A lógica da internação

Silvio José Benelli · Capítulo 6 de 9 · parte 2/5

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A lógica da internação

5 - Estudos de casos singulares sobre estabelecimentos totais e disciplinares

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

homem. Não só as condecorações gritavam-lhe do peito como

uma couraça de grilos: Ateneu! Ateneu! Aristarco era todo um

anúncio. Os gestos, calmos, soberanos, eram de um rei – o

autocrata excelso dos silabários, a pausa hierática do andar

deixava sentir o esforço, a cada passo, que ele fazia para levar

adiante, de empurrão, o progresso do ensino público...

(Pompéia, 1997, p.33)

Nos eventos públicos, exibições institucionais (Goffman, 1987, p.90ss.) que funcionavam como publicidade do estabelecimento, “Aristarco arrebentava de júbilo... distribuía-se numa ubiquidade impossível de meio ambiente...” deslocando-se por toda parte e falando com todos (Pompéia, 1997, p.39-40). Ele interrompia sua atividade de contador para receber os alunos que chegavam, dissimulando o empresário por trás da máscara do educador.

O diretor, no escritório do estabelecimento, ocupava uma

cadeira rotativa junto à mesa de trabalho. Sobre a mesa, um

grande livro abria-se em colunas maciças de escrituração e

linhas encarnadas. Aristarco, que consagrava as manhãs ao

governo financeiro do colégio, conferia, analisava os

assentamentos do guarda-livros [...] (ibidem, p.45)

A substância do diretor se encontrava na ostentação de si mesmo e na sede de lucro, pois o dinheiro era o absoluto da vida burguesa. Aristarco graduava os olhares, os sorrisos, as predileções no sistema de chefia, e até mesmo a escolha do futuro genro, pelos critérios de guarda-livros, como pontualidade no pagamento das mensalidades: “[...] Às vezes, uma criança sentia uma alfinetada no jeito da mão a beijar. Saía indagando consigo o motivo daquilo, que não achava em suas contas escolares... O pai estava dois trimestres atrasado” (ibidem, p.46).

Aristarco não era apenas o supervisor do seu colégio, ele era de fato um símbolo da administração e de todo o estabelecimento (Goffman, 1987, p.96). Ele se apresenta como uma figura do patriarcalismo, ícone de um regime paternalista em que o senhor de engenho e o dono de estância são substituídos por um diretor de colégio: “Não admira que em dias de gala, íntima ou nacional, festas do colégio ou recepção da coroa, o largo peito do grande educador desaparecesse sob constelações de pedraria, opulentando a nobreza de todos os honoríficos berloques” (Pompéia, 1997, p.32).

Nas cerimônias institucionais (Goffman, 1987, p.84ss.), o diretor se vestia bem, ficava comovido com a cerimônia, sorria, fazia discursos, dava parabéns, julgava as disputas, distribuía prêmios. Nessa atuação, desempenhava uma interação benigna e demonstrava interesse paternal para com os alunos e estes mostravam acanhamento, deferência e respeito. Isso é muito parecido com a representação de um senhor feudal desempenhando seu papel na festa anual em seu feudo, em plena sociedade moderna. “Ator profundo, realizava ao pé da letra, a valer, o papel diáfano, sutil, metafísico, de alma da festa e alma do seu instituto” (Pompéia, 1997, p.40).

O diretor se arvora de guia e senhor. E recebe o

reconhecimento dos demais. Há no colégio um estranho

processo de entetisação. Todos parecem acatar não apenas

uma posição subalterna, mas sobretudo infamante. Portam-se

como coisas, como animais em relação àquele que os une, que

os mantém, que os maltrata. Não são apenas vítimas, logo

metamorfoseiam-se em cúmplices. [...] Aristarco é o Ateneu.

(Nunes, 1986, p.225)

Aristarco mantinha uma vigilância ostensiva sobre a vida dos internados, com traços maquiavélicos: dominava pelo terror de aparições súbitas e inadvertidas que fazia nos vários ambientes do colégio, salas de estudo, de aula, surpreendendo professores e alunos, procurando flagrantes.

[...] Por meio deste processo de vigilância de inopinados,

mantinha no estabelecimento por toda parte o risco perpétuo do

flagrante com uma atmosfera de susto. Fazia mais com isso

que a espionagem de todos os bedéis. Chegava o capricho a

ponto de deixar algumas janelas ou portas como votadas a

fechamento para sempre, com o fim único de um belo dia abri-

las bruscamente sobre qualquer maquinação clandestina da

vadiagem. Sorria então no íntimo, do efeito pavoroso das

armadilhas, e cofiava os majestosos bigodes brancos de

marechal, pausadamente, como lambe o jaguar ao focinho a

pregustação de um repasto de sangue. (Pompéia, 1997, p.83-4)

Auxiliando o diretor no cuidado da disciplina dos alunos no Ateneu, estavam os inspetores. João Numa, inspetor ou bedel, tratou Sérgio com delicadeza, quando ele era um novato no colégio (ibidem, p.49). O inspetor Silvino “fiscalizava o recreio, graduando a folgança, à mercê de um terrível canhenho. Sentava-se à entrada do portão do lavatório” (ibidem, p.55). Um inspetor vigiava o banho, “com a varinha destinada aos retardatários”, mas ficava afastado e não via os abusos dos marmanjos com relação aos menores (ibidem, p.60). Inspetores vigiavam também as salas de aula (ibidem, p.68). Os inspetores vigiavam a distribuição da merenda, “prevenindo as espertezas inconvenientes” (ibidem, p.85), mas não observavam os maus-tratos dos colegas com relação a Franco, o bode expiatório do estabelecimento. Mais tarde, os inspetores comentariam com o diretor sobre a decadência de Sérgio e de sua proximidade com Franco (ibidem, p.86). “O policiamento dos dormitórios competia aos diversos inspetores, convenientemente distribuídos” (ibidem, p.139) Geralmente, os inspetores temiam os maiores e os deixavam em paz (ibidem, p.182).

Quanto aos horários e rotinas diárias, no Ateneu se despertava às cinco horas da manhã (ibidem, p.58). Nas épocas de maior calor, havia dois banhos por dia, na piscina da “natação” (ibidem, p.59). A disciplina determinava a divisão dos banhistas em três turmas, conforme as idades. Mas as turmas se misturavam, devido à falha na vigilância do inspetor de plantão, “[...] de sorte que ficavam expostos os mais fracos aos abusos dos marmanjos...” (ibidem, p.60).

