A ironia e suas refrações

Camila da Silva Alavarce · Capítulo 1 de 9

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A ironia e suas refrações

Introdução

 

A criação literária traz como condição necessária uma carga de

liberdade que a torna independente sob muitos aspectos, de tal

maneira que a explicação dos seus produtos é encontrada

sobretudo neles mesmos. Como conjuntos de obras de arte a

literatura se caracteriza por essa liberdade extraordinária que

transcende as nossas servidões.

Antonio Candido

Este livro almeja o estudo dos discursos caracterizados pela ambiguidade, mais especificamente, a ironia, a paródia e o riso. Como qualquer ato de comunicação, tais discursos propõem sempre um ponto de vista. Assim, seja de um modo mais impositivo, seja de um mais liberal, a ironia, a paródia e o riso veiculam suas “verdades”, mas não o fazem de forma explícita. As opiniões sugeridas por tais modalidades caracterizam-se por serem resultado de uma tensão inerente a esses discursos.

Nesse sentido, existe um embate de vozes dissonantes na estrutura da ironia, da paródia e, ainda, do riso, entendido na presente investigação como fruto de uma incongruência entre o “pensado” e a “realidade concreta”. Para compreender a mensagem ou as ideias veiculadas por essas modalidades de discurso, o sujeito deve perceber a existência de vozes que se chocam na estrutura desses textos. Essa é, indubitavelmente, a condição fundamental para a concretização da ironia, da paródia e do riso. Sem a participação do sujeito na construção do sentido, essas categorias não existem – pelo menos não enquanto “ironia”, “paródia” e “riso”.

Logo, à medida que convidam o sujeito para colaborar na construção do sentido, esses discursos são vias para instaurar um movimento de reflexão e, consequentemente, de ampliação do conhecimento e da percepção crítica. As categorias que motivam a presente pesquisa são, pois, exigentes, já que convocam o sujeito, valorizando-o como um ser capaz de assimilar a estrutura contraditória desses discursos por meio do exercício da razão. É realmente significativa a possibilidade de esses discursos alargarem a visão de mundo do sujeito, permitindo que ele acesse outras realidades ou, ainda, que delineie sua própria forma de enxergar e entender a realidade (que pode destoar, e muito, do senso comum ou da concepção da maioria).

Nesse sentido, ao longo dos capítulos, realizamos a análise de cada uma dessas categorias separadamente, e, depois, estudamos as relações entre elas. Vale salientar que, no presente trabalho, a ironia é considerada como base para os acontecimentos da paródia e do riso.

A partir de então, procuramos localizar e examinar as semelhanças entre esses discursos e, ainda, as características específicas a cada um – para, mais à frente, canalizá-las como suporte para a análise de alguns textos literários (de autoria de Saramago, Calvino e Dostoievski, conforme detalhado mais adiante).

Acreditamos que a ironia, a paródia e o riso atuam, nos textos literários, na grande maioria de suas ocorrências, com o objetivo de suspender a censura e de burlar as prisões dos discursos monofônicos e consequentemente autoritários. Isso é possível porque as modalidades em questão privilegiam a polifonia e o elemento dissonante, legitimados pelo contraste de ideias, traço comum entre esses três tipos de discurso. Logo, essas categorias, como atos de comunicação, optam por determinada ótica ou postura, que entra em choque com outra, e é isso que garante a polifonia.

Devido a essas tensões e embates, que exigem uma participação ativa do leitor, o presente trabalho parte do princípio de que o público receptor é elemento de importância decisiva, sobretudo quando estamos perante textos literários em cujo cerne há o embate de “vozes” contraditórias. Cabe, pois, ao leitor a tarefa de decodificar, na estrutura do texto em análise, os discursos dissonantes.

Graças a seu relevante papel, o leitor já aparece no primeiro capítulo deste livro. Nele, o receptor de textos marcados pela ironia, paródia ou riso é tratado como uma instância que de modo algum é passiva na recepção do texto literário, pois sua contribuição é fundamental para a construção do sentido. Ainda nesse capítulo, procuramos, em linhas gerais, mostrar o tipo de abordagem escolhida para a questão da duplicidade caracterizadora desses discursos, que, aliás, se configura como uma importante semelhança entre o riso, a paródia e a ironia.

Logo em seguida, no segundo capítulo, iniciamos um estudo pormenorizado da ironia, de suas funções e de suas variadas possibilidades de ocorrência. Procuramos aprofundar o mais possível o exame dessa modalidade, enfatizando a ideia (sobretudo na seção “A carga afetiva da ironia”) de que a ironia é contraditória em todos os aspectos, já que se inicia da tensão entre discursos incongruentes e ainda produz, naqueles que se utilizam dela e principalmente em seus receptores, efeitos bastante contraditórios.

O capítulo 3 trata da paródia como um tipo de texto literário que se constitui, em primeiro lugar, pelo choque entre discursos dissonantes, como é o caso, num outro nível, da ironia. Almejamos, nesse capítulo, argumentar a favor da ideia de que o texto paródico não se caracteriza simplesmente como um tipo de discurso niilista ou desconstrucionista; ao contrário, procuramos apontar para sua importância como uma modalidade que permite a revisão crítica do passado histórico e literário, promovendo, inclusive, a perpetuação desse passado e de suas peculiaridades histórico-culturais.

O capítulo 4 traz uma reflexão acerca do riso, discutindo as proposições de diversos teóricos, de variadas disciplinas ou áreas de conhecimento (como filósofos, poetas, teóricos da literatura). Dentro desse leque, privilegiamos especialmente (devido a sua afinidade com os propósitos de nossa pesquisa) as teorias do riso de Schopenhauer, Baudelaire e Jean Paul. Entre outros motivos, são teorias que proporcionam uma aproximação estrutural e filosófica entre o fenômeno do riso e os discursos irônicos e paródicos. Nesse sentido, o riso – como a ironia e a paródia – configura-se também como um tipo de discurso que instaura, ao invés da certeza, a possibilidade, em lugar do uníssono, o ambivalente, a tensão e o elemento instável.

No capítulo 5, são encontradas as inferências obtidas a partir do estudo da ironia, da paródia e do riso e, em razão disso, esse capítulo é uma espécie de conclusão teórica do presente trabalho. Nele estudamos os significativos pontos de contato entre a ironia, a paródia e o riso. Examinamos, ainda, questões fundamentais para nossa pesquisa, como a relevância do sujeito – que caracteriza as três modalidades –, as relações entre paródia e ironia romântica, o tipo de contraste que especifica a ironia, a paródia e o riso e, ainda, pensamos em uma aproximação entre nossas categorias de estudo e a problemática tão convidativa da mímesis.

O capítulo 6 traz um estudo de obras literárias, analisadas a partir da ironia, paródia e riso. Este trabalho contempla a análise de três textos: os romances O homem duplicado (2002), de José Saramago, e O cavaleiro inexistente (1959), de Ítalo Calvino, e o conto “O duplo” (1846), de Dostoievski. É importante deixar claro que a seleção das obras guiou-se pela estrutura dissonante dessas narrativas, em cujo bojo encontramos muitas e variadas aplicações estéticas da ironia, da paródia e do riso.

Mediante esse recorte específico (tanto no plano teórico quanto no estético) buscamos discutir alguns aspectos dessas categorias de linguagem extremamente complexas e fascinantes, além de refletir sobre as possibilidades fecundas de relação entre esses discursos. Esperando que nosso trabalho possa servir de contribuição e estímulo aos estudos literários neste campo específico, convidamos o leitor para nos acompanhar nessa jornada pelas sinuosas galerias e contundentes subterrâneos da ironia, da paródia e do riso.