A ironia e suas refrações

Camila da Silva Alavarce · Capítulo 8 de 9

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A ironia e suas refrações

Considerações finais

 

A ironia, o riso e a paródia podem ser descritos como discursos tentadores. Lançam no texto sua estrutura ambivalente e aguardam com ansiedade que o sujeito se dê conta de seu traço dual. Essas modalidades sinalizam, acenam, provocam obstinadamente todo aquele que se aventura a encará-las frente a frente em sua complexidade. Desafiam sutilmente a razão do sujeito que agora, em face desses artifícios minuciosamente arranjados, está fadado a desnudar a incongruência inesperada. Ou não. Essas categorias são assimétricas, privilegiam a sugestão, o silêncio, o não dito.

Por se caracterizarem desse modo peculiar, o riso, a paródia e a ironia despertam em seus receptores sensações adversas. Os que desvelam a sua cilada experimentam o céu, deleitam-se, acham-se mais capazes intelectualmente: provocados, sentem que corresponderam ao desafio. Em contrapartida, uma sensação de embaraço nos invade sempre que, chamados, não estivemos atentos ao convite dessa espécie de textos, seja por distração, seja por não compartilhar um determinado repertório. Na verdade, sabemos que não deveria ser assim; no entanto, também estamos cientes de nossas vaidades...

Reiteramos no decorrer de toda a investigação que o sujeito é o elemento central dos textos que contemplam a ironia, a paródia e o riso. Somente ele pode fazer acontecer esses discursos. O receptor dessas modalidades de estudo deve comportar-se como alguém que investiga um caso muito intrigante, repleto de provas controversas, desafios e propostas tentadoras. Ele – o sujeito – deverá sinalizar, com base nos “fatos” do texto, a “verdade” e a manipulação.

Nesse sentido, o sujeito experimenta a sensação desconfortável de se localizar no limiar entre o implícito e o explícito, entre o sub-reptício e o literal, entre os subterrâneos e a superfície do texto. Constitui-se como tarefa do receptor dessas estruturas ambíguas assinalar uma possibilidade do “certo” e do duvidoso para um contexto determinado. Para tanto, deve exercitar sua razão, perscrutando os labirintos de seu saber, a fim de despojar as mensagens de sua roupagem irônica, revelando-as, colocando-as, pois, à vista.

Vimos que o desafio proposto ao sujeito pelo riso, pela ironia e pela paródia está muito próximo da provocação com que somos confrontados pela própria arte – no caso, a literária. Logo, a admiração e a surpresa – sensações comuns àquele que se depara com as categorias aqui estudadas e que as decodifica – estão relacionadas intimamente com a literatura, sobretudo no que se refere às funções estética e catártica, inerentes à arte de um modo geral.

Pensando nisso, de modo semelhante ao que se dá com a literatura, os discursos investigados ao longo da presente pesquisa propiciam ao sujeito – quando descobertos – a experiência do prazer estético e da purificação ou catarse. Conforme comentamos no capítulo 5, é pertinente concluir, após tais considerações, que a paródia, a ironia e o riso podem ser pensados como “micro-mímesis” ou “microrrepresentações” inseridas na “mímesis-maior”, que seria a própria obra literária.

A literatura – representada em nosso trabalho pelas categorias do riso, da paródia e da ironia – desperta no sujeito o desejo e a possibilidade de transcender a sua realidade previsível e mergulhar no impensado, no imprevisto. Assim, por meio da razão – condição necessária para todo esse processo – o indivíduo é estimulado a lançar um olhar mais genuíno e espontâneo para a realidade, tornando factível a ideia de alargar o seu saber.

Portanto, essas categorias de linguagem tão complexas e fascinadoras facilitam o contato do ser humano consigo mesmo: com seu saber e, ainda, com seu não saber. São discursos que perturbam o sujeito, uma vez que o incitam a lançar um olhar atento sobre si mesmo, em busca de seu repertório. E isso mesmo nas ocasiões em que esbarramos em nossa limitação racional e não conseguimos compreender os sinuosos caminhos da ironia. Ainda quando engolfados por suas refrações traiçoeiras, somos capazes de chegar à maior das verdades da existência, que é a necessidade de alargamento do saber.

Logo, mesmo que a ironia, a paródia ou o riso não surtam o efeito desejado por seus primeiros criadores, o convite para desvendá-los perpetua-se e, com ele, o ensejo de ampliação da percepção crítica. Tal projeção não é utópica, uma vez que, tentando desmascarar os discursos marcados pela ironia, paródia ou riso, desmascaramos, ao que parece, a nós mesmos.