A lógica da internação

Silvio José Benelli · Capítulo 6 de 9 · parte 3/5

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A lógica da internação

5 - Estudos de casos singulares sobre estabelecimentos totais e disciplinares

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

devia estar prevenido contra escaldos de água fria. Interessante

é que vago elemento material havia nesta afeição de criança,

tal qual se nota em amor, prazer no contato fortuito, de um

aperto de mãos, da emanação da roupa, como se

absorvêssemos um pouco do objeto simpático. (ibidem, p.116)

Na biblioteca, Bento Alves escolhia-me as obras: imaginava as

que me podiam interessar; e propunha a compra, ou as

comprava e oferecia ao Grêmio, para dispensar-se de mas dar

diretamente. No recreio não andávamos juntos; mas eu via de

longe o amigo, atento, seguindo-me o seu olhar como um cão

de guarda. Soube depois que ameaçava torcer o pescoço a

quem pensasse apenas em me ofender; seu irmão adotivo!

confirmava. Eu, que desde muito assumira entre os colegas um

belo ar de impávida altania, modificava-me com o amigo, e me

sentia bem na submissão voluntária, como se fosse artificial a

bravura, a maneira da conhecida petulância feminina. (ibidem,

p.117)

Bento Alves desenvolveu e manteve com Sérgio uma relação amorosa platônica e repleta de cuidados do mais velho com o mais jovem.

No movimento geral da existência do internato, desvelava-se

caprichosamente; sabia ser, de modo inexprimível, fraternal,

paternal, quase digo amante, tanta era a minudência dos seus

cuidados. Não havia regalo, dessas mesquinhas coisas de

preço enorme na carestia perpétua da prisão escolar, de que

não se privasse o Alves, em meu proveito, desesperando-se, a

fazer pena, se eu tentasse recusar. À conversa, falava da

família no Rio Grande do Sul; tinha duas irmãs; falava delas, do

tempo passado que não as via, muito claras, de belos olhos, Malheiro passou a perseguir Sérgio, infernizando-o com provocações e insinuações.

uma de quinze anos, outra de doze; ele tinha dezoito. Falava de

cuidados higiênicos meus, mudar de cama no salão azul, que

estava muito perto das janelas e isto havia de ser nocivo...

Outras ninharias, em tom de sentida brandura, como se

desejasse decrescer das proporções sólidas de sua

conformação para reduzir-se à exiguidade balbuciante de uma

carcaçazinha de avó, minguada de velhice, animada ainda e

apenas pela febre do último alento, pela necessidade de

carregar ainda alguns dias um coração, um afeto. (ibidem,

p.117-18)

O meu bom amigo, exagerado em mostrar-se melhor, sempre

receoso de importunar-me com uma manifestação mais viva,

inventava cada dia nova surpresa e agrado. Chegara ao

excesso das flores. A princípio, pétalas de magnólia seca com

uma data e uma assinatura, que eu encontrava entre folhas de

compêndio. As pétalas começaram a aparecer mais frescas e

mais vezes; vieram as flores completas. Um dia, abrindo pela

manhã a estante numerada do salão do estudo, achei a

imprudência de um ramalhete. Santa Rosália da minha parte

nunca tivera um assim. Que devia fazer uma namorada?

Acariciei as flores, muito agradecido, e escondi-as antes que

vissem. (ibidem, p.131)

Os inimigos de Sérgio, Barbalho e seu grupo não estavam alheios ao que se passava. O romance secreto de Sérgio e Bento Alves certamente não passava desapercebido aos olhos dos colegas internados, sobretudo dos inimigos que não dormem. À aversão desse grupo a Sérgio, juntou-se a inveja ao Bento Alves, que se tornou herói no Ateneu ao render um dos empregados da casa que cometeu um assassinato (ibidem, p.102-3).

Mas o Barbalho espiava, ultimamente constituído fiscal oculto

dos meus passos. As circunstâncias o tinham aproximado do

Malheiro, e o açafroado caolho pretendia manejar a rivalidade

dos dois maiores: um conflito entre Malheiro e Bento poderia

ser a vergonha para mim. (ibidem, p.131)

Queria incomodar o Alves, mortificando-me, julgando que me

queixasse. Eu devorava as afrontas do marmanjo sem

descobrir o meio de tirar correta desforra. Depois de incitar o

Malheiro contra mim, incitou o Bento contra o Malheiro.

Procurou-o misteriosamente e informou: “O Malheiro não passa

pelo Sérgio sem que pergunte quando é o casamento... é

preciso casar... Ainda hoje pediu convite para as bodas. O

Sérgio está desesperado”. O furor do Alves não se descreve,

furor poderoso dos calados. Uma onda de apoplexia ruborizou-

lhe as faces. Por um único movimento de indignação contraiu

os dedos, como se estrangulando. Procurou o Malheiro e com a

voz talvez alterada, mas sem ódio, fez intimação: “Amanhã é a

sessão de encerramento; em meio da festa saímos ambos;

preciso falar-lhe das bodas.” Malheiro percebeu: era o sonhado

encontro! (ibidem, p.131-2)

No momento marcado, quando ambos saíram do auditório, Sérgio adivinhou o que acontecia. Terminadas as atividades acadêmicas, Sérgio saiu para o pátio e recebeu uma carta do Alves: “Estou preso; antes que te digam que por alguma indignidade, previno: por ter dado uma lição ao Malheiro” (ibidem, p.132).

Enquanto Alves e Malheiro lutavam, Barbalho foi denunciá-los ao diretor e no fim da luta, Bento Alves foi surpreendido com uma ordem de prisão do diretor. Os dois contendores recusaram-se a dar explicações. “Não denunciar nunca é preceito sagrado de lealdade no colégio” (ibidem, p.132). Malheiro apanhou bastante.

Sérgio foi ver o amigo na prisão.

Por minha parte, entreguei-me de coração ao desespero das

damas romanceiras, montando guarda de suspiros à janela

gradeada de um cárcere onde se deixava deter o gentil

cavalheiro, para o fim único de propor assunto às trovas e aos

trovadores medievos. (ibidem, p.132)

O tempo passou no internato. “Bento Alves, depois de assegurar que unicamente por mim se havia sujeitado à humilhação que sofrera, andava propositalmente arredio” (ibidem, p.139). Mais tarde, os dois amigos voltaram ao antigo relacionamento.

As simpatias do excelente companheiro não tinham diminuído.

