava ao ponto de sair era a guerra civil armada, que ele deixava escapar, e que de novo ia dilacerar as entranhas da França. Nenhuma dúvida havia que para um homem não era vergonhoso ser o espião e o carcereiro de uma mulher, porque também era uma mulher aquela senhora de Longueville que largara fogo aos quatro cantos de Paris.
Canolles voou para o terraço que
dominava o parque e chegou aos lábios o apito de prata.
Gorados ficavam todos estes preparativos. A senhora de Conde não teria saído de Chantilly, ou, se o fizesse, não teria caminhado cem passos, sem que ela e a sua escolta fossem envolvidas por uma força três vezes superior; deste modo, Canolles desempenhava a sua comissão sem correr o menor risco; deste modo, de um só golpe, destruía a fortuna e a sorte futura da casa de Conde; e com este mesmo golpe, sobre as ruínas desta casa, estabelecia a sua própria fortuna, e fundava a sua sorte futura, como outrora o haviam feito os Vitrys e os Luynes, e, recentemente, os Guitauts e os Miossens, em circunstâncias talvez menos importantes para a salvação da realeza.
Canolles, porém, levantou os olhos
para o quarto onde, debaixo de cortinas de veludo vermelho, brilhava, doce e melancólico, o clarão da lâmpada noturna que estava acesa na câmara da falsa princesa, e julgou que via desenhar-se aquela sombra querida no forro branco do cortinado. Então todas as resoluções do raciocínio, todos os cálculos do egoísmo, desapareceram ante este raio de agradável luz, como à primeira claridade do dia desaparecerem todos os sonhos e todos os fantasmas da noite.
"Mazarino - disse ele com um impulso
apaixonado - é suficientemente rico para perder todos estes príncipes e todas estas princesas que lhe escapam; mas eu não sou tão rico que possa perder o tesouro que desde já me pertence, e que guardarei, zeloso como um dragão. Agora ela está só, em meu poder, e dependendo de mim; a todas as horas do dia e da noite posso entrar no seu quarto; não fugirá sem que mo diga, porque assim mo prometeu, dando-me a sua palavra sagrada. Que me importa a mim que a rainha seja enganada e que Mazarino se enfureça! Disseram-me que guardasse a princesa de Conde; eu guardo-a. Por que razão não me deram os seus sinais, ou encarregaram algum espião mais hábil do que eu?..."
E Canolles tornou a meter o apito na
algibeira. Ouviu ranger os gonzos, rodar as carruagens ao longe, na ponte do parque, e ir diminuindo o estrépito da cavalgada; depois, quando tudo tinha desaparecido, visão e rumores, sem se lembrar de que acabava de pôr em jogo a sua vida contra o amor de uma mulher, isto é, contra a sombra da ventura, introduziu-se no pátio deserto e subiu com cautela a escada, onde reinava, como na abóbada, a mais profunda escuridão.
Apesar, porém, de todas as suas
precauções, Canolles não pôde evitar, ao chegar ao corredor, o encontro com alguém em quem esbarrou, e que parecia estar a escutar à porta - e que deu um grito de terror.
- Quem! ? Quem é! ? - perguntou a
personagem, com voz assustada.
- E o senhor quem é - disse Canolles -
que se introduz como um espião nesta escada?...
- Eu sou Pompeu.
- O mordomo da princesa? - Sim! Sim! O mordomo da princesa. - Ah! que feliz casualidade! - disse o gentil-homem; - eu sou Castorin.
- Castorin, o criado do barão de
Canolles?...
- Ele mesmo em pessoa.
- Ah! meu caro Castorin - disse Pompeu
- aposto que lhe meti grande susto...
- A mim?
- Sim; e não é de admirar, visto que
nunca foi soldado! Posso ser-lhe útil em alguma coisa, meu querido amigo? - continuou Pompeu, tomando um certo ar de importância.
- Sim.
- Fale então.
- Pode ir anunciar agora mesmo à
princesa que meu amo lhe deseja falar?
- A esta hora?
- Assim é preciso.
