A ironia e suas refrações

Camila da Silva Alavarce · Capítulo 2 de 9

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A ironia e suas refrações

1. A valorização do elemento dual e o papel do leitor

1. A valorização do elemento dual e o

 

papel do leitor

 

A natureza ambígua, complexa e elaborada do discurso literário

afirma-se, justamente, na medida em que, de múltiplas

maneiras, sempre conseguiu burlar as prisões, o proibido, e

toda impossibilidade concreta do mundo imediato.

Ângela Maria Dias

Inicialmente, é preciso levar em conta a certeza de que existem semelhanças bastante interessantes entre o riso, a paródia e a ironia. Essas modalidades são vizinhas e, como tal, têm em comum, quase sempre, a função de questionar um modelo maniqueísta, seja ele qual for. Resulta dessa característica um efeito de sentido bastante importante: a tensão ou o elemento dissonante.

Assim, as categorias riso, ironia e paródia atuam na suspensão da censura, contrariando, muitas vezes, uma ideologia que se diz séria e ocasionando, pois, discursos polifônicos e conflitantes. Isso posto, serão mostradas, a seguir, em linhas gerais, as semelhanças entre o riso, a ironia e a paródia; no capítulo 6, esses conceitos serão mais detalhados. Essa exposição inicial e pouco aprofundada é necessária para que se tenha uma ideia do raciocínio que se pretende desenvolver a respeito dessas modalidades.

Começando pelo cômico, Ângela Maria Dias cita a visão de alguns estudiosos de renome sobre o riso. De acordo com ela, para Freud, o cômico consistiria no contraste entre ideias; ainda segundo Ângela Maria, Bergson apontou como causa organizadora do riso a circunstancial incapacidade humana de adaptação a situações novas; e, seguindo nessa mesma linha, a autora cita, ainda, Schopenhauer, que considera a percepção da incongruência entre o que se pensa e o que se vê como principal fator para a existência do riso (1981, p.38). De acordo com Ângela Maria Dias,

Salta aos olhos o caráter contraditório, ambíguo, incongruente

do riso. Se fizermos uma análise dos discursos críticos em

relação ao impulso cômico no homem constataremos com

expressiva frequência a intensidade da referência ao dado

ambivalente, duplo, conflitante, relativo à coexistência de

feições opostas, no interior de uma mesma entidade. Por isso,

talvez pudéssemos sugerir que a percepção da diferença, que o

reconhecimento do plural, do turbulento, do desigual, implícitos

numa espécie de instável conciliação, configuram o clima

propício à instauração do humor. (1981, p.38)

Boris Schnaiderman, em seu artigo “Paródia e mundo do riso”, cita algumas palavras dos teóricos e historiadores da literatura D. S. Likhatchóv e A. M. Pantchenko, inseridas na obra O mundo do riso da Rússia antiga:

Exteriormente, em sua camada superficial, o riso deforma

intencionalmente o mundo, faz experimentos com ele, priva o

mundo de explicações racionais e ligações de causa e efeito,

etc. Mas, destruindo, o riso, ao mesmo tempo constrói: ele cria

o seu antimundo fantástico, que traz em si determinada

concepção do universo, determinada relação com a realidade

ambiente. Esta relação do riso com a realidade é variável nas

diferentes épocas e em diferentes povos. (Apud Schnaiderman,

1980, p.90-1, grifos nossos)

É imprescindível perceber que o traço ambíguo, dissonante, duplo, plural, desigual, entre tantos outros adjetivos sinônimos caracterizadores do humor, se faz também presente nos discursos irônicos e, ainda, na paródia. Em relação à ironia, a estudiosa Lélia Parreira Duarte tem uma definição bastante esclarecedora:

Nada pode ser considerado irônico se não for proposto e visto

como tal; não há ironia sem ironista, sendo este aquele que

percebe dualidades ou múltiplas possibilidades de sentido e as

explora em enunciados irônicos, cujo propósito somente se

completa no efeito correspondente, isto é, numa recepção que

perceba a duplicidade de sentido e a inversão ou a diferença

existente entre a mensagem enviada e a pretendida. (1994,

p.55, grifos nossos)

A ambiguidade é, também, propriedade da ironia, que deve ser entendida – em seu modo mais frequente de manifestação – como a figura retórica por meio da qual “se diz o contrário do que se diz”; em outras palavras, pode-se afirmar, sobre esse tipo de ironia, que se trata de um significante para dois significados.