Verificamos na descrição do banho comum que era oferecido aos internados um exemplo de exposição contaminadora. De acordo com Goffman (1987, p.31), elas podem ser físicas, sociais e psicológicas (apelidos, gozações), onde as fronteiras que o indivíduo estabelece entre seu ser e o ambiente são invadidas e sua pessoa pode ser sistematicamente profanada. Já não pode mais, como no mundo externo, manter objetos investidos por seu eu (seu corpo, suas ações imediatas, seus pensamentos e alguns de seus bens) fora de contato com coisas estranhas e contaminadoras. A vida em grupo exige contato mútuo e permanente exposição entre os internados.

[...] e cada banho era uma festa, naquela água gorda, salobra

da transpiração das turmas precedentes, que as dimensões do

tanque impediam a devida renovação; turbulento debate de

corpos nus, estreitamente cingidos no calção de malha rajado a

cores, enleando-se os rapazes como lampreias [...] os menores

agrupados no raso, dando-se as mãos em cacho, espavoridos,

se algum mais forte chegava. (Pompéia, 1997, p.59)

Ao meio-dia, Aristarco aproveitava a reunião de todos para a refeição e distribuía conselhos, advertências e reprimendas em massa por culpas coletivas. Realizava arrecadações de cigarros e também pequenos processos sumários, nos quais averiguava a autoria de delitos importantes, tais como: encher de papel picado uma sala, cuspir nas paredes, molhar a privada e outros mais graves (ibidem, p.83). Havia orações especiais em devoção à Virgem Maria no mês de maio (ibidem, p.80). Rezava-se o “hino do anjo da guarda” ao meio-dia (ibidem, p.81) e havia a oração da noite, aborrecida pelos meninos, exaustos do desgaste do dia (ibidem, p.82).

Os exercícios corporais efetuavam-se à tarde, uma hora depois

do jantar, hora excelente, que habituava a digestão a segurar-

se no estômago e não escorrer pela goela quando os

estudantes se balançavam à barra-fixa, pelas curvas... Findos

os exercícios, partia o professor Bataillard, e, guardados por

dois inspetores, o Silvino e o João Numa, ou João Numa e o

velho Margal, venerando inválido espanhol, querido de todos,

ou o Margal e o Conselheiro, tínhamos os alunos, um prazo de

recreio até o cair da noite. (ibidem, p.69)

Todas as atividades cotidianas eram prescritas pelo regulamento da casa. A vida dos alunos internados no Ateneu era governada por normas e regulamentos que previam prêmios e castigos, escritos em grandes quadros, espalhados pelas paredes do colégio (ibidem, p.48). Segundo Foucault (1999b, p.151ss.) e Goffman (1987, p.4958), existe um sistema de gratificação-sanção nas instituições totais, que realiza uma contabilidade penal, qualificando comportamentos e desempenhos a partir de dois valores opostos do bem e do mal, produzindo uma microeconomia dos privilégios e castigos. “[...] Todas as culpas são prevenidas, uma pena para cada hipótese...”, diz Aristarco para Sérgio e seu pai, no dia do ingresso no Ateneu (Pompéia, 1997, p.48). Mas ali “[...] não havia expressamente punições corporais” (ibidem, p.76). Visibilidade total e irrestrita é a nova estratégia utilizada pelo poder disciplinar para realizar o controle – sem uso da violência ostensiva – para o exercício de uma vigilância produtiva. Cria-se um operador, “observatório” que obriga pelo jogo do olhar, um aparelho no qual técnicas óticas efetuam manobras de poder: olho do poder que vigia, produz, torna inteiramente visíveis os indivíduos sobre os quais incide (Foucault, 1999b).

O colégio funcionava dentro de uma verdadeira organização militar, na qual trezentos alunos internos eram repartidos em grupos de trinta, sob o comando direto de um vigilante, aluno do colégio. Os vigilantes eram escolhidos pelo diretor entre os alunos internos por seleção de aristocracia.

Esses inferiores da milícia da casa faziam-se tiranetes por

delegação da suprema ditadura. Armados de sabres de pau

com guardas de couro, tomavam a sério a investidura do

mando e eram em geral de uma ferocidade adorável. Os sabres

puniam sumariamente as infrações da disciplina na forma: duas

palavras ao cerra-fila, perna frouxa, desvio notável do

alinhamento. Regime siberiano, como se vê, do que resultava

que os vigilantes eram altamente conceituados. (Pompéia,

1997, p.61-2)

Podemos ver no comportamento tirânico dos alunos vigilantes um claro exemplo do mecanismo da tiranização, incluindo a autoridade escalonada: qualquer pessoa da equipe dirigente tem o direito de impor disciplina a qualquer dos internados, o que aumenta claramente a possibilidade de sanção (Goffman, 1987, p.45), produzindo um clima decididamente aterrorizante e persecutório para os alunos.

 

O microtribunal pedagógico

Consideramos que um importante operador microfísico do Ateneu, instrumento de poder altamente mortificador, era o “livro de notas”. Toda manhã, Aristarco abria um livro no qual os professores haviam feito anotações relativas ao aproveitamento dos alunos. Ele lia as notas e praticava assim uma clara violação de reserva de informações da vida escolar de cada aluno diante de toda a comunidade. Do livro aberto, se construía e se destruía, sem pruridos, a reputação dos alunos.

[...] Os vitimados fugiam, acabrunhados de vergonha, oprimidos

sob o castigo incalculável de trezentas carinhas de ironia

superior ou compaixão de ultraje. Passavam junto de Aristarco

ao sair para a tarefa penal de escrita. O diretor, arrepiando uma

das cóleras olímpicas que de um momento para outro sabia

fabricar, descarregava com o livro às costas do condenado,

agravante de injúria e escárnio à pena de difamação. O

desgraçado sumia-se no corredor, cambaleando. (Pompéia,

1997, p.75)

Essa prática marcava de tal modo o indivíduo com um estigma de incapacidade, que acabava, por contágio de convicção, reforçando a imagem negativa do internado na opinião dos companheiros. O resultado era o da profecia autorrealizada, que se consumava quando o próprio indivíduo se convencia de sua inépcia e achava justa a condenação. Evidentemente, a leitura cotidiana do livro de notas funciona como o “circuito” (Goffman 1987, p.40) e como vigilância, exame e sanção normalizadora (Foucault, 1999b). Podemos falar de uma “terapeutização da pedagogia” com finalidade normatizante e normalizadora.

Goffman (1987, p.40) descreve o “circuito” como uma perturbação na relação usual entre o ator individual e seus atos. Uma agência cria uma resposta defensiva no internado e depois utiliza essa resposta para seu ataque seguinte. O indivíduo descobre que sua resposta protetora diante de um ataque à sua pessoa falha na situação, pois não pode defender-se da forma usual ao tentar estabelecer uma distância entre a situação mortificante e seu ego. Como as esferas da vida estão interligadas no contexto institucional, a conduta do internado numa área de atividade é lançada contra ele pelos dirigentes, como comentário e verificação de sua conduta em outro contexto.

