A ironia e suas refrações
5. Conclusão teórica
Como afirmamos no decorrer deste livro, as modalidades em questão – ironia, paródia e riso – nos interessam, sobretudo, no que se refere à sua capacidade de desencadear o processo de reflexão no sujeito.
Ainda quando, por meio da interpretação da ironia, o sujeito encontra uma “verdade” próxima ao senso comum, ele chega a isso de maneira diversa. Ou seja, se tal “verdade” foi assimilada após a revelação da ironia, significa que o sujeito precisou pôr em ação o seu saber, raciocinando sobre aquele acontecimento. Portanto, as modalidades estudadas se constituem, sempre, como uma oportunidade de ampliação do conhecimento, uma vez que motivam o sujeito ao uso da razão.
No caso específico da ironia e da paródia – manifestações que se singularizam pela preocupação com a palavra – examinamos os procedimentos literários, os efeitos de sentido ocasionados pelo embate de vozes no texto e, ainda, as formas de edificação dos discursos paródicos e irônicos em textos estritamente literários.
O riso é, nesse aspecto, um acontecimento ímpar, justamente por não se tratar de uma “categoria literária”, como ocorre com a paródia e com a ironia, embora essas modalidades (a paródia e a ironia) não estejam restritas ao âmbito da literatura. A configuração do riso é diferente. Para Umberto Eco (2006, p.66): “o cômico pertence à esfera dos sentimentos (ou, se quiserem, à psicologia e à fisiologia), portanto, falar dele como de categoria literária é um caso de ‘antimetódica construção doutrinal’”.
Em razão disso, remontamos à Antiguidade clássica e percorremos os séculos em busca daqueles que estudaram o risível, e encontramos críticos literários e cientistas, mas sobretudo filósofos. Deparamonos com teorias as mais variadas, conforme mostramos nos capítulos anteriores. Após esse percurso de estudo sobre o riso, a paródia e a ironia, é interessante perceber os pontos de contato entre essas modalidades e, ainda, os aspectos que, ao contrário, as individualizam.
A primeira semelhança que comentaremos diz respeito ao fato de que esses três “acontecimentos” foram – e continuam sendo – muito temidos. Hegel, para citar apenas um opositor, considerou a ironia insuportável. Para ele, “o irônico rebaixa tudo, destrói tudo e não tem caráter: o irônico, como individualidade genial, consiste no autoaniquilamento de tudo o que é soberano, grande e nobre” (apud Minois, 2003, p.512).
Em seu julgamento sobre a ironia, Hegel salienta, pois, o pedantismo e o sentimento de superioridade, supostamente presentes no ironista. Ele reforça, ainda, a ironia como um tipo de atitude de negação plena, como um discurso essencialmente niilista. George Minois cita, ainda, outra passagem da obra Curso de estética, de Hegel:
essa é a significação geral da divina e genial ironia, dessa
concentração em si mesmo de um EU para quem todos os elos
se romperam e que só pode viver nas delícias do regozijo de si.
A invenção dessa ironia devese ao senhor Friedrich von
Schlegel e a muitos outros que, na sequência, retomaram a
tagarelice e ainda hoje a repisam em nossos ouvidos. (Apud
Minois, 2003, p.512)
Como se vê, Hegel tinha aversão à ironia. Conforme estudamos anteriormente, o riso também ganhou adversários ferrenhos, desde a Antiguidade até os dias atuais. De acordo com Minois,
No período mais arcaico o riso é, antes de tudo, uma expressão
agressiva de zombaria e de triunfo sobre os inimigos. A
zombaria faz parte das invectivas rituais; é uma arma, uma
ameaça, eficaz e temerosa, usada pelos bons e pelos maus. Os
livros históricos fervilham de exemplos: “tu serás a risada dos
povos”, “a risada dos vizinhos”, “a risada dos insensatos” [...].
(2003, p.117)
Não podemos perder de vista que, já no século XVIII, encontramos Thomas Hobbes, que vê no riso, sempre, a manifestação da superioridade e do orgulho daquele que ri. Logo, a proximidade entre o riso e a ironia nesse aspecto é legítima: o ironista e aquele que ri já foram considerados – e ainda o são – exibidos, vaidosos, diabólicos, indivíduos prontos para escarnecer e humilhar qualquer um que cruze seu caminho. Segundo Minois,
O diabo é ironista porque é um grande ilusionista, o grande
mágico. Nada existe verdadeiramente, nada é realmente sério,
tudo se presta ao riso. O ironista termina por flutuar entre o real
e o irreal, entre o autêntico e o virtual. Ele esvazia o conteúdo
objetivo e reduz o mundo a palavras. (2003, p.436, grifos
nossos)
FrançoisMarie Arouet, mais conhecido como Voltaire (1694 1778), exerceu em sua época, sem dúvida, esse papel de gênio satírico – logo, temido – e de inimigo implacável de todas as formas de manifestação dos dogmatismos. Na obra Contos e novelas: Voltaire, encontramos o seguinte a respeito desse filósofo:
Foi o brilhante vulgarizador das ideias inglesas nas suas Cartas
filosóficas. E o mais impiedoso demolidor dos abusos do antigo
regime, dos dogmas da religião revelada no seu dicionário
portátil. É aí, na polêmica, que se depara o verdadeiro gênio de
Voltaire; aí ele brinca, se irrita, faz prodígios de espírito. Podese
não apreciar as suas ideias, podese mesmo detestálas, mas é
impossível não se inclinar diante de sua arte endiabrada e
fremente. (2005, p.69)
Segundo Minois, “aos olhos de Voltaire, a zombaria é a melhor aliada da razão, o grande meio de diminuir o número de maníacos, fanáticos, entusiastas, sectários: ele os mata pelo ridículo” (2003, p.430). Estamos, com certeza, diante de um riso crítico, de negação às verdades absolutas, de um riso de deboche às ideias preconcebidas. Podemos compreender, pois, as causas que explicam tanto temor e ódio dirigidos a esse filósofo. Ainda em Contos e novelas: Voltaire, lemos:
Fez, com efeito, de seu riso não mais a leve espuma de que
fala em uma de suas cartas, e que ferve na taça erguida, mas a
máquina infernal que se colocou no velho mundo de antes de
1789 como uma carga de dinamite e o fez saltar pelos ares. E
isso, mais seguramente por certo do que Rousseau com toda a
sua eloquência proletária e sua dialética feroz. (2005, p.70)
É compreensível, pois, que aos discursos caracterizados pela ironia e pelo riso tenhase associado a ideia de orgulho e vaidade, e que os autores que dela lançaram mão, como Voltaire, tenham sido odiados e temidos. Entretanto, o que nos interessa é justamente validar essas modalidades como procedimentos sérios, capazes de ampliar o conhecimento, propondo novas significações para o mundo pelo uso da razão.