- É coisa impossível!
- Assim o julga?
- Estou certo disso.
- Então não quererá receber meu
amo?...
- Não, decerto...
- Da parte do rei, Pompeu; vá dizer-lhe
isto.
- Da parte do rei! - exclamou Pompeu. -
Eu lá vou, eu lá vou.
E Pompeu desceu impetuosamente a
escada, estimulado ao mesmo tempo pelo respeito e pelo medo - dois galgos que são capazes de fazer correr uma tartaruga.
Canolles foi continuando o seu
caminho, e recolheu-se ao quarto, onde foi dar com Castorin, que ressonava estendido magistralmente numa grande poltrona. Tornou a vestir o seu uniforme de oficial, e aguardou o resultado do passo que ele próprio acabava de dar.
"Pela minha fé! - disse consigo - se não
dou boa conta dos negócios de Mazarino, dos meus parece-me que não dou má."
Canolles esperou debalde a volta de
Pompeu; mas, passados dez minutos, vendo que não chegava, nem pessoa alguma em lugar dele, tomou a resolução de se ir apresentar só.
Acordou portanto Castorin, cuja bílis
uma hora de sono havia serenado, ordenou-lhe que estivesse pronto, sucedesse o que sucedesse, em tom que não admitia réplica, e encaminhou-se para os aposentos da princesa.
O barão encontrou à porta um criado
de muito mau humor, porque acabava de ouvir tocar a campainha no momento em que terminava o seu serviço, em que julgava por fim, como Castorin, que ia principiar um sono restaurador de um dia de tamanha fadiga.
- Que quer, senhor? - perguntou o
criado ao ver aproximar-se Canolles.
- Quero fazer os meus cumprimentos à
princesa de Conde.
- A esta hora, senhor?!
- Então que horas são?
- A mim parece-me que é muito tarde. - Que diz, insolente?
- Contudo, senhor... - disse entre dentes o lacaio.
- Eu não peço, eu quero! - bradou
Canolles, em tom de suprema altivez.
- O senhor quer... Aqui só a princesa
governa.
- O rei governa em toda a parte... Da
parte do rei!
O lacaio estremeceu e baixou a cabeça. - Perdoe-me, senhor - disse ele - mas eu
não passo de um pobre criado; não posso, portanto, tomar a responsabilidade de abrir a porta do quarto da princesa; permita-me que vá acordar um camareiro.
- Os camareiros costumam deitar-se às
onze horas no castelo de Chantilly…
- Andaram na caça todo o dia -
balbuciou trêmulo o lacaio.
"É muito justo - disse em voz baixa
Canolles. - É preciso dar-lhes tempo para que vistam a farda de camareiro a alguém." Depois, em voz alta:
- Muito bem; vá, que eu espero aqui. O lacaio partiu a correr, e foi dar rebate no castelo, onde já Pompeu, assustado com o mau encontro que tivera, acabava de derramar um indizível espanto.
Canolles, ficando só, prestou ouvidos e
abriu os olhos.
Ouviu então correr pelas salas e pelos
corredores; viu, ao clarão das luzes quase apagadas, homens armados de mosquetes colocarem-se nos ângulos das escadas; enfim, sentiu em toda a parte um murmúrio ameaçador substituir o silêncio da estupefação que um momento antes reinava no castelo.
Canolles levou a mão ao apito, e
chegou-se a uma janela, através de cujos vidros descobria, destacando-se como uma sonora e nebulosa massa, o cimo das corpulentas árvores junto das quais mandara emboscar os duzentos homens que trouxera consigo.
"Não - disse ele. - Disto havia de
resultar infalivelmente um combate, o que de modo nenhum me convém; vale mais esperar; o pior que me pode acontecer, esperando, é ser assassinado, ao passo que, se me apresso, posso deitá-la a perder..."
Ainda bem Canolles não tinha acabado
de fazer esta reflexão, viu abrir-se uma porta e aparecer uma nova personagem.