Durante as férias, fora ver-me em casa, travando relações com

a minha família. Fui recomendado insistentemente ao amigo,

que me valesse, nas dificuldades da vida colegial, contra o

constante perigo da camaradagem perniciosa. Durante o mês

de janeiro não nos vimos. Por ocasião da abertura das aulas,

notei-lhe um calor novo na amizade, sem efusões como dantes,

mas evidentemente testemunhado por tremores da mão ao

apertar a minha, embaraços na voz de amoroso errado, bisonho

desviar dos olhos, denunciando a relutância de movimentos

secretos e impetuosos. Às vezes mesmo, um reflexo

assustador de loucura acentuava-se-lhe nos traços. (ibidem,

p.162)

Interessava-me aquela agonia comprimida. Estranha coisa, a

amizade que, em vez da aproximação franca dos amigos, podia

assim produzir a incerteza do mal-estar, uma situação

prolongada de vexame, como se a convivência fosse um

sacrifício e o sacrifício uma necessidade. (ibidem, p.162)

Durante os primeiros dias do ano, poucos alunos chegados,

ficávamos horas inteiras em companhia. Trouxera-me um

presente de livros, com dedicatória a cores, de bela caligrafia,

inscritas em rosas entrelaçadas de cromo. Recordo-me também

de um dulcíssimo cofre dourado de pastilhas e outras

ridicularias de amabilidade que me oferecia, passado de

vergonha pela insignificância do obséquio. Confusamente,

ocorria-me a lembrança do meu papelzinho de namorada faz-

de-conta, e eu levava a seriedade cênica a ponto de galanteá-

lo, ocupando-me com o laço de gravata dele, com mecha de

cabelos que lhe fazia cócegas aos olhos; soprava-lhe ao ouvido

segredos indistintos para vê-lo rir, desesperado de não

perceber. Uma das irmãs casara no Rio Grande; ele mostrou-

me o retrato do noivo, um par de bigodes negros descaídos,

com a noiva, um rosto oval correto e puro, o turbilhão nevoento

dos véus. Deu-me um botão de flor de laranjeira que tinham

remetido. (ibidem, p.162)

As coisas corriam assim, serenas, quando, não mais que de repente, houve uma mudança radical. Bento Alves inexplicavelmente atacou Sérgio e lutou com ele, num desvairamento completo. Espancado pelo amigo irreconhecível e forte, Sérgio defendeu-se como pôde, atacando-o com um sapato velho (ibidem, p.163).

Aristarco surpreendeu a briga e Bento Alves retirou-se. O diretor exigiu explicações de Sérgio que lhe respondeu com violência. Aristarco enfureceu-se e suspendeu o rapaz pela roupa ameaçando-o e exigindo explicações. Sérgio agarrou-lhe os bigodes, aturdido, esperneando, contorcendo-se, sem observar as “conveniências do respeito”. Aristarco soltou o rapaz, escandalizado, sentindo-se ultrajado por ter sido agarrado pelos bigodes: “Criança! Feriste um velho!... Ah! Meu filho, ferir a um mestre é como ferir ao próprio pai e os parricidas serão malditos” (ibidem, p.163-4).

O tom comovido deste final inesperado impressionou-me até o

íntimo da alma. Estava vencido. Fiquei por um minuto

horrorizado de mim mesmo. De volta do atordoamento, achei-

me só no corredor. A saída dramática do diretor aumentou-me

ainda os remorsos. Houve uma reação de esforço moral e

desatei nervosamente em pranto, chorei a valer, amparando-me

ao peitoril de uma janela. Contava certo com um castigo

excepcional, uma cominação qualquer do célebre código do

arbítrio, em artigo cujo grau mínimo fosse a expulsão solene.

(ibidem, p.164)

Sérgio esperou alguns dias pelo castigo que não veio.

[...] Bento Alves despedira-se do Ateneu na mesma tarde do

extraordinário desvario. Acreditei algum tempo que a minha

impunidade era um caso especial do afamado sistema das

punições morais e que Aristarco delegara ao abutre da minha

consciência o encargo da sua justiça e desafronta. (ibidem,

p.164)

Depois, Sérgio concluiu que não compensava para o diretor perder duas mensalidades de uma só vez, além do que o incidente, embora desagradável, não teve testemunhas. “O caso morreu em segredo de discrição, encontrando-nos eu e o diretor num conchavo bilateral de reserva, como se nada houvesse” (ibidem, p.164).

 

Sérgio no secundário

Ao passar para o secundário, Sérgio faz um balanço do seu tempo e experiência de internação no colégio, refletindo sobre sua ingenuidade infantil inicial e todas as suas decepções posteriores. O colégio passa definitivamente a representar um cárcere para o adolescente. Agora ele já era um veterano no Ateneu e conhece bem os meandros da vida no estabelecimento escolar. Inicia-se uma nova etapa em sua carreira moral. O tempo da novidade foi seguido pelo da desilusão e do sofrimento. À continuação, veio a resignação cética.

Depois dos exames primários (ibidem, p.146-8), enquanto esperava com os colegas a leitura da lista dos aprovados, Sérgio contempla os quadros de alto relevo nos quais, representando as artes e indústrias, meninos nus feitos de gesso dançam em roda fraternal. Sérgio refletiu.

Senti-me velho. Que longa viagem de desenganos! Alguns

meses apenas, desde que vira, à primeira vez, as ideais

crianças vivificadas no estuque pelo contágio do entusiasmo

ingênuo, ronda feliz do trabalho... Agora, um por um que os

interpretasse, aos pequenos hipócritas mostrando as nádegas

brancas com um reverso igual de candura, um por um que os

julgasse, e todo aquele gesso das facezinhas rechonchudas

coraria de uma sanção geral e esfoladora de palmadas. Não me

enganavam mais os pequeninos patifes. Eram infantis, alegres,

francos, bons, imaculados, saudáveis dos primeiros anos,

tempos da escola que não voltam mais!... E mentiam todos!...

Cada rosto amável daquela infância era a máscara de uma

falsidade, o prospecto de uma traição. Vestia-se ali de pureza a

malícia corruptora, a ambição grosseira, a intriga, a bajulação, a

covardia, a inveja, a sensualidade brejeira das criaturas

eróticas, a desconfiança selvagem da incapacidade, a

emulação deprimida do despeito, a impotência, o colégio,

barbaria de humanidade incipiente, sob o fetichismo do Mestre,

confederação de instintos em evidência, paixões, fraquezas,

vergonhas que a sociedade exagera e complica em proporção

de escala, respeitando o tipo embrionário, caracterizando a

hora presente, tão desagradável para nós, que só vemos azul o

passado, porque é ilusão e distância. (ibidem, p.148)

No ano seguinte, o Ateneu revelou-se noutro aspecto.

Conhecera-o interessante, com as seduções do que é novo,

com as projeções obscuras de perspectiva, desafiando

curiosidade e receio; conhecera-o sípido e banal como os

mistérios resolvidos, caiados de tédio; conhecia-o agora

intolerável como um cárcere, murado de desejos e privações.

(ibidem, p.151)

Depois das férias, quando esteve em contato com a vida social corrente, aumenta sua consciência dos limites da vida no internato escolar.