A paródia, por sua vez, também não se manteve nem um pouco distante das críticas. Como dissemos no capítulo em que tratamos dessa modalidade, os parodistas foram acusados de não ser originais e de produzirem uma arte parasitária e derivativa. Tanta afetação dirigida à paródia só pode ter um motivo: ela é uma espécie de recusa, como o riso e a ironia.
Não podemos esquecer, contudo, que, recusando, a paródia reafirma; negando, prolonga a vida do texto parodiado: e essa é sua maior ironia. Sobre ser a paródia uma modalidade tão temida quanto a ironia e o riso, basta dizer que o próprio Voltaire – paladino da zombaria – não suportou ser parodiado. Aproveitouse de sua influência e conseguiu proibir paródias de algumas de suas peças, pois o filósofo as considerava “sátiras odiosas” (Minois, 2003, p.432).
A relevância do sujeito em textos ou situações caracterizados pela ironia, paródia ou pelo riso é, com certeza, o ponto de contato mais importante entre essas modalidades. Tais textos, marcados por uma natureza dissonante e contraditória, clamam pela participação do leitor/receptor na construção do sentido e essa é, indubitavelmente, uma forte semelhança entre essas modalidades.
Pensemos, em primeiro lugar, nos textos paródicos e irônicos. É curioso constatar que neles, quase sempre, o leitor não é apenas convidado a participar da construção do sentido, mas sim convocado. Como vimos, caso o sujeito não colabore na estruturação do significado, não acessará o “sentido pleno” proposto – e tornado implícito – por essas categorias.
Tanto a ironia quanto a paródia são caracterizadas por apresentarem uma duplicidade em sua estrutura. Assim, o receptor desses textos deverá estar atento a fim de perceber esses “discursos” que se encontram em tensão, caso contrário, o “sentido maior” não se estabelecerá. Para Linda Hutcheon,
A ironia é, por assim dizer, uma forma sofisticada de expressão.
A paródia é igualmente um gênero sofisticado nas exigências
que faz aos seus praticantes e intérpretes. O codificador e,
depois, o descodificador, têm de efetuar uma sobreposição
estrutural de textos que incorpore o antigo no novo. A paródia é
uma síntese bitextual, ao contrário de formas mais
monotextuais, como o pastiche, que acentuam a semelhança e
não a diferença. (1985, p.50)
Desse modo, ironia e paródia apresentam uma “voz” explícita, superficial, e outra implícita, que aparece como pano de fundo. Em relação a essa segunda voz implícita, o sentido provém do contexto, no caso da ironia, e do próprio texto, no caso da paródia. No entender de Hutcheon, “O sentido final da ironia ou da paródia reside no reconhecimento da sobreposição desses níveis” (1985, p.51).
Para que se entendam melhor as semelhanças entre ironia e paródia, fazse necessário retomar algumas palavras ditas anteriormente acerca da ironia. Assim, foi comentado que essa categoria possui duas importantes funções: uma semântica contrastante, e outra pragmática avaliadora.
A primeira deve ser entendida como um assinalar de diferenças de sentido; desse modo, essa função (a semântica contrastante) se origina na sobreposição de contextos semânticos – o que é afirmado e o que é intencionado pelo produtor daquele discurso. A segunda função, geralmente esquecida, segundo Hutcheon – por parecer óbvia demais –, é, no entanto, extremamente importante, pois estabelece a avaliação, o julgamento, propriedades inerentes a quase todas as manifestações irônicas.
Como vimos no capítulo 2, não se pode perder de vista que essas funções, na maioria dos casos, se complementam: é comum, pois, que o ironista parta da oposição semântica e chegue à atitude avaliadora pretendida. Entretanto, de acordo com as intenções do produtor do texto, uma dessas funções pode ser trabalhada de maneira a se tornar mais saliente do que a outra. Os dois casos comentados aqui estão exemplificados no capítulo sobre as funções da ironia.
Dito isso, é possível estabelecer uma semelhança essencial entre a paródia e a ironia, que está relacionada à importância do sujeito como “receptor ativo”: ambas marcam a diferença por meio da sobreposição de contextos. De acordo com Hutcheon,
Dada a estrutura formal da paródia, [...] a ironia pode ser vista
em operação a um nível microcósmico (semântico) da mesma
maneira que a paródia a um nível macrocósmico (textual),
porque também a paródia é um assinalar da diferença, e
igualmente por meio de sobreposição (desta vez de contextos
textuais, em vez de semânticos). (1985, p.74)
Logo, ambas – ironia e paródia – sinalizam o discurso subreptício em detrimento do discurso mostrado, explícito, fornecido “tranquilamente” ao leitor; isso significa que o receptor de qualquer mensagem sentirá mais facilidade em apreender um sentido ou uma voz que esteja na superfície do texto, o que não é o caso da paródia e da ironia.
No caso de textos irônicos e paródicos – e essa é a principal semelhança entre essas categorias –, o leitor precisa decifrar as marcas deixadas pelo produtor na “superfície” desses textos a fim de acessar um sentido “oculto”, velado, que, muitas vezes, tende a negar o sentido superficial.
Umberto Eco, em seu livro intitulado Entre a mentira e a ironia, também salienta a importância da participação do receptor na edificação do significado. Ele faz o seguinte comentário acerca do escritor Campanile, objeto de seu estudo nessa obra: “Hoje se compreende melhor a natureza do cômico campaniliano, à luz de tantos estudos de pragmática da comunicação, como uma estratégia fundada sobre o implícito que exige mútua cooperação dos falantes [...]” (2006, p.78, grifos nossos).
Umberto Eco cita, ainda, um diálogo presente na obra Tragedie, de Campanile, a fim de exemplificar o que comentamos anteriormente: “– Com licença, eu sou Pericle Fischetti. E o senhor?” “– Eu, não” (apud Eco, 2006, p.78). Como se vê, tratase de um ótimo exemplo de cooperação ausente, que acaba ocasionando o riso.
No caso da ironia, vimos que a estudiosa Linda Hutcheon (2000, p.28) chega mesmo a questionar a nomeação do “ironista”: não seria ele o receptor/interpretador da ironia? Afinal, o receptor de um texto é justamente aquele que irá – ou não – desvendar sua estrutura dicotômica e lhe atribuir um sentido irônico. Segundo Hutcheon, “esse processo produtivo, ativo, de atribuição e interpretação, envolve ele mesmo um ato intencional, de inferência” (2000, p.28). É preciso supor, inclusive, alguns interpretadores considerando um texto irônico “ao pé da letra”, ou seja, lendoo em seu sentido literal, sem se dar conta de sua ambivalência.