- A princesa não está visível - disse o
recém-chegado, com uma precipitação que nem sequer lhe deu tempo para saudar o gentil-homem. - Está na cama, e deu ordem para que não deixasse entrar na sua câmara pessoa alguma.
- Quem é você? - perguntou Canolles,
medindo dos pés à cabeça esta estranha personagem - e quem lhe deu o atrevimento de falar a um gentil-homem com o chapéu na cabeça?...
E com a ponta do bastão, Canolles fez-
lhe saltar o chapéu da cabeça.
- Senhor!... - exclamou o outro,
recuando altivamente o passo.
- Perguntei-lhe quem é... - replicou
Canolles.
- Sou... - respondeu ele - sou, como
pode ver pelo meu uniforme, o capitão das guardas de Sua Alteza.
Canolles sorriu.
Com efeito, tivera tempo de apreciar
com a vista o homem que assim lhe falava, e reconhecera que não podia deixar de ser algum despenseiro ou copeiro de barriga larga; algum robusto criado envolvido num sobretudo de oficial, a quem a falta de tempo, ou a sua barriga avantajada, não permitia que se compusesse devidamente.
- Muito bem, capitão da guarda - disse
Canolles - levante o seu chapéu do chão e responda.
O capitão executou a primeira parte do
mandado de Canolles, como homem que tinha estudado aquela bela máxima da disciplina militar: "Para saber comandar, é mister saber obedecer."
- Capitão da guarda... - continuou
Canolles - cáspite! É um belo posto!
- Sim, senhor, não há dúvida que é belo; e que mais? - disse o indivíduo, empertigando-se.
- Não se enfune tanto, capitão - disse
Canolles - se não quer rebentar o último dos seus atacadores, e ver caírem-lhe aos pés os calções, o que seria um desastre.
- Mas enfim, quem é o senhor? -
perguntou o suposto capitão, interrogando, por seu turno.
- Senhor, seguirei o exemplo de
urbanidade que me deu, e responderei à sua pergunta como respondeu à minha. Sou capitão no regimento de Navaille, e venho como embaixador em nome do rei, revestido de um caráter pacífico ou violento, segundo obedecerem ou desobedecerem às ordens de Sua Majestade.
- Violento, senhor?!... - exclamou o falso
capitão. - Um caráter violento?!...
- Muito violento! Assim lhe asseguro! - Até em sua casa Sua Alteza não é a
primeira súdita de Sua Majestade? Senhor, aconselho-o a que não queira valer-se da força: eu tenho cinqüenta homens prontos a vingar a honra de Sua Alteza.
Canolles não lhe quis dizer que os seus
cinqüenta homens não eram mais do que outros tantos lacaios e ratos de cozinha, dignos de servirem sob as ordens de um tal capitão, e que, relativamente à honra da princesa, àquela hora ia correndo com ela pela estrada de Bordéus. Contentou-se em responder-lhe com aquele sangue-frio mais temível que uma ameaça, e que tão habitual é nos homens bravos e acostumados aos perigos:
- Se tem cinqüenta homens de armas,
capitão, eu tenho duzentos, que são a vanguarda de um exército real. Está decidido a pôr-se em rebelião aberta contra Sua Majestade?...
- Não, senhor, não! - respondeu com
viveza o homem rechonchudo, muito humilhado. - Deus tal não permita! Mas peço-lhe que me sirva de testemunha em como eu só à força cedo.
- É na realidade o menos que lhe
proporcionaria, na qualidade de camarada.
- Ora, pois, conduzi-lo-ei ao quarto da
princesa viúva que ainda não pegou no sono.
Canolles não teve necessidade de
refletir para avaliar o medonho perigo que lhe oferecia esta cilada; mas dela se livrou arrebatadamente com o socorro da sua onipotência.
- Não tenho ordem de procurar a
princesa viúva, mas sim a princesa donzela.
O capitão das guardas abaixou outra
vez a cabeça, imprimiu um movimento retrógrado às suas grossas pernas, arrastou a comprida espada pelo sobrado, e tornou a passar majestosamente o limiar da porta, por entre duas sentinelas que tremiam, durante esta cena, e a quem o anúncio da chegada de duzentos homens esteve a ponto de fazer abandonar o posto, tão pouco dispostos estavam a ser mártires da fidelidade no castelo de Chantilly.
