A lógica da internação

Silvio José Benelli · Capítulo 6 de 9 · parte 1/5

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A lógica da internação

5 - Estudos de casos singulares sobre estabelecimentos totais e disciplinares

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

5 – Estudos de casos singulares

sobre estabelecimentos totais e

disciplinares

 

Para a realização dessa investigação, utilizamos apenas a análise documental (Alves-Mazzotti, 1999, p.169). Usualmente, considera-se como documentos, qualquer registro escrito que possa ser usado como fonte de informações. Podem ser regulamentos, atas de reunião, cartas, diários, livros didáticos, arquivos, jornais, revistas etc. Estamos considerando os livros que analisamos como documentos que retratam a realidade de estabelecimentos fechados funcionando como instituições de internação totais e disciplinares. Acreditamos que eles são adequados para nossos objetivos, pois apresentam com detalhes os princípios e normas que regem o comportamento do grupo em sua vida institucional e as relações que se estabelecem entre os subgrupos (internados/equipe dirigente). Sobretudo, nos permitem compreender a lógica que organiza a internação enquanto estratégia institucional específica.

Nosso método de análise se baseia no caso singular. Para além da pretensão de dar conta de uma certa “objetividade empirista”, o que buscamos foi, de modo coerente com a perspectiva institucionalista, a partir do material disponível, apreender a processualidade do fenômeno “estabelecimento de internação” em seus aspectos dinâmicos, essenciais e estruturais. Isso se demonstra efetivo quando o próprio leitor, a partir do conhecimento que tem sobre estabelecimentos semelhantes, iluminado pela análise dialética e estrutural apresentada, pode se identificar com as descrições e análises explicitadas. É exatamente esse o efeito que produz a leitura de um caso singular bem estudado e corretamente apresentado.

É possível justificar uma reflexão e análise dos processos de funcionamento e de produção de subjetividade de um conjunto de instituições de internação com características semelhantes a partir de um único relato, se concebermos a hipótese de que não se trata de caso isolado, um caso idiossincrático, mas, pelo contrário, de um caso singular (Aguiar, 2002, p.139). Para Rey (1999, p.156, tradução nossa), “O estudo do caso singular adquire seu valor para a generalização pelo que é capaz de contribuir visando à qualidade do processo de construção teórica, não por seu valor em termos de quantidade. Esta afirmação é expressão de uma compreensão

diferente do conceito de generalização...”.1 Para Lacan (1980, p.55), o que faz a singularidade de um caso é o caráter manifesto, visível, das relações em jogo; seu valor de evidência é superior à própria

demonstração abstrata. 2 Segundo esses autores, um caso é considerável singular na medida em que encerra as informações essenciais sobre as características básicas do fenômeno que procuramos compreender e sobre os processos que aí estão em ação.

Para uma perspectiva institucionalista e dialética, certamente há lugar para a apresentação sistemática de um conjunto de observações de campo que podem lastrear as conclusões, mas não se trata de modo algum da mesma visada teórica do positivismo, nem se baseia numa suposta objetividade empirista e quantitativa. O pensamento positivista se caracteriza por uma pretensa objetividade atribuída aos fatos da realidade, exigindo por parte do pesquisador uma atitude de “neutralidade”, visando não contaminar os “dados”, que teriam uma objetividade intrínseca. Ora, não são exatamente os dados (em uma suposta pureza e neutralidade, que de resto não se verificam jamais de modo completo e exaustivo) aquilo que finalmente sustenta a veracidade das proposições conclusivas numa pesquisa institucionalista, mas sua verdade está em outra parte, mais especificamente, se localiza no plano do pensamento lógico, orientado por uma perspectiva ética radical.

A elaboração do pensamento corresponde a um processo dialético e permite a construção de categorias analíticas que alcançam o estatuto de conceitos estruturais, que por sua vez são dotados de forte capacidade explicativa e interpretativa. A construção desses conceitos fundamentais passa por uma imersão atenta num determinado campo de análise, o que pode ser realizado, por exemplo, por meio da observação participante, sendo possível ainda incluir uma coleta de dados quantitativos, a realização de entrevistas, bem como um levantamento bibliográfico e uma análise cuidadosa da literatura pertinente ao tema investigado. Mas não será nunca a simples soma de todos esses elementos quantitativos ou qualitativos aquilo que permitirá a formulação das proposições conclusivas. Não se trata de colecionar todo um conjunto de fragmentos aleatórios e dispersos, procurando ordená-los de modo a exercitar um certo associacionismo mecanicista. Categorias conceituais analíticas são fórmulas e construídas por meio um processo de trabalho dialético do pensamento. No presente estudo, duas categorias fundamentais empregadas são as de instituição total e de instituições disciplinares.