Conforme comentamos, em relação à paródia, o leitor não tem menos trabalho. Ele deve perceber a duplicidade que sustenta o texto paródico, caso contrário, perderá parte relevante de sua significação. Logo, também não é possível pensar em paródia sem a participação essencial do leitor, que empresta seu saber ao texto e aciona seu conhecimento de mundo a fim de localizar a dissonância subjacente àquele discurso.
Seguindo esse raciocínio, fica explicada a razão em que se baseia Hutcheon quando afirma que textos paródicos e irônicos assinalam a diferença – a ironia, uma diferença semântica, e a paródia, textual. Sendo assim, a paródia se aproxima da ironia sobretudo graças à função semântica contrastante, que se faz sempre presente na ironia, e que pode aparecer também na paródia. Conforme a mesma estudiosa,
Devido a essa semelhança estrutural, [...] a paródia pode
servirse, fácil e naturalmente, da ironia como mecanismo
retórico preferido e até privilegiado. A patente recusa pela ironia
da univocalidade semântica equiparase à recusa pela paródia
da unitextualidade estrutural. (1985, p.745, grifos nossos)
Por conseguinte, a proximidade estrutural entre paródia e ironia é tanta, como se pôde observar, que, não raro, a paródia utiliza a ironia para cumprir seus propósitos de acordo com o contexto. Isso poderá ser observado no capítulo de análise das obras. Ainda para Hutcheon:
Tratase de um resultado da dupla estrutura de sobreposição
comum da paródia e da ironia, que não obstante, assinala
paradoxalmente diferença – em termos semânticos ou textuais.
Esta dependência diferencial, ou mistura de duplicação e
diferenciação, quer dizer que a paródia funciona
intertextualmente como a ironia funciona intratextualmente:
ambas ecoam para marcar mais diferença que semelhança.
(Hutcheon, 1985, p.84)
A semelhança que notamos entre ironia e paródia – a relevância da participação do sujeito na criação do sentido – também se verifica em relação ao riso. Assim, o tipo de riso valorizado pelo presente trabalho, aquele marcado pela contradição, ambiguidade e incongruência, também convoca a participação do receptor. Ora, uma vez constituído pela tensão, pelo elemento dual – e eis aqui mais uma semelhança com a ironia e a paródia –, esse riso carece de um sujeito que atualize suas “feições opostas”, reconhecendo a pluralidade motivadora do sentido. Para Ângela Maria Dias, estudiosa a que já nos referimos anteriormente, “talvez pudéssemos sugerir que a percepção da diferença, que o reconhecimento do plural, do turbulento, do desigual, implícitos numa espécie de conciliação, configuram o clima propício à instauração do humor” (1981, p.38, grifos nossos).
Não podemos deixar de citar aqui, mais uma vez, a teoria do riso proposta por Jean Paul, para quem o cômico não se localiza no objeto, mas sim no sujeito. Jean Paul salienta, por conseguinte, a ação do sujeito, que direciona seu conhecimento a uma situação específica, produzindo o cômico.
Estudamos também Baudelaire e vimos que, além de valorizar o sujeito como “produtor” do riso, para ele, esse “acontecimento” – o riso – jamais é desprovido de intenção. Desse modo, para Baudelaire, assim como não se “faz” ironias e paródias à toa, o riso também é marcado, sempre, por um propósito. Ora, parece que salientar a ação cognitiva do sujeito pressupõe, de fato, uma intenção.
Como foi dito antes, essa discussão acerca da importância do sujeito nos remete, sem dúvida alguma, à problemática da ironia romântica. Pensando de maneira prática nas teorias de Jean Paul e de Baudelaire acerca do riso, temos o seguinte: do primeiro, como já tivemos a oportunidade de saber, nos chega o legado da supremacia do sujeito, e, do segundo, aprendemos, sobretudo, que esse sujeito – valorizado como “produtor do riso” – sempre que põe seu saber em movimento, o faz visando atingir um objetivo específico.
Bem, o que é a ironia romântica senão – conforme vimos na seção do capítulo 2 que leva seu nome – a primazia do indivíduo (criador) em relação à sua obra (objeto criado)? A ironia romântica se caracteriza, sempre, por um sujeito “intrometido” na sequência dos fatos narrados, promovendo a ruptura da narrativa, a fim de colocar em prática a sua intenção. Tratase, pois, segundo Volobuef (1999, p.901), da “ascendência do autor em relação à obra”. O acontecimento do riso em Jean Paul e Baudelaire se configura de modo muito semelhante: é marcado pela supremacia do sujeito em relação ao objeto do riso. Logo, no entender desses filósofos, uma situação jamais é risível em si mesma: ela aguarda a ação cognitiva de um sujeito.
É válido reiterar que Jean Paul vive o intenso “Sturm und Drang”, movimento préromântico alemão cuja marca fundamental é justamente a ênfase na força criadora do indivíduo livre. Por conseguinte, é até mesmo natural que esse momento literário se caracterize por inúmeras ocorrências de ironia romântica e, ainda, que no âmbito filosófico se sobressaia a teoria do riso que acabamos de comentar.
É legítima, portanto, a proximidade entre o riso de Jean Paul e Baudelaire – e certamente de Schopenhauer – e a ironia romântica. Quando retomamos a teoria de Schopenhauer, então, as semelhanças se tornam ainda mais evidentes. Basta que recordemos que esse filósofo propõe o entendimento do riso como fruto de uma incongruência. Ora, a ironia romântica, ela mesma, não toma parte em um jogo sempre interessante de contrastes? Entre o que o leitor supõe encontrar na obra literária – verossimilhança, ilusão, ficção – e as manifestações de um sujeito que “quebra”, por assim dizer, essa expectativa não há uma incongruência?
Dito de outra maneira, as intervenções dessa voz que interrompe o fio narrativo para tecer comentários que muitas vezes não parecem se relacionar com a história narrada nunca são completamente previstas pelo leitor. Nesse sentido, é evidente que, em tais momentos – momentos de ironia romântica –, ocorre um choque ou uma quebra entre o que o leitor imaginava encontrar e o que ele, de fato, encontra. Em face da ironia romântica, não é raro que riamos. Esse riso – que provém da tensão fermentada pela ironia romântica – é, indubitavelmente, o riso de Schopenhauer, inclusive porque nos possibilita a ampliação do conhecimento, como discutiremos no final deste capítulo.
A necessidade de se analisar mais a ironia romântica surge, ainda, de uma semelhança entre esta e a paródia. Como já percebemos, ao falar de ironia, riso e paródia, nos situamos no terreno da ambiguidade e, nesse sentido, essas categorias sempre se aproximam.