Passados dez minutos, o capitão, seguido de dois guardas, voltava com inumeráveis cerimônias para acompanhar Canolles ao quarto da princesa, em cuja câmara foi introduzido sem ter de sofrer novas delongas.
Canolles reconheceu o quarto, os
móveis, o leito e até o perfume daquela câmara, que muito bem havia observado. Mas em vão buscou duas coisas: o retrato da verdadeira princesa, que vira na sua primeira visita, e que abrira o seu pensamento à primeira suspeita do logro em que queriam fazê-lo cair, e o rosto da falsa princesa, pela qual acabava de fazer um tamanho sacrifício. O retrato, haviam-no tirado dali; e por uma precaução um tanto tardia, e sem dúvida em conseqüência desta mesma precaução, o rosto da pessoa deitada na cama estava voltado para a parede, como se tivesse em pouca conta quem a procurava.
Duas mulheres estavam em pé no
espaço entre o leito e a parede.
O gentil-homem teria de boa vontade desculpado esta falta de atenção; mas, como receasse que alguma nova substituição permitisse à senhora de Cambes fugir como tinha fugido a princesa, os cabelos arrepiaram-se-lhe na cabeça, e quis no mesmo instante certificar-se da identidade da pessoa que ocupava o leito, chamando em seu socorro o poder supremo de que o revestia a sua comissão.
- Senhora - disse ele, inclinando-se
profundamente - peço perdão a Vossa Alteza de vir deste modo à sua presença, e sobretudo depois de haver dado a minha palavra de que esperaria pelas suas ordens: mas acabo de ouvir um ruído no castelo, e...
A pessoa deitada estremeceu, mas não
respondeu. Canolles buscou algum sinal pelo qual pudesse reconhecer se na verdade a pessoa que buscava era a que tinha diante dos olhos; no meio das ondulações das rendas, na macia espessura dos colchões e das cortinas, foi-lhe todavia impossível reconhecer mais do que a forma de uma pessoa deitada.
- E - continuou Canolles - é dever meu,
de que me não posso dispensar, certificar-me de que neste leito se encontra a mesma pessoa com quem tive a honra de conversar há meia hora.
Desta vez não foi já um simples
estremecimento, mas sim um verdadeiro movimento de terror. Este movimento não escapou a Canolles, que com ele se assustou.
"Se ela me enganou - disse consigo - se
apesar da palavra solene que me deu, fugiu, eu saio do castelo, monto a cavalo, ponho-me à frente dos meus duzentos homens, e alcanço decerto os fugitivos ainda que tenha de lançar fogo a trinta aldeias para alumiar o meu caminho!"
Canolles ainda esperou um momento,
mas a pessoa deitada nem respondeu nem se voltou; era evidente que queria ganhar tempo.
- Senhora - disse por fim Canolles, com
uma impaciência que não tinha já a coragem de dissimular - rogo a Vossa Alteza que se queira lembrar de que sou o enviado do rei, e que em nome do rei reclamo a honra de ver o seu rosto.
- Oh! que insuportável inquirição!-
disse então uma voz trêmula, e que fez estremecer de alegria o jovem oficial, porque acabava de reconhecer o som de uma voz, que nenhuma outra podia imitar. - Se, como diz, senhor, é o rei quem o obriga a proceder assim, o rei, que não é mais do que uma criança, ainda não sabe quais são os deveres de um gentil-homem; obrigar uma mulher a mostrar o rosto é fazer-lhe o mesmo insulto que, estando mascarada, se lhe arrancasse a máscara.
- Senhora, há uma palavra ante a qual
se curvam os homens quando esta palavra vem do destino; é preciso.
- Ora, pois, já que é preciso - disse a
jovem senhora - já que estou só e sem defesa contra a ordem do rei e a exigência do seu mensageiro, obedeço, senhor: olhe-me!