O estudo de singularidade nos permite captar as determinações concretas constitutivas do fenômeno social: “O conhecimento produzido a partir de um sujeito, uma escola, um grupo, constitui-se, pois, em uma instância deflagradora da apreensão e do estudo de mediações que concentram a possibilidade de explicar a realidade concreta” (Aguiar, 2002, p.139). Como veremos, o conjunto a que pertencem os estabelecimentos que iremos analisar possui características e modos de funcionamento bastante congruentes com aquele que, já há bastante tempo, foi definido como instituições totais (Goffman, 1987; Benelli, 2002, 2003a) e disciplinares (Foucault, 1999b).

Feitas, entretanto, essas considerações sobre nosso método de estudo, não é demais assinalar que aceitamos perfeitamente que haja limites quanto à possibilidade de generalização de nossa pesquisa, primeiro porque acreditamos que, embora defendendo seu caráter de caso singular, nem por isso pensamos que fica superada por completo sua particularidade. Segundo porque os diversos atores institucionais dos relatos analisados expressam a experiência subjetiva de processos objetivos e subjetivos. Porém, devemos afirmar quanto ao segundo aspecto que, sendo a produção de subjetividade o foco de nossa análise, entendemos a subjetividade em sua dimensão objetiva, justamente na medida em que ela se transmite por palavras. Ela só pode expressar-se nas palavras e estas permitem a objetividade possível para a subjetividade (Lacan, 1998, p.105-6).

Pontuamos ainda que se a subjetividade se expressa com palavras, sua produção não precisa ser limitada ao registro do simbólico. De acordo com Foucault (1995, p.275), a subjetividade é produzida em práticas historicamente analisáveis, práticas de saber, de poder e práticas de si. O sujeito é constituído por práticas históricas específicas que podem ser discursivas, não discursivas e ainda por meio das tecnologias de si.

Nosso objetivo neste livro é realizar um estudo teórico sobre algumas instituições totais e disciplinares. Partindo do trabalho de Goffman (1987) sobre as instituições totais e do pensamento de Foucault (1999b) sobre as instituições disciplinares, apresentaremos algumas análises de casos da literatura que descrevem experiências em internatos escolares que funcionam como verdadeiras instituições totais e disciplinares. Por exemplo, utilizando os analisadores criados por Goffman e por Foucault, é possível analisar romances tais como O Ateneu, de Raul Pompéia, Doidinho, de José Lins do Rego, Em nome do desejo, de João Silvério Trevisan, e O jovem Törless, de Robert Musil. Trata-se de obras de épocas diferentes que descrevem a vida de indivíduos internados em instituições educativas. Em nome do desejo apresenta a vida num seminário católico. Pensamos que um colégio interno se enquadra na definição de instituição total e disciplinar, pois é um local fechado (claustro) no qual vivem muitos indivíduos que são submetidos à educação escolar formal. Acreditamos que esses autores descrevem microcosmos onde se desenvolve uma possível subjetividade específica, focalizando a vida institucional de um modo global.

Consideramos O Ateneu um romance pleno de confissões autobiográficas de Raul Pompéia (1863-1895), escrito em 1888. É uma obra digna de análise, pois o internato escolar descrito pelo autor pode ser apreciado como um exemplo de uma instituição total em pleno funcionamento. A história do romance é a seguinte: o menino Sérgio, com onze anos, é internado por seus pais no colégio Ateneu com o objetivo de que ele complete sua formação escolar e prossiga com os estudos. Sérgio ainda é uma criança inocente do mundo e da realidade da vida e encontra no colégio interno colegas com diversos perfis, tanto em idade quanto em experiência e tendências. Há os pervertidos do ponto de vista moral e psicológico e os medrosos e apavorados. O drama do herói é grande, pois está inserido num universo particular e novo, e ele ainda não possui uma experiência da vida suficiente para compreender os tipos com os quais passa a conviver obrigatoriamente e para reagir ao meio ambiente corruptor e degradante que o cerca.

Os internados são governados pelo professor Aristarco, um empresário da educação, figura apresentada de modo caricaturesco, como grotesca, arbitrária e ridícula. Podemos acompanhar o menino Sérgio e seu mergulho no mundo institucional do internato escolar e verificar a presença e ação dos vários mecanismos que as instituições totais fazem funcionar com a finalidade de controlar e modelar o indivíduo. Pompéia descreve à exaustão a “carreira moral” de Sérgio, ao longo de páginas densas de introspeção psicológica.