Comecei a penetrar a realidade exterior como palpava a

verdade da existência no colégio. Desesperava-me então ver-

me duplamente algemado à contingência de ser

irremissivelmente pequeno e ainda colegial. Colegial, quase

calceta! marcado com um número, escravo dos limites da casa

e do despotismo da administração. (ibidem, p.152)

Sérgio inicia uma nova amizade na sua fase de colegial. Egbert é seu novo amigo. “Adquirira-o com a transição para as aulas secundárias, onde o encontrei com outros adiantados. Vizinhos de banco, compreendemo-nos, mutuamente simpáticos, como se um propósito secreto de coisa necessária tivesse guiado o acaso da colocação” (ibidem, p.169).

Conheci pela primeira vez a amizade. A insignificância cotidiana

da vida escolar, em que a gente se aborrece, é favorável ao

desenvolvimento de inclinações mais sérias que as de simples

conveniência menineira. O aborrecimento é um feitio da

ociosidade, e da mãe proverbial dos vícios gera-se também o

vício de sentir. (ibidem, p.169)

A convivência do Sanches fora apenas como o afeiçoamento

aglutinante de um sinapismo, intolerável e colado, espécie de

escravidão preguiçosa da inexperiência e temor; a amizade de

Bento Alves fora verdadeira, mas do meu lado havia apenas

gratidão, preito à força, comodidade da sujeição voluntária,

vaidade feminina de dominar pela fraqueza, todos os elementos

de uma forma passiva de afeto, em que o dispêndio de energia

é nulo, e o sentimento vive de descanso e de sono. Do Egbert,

fui amigo. Sem mais razões, que a simpatia não se argumenta.

Fazíamos os temas de colaboração; permutávamos

significados, ninguém ficava a dever. Entretanto, eu

experimentava a necessidade deleitosa da dedicação. Achava-

me forte para querer bem e mostrar. Queimava-me o ardor

inexplicável do desinteresse. Egbert merecia-me ternuras de

irmão mais velho. (ibidem, p.169-70)

Tinha o rosto irregular, parecia-me formoso. De origem inglesa,

tinha os cabelos castanhos entremeados de louro, uma

alteração exótica na pronúncia, olhos azuis de estrias

cinzentas, oblíquos, pálpebras negligentes, quase a fechar, que

se rasgavam, entretanto, a momentos de conversa, em

desenho gracioso e largo. (ibidem, p.170)

Vizinhos de dormitório, eu, deitado, esperava que ele dormisse

para vê-lo dormir e acordava mais cedo para vê-lo acordar.

Tudo que nos pertencia, era comum. Eu por mim positivamente

adorava-o e o julgava perfeito. Era elegante, destro,

trabalhador, generoso. Eu admirava-o, desde o coração até a

cor da pele e à correção das formas. Nadava como as toninhas.

A água azul fugia-lhe diante em marulho, ou subia-lhe aos

ombros, banhando de lustre de marfim polido a brancura do

corpo. Dizia as lições com calma, dificilmente às vezes,

embarcado por aspirações ansiosas de asfixia. Eu mais o

prezava nos acessos doentios da angústia. Sonhava que ele

tinha morrido, que deixara bruscamente o Ateneu; o sonho

despertava-me em susto, e eu, com alívio, avistava-o tranquilo,

na cama próxima, uma das mãos sob a face, compassando a

respiração ciciante. No recreio, éramos inseparáveis,

complementares como duas condições recíprocas de

existência. Eu lamentava que uma ocorrência terrível não

viesse de qualquer modo ameaçar o amigo, para fazer valer a

coragem do sacrifício, trocar-me por ele no perigo. Vinham-me

reminiscências dos exemplos históricos de amizade; a

comparação pagava bem. (ibidem, p.170)

No campo dos exercícios, à tarde, passeávamos juntos, voltas

sem fim, em palestra sem assunto, por frases soltas, estações

de borboletas sobre as doçuras de um bem-estar mútuo,

inexprimível. Falávamos baixo, bondosamente, como temendo

espantar com a entonação mais alta, mais áspera, o favor de

um gênio benigno que estendia sobre nós a amplidão invisível

das asas. Amor unus erat. (ibidem, p.170-1)

Entrávamos pelo gramal. Como ia longe o burburinho de alegria

vulgar dos companheiros! Nós dois sós! Sentávamos à relva.

Eu descansando a cabeça aos joelhos dele, ou ele nos meus.

Calados, arrancávamos espiguilhas à grama. O prato era

imenso, os extremos escapavam já na primeira solução de

crepúsculo. Olhávamos para cima, para o céu. Que céu. Que

céus de transparência e de luz! Ao alto, ao alto, demorava-se

ainda, em cauda de ouro, uma lembrança do sol. A cúpula

funda descortinava-se para as montanhas, diluição vasta,

tenuíssima de arco-íris. Brandos reflexos de chama, depois, o

belo azul de pano, depois a degeneração dos matizes para a

melancolia noturna, prenunciada pela última zona de roxo

doloroso. Quem nos dera ser aquelas aves, duas, que

avistávamos na altura, amigas, declinando feliz a luz, em pleno

dia ainda, quando na terra iam por tudo as sombras! (ibidem,

p.171)

Os dois amigos liam muito em companhia, a solidão de Robinson Crusoé, a solidão e o sentimento de Paulo e Virgínia, enlevavam-se com a pastoral de Bernardin de SaintPierre, esboçavam poesias e romances ambientados na Idade Média.

Quando Sérgio ouviu o nome do amigo citado no “processo do caso Cândida”, investigação institucional de uma ocorrência de homossexualidade entre os alunos (ibidem, p.160ss.), sofreu em silêncio o golpe e desesperou-se por não encontrar um meio de partilhar com Egbert a vergonha. Quando tudo passou e Egbert não sofreu maiores sanções, Sérgio reencontrou-o e não comentaram nem uma vez sequer o desagradável incidente, manifestando assim a solidariedade entre os internados (ibidem, p.173). Declamavam juntos o teatro clássico.

Um era Augusto, outro Cina; um Nearco, outro Poliúto; um

Horácio, outro Curiácio, D. Diogo e o Cid, Joas e Joad, Nero e

Burro, Filinto e Alceste, Tartufo e Cleanto. O arvoredo era um

cenário deveras. Dialogávamos, com toda a força das

encarnações dramáticas, a gravura cavalheiresca, o civismo

romano, as apreensões de rei ameaçado, o heroísmo da fé, os

arrufos da misantropia, as sinuosidades do hipócrita. Uma

estátua de deusa anônima, de louça esfolada, verde de velhice,

constituía o auditório, auditório atento fixamente, comedido,

sem demasias de aplausos nem reprovação, mas constante e

infatigável. (ibidem, p.175)

Para o desempenho de papéis femininos havia dificuldades;

cada um queria a parte mais enérgica do recitativo. Tirava-se a

sorte, e, segundo o acaso, um de nós ou o outro enfiava sem

cerimônia as saias de qualquer dama e ia perfeita a toilette do

sentimento; noivado de Chimène, desespero de Camila, luto de

Paulina, ambição de Agripina, soberania de Ester, astúcia de

Elmira, dubiedade de Celimene. Outro papel custoso de

distribuir era o de Burro, papel honesto, entretanto, e altamente

simpático. Ninguém o queria fazer, o virtuoso conselheiro de

Nero. (ibidem, p.175)

Nesse idílio ia a amizade de Sérgio e Egbert, até que ambos foram premiados com um jantar na casa do diretor, por terem se distinguido nos estudos. No jantar, Sérgio fica deslumbrado com Ema, a esposa de Aristarco.