Então, um movimento arrebatado
desviou o baluarte de travesseiros, de cobertas e de rendas que a defendia, e através da brecha improvisada, como o vermelhão mais de pudor do que de indignação, apareceu a cabeça loura e o rosto encantador que de antemão haviam sido denunciados pela voz. Com o rápido olhar do homem habituado a avaliar situações, senão semelhantes, pelo menos equivalentes, Canolles ficou certo de que não era a cólera o que conservava baixos aqueles olhos velados por pestanas de veludo, e que fazia tremer aquela mão que sustinha, sobre um pescoço de nácar, as ondas de um cabelo fugitivo e a cambraia dos lençóis perfumados.
A falsa princesa ficou um instante nesta
posição, que teria desejado tornar ameaçadora, mas que só saíra irritada, enquanto Canolles fixava os olhos, respirando deliciosamente e comprimindo com ambas as mãos as pulsações do seu coração, que pulava de alegria.
- Ora, pois, senhor - disse, passados
alguns segundos, a formosa perseguida - não será suficientemente grande a minha humilhação? Examinou-me à sua vontade? Que mais quer? Não é completo o seu triunfo?... Seja, pois, um vencedor generoso, peço-lhe que se retire.
- Bem o quisera, senhora, mas cumpre-
me desempenhar as minhas instruções até ao fim. Só preenchi, até agora, a parte da comissão que diz respeito a Sua Alteza; mas não é bastante tê-la visto, é preciso que veja agora o duque de Enghien.
A estas palavras, pronunciadas no tom
do homem que tem o direito de mandar e quer ser obedecido, sucedeu um terrível silêncio. A falsa princesa levantou-se um pouco, apoiando-se na mão, e fixou em Canolles um daqueles olhares estranhos que pareciam ser somente próprios dela, tantas eram as coisas neles contidas ao mesmo tempo. Este queria dizer: "Reconheceu-me? Sabe quem eu sou, na realidade?... Se o sabe, poupe-me, perdoe-me; é o mais forte, compadeça-se de mim!"
Canolles compreendeu tudo quanto
este olhar queria dizer, mas endureceu-se contra a sedutora eloqüência, e respondeu-lhe de viva voz:
- É impossível, senhora - disse ele. - A
ordem é precisa.
- Faça-se, pois, tudo à sua vontade,
como o deseja, senhor, visto que não tem a mínima condescendência, nem para com a posição, nem para com a graduação; vá, estas senhoras o encaminharão ao príncipe meu filho.
- Estas senhoras - disse Canolles - não
poderiam, em vez de encaminhar-me a seu filho, trazê-lo para junto de Vossa Alteza? Isto, no meu entender, seria infinitamente melhor. Porque, durante esse tempo, eu darei a saber a Vossa Alteza uma parte da minha comissão, que só a si pode ser comunicada.
- A mim só?...
- A si só - respondeu Canolles, com uma cortesia mais profunda do que nenhuma das que já fizera.
Desta vez, os olhos da princesa, que
haviam sucessivamente passado da dignidade à súplica, e da súplica à inquietação, cravaram-se em Canolles com a fixidez do terror.
- Que pode haver nesta conferência
privada entre nós que tanto a assuste, senhora? - disse Canoles. - Não é princesa, e não sou eu gentil-homem?
- Sim, tem razão, senhor, e eu não tenho
de que recear. Sim, apesar de ser esta a primeira vez que tenho o gosto de vê-lo, a fama da sua cortesia e da sua lealdade tem chegado aos meus ouvidos. Vão buscar, senhoras, o duque de Enghien, e voltem aqui com ele.
As duas mulheres afastaram-se da
cama, adiantaram-se para a porta, voltaram-se ainda uma vez, para saberem se esta ordem era bem positiva, e a um aceno que confirmava as palavras da ama, ou pelo menos da que fazia as suas vezes, saíram do quarto.
Canolles seguiu-as com a vista até que
tivessem fechado a porta. Depois, fixou na suposta princesa os seus olhos cintilantes de alegria.