As palavras finais de Menino de engenho (Rego, 1982) anunciam a ida de Carlinhos para o colégio interno. Em Doidinho (Rego, 1979) o autor escreve sobre sua experiência de aluno interno do Instituto Nossa Senhora do Carmo, em Itabaiana (Sergipe), estabelecimento dirigido pelo áspero Prof. Maciel, onde o autor de fato realizou seu curso primário. A compreensão integral da história de Doidinho exige a leitura prévia das peripécias do menino de engenho, pois são muitas as remissões a personagens, episódios e acontecimentos da primeira narrativa. Doidinho é um romance de internato. Uma vez segregado da vida paradisíaca que levava no engenho Santa Rosa do avô, Carlinhos é levado para o colégio interno e rapidamente despojado de suas prerrogativas pessoais, agravadas pelas ameaças do severo professor que não poupava castigos corporais. Em sua narrativa, podemos encontrar o testemunho de alguém que viveu, na carne, os processos educativos e reformadores próprios de uma instituição total.

Trevisan (1985) descreve a vida de sessenta meninos internados num seminário menor, onde vivem em tempo integral e realizam seus estudos escolares. O romance está escrito em forma de perguntas e respostas, imitando de propósito o catecismo antigo, no qual a doutrina cristã era apresentada nesse formato para ser decorada. Os personagens principais são Tiquinho e Abel, os heróis da trama. A vida institucional desse estabelecimento católico, que procura preparar candidatos ao sacerdócio ao mesmo tempo que administra a educação escolar formal, é descrita com uma riqueza de matizes e nela também podemos apreciar o modo de processamento típico de uma instituição total.

A subjetividade do aluno de um colégio interno seria caracterizada por uma identidade pessoal que é desmontada e reconstruída mediante processos de mortificações padronizadas do “eu”. Acreditamos que geralmente se produzem resultados contrários aos objetivos institucionais oficiais. O indivíduo renuncia a importantes aspectos de sua vida civil corrente ao ingressar no estabelecimento: perda autonomia pessoal, da liberdade para ir e vir, agir e decidir. Os anos de formação parecem ser um longo tempo no qual o indivíduo vive na condição de tutelado com relação a áreas fundamentais da vida pessoal. Poderemos verificar como esse processo se inicia e como o indivíduo internado no estabelecimento o vivencia.

A análise desse processo pode nos auxiliar a descobrir quais as disposições que instituições em geral deveriam observar e garantir, com a finalidade de que seus membros possam preservar sua identidade e autonomia pessoal. Ao que parece, as instituições totais, e o colégio interno como uma delas, têm “razões” que a equipe dirigente, com seus objetivos oficiais desconhece, e acaba produzindo indivíduos diferentes do que pretendia, de modo perverso e dissimulado. Acreditamos que provavelmente as práticas sociais reais que se desenvolvem na vida institucional são mais formadoras e modeladoras das subjetividades, do que seus projetos oficiais publicamente confessados.

 

O colégio interno Ateneu como dispositivo

disciplinar de produção de subjetividade3

Consideramos O Ateneu, romance autobiográfico de Raul Pompéia (1863-1895), escrito em 1888, uma obra digna de análise, pois o internato escolar descrito pelo autor pode ser apreciado como exemplo de uma instituição total (Goffman, 1987) em pleno funcionamento. Pompéia (1997) rememora sua experiência escolar em termos de julgamento, em que a criança que ainda vive no adulto se levanta como um promotor que vai apresentar o elenco das humilhações e mortificações pelas quais foi obrigado a passar, num esforço de elaborar o passado e acertar suas contas com ele. As experiências traumáticas de internado são apresentadas de modo crítico e ácido, através do narrador-personagem Sérgio (Nunes, 1986; Perrone-Moisés, 1988).

