A ironia e suas refrações

Camila da Silva Alavarce · Capítulo 7 de 9

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A ironia e suas refrações

6. Dissonâncias literárias

 

Reinvenção

A vida só é possível reinventada.

Anda o sol pelas campinas e passeia a mão dourada pelas

águas, pelas folhas...

Ah! tudo bolhas que vêm de fundas piscinas de ilusionismo... –

mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.

Vem a lua, vem, retira as algemas dos meus braços.

Projeto-me por espaços cheios da tua Figura.

Tudo mentira! Mentira da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço...

Só – no tempo equilibrada, desprendo-me do balanço que além

do tempo me leva.

Só – na treva, fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.

Cecília Meireles

 

“O duplo”, de Dostoievski, e o emaranhado de

vozes desarmônicas

Se tu viesses a olvidar-me Eu jamais te olvidaria! Venha lá o

que vier, Deves também recordar-me.

Dostoievski

“O duplo”, de Dostoievski, traz a história do senhor Goliádkin, um modesto empregado de repartição pública que, possivelmente no dia mais fatídico de sua vida, encontra uma pessoa que é a sua cópia perfeita. Esse acontecimento desencadeia uma série de neuroses que culminam em sua loucura e consequente internação em um manicômio.

Durante a leitura – que, ao invés de causar deleite, inquieta –, o leitor tem, então, acesso à aflitiva mania de perseguição do sr. Goliádkin, que acredita estar sempre rodeado de inimigos dispostos a prejudicá-lo. Provavelmente, a intenção de Dostoiévski tenha sido transpor para a técnica da ficção literária as novas concepções da psicologia patológica que começavam naquela época a desenvolver-se em toda a Europa. Resulta daí, portanto, a dissonância, marcada pelo embate constante entre a subconsciência e a consciência, entre a lógica e o absurdo e, consequentemente, entre a realidade e o sonho, ambiguidades que caracterizam essa curiosa narrativa do início ao fim.

Como vimos, o exame da ironia exige do estudioso uma atenção redobrada, uma vez que a ironia não pode jamais ser vista como algo pontual, mas sim como uma figura de texto que deve ser analisada do ponto de vista de sua reverberação em toda a narrativa. Assim, defini-la como recurso linguístico, figura de linguagem ou ainda procedimento irônico não basta, já que a ironia é também um procedimento narrativo-discursivo, o que implica dizer que ela não se limita, isoladamente, a nenhum dos níveis linguístico, retórico ou discursivo.

É possível perceber duas tendências relacionadas à ironia, como foi visto no capítulo 2: ou a ironia se apresenta mais enquanto situação irônica e sua análise, nesse caso, envolve o enredo, as personagens e a própria estrutura da obra, ou ela se constitui por meio do refinamento de linguagem e, então, analisá-la envolve sobretudo o narrador.

Conforme foi estudado naquele capítulo, diante da “ironia observável” (ou situacional) tem-se uma situação ou uma cena que devem ser percebidas pelo observador e julgadas irônicas, não existindo, assim, “alguém sendo irônico”. Já na “ironia verbal” ou “instrumental”, há uma atitude irônica expressa por um sujeito, que faz uso de uma inversão semântica para transmitir sua mensagem. Logo, na ironia verbal, a linguagem é o instrumento.

Essa “divisão” da ironia em dois grandes blocos não deve, porém, ser muito rígida, afinal, quando se está nos domínios da literatura, haverá sempre o trabalho com a linguagem. Assim, embora o caso do duplo, por exemplo, incline-se mais para um tipo de ironia situacional – um personagem depara-se com uma cópia de si mesmo perambulando “por aí” –, foi necessário, para a construção dessa situação, em literatura, que a linguagem fosse tratada e manipulada para esse fim.

Portanto, seguindo o mesmo raciocínio, se o objetivo é a análise de uma obra literária, não parece ser coerente falar em “ironia sem ironista”, porque, se há trabalho com a linguagem, há ironista.

Em suma, quando se pretende estudar a ironia na literatura, faz-se necessário perceber se ela se inclina mais para o refinamento da linguagem ou se tende mais para uma ocorrência de situação irônica, devendo-se salientar sempre que, em ambos os casos, ocorre a “preparação” da linguagem. No que diz respeito à novela “O duplo” é possível encontrar a ironia nessas duas performances.

Também no capítulo 2, vimos que o traço básico de toda ironia é

o contraste entre aparência e realidade, e que essa característica marca tanto a ironia verbal como a ironia observável, uma vez que, nos dois casos, se constata uma incompatibilidade ou incongruência.

Seguindo esse raciocínio, em primeiro lugar, é importante observar a seguinte contradição – ou incompatibilidade, ou incongruência – presente no texto: de um lado, o leitor é convidado a acreditar que o narrador é em certa medida conivente com as atitudes do senhor Goliádkin, mas, por outro, uma análise mais acurada revela indícios que apontam justamente no sentido contrário. Dentre esses indícios, tomemos como exemplo um momento em que o sr. Goliádkin fica enfurecido porque, ao acordar pela manhã, não encontra seu criado Pietruchka:

– Diabos o levem! – disse o senhor Goliádkin pensando no

criado.

– Este animal, preguiçoso como é, põe uma pessoa fora de si.

Onde terá ele ido agora? Indignado – e com toda a razão –

entrou no compartimento vizinho [...]. (Dostoievski, 1963, p.288,

grifos nossos)

Como se percebe, o narrador parece considerar justa a indignação do senhor Goliádkin, todavia, se levarmos em conta o contexto – que nos chega pelo próprio narrador –, inferimos que a persona-gem principal está cometendo uma grande injustiça com Pietruchka, uma vez que este já havia organizado tudo: o coche já estava esperando; o banho, os objetos de barba e as botas que o patrão tinha pedido também já o aguardavam.

Ou seja, não havia, de fato, quaisquer motivos para aquela explosão de raiva do senhor Goliádkin, e este, mesmo tendo visto suas exigências cumpridas, trata muito mal a Pietruchka, utilizando-se, para qualificá-lo, de expressões grosseiras como “animal” e “idiota” o tempo todo.

Em uma outra passagem, o senhor Goliádkin encontra dois jovens que trabalham com ele na repartição e, como sempre, fica muito incomodado. Conforme descreve o narrador, “Instantaneamente e com ar receoso, encafuou-se no lugar mais escondido da carruagem” (1963, p.290). Goliádkin sente constantemente que está sendo perseguido por seus “inimigos”, pois, em sua visão completamente distorcida da realidade, todos almejam humilhá-lo. Afirma, então, o narrador:

É que tinha acabado de passar por dois colegas, dois jovens

funcionários da repartição em que trabalhava. Por seu lado,

eles – o senhor Goliádkin bem o vira – ficaram também muito

admirados em encontrar o colega em semelhante coche. Um

deles havia mesmo apontado o dedo em direção ao senhor

Goliádkin. (Dostoievski, 1963, p.290, grifos nossos)

Considerando as circunstâncias, pode-se concluir que o narrador, ao contrário do que sugere, não compactua com o comportamento doentio do senhor Goliádkin. Pelo contrário, critica por meio de uma refinada ironia as atitudes de sua personagem principal, conforme demonstra o seguinte trecho, sobre Goliádkin:

Abriu a boca, espreguiçou-se e, finalmente, acabou por abrir os

olhos. Durante dois minutos continuou deitado sem fazer um

movimento, como alguém que não sabe bem se ainda dorme

ou se já está acordado, se

jáestárodeadodomundorealousecontinuaa sonhar. (Dostoievski,

1963, p.287)

Nessa passagem, o narrador demonstra, de modo bastante claro, que o senhor Goliádkin era realmente um homem atormentado, caso contrário, como alguém, em sã consciência, poderia acordar e ficar em dúvida se está mesmo acordado? Logo, temos de concluir: primeiro, que esse homem inclina-se a distorcer toda a realidade a sua volta; segundo, que o narrador não apenas sabe disso, como inclusive nos sugere a situação de sua personagem por meio dos fatos que narra, vivenciados por Goliádkin.

Portanto, no momento em que afirma, na penúltima citação, que a personagem principal “vira muito bem que estava sendo observada com admiração”, o narrador é, sem dúvida, irônico.

Em outra circunstância, o senhor Goliádkin decide ir ao baile de comemoração do aniversário de Klara Olsúfievna, muito embora não tenha sido convidado para a festa. Depois de muito refletir – “Entro... ou não entro? Devo entrar... ou não?... Vou... Por que não hei de ir? O audacioso encontra sempre maneira de atingir o que deseja...” (1963, p.308) –, o senhor Goliádkin, que já se encontrava em frente à casa de Klara, decide “participar” da festa:

Todavia, depois de ter tomado esta resolução, o senhor Goliádkin avança rapidamente, como movido por uma mola. É um instante enquanto entra na copa, tira o casaco e o chapéu, e os atira à pressa para um canto. Compõe-se um pouco e entra na sala de jantar. Daí passa para a outra sala, sem que quase ninguém dê por ele, tão entretidos estão os jogadores. Então... então... o senhor Goliádkin esquece tudo o que acaba de passar-se e, sem mais demoras, cai como uma bomba na sala de baile. (Dostoievski, 1963, p.308)

Obviamente, no momento em que as pessoas notam a presença indesejada de Goliádkin, ficam incomodadas a ponto de agruparem-se, todas, em volta dele, como se esperassem uma explicação. Goliádkin, por sua vez, fica tão aturdido que perde a capacidade de ver e de ouvir.

Passa-se algum tempo e todos, sobretudo Klara, a aniversariante, continuam dando mostras de que aquele intruso não é nem um pouco bem-vindo naquele recinto. A situação torna-se cada vez pior e o narrador, abruptamente, afirma: “É evidente que o senhor Goliádkin começa a sentir-se mais adaptado à situação” (1963, p.310).

Ora, considerando o estado agônico em que se encontra esse homem, essa asserção do narrador apenas pode ser entendida pelo viés da ironia. É importante perceber, ainda, que em todos os casos comentados até aqui, temos a atitude de “alguém sendo irônico”, o que nos permite concluir que estamos diante de ironias verbais ou instrumentais.

Convém salientar que esse episódio – o da comemoração do aniversário de Klara – colaborou de forma assaz significativa para o colapso final de Goliádkin, pois, logo após esse acontecimento desastroso, ele encontra seu duplo e, a partir disso, sua situação psicológica e emocional piora muito.

Outros inúmeros exemplos há que apontam para uma contradição marcante entre os fatos vivenciados por Goliádkin e os comentários do narrador acerca desses mesmos fatos. Muitas vezes, são curtas observações, porém significativas, se analisadas sob o olhar da dissonância.

A seguinte passagem, em que Goliádkin se sente culpado por estar faltando ao trabalho, demonstra essa característica. Ele está, como sempre, com os pensamentos extremamente conturbados; ideias opostas lhe invadem a mente em segundos. Então, para aliviar sua consciência, cria argumentos utópicos e irreais. Comenta o narrador:

Desta maneira, o senhor Goliádkin tranquiliza sua consciência e

antecipadamente justifica perante si próprio a censura que

Andriéi lhe fará pela sua negligência ao serviço. Não era a

primeira vez que ele encontrava razões irrefutáveis para

acalmar escrúpulos da mesma natureza. Ficou assim mais uma

vez com a consciência serena. (Dostoievski, 1963, p.319, grifo

nosso)

Ora, de novo, levado em conta o contexto, sabemos perfeitamente que todas as afirmações e as “razões” desse homem desequilibrado psicologicamente são passíveis de contestação. Uma a uma, portanto, as passagens do texto vão deixando transparecer seu sentido irônico.

Fica demonstrado, pois, um curioso caso de dissonância no nível narrativo-discursivo. O que torna esse “evento” tão interessante é o fato de ele não ser percebido isoladamente, mas apenas dentro do contexto dessa narrativa, contemplada por uma personagem em desequilíbrio e por um narrador que sempre pauta o seu fazer narrativo pelos caminhos da ironia.

Em alguns momentos, o narrador utiliza o discurso indireto livre, o que lhe permite dissimular, agora por meio de outros recursos, sua voz no interior da narrativa. Um exemplo disso está na mesma passagem a que já nos referimos anteriormente, em que o senhor Goliádkin encontra pela rua dois rapazes com os quais trabalha na repartição:

Um deles havia mesmo apontado o dedo em direção ao senhor

Goliádkin. Este se convenceu também que o outro o chamava

em voz alta pelo seu nome. Ora isto em plena rua era

deselegante... O senhor Goliádkin fez de conta que nada viu e

não respondeu. (Dostoievski, 1963, p.290, grifos nossos)

A primeira impressão causada pelo trecho salientado (“Ora isto em plena rua era deselegante...”) é de uma manifestação solta, aparentemente de ninguém. E isso ocorre porque, graças ao uso do discurso indireto livre, não sabemos se se trata da voz do narrador ou da voz da personagem principal.

