A ironia e suas refrações
1. A valorização do elemento dual e o papel do leitor
1. A valorização do elemento dual e o
papel do leitor
A natureza ambígua, complexa e elaborada do discurso literário
afirma-se, justamente, na medida em que, de múltiplas
maneiras, sempre conseguiu burlar as prisões, o proibido, e
toda impossibilidade concreta do mundo imediato.
Ângela Maria Dias
Inicialmente, é preciso levar em conta a certeza de que existem semelhanças bastante interessantes entre o riso, a paródia e a ironia. Essas modalidades são vizinhas e, como tal, têm em comum, quase sempre, a função de questionar um modelo maniqueísta, seja ele qual for. Resulta dessa característica um efeito de sentido bastante importante: a tensão ou o elemento dissonante.
Assim, as categorias riso, ironia e paródia atuam na suspensão da censura, contrariando, muitas vezes, uma ideologia que se diz séria e ocasionando, pois, discursos polifônicos e conflitantes. Isso posto, serão mostradas, a seguir, em linhas gerais, as semelhanças entre o riso, a ironia e a paródia; no capítulo 6, esses conceitos serão mais detalhados. Essa exposição inicial e pouco aprofundada é necessária para que se tenha uma ideia do raciocínio que se pretende desenvolver a respeito dessas modalidades.
Começando pelo cômico, Ângela Maria Dias cita a visão de alguns estudiosos de renome sobre o riso. De acordo com ela, para Freud, o cômico consistiria no contraste entre ideias; ainda segundo Ângela Maria, Bergson apontou como causa organizadora do riso a circunstancial incapacidade humana de adaptação a situações novas; e, seguindo nessa mesma linha, a autora cita, ainda, Schopenhauer, que considera a percepção da incongruência entre o que se pensa e o que se vê como principal fator para a existência do riso (1981, p.38). De acordo com Ângela Maria Dias,
Salta aos olhos o caráter contraditório, ambíguo, incongruente
do riso. Se fizermos uma análise dos discursos críticos em
relação ao impulso cômico no homem constataremos com
expressiva frequência a intensidade da referência ao dado
ambivalente, duplo, conflitante, relativo à coexistência de
feições opostas, no interior de uma mesma entidade. Por isso,
talvez pudéssemos sugerir que a percepção da diferença, que o
reconhecimento do plural, do turbulento, do desigual, implícitos
numa espécie de instável conciliação, configuram o clima
propício à instauração do humor. (1981, p.38)
Boris Schnaiderman, em seu artigo “Paródia e mundo do riso”, cita algumas palavras dos teóricos e historiadores da literatura D. S. Likhatchóv e A. M. Pantchenko, inseridas na obra O mundo do riso da Rússia antiga:
Exteriormente, em sua camada superficial, o riso deforma
intencionalmente o mundo, faz experimentos com ele, priva o
mundo de explicações racionais e ligações de causa e efeito,
etc. Mas, destruindo, o riso, ao mesmo tempo constrói: ele cria
o seu antimundo fantástico, que traz em si determinada
concepção do universo, determinada relação com a realidade
ambiente. Esta relação do riso com a realidade é variável nas
diferentes épocas e em diferentes povos. (Apud Schnaiderman,
1980, p.90-1, grifos nossos)
É imprescindível perceber que o traço ambíguo, dissonante, duplo, plural, desigual, entre tantos outros adjetivos sinônimos caracterizadores do humor, se faz também presente nos discursos irônicos e, ainda, na paródia. Em relação à ironia, a estudiosa Lélia Parreira Duarte tem uma definição bastante esclarecedora:
Nada pode ser considerado irônico se não for proposto e visto
como tal; não há ironia sem ironista, sendo este aquele que
percebe dualidades ou múltiplas possibilidades de sentido e as
explora em enunciados irônicos, cujo propósito somente se
completa no efeito correspondente, isto é, numa recepção que
perceba a duplicidade de sentido e a inversão ou a diferença
existente entre a mensagem enviada e a pretendida. (1994,
p.55, grifos nossos)
A ambiguidade é, também, propriedade da ironia, que deve ser entendida – em seu modo mais frequente de manifestação – como a figura retórica por meio da qual “se diz o contrário do que se diz”; em outras palavras, pode-se afirmar, sobre esse tipo de ironia, que se trata de um significante para dois significados.