Conforme já dissemos, tanto a ironia – em seu sentido mais comum, ou seja, de um significante para dois significados – como a paródia atuam em dois níveis: um primeiro, superficial, e um segundo, implícito. Em textos irônicos e também em textos paródicos, o sentido final é, pois, resultado do reconhecimento da sobreposição desses dois níveis. Pensando nisso, é pertinente concluir, ao que parece, que todo texto paródico é também irônico, já que o reconhecimento do embate de dois discursos – ou seja, o reconhecimento da ironia – nos leva à paródia. Portanto, a paródia se mostra por meio da ironia.
Se a ironia romântica constituise como uma das inúmeras possibilidades de manifestação da ironia em seu sentido mais amplo – um significante para dois significados –, qual é, de fato, a relação entre a paródia e a ironia romântica? Na verdade, quando o narrador se mostra, abandonando sua posição inicial de “manipulador distante” de suas personagens, estabelece a duplicidade em seu relato.
Isso se dá porque o leitor, no momento em que o narrador projeta sua face, se encontra diante de duas vozes – a de um narrador “objetivo” e a de um legítimo “contador de histórias”. Tal é, sem dúvida, a oposição comentada anteriormente: de um lado, o que o leitor presume encontrar (um narrador objetivo) e, de outro, aquilo com que o leitor, de fato, se depara (um legítimo contador de histórias). Não é, de fato, irônico – e risível – que, em meio a tantas tentativas de se instaurar a verossimilhança no relato, surja essa “voz estranha” que, em se mostrando, de certa forma, contribui para desnudar o caráter ficcional da narrativa?
Quando um escritor reflete sobre o processo de construção de seu texto e revela o fazer literário ao leitor, por meio de narradores interventivos – realizando, pois, a ironia romântica –, ele não estará parodiando uma estética literária mais “fechada”, mais “clássica”, que não prevê esse tipo de intromissão do narrador em seu relato? Parece ser esse um interessante ponto de contato entre a paródia e a ironia romântica. Há, ainda, outro.
De acordo com Hutcheon, “a ironia romântica, evidentemente, serviu menos para subverter a ilusão do que para criar uma nova ilusão. [...] Esta mesma espécie de ironia tornase um dos mais importantes meios de criar novos níveis de ilusão” (1985, p.45). Assim, paradoxalmente, ao apontar para fora da narração, o narrador está reforçando, tornando mais autêntica e, portanto, mais verossímil a própria ficção que edifica.
Seguindo esse raciocínio, conforme já foi comentado na seção “Ironia romântica”, do capítulo 2, esta conduz o leitor a efeitos de sentido contraditórios: se, por um lado, manifestandose, o narrador quebra o compromisso de criar a ilusão da realidade ou, em outras palavras, diminui a verossimilhança, por outro, trazendo, muitas vezes, informações do exterior (culturais, históricas, entre outras), para o interior da obra, o narrador cria certa “ilusão de veracidade”.
Vimos na seção “O paradoxo da paródia”, no capítulo 3, algo muito semelhante em relação à paródia. Essa modalidade, como a ironia romântica, também põe em cena efeitos de sentido dissonantes, porque, ao mesmo tempo, nega e valoriza o conteúdo parodiado. Portanto, é legítimo inferir que a ironia romântica e também a paródia nos conduzem a uma ironia mais profunda. No caso da paródia, as modalidades que estamos estudando estão mesmo emaranhadas: como dissemos, a identificação da ironia nos direciona à paródia e a compreensão mais minuciosa da paródia nos leva, novamente, a uma ironia.
Ainda segundo Linda Hutcheon (1985, p.32), a ironia romântica pode ser considerada um tipo de paródia. Se entendemos a ironia romântica como uma espécie de oportunidade de reflexão e de questionamento sobre o conceito que se tinha de “obra literária”, ela se configura como um tipo de paródia. Em outras palavras, se, ao fazer uso das intromissões no relato, o “narradorautor” põe em xeque o conceito mais clássico de “obra literária”, marcado sobretudo pela objetividade ou pela “ausência” do narrador, estamos diante de uma paródia. E, como paródia, cria um efeito de sentido irônico: o questionamento e a legitimação do conceito clássico de “obra literária”. Bella Jozef, comentando a obra O jogo da amarelinha, de Cortázar, onde se expressa a problemática da ironia romântica, afirma o seguinte:
O problema do narrar é discutido no próprio processo de
realização do conto, como uma tomada de consciência e
questionamento, no nível estrutural, do processo de
enunciação. O narradorautor faz uma reflexão sobre o fazer
literário, sobre a escrita ficcional, sobre este espaço criador que
permite a irrealidade – também em segundo grau – de modo a
fazer coexistirem vários planos da ficção e romper a empatia
entre o mundo do livro e o mundo do leitor. O exterior
inscrevese no espaço do texto. A partir desse espaço
intertextual, os livros se leem e se escrevem, deixando lugar a
um texto real que seria a explicação do mundo [...]. (1980, p.63,
grifos nossos)
Como se vê, a ironia romântica, realmente, promove a quebra entre o que o leitor supunha encontrar, por meio de sua razão, e o que ele encontra efetivamente. Conforme dissemos, essa quebra de expectativa nos conduz, quase sempre, ao riso: fomos surpreendidos. Ainda que o leitor pressuponha uma intervenção, movido pelo estilo de determinado escritor, ele – o leitor – nunca poderá prever exatamente o teor da intromissão, ou seja, o assunto abordado por ela. Uma vez que é esse um “riso culto” ou um riso aos moldes de Jean Paul, Baudelaire e Schopenhauer, ele nos leva a uma reflexão que varia muito, conforme os objetivos do autor.
Em relação ao que acabamos de comentar, pode ser uma reflexão sobre o próprio conceito de “obra literária”. Se pensarmos em O arco de Sant’Ana, cujos fragmentos foram citados na seção “Ironia romântica” do capítulo 2, a voz que se expressa por meio da ironia romântica, como vimos, tece críticas pesadas a seu momento histórico, à burguesia e até mesmo à Revolução Francesa. Tratase da voz de um eu que já não pode se calar, que necessita emitir seus juízos, suas dores diante de sua sociedade. Nessa obra, a ironia romântica revela, pois, os anseios do sujeito histórico da segunda metade do século XVIII, e, consequentemente, cria um novo conceito de “obra de arte”, marcada agora pela preeminência do eu.
Portanto, teoricamente, deparado com algo que o surpreende, o sujeito, por meio de uma ação cognitiva, tentará compreender as razões dessa surpresa, os propósitos de tal intervenção do narrador no relato ou, ainda, em que medida o discurso desse “narrador intrometido” se relaciona com a história narrada. Obviamente, em busca de tantas considerações, ocorre a ampliação do conhecimento, instaurada, sem dúvida, pelo indivíduo que “enxerga”, nessa ordem, a ironia, a paródia e, consequentemente, experimenta o risível.