Considerando o contexto, no entanto, é possível inferir que essa afirmação só pode ser atribuída ao senhor Goliádkin, que, por vivenciar um momento de intensa perturbação psicológica, acredita veementemente estar sendo perseguido por todos os seus “inimigos”.

Tanto isso é verdade que, se atentarmos melhor para a passagem acima, perceberemos que o senhor Goliádkin não ouviu ninguém gritando o seu nome, mas sim se convenceu de que o chamavam em voz alta. Quem nos diz isso é o narrador e, portanto, a afirmação de que “isto é deselegante” não pode ser sua, pois, muito provavelmente, ninguém teria chamado pelo senhor Goliádkin.

Portanto, de novo o narrador faz uso de uma estratégia para disfarçar sua “voz” no interior da narrativa. Na verdade, voz apareceu entre aspas porque não se trata propriamente de uma voz, mas sim de indícios da verdadeira opinião do narrador. Em outras palavras, o narrador tenta velar seu ponto de vista sobre Goliádkin não apenas apagando da narrativa as marcas que poderiam evidenciar sua opinião, mas também tencionando confundir o leitor – ora por meio da ironia, ora por meio do discurso indireto livre.

Como foi dito anteriormente, a ironia pode tender mais para uma situação irônica ou para um refinamento de linguagem. Nos casos até aqui apresentados, poderíamos concluir que a ironia se volta mais para o lado da situação irônica, uma vez que temos um narrador cuja voz é, em muitos momentos, dissonante em relação ao próprio relato – que nos chega por meio dele mesmo. Entretanto, embora exista essa incompatibilidade mostrada pelos trechos citados e, portanto, observável, não se pode desconsiderar o fato de que temos também um narrador ironizando o seu próprio relato, ou seja, uma atitude irônica.

Por conseguinte, seria um descuido optar por qualquer uma das duas classificações, excluindo a outra. Em primeiro lugar, porque, como já foi dito, estamos diante de um texto literário e, portanto, existe o trabalho com a linguagem. Em segundo lugar, porque há, com certeza, uma ironia observável entre o que o narrador narra e seus comentários; no entanto, existe também indubitavelmente a intenção narrativa de fundar uma desarmonia entre os fatos relatados e os comentários do narrador, que destoam das “verdades” contadas por ele próprio.

Logo, temos nesse texto a ambiguidade legitimada tanto pela ironia verbal ou instrumental quanto pela ironia situacional ou observável. Pode-se inclusive ir um pouco mais longe e dizer que em “O duplo” temos uma ironia observável – graças ao descompasso entre o narrado e o comentado – e, ainda, uma ironia instrumental que contribui para sinalizar a situação irônica.

Nesse sentido, voltemos ao episódio do aniversário de Klara Olsúfievna, para o qual o senhor Goliádkin não fora convidado. Nesse ponto da narrativa, a voz do narrador torna-se extremamente sarcástica, beirando, em muitos momentos, o escárnio. Se, no início desse episódio, o narrador apresenta com naturalidade os detalhes da comemoração, logo seu discurso começa a ser pautado por uma inconfundível mordacidade, conforme podemos notar claramente nos seguintes trechos:

Há outros bailes no mesmo gênero, mas são raros. Trata-se

mais de festas de família do que de bailes. Para isso, é preciso

haver uma casa como a do conselheiro de Estado Bieriendiéiev.

E isso mesmo ainda não chega: julgo que nem todos os

conselheiros de Estado podem dar bailes semelhantes. Se eu

fosse poeta como Homero ou Puchkin – talento menor do que o

deles não bastava – desejaria pintar, oh leitores!

– com cores brilhantes e um hábil pincel, este dia triunfal. Seria

pelo jantar que haveria de começar o meu poema. Procuraria

fixar sobretudo o instante único e solene em que se ergue a

primeira taça à saúde da dona da rainha da festa. Falar-vos-ia

do silêncio grave dos convivas, dessa atitude de espera que se

parece mais com a eloquência de Demóstenes do que com o

silêncio. [...] Confesso, porém, humildemente que não seria

capaz de exprimir a solenidade do instante em que a própria

rainha da festa, Klara, corada como uma rosa primaveril, corada

de alegria e de pudor, vencida pela emoção, cai nos braços de

sua mãe e esta se põe a chorar, e o próprio pai soluça também.

Simpático velho, o conselheiro de Estado. Tinha trabalhado

muito. Estava paralítico das pernas, mas a sorte tinha

compensado o seu esforço. Possuía uma certa fortuna, uma

casa, bens de raiz. [...]

Não seria capaz de vos descrever os instantes que se

seguiram. Ninguém dizia que naquela ocasião solene Andriéi

Filípovitch era o chefe de repartição que todos conheciam.

Parecia outra pessoa. Oh, que pena não possuir eu os

segredos dum grande estilo para poder descrever estes

instantes de beleza e satisfação moral. Instantes destes são a

prova cabal de que muitas vezes a virtude triunfa sobre o vício

e a inveja! [...]

Tudo neste instante solene parece dizer: “Eis onde o culto das

virtudes pode conduzir o homem”. Não vos direi que Anton

Antonovitch, velho amigo da casa e padrinho de Klara, um

velhinho de cabeça prateada, por sua vez, propôs também um

brinde, cacarejou como um galo e recitou versos muito

engraçados. Durante um momento, esqueceram-se as

conveniências! Todos os presentes riram a mais não poder. A

própria Klara, por sugestão dos pais, veio beijá-lo, felicitando-o

pela sua boa disposição e talento.

Os convidados, que depois de um tal jantar se sentiam todos

como se fossem parentes e irmãos, acabaram por levantar-se

da mesa. [...] Passaram depois a outra sala e, sem perderem

um tempo que era precioso, dividiram-se em grupos

(conservando a noção de sua dignidade), e foram sentar-se

diante das mesas de jogos. As senhoras instalaram-se na sala

e tornaram-se muitíssimo amáveis. Conversam umas com as

outras sobre as coisas mais variadas e, por fim, o próprio dono

da casa, que tinha perdido em serviço o uso das pernas e

obtido as compensações que já dissemos, vem passear por

entre os seus convidados, apoiado nas muletas [...]. Tocado

pela amabilidade dos que o rodeiam, decide-se a improvisar um

pequeno baile, não obstante as despesas que isso lhe

acarretará. [...]

A minha pena não basta para pintar como devia o baile que a

extraordinária gentileza do velho dono da casa improvisou.

Como poderia eu, aliás modesto narrador das aventuras do

senhor Goliádkin – curiosas no seu gênero, lá isso é certo! –

como poderia eu exprimir esta amálgama surpreendente de

beleza, de brilho, de elegância, de alegria, de amabilidade e de

júbilo; e os risos e passatempos de todas essas esposas de

funcionários... Parecem mais fadas do que mulheres, com os

ombros rosados, as figuras angélicas e os pezinhos

encantadores a aparecerem-lhes debaixo dos vestidos. Como

descrever-vos, por fim, estes funcionários transformados agora

em brilhantes homens de salão, estes jovens alegres e bem

constituídos, contentes e sonhadores, que, numa salinha

retirada, onde as paredes são todas pintadas de verde, fumam

cachimbo entre duas danças... e os cavalheiros que ocupam

altos cargos e usam nomes muito sonoros, cavalheiros

profundamente compenetrados de seus deveres de elegância e

que, na maior parte, fa-lam francês com as senhoras. Se falam

russo é só para proferirem cumprimentos e frases profundas em

tom distinto.

Unicamente na sala de fumar se permitem alguns deslizes de

linguagem, frases familiares, no gênero desta “Olá, Piétienhka,

dançaste esta polca como um artista.” Mas – oh leitor! – tive já

ocasião de dizer que a minha pena não é capaz de um tal

esforço, por isso vou parar. Voltemos antes ao senhor

Goliádkin, o único herói desta novela verídica. (Dostoievski,

1963, p.304-7)

Embora o trecho seja bastante longo, optamos por reproduzi-lo visto que ele reúne diversas marcas essenciais ao estudo da ironia. Ao leitor mais ingênuo e desavisado, bem poderia parecer que o narrador objetivou, apenas, elogiar a grande festa realizada em comemoração ao aniversário de Klara.

Mesmo assim, um mínimo de atenção levaria ao estranhamento frente ao excesso de elogios conferidos a tudo: à festa, à aniversariante, às pessoas, à casa, etc. Já do ponto de vista de um leitor um pouco mais perspicaz e crítico, um outro aspecto curioso se tornaria visível: a insistente modéstia por meio da qual o narrador tece seus comentários.

Essa modéstia transparece em muitos momentos, quando ele faz asserções do tipo: “Se eu fosse poeta como Homero [...] desejaria pintar com cores brilhantes este dia triunfal” ou “Confesso, porém, humildemente, que não seria capaz...” ou ainda “A minha pena não basta para pintar como devia o baile...”, entre outras.

Ora, não obstante a pena desse limitado narrador seja apresentada como insuficiente para descrever a festa, o evento é inquestionavelmente bem descrito. Dito de outra forma, o narrador considera-se incapaz de nos relatar os instantes de rara beleza compartilhados pelos convivas, todavia, pinta a ocasião com tamanha sutileza e detalhamento plástico que o leitor efetivamente “vê” o brinde realizado pelos convidados, o pai paralítico de Klara, os versos recitados (ou cacarejados?) pelo padrinho da aniversariante, as pessoas elegantes dançando, entre outras cenas.

A riqueza de detalhes e a maestria do arranjo não se coadunam, portanto, com a suposta incapacidade de que se acusou o narrador. É visível, pois, a dissonância entre a autoavaliação do narrador e as provas em contrário. Dessa vez, porém, não se trata de uma contradição na estrutura discursiva da narrativa, como a que analisamos anteriormente, ou seja, quando fatos vividos por Goliádkin (relatados pelo narrador onisciente) eram incoerentes com a opinião do narrador sobre esses mesmos acontecimentos.

Ao contrário disso, a contradição que agora verificamos (autodepreciação × excelência demonstrada) dá-se em um âmbito mais linguístico. Assim, entre o que o narrador diz e a mensagem que ele pretende transmitir há uma distância considerável.

Do mesmo modo, o acúmulo de elogios à festa torna patente não a aprovação inconteste, mas a crítica corrosiva àquela comemoração. O que poderia ser um troféu à elegância e bom gosto nada mais é do que o desnudamento da futilidade. Ao recorrer à ironia, o narrador abandona as “vias normais” para movimentar-se nas entrelinhas, onde pode dar passos mais ligeiros e maliciosos.

E esse entusiasmado narrador não para por aí: em sua opinião, as pessoas convidadas para aquela festa não são apenas fúteis, mas também hipócritas e desprovidas de qualquer escrúpulo. O pai de Klara não andava, mas acreditava que “a sorte tinha compensado seu esforço”, pois era rico. O padrinho da aniversariante recitou versos para ela, mas a moça apenas foi agradecer-lhe por sugestão dos pais. De modo geral, as pessoas eram superficiais e nada espontâneas, porque ali, naquele recinto, segundo o narrador, estavam irreconhecíveis, ciosas apenas de seus “deveres de elegância”.

O narrador, portanto, deprecia ao elogiar e desaprova por intermédio da aprovação. E, como dissemos anteriormente, sua crítica aproxima-se, algumas vezes, do escárnio: o padrinho de Klara não recita, “cacareja como um galo”, seu pai, apoiado nas muletas, decide improvisar um pequeno baile... Não é preciso dizer mais nada...

Assim, terminamos aqui a análise de exemplo muito rico e sutil de ironia. Diferentemente dos primeiros casos analisados, esse último trecho é marcado por uma ironia que se manifesta exclusivamente sob a forma de um refinamento da linguagem. Isso não exclui, obviamente, que essa modalidade de ironia não tenha também um certo viés situacional – uma vez que não podemos desconsiderar o contexto em que foi produzida.

É imprescindível salientar a importância do leitor na decodificação desse texto. Conforme enfatizamos no decorrer de toda a pesquisa, o leitor se configura como elemento central dessa categoria de texto literário, já que deve localizar os aspectos que se encontram, implicitamente, em tensão.