A paródia, por sua vez, entendida etimologicamente como “canto paralelo”, já assinala o caráter duplo da escritura e, consequentemente, da leitura paródicas. Na opinião de Schnaiderman, “Vista como um dos elementos da oposição mundo/antimundo, a paródia torna-se algo inerente a toda uma tradição cultural” (1980, p.91). Para Maria Lucia P. de Aragão,
A paródia é uma forma de jogo em que se usa uma
determinada técnica, cujos efeitos não são uniformes. Agride ou
recusa os significados, enquanto reforça os significantes: ao
potencializar um, enfraquece o outro. [...] A paródia se
apresenta como um gênero ambíguo, denunciando o fracasso
do poder constituído, numa sociedade cheia de contrastes [...]
(1980, p.19-21, grifo nosso)
Logo, faz-se bem visível a proximidade entre as categorias riso, paródia e ironia, uma vez que são marcadas, entre outros fatores, pela contradição, pela ambiguidade e pela tensão. Outro traço fundamental, comum a esses discursos, é justamente a necessidade de participação do leitor na criação do sentido; afinal, cabe a ele, por meio de sua razão, localizar as ambiguidades inerentes a essas categorias. A consequência imediata da presença desses traços incongruentes e dissonantes é que essas modalidades – a saber, o riso, a paródia e a ironia – propõem a releitura do mundo, marcada por uma visão muito mais crítica. Entretanto, vale a pena reiterar: tal releitura depende do sujeito.
Esse olhar mais reflexivo e apurado para o mundo é alcançado devido ao fato de as categorias como o riso, a paródia e a ironia permitirem que apreendamos a realidade não a partir de esquemas mentais inconciliáveis e bipolarizados, mas, sim, através do choque, da tensão entre esses esquemas.
Portanto, partimos do princípio de que as modalidades motivadoras da presente pesquisa permitem que sejam avaliados os maniqueísmos, uma vez que a “verdade” proposta por essas categorias não está em “A” ou em “B”, que se opõem, mas, sim, no choque, na tensão entre “A” e “B”. É provável que nasça, como resultado desse embate, uma outra possibilidade de “verdade” que se distancie do maniqueísmo inicial.
Sabemos, porém, que nem sempre a literatura – aqui representada pelas categorias da ironia, paródia e riso – nos conduz a um contexto que transcende completamente nossa realidade concreta, repleta de maniqueísmos. Portanto, em contato com essas modalidades, assim como com a própria literatura, o sujeito tem a possibilidade de refletir e avaliar o mundo a seu redor.
O resultado dessa experiência pode ser a manutenção dos maniqueísmos anteriores, a criação de outros maniqueísmos ou, ainda, o acesso a ideias mais originais. Todo esse processo está subordinado ao sujeito receptor de textos caracterizados pela dissonância e, ainda, ao “produtor” desses discursos, que pode nutrir intenções as mais variadas, inclusive a de manipular.
Como se sabe, os principais participantes do jogo da ironia são o interpretador e o ironista. Acreditamos, entretanto, que a participação do interpretador ou do receptor ou ainda do leitor, no caso da ironia literária, é decisiva, na medida em que está nas mãos desse receptor decodificar – ou não – a significação irônica.
Em razão disso, decidimos comentar a problemática do leitor logo no início deste livro, a fim de que se torne evidente, antes de mais nada, a fundamental importância desse elemento, que deve ser levado em consideração em quaisquer análises que se debrucem sobre textos cuja natureza é dissonante e contraditória.
Linda Hutcheon, estudiosa que segue essa mesma linha de raciocínio e a quem nos remetemos sempre neste livro, afirma que é realmente o destinatário quem decide se uma elocução é irônica ou não e, ainda, qual o sentido particular que ela, sendo irônica, pode assumir:
Esse processo ocorre à revelia das intenções do ironista (e me
faz me perguntar quem deveria ser designado como o
“ironista”). Não há garantias de que o interpretador vá “pegar” a
ironia da mesma maneira como foi intencionada. Na verdade,
“pegar” pode ser um incorreto e até mesmo impróprio; “fazer”
seria muito mais preciso. (2000, p.28)
A pessoa designada por “ironista” geralmente é aquela que objetiva estabelecer uma relação irônica entre o dito e o não dito, todavia, nem sempre obtém sucesso em transmitir uma intenção específica. Logo, estamos autorizados a inferir que a ironia pode significar coisas diferentes, de acordo com os jogadores. Tal afirmação nos remete, com certeza, às palavras já citadas dos teóricos D. S. Likhatchóv e A. M. Pantchenko sobre o riso: “Esta relação do riso com a realidade é variável nas diferentes épocas e em diferentes povos” (apud Schnaiderman, 1980, p.90-1). Fica, portanto, assinalada, uma importante semelhança entre esses discursos: sua decodificação está submetida ao receptor e, ainda, ao contexto em que ele está inserido.
Seguindo esse raciocínio, textos caracterizados pela ambiguidade, pelo paradoxo, pela contradição e pela incongruência convocam o leitor a participar de maneira efetiva da construção de seu sentido, acionando seu “repertório” ou seu “conhecimento de mundo”.
