A lógica da internação
5 - Estudos de casos singulares sobre estabelecimentos totais e disciplinares
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Beineberg mostrou-se indiferente e deixou a decisão com os outros dois.
Aceitaram, portanto, uma sugestão de Reiting. Decidiram
manter Basini sob vigilância, de certa forma sob tutela,
oferecendo-lhe uma oportunidade de trabalhar para sair
daquela situação. Dali por diante, seus gastos e ganhos seriam
severamente conferidos, e suas relações como os outros
alunos dependeriam da permissão dos três. (ibidem, p.64)
Essa experiência deixou Törless perplexo diante dos dois colegas, “teve medo deles – mas como tememos um gigante que sabemos cego e tolo...” (ibidem, p.65).
No dia seguinte, Basini foi colocado sob tutela. Não sem
alguma solenidade. Aproveitaram uma hora da manhã durante
a qual escaparam aos exercícios ao ar livre num extenso
gramado do parque. Reiting fez uma espécie de longo discurso.
Advertiu Basini de que ele estragara sua existência, de que na
verdade deveria ser denunciado; ele devia unicamente a uma
graça especial o fato de que por enquanto o livrassem da
vergonha de uma expulsão. Depois puseram-no a par das
condições especiais. Reiting assumiu a vigilância dos ganhos
de Basini. Este empalideceu e não disse uma palavra e pelo
seu rosto não se conseguia ver o que se passava em sua alma.
Törless julgara a cena alternadamente de muito mau gosto e
muito importante. Beineberg prestara mais atenção em Reiting
do que em Basini. (ibidem, p.65-6)
Basini é descrito como um adolescente belo, ingênuo, vaidoso e inconsequente, não conseguia resistir a nada que desejasse e sempre era surpreendido pelas coisas que fazia.
Beineberg continuou observando Reiting e descobriu que ele o estava traindo e também traía Törless. No esconderijo do sótão, Beineberg comenta com Törless que desde o começo Reiting havia defendido Basini de modo intenso. Alguém baixo como Basini deveria ser expulso imediatamente. Foi de propósito que Beineberg não concordou com a posição inflexível de Törless, pois queria descobrir o que mais estava em jogo. Ele lembrou Törless de um caso de envolvimento sexual entre os rapazes que culminou na expulsão de vários deles. Havia naquela turma um rapazinho muito belo pelo qual todos se apaixonavam. Reiting estava fazendo a mesma coisa com Basini. Beineberg os seguiu e descobriu o que faziam.
Beineberg possui uma teoria sobre a superioridade de uns seres sobre os outros, alguns nasceram, de acordo com uma ordem universal, para uma vida singular, resistente, e outros nasceram apenas por acidente, por acaso, à margem e sem qualquer importância.
Num ser humano, ela coloca essa dureza na personalidade, na
consciência, na responsabilidade que ele sente por ser parte da
alma universal. Se uma pessoa perde essa noção, perde-se a si
mesma. E quando um ser humano perdeu a si mesmo,
renunciou a si, perdeu também aquela coisa especial, singular,
para a qual a Natureza o criou como ser humano. E em nenhum
outro caso como este poderíamos estar tão seguros de que
estamos lidando com algo inútil, com uma forma vazia, algo há
muito abandonado pela alma universal. (ibidem, p.74)
Reiting está nas mãos de Beineberg, que de posse desse segredo do seu rival pode prejudicá-lo, pode ameaçá-lo com a expulsão do internato, acenando com a possibilidade de uma denúncia. Törless fica assustado diante da frieza malévola do companheiro e sente-se igualmente ameaçado por Beineberg, como se o destino de Reiting fosse também o seu. Beineberg decide não fazer nada contra Reiting, já que ele agora não representa mais perigo. Mas decide não denunciar Basini, quer castigá-lo pessoalmente por causa de sua arrogância. Quer aprender com a experiência de torturar Basini.
Não precisa ficar assustado – diz Beineberg a Törless – não é
tão ruim assim... não se deve ter consideração alguma com
Basini... A decisão de torturá-lo depende unicamente de nossa
necessidade de agir de um ou de outro modo...Reiting também
não vai largar o caso, porque para ele trata-se igualmente de
algo de valor especial ter uma pessoa nas mãos e poder se
exercitar, usá-la como ferramenta. Ele deseja dominar e faria
com você exatamente como faz com Basini, se por acaso
topasse com você... Eu, em contrapartida, tenho, como você, a
sensação de que, afinal, Basini também é apenas um ser
humano. Também sinto que alguma coisa em mim sofreria com
a crueldade que eu praticasse contra ele. Mas é exatamente
isso que importa! Realmente um sacrifício! Como vê, também
estou preso a dois fios. Um deles, obscuro, me leva à omissão
piedosa, que se contrapõe às minhas mais claras convicções. O
outro atravessa diretamente a minha alma, chegando ao mais
profundo entendimento interior e me liga ao Cosmos. (ibidem,
p.78-9)
De acordo com sua teoria sobre a natural diferença entre os seres humanos relevantes e os insignificantes na ordem universal das coisas, ele decide superar o impulso de deixar Basini livre, como se isso fosse um preconceito de origem externa e inferior, do qual deve se libertar.
Exatamente porque me custa torturar Basini – quero dizer,
degradá-lo, rejeitá-lo –, exatamente por isso é bom. Pois exige
sacrifício. Surtirá efeito purificador. Devo isso a mim mesmo; e
preciso aprender com Basini, diariamente, que ser apenas
humano nada significa, é mera aparência, uma macaquice...
(ibidem, p.80)
Törless fica confuso e excitado com as ideias do perigoso amigo que Beineberg se revela. Os dias prosseguem relativamente normais e Törless anda às voltas com emoções e vivências adolescentes, indefiníveis em suas reflexões solitárias.
Os três rapazes se reúnem no sótão e Basini é humilhado verbalmente por Beineberg. Basini esperava ser defendido por Reiting, mas esse o esbofeteou e, juntamente com Beineberg, o despiu e deram-lhe uma surra. Törless não fez nada, paralisado, em transe diante do espetáculo, observando suas próprias emoções diante do evento. Foi tomado por uma poderosa excitação sexual. Terminada a sessão de espancamento, Reiting mandou Basini se sentar numa das traves de madeira do telhado e começou a falar.
“Decerto você já estava achando que tinha se safado muito
bem, não? Decerto pensou que eu ajudaria você? Bem, se foi
assim, enganou-se. O que eu fiz com você foi apenas para ver
até onde ia sua baixeza.” Basini esboçou um gesto de protesto.