Assim, esse tipo de discurso – ambíguo, paradoxal, contraditório e incongruente – caracterizador da narrativa analisada aqui espera do leitor a responsabilidade de tomar parte na construção do sentido. Um leitor que não se comprometa a isso, permanecendo impassível diante dos fatos narrados, jamais poderá acessar o sentido irônico, uma vez que passariam despercebidas as “notas dissonantes” espalhadas no decorrer do texto pelo narrador.

É curioso observar que, por mais atormentado que possa parecer, o senhor Goliádkin é tratado pelo narrador como herói, do início ao fim da narrativa. Assim, na última linha da citação anterior, a personagem principal é considerada “o único herói desta novela verídica”. Em outras ocasiões, Goliádkin recebe as seguintes designações: “o nosso herói” (1963, p.310), “nosso desditoso herói” (1963, p.316), “este era o próprio senhor Goliádkin, não o antigo, não o herói desta novela, mas o outro Goliádkin, o novo senhor Goliádkin” (1963, p.343), “nosso herói” (1963, p.354), “nosso amigo” (1963, p.359), “nosso desgraçado herói” (1963, p.374), entre outras inúmeras ocorrências semelhantes.

Ora, que fato motivara o narrador a julgar Goliádkin um herói? Trata-se, certamente, de mais um caso de dissonância criado por esse narrador, que orienta seu relato pelos caminhos sinuosos da ironia. Além disso, é válido pensar inclusive que Dostoievski esteja ironizando o próprio gênero, o modelo de herói de uma novela, por meio da atribuição desse título a Goliádkin, um homem qualquer, sem grandes saliências.

Goliádkin é julgado maluco por todos os que o rodeiam e, inclusive, pelo leitor. Todavia, em muitos momentos, por mais curioso – e irônico – que isto possa parecer, o leitor se identifica com essa personagem. Assim como o senhor Goliádkin, também somos acometidos, vez ou outra, por um estranho sentimento de medo. Ditos populares como “Está muito bom para ser verdade” confirmam a presença de maus pressentimentos inseridos no ser humano – pressentimentos estes que nos aproximam, em certa medida, do senhor Goliádkin. A seguinte passagem revela o desequilíbrio dessa personagem no sentido de acreditar que, sempre, algo acontecerá como não devia, ocasionando prejuízos e danos:

Seria bem desagradável – disse baixinho para si próprio – seria

bem desagradável se hoje qualquer coisa corresse mal, se me

aparecesse, por exemplo, um furúnculo ou qualquer outra coisa

aborrecida. Felizmente, por enquanto tudo está correndo bem,

muito bem até... (Dostoievski, 1963, p.287)

No decorrer de nossa existência, também procuramos – e encontramos – assim como o senhor Goliádkin, razões “irrefutáveis” que justifiquem nossas falhas mais graves e, como se não bastasse, também, muitas vezes, projetamos esses erros no Outro e o consideramos inimigo. De forma parecida, o ser humano fica, muitas vezes, inseguro em relação à sua profissão e tem receio de que “tomem o seu lugar”, como aconteceu com Goliádkin na repartição onde trabalhava.

E, provavelmente, nossa maior semelhança com essa destemperada personagem seja o reconhecimento do Estranho em nós mesmos. Muitas vezes, por razões diversas, ocorre a eclosão daquilo que tão insistentemente recalcamos, ou seja, aquilo que nos é esquisito e que gostaríamos de esconder retorna, quebra a moldura e escapa a nosso controle.

Seria possível continuar citando outras inúmeras questões análogas entre nós, leitores, e o disparatado senhor Goliádkin; entretanto, não é o que interessa aqui. Importa, sim, dizer que o narrador conferiu, ironicamente, a esse indivíduo desnorteado a designação de herói e que provavelmente seja mais irônico ainda o fato de que este “desditoso herói” não seja simplesmente um tresloucado, mas apenas humano.

O erro de Goliádkin talvez tenha sido salientar demais o Outro em si mesmo, a ponto de concretizá-lo, conferindo-lhe vida. Isto também não deixa de ser estranhamente dissonante: tendências desconhecidas incrustadas no interior do próprio indivíduo...

Esperamos que tenha ficado claro que essa narrativa é fundamentada na problemática da ironia. Assim, seja ela fruto de um primoroso trabalho com a linguagem, ou esteja ela mais próxima de uma situação irônica propriamente dita, falamos constantemente de ironia.

É possível inferir que o narrador de “O duplo” tenha se servido da ironia de forma tão intensa, como se observou, a fim de alterar o horizonte de expectativas do leitor. Desse modo, já que se constitui essa novela como um elogio à contradição, o leitor é convidado pelo narrador, a todo momento, a pensar ou concluir algo diferente do que concluíra antes.

Por conseguinte, se, num primeiro instante, o leitor acredita que o narrador é conivente com as atitudes do senhor Goliádkin, percebemos, após uma leitura mais pormenorizada, que ele critica o comportamento dessa personagem nas entrelinhas. Porém, se por um lado existem os julgamentos do narrador, em contrapartida, há também uma voz que revela ao leitor sua semelhança com as esquisitices do desnorteado Goliádkin.

Sem dúvida alguma, estamos à frente de um texto polifônico que, como tal, expõe o leitor a várias possibilidades de leitura. Em “O duplo” não nos deparamos, pois, com um narrador cuja característica seja impor ao leitor seu ponto de vista em relação aos fatos narrados. Muito pelo contrário, esse narrador deixa para o leitor a tarefa de julgar.

Não pretendemos dizer que ele (o narrador) se abstém dessa “responsabilidade”: aquele por meio do qual a história nos chega em “O duplo” avalia sim, tece julgamentos muitas vezes sagazes sobre os acontecimentos relatados. Suas apreciações, porém, nunca encerram a análise dos fatos. Isso se dá porque, em primeiro lugar, tais apreciações, como vimos, são irônicas e, nesse sentido, já apontam para duas possibilidades de interpretação e, em segundo lugar, porque tais julgamentos são, muitas vezes, contraditórios, ampliando, assim, as possibilidades de leitura.

Dessa maneira, se, por um lado, o narrador critica sutilmente sua personagem, por outro, se compadece explicitamente do senhor Goliádkin, dando a entender ao leitor que está do lado dessa personagem e que entende muito bem a dor sentida por aquele homem. As seguintes passagens ilustram o que se está a dizer aqui:

Sentia-se o pior possível. Dentro de si tudo era um caos. Andou

muito tempo de um lado para o outro, perturbadíssimo. Depois,

já sentado, pousou a cabeça nas mãos e, esforçando-se por

refletir, procurou uma saída para a situação em que se

encontrava. (Dostoievski, 1963, p.304)

[...] depois, de repente, dá um salto como se estivesse louco, e

põe-se a correr, a correr, sem se voltar, parece fugir diante de

um inimigo, diante do infortúnio... pois a sua situação é terrível.

(Dostoievski, 1963, p.313)

Empurrada pelo vento, a água caía em jorros quase horizontais,

tal como sai das mangueiras dos bombeiros. Batia e chicoteava

o rosto do infeliz senhor Goliádkin, como se fossem agulhas e

alfinetes aos milhares. (Dostoievski, 1963, p.312)

Deparamo-nos, portanto, com um texto que se caracteriza principalmente por reunir vozes dissonantes. Nisso reside, pois, a perspicácia desse narrador sobre quem tanto falamos: colocar nas mãos do leitor a tarefa de absolver ou condenar Goliádkin. E, ao final dessa instigante leitura, embora reconheçamos as graves falhas cometidas por esse homem, sentimos pena ao “vê-lo” se afastar rumo ao manicômio, dentro daquele coche.

A ironia atua nessa narrativa, portanto, justamente para instalar a desarmonia, a discrepância entre dois discursos. Temos em “O duplo”, como vimos, uma voz que condena o senhor Goliádkin, mas também percebemos a presença de um “grito” – talvez mais abafado – que se apieda desse homem, e se apieda porque se sente próximo a ele. Logo, nesse texto como em outros, a ironia contribui indubitavelmente para a derrocada do maniqueísmo, na medida em que, por meio da ambiguidade, nega nossas certezas sobre o senhor Goliádkin, sobre nós mesmos...

Apesar de tantos disparates cometidos por Goliádkin – e, na verdade, por causa exatamente desses disparates –, achamo-nos ironicamente semelhantes a esse herói idiotizado de ideias estranhas e obsessivas, a esse homem cujos pensamentos são compulsivos e indomáveis, a esse homem tão “estranhamente” distante do equilíbrio, a esse homem... humano.

 

O homem duplicado, de José Saramago: a

dissonância aparente Essa narrativa peculiar conta a história de Tertuliano Máximo Afonso, um professor de História que, em uma noite tumultuada, depara-se com alguém cujas características são absolutamente idênticas às suas. Sua cópia fiel aparece em um filme a que Tertuliano assistia: era um ator secundário. O título do filme era Quem porfia mata a caça.

Essa constatação incomoda muito Tertuliano, que decide, no decorrer da narrativa, marcar um encontro com o ator, cujo nome é Antonio Claro. Eles se encontram e, devido a uma reviravolta, acabam invertendo os papéis: Tertuliano veste as roupas de Antonio Claro e este se traveste de Tertuliano.

Um acidente de carro acontece e Antonio Claro acaba sendo vítima fatal. Entretanto, como estava com as vestimentas de Tertuliano, para todos os efeitos, quem morrera foi o professor de História. Tertuliano – para não ser considerado louco – assume, pois, a vida do ator, incluindo sua esposa – a única pessoa que sabe dos duplos.

Em O homem duplicado, de José Saramago, existe aparentemente um discurso legitimador da polifonia, que defende, pois, a liberdade de opinião e a existência de vozes portadoras de diferentes verdades inseridas no relato. Contudo, é interessante perceber que, enquanto esse discurso polifônico existe nas camadas mais superficiais do texto, existe uma outra voz – esta menos explícita, situada nos “subterrâneos” do texto – que justamente satiriza a possibilidade de polifonia discursiva.

É no embate entre essas duas vozes – opostas apenas aparentemente – que sobressai o caráter irônico dessa “mensagem” transmitida pelo narrador, que, na verdade, faz uso de estratégias diversas a fim de manipular o leitor.

Entre os dispositivos utilizados pelo narrador está a ironia romântica. Logo, é precisamente nos momentos em que a narrativa – entendida como sequência dos fatos narrados – para que o narrador aproveita para intrometer-se, tecendo comentários variados. Tais intromissões são caracterizadas ora por discussões metalinguísticas, ora por trazerem à baila assuntos que se encontram fora do espaço ficcional, ora, ainda, para persuadir o leitor a aceitar um determinado ponto de vista. Em todos esses casos, está presente a ironia romântica. Convém, portanto, examinar esses momentos de intervenção do narrador para apreender suas intenções e também para conhecer os procedimentos de construção de sentido utilizados pela instância narrativa.

Assim, observemos o fragmento abaixo, onde o narrador propõe questionamentos que apontam para o interior da narrativa, realizando uma reflexão sobre o próprio fazer literário por meio do recurso à ironia romântica:

desde que se divorciou Máximo Afonso, servimo-nos aqui da

versão abreviada do nome porque à nossa vista a autorizou

aquele que é seu único senhor e dono, mas principalmente

porque a palavra Tertuliano, estando tão próxima, apenas duas

linhas atrás, viria desservir gravemente a fluência da narrativa.

(Saramago, 2002, p.12)

Temos, nele, a discussão explícita do fazer literário, que aponta, ao que parece num primeiro momento, para dois caminhos opostos: a ficção e a realidade. O narrador parece explicar sua decisão de não reproduzir o nome inteiro da personagem apoiando-se, primeiramente, na ficção, uma vez que afirma ter o próprio Tertuliano permitido que ele (o narrador) assim procedesse. Depois, no entanto, a instância narrativa se vale de um argumento relacionado ao ato literário em si mesmo – ao trabalho com as palavras – e, nesse momento, não faz, aparentemente, uso do ficcional, mas sim da realidade referente ao ato de escrever.