Desse modo, o receptor de textos irônicos, paródicos ou cômicos é valorizado, na medida em que é julgado capaz de perceber a ambiguidade subjacente a esses discursos. Nos três casos, a condição para que o sentido seja integralmente construído é a participação do leitor, que deve perceber, portanto, que está à frente de um enunciado dicotômico.
Assim, se é verdade que, do ponto de vista do ironista, “a ironia é a transmissão intencional tanto da informação quanto da atitude avaliadora além do que é apresentado explicitamente” (Hutcheon, 2000, p.28), também é fato que o trabalho do interpretador não pode ser simplesmente o de compreender corretamente. Para Hutcheon, nenhuma elocução é irônica em si, pois devemos sempre supor alguns interpretadores levando-a ao pé da letra:
atribuir ironia onde ela é intencional – e onde ela não é – ou
recusar-se a atribuir ironia onde ela poderia ser intencional é
também o ato de um agente consciente. [...] O interpretador
como agente desempenha um ato – atribui tanto sentidos
quanto motivos – e o faz numa situação e num contexto
particulares. Atribuir ironia envolve, assim, inferências tanto
semânticas quanto avaliadoras. (2000, p.29)
Portanto, o leitor se configura como elemento central dessa categoria de texto literário, já que deve localizar os aspectos que se encontram, implicitamente, em tensão. Assim, esse tipo de discurso – ambíguo, paradoxal, contraditório e incongruente – espera do leitor não apenas o sentimento de prazer suscitado pela leitura, mas também a responsabilidade do uso da imaginação e da perspicácia na construção do sentido. Esses discursos ocasionam, também, um tipo de prazer – o prazer estético, como veremos no capítulo 6 –, contudo, essa espécie de “deleite” só ocorrerá após a decodificação pelo leitor das “pistas” que sinalizam a incongruência.
O receptor do texto paródico, por exemplo, deve, pois, reconhecer que está diante de uma narrativa em cuja estrutura ocorre a sobreposição de dois planos: um superficial e outro implícito. Logo, se o leitor não conseguir identificar essa duplicidade que sustenta o texto paródico, ele eliminará boa parte de sua significação. Desse modo, não é possível pensar em paródia sem que se leve em conta esse colaborador imprescindível, que é o leitor. Afirma Maria Elena Pinheiro Maia:
A Estética da Recepção tem demonstrado que a colaboração
do leitor para a decodificação da mensagem textual é
imprescindível, pois alguns romances nos oferecem infinitas
possibilidades de relacionamento, e cabe ao receptor, através
de suas projeções representativas e da estrutura de apelo do
texto, ocupar seus vazios, o não dito. Sendo assim, podemos
considerar o texto artístico não só uma construção do autor,
como também uma reconstrução do leitor. Cabe-lhe dirigir,
organizar, interpretar o texto que oferece o autor. (1999, p.15)
A mesma estudiosa cita, ainda, um fragmento muito elucidativo da escritora Linda Hutcheon sobre a importância da participação do leitor na construção do sentido do texto literário:
A criação de mundos fictícios e o funcionamento construtivo,
criador da linguagem no curso da poiesis são doravante
partilhados conscientemente pelo autor e pelo leitor. Não basta
mais pedir ao leitor que admita que os objetos de ficção são
“como a vida”; espera-se que ele participe da criação de
mundos, de sentidos, por meio da linguagem. Ele não pode se
esquivar a esse apelo à ação, pois é pego na situação
paradoxal de alguém que é forçado pelo texto a reconhecer o
caráter fictício do mundo em cuja criação ele também toma
parte e que sua própria participação penetra de maneira
intelectual, criadora e talvez mesmo afetiva em uma prática
humana que é bem real, uma espécie de metáfora dos esforços
que ele faz todos os dias para “dar sentido” à experiência
vivida. (1977, p.101-2, apud Maia, 1999, p.16-7)
Por conseguinte, o leitor deve, como um detetive, estar atento à categoria de textos examinada neste trabalho, reconstruindo seus sentidos e preenchendo seus espaços vazios ou os “não ditos”, dando-lhe, enfim, a forma final por meio de suas projeções interpretativas.
Para finalizar este capítulo, remetamo-nos mais uma vez às precisas palavras de Linda Hutcheon sobre a ironia, categoria que, teremos a oportunidade de estudar adiante, parece estar “na base” da construção da paródia e do riso:
A ironia não é necessariamente um caso de intenção do ironista
(e logo de implicação), embora ela possa ser; ela é sempre, no
entanto, um caso de interpretação e atribuição. (2000, p.74)