Uma atenção absorveu-me exclusiva e única. D. Ema

reconheceu-me: era aquele pequeno das madeixas compridas!

Conversou muito comigo. Um fiapo branco pousava-me ao

ombro do uniforme; a boa senhora tomou-o finamente entre os

dedos, soltou-o e mostrou-me, sorrindo, o fio levíssimo a cair

lentamente no ar calmo... Estava desenvolvido! Que diferença

do que era há dois anos!... Miragem sedutora de branco, fartos

cabelos negros colhidos para o alto com infinita graça, uma

rosa nos cabelos, vermelha como são vermelhos os lábios e os

corações, vermelha como um grito de triunfo. Nada mais.

Ramalhetes à mesa, um caldo ardente, e sempre a obsessão

adorável do branco e a rosa vermelha. Estava a meu lado,

pertinho, deslumbrante, o vestuário de neve. Servia-me alguns

pratos, muitas carícias; eu devorava as carícias. Não ousava

erguer a vista. Uma vez ensaiei. Havia sobre mim dois olhos

perturbadores, vertendo a noite... (ibidem, p.176)

Quando retornou ao Ateneu, Sérgio encontrava-se transformado: “De volta ao Ateneu, senti-me grande. Crescia-me o peito indefinivelmente, como se me estivesse a fazer homem por dilatação” (ibidem, p.176-7). A paixão por Ema modificou seu relacionamento com Egbert: “[...] olhava agora para Egbert como para uma recordação e para o dia de ontem. Daí começou a esfriar o entusiasmo de nossa fraternidade” (ibidem, p.177). Sérgio sonhava com sua amada (ibidem, p.181).

Que outra criatura era eu ao despertar! A aparição encantadora

extinta; mas eu sofria da reação das trevas que sucede aos

deslumbramentos. Continuava cordialmente com o Egbert.

Parecia-me, entretanto, a sua amizade agora uma coisa

insuficiente como se houvesse em mim uma selvageria

amordaçada de afetos. Egbert parecia às vezes um intruso.

Passeando com ele, que diferença de outrora! Produzia-me o

efeito de uma terceira pessoa. Eu preferia andar só. (ibidem,

p.181-2)

Sérgio foi submetido a novos exames escolares e promovido (ibidem, p.177-81). Também foi transferido para o dormitório dos maiores. “Esta mudança distanciava-me ainda mais do Egbert; passamos a nos encontrar somente à tarde, no campo” (ibidem, p.182).

Nessa nova fase, Sérgio pouco se ocupava dos estudos e passava o tempo deitado preguiçosamente, manifestando aí sua estratégia adaptativa e ajustamento secundário: “Depois das aulas, subia para o dormitório, aproveitando-me do relaxamento da polícia do salão. O inspetor responsável era o Silvino. Receoso de uma represália dos grandes, o prudente bedel deixava andar” (ibidem, p.182). Com os internados maiores, a vigilância era obrigada a fazer concessões, medindo forças e usando de maior prudência, para evitar uma agressão que revidasse uma repressão exagerada.

Eu deitava-me preguiçoso, ouvindo a grita do pátio, como coisa

absolutamente alheia à minha vida. Contava as tábuas do teto,

porção de traços paralelos que se perdiam num reflexo de tinta.

Às vezes lia narrativas de Dumas, que não distraíam. Em outras

camas, deitados como eu, de cara para cima, cruzando os

botins, alguns colegas fumavam, soprando, devagarinho,

colunas de fumo que subiam, verticalmente, e rodavam azuis. A

um canto, no fim do salão, jogavam três parceiros, bocejantes,

acentuando sem entusiasmo as alternativas do azar como uma

partida de sonâmbulos. Muitas vezes na modorra pesada da

sesta, as costas aquecidas da posição, fechando-me os olhos,

ao brilho do sol que adivinhava lá fora no terreiro abrasado, eu

adormecia. À hora da aula ou do jantar, um companheiro

puxava-me. (ibidem, p.182)

Estes intervalos de dormência sem sonho, sem ideias, sem

definida cisma, eram o meu sossego. Pensar era impacientar-

me. Que desejava eu? Sempre o desespero da reclusão

colegial e da idade. Vinham-me crises nervosas de movimento,

e eu cruzava de passos frenéticos o pátio, sôfrego, acelerando-

me cada vez mais, como se quisesse passar adiante do tempo.

Nem me interessavam as intrigas do salão. E que intrigas!

Exatamente a substância do afamado mistério do chalé,

dormitório coletivo dos maiores, objeto de ambição curiosa dos

menores do internato. (ibidem, p.182)

Podemos observar uma espécie de moratória à qual o adolescente internado num colégio está submetido: seu aborrecimento, tédio, falta de sentido, desejo de que o tempo passe depressa e que ele cresça, para finalmente ser livre, adulto, capaz de exercer-se na vida.

 

Epílogo: a emergência do feminino na vida de

Sérgio

Depois da “solenidade da distribuição bienal dos prêmios” (ibidem, p.193-204), Sérgio caiu doente: “Logo depois da festa de educação física, que foi alguns dias depois da grande solenidade dos prêmios, eu adoecera. Sarampos, sem mais nem menos. Por motivo dos seus padecimentos, meu pai seguira para a Europa, levando a família. Eu ficara no Ateneu, confiado ao diretor, como a um correspondente” (ibidem, p.207).

Meia dúzia de rapazes eram meus companheiros. Que terrível

soledade o Ateneu deserto. No pátio, o silêncio dormia ao sol,

como um lagarto. Vagávamos, bocejando pelas salas

desmontadas, despidas; as carteiras amontoadas num canto,

na caliça os pregos somente das cartas com alguns quadros

restantes de máximas, por maior insipidez, os mais teimosos

conselhos morais. Nos dormitórios, as camas desfeitas

mostravam o esqueleto de ferro pintado, o xadrez das chapas

cruzadas. Principiava um serviço vasto de lavagem,

envernizagem, caiação; vieram pintores reformar os aspectos

do edifício que se renovavam todos os anos. Os tristes reclusos

das férias, ficávamos, no meio daquela restauração geral, como

coisas antigas, do outro ano, como o deplorável inconveniente

de se não poder caiar de novo e pintar. (ibidem, p.207-8)

Sérgio sentiu-se fisicamente mal.