É surpreendente o quanto a narração de Pompéia (1997) pode ser lida a partir da perspectiva das instituições totais (Freitag, 2001; Perrone-Moisés, 1988). Evidentemente o autor não conhecia a teoria de Goffman (1987), mas pode experimentar pessoalmente os efeitos dessa máquina modeladora da subjetividade em si mesmo. Por isso, vamos tratar o texto de O Ateneu como se fosse a gravação transcrita de um depoimento do autor. Em vez de parafrasear Pompéia (1997), preferimos lançar mão desse artifício e abusar da transcrição literal. Assim, não perdemos o interessante estilo de Pompéia e temos seu próprio testemunho de como realmente funciona uma instituição total, inclusive nos seus detalhes mais pitorescos e nos, especificamente, produtivos de subjetividade. As análises de Goffman (1987) são extremamente agudas quando estudam as formas da organização do dispositivo institucional. Se ele não chega a articular uma microfísica do poder no contexto institucional e social, como faz explicitamente Foucault (1988, 1999a, 1999b), isso aparece numa leitura atenta em sua investigação do manicômio, da prisão e do convento. Goffman não pode conceituar o poder como relações de força em guerra; entretanto, é assim que sua análise o revela: produzindo no nível microfísico, exatamente do modo como o poder opera, para além dos limites teóricos e conceituais do autor.

Ao estudar as relações intrainstitucionais, ele oscila entre os planos molares e microfísicos: estabelece polaridades de poder e não poder nas quais, aparentemente, o poder seria privilégio de um grupo minoritário que infligiria a outro, mais numeroso, as consequências do abuso de tal poder. Mas também apresenta um poder que se estende como uma rede de pontos, relações móveis, resistências, efeitos repressivos, coercitivos e, inclusive, produtivos. Estão explícitas as mais diversas estratégias anônimas de poder (Benelli; Costa-Rosa, 2002).

Goffman (1987) analisa as práticas não discursivas, o não dito institucional, mas que é claramente visível (e não oculto) e, portanto, dizível e ele os articula com grande sutileza. Goffman faz os “detalhes” (Foucault, 1999b, p.120) aparentemente insignificantes do cotidiano institucional falarem e então percebemos o plano microfísico das relações intrainstitucionais superando a pura e simples dimensão organogramática (molar) e mergulhando nas diferentes estratégias nas quais o poder se ramifica, circula, domina e produz saberes, práticas, subjetividade. Das práticas não discursivas emergem concepções do objeto institucional e quais são os meios e instrumentos utilizados para trabalhá-lo. Normalmente, essa “teoria” e “técnica da prática” (pois “na prática a teoria é outra”) costumam estar em franca contradição e conflito com o discurso institucional oficial (Goffman, 1987, p.70).

Goffman (1987) demonstra que há mais coisas em comum entre uma prisão e um convento, um asilo de loucos e um campo de concentração, entre um navio em alto mar e um internato escolar do que nos parece à primeira vista. Todos esses estabelecimentos utilizam mecanismos de segregação, estratificação social e modelagem da subjetividade, alternando punições, recompensas e a estratégia de dividir para reinar, que não são necessariamente diferentes das relações de dominação e subjetivação dos processos de poder em vigor em toda e qualquer sociedade. Mas nesses estabelecimentos, os mecanismos produtores de subjetividade são exacerbados por se tratar de situações extremas. De certa forma, são estabelecimentos específicos e como que purificados, revelando as engrenagens do poder de modo mais explícito e evidente, próprias para a pesquisa em laboratório.

A possibilidade de reduzir a identidade social de um sujeito a um atributo estigmatizante ou a um único e exclusivo papel, que representa a categoria social mais baixa dentro de um grupo fechado, é uma estratégia fundamental descoberta por Goffman (1987) nas comunidades fechadas, que ele denomina de instituições totalitárias. As análises de Goffman (1987) nos apresentam os procedimentos estruturados para a modelagem subjetiva e formas de repressão específicas efetuadas dentro dos muros das instituições totalitárias. Também nos revelam que formas de repressão mais gerais se dão na sociedade de massas, produzindo efeitos sobre indivíduos e categorias sociais inteiras.

 

Dispositivos institucionais

O dispositivo é uma grade de análise construída por Foucault (1988) para dar conta das conexões entre saber/poder. Engloba materiais heterogêneos, o dito e o não dito: arquitetura, discursos, teorias, técnicas, práticas, regras etc. A partir desses componentes díspares, podemos estabelecer um conjunto de relações flexíveis, reunindo-as num único aparelho, de modo a isolar um problema específico. Munido dessa ferramenta, é possível demarcar a natureza da relação que pode existir entre esses elementos discursivos e não discursivos, além de evidenciar a função estratégica do dispositivo, na medida em que responde à articulação entre produção de saber e modos de exercício de poder, dominantes em cada momento histórico.