Reiting ameaçou saltar outra vez sobre ele. Então disse: “Mas
pelo amor de Deus, suplico a vocês, não tive outra saída!”
Reiting gritou para que ele calasse a boca. “Estamos fartos de
suas desculpas. Sabemos muito bem quem você é, e vamos
agir conforme...” Depois de um breve silêncio, Törless disse
baixinho: “Diga: eu sou um ladrão”. Basini arregalou os olhos
assustados. Beineberg deu uma risada de aprovação. Depois
de resistir um pouco, Basini, sob ameaças, o disse. Beineber e
Reiting disseram a Törless, rindo divertidos: “Você teve uma
boa ideia, filhote.” – e para Basini: “E agora você dirá
imediatamente: eu sou um animal, um animal que rouba, sou
um animal, um ladrão, o porco de vocês!” E Basini disse tudo,
sem se interromper, os olhos cerrados. (ibidem, p.97-8)
A paixão e o desejo sexual adolescente no
internato
A intensidade da sexualidade adolescente vai inundando Törless e aos poucos ele vai tomando consciência da forte atração que sente por Basini.
Sempre que essa sensação imprecisa o dominava, sua atenção
perdia aquele atributo pacato com que se acompanha o
desenrolar de uma experiência científica. Parecia que de Basini
emanava um fluído físico, uma excitação, como quando se
dorme ao lado de uma mulher de quem se pode, a qualquer
momento, tirar o cobertor. Era como um arrepio no cérebro,
nascido da consciência de que basta estender a mão: a mesma De volta ao dormitório, Törless adormece e Basini vai até sua cama. Törless resiste um pouco, indeciso e imerso em dúvidas, mas sucumbe ao desejo e à sedução do outro.
coisa que muitas vezes leva jovens casais a excessos sensuais
muito além das exigências de seus corpos. (ibidem, p.127)
Por ocasião de um feriado, o internato ficou quase vazio e Törless permaneceu ali. Basini também. O desejo de abordar Basini torturou Törless um dia inteiro. À noite, Törless foi até a cama de Basini e acordou-o. Basini o acompanhou até o esconderijo, onde ficou nu diante dele.
Törless recuou um passo involuntariamente. A súbita visão do
corpo nu, branco como a neve, atrás do qual o vermelho das
paredes parecia sangue, deixava-o ofuscado e perplexo. Basini
tinha um belo corpo – quase nenhum traço de virilidade, de uma
magreza casta e esguia, como a de uma donzela. Törless
sentia essa nudez incendiar seus nervos como alvas labaredas
ardentes. Não conseguia evitar o poder de tamanha beleza...
Ali, porém, a arte chegava pelos caminhos do sexo. Secreta e
súbita. Um sopro cálido e perturbador se desprendia daquela
pele nua, aliciante, macia e plena de sensualidade. Vibrava nela
também algo solene, quase sagrado. (ibidem, p.134)
Törless reage ao desejo que o atravessa, como se despertasse de um delírio. Exige que Basini se vista e o interroga, descobrindo então que Beineberg e Reiting surravam e abusavam sexualmente de Basini. Törless tenta fazer Basini perceber que não é obrigado a se submeter aos outros dois, que abusam dele. Basini acredita que não tem outra saída e se submete a tudo porque prometeram que logo vão perdoá-lo e tudo será esquecido, ele quer apenas voltar a ser um rapaz decente novamente. Törless descobre que Reiting e Beineberg poderiam agir com ele com faziam com Basini, criando uma intriga contra ele. “Havia algum perigo... escondido em algum lugar... espreitando Törless... cada passo seu podia cair numa armadilha, cada noite podia ser a última antes da batalha. Essa ideia causava uma insegurança insuportável” (ibidem, p.136). Basini não era capaz de perceber a própria implicação na produção da situação na qual estava envolvido e Törless mergulha em seus próprios pensamentos.
Então Törless desistiu de procurar palavras. A sensualidade
que se esgueirara para dentro dele paulatinamente nos
momentos de desespero despertara agora com toda a
intensidade. Deitava-se ao lado dele, nu, cobrindo-lhe a cabeça
com um manto negro e macio. Sussurrava em seu ouvido
suaves palavras de resignação e com seus dedos cálidos
afastava todas as perguntas e deveres, como se fossem vãos.
Sussurrava: na solidão tudo é permitido. Só no momento em
que estava sendo arrastado, despertou por um segundo e
agarrou-se desesperado à ideia: “Isso não sou eu! Não sou eu!
Amanhã, só amanhã, serei eu novamente! Amanhã...” (ibidem,
p.147)
Esse foi o estopim para a temporada apaixonada que se seguiu: Törless e Basini passaram a encontrar-se às escondidas com frequência, entregando-se ao desejo que os consumia. Reiting e Beineberg mantinham-se distantes de Basini e Törless os vigiava, sem ter paz, consumido pelo ciúme.
Beineberg mostrava-se sombrio e fechado; quando falava, eram
alusões misteriosas a alguma coisa iminente. Reiting
aparentemente voltara seu interesse para outras coisas; com a
habilidade costumeira, tramava a rede de alguma intriga,
tentando conquistar alguns através de pequenos agrados e
assustando outros ao descobrir seus segredos através de
alguma artimanha. (ibidem, p.148)
O amor adolescente de Törless por Basini era algo confuso, um misto de desejo e repulsa por consentir em desejos percebidos como degradantes.
No começo fora apenas a nudez do esbelto corpo de
adolescente que o ofuscara. A impressão foi a mesma que teria
se visse as belas formas de uma jovem, ainda livres de
qualquer aspecto sexual. Um assombro. Um impacto. E a
pureza que involuntariamente emanava daquela sensação era o
que usava a máscara do afeto – essa sensação maravilhosa,
inédita, inquieta, na sua relação com Basini. Todo o resto pouco
tinha a ver com ele. O resto do desejo já existira antes, era a
sensualidade secreta, desorientada, não dirigida para ninguém
em especial, a melancólica sensualidade de um adolescente
que amadurece, parecendo a terra úmida, negra e fértil da
primavera, e as escuras águas subterrâneas que precisam
apenas de uma ocasião eventual para romper as comportas...
(ibidem, p.149)
A experiência de Törless com Basini foi a ocasião para que naqueles esconderijos solitários e secretos se reunissem todos os desejos ocultos, sufocantes e rebentassem, derramando-se sobre o amante como impulsos obscuros. Mas uma luta interior permanente entre o desejo e a repulsa não permitia a Törless ter sossego. Vivia medroso, sobressaltado, em pânico de que descobrissem sua paixão, com grande desgaste em meio ao vendaval de emoções angustiantes e solitárias. Essa sexualidade adolescente fervilhante e patente, que se concretiza em casos e paixões arrebatadoras entre indivíduos do mesmo sexo, encontra nas peculiares condições de vida do internado sua causa.