Assim passei alguns dias sem me queixar. Certa manhã,

descubro no corpo um formigamento de pintinhas rubras.

Aristarco fez-me recolher na enfermaria, um prolongamento de

sua residência para os lados da natação. Veio o médico, o

mesmo do Franco; não me matou. D. Ema foi para mim o

verdadeiro socorro. Sabia tanto zelar, animar, acariciar, que a

própria agonia aos cuidados do seu trato fora uma ressurreição.

(ibidem, p.208)

Sérgio ficou recluso na enfermaria enquanto se recuperava da doença, sob os cuidados maternais de Ema e seu amor por ela floresceu com intensidade.

A convivência cotidiana na solidão do aposento estabelecera a

entranhada familiaridade dos casais. Ema afetava não ter mais

para mim avarezas de colchete. “Sérgio, meu filhinho.” Dava-se

os bons dias. Saía, voltava fresca, com o grande, vernal sorriso

rorejado ainda do orvalho das ablusões. Rindo sem causa: da

claridade feliz da manhã, de me ver forte, quase bom.

Debruçava-se expansiva, resplendendo a formosura sobre mim,

na gola do peignoir, como um derramamento de flores de uma

cornucópia. Tomava-se a fronte nas mãos, colava à dela;

arredava-se um pouco e olhava-me de perto, bem dentro dos

olhos, num encontro inebriante de olhares. Aproximava o rosto

e contava, lábios sobre lábios, mimosas historietas sem texto,

em que falava mais a vivacidade sanguínea da boca, do que a

imperceptível confusão dos arrulhos cantando-se na garganta

como um colar sonoro. Achava-me pequenino, pequenino.

Sentava-se à cadeira. Tomava-me ao colo, acalentava-me,

agitava-me contra o seio como um recém-nascido, inundando-

me de irradiações quentes de maternidade, de amor.

Desprendia os cabelos e com um ligeiro movimento de

espáduas fazia cair sobre mim uma tenda escura. De cima,

sobre as faces, chegava-me o bafejo tépido da respiração. Eu

via, ao fundo da tenda, incerto como em sonhos, a fulguração

sideral de dois olhos. (ibidem, p.212)

Sérgio convalesceu nesse romance platônico com sua enfermeira. Mas “tudo acabou com um fim brusco de mau romance” (ibidem, p.213). O Ateneu ardeu em chamas e foi consumido num incêndio. O autor do sinistro foi Américo, um aluno internado no Ateneu à própria revelia pelo pai.

Entre os reclusos das férias, contava-se um rapaz, matriculado

de pouco, o Américo. Vinha da roça. Mostrou-se contrariado

desde o primeiro dia. Aristarco tentou abrandá-lo; impossível:

cada vez mais enfezado. Não falava a ninguém. Era crescido e

parecia de robustez não comum. Olhavam para ele como para

uma fera respeitável. De repente desapareceu. Passado algum

tempo vieram três pessoas reconduzindo-o: o pai, um

correspondente e um criado. O rapaz amarelo, com manchas

vermelhas, movediças, no rosto, mordia os beiços até ferir. O

pai pediu contra ele toda a severidade. Aristarco, que tinha

veleidades de amansador, gloriando-se de saber combinar

irresistivelmente a energia com o modo amoroso, tranquilizou o

fazendeiro: “Tenho visto piores”. Carregando a vista com toda a

intensidade da força moral, segurou o discípulo rijamente pelo

braço e fê-lo sentar-se. “Tu ficarás, meu filho!” O moço limitou-

se a responder, cabisbaixo, possuído de repentina

complacência: “Eu fico”. Dizem que o pai o tratara terrivelmente,

vendo-o apresentar-se em casa, evadido. Com a proximidade

da festa dos prêmios o caso do desertor ficou esquecido, e

ninguém jamais foi como ele exemplo de cordura. (ibidem,

p.213)

O fogo devorou o colégio. “O incêndio fora propositalmente lançado pelo Américo, que para isso rompera o encanamento do gás no saguão das bacias. Desaparecera depois do atentado” (ibidem, p.217). Impossível não ver no gesto do incendiário uma semelhança com o que acontece atualmente nas revoltas em presídios e instituições de internamento para adolescentes infratores, que incendeiam colchões e pavilhões inteiros, rebelando-se contra condições desumanas de vida.

Por outro lado, esse desfecho trágico da história também nos faz pensar na vingança de Pompéia contra sua longa e árdua experiência no colégio interno: ao escrever suas memórias, pôde acertar as contas com o passado, e tal como os internos de hoje aos quais aludimos acima, ateou fogo ao Ateneu, revoltado com sua condição de adolescente internado.

“Desaparecera igualmente durante o incêndio a senhora do diretor” (ibidem, p.217). Golpe de misericórdia infligido no poderoso Aristarco? “Lá estava Aristarco, tresnoitado, o infeliz... Lá estava, a uma cadeira em que passara a noite, imóvel, absorto, sujo de cinza como um penitente, o pé direito sobre um monte de carvões, o cotovelo espetado na perna, a grande mão felpuda envolvendo o queixo, os dedos perdidos no bigode branco, sobrolho carregado” (ibidem, p.217). “Ele, como um deus caipora, triste, sobre o desastre universal de sua obra” (ibidem, p.218). Aqui Pompéia/Sérgio interrompe sua “crônica das saudades” (ibidem, p.218).

Em seu percurso pelo internato escolar, Sérgio foi confrontando a vida mesma em sua multiplicidade: amores, ódios, rixas, rivalidades, orgulho, vaidade, posições femininas, masculinas, o menino tornou-se um homem. O menino pôde sair do Ateneu, mas parece que foi difícil o Ateneu sair do menino. Talvez Raul Pompéia tenha produzido O Ateneu para apropriar-se de sua dolorosa formação escolar e existencial. Inclusive podemos também pensar num forte processo de institucionalização, pois, de acordo com Goffman (1987), a internação prolongada produz uma maior resistência a deixar o estabelecimento de reclusão. Ter vivido tal experiência constitui um sujeito, sua história faz dele o que é hoje. Pompéia parece orbitar o internato onde viveu como seu “grande sintoma”. É semelhante ao ex-usuário de drogas que, inclusive, em abstinência voluntária, permanece orbitando-a, mesmo que seja trabalhando em uma clínica que se ocupa com usuários. De qualquer modo, o objeto permanece central na sua vida.

 

O internato escolar como um estabelecimento

formativo, educativo e terapêutico

O Ateneu pode ser considerado um estabelecimento pedagógico que possui aspectos de um sistema correcional, exercendo as funções de reclusão e de custódia. Funciona de modo sutil, objetivando a modelagem da subjetividade dos seus membros internados, no que ele se assemelha com a prisão. Acolhe o aluno em sua clausura, confinando-o para formá-lo no contexto institucional.