Após todas essas reflexões, só nos resta inferir que discursos irônicos, paródicos ou marcados pelo riso são, de fato, exigentes. Tão exigentes que não podemos concebêlos sem o sujeito, que é o “agente catalisador” do riso, da paródia e da ironia. Podemos dizer que, sem a ação cognitiva do sujeito, tais discursos perdem a supremacia, descem à categoria dos discursos simples, objetivos e inofensivos. Pior ainda, na verdade: se a ironia, a paródia e o riso carregam em sua essência um embate de vozes, uma tensão implícita, e estes não são descobertos pelo sujeito, tais discursos não são sequer inofensivos, simplesmente porque é como se não existissem.
Isso sem contar que, para participar da construção do sentido, o sujeito precisa acionar seu repertório ou seu conhecimento de mundo. Tal condição vale para as três modalidades, mas principalmente para a paródia: como reconhecer que se está diante de uma paródia se o texto parodiado não faz parte do repertório do sujeito? Impossível.
Logo, a experiência da literatura exige um texto, um leitor e as inferências a que chega esse receptor de acordo com os sinais deixados pelo produtor daquele texto. Para que possamos compreender o quanto a paródia é exigente nesse aspecto, pensemos também na intertextualidade. Linda Hutcheon argumenta que, no caso da intertextualidade, o leitor é livre para realizar associações entre os textos, mais ou menos ao acaso.
Na paródia, o procedimento é um pouco diferente, uma vez que essas aproximações entre textos diferentes ou distantes temporalmente costumam ser controladas. Hutcheon explica:
no caso da paródia, esses agrupamentos são cuidadosamente
controlados, orientando “passos inferenciais”. Como leitores ou
espectadores ou ouvintes que descodificam estruturas
paródicas, atuamos também como decodificadores da intenção
codificada. (1985, p.35)
Desse modo, enquanto na intertextualidade o leitor associa textos livremente, limitado apenas por seu conhecimento de mundo, um texto paródico requer desse leitor uma leitura mais condicionada e, consequentemente, mais controlada. Por conseguinte, a paródia se constitui como um tipo de discurso extremo nesse sentido, pois suas imposições são deliberadas e inclusive fundamentais para seu entendimento. Para Hutcheon,
a paródia exige que a competência semiótica e a
intencionalidade de um codificador inferido sejam pressupostas.
Dessa forma, embora a minha teoria da paródia seja intertextual
na sua conclusão tanto do descodificador como do texto, o seu
contexto enunciativo é ainda mais vasto: tanto a codificação
como o compartilhar de códigos entre produtor e receptor são
centrais [...]. (1985, p.54)
Assim, se defrontado com uma ocorrência de intertextualidade, o leitor é livre – já que a intertextualidade não deixa de ser um ato de decodificação de textos à luz de outros textos; a paródia é, nesse sentido, mais exigente: deixa propositalmente pistas, marcas, sinais, que devem necessariamente ser seguidos pelo leitor a fim de que o “sentido essencial” seja edificado. A intertextualidade é, pois, mais aberta; a paródia, mais fechada e exigente.
Como dissemos antes, a paródia se mostra pela ironia. Sendo assim, antes de chegar à paródia, o sujeito precisa perceber o jogo irônico entre o texto mais explícito e o “subtexto”, ou seja, ele precisa desvelar o que está mascarado pela ironia. Logo, entre as “pistas”, “marcas” e “sinais” deixados pelo escritor de uma paródia está, certamente, a ironia, que aguarda ser revelada.
Pensando dessa forma, parece pertinente dizer que a ironia é também, como a paródia, uma modalidade bastante exigente e controladora. Ora, nesses casos, se o sujeito não desvenda a ironia debaixo de seus olhos, não pode compreender que se encontra diante de um texto paródico.
Assim, embora Hutcheon (2000, p.41) explique, conforme comentamos na seção “A ironia instituindo hierarquias” do capítulo 2, que a ironia não cria comunidades, mas sim que as comunidades é que existem previamente, possibilitando o acontecimento da ironia, devemos avaliar melhor essa questão. Afinal, no caso da ironia que nos conduz à paródia, será inevitável a formação de dois grupos: o dos que decodificaram a ironia e acessaram a paródia, e o grupo que não se deu conta da dissonância subjacente àquele texto. O passo seguinte pode ser, sem dúvida, a instituição de hierarquias. Esse procedimento pode valer também para os casos em que apenas a ironia esteja envolvida.
Outros tipos de discursos como a imitação, a citação e até a alusão são também confundidos com a paródia. Hutcheon explica que todas essas formas são, entretanto, limitadas se comparadas à paródia. Deve ficar claro, porém, que o reconhecimento da paródia começa também com o reconhecimento de uma intertextualidade:
Ao contrário da imitação, da citação ou até da alusão, a paródia
exige distância irônica e crítica. É verdade que, se o
descodificador não reparar ou não conseguir identificar uma
alusão ou citação intencionais, limitarseá a naturalizála,
adaptandoa ao contexto da obra no seu todo. Na forma mais
alargada da paródia que temos vindo a considerar, esta
naturalização eliminaria uma parte significativa tanto da forma,
como do conteúdo do texto. A identidade estrutural do texto
como paródia depende, portanto, da coincidência, ao nível da
estratégia, da descodificação (reconhecimento e interpretação)
e da codificação. (1985, p.501, grifos nossos)
Portanto, diante de um texto paródico, o leitor deve estar atento a todos os sinais. Conforme explicou Hutcheon, a construção da paródia e, consequentemente, o acesso à “verdade” que o codificador pretendeu transmitir se inicia com a percepção desses pequenos “passos inferenciais”, que podem se expressar por meio de intertextualidades, e, principalmente, pela revelação da ironia. Para Wolfgang Iser,
Os modelos textuais descrevem apenas um polo da situação
comunicativa. Pois o repertório e as estratégias textuais se
limitam a esboçar e a préestruturar o potencial do texto; caberá
ao leitor atualizálo para construir o objeto estético. A estrutura
do texto e a estrutura do ato constituem portanto os dois polos
da situação comunicativa; esta se cumpre à medida que o texto
se faz presente no leitor como correlato da consciência. Tal
transferência do texto para a consciência do leitor é
frequentemente vista como algo produzido somente pelo texto.