Com forças jovens e impetuosas retidas por trás de muros
cinzentos, a fantasia multiplicava imagens sensuais que
punham muitos dos rapazes fora de si. Certo grau de
devassidão passava até por ser uma qualidade viril e ousada;
era como se conquistassem os prazeres proibidos. (ibidem,
p.155)
O auge da violência: ameaças e pressão
psicológica
Reiting e Beineberg, irritados porque Basini já não os obedecia como antes, nem parecia sofrer com a obediência, decidiram acabar com ele de uma vez. Reiting pensava em degradá-lo de modo insuportável e talvez entregá-lo à sua classe.
Seria o mais sensato. Se cada um contribuir com um pouco,
poderemos fazê-lo em pedacinho. Aliás, gosto desses
movimentos de massa. Ninguém faz nada de especial, e ainda
assim as ondas se erguem cada vez mais alto, até se abaterem
sobre as cabeças de todos. Vocês vão ver, ninguém se moverá
e ainda assim haverá uma tempestade gigantesca. Para mim
será uma diversão extraordinária promover uma coisas dessas.
(ibidem, p.157)
Mas antes do golpe de misericórdia, ainda queriam se aproveitar mais um pouco de Basini, usando ameaças e surras. Törless sofre com a possibilidade de que Reiting e Beineberg descubram seu envolvimento com Basini e o tratem do mesmo modo. Deixou que tudo acontecesse como os outros dois queriam. Seus sentimentos por Basini já tinham se esfriado completamente e a situação o livrava de oscilar entre o desejo e a vergonha, pois não conseguia se livrar por si mesmo. Além disso, temia que as humilhações preparadas para Basini também o atingissem.
Reiting e Beineberg levaram Basini para o sótão mais uma vez, onde o humilharam e espancaram na presença de Törless, que assistiu a tudo, calado. Törless não se envolveu e deixou que os outros dois fizessem com Basini o que quisessem. Eles continuaram abusando e espancando o rapaz.
Algum tempo depois, Basini procurou por Törless, pedindo-lhe ajuda, implorando porque já não suportava mais os tormentos aos quais era submetido. Törless tentou se esquivar, dizendo que a culpa era de Basini, por estar nessa situação. Eles marcaram um encontro no sótão à noite. Lá, Törless repetiu para Basini que não ia ajudá-lo. Reiting os surpreendeu escondidos ali e exigiu satisfações. Törless disse que Basini o chamara ali para pedir proteção, mas ele havia recusado e não queria mais saber daquela história. Reiting e Törless discutiram, trocaram insultos e romperam relações. Törless entendeu que agora um perigo real o ameaçava pelas costas.
Dias depois, Reiting e Beineberg, irritados com os insultos, abordaram Törless e exigiram que ele fosse assistir a um último castigo de Basini no esconderijo, antes de entregá-lo para a turma da classe. Diante da recusa de Törless, passaram a ameaçá-lo.
“Meu caro Törless, se você se voltar contra nós e não aparecer
lá vamos fazer com você o mesmo que com Basini. Sabe muito
bem em que situação Reiting encontrou você lá em cima junto
dele. Isso basta. O fato de termos feito mais ou menos a
mesma coisa com Basini não lhe servirá de nada. Vamos usar
tudo contra você, que nesses assuntos é bobo e inseguro
demais para nos vencer. Portanto, se não mudar de ideia em
tempo, vamos acusar você de cumplicidade com Basini diante
de todos os colegas da classe”. (ibidem, p.175)>
À noite, não acompanhou os três, quando deixaram o dormitório coletivo. Ficou ali em sua cama, martirizado por fantasias terríveis, desejando ardentemente livrar-se daquela confusão. Quando regressaram e adormeceram, Törless rabiscou um bilhete para Basini e colocou-o na mão do rapaz.
“Amanhã você será denunciado aos colegas e vão acontecer
coisas terríveis com você. A única saída é entregar-se ao
diretor. De qualquer modo ele ficará sabendo; só que antes
disso dariam uma surra tremenda em você. Atribua toda a culpa
a R. e a B. e me deixe fora disso. Está vendo que desejo salvar
você”. (ibidem, p.177-8)
A organização da sessão coletiva de agressão e
a reação da equipe dirigente
No dia seguinte, Törless viu Beineberg e Reiting irem de um colega a outro; ao redor deles formavam-se grupos, que sussurravam agitados... o nervosismo crescera... talvez tivessem acrescentado mentiras... primeiro sorriam, depois alguns ficavam sérios, lançando olhares indignados para Basini. Por fim a sala de aula ficou pesada de um silêncio sombrio, ardente, prenhe de impulsos sinistros. Por acaso tiveram a tarde livre. Todos se reuniram no fundo da sala, junto dos armários, e chamaram Basini (ibidem, p.179). Fecharam as portas, colocaram vigias, ordenaram que Basini se despisse, causando grande prazer à turma. Enquanto Reiting lia em voz alta cartas da mãe de Basini, risadas obscenas e piadas indecentes emergiam do grupo.
De repente, alguém empurrou Basini. Outro sobre o qual ele
caiu, empurrou-o de volta, em parte com raiva em parte de
brincadeira. Um terceiro o passou adiante. E de repente, nu, a
boca escancarada de pavor, Basini voou como uma bola pela
sala em meio às gargalhadas e aos apertos de todos – de um
lado a outro – seu corpo abriu-se em feridas nas quinas dos
bancos, e ele caiu de joelhos, esfolando-os até sangrar; por fim,
ensanguentado, empoeirado, os olhos esgazeados como os de
um animal, caiu de vez no chão, enquanto se fazia um súbito
silêncio e todos se aproximaram para vê-lo ali estendido.
(ibidem, p.179)
Decidiram na noite seguinte amarrar Basini em uma cama e açoitá-lo ali, mas de manhã cedo, o diretor entrou na sala de aula, acompanhado pelo regente da classe e de dois professores. Basini foi retirado da sala e isolado dos demais. O diretor pronunciou um sermão irado sobre as crueldades cometidas e ordenou uma severa investigação. Basini havia se entregado pessoalmente, sem incriminar Törless.