Nesse sentido, podemos dizer que o poder disciplinar plasmou na sociedade moderna um dispositivo pedagógico autoritário, implementado em todas as suas minúcias no estabelecimento Ateneu, tal como afirma Foucault (1999b, p.145): “Assim é que o hospital-edifício se organiza pouco a pouco como instrumento de ação médica [...] um operador terapêutico. Como a escola-edifício deve ser um operador de adestramento, [...] um aparelho de vigiar”.

Foucault (1984, 1988, 1999a, 1999b), demonstrou que as relações poder/saber, consideradas como práticas, realizam simultaneamente tanto a produção de conhecimentos específicos sobre o homem quanto uma produção técnica dele no interior de um determinado conjunto de instituições. É nessa articulação entre saber e poder, na intersecção dessas duas práticas sociais, que se produz o sujeito, pois quando se objetivam certos aspectos do homem é que há possibilidade de se organizar uma manipulação técnica institucionalizada dos indivíduos. E o contrário também se verifica, pois é necessário um conjunto de práticas institucionalizadas de manipulação dos indivíduos como condição para sua objetivação científica. Assim se produzem dispositivos psicológicos e pedagógicos.

A subjetividade (modos de ser, sentir, pensar e agir constitutivos do sujeito em determinado momento histórico) é tecida, no contexto institucional pela rede de micropoderes que sustenta o fazer cotidiano (institucional), operando efeitos de reconhecimento/desconhecimento dessa ação concreta.

Uma instituição é uma prática social que se repete e se legitima enquanto se repete. As instituições implementadas em organizações e estabelecimentos não apenas realizam – quando realizam – os objetivos oficiais para os quais foram criadas, mas produzem determinada subjetividade. Sujeitos são fundados no interior das práticas, sujeitos ao mesmo tempo constituídos e constituintes do cotidiano institucional. O pensamento costuma reificar objetos e sujeitos que só existem enquanto se produzem e são produzidos dentro de determinadas práticas institucionais.

A produção de subjetividade remete fundamentalmente ao plano micropolítico, microfísico das relações instituintes e instituídas da formação no contexto institucional. Nessa perspectiva, as relações pedagógicas, terapêuticas, educativas entre a equipe dirigente e alunos internados não se configuram como relações estáticas entre polos constituídos, mas apresentam-se em permanente constituição e ordenação (plenas de vicissitudes) em constante transformação dos lugares e posições no interior das relações, numa pulverização dos lugares instituídos e instituintes.

Desse modo, não podemos conceber práticas e/ou sujeitos autônomos, pois toda prática é efetivada por relações nas quais se configuram sujeitos. Essa é a principal condição para que as instituições existam concretamente. A solidez institucional residiria nos vínculos entre os sujeitos que as fazem cotidianamente, vínculos invisíveis, microfísicos, que se plasmam em relações instituintes e instituídas no contexto institucional, podendo ser mapeadas a partir das forças e dos poderes moleculares que as permeiam.

A seguir, passaremos a descrever os operadores, os instrumentos técnicos institucionais presentes no colégio Ateneu, utilizados para a produção de subjetividade. Entendemos que os excertos do romance são expressamente analíticos por si mesmos, exemplificando os diversos modos como o poder disciplinar se organiza no estabelecimento, produzindo realidade social: arquitetura, atores sociais, discursos, saberes e técnicas políticas de gerenciamento institucional humano.

 

Operadores normalizadores constituintes do

dispositivo institucional pedagógico O plano arquitetônico pode ser considerado como importante operador de normalização. Pompéia descreve a estrutura física do colégio: tratava-se de um grande conjunto arquitetônico, preparado para funcionar como moradia coletiva para crianças e adolescentes, um internato escolar. O estabelecimento era mantido pelo pagamento de mensalidades pelas famílias dos alunos ali internados, aparecendo como uma empresa privada cuja mercadoria era a educação escolar. A primeira característica totalitária do internato Ateneu é operar por subtração, utilizando a técnica da sequestração e do enclaustramento: privação da liberdade, incidindo diretamente sobre o corpo dos educandos. A autonomia pessoal é suprimida pela imposição de uma autoridade onipotente.

O Ateneu estava situado no Rio Comprido, extremo ao chegar

aos morros. As eminências de sombria pedra e a vegetação

selvática debruçavam sobre o edifício um crepúsculo de

melancolia, resistente ao próprio sol a pino dos meios-dias de

novembro. Esta melancolia era um plágio ao detestável pavor

monacal de outra casa de educação, o negro Caraça de Minas.