Logo, nessa passagem, o narrador parte do ficcional, dando a entender, contudo, que está nos domínios da realidade, quando, de fato, trata-se sempre de uma estratégia de reforço do ficcional. Esse jogo entre ficção e “realidade” se faz presente em toda a narrativa. Leiamos outro fragmento:

Um parêntesis indispensável. Há alturas da narração, e esta,

como já se vai ver, foi justamente uma delas, em que qualquer

manifestação paralela de ideias e de sentimentos por parte do

narrador à margem do que estivessem a sentir ou a pensar

nesse momento as personagens deveria ser expressamente

proibida pelas leis do bem escrever. A infração, por imprudência

ou ausência de respeito humano, a tais cláusulas limitativas,

que, a existirem, seriam provavelmente de acatamento não

obrigatório, pode levar a que a personagem, em lugar de seguir

uma linha autônoma de pensamentos e emoções coerente com

o estatuto que lhe foi conferido, como é seu direito inalienável,

se veja assaltada de modo arbitrário por expressões mentais ou

psíquicas que, vindas de quem vem, é certo que nunca lhe

seriam de todo alheias, mas que num instante dado podem

revelar-se no mínimo inoportunas, e em algum caso

desastrosas. Foi precisamente o que sucedeu a Tertuliano

Máximo Afonso. Olhava-se ao espelho como quem se olha ao

espelho apenas para avaliar os estragos de uma noite mal

dormida, nisso pensava e em nada mais, quando, de súbito, a

desafortunada reflexão do narrador sobre os seus traços físicos

e a problemática eventualidade de que em um dia futuro,

auxiliados pela demonstração de talento suficiente, poderiam

ser postos ao serviço da arte teatral ou da arte cinematográfica,

desencadeou nele uma reação que não será exagero classificar

de terrível. (Saramago, 2002, p.34-5, grifos nossos)

Em primeiro lugar, há a presença de uma ironia corrosiva no momento em que o narrador afirma que “os traços físicos de Tertuliano, aliados à demonstração de talento suficiente, levariam essa personagem, no futuro, ao trabalho com a arte teatral ou com a arte cinematográfica”.

Na verdade, o leitor ainda não sabe, nessa altura da narrativa, que é justamente isso o que ocorrerá com Tertuliano Máximo Afonso. Nas últimas páginas do romance, graças a uma fatalidade, ele toma o lugar do ator Antonio Claro. Como foi dito no início dessa análise, os duplos trocam de papéis, devido, sobretudo, à imbecilidade de Tertuliano, que, chantageado por Antonio, seu duplo, insiste em não contar nada sobre os duplos a Maria da Paz.

O resultado da teimosia de Tertuliano e da ira de Antonio Claro, que, sentindo-se perseguido, decide agora também perseguir, é o seguinte: o ator quer que Tertuliano conte tudo a Maria da Paz e o professor de História se nega até as últimas consequências, permitindo que Antonio Claro vista as suas roupas e vá, em seu lugar, encontrar Maria. Vestido como Tertuliano, o ator dirige-se até Maria da Paz, enquanto Tertuliano decide ir encontrar-se com Helena, a esposa do ator.

Por “ironia do destino”, Antonio Claro e a namorada de Tertuliano sofrem um acidente de carro e morrem. Porém, para todos os efeitos, quem morrera fora Tertuliano. E este acaba, portanto, assumindo a vida do ator.

Logo, o que fez com que o professor de História se transformasse, no futuro, em ator, foi uma sequência de erros, ocasionados pela incapacidade de Tertuliano de se relacionar francamente com as pessoas. Afinal de contas, ele permitiu que o ator fosse, em seu lugar, ao encontro de Maria da Paz apenas para não contar a ela, sua “companheira”, toda a verdade.

Em outras palavras, não foi por uma “demonstração de talento suficiente” que Tertuliano se transformou em ator, como o narrador ironicamente afirma na passagem analisada. Ao contrário dis-so, a passagem de Tertuliano de professor de História a ator de cinema se deve à sua incompetência e inabilidade.

Como se vê, o leitor deve participar ativamente da construção do sentido e isso vale – e muito – para essa obra de Saramago. Objetivamos fazer entender, por meio da passagem acima, que o papel do leitor é fundamental, uma vez que, apenas no final do romance, pode compreender o sentido irônico desse fragmento. Fica legitimada também – além da importância do leitor, que deve “decifrar” as pistas jogadas por esse narrador no decorrer do texto – a importância do contexto. Na verdade, falar do contexto é já apontar para o leitor, na medida em que é justamente ele quem deve estar atento para perceber e apreender esse contexto.

Além disso, é interessante notar que ocorre no trecho anterior o reforço do ficcional, uma vez que na passagem “a problemática eventualidade de que em um dia futuro [...] poderiam ser postos ao serviço da arte teatral” fica patente que não se trata de uma “eventualidade”. O narrador sabe o que ocorrerá com Tertuliano no futuro: isso já fora calculado, sendo, pois, ficção.

Se, de um lado, o narrador parece conferir “vida” à sua personagem no momento em que afirma que Tertuliano se incomoda com os pensamentos do narrador, que são inseridos em sua mente, de outro, a instância narrativa também parece sugerir exatamente o contrário: um “ser de papel”, um “fantoche” (no caso, Tertuliano) completamente manipulado pelo narrador, que, olhado dessa maneira, detém todo o relato.

Parece haver no trecho anterior, portanto, uma intenção do narrador de legitimar o ficcional, afirmando que seus personagens não têm vida e tampouco autonomia, e que se contentam em receber os pensamentos que o narrador lhes impõe. A seguinte passagem é também bastante expressiva quanto a esses pontos que estamos analisando:

Para o relator, ou narrador, na mais do que provável hipótese

de se preferir uma figura beneficiada com o sinete da

aprovação acadêmica, o mais fácil, chegado a este ponto, seria

escrever que o percurso do professor de História através da

cidade, e até entrar em casa, não teve história. Como uma

máquina manipuladora do tempo, mormente no caso de o

escrúpulo profissional não ter permitido a invenção de uma

zaragata de rua ou de um acidente de trânsito com a única

finalidade de encher os vazios da intriga, aquelas três palavras,

Não Teve História, empregam-se quando há urgência em

passar ao episódio seguinte ou quando, por exemplo, não se

sabe muito bem que fazer com os pensamentos que a

personagem está a ter por sua própria conta, sobretudo se não

têm qualquer relação com as circunstâncias vivenciais em cujo

quadro supostamente se determina e atua. Ora, nesta exata

situação se encontrava o professor e novel amador de vídeos

Tertuliano Máximo Afonso enquanto ia guiando o seu carro. É

verdade que pensava, e muito, e com intensidade, mas os

pensamentos dele eram a tal extremo alheios ao que nas

últimas vinte e quatro horas tinha andado a viver, que se

resolvêssemos tomá-los em consideração e os trasladássemos

a este relato, a história que nos havíamos proposto contar teria

de ser inevitavelmente substituída por outra. É certo que

poderia valer a pena, melhor ainda, uma vez que conhecemos

tudo sobre os pensamentos de Tertuliano Máximo Afonso,

sabemos que valeria a pena, mas isso representaria aceitar

como baldados e nulos os duros esforços até agora cometidos,

estas quarenta compactas e trabalhosas páginas já vencidas, e

voltar ao princípio, à irônica e insolente primeira folha,

desaproveitando todo um honesto trabalho realizado para

assumir os riscos de uma aventura, não só nova e diferente,

mas também altamente perigosa, que, não temos dúvidas, a

tanto os pensamentos de Tertuliano Máximo Afonso nos

arrastariam. Fiquemos portanto com este pássaro na mão em

vez da decepção de ver dois a voar. Além disso, não há tempo

para mais. (Saramago, 2002, p.52-3, grifos nossos)

Ao contrário do que vimos nesse trecho, agora o narrador afirma que pululam pensamentos na mente de Tertuliano Máximo Afonso e que, no entanto, o melhor mesmo é desconsiderá-los, uma vez que tais pensamentos desvirtuariam o percurso narrativo. Logo, se, por um lado, mais uma vez, o narrador insinua ser seu personagem principal “autônomo”, por outro, deixa claro que irá ignorar as reflexões de Tertuliano, confirmando seu “autoritarismo” na condução do relato.

Apenas aparentemente o narrador finge concordar com a ideia de que seus personagens possam se conduzir sozinhos, expressando juízos que não sejam arbitrários ou que não reproduzam unilateralmente os pensamentos do autor. Ao contrário disso, na verdade, Saramago parece satirizar os estudos literários que defendem a possibilidade e a manutenção de discursos polifônicos. Isso fica muito claro quando o narrador afirma que “o escrúpulo profissional” não teria permitido a invenção de uma zaragata de rua, e ainda quando diz que ele até poderia aceitar reproduzir os pensamentos de Tertuliano, mas isso desviaria muito o rumo da história, anulando o seu “serviço”.

Percebemos que tais considerações do narrador só podem ser consideradas pelo viés da ironia. É possível inclusive pensarmos numa espécie de paródia dos discursos polifônicos quando o narrador afirma que o “escrúpulo profissional” não permite que ele invente nada, ou quando diz, ironicamente, que nós “sabemos que valeria a pena” ouvir a “voz” de Tertuliano, muito embora saibamos que, na verdade, esse personagem é uma criatura extremamente desinteressante...

Como se percebe, valendo-se de diversas estratégias, o narrador cria um jogo entre a realidade e a ficção. No início da passagem citada, ele afirma que “o percurso do professor de História através da cidade, e até entrar em casa, não teve história”, e que isso é um fato. Aventa a possibilidade de poder inventar algo como “um acidente de trânsito com a única finalidade de encher os vazios da intriga”, o que se contrapõe a seu suposto “escrúpulo profissional” que o impediria de tal interferência.

Dessa forma, a instância narrativa parece instigar o leitor a acreditar que esse narrador nada inventa, relatando apenas aquilo que verdadeiramente aconteceu. Todavia, se de fato o narrador nada tem a criar – porque seu “escrúpulo profissional” não consente nisso –, dispondo-se somente a transpor fatos para o papel, como um mero “relator”, por que haveria de negar-se a reproduzir os “reais” pensamentos de Tertuliano? Essa negação em si já desmente esse narrador, uma vez que revela seu pleno controle da narrativa.

Ora, seria impossível chegar a um sentido satisfatório para o trecho analisado se não o examinarmos, mais uma vez, pelo viés da ironia. Ocorre que o narrador afirma que nada inventa e que seus personagens têm pensamentos próprios, contudo, como vimos, ele se desmente. Mas é óbvio que estamos diante de uma estratégia: o narrador não faz mais do que mostrar, ironicamente, que comanda o fazer literário, reforçando, pois, o ficcional e manipulando o leitor segundo lhe apraz.

Todas essas considerações apontam para a constatação de que o narrador reconhece o quão penoso é o trabalho literário, caso contrário, não titubearia em listar os pensamentos “de Tertuliano”, abandonando o fio narrativo, segundo ele, arduamente construído. A expressão “de Tertuliano” foi colocada entre aspas justamente para que se perceba que, na opinião desse narrador, não existem realmente pensamentos que possam ser atribuídos aos persona-gens: eles não têm autonomia, estão sob o domínio de um narrador manipulador.

Logo, se estamos falando em “trabalho literário”, isso já exclui qualquer “registro mecânico” de fatos para o papel, conforme propõe ironicamente o narrador. É também de forma irônica que a instância narrativa tenta propagar a opinião de que nada “inventa” – consideração esta que não deixa de contribuir com a verossimilhança. Na verdade, portanto, ocorre nesse trecho uma ênfase aos caminhos escarpados do fazer literário.

Essa tensão entre vozes aparentemente adversas e irônicas é, sem dúvida alguma, proposital. Está inserida no trecho analisado, como em outros do romance, a fim de provocar no leitor uma interessante reflexão sobre o ato criativo literário. Por conseguinte, o narrador parece nos propor, de maneira instigante, uma meditação sobre a criação literária e, mais pontualmente, sobre a origem do fazer literário: seria a fantasia ou a realidade o “terreno fértil” de onde brotaria a literatura?

As três passagens abaixo expressarão de maneira assaz reveladora a tensão a que nos referimos até aqui. Todas se referem a Tertuliano:

Se do próprio responsável da idéia não podemos, neste

momento, esperar que nos ilumine os caminhos, sem nenhuma

dúvida tortuosos, por onde vagamente estará imaginando que

alcançará os seus objetivos, não se conte conosco, simples

transcritores de pensamentos alheios e fiéis copistas das suas

ações, para que antecipemos os passos seguintes de uma

procissão que ainda agora vai no adro. (Saramago, 2002,

p.188, grifos nossos)

No entanto, o privilégio de que gozamos, este de saber tudo

quanto haverá de suceder até à última página deste relato, com

exceção do que ainda vai ser preciso inventar no futuro [...].