O “circuito” inclui a “tiranização” (Goffman, 1987, p.41) do indivíduo mediante um processo de infantilização social que retira da pessoa sua autonomia, liberdade de ação e capacidade de decisão, perturbando decididamente sua autonomia civil; a obrigação de pedir permissão ou instrumentos para realizar atividades secundárias que o indivíduo pode executar sozinho no mundo externo, produz submissão e infantilização; o “processo de arregimentação” (ibidem, p.44), que indica a obrigação de executar a atividade regulada em uníssono com grupos de outros internados e, ainda, um “sistema de autoridade escalonada”, no qual qualquer pessoa da equipe dirigente tem o direito de impor disciplina a qualquer dos internados, o que aumenta claramente a possibilidade de sanção.

Com exceção dos privilegiados, os vigilantes, os amigos do

peito, os que dormiam à sombra de uma reputação habilmente

arranjada por um justo conchavo de trabalho e cativante

doçura, havia para todos uma expectativa de terror antes da

leitura das notas. O livro era um mistério. (Pompéia, 1997, p.75)

A leitura matinal do livro de notas se assemelhava a um processo judicial que apresentava e denunciava culpados, fustigando-os com o vexame da humilhação pública e o juiz implacável, encarnado pelo diretor, sentenciava o faltoso imediatamente. A tecnologia disciplinar do livro de notas ensinava os internados a viverem sob condições de exposição iminente, sujeitos a grandes flutuações de consideração, com pouco controle da obtenção ou perda de tal consideração, sendo essa uma etapa importante na carreira moral e na socialização dos internados. O fato de ter seu desempenho acadêmico elevado à categoria máxima e definidora de sua pessoa, seu fracasso ou sucesso escolar submetido à constante monitoração e avaliação moral, impede que o indivíduo conserve opiniões firmes a respeito de seu autoconceito.

O internado aprende que as degradações e reconstruções do

“eu” não devem ser muito consideradas, e ao mesmo tempo

aprende que a equipe dirigente e os outros internados estão

preparados para interpretar, com certa indiferença, as

destruições e reconstruções do “eu”. Aprende que uma imagem

defensável do “eu” pode ser vista como algo fora de si mesmo e

que pode ser construída, perdida e reconstruída – tudo isso

com certa rapidez e justiça. (Goffman, 1987, p.139-40)

Esse contexto moral, pouco sério e exagerado, no qual a construção do autoconceito e sua destruição eram transformadas num jogo indiscreto e impudico, produzia no internado uma desmoralização, ao ensinar-lhe a viver esse processo de forma incessante. O fato de que o “eu” do indivíduo fosse tratado como uma cidade aberta e não como uma fortaleza particular e inviolável, produzia uma fadiga e um relaxamento moral. O internado aprendia que podia sobreviver e agir de uma forma que o estabelecimento considera negativo. Sérgio nos oferece um exemplo disso com sua prostração e impotência nas quais se abandonou (Pompéia, 1997, p.77ss.). Não importava quão baixo ele estivesse na escala das considerações institucionais, como era o caso de Franco, de um modo mais radical, isso não era capaz de excluí-lo da comunidade dos internados. Ao aceitar a interpretação institucional a seu respeito, o indivíduo podia adquirir a intenção de emendar-se, corrigir-se e solicitar da equipe dirigente auxílio, compreensão, privilégios e perdão, com o objetivo de perseverar nessa nova atitude. Mas não foi isso o que aconteceu com Sérgio. Nesse momento, ele vivia uma temporada de intenso fervor religioso (ibidem, p.93) e, depois de rebelar-se contra a tirania dos vigilantes, passou a utilizar a estratégia da “viração”: trata-se de uma combinação oportunista de ajustamentos secundários, conversão, colonização e lealdade aos colegas, de modo a obter, dentro da situação específica, uma possibilidade máxima de evitar sofrimentos físicos ou psicológicos (ibidem, p.98).

Cada carreira moral, e, atrás desta, cada “eu”, se desenvolve

dentro dos limites de um sistema institucional, seja um

estabelecimento social, seja um complexo de relações pessoais

e profissionais. Portanto, o “eu” pode ser visto como algo que

se insere nas disposições que um sistema social estabelece

para seus participantes. Nesse sentido, o “eu” não é uma

propriedade da pessoa a que é atribuído, mas reside no padrão

de controle social que é exercido pela pessoa e por aqueles

que a cercam. Pode-se dizer que esse tipo de disposição social

não apenas apoia, mas constitui o “eu”. (Goffman, 1987, p.142) Geralmente as pessoas exigem proteção e aceitação tácita para a versão de si mesmas que apresentam aos demais. O afastamento dessa proteção do autoconceito forma um aspecto sistemático e intencional no funcionamento do Ateneu, cristalizado no livro de notas que o diretor lia a cada manhã perante a comunidade escolar.

 

O microtribunal inquisitorial

No Ateneu realizou-se um processo inquisitorial, que denominamos “caso Cândida”. Toda a comunidade escolar ficou em polvorosa diante da ameaça que pairava sobre todos, gerando um clima altamente persecutório. Um dos alunos, Cândido, havia enviado uma carta de amor para outro colega e assinado “Cândida”.

Aristarco discursou e trovejou sobre a comunidade escolar na

hora do jantar: “Tenho a alma triste, Senhores! A imoralidade

entrou nesta casa! Recusei-me a dar crédito, rendi-me à

evidência...” Com todo o vigor tenebroso dos quadros trágicos,

historiou-nos uma aventura brejeira. Uma carta cômica e um

encontro marcado no jardim. “Ah! Mas nada me escapa... tenho

cem olhos. Se são capazes, iludam-me! Está em meu poder um

papel, monstruoso corpo de delito! Assinado por um nome de

mulher! Há mulheres no Ateneu, meus senhores! Esta mulher,

esta cortesã fala-nos da segurança do lugar, do sossego do

bosque, da solidão a dois... um poema de pouca vergonha! É

muito grave o que tenho a fazer. Amanhã é o dia da justiça!