- Vejamos - disse esta, sentando-se na
cama e cruzando os braços - senhor de Canolles, porque me persegue deste modo?
E, dizendo isto, encarava o jovem
oficial, não com aquele olhar altivo de princesa, que ensaiara, e que não lhe fora de vantagem alguma, mas, pelo contrário, com uma expressão tão tocante e tão significativa, que todos os encantadores incidentes do primeiro encontro, todos os embriagantes episódios do caminho, todas as recordações daquele amor nascente, tudo, enfim, surgiu de tropel, envolvendo com embalsamados vapores o coração do barão.
- Senhora - disse ele, dando um passo
para o leito - eu a quem persigo em nome do rei é à princesa de Conde, e não a si, que não é a senhora princesa.
Aquela a quem estas palavras eram
dirigidas deu um leve grito, tornou-se muito pálida, e levou uma das mãos ao coração.
- Então, senhor, que quer dizer, e quem
pensa que eu sou!? - exclamou ela.
- Oh! quanto a isso - replicou Canolles -
ver-me-ia embaraçado se tivesse de lho explicar, pois seria talvez capaz de jurar que é o mais belo visconde, se não fosse a mais adorável viscondessa.
- Senhor! - disse a falsa princesa, com a
esperança de impor respeito a Canolles, recordando-lhe a sua dignidade - de tudo o que me diz só compreendo uma coisa - e é que me desobedece, que me insulta!
- Senhora - volveu Canolles - não
faltemos ao respeito que a Deus devemos quando o adoramos; não insultemos os anjos quando ante eles nos ajoelhamos.
E, dizendo estas palavras, Canolles
inclinou-se como se quisesse ajoelhar.
- Senhor! - impediu-o com viveza a viscondessa, detendo Canolles. - Senhor! A princesa de Conde não pode consentir...
- A princesa de Conde, senhora -
respondeu este - vai a estas horas correndo num cavalo, com o seu escudeiro Vialas, ao lado de Lenet, seu conselheiro, com os seus gentis-homens, com os seus capitães, e com toda a sua casa - enfim, vai correndo, digo, pela estrada de Bordéus, e nada tem com o que se passa agora entre o barão de Canolles e o visconde ou viscondessa de Cambes.
- Mas... que diz, senhor!?... Dar-se-á o
caso de ter perdido o juízo!?
- Não, senhora, eu só digo o que vi,
nem faço mais do que contar o que ouvi.
- Então, se já viu e ouviu o que diz, a
sua comissão deve estar terminada...
- Como pode crer em tal, senhora!?
Será, pois, preciso que eu volte para Paris, e que vá confessar à rainha, que para não desagradar a uma mulher a quem amava (eu não nomearei ninguém, senhora: não me olhe, portanto, com olhos coléricos), não cumpri as suas ordens, consenti que fugisse a sua inimiga, fechei os olhos ao que via, atraiçoei enfim... sim, atraiçoei a causa do meu rei?!...
A viscondessa pareceu comovida e
olhou o barão com uma compaixão quase terna.
- Não terá a melhor desculpa de todas -
disse ela - que é a impotência? Podia, sozinho, deter a escolta respeitável da princesa?... Tinham-lhe ordenado que combatesse sozinho contra cinqüenta gentis-homens...
- Não - volveu Canolles, abanando a
cabeça. - Tinha, e tenho ainda, ali no bosque, a quinhentos passos de nós, duzentos soldados que posso reunir com uma só apitadela; nenhuma dificuldade, portanto, se me apresentava para deter a princesa, que, pelo contrário, nenhuma resistência podia opor. E, além disso, que a minha escolta fosse mais fraca do que a dela, em vez de ser quatro vezes mais forte, eu sempre podia combater, sempre podia fazer-me matar combatendo; isso ter-me-ia sido tão fácil - continuou o mancebo, inclinando-se cada vez mais - quanto seria doce tocar esta mão, se a isso me atrevesse.