(2002, p.244, grifos nossos)

Tal como parece que da natureza se diz, também a narrativa

tem horror ao vazio, por isso, não tendo Tertuliano Máximo

Afonso, neste intervalo, feito alguma coisa que valesse a pena

relatar, não tivemos outro remédio que improvisar um chumaço

de recheio que mais ou menos acomodasse o tempo à

situação. Agora que ele se resolveu a tirar a cassete da caixa e

a introduziu no leitor, poderemos descansar. (2002, p.88, grifos

nossos)

Nesses trechos, mais uma vez, o leitor precisa de atenção redobrada para não os interpretar literalmente. Se assim procedemos, somos obrigados a constatar uma simples oposição, ou um jogo do narrador, que ora conduz o leitor para a esfera do ficcional, ora para a esfera do “real”, ao discutir sobre as adversidades do fazer literário. Tal postura reduziria muito a análise.

Esses trechos exigem que lancemos sobre eles um olhar irônico, pois este foi com certeza o olhar do narrador. Quando ele se diz “simples transcritor de pensamentos alheios e fiel copista de suas ações”, novamente é lícito entendermos que estamos perante uma sátira ao discurso que defende a ideia de que uma narrativa deve se conduzir por si mesma, sem a manipulação do narrador. Portanto, a independência das personagens e a isenção do narrador são apenas aparentes. O narrador desse romance manipula, cria, utiliza-se de estratégias de convencimento e enfatiza ironicamente o caráter ficcional da narrativa.

É interessante chamar a atenção para o fato de que esse narrador sempre sugere, insinua, aventa possibilidades sem comprometer-se com nenhum afirmação explícita. Conforme temos insistido, cabe ao leitor aceitar – ou não – o convite bastante sutil desse narrador para que ele (o leitor) decifre esse texto caracterizado por tantas mensagens sub-reptícias.

O receptor dessa obra de Saramago deve, pois, estar atento para perceber as pistas deixadas pelo narrador e, concomitantemente, participar da construção do sentido. A própria instância narrativa, por meio de uma interessante digressão, chama a atenção do leitor para a importância de se decifrar os discursos subliminares, nomeados por ele de “subgestos”:

aproveitemos para desenvolver um pouco, pouquíssimo para o

que a complexidade da matéria necessitaria, a questão dos

subgestos, que aqui, pelo menos tanto quanto é do nosso

conhecimento, pela primeira vez se levanta. É costume dizer-

se, por exemplo, que Fulano, Beltrano ou Sicrano, numa

determinada situação, fizeram um gesto disso, ou daquilo, ou

daqueloutro, dizemo-lo assim, simplesmente, como se o isto, ou

o aquilo, ou o aqueloutro, dúvida, manifestação de apoio ou

aviso de cautela, fossem expressões forjadas de uma só peça,

a dúvida, sempre metódica, o apoio, sempre incondicional, o

aviso, sempre desinteressado, quando a verdade inteira, se

realmente a quisermos conhecer, se não nos contentarmos com

as letras gordas da comunicação, reclama que estejamos

atentos à cintilação múltipla dos subgestos que vão atrás do

gesto como a poeira cósmica vai atrás da cauda do cometa,

porque esses subgestos, para recorrermos a uma comparação

ao alcance de todas as idades e compreensões, são como as

letrinhas pequenas do contrato, que dão trabalho a decifrar,

mas estão lá. (Saramago, 2002, p.46-7, grifos nossos) Fica evidente aqui que o narrador faz realmente um convite ao leitor para que este dê importância às palavras ditas de maneira indireta, pois elas correspondem, de acordo com ele, à “verdade inteira”. A instância narrativa refere-se, conforme é possível inferir, à própria narrativa que edifica, caracterizada, portanto, pela sugestão, pela insinuação ou ainda pelos “subgestos”.

Além disso, o romance ainda apresenta casos diferentes de ironia romântica, passagens realmente significativas por proporcionarem uma reflexão que, de fato, extrapola os limites do ficcional. Examinemos o seguinte fragmento:

É de todos conhecido, porém, que a enorme carga de tradição,

hábitos e costumes que ocupa a maior parte do nosso cérebro

lastra sem piedade as idéia mais brilhantes e inovadoras de que

a parte restante ainda é capaz, e se é verdade que em alguns

casos essa carga consegue equilibrar desgovernos e

desmandos de imaginação que Deus sabe aonde nos levariam

se fossem deixados à solta, também não é menos verdade que

ela tem, com frequência, artes de submeter sutilmente a

tropismos inconscientes o que críamos ser a nossa liberdade de

atuar, como uma planta que não sabe por que terá sempre de

inclinar-se para o lado de onde lhe vem a luz. (Saramago, 2002,

p.86)

Como se vê, a instância narrativa tece um comentário bastante crítico que abrange muito mais do que apenas Tertuliano Máximo Afonso e sua dificuldade em administrar bem sua vida em todos os setores (amoroso, profissional, pessoal)... Na verdade, por meio dessa intervenção – assim chamada porque interrompe o fio narrativo –, o narrador desenvolve reflexões que apontam para fora da história, aqui entendida como série de fatos narrados.

Tais reflexões dirigem-se, portanto, ao próprio ser humano e à sua irracional tendência a pôr de lado todo seu “brilhantismo” e seus planos reais de vida em nome das convenções sociais e da “enorme carga de tradição”, como afirma esse narrador no trecho acima. Valendo-se dessa instância narrativa, Saramago nos convida a pensar um pouco sobre nosso direito à liberdade. É curioso notar que, mais uma vez, o convite não se faz às claras: é sugerido.

Ao contrário dos trechos de ironia romântica examinados anteriormente, que contribuíam com o reforço do ficcional, essa passagem, embora parta do ficcional (da vida sem sentido de Tertuliano), joga o leitor abruptamente para fora da narrativa, impelindo-o a refletir sobre sua vida “real” e sobre sua própria condição no mundo. Afinal, o narrador parece perguntar ao leitor a qual das duas esferas ele pertence: a daqueles submetidos completamente aos hábitos e tradições sociais, responsáveis por nos cercear, ou à categoria daqueles que, libertos, veem com mais facilidade as tentativas de manipulação que os rodeiam.

Vejamos outras duas passagens:

Afinal estará a dormir quando a mulher entrar na sala, mas o

efeito não se perdeu por completo, ela julgou que ele se tinha

levantado para estudar o papel, há algumas pessoas assim,

gente a quem um apurado sentido da responsabilidade mantém

permanentemente inquietas, como se em cada momento

estivessem a faltar a um dever e disso se acusassem.

(Saramago, 2002, p.233, grifos nossos)

A alma humana é uma caixa donde sempre pode saltar um

palhaço a fazer caretas e a deitar-nos a língua de fora, mas há

ocasiões em que esse mesmo palhaço se limita a olhar-nos por

cima da borda da caixa, e se vê que, por acidente, estamos

procedendo segundo o que é justo e honesto, acena

aprovadoramente com a cabeça e desaparece a pensar que

ainda não somos um caso perdido. (Saramago, 2002, p.293)

Em ambos os fragmentos temos um narrador que toma a ficção como ponto de partida para a sua análise do Homem, atraindo, depois, o leitor consigo para fora do ficcional, para sua realidade, para sua existência como ser humano no mundo. A reflexão acerca da vida, acerca do “estar no mundo” e seus entraves inicia-se, pois, na ficção e se completa na “realidade”, quando o leitor consegue aplicar tais raciocínios a seu cotidiano, avaliando as necessidades de mudança – ou não.

É fundamental salientar ainda a sensibilidade desse narrador, que se faz presente no decorrer de toda a narrativa. Trata-se de passagens dignas de um poeta, tendência também patente na passagem a seguir, na qual o escritor se utiliza com maestria de uma linguagem toda figurada para nos falar do homem e do professor limitado e sem vitalidade que é Tertuliano Máximo Afonso:

A História que Tertuliano Máximo Afonso tem a missão de

ensinar é como um bonsai a que de vez em quando se aparam

as raízes para que não cresça, uma miniatura infantil da

gigantesca árvore dos lugares e do tempo, e de quanto neles

vai sucedendo, olhamos, vemos a desigualdade de tamanho e

por aí nos deixamos ficar, passamos por alto outras diferenças

não menos notáveis, por exemplo, nenhuma ave, nenhum

pássaro, nem sequer o diminuto beija-flor, conseguiria fazer

ninho nos ramos de um bonsai [...]. (Saramago, 2002, p.15)

Encontramos aqui, mais uma vez, o diálogo entre a ficção e a realidade presente em O homem duplicado, de José Saramago. Como foi visto, por meio de estratégias discursivas diferentes, a intenção subjacente a esse texto é constante: evocar a discussão sobre a arte literária e suas funções.

Assim, seja através do recurso à ironia romântica que reforça o ficcional, seja por meio da ironia romântica que nos envia para fora do texto ficcional, as mesmas indagações são sempre recorrentes: quais são os limites da literatura? Quais são suas origens e seus motivos? De onde ela vem e para onde vai?

Nós, leitores, somos constantemente orientados por esse narrador a não buscar respostas pontuais para esses questionamentos. Na verdade, embora o narrador enfatize o ficcional, ironicamente, nas primeiras passagens analisadas, baseados nos últimos excertos observados, podemos afirmar que, para Saramago, o fazer literário não é só “ficção” ou apenas “realidade”, não se inicia com a fantasia e termina com a verdade e nem só parte da verdade e caminha para a ficção.

Observemos o seguinte trecho do romance:

A vida real sempre nos tem parecido mais parca em

coincidências que o romance e as outras ficções, salvo se

admitíssemos que o princípio da coincidência é o verdadeiro e

único regedor do mundo, e nesse caso tanto deveria valer

aquilo que se vive como aquilo que se escreve, e vice-versa.

(Saramago, 2002, p.170-1)

Essa passagem é extremamente significativa, na medida em que elucida justamente a discussão realizada até o momento. Ora, o narrador tece o seguinte raciocínio: a “vida real” é pobre em coincidências em relação à ficção; entretanto, “o princípio da coincidência é o verdadeiro e único regedor do mundo”. A instância narrativa insinua, mais uma vez, pois, a necessidade de amalgamar realidade e ficção, colocando essas duas “categorias” no mesmo patamar, conferindo a elas, por conseguinte, a mesma importância. “Ouçamos” as palavras do estudioso Antonio Candido:

A fantasia quase nunca é pura. Ela se refere constantemente a

alguma realidade: fenômeno natural, paisagem, sentimento,

fato, desejo de explicação, costumes, problemas humanos, etc.

Eis por que surge a indagação sobre o vínculo entre fantasia e

realidade, que pode servir de entrada para pensar na função da

literatura. (Saramago, 2000, p.130)

Logo, o fazer literário é “feito” de realidade e de ficção, sempre. Como explica Antonio Candido, a literatura parte muitas vezes do real, transpondo “marcas de realidade” para a ficção que se edifica. Porém, tais marcas serão apreendidas – ou não – pelo leitor, que as conduzirá novamente para sua realidade.

Portanto, uma vez que parte do real, a literatura carrega consigo certa dose de “verdade” e é justamente por isso que tem também o papel tão importante de possibilitar a transformação do ser humano e, consequentemente, de seu mundo. Trata-se, por conseguinte, de um maravilhoso e infinito processo; “maravilhoso” e “infinito” porque instaura, perpetuamente, a possibilidade de mudança.

Convém que nos perguntemos, finalmente, sobre a escolha das profissões de Tertuliano Máximo Afonso e de Antonio Claro. Quais razões determinam que o primeiro seja um professor de História e o segundo, um ator? O historiador lida com fatos reais que já sucederam, enquanto o ator trabalha em geral com a ficção, ou seja, com fatos que poderiam ter acontecido.

Tertuliano Máximo Afonso, em sua condição de professor de História – aliás, um mau professor na opinião do narrador –, consegue enxergar apenas o palpável, o real. Ele não tem nenhum conhecimento sobre o outro e parece não se importar com isso. Falta-lhe, pois, autoconhecimento, uma vez que o exercício da alteridade não lhe é costumeiro.