Aristarco dava-se palmas desta tristeza aérea – a atmosfera

moral da meditação e do estudo, definia, escolhida a dedo para

maior luxo da casa, como um apêndice mínimo da arquitetura.

(Pompéia, 1997, p.36)

Quando Sérgio, acompanhado por seu pai, chegou ao colégio para se matricular e ingressar como internado no estabelecimento, o diretor levou-os para a “sala especial das visitas” (ibidem, p.46). Embora o autor não descreva essa sala, ela provavelmente não ficaria distante de um operador que Goffman (1987, p.91) descreve como parte do cerimonial institucional. Nessa mesma ocasião, Aristarco exibiu o colégio para Sérgio e seu pai. Pompéia (1997, p.46-7) descreve outros aspectos físicos do estabelecimento: o grande refeitório coletivo, a rouparia anexa ao lavatório, com centenas de bacias e, ao longo das paredes e pouco acima, num friso de madeira, os copos e as escovas de dente (ibidem, p.52). Prossegue ainda desenhando o estabelecimento.

A sala do professor Mânlio era ao nível do pátio, em pavilhão

independente do edifício principal, com duas outras do curso

primário, o alojamento da banda de música e o salão

suplementar de recreio, vantajoso nos dias de chuva. Formando

ângulo reto com esta casa, uma extensa construção de tijolo e

tábuas pintadas, sala geral do estudo no pavimento térreo e

dormitório em cima, concorria para fechar metade do

quadrilátero do pátio, que o grande edifício completava,

estendendo-se em duas alas, como os braços da reclusão

severa. No fundo desta caixa desmedida de paredes, dilatava-

se um areal claro, estéril, insípido como a alegria obrigatória,

algumas árvores de cambucá mostravam, em roda, a folhagem

fixa, com o verdor morto das palmas de igrejas, alourada a

esmo da senilidade dos ramos que sofrem, como se não

coubesse a vegetação no internato; a um canto, esgalgado

cipreste subia até as goteiras, tentando fugir pelos telhados.

(ibidem, p.55)

Natação chama-se o banheiro, construído num terreno das

dependências do Ateneu, vasta toalha d’água ao rés da terra,

trinta metros sobre cinco, com escoamento para o Rio

Comprido, e alimentada por grandes torneiras de chave livre. O

fundo, invisível, de ladrilho, oferecia uma inclinação, baixando

gradualmente de um extremo para outro. Acusava-se mais

ainda esta diferença de profundidade por dois degraus

convenientemente dispostos para que tomassem pé as crianças

como rapazes desenvolvidos. Em certo ponto a água cobria um

homem. Ao longo do tanque, corria o muro divisório, além do

qual ficava a chácara do diretor. À distância, viam-se as janelas

de uma parte da casa, onde às vezes eram recolhidos os

estudantes enfermos, fechadas sempre as venezianas verdes.

(ibidem, p.59-60)

[...] A cozinha do Ateneu, além dos alojamentos da copa, era

espaçosa como um salão. As paredes cintilavam o trem

completo de cobre areado, em linha as peças redondas como

uma galeria de broquéis. No centro uma comprida mesa servia

de refeitório à criadagem. (ibidem, p.105)

Os dormitórios apelidavam-se poeticamente, segundo a

decoração das paredes: salão pérola, o das crianças policiado

por uma velha, mirrada e má, que erigira o beliscão em preceito

único disciplinar, olhos mínimos, chispando, boca sumida entre

o nariz e o queixo, garganta escarlate, uma população de

verrugas, cabeça penugenta de gipaeta sobre um corpo de

bruxa; salão azul, amarelo, verde, salão floresta, dos ramos do

papel, aos quais se recolhia a classe inumerável dos médios. O

salão dos grandes, independentes do edifício, sobre o estudo

geral, conhecia-se pela denominação amena de chalé. O chalé

fazia vida separada e misteriosa. (ibidem, p.139)

No Ateneu havia também uma prisão, chamada “cafua”, que Sérgio descreve com um “asilo de trevas e do soluço, sanção das culpas enormes” (ibidem, p.74-5). Trata-se de uma espécie de “solitária”, lugar onde ficavam detidos os infratores da ordem institucional.

A prisão se localizava embaixo da casa. Fazia-se entrada pelo

saguão cimentado dos lavatórios; sentia-se uma impressão de

escuro absoluto; para os lados, à distância, brilhavam

vivamente, como olhos brancos, alguns respiradouros

gradeados daquela espécie de imensa adega. O chão era de

terra batida, mal enxuta. Impressionava logo um cheiro úmido

de cogumelos pisados. Com a meia claridade dos

respiradouros, habituando-se a vista, distinguia-se no meio uma

espécie de gaiola ou capoeira de travessões fortes de pinho.