Ninguém suspeitava de Törless, nem Beineberg e Reiting pensavam na possibilidade de que ele fosse o delator. Estabeleceu-se um pequeno processo inquisitorial e todos os alunos foram chamados individualmente para um interrogatório. Sentindo-se incapaz de enfrentar o inquérito, Törless fugiu do internato. A polícia saiu à procura do rapaz, enquanto a investigação se processava. Reiting e Beineberg jogaram toda a culpa em Basini, afirmando que tudo o que fizeram foi com o intuito de regenerá-lo, mas ele não se corrigiu. Toda a classe jurou que maltratara Basini, provocada pelo deboche com que ele respondia à bondade dos colegas. Trava-se de uma comédia bem armada. Basini manteve-se calado, devido às novas ameaças de Beineberg e Reiting.
Törless foi encontrado e trazido de volta. Sua fuga era um enigma no caso Basini. Os colegas o preparam e ele foi enfrentar o interrogatório da comissão de professores, na residência do diretor. Um dos professores redigia a ata do processo. Törless enrolou-se confusamente nas suas explicações, sem esclarecer nada. Diante do impasse, resolveram despedir Törless, que nesse ínterim já havia solicitado a seus pais sua saída do internato. Basini foi expulso e a vida escolar retomou seu curso normalmente. Do internato, Törless levou o aprendizado das inesperadas potencialidades do polimorfo desejo que atravessa o ser humano.
Quando a equipe dirigente foi informada dos acontecimentos envolvendo Basini, vemos o estabelecimento lançar mão das técnicas disciplinares baseadas no “exame”, conforme Foucault (1999a). As autoridades instalam um processo inquisitorial para apurar os acontecimentos e interrogar os alunos. Podemos perceber aí como o sistema escolar está atrelado a um “micropoder judiciário”, tal como afirma Foucault (1999b). Notamos que há todo um jogo de forças, uma luta, um estado de guerra no próprio grupo dos internados: impossível não notar a agressividade e a sexualidade que ali fervilham, na surdina. Os “problemas de governante”, enfrentados pela equipe dirigente, revelam que ela sofre influências e tem que administrar as ações e reações geradas pelo grupo dos internados.
O internato como uma miniatura da sociedade
No internato escolar descrito por Musil (1986) encontramos uma sociedade em miniatura. Os fenômenos sociais, em estado nascente, mais ou menos desenvolvidos, podem ali ser apreciados: a circulação da informação, o exercício da autoridade e seus efeitos disciplinares, as pressões, os mecanismos adaptativos dos indivíduos, a tensão entre interesse geral e satisfação de necessidades individuais, o conflito entre as necessidades do estabelecimento e a preservação dos particularismos individuais e da espontaneidade criadora, as normas, os códigos, as crenças, a linguagem comum, a hesitação entre a tolerância e o ostracismo em relação aos desviantes (sobretudo sexuais) e as “panelinhas” que enfraquecem a unidade coletiva. Ainda, o antagonismo das personalidades dominantes, geralmente reforçados pelos grupos correspondentes, as relações de forças oscilando nos eixos maioria-minoria-unanimidade, os bodes expiatórios, os suspeitos, os heróis, os braços-fortes, os subalternos, os delatores, perseguidos e algozes. Nesse microcosmo experimental, poderíamos estudar “in vitro” vários problemas de Filosofia Política, Sociologia dos grupos, História e Psicologia Social.
Do ponto de vista psicológico, a comunidade do internato escolar pode ser estudada como um laboratório para outras experimentações: além da perspectiva institucional, dos objetivos confessos, das tarefas cumpridas em comum, podemos ver como o grupo, no contexto institucional, se configura no encontro de pessoas, de sujeitos, como um local de confronto e de laços afetivos. As oposições e as afinidades de caráter florescem na comunidade. Os desejos individuais, sempre presentes na surdina, esperam passivamente ou reclamam com violência sua realização: apelo a ajuda, proteção, vontade de poder, exibicionismo, ataque que denigre, curiosidade, rivalidade, admiração, idolatria. O narcisismo de cada um nela experimenta doces vitórias e também feridas amargas: os outros são reduzidos a objetos do meu desejo ou os narcisismos alheios me infligem feridas sem querer (e às vezes, propositalmente), apenas por sua própria existência.
Um percurso singular num movimento religioso
católico de matiz totalitário6
Desenvolvemos uma pesquisa que visa entender a produção da subjetividade no contexto institucional de alguns movimentos e
grupos religiosos católicos7 e tomamos, para isso, o Movimento dos Focolares como objeto específico de estudo. Apresentaremos a seguir um estudo sobre a condição de internado que experimenta um jovem que, ao ingressar no movimento religioso católico Focolares, vive durante dois anos no contexto institucional de uma aldeia do grupo, onde realiza sua iniciação e passa a pertencer ao movimento.
O Movimento dos Focolares foi fundado por Chiara Lubich em Trento, Itália, em 7 de dezembro de 1943. Em 29 de junho de 1990, seus estatutos gerais atualizados foram aprovados por Decreto do Conselho Pontifício para os Leigos da Igreja Católica, declarando-o como “associação de fiéis de caráter privado e universal de direito pontifício”. Seu carisma é a “espiritualidade da unidade” e conta com mais de cem mil membros espalhados pelos cinco continentes, dividindo-se em 75 regiões. A presidente é Maria Voce (eleita em 2008, quando Chiara Lubich, então presidente, faleceu), auxiliada por um vice-presidente e um conselho com sete membros. O Movimento dos Focolares é composto por famílias, jovens, sacerdotes, religiosos e religiosas de diversas congregações, além de bispos. As seções masculinas e femininas dos focolarinos, consagrados na pobreza, castidade e obediência, vivem em comunidades e constituem a base de sustentação do grupo. O Movimento dos Focolares tem diversas atividades de amplo alcance: “Famílias Novas”, Humanidade Nova”, “Movimento Paroquial”, “Movimento Diocesano”, “Jovens por um Mundo Unido”, “Movimento Juvenil pela Unidade”. Tem fortes incursões nos âmbitos da cultura, da educação, da economia e da política, contando também com poderosa atividade editorial. O Movimento dos Focolares está presente em 194 países dos cinco continentes, com centros estabelecidos em oitenta países. Fazem parte do movimento cerca de 120 mil pessoas, na qualidade de membros, e cerca de um milhão e meio de aderentes e simpatizantes. Os Centros Mariápolis, lugares destinados aos encontros e à formação de novos integrantes, estão espalhados em 46 países (Lubich, 2003, p.443-6).