Dito de outra maneira, Tertuliano não valoriza o convívio com as outras pessoas. O professor de História não sente simpatia e muito menos amizade por ninguém em seu ambiente profissional. A única pessoa com quem mantém um relacionamento é Maria da Paz, a quem ele constantemente magoa, porque não a reconhece enquanto companheira:

Tertuliano Máximo Afonso marcou o número do telefone de

Maria da Paz, provavelmente atende-lo-ia a mãe, e o breve

diálogo seria mais uma pequena comédia de fingimentos,

grotesca e com um ligeiro toque de patético, A Maria da Paz

está, perguntaria, Quem quer falar com ela, Um amigo, Como é

o seu nome, Diga-lhe que é um amigo, ela saberá de quem se

trata [...] Ao longo de seis meses de sua relação com Maria da

Paz não foram muitas as vezes que Tertuliano precisou de

telefonar-lhe [...]. (Saramago, 2002, p.122)

Tertuliano não entende, pois, nada do ser humano e muito me-nos de si, vivendo centrado em si mesmo e, por isso, não conseguindo resolver seus conflitos interiores.

Antonio Claro, em contrapartida, é ator. Sua profissão é, de certa forma, oposta à de Tertuliano, uma vez que o êxito de seu trabalho está justamente em se colocar “na pele” dos outros, vivenciando experiências diferentes. Antonio Claro é um fingidor; precisa imitar a dor e os prazeres alheios e, para ser convincente, necessita se aproximar e entender o outro.

Bem, José Saramago, ao que parece, está tentando dizer algo por meio de toda essa representação. Em primeiro lugar, é preciso reconhecer uma refinada ironia na finalização dessa narrativa: o professor de História é, na verdade, quem morre, uma vez que terá que esquecer sua própria vida e encarnar a figura do ator. Assim, o ator morreu e, entretanto, continuará vivo na pele de Tertuliano Máximo Afonso. Trata-se de uma profunda ironia: o professor de História está vivo, mas, na “realidade”, morreu, e o ator, por sua vez, morreu, mas, “de fato”, está vivo.

Seguindo esse raciocínio, é possível imaginar que a personagem do ator é uma metáfora da própria obra literária. Tertuliano, o professor de História, parece estar destinado a encontrar o ator, seu duplo. Tudo leva a Antonio Claro, e Tertuliano não consegue mais evitar o encontro, pois sente necessidade dele. Nicole Fernandez Bravo (2000, p.273), referindo-se a um personagem de Hoffmann, que vive um conflito muito parecido com o de Tertuliano, afirma: “Somente pela aceitação final de sua identidade na solidão e na religião (substitutas da arte, que, noutros textos, é o meio de transcender a existência humana fadada ao dilaceramento) é que ele assumirá sua identidade”.

O contato com a arte literária – representada pelo ator – permitirá que Tertuliano inicie uma viagem para dentro de si mesmo, rumo ao autoconhecimento. É curioso perceber que Tertuliano não apenas “entrou em contato” com o ator, mas inclusive tomou seu lugar.

Isso significa que é justamente por meio da aproximação e da identificação com o texto ou com personagens literários – ou com a arte de maneira geral – que se conhece a si mesmo. Agora, na pele do ator, o professor de História será obrigado a praticar o exercício da alteridade e, gradualmente, tornar-se-á uma pessoa melhor. Ocorre, portanto, a morte simbólica do professor de História a fim de que um outro, mais humano e mais sensível, chegue a nascer.

Saramago realizou com maestria uma metaficção, já que utilizou uma obra de arte literária para refletir justamente sobre a importância fundamental da arte na construção da identidade. O homem duplicado é, sem dúvida, uma narrativa que contempla um interessante processo de autorreflexão, uma vez que tematiza o próprio processo da escrita literária.

Logo, Saramago entende que a literatura atua na formação do homem. Para tanto, dá ênfase à profunda relação que existe entre o real e o ficcional. Antonio Candido, em seu texto “A literatura e a formação do homem”, afirma que o laço entre a imaginação literária e a realidade concreta do mundo é o que caracteriza a literatura como uma “força” integradora e transformadora do ser humano.

O autor de O homem duplicado representou de maneira incisiva a importância da arte literária: colocou um historiador (representante do real, do concreto) em uma busca obsessiva pelo ator, seu duplo (representante da ficção). O contato entre esses dois grandes personagens permitirá – ou não (porque muitos e muito diferentes são os Tertulianos...) – o início da busca de si mesmo.

Como fecho da presente análise vale lembrar que “A metaficção revela sua condição de artifício e explora a problemática relação entre vida e ficção. Simultaneamente se cria uma ficção e é constatada a invenção da mesma” (Waugh, 1990, p.34).

 

As refrações da ironia em O cavaleiro

inexistente, de Calvino

Consideramos O cavaleiro inexistente, de Ítalo Calvino, uma obra fundamental para nossa investigação, uma vez que, além de contemplar a problemática da ironia, paródia e riso, convida o lei-tor a participar ativamente da construção do sentido. E isso se dá desde o fato de que a história – entendida como sequência de fatos narrados – não parece ser a primeira preocupação do narrador. Na verdade, a essência do texto está não na superfície exposta, mas nas suas lacunas, nas entrelinhas, ou seja, naquele espaço que parece extrapolar a narrativa propriamente dita. Essa essência precisa ser destilada do texto, chegando-nos, assim, de modo indireto. Uma vez vislumbrada, ela revela uma substância envolvida pela complexa trama da ironia, do riso e da paródia.

Como paródia das novelas de cavalaria medievais, a obra está estruturada por uma série de oposições. A primeira delas é justamente a contradição entre os cavaleiros de Carlos Magno e Agilulfo Emo Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura, cavaleiro de Selimpia Citeriori e Fez, ou simplesmente o “cavaleiro inexistente”.

É interessante notar que a própria figura de Carlos Magno – poderoso imperador franco que brilha com destaque na história europeia, estando na raiz de França, Alemanha e Itália – é igualmente parte da trama irônica e risível construída pelo narrador. Paródia do herói medieval e da própria concepção de monarquia, Carlos Magno nos é mostrado em meio a seus cavaleiros e em oposição ao cavaleiro Agilulfo, compondo um quadro que justamente mostra seu lado menos fotogênico. Assim, já na primeira página da narrativa, lemos o seguinte:

Finalmente, vislumbraram-no avançando lá no fundo, Carlos

Magno, num cavalo que parecia maior que o natural, com a

barba no peito, as mãos no arção da sela. Reina e guerreia,

guerreia e reina, faz e desfaz, parecia um tanto envelhecido,

desde a última vez que aqueles guerreiros o tinham visto.

(Calvino, 2005, p.7, grifos nossos)

Percebemos, sobretudo pelos trechos salientados, o objetivo do narrador de desmistificar as imagens de “belo” e “eterno” associadas a Carlos Magno. Na verdade, seu cavalo “parecia maior que o natural”, ou seja, já temos aí sutilmente criticada a questão da aparência de grandeza e virtude, empregada também em relação ao cavalo. Quando o narrador afirma que Carlos Magno “parecia um tanto envelhecido”, demonstra sua intenção, também implícita, de “humanizar” a figura de Carlos Magno, despindo-a das auréolas de “belo”, “eterno”, “grandioso” e outras de mesmo quilate.

O narrador satiriza, ainda, o automatismo do rei, que se comporta como um robô, entrevistando os cavaleiros:

e seguia adiante: – E-quem-é-você, paladino da França? –

repetia, sempre com a mesma cadência: “Tata-tatatai-tata-tata-

tatata...” [...] Todas coisas que, ditas pelo rei, dão prazer, mas

eram sempre as mesmas frases, há tantos anos. (Calvino,

2005, p.8)

O fato de ser Agilulfo um cavaleiro que não existe – mas que pode ser visto – não parece incomodar o rei, que o entrevista sem dar grande importância a isso. O narrador não deixa que esse ponto passe despercebido: “[o rei] girou o cavalo e afastou-se rumo ao acampamento real. Já velho, tendia a eliminar da mente as questões complicadas” (2005, p.10).

No que diz respeito aos cavaleiros, a instância narrativa age de mesma maneira:

Todo o resto, a perpétua confusão do exército em guerra, o

formigueiro diurno no qual o imprevisto pode se manifestar

como a fúria de um cavalo, agora silencia, pois o sono venceu a

todos: guerreiros e quadrúpedes da cristandade, estes

enfileirados e em pé, às vezes esfregando um casco no chão

ou emitindo um breve relincho ou zurrando, aqueles finalmente

livres dos elmos e das couraças, satisfeitos por se tornarem

seres humanos distintos e inconfundíveis, ali estão todos

roncando em uníssono. [...] Em nenhum lugar se dorme tão

bem como no exército. (Calvino, 2005, p.12, grifos nossos)

Aqui, os comentários tecidos pelo narrador acerca dos cavaleiros e dos animais são, propositalmente, confusos. Homens e cavalos são nivelados, pois “roncam em uníssono”. Porém, o narrador, irônico, afirma que os cavaleiros estão “satisfeitos por se tornarem seres humanos distintos e inconfundíveis”. Inconfundíveis? Ora, a ironia do narrador não poderia ser mais pungente. É interessante perceber, ainda, que a designação “quadrúpedes da cristandade” é carregada de malícia e, em contrapartida à desumanização ou desindividualização dos homens, confere traços humanos aos animais.

Em muitas outras passagens, os cavaleiros são correlacionados aos animais por meio das descrições do narrador: “e entre corcovear e dar cotoveladas, seus escudos prateados erguiam-se e abaixavam-se como guelras de um peixe. O exército se parecia com um peixe comprido repleto de escamas: uma enguia” (2005, p.23) Em vários momentos, o narrador flagra os cavaleiros se alimentando e, então, nos deparamos com cenas frequentemente dantescas:

Os pratos são os habituais no exército: peru recheado, pato no

espeto, carne de vaca na brasa, leitão, enguias, dourado. Os

valetes mal chegam a depositar as bandejas e os paladinos se

atiram em cima, pegam com as mãos, despedaçam com os

dentes, engorduram as couraças, espirram molho por todos os

lados. Há mais confusão que no combate: sopeiras que são

viradas, frangos assados que voam, e os valetes que levam as

bandejas antes que um insaciável as esvazie em sua tigela.

(Calvino, 2005, p.62-3)

Como se vê, existe realmente uma intenção do narrador de ridicularizar esses cavaleiros e isso inclui a figura de Carlos Magno. O trecho que acabamos de citar descreve um “banquete dos paladinos” e, durante esse jantar, ocorre uma revelação importante sobre Agilulfo: a castidade da dama salva por ele é questionável. Ora, foi justamente por ter defendido a pureza de uma pobre virgem que Agilulfo tinha se tornado cavaleiro do rei, de modo que seu posto poderia ser colocado em xeque. Toda essa discussão acontece durante páginas entre os cavaleiros e não ouvimos a voz do rei. Por fim, o narrador apenas acrescenta: “Carlos Magno, que até então mantivera rosto e barba inclinados sobre um prato de camarões de rio, julgou que chegara a hora de levantar o olhar” (2005, p.67). Assim, a crítica aos cavaleiros não poupa o rei Carlos Magno.

Já as descrições de Agilulfo têm caráter bem distinto. Vejamos a primeira delas:

Agilulfo deu alguns passos para misturar-se a um daqueles

abrigos, depois sem motivo foi para outro, mas não se

ambientou e ninguém ligou para ele. Permaneceu um pouco

indeciso às costas de um e de outro, sem participar dos

diálogos, depois colocou-se à parte. [...] A armadura branca

despontava isolada em meio ao prado. [...] Agilulfo era

certamente um modelo de soldado; porém, antipático a todos.

(Calvino, 2005, p.10-1)

Por ser extremamente correto, esse personagem era odiado por todos os demais cavaleiros. Seu perfeccionismo não lhe permitia aceitar qualquer negligência no serviço dos colegas: “chamava-os um por um, retirando-os das doces conversas ociosas da noitada, e contestava com discrição e firme exatidão as faltas deles [...]” (2005, p.11).

Portanto, Agilulfo se opõe a esses cavaleiros, sobretudo em relação à sua conduta: enquanto os cavaleiros são fúteis, irracionais e ociosos, o cavaleiro inexistente é trabalhador, responsável e, acima de tudo, ainda que não exista, Agilulfo pensa. Observemos a seguinte passagem:

Em nenhum lugar se dorme tão bem como no exército.

Somente Agilulfo não conseguia esse alívio. Na armadura

branca, completamente equipada, no interior de sua tenda, uma

das mais ordenadas e confortáveis do acampamento cristão,

tentava manter-se deitado e continuava pensando: não os

pensamentos ociosos e divagantes de quem está para pegar no

sono, mas sempre raciocínios determinados e exatos. [...]