A educação acadêmica se apresenta como o objetivo oficial do Ateneu. Mas o estabelecimento exerce uma função de atenção aos alunos, membros residentes no estabelecimento, oferecendo mais e menos do que apenas escolarização. É nesse ambiente inclusivo que suas necessidades biológicas, psíquicas e sociais devem ser satisfeitas. O Ateneu também produz mudanças psicológicas no internado, especificando-as e estabelecendo operadores institucionais adequados para obtê-las.

Entendemos que o Ateneu, enquanto estabelecimento, constitui-se num bloco de condições materiais objetivas: sua organização espacial, o regulamento meticuloso que rege sua vida interior, as várias atividades aí desenvolvidas, os diversos personagens que aí vivem e se encontram, cada um com uma função, um lugar etc. Ali, as relações de comunicação e de poder são produtoras de uma subjetividade específica. Acreditamos que a atividade que assegura o aprendizado e a aquisição de aptidões ou tipos de comportamento aí se desenvolve mediante um conjunto de comunicações reguladas (aulas, perguntas e respostas, ordens, exortações, signos codificados de obediência, marcas distintivas do valor de cada um e dos níveis de saber) e de uma série de procedimentos de poder (enclausuramento, vigilância, exame, recompensa e punição, hierarquia piramidal). Como todo espaço institucional fechado, o Ateneu provavelmente funciona a partir de dois elementos essenciais: o aparelho, constituído pelo próprio estabelecimento, e as regras (explícitas e implícitas).

O Ateneu é também um estabelecimento que utiliza mecanismos aparentemente repressivos para controlar a sexualidade dos internados, mas o que realmente parece fazer é incitá-la, acabando por fomentá-la ao proibi-la. Ao encerrar os estudantes como um grupo monossexuado no claustro totalitário, acaba por vê-la emergir perversa e polimorfa.

Sobre sexo, há um enorme silêncio oficial. Há apenas as proibições do regimento indicando as penas para a “imoralidade”. Porém, se sobre isso não se fala, “isso” fala, numa intensificação dos afetos e dos corpos, num intenso erotismo que, passando pelo flerte, paquera, se configura eventualmente em relacionamentos, em “casos”, em prováveis namoros, na formação de casais apaixonados, em amores secretos, nem sempre discretos, platônicos ou intensamente carnais. Assim sendo, dentro dos muros do internato, sob o interdito sexual, encontramos o frescor do desejo e uma sexualidade fervilhante. Os rapazes podem experimentar diversas práticas amorosas. Parece que a vida no claustro tende a produzir uma exacerbação, intensificação e passagens ao ato das possibilidades neuróticas e perversas dos jovens estudantes.

Em termos de efeitos éticos, a experiência de internação numa instituição total produz resultados muito distantes dos objetivos oficiais que costumam constar em seus estatutos e regimentos (Benelli, 2002; Benelli; Costa-Rosa, 2003b). Ela parece, normalmente, produzir efeitos contrários aos prometidos. Em suas conclusões, Goffman (1987, p.246) afirma que:

Sempre que estudamos um estabelecimento social, verificamos

uma discrepância com esse primeiro tema: verificamos que os

participantes se recusam, de alguma forma, a aceitar a

interpretação oficial do que devem dar e retirar da organização,

e, além disso, quanto ao tipo de “eu” e de que mundo que

devem aceitar para si mesmos. Onde se espera entusiasmo,

haverá apatia; onde se espera afeição, há indiferença; onde se

espera frequência, há faltas; onde se espera robustez, há

algum tipo de doença; onde as tarefas devem ser realizadas, há

diferentes formas de inatividade. Encontramos inúmeras

histórias comuns, cada uma das quais é, a seu modo, um

movimento de liberdade. Sempre que se impõem mundos, se

criam submundos.

As instituições totais tendem a ser (re)produtoras de indivíduos normalizados, modelados numa subjetividade serializada. O Ateneu é um bom exemplar da implementação do dispositivo pedagógico com seus diversos operadores, tal como vemos emergir em Foucault (1999b): escolarização disciplinar produzindo efeitos normalizadores. O seu núcleo subjetivizante estaria centrado numa formação disciplinar, ao mesmo tempo moral e psicológica. A ação institucional incide normativamente sobre as condutas. A subjetividade produzida neste contexto seria caracterizada por traços essencialmente nomatizados e normatizadores, por meio de um jogo de forças (ativas e reativas) que visam à normatização da conduta do outro.

 

O jovem Törless: violência e subjetividade na

instituição total5

A condição de internado, num hospital geral, num hospital psiquiátrico, numa prisão, num colégio interno, num convento ou num seminário, nos parece relevante em si mesma como um assunto que merece ser estudado e compreendido. Sua vida real, atitudes, ideias, sentimentos e conduta devem ser estudados nesse contexto institucional. Acreditamos que o período de internação em um ambiente especial constitui uma parte significativa do período vital total do indivíduo. Esse lapso de tempo no qual o indivíduo vive como internado pode deixar marcas profundas na sua subjetividade.

Dentre as práticas sociais de modelagem da subjetividade, a internação em instituições totais tem sido historicamente uma estratégia extremamente frequente. Tais instituições foram e continuam sendo utilizadas como agências produtoras de subjetividade, modelando-a de acordo com o contexto institucional ao promover relações peculiares entre dirigentes e internados no conjunto das práticas institucionais.

Tomamos como objeto de estudo uma instituição total que Goffman (1987) define como um local que concentra moradia, lazer e a realização de algum tipo de atividade formativa, educativa, correcional ou terapêutica, onde um grupo relativamente numeroso de internados está submetido a uma pequena equipe dirigente que gerencia a vida institucional.

Relações sociais autoritárias e mesmo violentas podem ser promotoras de um caldo de cultura instável, conflitivo e explosivo. A vida no contexto institucional de uma instituição total (Goffman, 1987) tende a se caracterizar por um alto grau de agressividade e, mesmo, de violência. Uma equipe dirigente arrogante e autoritária pode criar uma vida marcada por uma violência surda e cotidiana, tornando-se incapaz de explicar, controlar ou perceber sua própria implicação na produção de semelhante estado de coisas.

Entendemos a violência como um evento representado por ações realizadas por indivíduos, grupos, classes ou nações que ocasionam danos físicos ou morais a si próprios ou a outros. Agressividade pode ser entendida como “tendências que se atualizam em comportamentos reais ou fantasísticos que visam prejudicar o outro, destruí-lo, constrangê-lo, humilhá-lo, etc.” (Laplanche; Pontalis, 1996). Qualquer modalidade de ação, motora ou simbólica, positiva ou negativa, pode funcionar como agressão. A psicanálise atribuiu uma importância crescente à agressividade, mostrando-a em operação desde cedo no desenvolvimento do sujeito, indicando sua ligação complexa com a sexualidade.