Não há dúvida de que o texto inicia sua própria transferência,
mas esta só será bemsucedida se o texto conseguir ativar
certas disposições da consciência – a capacidade de
apreensão e de processamento. Referindose a normas e
valores, como por exemplo o comportamento social de seus
possíveis leitores, o texto estimula os atos que originam sua
compreensão. Se o texto se completa quando o seu sentido é
constituído pelo leitor, ele indica o que deve ser produzido; em
consequência, ele próprio não pode ser o resultado. [...] Por
esta razão, é preciso descrever o processo da leitura como
interação dinâmica entre texto e leitor. (1999, p.910, grifos
nossos)
O fragmento citado se refere aos textos de uma maneira geral, ou seja, a qualquer ato comunicativo que aguarda, por assim dizer, a chegada de um leitor que irá atualizálo. Bem, se todo “modelo textual”, como descreveu Wolfgang Iser, depende da ação cognitiva de um sujeito, uma vez que a situação comunicativa “se cumpre à medida que o texto se faz presente no leitor como correlato da consciência”, o que dizer de textos marcados por uma ambiguidade intencionalmente contraditória? É pertinente afirmar, como já o fizemos, que tais textos são muito mais insistentes em relação ao convite para a participação de um sujeito na construção do sentido.
Embora saibamos que o leitor, fazendo uso de sua razão, confere significado aos textos que lhe chegam, não se caracterizando, pois, como um mero decodificador, textos irônicos e paródicos são, como vimos, mais controladores. A ironia, sobretudo, é mais exigente, pois está na “base” da paródia; afinal, vimos que a paródia se mostra pela ironia. Assim, aparentemente, diante de um “acontecimento” irônico, devemos optar ou pelo literal ou pela “voz” subjacente a esse texto literal.
Sabemos, contudo, que a ironia é sempre um embate de vozes. Assim, cabe a seu receptor caracterizarse, ou não, como um “receptor ideal”, que é, justamente, aquele capaz de perceber a duplicidade do texto com o qual se depara. Esse receptor deverá reconhecer, ainda, que o “sentido final” pretendido é resultado desse choque entre o literal e o implícito. Desse modo, diante de um texto cuja estrutura é dicotômica, não parece que precisamos simplesmente optar por “isso” ou por “aquilo”. Na verdade, a ironia não corresponde ao “sentido velado”, mas sim ao embate entre aquilo que nos chega literalmente e esse sentido implícito. Isso significa que o “literal” nos conduz ao “velado” e, então, assimilamos a dissonância. Sabemos que essa “condução” carece, sempre, de um contexto. Exatamente nisso reside a ironia.
Desse modo, ainda que diante de um enunciado irônico o sujeito não tenha necessariamente de optar entre “isso” – o sentido literal – ou “aquilo” – o sentido implícito –, ele terá de notar a tensão inerente a esse discurso. Logo, se a ironia não impõe ao sujeito optar pelo “óbvio” ou pelo “subreptício”, não deixa, mesmo assim, de ser rigorosa, uma vez que impõe o reconhecimento da contradição entre esses dois sentidos. Conforme dissemos, o que possibilita tal percepção é sempre o contexto. É natural que, em muitos casos, a ironia leve ao riso – o “riso sério”, tão mencionado neste capítulo, sempre fruto de uma incongruência.
Portanto, a ironia parece realmente ser o princípio dos “fenômenos” do riso e da paródia. Assim, as modalidades riso e paródia guardam, sempre, em seu cerne, uma pitada significativa de ironia e, por essa razão, é legítimo afirmar que esta se constitui como um fator de estímulo importante para a irrupção do riso e da paródia.
É fundamental pensar, ainda, que na origem dessas três categorias não temos apenas um contraste. Poderíamos citar inúmeras ocorrências, literárias ou não, marcadas por uma estrutura dissonante, mas que, de fato, não se constituem como enunciados irônicos. Bem, seguindo nosso raciocínio, se não há ironia, provavelmente não haverá paródia ou riso. Se nem toda oposição se configura como uma ironia, o que especificaria um contraste irônico? Que espécie de característica, associada a ideias dissonantes, produziria a ironia?
Olhamos para uma parede e percebemos que metade dela foi pintada de branco e a outra metade, de preto: não se trata, obviamente, de uma ironia. Numa discussão acirrada sobre um tema polêmico, vemos pessoas diferentes defendendo, ao mesmo tempo, opiniões contrárias e isso, definitivamente, não se constitui como uma ironia. Supondo que o tema da discussão, por ser polêmico, nos levasse principalmente a duas possibilidades opostas de “solução”, seria possível, ainda, que uma mesma pessoa, mais diplomática, apontasse aspectos positivos inerentes às duas possibilidades contraditórias entre si: isso também não seria necessariamente um caso de ironia.
Entretanto, se essa pessoa diplomática, conhecida justamente por sua reserva e discrição em assuntos controversos, defender de modo obstinado uma das possíveis soluções, atacando com veemência a outra possibilidade, então sim, podemos estar diante de uma ironia. Ou, pelo contrário, se um sujeito sempre acostumado a tomar partido, a posicionarse claramente, age de modo a ficar “em cima do muro”, também aqui é provável que estejamos observando uma situação irônica. O que parece, pois, tornar singular o contraste irônico é justamente a quebra da expectativa, a surpresa.
Portanto, refletindo sobre tais indagações, chegamos a uma possibilidade de resposta que, de fato, vem ao encontro das ideias principais estudadas na presente pesquisa. Realmente, o “surpreenderse” parece ser também o “ato” que une as três modalidades analisadas neste livro. Admiramonos diante da ironia “situacional”, como vimos, e também frente à ironia “verbal”: é sempre curioso “ver”, na fala ou na escrita, um sentido oculto aparecer subitamente. Sensação semelhante nos toma quando estamos frente a frente com uma paródia ou com uma ocorrência de ironia romântica: sentimonos agradavelmente espantados. E o que dizer do riso? Ainda que possua seu viés trágico, o sentimento do contraste é tão prazeroso que explodimos em um movimento que nos chacoalha as entranhas.
Bem, a sensação de “assombro”, o admirarse, o surpreenderse – efeitos provenientes do reconhecimento da ironia, da paródia e do riso –, estão certamente associados à função estética da literatura. Como sabemos, a literatura se opõe a qualquer tipo de “acontecimento” caracterizado por uma função utilitária ou imediatista, que visaria, por exemplo, “explicar”, “ordenar”, “informar”, entre outras. Ao contrário, os textos literários devem ser valorizados por ocasionarem o prazer estético, que é, em linhas gerais, o prazer de acessar uma realidade que não nos chega de modo habitual ou direto, mas sim artisticamente, por meio da ficcionalidade, plurissignificação e subjetividade.
Compreendida essa realidade que, por não “chegar” de modo imediatista, exige esforço intelectual do sujeito, chegamos a outra função interessante da literatura: a catártica. Ela está associada à função estética, uma vez que corresponde à purificação, ao alívio proporcionados pela arte, de modo geral. Georges Minois fala sobre a presença do riso catártico nas comédias latinas. Para ele, tal riso produzia um alívio coletivo: “a segunda ilustração da função catártica do riso na comédia latina é a contestação do poder despótico do pater familias, zombado, ridicularizado no papel de velhos avarentos e lúbricos que monopolizam o dinheiro e as mulheres” (2003, p.101). Tratase, assim, de um riso de transgressão e, consequentemente, de alívio.