Apresento-me agora para dizer somente: serei inexorável,

formidando! E para prevenir: todo aquele que direta ou

indiretamente se acha envolvido nessa miséria... tenho a lista

dos comprometidos... e que negar espontâneo auxílio ao

procedimento da justiça, será reputado cúmplice e como tal:

punido!” Este convite era um verdadeiro arrastão. Remexendo a

gaveta da consciência e da memória, ninguém havia, pode-se

afirmar, que não estivesse implicado na comédia colegial dos

sexos, ao menos pelo enredo remoto do ouvi dizer. Ouvir dizer

e não denunciar logo era um crime dos grandes na

jurisprudência costumeira. A devassa prometida fazia alarma

geral. Como prever as complicações do processo? Como

adivinhar o segredo tremendo da lista? Aristarco ufanava-se de

perspicácia de inquisidor. Sob a saraivada das perguntas,

ameaças, promessas, o interrogado perturbava-se,

comprometia-se, entregava-se e traía os outros; nos processos

de gabinete, os fatos floresciam em corimbo, frutificavam em

cacho; a pesquisa de uma culpa descobria três, sem contar as

ramificações da cumplicidade de outiva. Ao retirar-se, o diretor

deixou na sala uma estupefação de pavor. (Pompéia, 1997,

p.161)

Sérgio também temeu e se sobressaltou, pois suas relações pessoais com o diretor já eram complicadas e se agravaram ainda mais a partir de um incidente que ocorreu entre ambos, logo depois de uma luta do menino com seu protetor, e quase namorado, Bento Alves (ibidem, p.162-3). Sua persecutoriedade não era infundada. Sérgio relatou com detalhes a sessão solene do processo.

Não foi possível dormir tranquilo. À hora do primeiro almoço,

como prometera, Aristarco mostrou-se em toda sua grandeza

fúnebre dos justiçadores. De preto. Calculando magnificamente

os passos pelos do diretor, seguiam-no em guarda de honra

muitos professores. À porta fronteira, mais professores de pé e

os bedéis ainda, e a multidão bisbilhoteira dos criados. Tão

grande a calada, que se distinguia nítido o tique-taque do

relógio, na sala de espera, palpitando os ansiados segundos.

Aristarco soprou duas vezes através do bigode, inundando o

espaço com um bafejo todo-poderoso. E sem exórdio: “Levante-

se, Sr. Cândido Lima! Apresento-lhe, meus senhores, a Srª. D.

Cândida”, acrescentou com uma ironia desanimada. “Para o

meio da casa! E curve-se diante dos seus colegas!” Cândido

era um grande menino, beiçudo, louro, de olhos verdes e

maneiras difíceis de indolência e enfado. Atravessou devagar a

sala, dobrando a cabeça, cobrindo o rosto com a manga,

castigado pela curiosidade pública. “Levante-se, Sr. Emílio

Tourinho...” Tourinho era um pouco mais velho do que o outro,

porém mais baixo; atarracado, moreno, ventas arregaladas,

sobrancelhas crespas, fazendo um só arco pela testa. Nada

absolutamente conformado para um galã; mas era com efeito o

amante. “Venha ajoelhar-se com o companheiro. Agora, os

auxiliares...” Desde às cinco horas da manhã trabalhava

Aristarco no processo. O interrogatório, com o apêndice das

delações da polícia secreta e dos tímidos, comprometera

apenas dez alunos. À chamada do diretor, foram deixando os

lugares e postando-se de joelhos em seguimento dos principais

culpados. “Estes são os acólitos da vergonha, os co-réus do

silêncio!” Cândido e Tourinho, braço dobrado contra os olhos,

espreitavam-se a furto, confortando-se na identidade da

desgraça, como Francesca e Paolo no inferno. Prostrados os

doze rapazes perante Aristarco, na passagem alongada entre

as cabeceiras das mesas, parecia aquilo um ritual

desconhecido de noivado: à espera de benção para o casal à

frente. Em vez de benção chovia a cólera. “Esquecem pais e

irmãos, o futuro que os espera, e a vigilância inelutável de

Deus!... Na face estranhada não lhes pegou o beijo das mães...

caiu-lhes a vergonha como um esmalte postiço... Deformada a

fisionomia, abatida a dignidade, agravam ainda a natureza;

esquecem as leis sagradas do respeito à individualidade

humana... E encontram colegas assaz perversos, que os

favorecem, calando a reprovação, furtando-se a encaminhar a

vingança da moralidade e a obra restauradora de justiça!...” O

diretor derramou toda sua fúria sobre os pobres condenados.

Depois, conduzidos pelos inspetores, saíram os doze como

uma leva de convictos para o gabinete do diretor, onde deviam

ser literalmente seviciados, segundo a praxe da justiça do

arbítrio. Consta que houve mesmo pancada de rijo. Os

condenados negaram, depois. Em todo caso, era de efeito o

simples consta, engrandecido pela refração nebulosa do boato.

Concluída a chamada dos indiciados, a sala inteira respirou

desafogo. No recreio, a rapaziada dispersou-se com gritos

festivos. (ibidem, p.164-6)

Vemos assim como funciona no Ateneu um “mecanismo penal” de efeitos microfísicos: uma máquina kafkiana de punir que “é beneficiada por uma espécie de privilégio de justiça, com suas leis próprias, suas instâncias de julgamento, estabelecendo infrapenalidades” (Foucault, 1999b, p.149).

 

A carreira moral de Sérgio no internato escolar

Ateneu 4

Depois de estudar o colégio Ateneu como dispositivo pedagógico, vamos tomar o romance de Raul Pompéia como campo de análise para acompanharmos o menino Sérgio e seu mergulho no mundo institucional do internato escolar e verificar a presença e ação dos vários mecanismos que as instituições totais fazem funcionar com a finalidade de controlar e modelar e produzir o indivíduo. Pompéia descreve à saciedade a “carreira moral” de Sérgio, ao longo de páginas densas de introspecção psicológica.

O ingresso numa instituição total implica mudanças significativas na existência do indivíduo, tendo início sua “carreira moral” (Goffman, 1987, p.111) como internado. “O novato chega ao estabelecimento com uma concepção de si mesmo que se tornou possível por algumas disposições sociais estáveis no seu mundo doméstico”, afirma Goffman (1987, p.24). Já no seu ingresso começa a ser despido desses referenciais identificatórios, começa a passar por uma série de rebaixamentos, degradações, humilhações e profanações do conceito que tinha de si mesmo. Sua “carreira moral” vai passar por mudanças radicais e progressivas, suas crenças a respeito de si mesmo e sobre as pessoas significativas para ele são questionadas, entram em crise e começam a desmoronar. Trata-se de um processo de institucionalização do indivíduo. Neste estudo, vamos utilizar a ideia de “carreira moral” para mapear a experiência de internação que Sérgio vivencia no Ateneu.

A vida de Sérgio antes do ingresso no Ateneu O romance se abre com as palavras do pai de Sérgio: “Vais encontrar o mundo”, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. “Coragem para a luta”. E tudo o que se segue sublinha a ruptura com a vida e o ambiente social representado pela vida familiar, única referência de Sérgio, até aquele momento. A vida no seio da família é definida como “estufa de carinho” (Pompéia, 1997, p.30) e “conchego placentário” (ibidem, p.31). O dado original da ruptura com sua vida cotidiana e “normal” foi matriz de infelicidade para o adulto Pompéia-Sérgio, que não perdoou à vida o ser lançado à indiferença cruel da escola e à convivência com os mais fortes.