Dentro da gaiola um banco e uma tábua pregada, por mesa.

Sobre a mesa um tinteiro de barro. Era a cafua. (ibidem, p.191)

O Ateneu é um microcosmo, um rico e complexo universo institucional. Os alunos internados são trezentos meninos e adolescentes. Há toda uma organização de lugares sociais, postos de comando, hierarquia, poder vigilante e normatizador. A equipe dirigente é formada pelo diretor, professores, inspetores e bedéis. No plano psicossocial do estabelecimento institucional, podemos encontrar um conjunto de relações intrainstitucionais: há o mundo próprios dos alunos, com seu sistema de privilégios, punições e premiações normalizadoras e as válvulas de escape da pressão institucional. Há também o mundo da equipe dirigente, com seus próprios atores institucionais e procedimentos típicos de gestão e administração da vida institucional. Vamos apresentá-los a seguir.

 

O mundo dos alunos internados

De acordo com Goffman (1987, p.99-100) o grupo dos internados numa instituição total não deve ser considerado de modo homogêneo. No Ateneu, existem várias diferenças intragrupais: os alunos podem ser divididos entre vigilantes e vigiados (Pompéia, 1997, p.61-2), efeminados e másculos (ibidem, p.53, 183-4), fortes e fracos, belos e feios, angelicais e pervertidos, leais e traiçoeiros, bolsistas (ibidem, p.147) e pagantes.

Na descrição que Rebelo faz dos colegas internados para Sérgio, podemos apreciar a divisão sexual que se produzia num colégio unissexual.

“Conte como uma desgraça ter que viver com esta gente” – E

esbeiçou um lábio sarcástico para os rapazes que passavam. –

“Aí vão as carinhas sonsas, generosa mocidade... Uns

perversos. Têm mais pecados na consciência que um confessor

no ouvido; uma mentira em cada dente, um vício em cada

polegada de pele. Fiem-se neles. São servis, traidores, brutais,

adulões. Vão juntos. Pensa-se que são amigos... Sócios de

bandalheira! Fuja deles. Fuja deles. Cheiram a corrupção,

empestam de longe. Corja de hipócritas! Imorais! Cada dia de

vida tem-lhes vergonha da véspera. Mas você é criança; não

digo tudo o que vale a generosa mocidade. Com eles mesmos

há de aprender o que são... Aquele é o Malheiro... forte como

um touro, todos o temem, muitos o cercam, os inspetores não

podem com ele; o diretor respeita-o; faz-se vista larga para os

seus abusos... Este que passou por nós, olhando muito, é o

Cândido, com aqueles modos de mulher, aquele arzinho de

quem saiu da cama, com preguiça nos olhos... ali vem o

Ribas... feio, coitadinho! Como tudo, mas uma pérola. É a

mansidão em pessoa. Primeira voz do Orfeão, uma vozinha de

moça que o diretor adora. É estudioso e protegido. Faz a vida

cantando como os serafins. Uma pérola... hoje é o primeiro dia,

ali está de joelhos o Franco. Assim atravessa as semanas, os

meses, assim o conheço nesta casa, desde que entrei. De

joelhos espiando a culpa de uma raça. O diretor chama-lhe de

cão, diz que tem calos na cara... Viu aquele da frente, que

gritou calouro? Se um dissesse o que se conta dele... aqueles

olhinhos úmidos de Senhora das Dores...Isto é uma multidão; é

preciso força de cotovelos para romper... Os gênios fazem aqui

dois sexos, como se fosse uma escola mista. Os rapazes

tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos

para o sexo da fraqueza, são dominados, festejados,

pervertidos como meninas ao desamparo...” (ibidem, p.53-4)

Sérgio, quando passou para o chalé, dormitório coletivo onde se alojam os maiores, descreveu a diversidade da população do colégio.

Depois disso, vinha a demografia especial da terceira classe, a

distribuição por famílias regulares, ou por aproximações

eventuais... Louvavam-se os exemplos de fidelidade;

comentavam-se as traições; censuravam-se as tentativas de

sedução; improvisava-se a teoria do lar e do leito; cantava-se o

hino báquico dos caprichos volantes, do entusiasmo

passageiro. Chamavam-me o Sérgio do Alves. Fazia-se a

crítica dos novos sob um ponto de vista inteiramente deles.