A paródia, por sua vez, entendida etimologicamente como “canto paralelo”, já assinala o caráter duplo da escritura e, consequentemente, da leitura paródicas. Na opinião de Schnaiderman, “Vista como um dos elementos da oposição mundo/antimundo, a paródia torna-se algo inerente a toda uma tradição cultural” (1980, p.91). Para Maria Lucia P. de Aragão,

A paródia é uma forma de jogo em que se usa uma

determinada técnica, cujos efeitos não são uniformes. Agride ou

recusa os significados, enquanto reforça os significantes: ao

potencializar um, enfraquece o outro. [...] A paródia se

apresenta como um gênero ambíguo, denunciando o fracasso

do poder constituído, numa sociedade cheia de contrastes [...]

(1980, p.19-21, grifo nosso)

Logo, faz-se bem visível a proximidade entre as categorias riso, paródia e ironia, uma vez que são marcadas, entre outros fatores, pela contradição, pela ambiguidade e pela tensão. Outro traço fundamental, comum a esses discursos, é justamente a necessidade de participação do leitor na criação do sentido; afinal, cabe a ele, por meio de sua razão, localizar as ambiguidades inerentes a essas categorias. A consequência imediata da presença desses traços incongruentes e dissonantes é que essas modalidades – a saber, o riso, a paródia e a ironia – propõem a releitura do mundo, marcada por uma visão muito mais crítica. Entretanto, vale a pena reiterar: tal releitura depende do sujeito.

Esse olhar mais reflexivo e apurado para o mundo é alcançado devido ao fato de as categorias como o riso, a paródia e a ironia permitirem que apreendamos a realidade não a partir de esquemas mentais inconciliáveis e bipolarizados, mas, sim, através do choque, da tensão entre esses esquemas.

Portanto, partimos do princípio de que as modalidades motivadoras da presente pesquisa permitem que sejam avaliados os maniqueísmos, uma vez que a “verdade” proposta por essas categorias não está em “A” ou em “B”, que se opõem, mas, sim, no choque, na tensão entre “A” e “B”. É provável que nasça, como resultado desse embate, uma outra possibilidade de “verdade” que se distancie do maniqueísmo inicial.

Sabemos, porém, que nem sempre a literatura – aqui representada pelas categorias da ironia, paródia e riso – nos conduz a um contexto que transcende completamente nossa realidade concreta, repleta de maniqueísmos. Portanto, em contato com essas modalidades, assim como com a própria literatura, o sujeito tem a possibilidade de refletir e avaliar o mundo a seu redor.

O resultado dessa experiência pode ser a manutenção dos maniqueísmos anteriores, a criação de outros maniqueísmos ou, ainda, o acesso a ideias mais originais. Todo esse processo está subordinado ao sujeito receptor de textos caracterizados pela dissonância e, ainda, ao “produtor” desses discursos, que pode nutrir intenções as mais variadas, inclusive a de manipular.

Como se sabe, os principais participantes do jogo da ironia são o interpretador e o ironista. Acreditamos, entretanto, que a participação do interpretador ou do receptor ou ainda do leitor, no caso da ironia literária, é decisiva, na medida em que está nas mãos desse receptor decodificar – ou não – a significação irônica.

Em razão disso, decidimos comentar a problemática do leitor logo no início deste livro, a fim de que se torne evidente, antes de mais nada, a fundamental importância desse elemento, que deve ser levado em consideração em quaisquer análises que se debrucem sobre textos cuja natureza é dissonante e contraditória.

Linda Hutcheon, estudiosa que segue essa mesma linha de raciocínio e a quem nos remetemos sempre neste livro, afirma que é realmente o destinatário quem decide se uma elocução é irônica ou não e, ainda, qual o sentido particular que ela, sendo irônica, pode assumir:

Esse processo ocorre à revelia das intenções do ironista (e me

faz me perguntar quem deveria ser designado como o

“ironista”). Não há garantias de que o interpretador vá “pegar” a

ironia da mesma maneira como foi intencionada. Na verdade,

“pegar” pode ser um incorreto e até mesmo impróprio; “fazer”

seria muito mais preciso. (2000, p.28)

A pessoa designada por “ironista” geralmente é aquela que objetiva estabelecer uma relação irônica entre o dito e o não dito, todavia, nem sempre obtém sucesso em transmitir uma intenção específica. Logo, estamos autorizados a inferir que a ironia pode significar coisas diferentes, de acordo com os jogadores. Tal afirmação nos remete, com certeza, às palavras já citadas dos teóricos D. S. Likhatchóv e A. M. Pantchenko sobre o riso: “Esta relação do riso com a realidade é variável nas diferentes épocas e em diferentes povos” (apud Schnaiderman, 1980, p.90-1). Fica, portanto, assinalada, uma importante semelhança entre esses discursos: sua decodificação está submetida ao receptor e, ainda, ao contexto em que ele está inserido.