Como era possível aquele fechar de olhos, aquela perda de

consciência de si próprio, aquele afundar num vazio das

próprias horas e depois, ao despertar, descobrir-se igual a

antes, juntando os fios da própria vida, Agilulfo não conseguia

saber, e sua inveja da faculdade de dormir característica das

pessoas existentes era uma inveja vaga, como de algo que não

se pode nem mesmo conceber. (Calvino, 2005, p.12-3, grifos

nossos)

Agilulfo nutre, pois, sensações ambíguas em relação aos “homens que existem”. Sente raiva de seus erros e nojo de seus hábitos – por exemplo, roncar e babar enquanto dormem –, no entanto, inveja sua capacidade de fechar os olhos e se desligar da vida por algumas horas.

Um personagem que contribui muito com a caracterização que estamos apresentando dos cavaleiros e de Agilulfo é Rambaldo de Rossiglione, um aspirante a cavaleiro. Seu único desejo é vingar a morte de seu pai, morto como herói na guerra, pelas mãos do pagão emir Isoarre. Rambaldo é ingênuo, pois vê na guerra um meio de justiça e enxerga os cavaleiros como personificações da honra. No entanto, à medida que convive com a cavalaria de Carlos Magno, decepciona-se:

Rambaldo gostaria de ter se misturado com aquela multidão

que pouco a pouco tomava a forma de pelotões e companhias

incorporadas, mas tinha a impressão de que aquele bater de

ferros era como um vibrar de élitros de insetos, um crepitar de

invólucros secos. Muitos dos guerreiros estavam fechados no

elmo e na couraça até a cintura, e sob os flancos e os

protetores dos rins despontavam as pernas com calças e meias

porque deixavam para colocar coxotes, perneiras e joelheiras

quando já estivessem montados. As pernas, sob aquele tórax

de aço, pareciam mais finas, como patas de grilo; e a maneira

como se moviam, falando, as cabeças redondas e sem olhos, e

também o modo de manter dobrados os braços pesados de

cubitais e manoplas parecia coisa de grilo ou de formiga; e

assim toda aquela azáfama lembrava um zumbido indistinto de

insetos. No meio deles, os olhos de Rambaldo procuravam

algo: era a armadura branca de Agilulfo que ele esperava

reencontrar, talvez porque sua aparição teria tornado mais

concreto o resto do exército, ou então porque a presença mais

sólida com que ele se deparara havia sido justamente a do

cavaleiro inexistente. (Calvino, 2005, p.19-20, grifos nossos)

Como se vê, Rambaldo, que desejava ser sagrado cavaleiro e que acabara de chegar ao exército, espera encontrar um cavaleiro idealizado: grandioso, forte, honesto e justo. Ao se deparar com a cavalaria de Carlos Magno, entretanto, experimenta uma frustração não apenas quanto ao caráter dos cavaleiros, mas também ao porte físico daqueles homens, cujas pernas eram finas “como patas de grilo”. A magreza e fragilidade dos cavaleiros eram disfarçadas pela armadura... Ironicamente, Rambaldo busca Agilulfo, o cavaleiro inexistente, “porque sua aparição teria tornado mais concreto o resto do exército.”

Logo, é possível inferir que, de fato, existe uma oposição bastante significativa entre Agilulfo e o exército do imperador Carlos Magno. Não há dúvida de que se trata de um contraste irônico, uma vez que o cavaleiro em questão não existe e, mesmo assim, ele é justamente a “presença mais sólida” entre os “paladinos da França”. Num outro momento, o narrador ainda afirma: “Rambaldo gostaria de trocar confidências com o cavaleiro da armadura branca, como se fosse o único capaz de compreendê-lo, nem ele mesmo saberia dizer por quê” (Calvino, 2005, p.43).

Certamente, estamos diante da contradição irônica que sustenta a paródia criada por Ítalo Calvino. Como dissemos, a obra em questão pode ser lida como uma paródia das novelas de cavalaria medievais. Nesse sentido, temos, pois, Agilulfo, de um lado, representando o cavaleiro ideal, bondoso, casto, honrado e cristão. De outro, os cavaleiros tais como eles são: irracionais, preguiçosos, desajeitados, feios e maliciosos. Esse contraste é irônico, pois não nos chega diretamente: o leitor é convidado a colaborar na edificação desse texto, fazendo a ponte entre a referência antiga (História) e a realização nova (obra do século XX); entre a retomada de um ideal (que enobrece a figura abstraída do passado) e a mesquinhez do cotidiano humano (que afeta a todos – ontem e hoje); entre arte e observação da realidade. A crítica e ironia de Calvino recai, assim, igualmente sobre Carlos Magno e seus cavaleiros.

Ao mesmo tempo que rebaixa o imperador e sua cavalaria, a narrativa põe em cena a figura de Agilulfo, um modelo de cavaleiro, o representante do “cavaleiro medieval” – que, não obstante, é um “cavaleiro inexistente”. Sua falta de materialidade aponta para seu caráter tanto ideal quanto ficcional.

Em seu artigo “O cavaleiro inexistente e o homem sem sombra – ou de quando não se vê a imagem no espelho”, publicado na re-vista Mirabilia, Maria da Penha Casado Alves entende que

Ítalo Calvino com seu romance O cavaleiro inexistente polemiza

com toda a tradição dos romances de cavalaria e

dialogicamente ri de todo esse universo idealizado,

apresentando-nos a decadência, senilidade e finitude dos

personagens magníficos que povoavam os romances de

cavalaria medievais, particularmente de Carlos Magno e seus

paladinos. (2003)

Segundo esse ponto de vista, estamos diante de um texto que parodia justamente a visão do cavaleiro medieval como “herói imaculado”. Na verdade, a história nos atesta que o cavaleiro que participava das Cruzadas não estava absolutamente interessado em “levar a fé aos povos bárbaros”, mas sim em pôr em prática quaisquer expedientes a fim de alcançar benefícios, como o lucro, a conquista de poder e status social. Não é sem razão que o historiador Leo Hubermann (1986, p.18) chama as Cruzadas de “expedições de saque”. Massaud Moisés, ao comentar A demanda do Santo Graal, traz à baila questões que são também pertinentes para O cavaleiro inexistente:

A Demanda corresponde precisamente à reação da Igreja

Católica contra o desvirtuamento da Cavalaria. Os cavaleiros

andantes feudais não raro acabaram por se transformar em

indivíduos desocupados, quando não em autênticos

bandoleiros, vivendo ao sabor do acaso, amedrontando,

pilhando, assaltando. A fim de trazê-los à civilização,

reconvertendo-os aos bons costumes, o Concílio de Clermont,

em 1095, decidiu a organização da primeira Cruzada e a

correspondente formação de uma cavalaria cristã. Inicia-se uma

vasta pregação de ideais de altruísmo e respeito às instituições.

A Demanda, cristianizando a lenda pagã do Santo Graal,

colabora intimamente com o processo restaurador da Cavalaria

andante: caracteriza-se por ser uma novela mística, em que se

contém uma especial noção de herói antifeudal, qualificado por

seu estoicismo inquebrantável e sua total ânsia de perfeição.

Novela a serviço do movimento renovador do espírito

cavaleiresco, em que o herói também está a serviço, não mais

do senhor feudal, mas de sua salvação sobrenatural, uma brisa

de teologismo varre-a de ponta a ponta, o que não impede,

porém, a existência de circunstâncias jactos líricos e eróticos,

nem algumas gotas de fantástico ou mágico, em que o real e o

imaginário se cruzam de modo surpreendente. (1999, p.29)

Agilulfo representa certamente esse cavaleiro paradigmático buscado pela Igreja para melhorar a imagem dos cavaleiros, que tinham fama de bandoleiros e saqueadores. Logo, em O cavaleiro inexistente, encontramos, de um lado, Agilulfo, representando o ideal de perfeição e, de outro, Carlos Magno e seu exército corporificando a nua e crua realidade acerca dos cavaleiros.

Um personagem que colabora muito para a legitimação dessa crítica à cavalaria é Torrismundo, um dos cavaleiros de Carlos Magno. Ele é o causador do conflito vivido por Agilulfo, pois declara que Sofrônia – justamente a moça que teve sua castidade salva por Agilulfo – é sua mãe (de Torrismundo). Ora, se Sofrônia já era mãe de Torrismundo, Agilulfo não preservou sua virgindade e, desse modo, não deveria fazer jus ao título que lhe fora conferido, à época desse acontecimento, de “cavaleiro de Carlos Magno”. Agilulfo corre, então, o mundo em busca de Sofrônia a fim de provar sua castidade.

Ao final, ficamos sabendo que tudo não passara de um engano, uma vez que Torrismundo e Sofrônia não tinham, na verdade, nenhum parentesco de sangue. Sofrônia ainda era imaculada quando foi encontrada por Torrismundo, e vivia a sua primeira experiência amorosa. Ambos são surpreendidos após a consumação do ato sexual e, antes que tudo fosse explicado, Agilulfo some com seu cava-lo, acreditando que os dois eram mesmo mãe e filho e que, portanto, ele não salvara a honra de Sofrônia no passado. Apenas a armadura de Agilulfo é encontrada, vazia; dele, não se teve mais notícias.

Ao montar esse enredo, no mínimo confuso, o narrador parece fazer uma crítica às convenções: primeiro porque, se Sofrônia não fosse virgem, não mereceria ser protegida por Agilulfo; segundo, porque Agilulfo só poderia ser considerado um “cavaleiro nobre e ímpio” se tivesse salvado uma dama casta, caso contrário, deveria perder o posto de cavaleiro. A vida de Sofrônia e as qualidades de Agilulfo se constituem, realmente, como preocupações secundárias.

Como dissemos, enquanto Agilulfo sai em busca de Sofrônia, Torrismundo, acreditando ainda ser filho dela, antes que todo esse mistério fosse desvendado, passa a procurar por seu pai, que, segundo ele, é a “Sagrada Ordem dos Cavaleiros do Santo Graal”! Nesse ponto, o tom crítico da narrativa atinge seu auge. Vejamos o momento em que Torrismundo explica as circunstâncias de sua concepção ao rei Carlos Magno e aos cavaleiros:

– Meu pai não é um homem.

– E quem seria? Belzebu?

– Não, sire – disse calmamente Torrismundo.

– Quem então?

Torrismundo avançou até o meio da sala, pôs um joelho no

chão, ergueu os olhos para o céu e disse:

– É a Sagrada Ordem dos Cavaleiros do Santo Graal. Um

murmúrio percorreu o banquete. Alguns dos paladinos se

benzeram.

– Minha mãe era uma menina ousada – explicou Torrismundo –

e corria sempre para o mais profundo dos bosques que

circundavam o castelo. Certo dia, no fundo da floresta, deparou-

se com os cavaleiros do Santo Graal, lá acampados para

fortificar seu espírito no isolamento do mundo. A menina

começou a brincar com aqueles guerreiros e a partir daquele

dia, sempre que possível, enganava a vigilância familiar e

alcançava o acampamento. Mas em pouco tempo, com aquelas

brincadeiras de criança, acabou grávida. (Calvino, 2005, p.70)

Carlos Magno, sem grande susto, afirma:

Se você conseguir chegar até os cavaleiros do Santo Graal e

fazer-se reconhecer como filho de toda a ordem, considerada

coletivamente, seus direitos militares, dadas as prerrogativas da

ordem, não seriam diferentes daqueles que tinha como filho de

uma família nobre. (Calvino, 2005, p.70)

A ironia que percorre esses trechos é muito interessante, conduzindo-nos, sem dúvida alguma, ao riso. O leitor que participa da construção do sentido percebe que fatos, no mínimo hediondos, são narrados com uma impressionante naturalidade. Antes de tudo, Sofrônia é tratada por “menina” porque tinha apenas treze anos, quando se acreditava que ela teria engravidado. Então, o narrador, por meio de uma ironia sutil, afirma que Sofrônia, graças àquelas “brincadeiras de criança” com os guerreiros da “santa ordem”, acabou grávida.

E pior: não se podia atribuir a paternidade a um único guerreiro. Torrismundo explica: “– Minha mãe nunca me falou de um cavaleiro em particular, mas me educou para respeitar como pai a sagrada ordem em seu conjunto” (2005, p.70). Bem, ao que tudo indica, Sofrônia, aos treze anos, manteve relações sexuais com todos os cavaleiros da “Sagrada Ordem dos Cavaleiros do Santo Graal”, de modo que acabou grávida e, nada mais “natural” do que afirmar que todos eles, considerados coletivamente, são “os pais” de Torrismundo!