A análise do estabelecimento religioso e dos processos empreendidos por ele se dá a partir dos dados de um caso que nos é apresentado em um relato escrito (Urquhart, 2002); daí a necessária recorrência a esse autor na mesma obra. No seu relato, é perfeitamente possível distinguir o que são dados de experiência, vivência e observação, daquilo que é sua própria análise de tais dados. A riqueza de elementos descritivos nos parece um dos aspectos mais relevantes dessa obra. Trabalhamos a partir do seu depoimento pessoal, fazendo de sua experiência no Movimento dos Focolares um caso singular (Aguiar, 2002, p.139). Nele, procuramos verificar como funciona o estabelecimento (grupo religioso), como é a vida no próprio estabelecimento e como o sujeito a experimenta, entende e responde a ela. Para isso, procuramos considerar tanto a realidade institucional do internato Focolares quanto à subjetividade que seu funcionamento promove, manifestando-se, essa, em dinâmicas psicológicas específicas.
Vejamos algumas características comuns entre o caso relatado por Urquhart (2002) e as instituições totais, que fundamentam nossa hipótese de que ele tem estatuto de caso singular. As características do funcionamento institucional, seus mecanismos de controle e administração dos internos e a relação entre esses e a equipe dirigente são as mesmas das instituições totais (Benelli; Costa-Rosa, 2003a, 2003b): isolamento do mundo exterior, supressão da privacidade dos indivíduos internados, segregação entre os gêneros, ausência de documentos escritos sobre objetivos e regulamento, controle exaustivo de todas as atividades e da rotina de cada um, entre outros. Também está presente todo um conjunto de práticas e efeitos que designamos como processos de subjetivação que, do mesmo modo, são absolutamente congruentes com os das instituições totais: rituais de mortificação do “eu”, negação da história pregressa (desterritorialização social e subjetiva) e instauração de outra identidade radicalmente diferente da anterior, com características totalitárias. Observaremos, ainda, a presença do retorno, nos institucionalizados, de uma série de efeitos subjetivos de natureza sintomática, expressos em performances radicais e maciçamente identificatórias, como a atitude fanática. A propósito desse aspecto, é conveniente fazer já uma distinção entre identificação e identidade: a última supõe um mínimo de identificação e é a base para performances não imitativas, portanto singularizadas (Guyomard, 1996, p.12-13). Finalmente, constatamos um outro conjunto de performances sintomáticas que geram saídas agonísticas de natureza disruptiva, do tipo “passagens ao ato”, e mesmo fugas do estabelecimento ou deserções da ordem nos estabelecimentos em que isso é possível.
Se ficar, portanto, demonstrado que o estabelecimento aqui estudado possui as características das instituições totais, visto tratar-se de um estabelecimento religioso, cremos estar suficientemente indicada a possibilidade de sua representatividade, como caso singular, em relação a um conjunto amplo de instituições religiosas com características de instituições totais (Benelli; Costa-Rosa, 2002, 2003a, 2003b). É nessa perspectiva que tomaremos o relato de Urquhart (2002) como descritivo das características da organização Movimento dos Focolares e dos processos de subjetivação de que são objeto os sujeitos que aceitam ingressar nela.
Pensamos que esta análise já se justificaria pelas possibilidades de compreensão desse movimento particular, entretanto veremos que várias das suas características são extensíveis a outras instituições de natureza e funções similares, que têm sido designadas como movimentos neofundamentalistas leigos (Galindo, 1994, p.306-12; Martelli, 1995, p.392 e p.401; Comblin, 1999, p.148-9; Brighenti, 2001, p.17-19; Libânio, 2000, 2003, p.106-8, 2005, p.74-5; Queiruga, 2003). Em resumo, tomamos como caso de análise uma organização institucional Focolares, pretendendo visualizar as características do Movimento dos Focolares e, com esse, apontamos na direção dos novos movimentos religiosos leigos neofundamentalistas (tais como Movimento Comunhão e Libertação, Opus Dei, Movimento Neocatecumenato, Legionários de Cristo, entre outros). A transversalidade da análise às três instâncias justifica-se, portanto, pelas características comuns de instituições religiosas totais.
Verificaremos também se nossa análise do caso em questão pode contribuir para a discussão da hipótese que é nosso ponto de partida, ou seja, que nesse tipo de estabelecimento as modelagens da subjetividade têm características e efeitos particulares que, na literatura, são referidos ora de modo negativo, como rituais de mortificação do “eu” (Goffman, 1987; Benelli; Costa-Rosa, 2003a), ora de modo positivo, como produção de subjetividade serializada (Guattari; Rolnik,1986).
Ainda segundo essa hipótese, a instauração de tais processos subjetivos, que costuma dar-se pela supressão radical dos antigos modos de ser e sua substituição por modos novos, implica performances do tipo sintomático, isto é, há um retorno da história e da singularidade recalcadas sob a forma de sofrimentos diversos e de modos de ser estereotipados, dos quais a performance fanática é apenas o efeito mais destacado. Podemos indicar desde já um exemplo desse retorno do recalcado: nesse tipo de estabelecimento, o indivíduo se torna um formador e isso implica que ele terá de reproduzir, em futuros candidatos, os processos dos quais foi objeto. Nesse momento, pode surgir uma forma de retorno do recalcado de modo denegatório (Freud, s. d.(c)[1925]), justamente na forma de comportamentos e ditames radicalmente estereotipados.
Tudo se passa como se o indivíduo, agora na posição de formador, pudesse conjurar, mediante a repetição, na relação com seus formandos, os conflitos e angústias decorrentes do mesmo processo a que fora submetido e que em si mesmo permanecem não equacionados (Benelli; Costa-Rosa, 2002, 2003b).
Dados relativos ao funcionamento institucional
do noviciado focolarino
A partir do relato de Urquhart (2002), vejamos o que é um jovem que vive no estabelecimento formativo do Movimento dos Focolares. Trata-se de um indivíduo que se sente chamado a consagrar a sua vida a Deus, como leigo participante de um grupo eclesial específico, e que deve se preparar para assumir essa condição. O centro de formação do Movimento dos Focolares, localizado em Loppiano, na Itália, é o local onde essa preparação é efetuada. O candidato se transforma em habitante de um mundo especial e peculiar, onde não apenas recebe uma formação específica, mas também assume uma condição humana muito particular: a de um indivíduo internado.
Na sua condição de internado, mesmo voluntário, o novato dos Focolares partilha de condições similares, sob vários aspectos, às condições dos internados num hospital psiquiátrico, numa prisão ou num colégio interno. A dinâmica da vida institucional nesses estabelecimentos apresenta pontos de impressionante coincidência. Será necessário ressaltar oportunamente suas diferenças também. O próprio internato focolares pode ser visto como um colégio interno (Benelli, 2002, 2003a, 2003b), mas com objetivos mais específicos.