Em sua fase de pré-internado, Sérgio vivia com a família e gozava de um status civil correspondente à sua idade, nível socioeconômico e posição na constelação familiar. Antes de ingressar no Ateneu, ele já havia recebido alguma educação escolar em regime de externato, iniciando sua alfabetização (ibidem, p.30), depois teve um professor particular (ibidem, p.31).

Inicialmente, Sérgio, deslumbrado pelas festividades que presenciou em duas visitas que fez ao Ateneu (ibidem, p.33-9), sonha ingressar na escola e triunfar como um bravo, movido por ideais de vitória:

Mas um movimento animou-me, primeiro estímulo sério da

vaidade: distanciava-me da comunhão da família, como um

homem! Ia por minha conta empenhar a luta dos merecimentos;

e a confiança nas próprias forças sobrava. Quando me

disseram que estava a escolha feita da casa de educação que

me devia receber, a notícia veio achar-me em armas para a

conquista audaciosa do desconhecido. (ibidem, p.31-2)

Sérgio e seu pai foram recebidos para um jantar na casa do diretor, antes do ingresso do menino no Ateneu. O garoto estremeceu, quando o diretor lhe afagou a cabeça e falou com ele.

“Como se chama o amiguinho?” – perguntou-me o diretor.

“Sérgio...” – dei o nome todo, baixando os olhos e sem

esquecer o “seu criado” da estrita cortesia. “Pois meu caro sr.

Sérgio, o amigo há de ter a bondade de ir ao cabeleireiro deitar

fora esses cachinhos...” Eu tinha os cabelos compridos, por um

capricho amoroso de minha mãe. O conselho era visivelmente

salgado de censura... (ibidem, p.43)

Podemos observar aqui a primeira indicação de uma mudança na aparência pessoal daquele que vai ser internado no estabelecimento escolar. O corte de cabelos de Sérgio é o símbolo das transformações pelas quais vai passar, ao deixar o ambiente doméstico. “É a infância que ali fica, nos cabelos louros...”, comenta Ema, esposa de Aristarco, colhendo os cabelos do menino entre os dedos e sugerindo que ele os oferecesse à sua mãe como recordação (ibidem, p.44).

 

O primeiro dia no internato

Sérgio ingressou no colégio interno voluntariamente e pleno de expectativas otimistas. Depois dos acertos na secretaria, ao menino foi designado um lugar no dormitório dos médios; havia também dormitórios para os menores e para os grandes, todos coletivos. As roupas de Sérgio foram guardadas na “rouparia”, na gaveta que lhe foi indicada, de número 54.

Quando meu pai saiu, vieram-me lágrimas, que eu tolhi a tempo

de ser forte. Subi ao salão azul, dormitório dos médios onde

estava minha cama; mudei de roupa, levei a farda ao número

54 do depósito geral, meu número. Não tive coragem de

afrontar o recreio. Via de longe os colegas, poucos àquela hora,

passeando em grupos, conversando amigavelmente, sem

animação, impressionados ainda com as recordações de casa;

hesitava em ir ter com eles, embaraçado da estreia das calças

longas, como um exagero cômico, e da sensação de nudez à

nuca, que o corte recente dos cabelos desabrigara em

escândalo. (ibidem, p.49)

Um dos inspetores o animou a entrar em contato com os outros meninos. Observamos que, uma vez no internato, o menino se distanciou e procurou permanecer fora de contato com os demais, numa estratégia exploratória de conhecimento da nova realidade. Podemos especular que se tratava de uma criança tímida, pouco desenvolvida para seus onze anos (ibidem, p.43), bonita e evasiva, mais propensa para o medo do que para a assertividade. Sérgio foi solicitado pelos colegas internados a sair desse anonimato e ausência, implicando-se na interação social convencional na comunidade escolar. Quando Sérgio aceitou sua nova posição de internado, começou a passar por um processo que é comum a toda uma classe de estabelecimentos segregadores – cadeias, conventos, mosteiros, campos de concentração ou de trabalho forçado etc. – nos quais o indivíduo passa um longo período de sua vida confinado no estabelecimento e vive rotineiramente sob a disciplina e vigilância de uma equipe dirigente, na companhia de um grupo de companheiros que possuem igual status institucional (Goffman, 1987).

O novato no estabelecimento começa a perceber que está despojado de muitas de suas defesas, satisfações, afirmações e apoios costumeiros. Agora, ele está sujeito a um conjunto relativamente completo de experiências de mortificações (Goffman, 1987, p.24): restrição do movimento livre para ir e vir, vida comunitária compulsória, autoridade difusa de toda uma escala de pessoas etc.

Na sua primeira aula no internato (Pompéia, 1997, p.49), Sérgio foi apresentado pelo professor Mânlio aos seus colegas, sendo recomendado a um aluno mais velho e sério da turma, o Rebelo, aluno estudioso, atento e que usava óculos por causa de dificuldades visuais. O autor descreveu seus companheiros de classe (ibidem, p.49-51) de modo irônico e sarcástico, ressaltando os defeitos dos colegas, de uma perspectiva pessoal, nitidamente elitista.

Entretinha-me a espiar os companheiros, quando o professor

pronunciou o meu nome. Fiquei tão pálido que Mânlio

perguntou-me, brando, se queria ir à pedra. Precisava

examinar-me. De pé, vexadíssimo, senti abrumar-me a vista,

numa fumaça de vertigem... (ibidem, p.51)

Sérgio desmaiou, sentindo-se sob o olhar dos colegas. O menino despertou na rouparia, sob os cuidados de Rebelo: “Rebelo retirou-se e eu, em camisa, acabrunhado, amargando o meu desastre, enquanto o roupeiro procurava o gavetão 54, fiquei a considerar a diferença daquela situação para o ideal de cavalaria com que sonhara assombrar o Ateneu” (ibidem, p.51).

Ainda na rouparia, Sérgio se entreteve com um folheto pornográfico, que devia pertencer ao roupeiro. Mais uma decepção e ao mesmo tempo um símbolo dos aspectos eróticos da vida íntima do internado, com os quais logo Sérgio iria se enfrentar (ibidem, p.52).

Ao sair para o pátio, Sérgio conversou com Rebelo que lhe descreveu os colegas do internato, carregando nas tintas e apresentando-os negativamente. Sérgio foi perseguido por alguns de seus colegas de internato (ibidem, p.54), que o provocaram ostensivamente e o obrigaram a reagir e revidar com violência. Isso pode ser entendido como uma tentativa, por parte dos veteranos, de obter a cooperação inicial do novato, de tentar submetê-lo com o objetivo de se aproveitarem dele posteriormente. “Faça-se forte aqui, faça-se homem. Os fracos perdem-se” – havia lhe recomendado outro colega, o Rebelo (um autêntico convertido, que assume em sua fala, o discurso oficial da escola) – “Faça-se homem, meu amigo! Comece por não admitir protetores” (ibidem, p.54).