Como se vê, as funções estética e catártica atribuídas à literatura podem ser também concedidas às nossas modalidades de estudo. Conforme repetimos exaustivamente, a ironia, a paródia e o riso convidam o sujeito a participar da construção do sentido. Ao se entregar à atividade de desvendar tais discursos, o sujeito será bemsucedido caso perceba a estrutura irônica desses textos. A surpresa sentida pelo indivíduo que chega à ironia inerente a alguns enunciados se aproxima muito da significação do prazer estético e da catarse – funções da própria literatura.
A fim de percebermos o quão interessante é essa ligação, reflitamos sobre o que comenta Luiz Costa Lima em sua obra Mímesis: desafio ao pensamento, publicada em 2000. Esse estudioso fala sobre o “engano” da arte. Segundo ele, dois sentimentos contraditórios invadem aquele que se propõe a assistir a uma peça teatral, por exemplo. Assim, para se experimentar uma sensação de piedade é necessário que se tenha a impressão de que sucede uma ação que é dolorosa ou destrutiva; entretanto, como se sabe, no palco trágico, nada é destruído. O receptor sente, assim, por um lado, a dor da piedade pelos sofrimentos do protagonista e, por outro, o prazer catártico por sentir uma dor que, no plano da realidade, não existe.
A mímesis – entendida como representação artística – supõe, portanto, a experiência de um equívoco profundo.
Ora, por tudo que discutimos, é coerente afirmar que, no momento em que se defronta com enunciados irônicos, paródicos ou marcados pela estrutura incongruente do “riso sério”, o sujeito também experimenta a sensação de um equívoco profundo. Logo, a problemática da contradição está inserida também no próprio conceito de mímesis; afinal, nos entregamos à catarse apesar da consciência de que estamos diante da ficção.
Portanto, é legítimo afirmar que a ironia, a paródia e o riso podem ser pensados como o meio que a arte encontra para se autorrepresentar. Nesse sentido, as características e funções da literatura se ajustam perfeitamente às categorias analisadas. Podemos afirmar inclusive que a ironia, a paródia e o riso se constituem como “micromímesis”, ou seja, representações artísticas menores inseridas na “mímesis maior”, que seria a própria obra literária. Segundo Antonio Candido,
A criação literária traz como condição necessária uma carga de
liberdade que a torna independente sob muitos aspectos, de tal
maneira que a explicação dos seus produtos é encontrada
sobretudo neles mesmos. Como conjunto de obras de arte a
literatura se caracteriza por essa liberdade extraordinária que
transcende as nossas servidões. Mas na medida em que é um
sistema de produtos que são também instrumentos de
comunicação entre os homens, possui tantas ligações com a
vida social, que vale a pena estudar a correspondência e a
interação entre ambas. (2000, p.163, grifos nossos)
Por conseguinte, a literatura ou o conjunto de obras literárias se constitui como uma possibilidade de redenção do pensamento quase sempre aprisionado nos limites da convenção. Se pensarmos na ironia, na paródia e no riso como “micromímesis”, encontramos exatamente aquilo que temos repetido no decorrer de todo este trabalho: essas modalidades contribuem para alargar o conhecimento, uma vez que nos permitem enveredar por caminhos não previstos pela ordem estabelecida, vislumbrando novas possibilidades de verdade. Conforme explica Aristóteles,
Além disso, sendo agradável aprender e admirar, tudo o que a
isto se refere desperta em nós o prazer, como, por exemplo, o
que pertence ao domínio da imitação, como a pintura, a
escultura e a poesia, numa palavra tudo o que é bem imitado,
mesmo que o objeto imitado não careça de encanto. De fato,
não é este último que causa prazer, mas o raciocínio pelo qual
dizemos que tal imitação reproduz tal objeto; daí resulta que
aprendemos alguma coisa. (Aristóteles, [19], p.878, grifos
nossos)
As palavras de Aristóteles vêm ao encontro de nossas ideias. No entender desse filósofo, o sujeito experimenta uma sensação prazerosa quando, exercitando sua razão, assimila algo novo. Sentese, então, muito bem; afinal, algo dependeu exclusivamente de sua ação cognitiva para existir. Ainda que não chegue a uma “verdade” inédita, movimentou seu saber, legitimando sua condição de “ser” humano, de “ser” racional. Ele – o sujeito – é o criador, e agora – diante de sua criação – é tomado por certa vaidade. Esse é justamente o prazer estético que comentamos.
Assim, a sensação de deleite e de “surpresa agradável” pode ser fruto do entendimento da obra literária em toda a sua amplitude, ou pode, ainda, acontecer gradualmente, nos momentos em que o sujeito se depara com a ironia, a paródia ou o riso. Nesse caso, a assimilação daquilo que chamamos “micromímesis” ou “microrrepresentações” conduzirá o leitor ao sentido mais essencial de toda a obra.
Tais categorias, a saber, a ironia, a paródia e o riso, se configuram, pois, como as “vias” por meio das quais a arte representa a si mesma. De fato, desvendar esses artifícios de que a literatura faz uso constitui uma experiência de acesso ao impensado, ou seja, àquilo que se afasta das concepções impostas e aceitas irracionalmente. Em relação ao riso, por exemplo, Verena Alberti afirma algo que vale, sem dúvida, para a ironia, paródia e, conforme o raciocínio que estamos tecendo, também para a própria literatura: “saber rir [...] é tornarse Deus, experimentar o impensável, ou ainda sair da finitude da existência” (1999, p.23).
Portanto, como insistimos no decorrer de todo este capítulo, ironia, paródia e riso, agora entendidos como representações da própria arte literária, são modalidades que viabilizam o crescimento intelectual do indivíduo. Afinal, oriunda de um “ser histórico”, a literatura está sempre calcada na realidade e, desse modo, atua na formação do homem. Esse avanço em direção ao entendimento de nossa “natureza humana” é alcançado, vale a pena reiterar, mediante a transgressão. Riso, paródia e ironia – vistos como representações da própria literatura – são categorias, portanto, que nos convidam a transcender nossa realidade chata, porque previsível, conhecendo realidades diversas.
Segundo Verena Alberti, “tal concepção é [...] importante, porque estabelece o caráter indispensável desse movimento livre do entendimento, sem o qual nada é criado. Ou melhor, sem o qual não há filosofia nem poesia” (1999, p.1712, grifos nossos). Nesse sentido, tanto o riso, como a ironia e também a paródia são tipos de discursos que se singularizam justamente por sua força criadora e por sua capacidade de engendrar o novo.