O Movimento dos Focolares tem uma escola que recebe novatos já iniciados e que aderiram ao grupo em Loppiano, perto de Florença, na Itália. Podemos dizer que ali os noviços (novatos) do movimento realizam seu noviciado (período preparatório à consagração religiosa, que culmina na emissão de votos religiosos e integração à determinada organização religiosa). Trata-se de uma aldeia modelo dos Focolares. Depois de dois anos ali, um novo membro permanente, devidamente preparado e qualificado, por meio de uma consagração religiosa ao assumir os votos de pobreza, castidade e obediência, pode ser enviado para qualquer parte do mundo para missionar e difundir o movimento. Essa experiência e a profissão dos três votos normalmente significam a inserção permanente do indivíduo no grupo religioso. Mas, no caso das instituições com características totalitárias esse processo de inserção parece estar longe de ser linear e pacífico.
A ideia de dedicar minha vida a Deus, trabalhando para Ele, me
enchia de uma espécie de alegria e de sensação de aventura.
Mas , eu finalmente tinha perdido meu senso de orientação e
também o controle de minha vida. Não era capaz de
compreender ou analisar o que acontecera comigo em
Loppiano, e só muito mais tarde iria conseguir: eu era a própria
aniquilação e absorção de uma personalidade individual pela
instituição. Quando começou esse terrível e deliberado
processo de destruição, eu me senti mergulhar inexoravelmente
no período mais negro de toda a minha vida. (Urquhart, 2002,
p.58)
Processos institucionais de modelagem
subjetiva
O isolamento destaca-se como um elemento fundamental do processo formativo. Loppiano era utilizado para isolar totalmente os recrutas iniciados das influências do mundo exterior, para serem mais bem observados e modelados, de acordo com as crenças, ideias, normas, hábitos e comportamentos prescritos pelo movimento.
O isolamento era total. Nós estávamos a cerca de uma milha da
civilização. A população local era constituída de velhos
camponeses analfabetos. Durante os dois anos que ali
passamos, não assistimos a um programa de televisão sequer,
nunca deitamos os olhos sobre um jornal. Desse modo, não
sabíamos praticamente nada do que estava acontecendo no
mundo lá fora, e, após algum tempo, isso parecia não ter a
menor importância [...]. Não havia livros, a não ser os escritos
de Chiara Lubich e alguns outros sobre espiritualidade,
publicados pela Città Nuova, a editora italiana do movimento.
De qualquer modo, a leitura era desaprovada. Considerava-se
estranho que alguém pudesse passar o tempo fazendo
qualquer coisa sozinho, mas especialmente lendo. Durante todo
o tempo que lá fiquei, li apenas dois livros. (ibidem, p.59)
Não havia rádio, televisão, música nem filmes “profanos”, nem dias de folga ou sequer dinheiro para distrair ou contaminar os focolarinos em formação. Eram raras as saídas de Loppiano. O corte era radical para melhor efetivar o processo de ressocialização. Todos os anos havia a admissão de uns cinquenta homens e mulheres, que eram segregados, mantidos à distância uns dos outros. Esses futuros líderes do movimento vinham de todos os países do mundo. A grande maioria deles tinha apenas uma ideia muito vaga do que se podia esperar – Loppiano não tinha nenhum documento escrito sobre as atividades do movimento (ibidem).
O isolamento era para garantir que cada canto de nossas vidas
estivesse sob completo controle de nossos superiores. Nossas
mentes, atitudes e crenças tinham que ser radicalmente
mudadas não através de um processo de aprendizado gradual
ou do crescimento progressivo de uma convicção pessoal, mas
através de um fluxo contínuo de uma torrente de conceitos e
noções ao qual nós nos referíamos frequentemente, de
brincadeira, como sendo uma verdadeira lavagem cerebral.
(ibidem, p.60)
A tendência anti-intelectual (Libânio, 2003, p.106) do movimento se manifestava agressivamente em Loppiano. Candidatos de notória orientação ou formação intelectual eram sempre destinados para a realização de trabalho braçal e servil.
Mas o ataque à razão era levado a extremos: eles nos
impunham uma condenação total do pensamento. “Vocês
pensam demais”, era a resposta que recebíamos quando
fazíamos perguntas. “Não pensem!”, diziam-nos duramente
nossos líderes. “Parem de raciocinar.” Ou, de maneira mais
radical ainda: “Corte sua cabeça fora.” Quando alguém
levantava algum problema a respeito do gênero de vida ou das
ideias com que eles nos bombardeavam, recebia logo como
resposta que “era um ser fechado”, “complicado”, um “criador
de problemas para si próprio” ou mesmo “vítima de algum
complexo”. O termo “mentalidade” era um dos motes, e aqueles
que não estavam de acordo com o movimento eram acusados
de ter uma mentalidade “velha”. Eles nos aconselhavam a não
tentar entender, mas a agir como eles mandavam, para “nos
lançarmos para dentro da vida” em Loppiano, que a
compreensão viria depois (sic). (Urquhart, 2002, p.61)
Em Loppiano, o trabalho era exclusivamente manual. Os noviços trabalhavam em uma fábrica de caminhões ou em empresas menores que fabricavam tapetes e artesanato em madeira. Os noviços também tinham que participar de campanhas para vender de porta em porta a revista do movimento (Urquhart, 2002, p.64). Havia um controle exaustivo de todas as atividades e da rotina de cada um, caracterizando intenso processo de arregimentação (Goffman, 1987, p.44), que indica a obrigação de executar a atividade regulada em uníssono com grupos de outros recrutas e ainda um sistema de autoridade escalonada, no qual qualquer pessoa da equipe dirigente tem o direito de impor disciplina a qualquer dos novatos, o que aumenta claramente a possibilidade de sanção.