Quando Rebelo foi para a aula, Sérgio viu-se sozinho. Ele permaneceu na órbita de um dos inspetores que “fiscalizava o recreio, graduando a folgança...um pouco além da cadeira do Silvino, fiquei a salvo” (ibidem, p.55). Os recém-chegados eram chamados de calouros ou novatos, e segundo Sérgio, “eram os pobres novatos que os veteranos sovavam à cacholeta, fraternalmente” (ibidem, p.56) durante os recreios coletivos onde todos se misturavam. Vemos que depois da admissão oficial, Sérgio passou a ficar exposto aos usuais processos de mortificação do “eu” que Goffman (1987, p.24ss.) descreve com clareza. Sérgio procurou se aproximar de Franco, bode expiatório do colégio, que estava de castigo novamente, mas este não lhe deu atenção.

Provocado por Barbalho, um colega de internato que o perseguiu durante este dia, Sérgio acabou tendo uma briga com ele.

Foi à noite, pouco antes da ceia. Estávamos a um canto mal

iluminado do pátio, quase a sós. O biltre reconheceu-me e

arreganhou uma inexprimível interjeição de mofa. Não esperei

por mais. Estampei-lhe uma bofetada. Meio segundo depois,

rolávamos na poeira, engalfinhados como feras. Uma luta

rápida. Avisaram-nos que vinha o Silvino. Barbalho evadiu-se.

Eu verifiquei que tinha o peito da blusa coberto de sangue que

me corria do nariz. Uma hora mais tarde, na cama de ferro do

salão azul, compenetrado da tristeza de hospital dos

dormitórios, fundos na sombra do gás mortiço, trincando a

colcha branca, eu meditava o retrospecto do meu dia.

(Pompéia, 1997, p.57)

Sérgio, decepcionado, meditou sobre o contraste entre suas aspirações ideais iniciais e a realidade do internato de que tivera uma amostra em seu primeiro dia. Era assim selvagem e cruel o colégio. Sérgio ficou sozinho e se sentiu abandonado, uma vez perdidas as ilusões idealizadas da vida nova no internato.

[...] Era o ermo. E, na solidão, conspiradas as adversidades de

toda a espécie, falsidade traiçoeira dos afetos, perseguição da

malevolência, espionagem da vigilância; por cima de tudo, céu

de trovão sobre os desalentos, a fúria tonante de Júpiter-diretor,

o tremendo Aristarco dos momentos graves. (ibidem, p.58)

Sérgio chorou sua solidão, abandono e tristeza, mergulhando na mais completa anomia.

 

Estratégias adaptativas O internado precisa se adaptar aos processos de admissão, mortificação e ao sistema de privilégios da vida institucional (Goffman, 1987). Tal adaptação pode produzir-se de diferentes modos e o internado empregará diversas táticas adaptativas em distintos momentos de sua “carreira moral”, podendo também alternar entre várias estratégias ao mesmo tempo.

Goffman (1987, p.59ss.) descreve diversas estratégias de adaptação do indivíduo às condições ambientais da instituição total: afastamento da realidade, no qual o internado se abstém mediante graus variados de não participação em acontecimentos e interações; intransigência, em que o internado desafia intencionalmente o estabelecimento, ao negar-se de modo visível a cooperar com a equipe dirigente (a rebeldia costuma ser uma forma de reação inicial e temporária, depois o internado se utiliza de outras táticas adaptativas); colonização, onde o indivíduo se adapta de tal modo ao estabelecimento, que nele acaba por encontrar um lar, acreditando e sentindo que vive no melhor dos mundos e nunca teve nada melhor antes, usufruindo o máximo possível do que lhe propicia a vida institucional; conversão, na qual o internado parece aceitar a interpretação oficial da equipe dirigente e procura representar o papel do internado perfeito (o convertido aceita uma tática disciplinada, moralista e monocromática, apresentando-se como alguém cujo entusiasmo pelo estabelecimento está sempre à disposição da equipe dirigente); “se virar”: quando as táticas anteriores representam comportamentos coerentes que podem ser seguidos, mas os internados não perseveram nelas por muito tempo. Eles acabam “se virando” e utilizam um “jogo de cintura”, ou seja, uma combinação oportunista de ajustamentos secundários, conversão, colonização e lealdade aos colegas, de modo a obter, dentro da situação específica, uma possibilidade máxima de evitar sofrimentos físicos ou psicológicos.

Um incidente na piscina onde os alunos internados tomavam banho (Pompéia, 1997, p.59) conduziu Sérgio a uma de suas estratégias adaptativas. Um internado maior que Sérgio arrasta-o para a parte funda da piscina, sem ser visto, criando um pretexto para salvar o garoto e se aproximar dele, numa estratégia nitidamente perversa, com a qual infunde medo e pavor e depois se oferece como salvador. O estratagema funcionou e Sérgio ficou amigo íntimo de Sanches, que o salvara.

A partir dessa fase introdutória de “aclimatação”, como diz o próprio autor, podemos observar o desenrolar da “carreira moral” do menino Sérgio: depois de um esforço inicial para ser bom estudante, ele passa por uma experiência de sedução, cai na vadiagem e, por fim, é publicamente humilhado pelo diretor por suas más notas. “Já me era lícito julgar iniciado na convivência íntima da escola... estava aclimado, mas eu me aclimara pelo desalento, como um encarcerado no seu cárcere” (ibidem, p.62). Sérgio se sentiu desanimado, privado dos seus ideais ingênuos e acovardado. Esquece-se do alerta de Rebelo e desejou um protetor que o ajudasse naquele meio hostil. Sérgio se deixou namorar pelo vigilante, buscando proteção e um auxílio nos estudos.

[...] Pouco a pouco me ia invadindo a efeminação mórbida das

escolas... sentia-me possuído de uma certa necessidade

preguiçosa de amparo, volúpia de fraqueza em rigor impróprio

do caráter masculino. Convencido de que a campanha do

estudo e da energia moral não era precisamente uma

cavalgada cotidiana, animada pelo clarim da retórica, como nas

festas, e pelo verso enfático dos hinos, entristeceu-me a

realidade crua. Desiludi-me dos bastidores da gloriosa parada,

vendo-a pelo avesso. Nem todos os dias do militarismo

enfeitam-se com a animação dos assaltos e das voltas triunfais;

desmoralizava-me o ranram estagnado da paz das casernas, o

prosaísmo elementar da faxina. (ibidem, p.63)

A situação psicológica de Sérgio era de desamparo, medo e receio, diante da agressiva realidade do Ateneu. “O braço de Sanches vinha assim salvar-me, segunda vez, de submersão, acudindo na vertigem do momento” (ibidem, p.63). “Descrente da fraternidade do colégio, cuja personificação representava-me o Barbalho, eu temia o alvoroço do recreio. Conservar-me na sala das lições era uma medida de prudência” (ibidem, p.67).