Rimos da incongruência entre a gravidade desse acontecimento e a aparente e calculada “espontaneidade” por meio da qual esse fato é narrado. Depois de algumas páginas, o leitor fica sabendo que não foi nada disso: Sofrônia ainda era intocada até encontrar-se com Torrismundo, que não era seu filho... Mas que diferença faz?

Isso não torna a “Sagrada Ordem” menos culpada, uma vez que o que interessa à instância narrativa é justamente insinuar a possibilidade de tamanho delito.

Essa possibilidade se faz legítima graças à tranquilidade por meio da qual é narrada e, ainda, pela aceitação pacífica de Carlos Magno. Portanto, para Ítalo Calvino, o que importa não parece ser, de fato, a “história em si mesma”, até porque ela é muito confusa e, não raro, completamente inverossímil. Esse autor se interessa, sim, em criticar, refletir, propor, insinuar ideias e pensamentos de modo irônico; tais “propostas de reflexão” se encontram, pois, sob essa trama confusa. A história se configura como um mero pretexto, portanto.

Como já dissemos, Torrismundo vai ao encontro dos cavaleiros do Graal e se surpreende com o que encontra:

Outros cavaleiros seguravam tochas acesas e ateavam fogo

nos tetos, nos depósitos de feno, nas estrebarias, nos celeiros

miseráveis, até que as aldeias ficassem reduzidas a fogueiras

que eram só gritos e prantos. Torrismundo, arrastado pela

corrida dos cavaleiros, estava transtornado. – Alguém me diga

por quê? – gritava para o ancião, indo atrás dele, como se fosse

o único que podia ouvi-lo. – Então não é verdade que estejam

cheios de amor pelo todo! Ei! Atenção, estão atacando aquela

velha! Como têm coragem de investir sobre restos humanos?

Socorro, as chamas atingem aquele berço! Mas o que estão

fazendo? – Não queira interferir nos desígnios do Graal, noviço!

– advertiu o ancião. – Não somos nós quem faz isso; é o Graal,

que está em nós, que nos move! Entregue-se ao seu amor

furioso! (Calvino, 2005, p.102)

Portanto, não há dúvida de que estamos diante de um texto paródico. Calvino demole um a um os ideais associados aos cavaleiros medievais. Tais homens são criminosos, porque saqueiam, porque roubam, porque investem contra as mulheres e as crianças e porque matam. Essas atitudes são ironicamente criticadas por Ítalo Calvino. Falta a esses cavaleiros nobreza de caráter e respeito pelos semelhantes e, pelo viés da ironia, da paródia e do riso, o au-tor de O cavaleiro inexistente denuncia essa índole perversa.

Conforme dissemos, o cavaleiro Agilulfo está no lado oposto: é íntegro, responsável, racional, trabalhador, entretanto não existe, não passa de uma armadura impecável e vazia. Talvez esteja aqui a maior ironia da obra, pois que o ideal – representado por Agilulfo

– não existe. Sua existência como ideal torna-o algo que não se concretizou nunca e não se pode concretizar jamais.

Logo, Ítalo Calvino parece ter encontrado a estratégia mais eficaz e mais brilhante para expressar a sua mensagem: personificou o paradigma do cavaleiro nobre e perfeito em um personagem que não existe, edificando pelos caminhos da ironia e da paródia uma verdadeira obra de arte. Pois é, assim como Galahaad também só poderia existir em uma obra literária, ficcional. Afinal, ele concretiza um ideal de retidão, abstinência e devoção que nenhum ser humano de carne e osso conseguiria igualar.

O riso tem também um lugar especial nessa narrativa. Entendido como resultado de uma incongruência entre a razão e a realidade concreta, ele percorre, como não podia deixar de ser, todas as páginas de O cavaleiro inexistente. A própria condição do cavaleiro Agilulfo, que existe sem existir é risível. Como vimos na parte teórica deste livro, estamos falando de um riso que nos convida a refletir: afinal, se rimos da situação de “existência” de Agilulfo, surpreendemo-nos ainda mais quando nos aproximamos dos possíveis motivos pelos quais Ítalo Calvino cria esse personagem, constituído dessa maneira.

Afora toda a organização estrutural da narrativa – que é, sem dúvida, irônica – e que cria consequentemente a oportunidade para o evento do riso, há um personagem que colabora muito para a irrupção do risível: Gurdulu, um andarilho encontrado pelo exército de Carlos Magno. Ele tem uma especificidade, que é a de transformar-se, sem o perceber, nas pessoas, nos objetos ou ainda nos animais com que se depara. Tal como a inexistência de Agilulfo, tal fato não é verossímil. Mas a verdade é que Gurdulu em vários momentos tem o papel fundamental de servir à estratégia ficcional de criar a ironia segundo os parâmetros de Schopenhauer e reforçar a postura crítica. Vejamos, antes de mais nada, alguns momentos em que aparece Gurdulu:

Em meio às aves, havia um homem, mas não dava para

entender o que fazia: andava de cócoras, com as mãos atrás

das costas, levantando os pés de pato como um palmípede,

com o pescoço duro e dizendo: “Quá... quá... quá...”. Os patos

não ligavam para ele, como se o reconhecessem enquanto um

deles. [...] Os paladinos acercaram-se do pântano. Não se via

Gurdulu. Os patos, atravessado o espelho d’água, haviam

retomado o caminho entre o capim com seus passos

palmípedes. Ao redor da água, do meio das avencas, subia um

coro de rãs. O homem tirou a cabeça da água de repente, como

se lembrasse que de-via respirar naquele momento. Viu-se

perdido, como se não entendesse o que era aquele contorno de

avencas dentro d’água a um palmo de seu nariz. Em cada

folha, sentava-se um animalzinho verde, liso liso, que o

examinava e coaxava com toda a força: “Gra! Gra! Gra!”. – Gra!

Gra! Gra! – respondeu Gurdulu, contente e, ao som de sua voz,

de todas as avencas, era um tal de rã pular na água, e, da É interessante perceber, ainda, que, antes de a “confusão” completar-se, quando Gurdulu ainda tem a noção exata de quem era ele e de quem era o rei, já aí a crítica a Carlos Magno se faz presente. A recusa ao rei apenas se intensifica à proporção que a transposição ocorre, e chega ao cúmulo quando Gurdulu se dirige ao rei como “um velho decrépito”. Portanto, não resta dúvida de que a figura de Gurdulu serve como um expediente interessante de que o narrador faz uso para, ironicamente, atacar o despotismo de Carlos Magno.

água, rãs saltando para a margem, e Gurdulu gritando: – Gra! –

deu um pulo ele também, foi para a margem, ensopado e

enlameado da cabeça aos pés, encolheu-se feito uma rã e

lançou um “Gra!” tão forte que com um barulho de caniços e

capins tornou a cair no pântano. (Calvino, 2005, p.24-5)

Num outro momento, o exército se depara mais uma vez com a figura de Gurdulu:

A cavalgada ladeava um pomar de pereiras. Os frutos estavam

maduros. Com as lanças os guerreiros espetavam peras,

fazendo-as desaparecer no bico dos elmos, depois cuspiam o

que sobrava. Enfileirado entre as pereiras, quem se vê?

Gurdulu. Mantinha os braços para cima, torcidos feito ramos, e

nas mãos, na boca, na cabeça e nos rasgões da roupa

carregava peras.

– Olhem, ele está bancando uma pereira! – exclamava Carlos

Mag-no, risonho.

– Já vou sacudi-lo! – disse Orlando, e deu-lhe uma pancada.

Gurdulu deixou cair ao mesmo tempo todas as peras, que

rolaram pelo prado em declive, e ao vê-las descer não pôde

fazer outra coisa senão rolar também ele feito pera no relvado e

assim desapareceu da vista de todos. (Calvino, 2005, p.26)

Em vários momentos da narrativa, temos a oportunidade de ver Gurdulu confundindo-se com as coisas a seu redor e são, realmente, cenas muito engraçadas. Não se trata, porém, do “riso sério” fruto de uma contradição, estudado no capítulo 4, mas sim de um riso que é fruto da constatação de um erro ou defeito no outro. O riso que nos interessa mais, o riso de Schopenhauer, acontece na cena seguinte, que narra o encontro entre Gurdulu e o rei Carlos Magno:

Dois paladinos iam na frente arrastando Gurdulu com todo o

seu peso como se fosse um saco. Aos empurrões, colocaram-

no em pé diante de Carlos Magno.

– Tire o chapéu, sua besta! Não vê que está diante do rei?

O rosto de Gurdulu iluminou-se, era uma carantonha

encalorada em que se misturavam caracteres francos e

mourescos [...] Começou a desfazer-se em reverências e a falar

sem parar. Aqueles nobres senhores, que até então só haviam

escutado de sua boca vozes de animais, ficaram espantados.

[...] Entre palavras ininteligíveis e despropósitos, seu discurso

era mais ou menos este:

– Toco o nariz com a terra, caio em pé nos vossos joelhos,

declaro-me augusto servidor deVossa Humilíssima Majestade,

comandem-se e me obedecerei! – Brandiu uma colher que

trazia presa na cintura.

– ...E quando a Majestade Vossa diz: “Ordeno, comando e

quero”, e faz assim com o cetro, assim com o cetro como eu

faço, estão vendo?, e grita como eu: “Ordenooo, comandooo e

querooo!”, vocês, todos súditos cães, têm de me obedecer

senão mando empalar todos e, em primeiro lugar, você aí com

essa barba e cara de velho decrépito!

– Devo cortar-lhe a cabeça de um golpe só, sire? – perguntou

Orlando, e já desembainhava.

– Rogo graça para ele, Majestade – apressou-se o hortelão. –

Foi um de seus descuidos habituais: falando com o rei,

confundiu-se e não se lembrou mais se o rei era ele ou aquele

com quem falava. (Calvino, 2005, p.27-8)

Como se vê, todos os momentos anteriores de confusão de Gurdulu que foram narrados parecem preparar o terreno para esse encontro e, consequentemente, para o instante, já antecipado pelo leitor, em que Gurdulu se confundisse com o rei Carlos Magno. Se observarmos bem a cena, percebemos que a confusão não se dá imediatamente: só aos poucos Gurdulu vai assimilando a figura de Carlos Magno e revelando, também gradualmente, a tirania e a estupidez do rei.

Obviamente, rimos, e esse riso é consequência de uma incongruência: em primeiro lugar, o leitor não espera essa atitude tão “lúcida” de Gurdulu, julgado um louco. Depois, o leitor se dá conta da ironia: entre as confusões anteriores de Gurdulu e essa última – a confusão com Carlos Magno – há uma grande distância. Se, nos momentos anteriores, consideramos Gurdulu simplesmente um insano, agora entendemos que sua percepção é, de certo modo, crítica e inteligente. Por meio de Gurdulu, a instância narrativa tece, portanto, uma crítica muito pertinente ao rei Carlos Magno. Aquele que ri dessa última “peripécia” de Gurdulu, compreende a tensão, assimila o contraste, empresta seu saber para a construção do sentido e, desse modo, alarga seu conhecimento.

O cavaleiro inexistente é, como se vê, uma obra muito complexa e multifacetada, de modo que jamais poderíamos encerrar a análise de todos os seus aspectos. Só a figura do narrador, por exemplo, daria um rico trabalho, uma vez que é apenas ao final da história que o leitor percebe que a história é narrada por Bradamante, uma mulher que integra o exército de Carlos Magno, sendo desejada por todos os cavaleiros, mas que está disposta a relacionar-se apenas com Agilulfo. Bradamante é apaixonada pelo cavaleiro inexistente e seu papel de narradora certamente mereceria ser investigado em outro trabalho.

O que nos interessa por ora, entretanto, é justamente legitimar a estrutura dissonante da narrativa, marcada de modo significativo pela ironia, que acaba propiciando também a presença da paródia e do riso. Conforme pudemos observar, para Ítalo Calvino não importa muito a lógica racional ou a realidade concreta, mas sim o convite – endereçado ao leitor – para olhar o mundo de um modo diferente e, quem sabe, assim, entendê-lo um pouco melhor. Em contato com personagens – de certo modo, tão absurdos como Agilulfo e Gurdulu –, o leitor é chamado a libertar-se de uma visão padronizada e racional e enxergar algo além das ideias preconcebidas. Para tanto, deve transcender a mímesis ingênua e por vezes bastante inverossímil e desvelar as mensagens sub-reptícias e irônicas.