Todos os cantos e recantos de nossas vidas eram
minuciosamente controlados para prevenir qualquer espécie de
reflexão ou de vida pessoal e para garantir que nunca
ficássemos sozinhos. Éramos divididos em grupos de seis a
oito pessoas de nacionalidade mista (a língua comum era o
italiano) alojados em pequenos chalés pré-fabricados ou nos
alojamentos da fazenda convertidos em apartamentos. Os
espaços onde passávamos a maior parte do tempo eram
supercongestionados, impedindo assim qualquer tipo de
privacidade, embora o “pudor” no momento de vestir-se e das
abluções fosse observado com extremo rigor. (Urquhart, 2002,
p.61)
Como podemos perceber, a tarefa da equipe dirigente do movimento é receber os novatos e aplicar-lhes uma série de procedimentos que visam seu controle e modelagem subjetiva. De acordo com Goffman (1987, p.24-39) podemos denominá-los de “processos de mortificação do eu”, que costumam ser padronizados e incluir os seguintes aspectos: enclaustramento/sequestração do indivíduo, processos de admissão que criam uma pasta pessoal que é continuamente alimentada com relatórios sobre o desempenho do internado, testes de obediência para conseguir a cooperação inicial do novato, despojamento dos bens, emprego e carreira, exposições contaminadoras físicas, sociais e psicológicas. E ainda, o “circuito” (ibidem, p.40-5) que interliga todas as esferas da vida do internado no contexto institucional, utilizando um comportamento qualquer como índice do estado geral da sua condição pessoal e o sistema de privilégios (ibidem, p.49-58), por meio do qual se manipulam arbitrariamente algumas necessidades e satisfações do indivíduo, utilizando-as como prêmios concedidos em troca de obediência.
Podemos notar como se reproduzem aqui as táticas dos novos movimentos religiosos neofundamentalistas. Adotam o princípio da eficácia de modo sofisticado. Utilizam técnicas da psicologia social, de massa e de marketing: elevam o grau de insatisfação e desgosto para com a própria imagem até levar o indivíduo a romper com o “homem velho” e a aderir ao “homem novo” proposto pelo grupo. Palestras devidamente preparadas para produzir esse efeito são realizadas diante de indivíduos deslocados de seu cotidiano, onde poderiam sentir segurança. Assistem, desprovidos de suas defesas habituais, à projeção de um quadro que retrata sua condição humana numa perspectiva demasiado negativa. Sua pequenez humana e moral é amplificada, de modo que o desejo de mudança brota quase que naturalmente. Então os indivíduos podem ingressar no grupo, aderindo à proposta apresentada, que já estava preparada anteriormente, com recursos e estruturas de apoio. A partir de técnicas comuns de recrutamento e formação de seus adeptos, esses grupos religiosos buscam com eficiência tornar o indivíduo totalmente dependente do movimento, passando a viver de sua doutrina: ele é despojado de sua autonomia e capacidade de reflexão e decisão pessoais.
Isso é algo que vivi de maneira muito intensa na experiência de
“imersão total” em Loppiano. Assim como tínhamos que
renunciar a todos os “apegos”, de “perder” tudo, pessoas e
coisas que nos fossem caras, também tínhamos de aprender a
destruir nossos sentimentos. Sentimentos não têm a menor O trato institucional do tema da sexualidade
importância. Tínhamos que substituí-los pelos inúmeros
preceitos que o movimento sugeria que aplicássemos
obsessivamente no dia adia. Estes preceitos incluíam as
exortações frequentes de Chiara para “destruir o ego”, “morrer
para nós mesmos” e para “aniquilar” a nós mesmos ou nos
tornarmos absolutamente “nulos”. Todo pensamento devia ser
removido, bem como as emoções que até então havíamos
experimentado. (Urquhart, 2002, p.75)
Vejamos outros efeitos da estadia de Urquhart em Loppiano.
Loppiano conseguiu isso com a maior eficiência, ao nos
arrancar de nosso antigo mundo, criando um universo novo,
totalmente irreal, de falsos valores. A sensação de
desorientação que experimentei logo ao chegar era tão aguda
que meus primeiros três meses ali foram um “branco” total. Um
imenso vazio. Recordo aqueles meses ali mais exatamente
como escuridão total. Eu tinha passado da atividade e das
motivações da adolescência para uma juventude de monotonia,
sem objetivo e sem sentido. O que me trouxe de volta foi a
descoberta de que, para horror meu, eu passava o dia inteiro
esperando a refeição seguinte. E não era porque a alimentação
fosse frugal demais, não! Era simplesmente porque não havia
absolutamente nada a esperar à frente. Minha ilimitada
confiança anterior fora substituída por um estado de dúvida
constante e uma sensação de que eu não tinha o menor valor.
E isto não se aplicava apenas à dimensão espiritual; incluía
também um colapso da fé em minha capacidade intelectual e
prática (sic). (ibidem, p.75-6)
Essa seria a tecnologia de modelagem típica de instituições e estabelecimentos totalitários, instrumentos implementados para modificar e transformar as pessoas. Nesses rituais de mortificação do “eu” situa-se uma forma de modelagem subjetiva por subtração. Porém, observando mais cuidadosamente, pode-se perceber que, nessas instituições de formação religiosa, há uma ênfase nos processos de modelagem por acréscimo.
No Movimento dos Focolares há afirmação clara da tradicional superioridade do celibato e da virgindade sobre o casamento e a prática sexual (ibidem, p.249-71). Embora as reuniões públicas sejam sempre mistas, produzindo uma impressão de normalidade descontraída, a segregação de sexos predomina em todos os níveis do movimento. A liderança está nas mãos dos celibatários, embora haja também membros casados no movimento, mas com estatuto inferior (ibidem, p.261-4). A homossexualidade deve ser tratada e “curada” por psiquiatras do movimento (ibidem, p.264-71).
Os temas espinhosos de sexo e sexualidade nunca eram
mencionados durante os dois anos de curso em Loppiano.
Fiquei convencido de que era o único ali a ter excitações
sexuais que serviam para agravar ainda mais a sensação de
desgosto e alienação. Talvez estivéssemos todos no mesmo
caso. [...] Para os focolarini, o celibato era uma espécie de
miraculosa castração espiritual. Afinal de contas, nós não
éramos seres de carne e sangue; nós éramos anjos. [...] O
estágio preferido do desenvolvimento emocional [...] parecia ser
a pré-adolescência. [...] Eles estimulavam o comportamento
infantil [...]. Eles tinham medo da complexidade das emoções
adultas, e as rejeitavam. Nesse estágio de desenvolvimento
estacionário, o sexo não tem nenhum espaço e, por
conseguinte, nunca precisa ser mencionado. (ibidem, p.254-5)
Nos processos de modelagem subjetiva por acréscimo, os ideais da organização institucional e do grupo parecem funcionar como fatores decisivos, pois fornecem os contornos de uma identificação do tipo massa-líder, em que ocorre a substituição de um arcabouço subjetivo singular por outro coletivo, de características altamente idealizadas (Freud, s. d.(a) [1921]). Parece ser em torno dessa idealização que se dá a abdicação voluntária dos antigos modos de ser e pensar, e sua substituição pelos novos.
Quanto às relações interpessoais, a técnica utilizada no Focolares era “dividir para reinar”. Nas palestras oficiais, a orientação era para que se evitassem as “amizades particulares”, de modo a manter à distância pessoas das quais se gostasse.