Sanches se tornou o protetor de Sérgio e o ajudou com os estudos, mas suas intenções sexuais a respeito do menino foram num crescendo dos gestos e proximidade física (ibidem, p.68). Sérgio “deixava tudo, fingindo-me insensível” (ibidem, p.68). Queria romper com o outro, mas não tinha coragem. Sérgio não via mal no comportamento do outro e, embora não gostasse daquela proximidade viscosa, não se manifestava com clareza. O outro, diante desse silêncio tácito, deveria se sentir mais estimulado.

Às vezes a minha resistência passiva desapontava o preceptor.

Ele encarava-me terrível, e como quem diz: “perde a proteção

de um vigilante!”, ou disfarçava a impertinência em riso

amarelo, numa abstrata expressão de fisionomia, que era aliás

o facies de uma ideia fixa. (ibidem, p.69)

Até que Sanches lhe fez uma proposta aberta, balbuciando-lhe uma pergunta. Sérgio decepcionou o pretendente por sua inocência e o vigilante se afastou, frio. Diante da ingenuidade do menino, Sanches se dedicou a prestar-lhe, sem ser solicitado, esclarecimentos sobre “as coisas da vida” para as quais o seu protegido era inocente. Era mais uma estratégia sedutora, como quem prepara o terreno e semeia, para uma futura colheita.

Eu me sentia amesquinhado sob o peso das revelações.

Causava terror aquela sabedoria de coisas nunca sonhadas. O

honrado diretor espiritual percebeu que havia agora um

ascendente de domínio que me curvava. (Sanches) olhava-me

então de frente e tinha ousados risos de malícia. Depois de dias

de reserva, chegou-se de novo com uma segurança de

possuidor forte. (ibidem, p.71)

Estavam sempre juntos, Sanches e Sérgio, com o pretexto de estudar. Sanches passeava com o menino por lugares pouco iluminados, abraçando-o e tocando-o nervosamente. Sérgio suportava o comportamento do outro, num deplorável estado de energia. “Eu aturava, imaginando em resignado silêncio o sexo artificial da fraqueza, que definira Rebelo” (ibidem, p.71). O outro, estimulado pela aparente entrega e assentimento tácito do pupilo, voltou à carga e fez-lhe nova proposta. Sérgio reagiu com asco e evadiu-se, rompendo com seu protetor, perdendo o amigo, o explicador e o vigilante.

Sanches, auxiliar responsável por supervisionar a turma de Sérgio, membro da equipe de vigilantes nomeados por Aristarco, retalia ao ser rechaçado, perseguindo o menino, que fracassou num exame e foi desmoralizado com repreensão solene, para grande regozijo do despeitado pretendente (ibidem, p.72). Sérgio decidiu então vadiar, chegando a ponto de ficar excluído de qualquer qualificação decente, até tornar-se o último da classe. A vadiagem de Sérgio pode ser entendida como uma estratégia de rebeldia passiva em um novo estilo de adaptação. “Fui o último da aula! Resultado razoável, para emprego de uma energiazinha que despontava” (ibidem, p.72).

O menino ficou solitário e calado, não ousando se aproximar de nenhum outro colega depois da experiência com Sanches. Este,

[...] rancoroso, perseguia-me como um demônio. Dizia coisas

imundas. “Deixa estar, jurava entre dentes, que ainda hei de

tirar-te a vergonha”. Na qualidade de vigilante, levava-me

brutalmente à espada. Eu tinha as pernas roxas de golpes; as

canelas me incharam. (ibidem, p.77)

Sérgio fazia alguns esforços para reerguer-se e ninguém percebia, diante do que o menino foi se resignando, insensível, no seu desmoronamento. Passou então, a alimentar a fantasia de martírio: seu sofrimento o tornaria um santo (ibidem, p.74). Reagindo à tentativa de aliciamento pelo vigilante Sanches, desiludido dos ideais de trabalho e fraternidade que esperava encontrar no colégio, Sérgio mergulha numa fase religiosa e mística: “Perdido o ideal cenográfico de trabalho e fraternidade, que eu quisera que fosse a escola, tinha que soltar para outras bandas os pombos da imaginação. Viveiro seguro era o céu. Ficava-me a vendagem da eterna felicidade, que não se contava” (ibidem, p.74).

Sérgio era devoto de Santa Rosália (ibidem, p.78) e desfrutava dos momentos de oração e cânticos religiosos que os alunos eram obrigados a entoar no colégio, sobretudo no mês de maio (ibidem, p.80-2), que era dedicado à Virgem Maria. Mas o menino não admitia confissão, nem a comunhão, estranhava o exagero do culto público e tinha antipatia pelos “homens de batina”. Seu misticismo era um sentimento privado. Uma forma de racionalizar, justificar e elaborar os sofrimentos aos quais estava exposto no ambiente do colégio interno.

Todos os dias, no café da manhã, o diretor do Ateneu comentava em voz alta o desempenho acadêmico de cada aluno. Quando Sérgio foi chamado por Aristarco, durante a leitura do livro de notas, devido ao seu fracasso nos exames, “a congregação justiceira dos colegas voltou-se para mim, contra mim. Os vizinhos de lugar à mesa se afastaram dos dois lados, para que eu melhor fosse visto” (ibidem, p.76). O menino tremia, mas na primeira vez, o diretor foi clemente. Vieram, porém, as reincidências.

[...] Aristarco não perdoou mais. Houve ainda terceira, quarta,

por diante. Cada uma delas doía-me intensamente; contudo

não me indignavam. Aquele sofrimento eu o desejava, na

humildade devota da minha disposição atual. Chorava à noite,

em segredo, no dormitório; mas colhia as lágrimas numa taça,

como fazem os mártires das estampas bentas, e oferecia ao

céu, em remissão dos meus pobres pecados, com as notas

más boiando. (ibidem, p.77)

Um segundo momento nessa etapa religiosa de Sérgio foi bastante desagradável, centrado nos aspectos mais ameaçadores da doutrina cristã: “Iniciara-me Sanches no Mal: Barreto instrui-me na Punição. Abria a boca e mostrava uma caldeira do inferno; as palavras eram chamas; ao calor daquelas práticas, as culpas ardiam como sardinhas em frege” (ibidem, p.94). Sérgio começou a achar a religião “de insuportável melancolia. Morte certa, hora incerta, inferno para sempre, juízo rigoroso; nada mais negro!” (ibidem, p.95). Seu fervor religioso começou a declinar.