Vamos apresentar um exemplo desse fenômeno onde agressividade, violência, sexualidade e sadismo se mesclam de modo complexo em uma instituição total (Goffman, 1987).

Robert Musil (1880-1942) publicou, em 1906, O jovem Törless, baseado em suas experiências escolares. Trata-se de um romance ambientado numa sociedade extremamente autoritária, que narra o desenvolvimento de um adolescente no contexto institucional de um internato escolar, cujos conflitos são urdidos no seio de complexas relações institucionais. Nossa hipótese é que os alunos reproduzem entre si as mesmas relações de dominação e modelagem às quais estão submetidos pela equipe dirigente. Se se tornam opressores, é porque são também oprimidos, reproduzindo as relações sociais de dominação e submissão. Mas não podemos negar a percepção de que os atores principais da história em questão possuem, cada um, modos diversos e específicos de lidar com a lei.

A perspectiva de Goffman (1987) quanto ao modo de funcionamento dos internados nos auxiliará na compreensão dos acontecimentos narrados. Também nos utilizaremos de algumas hipóteses psicanalíticas para entender a dinâmica dos atores institucionais no romance em questão.

De acordo com Goffman (1987), os internados criam “ajustamentos secundários”, práticas que não desafiam diretamente a equipe dirigente, mas lhes permitem obter satisfações proibidas ou conseguir, por meios proibidos, as satisfações permitidas. Os internados “conhecem as manhas” para usufruir uma certa autonomia pessoal, reagindo às pressões ostensivas da equipe dirigente. Poderíamos dizer que os internados inventam as “manhas” e criam também uma “gíria institucional” própria para se comunicarem em segredo. Criam também “controles sociais informais”, utilizando a cooptação ou a coerção pela força e violência para evitar que delatores os entreguem à equipe dirigente.

Pelo “processo de confraternização”, o grupo dos internados se une, desenvolve apoio mútuo e uma cumplicidade como resistência a um sistema que os forçou à intimidade numa única comunidade igualitária de destino. A gozação coletiva expressa o repúdio geral e vingança contra a autoridade sentida como inimiga.

A solidariedade produz uma infinidade de grupos primários no estabelecimento: panelinhas, facções, ligações sexuais mais ou menos estáveis, a formação de pares, por meio dos quais dois internados passam a ser reconhecidos como “amigos” ou “casal” pelos demais companheiros. Nos casos em que não se pode confiar nos companheiros, que representariam uma ameaça potencial permanente, o internado experimentaria anomia e solidão, apesar de conviver num grande grupo (Goffman, 1987).

 

Violência e subjetividade contemporânea:

observações psicanalíticas

A psicanálise vem discutindo de longa data a questão da agressividade. Podemos falar sobre algumas tendências que tentam explicar esse fenômeno. Uma delas tem sua origem em Freud (1930) e Melanie Klein (Petot, 1991), afirmando que existe uma agressividade inata no homem, semelhante em estatuto à sexualidade, e que busca se manifestar e se satisfazer na forma de destrutividade e autodestrutividade. Mediante uma série de processos psíquicos, essa violência é canalizada, controlada ou posta a serviço de alguma coisa útil. Outras duas tendências levam mais em conta o fator social. Psicanalistas ingleses como Winnicott e outros argumentam que a violência é uma reação à frustração. A violência é uma explosão diante da frustração, de querer algo que não é possível ou não pode ser alcançado. Além disso, de acordo com Lacan (1997), a agressividade e a violência estão relacionadas com a ruptura da imagem narcísica que o indivíduo tem de si mesmo. Quando acontece alguma coisa interna ou externa que ataca a imagem do sujeito, a agressividade surge como uma reação natural, numa tentativa de reconstruir esta autoimagem.

Podemos afirmar que a agressividade não canalizada para fins socialmente úteis, converte-se em violência. Do ponto de vista da agressividade inata, é impossível reduzir a agressividade a zero, seria contrário à natureza humana. A questão é a do manejo dessa violência. Unindo essa perspectiva com as outras, tudo depende fundamentalmente da sociedade por meio de todo seu sistema de ideais e possibilidades oferecidos aos seus membros. Cabe à organização social encontrar formas de canalizar essa violência inata de maneira que ela se torne relativamente inofensiva, sendo utilizada de modo sublimado na própria edificação dessa sociedade.

Existe um limiar de suportabilidade de frustração acima do qual qualquer avanço torna-se impossível. A organização psíquica do indivíduo começa a se esfacelar, ele já não vê perspectivas, a sociedade aponta caminhos que são inviáveis para ele, que recebe constantemente mensagens do meio social de que é um desqualificado. Necessidades básicas de segurança e bem-estar são negadas constantemente e isso, evidentemente, aumenta a capacidade e a disposição do indivíduo para atacar com violência o primeiro que passar. Por que respeitar as regras e leis de uma sociedade que não retribui ao indivíduo, que abriu mão da violência contra o semelhante, num pacto social? Ele abre mão da violência, sublima suas pulsões agressivas e destrutivas e não recebe em troca os benefícios prometidos, permanecendo numa posição de exclusão, sem aceder ao usufruto dos bens sociais (Pellegrino, 1987).

Do ponto de vista de Lacan, também podemos observar fenômenos de violência individual ou coletiva que visam manifestamente restaurar a imagem que cada membro de um grupo tem, com relação a outros indivíduos ou grupos. Quando determinado grupo acusa outro de inferior, o que ele pretende é garantir que ele mesmo não seja inferior. Essa dimensão psíquica da agressividade e da violência parece inevitável e compete à sociedade se organizar de maneira a diminuir os riscos que ela traz.

Mas essa tarefa de gerenciamento social ou coletivo da agressividade é um trabalho paradoxal, numa sociedade que está incorporada no Capitalismo Mundial Integrado. O próprio mercado parece funcionar vorazmente, com uma agressividade que se expressa num confronto sem mediação. Uma Formação Social não consegue canalizar a agressividade quando ela própria é promotora dessa situação e exacerba a frustração até um grau intolerável para seus membros. Ela própria pode inviabilizar ou frustrar o esforço que um indivíduo faz para pertencer civilizadamente ao seu conjunto. O ser humano é capaz de tolerar grandes doses de sofrimento, mas em nome de alguma coisa, com a esperança que sua dor não será em vão e que as coisas vão mudar para melhor, com uma promessa de que isso em algum momento vai cessar. Mas, não apenas a sociedade capitalista não respeita essa promessa, que é feita quando alguém nasce no seu seio, como ela está deixando de ser formulada.