Com efeito, aquela mão em que o barão
cravava olhos ardentes, aquela mão fina, fofa e branca, aquela mão aristocrática que caía fora da cama, estremecia a cada palavra que saía da boca do mancebo. A viscondessa, cega ela mesma por aquela eletricidade do amor, cujos efeitos ela sentira na pequena estalagem de Jaulnay, não pôde lembrar-se de que devia recolher a mão que proporcionara a Canolles um ponto tão feliz de comparação; esqueceu-se, portanto, dela, e o jovem oficial, deixando-se cair de joelhos, imprimiu a sua boca com voluptuosa timidez na mão, que ao sentir o contacto dos seus lábios, se retirou como se um ferro em brasa lhe houvesse tocado.
- Eu agradeço-lhe, senhor de Canolles -
disse a jovem senhora. - Sim, do íntimo do coração, agradeço-lhe quanto a meu favor fez; creia que jamais o esquecerei. Duplique, porém, o preço do serviço que me rendeu, e apreciando a minha melindrosa situação, retire-se. Não temos nós de separarmo-nos, visto que a sua comissão está terminada?...
Este nós, pronunciado com uma ênfase
tão meiga que parecia ter alguma sombra de pesar, fez vibrar dolorosamente as fibras mais secretas do coração de Canolles. Com efeito, o sentimento de dor quase sempre existe no fundo das grandes alegrias.
- Obedeço-lhe, senhora - disse ele. - Far-
lhe-ei somente observar, não para deixar de lhe obedecer, mas sim para talvez lhe evitar um remorso, que se lhe obedecer fico perdido. No momento em que eu confessar a minha falta, e ficarem certos de que não fui enganado, serei vítima da minha condescendência. Declaram-me traidor; encerram-me na Bastilha... e quem sabe se não serei fuzilado... E tudo isso é coisa muito natural, porque fui um traidor.
Clara deu um grito, e pegou ela mesmo na mão de Canolles, que logo tornou a deixar cair com uma graça encantadora.
- Que faremos nós então? - disse ela. O coração do mancebo dilatou-se:
aquele bem-aventurado nós vinha a ser decididamente a fórmula favorita da senhora de Cambes.
- Perdê-lo, a si, que tão generoso é?! -
continuou ela. - Perdê-lo, eu?! Oh! nunca, nunca! A que preço posso eu salvá-lo? Fale, fale!
- Seria preciso, senhora, que me
permitisse representar o meu papel até ao fim. Seria preciso, como lhe disse, que parecesse haver sido enganado por si, e que desse conta a Mazarino do que vejo, e não do que sei.
- Sim, mas se descobrissem que por
amor de mim faz tudo isto, se chegassem a saber que nós já nos tínhamos encontrado noutra parte, que já me tinha visto, eu é que, por meu turno, ficaria perdida; pondere bem!
- Senhora - volveu Canolles, com uma melancolia perfeitamente representada - à vista do seu ar tão frio, da sua dignidade, que tão pouco lhe custa a manter na minha presença, não creio que deixasse escapar um segredo, que, além disso, no seu coração pelo menos, não existe.
Clara guardou silêncio, mas um olhar
fugitivo, um imperceptível sorriso, que a seu pesar escapava à bela presa, responderam a Canolles, de modo, que este se convenceu de que era o mais feliz dos homens.
- Terei, pois, de aqui ficar? - perguntou
ela, com um indizível sorriso. - Já que assim é preciso!...
- Nesse caso vou escrever a Mazarino. - Sim, mas não perca tempo, vá já. - Como assim?...
- Digo-lhe que trate de lhe escrever. - Não posso fazê-lo: é preciso que eu
lhe escreva daqui, do seu quarto; é preciso que eu date a minha carta de junto à sua cama.
- Mas isso não é decente...
- Eis as minhas instruções, senhora:
leia-as...
E Canolles apresentou um papel à
viscondessa, que leu:
O barão de Canolles guardará à vista a
princesa, e o duque de Eughien seu filho.
- À vista - disse Canolles. - À vista... não há dúvida que estas
palavras estão aqui.