Seguindo esse raciocínio, quando dissemos que essas categorias são exigentes, não pretendemos confirmar a ideia errônea de que as modalidades a que nos dedicamos se especificam por estabelecer, preceituar, sempre, uma única “verdade”, de modo autoritário. Tal constatação dissolveria, por assim dizer, a inferência de que as categorias estudadas ampliam o entendimento, até porque se caracterizam como “microrrepresentações” da literatura.
Obviamente, como todo ato de comunicação – falada ou escrita –, a ironia, a paródia e o riso veiculam, sempre, um ponto de vista. Todavia, a “verdade” proposta por esses discursos, como vimos, sempre surpreende. Em primeiro lugar porque representam a própria arte e nesse sentido são organizados de modo controlado para quebrar nossas expectativas, lançandonos longe do trivial. Assim, caracterizados como as vias por meio das quais a literatura se autorrepresenta, a ironia, a paródia e o riso tendem a gerar o novo.
Mesmo que a mensagem “arquitetada” por essas categorias não seja completamente inédita – até porque isso não parece ser possível –, ainda assim, por se tratarem de discursos artísticos, pedem a colaboração do sujeito na organização do sentido; então, como a razão foi acionada, já é possível entrever uma possibilidade de crescimento.
É certo que essas modalidades, sobretudo a “ironia pura”, podem ser usadas de modo autoritário; nesse caso, porém, a ironia seria arbitrária como qualquer ato comunicativo pode ser. O importante é perceber que, de fato, não é um traço peculiar a essas modalidades serem identificadas aos discursos autoritários. Na realidade, a própria estrutura dicotômica – marca essencial desses textos – já parece criar mais de uma possibilidade de leitura. Portanto, como arte, o riso, a paródia e a ironia transcendem a “ordem natural” da existência, estimulando o sujeito à reflexão.
Se há uma espécie de imposição que une e especifica esses discursos, ela diz respeito unicamente à convocação obstinada ao sujeito para que participe ativamente da construção do sentido. Conforme dissemos, o sujeito é o “agente catalisador” dessas modalidades. Logo, parece ser procedente dizer, como já afirmamos, que, sem o empréstimo do saber do sujeito, não há irrupção da ironia, da paródia ou do riso.
Tais modalidades, estimulando o indivíduo a raciocinar para contribuir com o “surgimento” do significado, reforçam, portanto, o potencial do sujeito como força criadora. Esse é, sem dúvida, o aspecto que torna ainda mais estreito o laço entre a paródia, a ironia e o riso. Além disso, esses discursos, ao enfatizarem a capacidade criadora do sujeito, se aproximam da própria função da literatura, tornandose, como vimos, caminhos privilegiados por meio dos quais a arte literária se autorrepresenta.
Nesse sentido, a ação cognitiva do sujeito é decisiva. A oportunidade de ampliação do conhecimento criada pela literatura e pelas modalidades em questão é, sem dúvida, maravilhosa. A paródia, a ironia e o riso, como construções edificadas artisticamente, podem ser vistas, inclusive, como motivadoras de uma teoria do conhecimento.
Contudo, há o sujeito... Tão valorizado e, quase sempre, pouco disposto ao exercício da razão. Inserido numa sociedade imediatista, é coagido a aceitar e a reproduzir ideias prontas, desprovidas de qualquer fundamento racional. Como teremos a oportunidade de ver em O cavaleiro inexistente, de Ítalo Calvino, o homem atual é exaustivamente convidado a dissolverse na grande “massa”, desistindo daquelas características que o individualizam em meio ao todo.
O sujeito que somos não parece estar consciente dos caminhos que levam ao conhecimento. Em sua mente, não há harmonia entre os saberes; tudo é tragicamente compartimentado: de um lado, a “experiência”, do outro, o “saber intelectual” e, de outro, ainda, o “autoconhecimento”. Esse indivíduo não sabe que a arte o representa: desconhece, portanto, que, através desse “saber intelectual”, pode encontrar a si mesmo, pode depararse, em qualquer “página”, com sua essência perdida.
Do passo seguinte, então, ele está bem distante: sua mudança e a consequente mudança de sua experiência concreta. Sim, porque, ao contrário do que se pensa, não são os dogmas religiosos – indiscutíveis e inquestionáveis – os causadores da reforma. Não, absolutamente. A construção de indivíduos éticos e conhecedores da realidade a seu redor só é possível por meio da razão e não se faz “da noite para o dia”. Além de nossa sociedade ser imediatista, a razão não está em alta.
É preciso, pois, ser ousado para fazer uso da razão, ainda hoje. A razão desmistifica, esclarece, desvenda, revela, ilumina o que não se podia enxergar pela ausência de luz. A razão – e somente ela – permite que olhemos para o mundo, para as pessoas e para nós mesmos como se fosse a primeira vez. Enveredando por esse caminho, apreendemos o sentido primeiro das coisas e nos tornamos mais livres. Pelo menos acreditamos nisso, até a chegada sorrateira daquele “riso irônico”, consequência do fracasso de nossa razão. Ele costuma ser o indício de que é preciso rever, investigar, transformar(se) novamente. Esse é o movimento sinalizador da presença de vida. Nascer não é, de fato, suficiente.
Para pôr em prática nossa condição de seres humanos, logo, necessitamos pensar. E a literatura – representada em nossa pesquisa pela ironia, paródia e riso – se constitui como um excelente caminho, pois,, reivindicando o exercício da razão, estimula o desenvolvimento intelectual e ético do sujeito.
Se a literatura anda na contramão de uma sociedade “engessada”, nós – os sujeitos de hoje – estamos na contramão do conhecimento. Carecemos, portanto, da ousadia que nos fará transcender o universo das coisas prontas e encontrar o novo. É necessário, todavia, antes de mais nada, vontade. Finalizemos com as palavras interessantes, porém um pouco radicais, de Georges Minois:
Com certeza, o riso dos filósofos não transformou o Antigo
Regime. No domínio das mentalidades, o efeito da derrisão é,
às vezes, desesperadamente nulo. Mas será que o riso sozinho
consegue derrubar um preconceito, uma superstição, uma
bobagem, uma crença estúpida? Séculos de zombaria não
eliminaram nem a astrologia nem os fundamentalismos
religiosos.
É porque é preciso um mínimo de espírito para apreciar o espírito, e aqueles que o têm já são convertidos; para os outros, o muro da estupidez constitui uma blindagem impermeável à ironia. Portanto, a ironia é para uso interno; ela mantém o bom humor, permite suportar a estupidez e absorver os golpes baixos da existência. “A vida é uma tragédia para aqueles que sentem e uma comédia para aqueles que pensam”, diz bem, a propósito, Horace Walpole. (2003, p.435, grifos nossos)