Não é espantoso então que as pessoas comecem a fazer justiça com as próprias mãos. Isso pode ser realizado por meio do mecanismo de projeção, que consiste em encarnar num outro indivíduo ou grupo tudo aquilo que se considera ruim ou um mal, que não se pode tolerar nem suportar. O objeto torna-se insuportável e pode ser maltratado e até destruído porque ele está recoberto pela própria imagem do mal, que foi depositada nele pelo outro. O alvo da projeção do mal torna-se também odioso porque ele aparece como um transgressor, capaz de experimentar a realização dos desejos mais secretos e caros dos seus inimigos, mas que lhes são interditados. A destruição do inimigo intolerável assim produzido realiza-se em meio a uma fúria coletiva que tem fortes efeitos catárticos: “não sou como esse, sou melhor do que ele, sobre o qual tenho direito de vida e morte”. Ora, na base desses fenômenos estão presentes fatores psicossociais.

A partir das análises das formas do Sintoma Social Dominante, a violência pode ser considerada como variante de um tipo de relação com a lei, uma modalidade de subjetividade específica. Uma forma de ação, de reação, uma estratégia de sobrevivência em ambientes hostis. Provavelmente, ambientes de reclusão tendem a promover a emergência de possibilidades subjetivas que de outro modo raramente se manifestariam.

 

A carreira moral do jovem Törless no internato

escolar

Goffman (1987) utiliza o termo “carreira moral” em um sentido amplo, com a finalidade de indicar qualquer trajetória percorrida por uma pessoa ao longo de sua vida, permitindo ainda uma perspectiva tanto dos aspectos mais íntimos e pessoais, quanto da posição oficial, jurídica e pública do indivíduo, dentro de um complexo institucional. A “carreira moral” indica o processo da vida toda do indivíduo, em direção tanto ao sucesso quanto ao fracasso, dentro do estabelecimento. Esse processo tem momentos típicos, tais como início da vida institucional, crises, evoluções, desenvolvimentos de adaptação, de rebeldia, de submissão, de ruptura etc.

É no contexto institucional do internato escolar que Törless tem como amigos Reiting e Beineberg, dois rapazes bastante singulares.

Reiting guardava diários secretos, repletos de audaciosos

planos para o futuro, e anotações minuciosas sobre o motivo, a

origem, a encenação e o transcurso das incontáveis intrigas

que provocava entre os colegas. Pois nada divertia mais a

Reiting do que atiçar pessoas umas contra as outras,

alimentando-se dos agrados e das adulações forçados que

extraía delas, por trás dos quais sentia a resistência do ódio de

suas vítimas. – Isso me serve de exercício – dizia como única

desculpa, com um sorriso amável. Também, como exercício,

lutava boxe quase diariamente em algum lugar afastado, contra

uma parede, uma árvore ou uma mesa, para fortalecer os

braços e dar resistência às mãos, fazendo com que criassem

calos. (Musil, 1986, p.51-2)

Reiting sabia impor-se, era um tirano e mostrava-se impiedoso com quem lhe resistisse. Seus amigos variavam a cada dia, embora a maioria se achasse sempre do seu lado. Nisso era talentoso. Sua amizade com Beineberg era mais uma aliança oportuna:

Há um ou dois anos realizara uma grande campanha contra

Beineberg, concluindo com a derrota deste. Beineberg ficara

bastante isolado, ainda que não perdesse seu sangue frio,

espírito crítico e capacidade de instigar antipatias entre os

outros. Faltava-lhe contudo, a amabilidade e o talento

necessários à conquista das pessoas. Sua indiferença, suas

maneiras de filósofo cheio de unção provocavam desconfiança

na maioria das pessoas. Presumiam que no fundo de sua

personalidade havia algo exagerado e desagradável. Mesmo

assim, causara grandes problemas a Reiting e a vitória deste

fora quase casual. Desde então, mantinham-se unidos por

interesses comuns. (ibidem, p.53)

Törless estava inserido nesse universo de estudantes e constatava diariamente o que significava desempenhar o papel principal num Estado, pois, num estabelecimento assim, cada sala de aula pode perfeitamente ser considerada um pequeno Estado em si. Goffman (1987) afirma que estabelecimentos totais funcionam mais ou menos como um Estado e sua equipe dirigente tem que enfrentar problemas de um modo parecido aos que têm os governantes de Estados. Törless, sendo mais jovem que seus dois colegas ditadores, mantinha com eles uma relação de discípulo, ajudante e protegido, embora gostassem de ouvir sua opinião.

Törless era inteligente e ninguém era tão hábil quanto ele em

prever as diferentes possibilidades de comportamento de uma

pessoa em determinadas condições. Só quando se tratava de

tomar uma decisão, de assumir os riscos de uma escolha entre

várias opções psicológicas e agir, ele falhava, perdia o interesse

e a energia. Seu papel como uma espécie de chefe de estado-

maior secreto, porém, o divertia. Tanto mais por ser quase a

única coisa a trazer alguma vida ao seu profundo tédio. (Musil,

1986, p.53-4)

 

Violência e sexualidade no contexto institucional

Reiting descobriu que Basini, outro estudante, roubara dinheiro de Beineberg para saldar dívidas que contraíra com outros colegas. Basini vivia endividado, emprestando de uns para pagar a outros, sua mãe era viúva e não dispunha de muito dinheiro. Reiting havia emprestado a Basini e cobrou o que esse lhe devia. Como o outro lhe pediu um prazo, Reiting passou a investigar a vida de Basini e descobriu suas dívidas permanentes. Reiting exigiu então que Basini lhe trouxesse o dinheiro ou teria que obedecer cegamente ao seu credor. Basini ficou encabulado e prometeu trazer o dinheiro no dia seguinte. Mas conseguiu apenas uma parte do dinheiro. Reiting blefou com Basini, dizendo ter descoberto que ele havia roubado dinheiro dos colegas e ameaçou-o com uma denúncia que podia causar sua expulsão do colégio.

A situação era de guerra psicológica, pois Reiting não tem certeza de que Basini roubara mesmo Beineberg, mas o pressiona com sutileza, com um sorriso zombeteiro nos lábios, até conseguir arrancar uma confissão do colega. Basini disse que pegara o dinheiro apenas como empréstimo oculto e que pretendia devolvê-lo o quanto antes, pediu que Reiting não dissesse que ele roubara e que se apresentava formalmente como seu escravo.

Reiting se reuniu com Törless e Beineberg no seu refúgio secreto, no sótão do colégio (ajustamento secundário), para deliberar sobre o futuro de Basini. O trio não chegou a um acordo: Törless afirmava que Basini era um ladrão e que devia ser castigado, denunciado, afastado do internato; Reiting não concordava, dizendo que “Basini está em nossas mãos, podemos fazer com ele o que bem entendermos. E caso ele se rebele, podemos lhe mostrar quem é o senhor aqui. A baixeza dele nos diverte” (ibidem, p.63).

Continuar: parte 4 de 5