Uma prática destinada a evitar a formação de “laços” ou
“apegos” era a de ficar constantemente “embaralhando” os
grupos, inserindo neles “cartas” diferentes. Depois de ter
passado alguns meses juntos, sem que ninguém nos
prevenisse, uma noite, antes da sopa, a gente ouvia a leitura de
uma lista que anunciava as novas configurações e tínhamos
então que embalar todos os nossos pertences e fazer a
mudança para novos grupos. Estas mudanças eram concebidas
de tal maneira que ninguém iria ficar em companhia de um
antigo colega de quarto. (Urquhart, 2002, p.61)
Mediante essa espécie de desterritorialização social e afetiva era possível evitar um fenômeno comum em instituições totais (Goffman, 1987, p.159): o processo de confraternização, no qual o grupo dos internados se une, desenvolvendo apoio mútuo e uma cumplicidade como resistência a um sistema que os forçou à intimidade numa única comunidade igualitária de destino. No claustro, a solidariedade costuma produzir uma infinidade de grupos primários no estabelecimento: “panelinhas”, facções, inclusive ligações sexuais mais ou menos estáveis, chegando até a formação de pares, através dos quais dois internados podem passar a ser reconhecidos como “amigos” ou “casal” pelos demais companheiros (Benelli, 2003b).
A institucionalização da existência humana tende a torná-la insípida, pasteurizada, num processo de achatamento e uniformização de toda e qualquer singularidade. O indivíduo tem mecanismos de resistência que disparam para enfrentar os poderosos efeitos que a máquina kafkiana produz.
Os dilemas morais apareciam frequentemente com muita
clareza quando eu acordava no meio da noite. Situações que
pareciam confusas e tenebrosas durante o dia tornavam-se de
repente claras como cristal. Quando eu acordava à noite em
Loppiano, os pensamentos e as sensações que se apoderavam
de mim eram sempre os mesmos: “Que diabos estou fazendo
aqui?” Mas esta clareza iria desaparecer ao primeiro raio de sol
da manhã seguinte, e eu voltaria para aquilo que considerava a
realidade. Como tudo que anteriormente havia tido importância
para mim tinha sido esvaziado, só restava uma sensação
esmagadora: nada tem importância! (Urquhart, 2002, p.75-6)
Nada mais tinha importância, exceto o próprio movimento. Não restando nada ao indivíduo, ele passa a ter uma existência vicária, vivendo apenas por meio de lutas, projetos e triunfos da organização. Perdendo sua existência singular, só lhe é permitida uma existência institucional, desprovida de singularidade. Os dados de Urquhart (2002) indicam que os membros do Movimento dos Focolares vivem um processo de repressão intensa de conflitos, contrariando importantes necessidades pessoais. Vivendo num estado de frustração crônica, podem ter sua saúde física e psíquica abaladas. A tentativa de supressão da singularidade subjetiva, do desejo, da sexualidade e das emoções pode falhar e conflitos inconscientes mantidos silenciosos, a duras penas, podem eclodir, manifestando-se por meio de sintomas como ansiedade, depressão ou excitação motora excessiva. Efeitos típicos da institucionalização da vida humana costumam ser sintomas de tensão extrema, de estresse, medo e culpa. Urquhart (2002) descreve vários exemplos de tais efeitos.
Evitar a formação de “laços” ou apegos era, portanto, aparentemente, uma forma da organização e seus dirigentes se defenderem de possíveis ações, por parte dos internos, de contraposição ao instituído. Outro elemento que facilitava bloquear a confraternização entre os recrutas “noviços” era a ênfase dada à mudança constante e à incerteza.
O horário diário ou semanal era alterado constantemente.
Frequentemente planos eram mudados em cima da hora. De
tempos em tempos, tínhamos de deixar o jantar no meio para
atender a uma convocação para uma reunião no salão principal.
(Urquhart, 2002, p.62)
Essa arbitrariedade e imprevisibilidade permanentes, que resultavam em constante desorientação ambiental, eram suficientes para sabotar as diversas estratégias de ajustamento secundário (Goffman, 1987, p.159ss.) de que o grupo dos noviços poderia lançar mão no estabelecimento para se defender da desterritorialização social e subjetiva a que era submetido.
Nesse ponto, parece oportuno agregarmos algumas observações de Pereira (2004, p.283), que sublinha essa característica importante das instituições totais: o temor paranoico do retorno, contra o estabelecimento e a equipe dirigente, das pulsações instituintes recalcadas no conjunto dos internos pelo próprio processo formativo, dada sua natureza.
As grandes instituições e organizações geralmente temem a
união dos irmãos, dos participantes dos grupos, percebendo-os
como uma força que pode voltar contra elas. A fantasia
inconsciente institucional é a de que a união dos participantes
do grupo pode destruir o instituído. Isso é frequente em
instituições totais e constituídas de autoridades déspotas e
verticais. Assim, as relações fraternas grupais tornam-se
concorrentes dessas fantasias institucionais, autoritárias e
centralizadoras. Nas organizações geridas pelo autoritarismo é
impossível o trabalho de escuta e de diálogo.
A rotina como estratégia de modelagem subjetiva
Vejamos outros dados sobre a rotina diária em Loppiano, de acordo com Urquhart (2002, p.62), ainda ilustrativos do funcionamento das instituições totais e de seus efeitos de modelagem subjetiva.
Geralmente o despertar era às 6 horas e 30 min. ou às 7 horas.
As atividades do dia começavam às 7 horas e 30 min. com uma
meditação, que sempre consistia em uma “experiência de
grupo” comentada por um líder. Ele lia o evangelho da missa do
dia e fazia um breve comentário. Dos cem ou mais presentes –
o primeiro e o segundo ano do curso – ele escolhia
aleatoriamente aqueles que iriam participar de uma
“experiência” inspirada na leitura. Esta era uma situação
controlada, na qual a coparticipação na “experiência” podia ser
corrigida e as nossas vidas passadas redefinidas em termos da
doutrina do movimento, conhecido método de reforma do
pensamento. [...] O medo de ser criticado nessas reuniões fazia
parte daquele sentimento de ansiedade criado em Loppiano das
mais diversas formas. Depois da meditação, havia meia hora
para o café da manhã e, logo depois, trabalho de 8 horas e 30
min. até 13 horas. Havia então o tradicional almoço italiano que
durava até 15 horas, e, depois novamente, trabalho até 19h30
ou 20 horas, que era hora da missa. Depois da missa tínhamos