O período místico de Sérgio terminou depois de uma aventura, uma autêntica embrulhada na qual ele se meteu com Franco, de quem se tornara muito próximo. Este queria se vingar das muitas humilhações que sofria por parte de todos e decidiu espalhar cacos de vidro na piscina da “natação”. O remorso e a culpa transtornaram Sérgio e ele acabou adormecendo na capela, rezando em angústia, incapaz de delatar o colega. Nada aconteceu de grave, felizmente (ibidem, p.86-92). Sérgio resolveu mudar de atitude e sair do marasmo em que se afundava, abandonando o período de vadiação profunda e amolecimento hipnótico nos quais o mergulhou a atmosfera do Ateneu, suavizada apenas pela sua devoção religiosa. Quis se fazer independente. Pensamos que Sérgio se utilizou inicialmente da tática do afastamento da situação, como um modo de adaptação, depois do choque inicial. Ele se deixou levar pela corrente. Num segundo momento, resolveu reagir e passou a adotar uma postura mais intransigente e rebelde, mudando de estratégia. Sérgio passou para uma rebeldia ativa e solitária. Sérgio se deu conta de que chegou ao fundo do poço, ficou perplexo e buscou um modelo entre os colegas, com o qual se pudesse identificar.

O triunfo da escola poderia ser o Sanches; em compensação,

humildade vencida era o Franco. Entre os dois extremos

repugnantes, revelavam-se três amostras típicas à linha do

bem-viver: Rebelo, um ancião; Ribas, um angélico; Mata, o

corcunda, um polícia secreta. Para angélico decididamente não

tinha jeito, estava provado, nem omoplatas magras; para

ancião, não tinha idade, nem óculos azuis, nem mau hálito;

para ser o Mata, faltava-me justo o caráter e a corcova... Onde

estava o dever?... (ibidem, p.92)

Quando foi visitar a família, Sérgio informou a seu pai tudo o que estava vivendo no colégio, relatou-lhe suas dificuldades, procurando obter ajuda para reagir. O menino obteve sucesso total em sua entrevista com o pai. Essa reação de Sérgio vem lembrar ao estabelecimento que ele deve considerar o status e relações sociais do internado no mundo externo: o estabelecimento deve respeitar alguns dos direitos do internado enquanto pessoa. Nesse caso, os parentes de Sérgio lembram à equipe dirigente suas obrigações quanto a padrões humanitários e direitos do indivíduo. O próprio estudante desempenha bem esse papel.

Dias depois, no colégio, eu era um pequeno potentado.

Derrubei o Sanches; consegui revogação da disciplina das

espadas; reconquistei a benevolência de Mânlio (o professor);

levantei a cerviz! Desembaraçado do arbítrio pretensioso de um

vigilante, o trabalho agradou-me. [...] Com uma palavra fez-se

um anarquista. Daí por diante era fatal o conflito entre a

independência e a autoridade. Aristarco tinha de roer. Em

compensação, adeus esperanças de ser um dia vigilante!

Adeus indolência feliz dos tempos beatos. (ibidem, p.98)

Sérgio estabeleceu para si um novo programa, pautado pela “razoável mediocridade sem compromissos”, desprezando com vaidade prêmios, aplausos, não quis se tornar exemplar nem pagar o preço de se tornar um aluno modelo. Os superiores desenvolveram uma antipatia pelo menino e “invejosos da minha altivez, os inimigos fizeram partido. Sanches era o chefe, na cortina: Barbalho era o líder abertamente. Eu sorria vaidoso, levando de vencida a guerrinha, como a espuma à proa de um barco” (ibidem, p.99). Esse foi o caráter que Sérgio procurou manter, depois de algumas oscilações em sua carreira moral. Podemos dizer que ele assumiu uma estratégia de adaptação que consistia numa certa intransigência irônica e na “viração”, procurando combinar de modo oportunista várias estratégias e “jogo de cintura” para evitar sofrimentos e usufruir o possível da vida no estabelecimento.

 

A sexualidade no contexto institucional

Na etapa seguinte de sua carreira moral, Sérgio assumiu gentilmente o papel de namorada platônica de Bento Alves e se deixou cortejar, necessitado da proteção de um companheiro forte no ambiente hostil do Ateneu.

Bento Alves era um misterioso. Mistérios são no colégio os que

não andam a atravancar o espaço com as gatimanhas das suas

expansões. Frequentava as aulas superiores; sem que fosse

um estudante de rumoroso mérito, fazia-se respeitar dos

mestres e condiscípulos. Sisudo como certos rapazes de

inteligência menor que se arreceiam do ridículo, não somente

pela sisudez impunha-se ao respeito. Consideravam-no

principalmente pela nomeada de hercúleo. Os fortes constituem

realmente uma fidalguia de privilégios no internato. No tumulto

da existência em comum, fundem-se as distinções de classe na

democracia do coleguismo; as cambiantes de fortuna apagam-

se no figurino geral das blusas pardas. Os títulos de

superioridade prevalecem primitivamente no critério

semibárbaro dos verdes anos; o punho válido chega a fazer

vantagem sobre a própria vantagem do favoritismo. (ibidem,

p.108)

Alves não alardeava de forte; evitava disputas, não jogava o pulso, preferia exercitar-se à ginástica sem espectadores. Às vezes, por brinquedo, cingia o braço a um colega entre o polegar e o médio e fechava-lhe sob a manga um bracelete roxo dolorido. Aqueles que se sujeitavam ao formidável ensaio de tatuagem por compressão acercavam-se daí por diante de Bento Alves com os escrúpulos da mais reservada prudência (ibidem, p.108-9).

Entretanto era mole, da preguiça monumental dos animais

pujantes. Veloz, detestava a carreira; alegre, fugia aos

folguedos. Gostava do seu sossego; desviava os incômodos da

convivência distribuída, transbordante dos estimados. Não se

falava dele no Ateneu. Limitavam-se a temê-lo em silêncio.

(ibidem, p.109)

A amizade de Bento Alves por mim, e a que nutri por ele, me

faz pensar que, mesmo sem o caráter de abatimento que tanto

indignava ao Rebelo, certa efeminação pode existir como um

período de constituição moral. Estimei-o femininamente, porque

era grande, forte, bravo; porque podia me valer; porque me

respeitava, quase tímido, como se não tivesse ânimo de ser

amigo. Para me fitar, esperava que eu tirasse dele os meus

olhos. A primeira vez que me deu um presente, gracioso livro

de educação, retirou-se corado, como quem foge. Aquela

timidez, em vez de alertar, enternecia-me, a mim que, aliás,

Continuar: parte 3 de 5