Seguindo esse raciocínio, textos caracterizados pela ambiguidade, pelo paradoxo, pela contradição e pela incongruência convocam o leitor a participar de maneira efetiva da construção de seu sentido, acionando seu “repertório” ou seu “conhecimento de mundo”.

Desse modo, o receptor de textos irônicos, paródicos ou cômicos é valorizado, na medida em que é julgado capaz de perceber a ambiguidade subjacente a esses discursos. Nos três casos, a condição para que o sentido seja integralmente construído é a participação do leitor, que deve perceber, portanto, que está à frente de um enunciado dicotômico.

Assim, se é verdade que, do ponto de vista do ironista, “a ironia é a transmissão intencional tanto da informação quanto da atitude avaliadora além do que é apresentado explicitamente” (Hutcheon, 2000, p.28), também é fato que o trabalho do interpretador não pode ser simplesmente o de compreender corretamente. Para Hutcheon, nenhuma elocução é irônica em si, pois devemos sempre supor alguns interpretadores levando-a ao pé da letra:

atribuir ironia onde ela é intencional – e onde ela não é – ou

recusar-se a atribuir ironia onde ela poderia ser intencional é

também o ato de um agente consciente. [...] O interpretador

como agente desempenha um ato – atribui tanto sentidos

quanto motivos – e o faz numa situação e num contexto

particulares. Atribuir ironia envolve, assim, inferências tanto

semânticas quanto avaliadoras. (2000, p.29)

Portanto, o leitor se configura como elemento central dessa categoria de texto literário, já que deve localizar os aspectos que se encontram, implicitamente, em tensão. Assim, esse tipo de discurso – ambíguo, paradoxal, contraditório e incongruente – espera do leitor não apenas o sentimento de prazer suscitado pela leitura, mas também a responsabilidade do uso da imaginação e da perspicácia na construção do sentido. Esses discursos ocasionam, também, um tipo de prazer – o prazer estético, como veremos no capítulo 6 –, contudo, essa espécie de “deleite” só ocorrerá após a decodificação pelo leitor das “pistas” que sinalizam a incongruência.

O receptor do texto paródico, por exemplo, deve, pois, reconhecer que está diante de uma narrativa em cuja estrutura ocorre a sobreposição de dois planos: um superficial e outro implícito. Logo, se o leitor não conseguir identificar essa duplicidade que sustenta o texto paródico, ele eliminará boa parte de sua significação. Desse modo, não é possível pensar em paródia sem que se leve em conta esse colaborador imprescindível, que é o leitor. Afirma Maria Elena Pinheiro Maia:

A Estética da Recepção tem demonstrado que a colaboração

do leitor para a decodificação da mensagem textual é

imprescindível, pois alguns romances nos oferecem infinitas

possibilidades de relacionamento, e cabe ao receptor, através

de suas projeções representativas e da estrutura de apelo do

texto, ocupar seus vazios, o não dito. Sendo assim, podemos

considerar o texto artístico não só uma construção do autor,

como também uma reconstrução do leitor. Cabe-lhe dirigir,

organizar, interpretar o texto que oferece o autor. (1999, p.15)

A mesma estudiosa cita, ainda, um fragmento muito elucidativo da escritora Linda Hutcheon sobre a importância da participação do leitor na construção do sentido do texto literário:

A criação de mundos fictícios e o funcionamento construtivo,

criador da linguagem no curso da poiesis são doravante

partilhados conscientemente pelo autor e pelo leitor. Não basta

mais pedir ao leitor que admita que os objetos de ficção são

“como a vida”; espera-se que ele participe da criação de

mundos, de sentidos, por meio da linguagem. Ele não pode se

esquivar a esse apelo à ação, pois é pego na situação

paradoxal de alguém que é forçado pelo texto a reconhecer o

caráter fictício do mundo em cuja criação ele também toma

parte e que sua própria participação penetra de maneira

intelectual, criadora e talvez mesmo afetiva em uma prática

humana que é bem real, uma espécie de metáfora dos esforços

que ele faz todos os dias para “dar sentido” à experiência

vivida. (1977, p.101-2, apud Maia, 1999, p.16-7)

Por conseguinte, o leitor deve, como um detetive, estar atento à categoria de textos examinada neste trabalho, reconstruindo seus sentidos e preenchendo seus espaços vazios ou os “não ditos”, dando-lhe, enfim, a forma final por meio de suas projeções interpretativas.

Para finalizar este capítulo, remetamo-nos mais uma vez às precisas palavras de Linda Hutcheon sobre a ironia, categoria que, teremos a oportunidade de estudar adiante, parece estar “na base” da construção da paródia e do riso:

A ironia não é necessariamente um caso de intenção do ironista

(e logo de implicação), embora ela possa ser; ela é sempre, no

entanto, um caso de interpretação e atribuição. (2000, p.74)