Apostavam a ver quem seria o primeiro, exigiam juramento de

segredo, para passar adiante alguma história que tinham por

sua vez jurado não contar a ninguém. Serviam-se mutuamente

em pasto às boas risadas, anedotas espessas, com ou sem

aplicação, conforme o pedido e o paladar do ensejo. Toda

crônica obscura do Ateneu redigia-se ali, em termos explícitos e

fortes, expurgada dos arrebiques de recato, de inverdade, pelo

escrúpulo das comissões investigadoras. O Sílvino que se

fosse! Não tinha nada com a conversa dos rapazes. Uma das

melhores máximas do chalé era esta, característica: – Fica

revogado o diretor. Havia o que afetava moderação no capricho,

conhecendo o desvio em regra, como o ladrão sabe ser

honesto no roubo; com o ar sério, espantadiço das femmes qui

sortent; havia os ingênuos, perpetuamente infantis, não fazendo

por mal, risonhos de riso solto, com o segredo de adiar a

inocência intata através dos positivos extremos, apregoando-se

por gosto, que não perdoavam à natureza o erro original da

conformação: ah! Não ser eu mulher para melhor o ser! Estes

faziam grupo à parte, conhecidos e satisfeitos com isto,

protegidos por um favor de simpatia geral, inconfessado mas

evidente, beneplácito perverso e amável de tolerância que

favoneia sempre a corrupção como um aplauso. Eles, os belos

efebos! exemplos da graça juvenil e da nobreza da linha. Às

vezes traziam pulseiras; ao banho triunfavam, nus, demorando

atitudes de ninfa, à beira d’água, em meio da coleção

mesquinha de esqueletos sem carnes nas tangas de meia, e

carnes sem forma. Havia os decaídos, portadores miseráveis

de desprezo honesto, culpados por todos os outros, gastos às

vezes antes do consumo, atormentados pela propensão de um

lado, pela repulsa de outro, mendigos de compaixão sem

esmola, reduzidos ao extremo de conformar-se

deploravelmente com a solidão. Com estes em contraposição,

os de orgulho masculino, peludos, morenos, nodosos de

músculos, largos de ossada, e outros mirrados de malícia,

insaciáveis de voz trêmula e narinas ávidas de bode, os

gorduchos de beiço vermelho relaxado, fazendo praça de uma

superioridade porque nem sempre zelaram antes da madureza

das banhas. (ibidem, p.183-4)

No plano social do Ateneu, bem distante dos ideais propostos pelo regulamento, os critérios decisivos eram, em primeiro lugar, a força, em segundo, o prestígio da riqueza, que de fora vinha precisar os contornos das diferenças individuais. No plano afetivo, as matrizes dos gestos e das palavras eram a agressividade e a libido. Para observá-los, basta ler a descrição da fauna que rodeia Sérgio: destruída a fachada que a cerimônia inicial levantara, o menino percebeu espantado uma divisão entre fortes e fracos, que os impulsos da puberdade vinha colorir de matizes sexuais. As lideranças, já entronadas pelo poder da riqueza, se erguiam sobre argumentos musculares ou etários, onde os mais fortes, os mais velhos e calejados pela vida no colégio interno, podem dominar, oprimir e explorar os recém-chegados mais novos. “Tudo conspira contra os indefesos” (ibidem, p.63).

É um universo em que não há arestas, sequer humanidade. A

força de um só encontra paralelo no poder de outro. Um

equilíbrio pelo temor. É todo um complexo social que se faz

presente, onde estes adolescentes são transformados em

pequenas feras a fazerem parte de uma estranha matilha que

se autodevora. Não há lugar para os puros (como Sérgio), para

os fracos (como Franco). Num mundo assim concebido, a

fraternidade passa a ser um indício de fraqueza. (Nunes, 1986,

p.228)

 

Sistema de privilégios: punições e premiações

normalizadoras

Podemos verificar no modo de funcionamento do Ateneu alguns elementos que consideramos como parte do sistema de privilégios (Goffman, 1987, p.49-58) que costuma existir nas instituições totais. São três os elementos básicos desse sistema: primeiro, um conjunto relativamente explícito e formal de prescrições e proibições que normatiza a conduta do internado. Essas regras costumam especificar com detalhes a rotina diária e austera da vida do internado. Segundo, contrastando com esse ambiente rígido, apresenta-se um pequeno número de prêmios ou privilégios claramente definidos, obtidos em troca de obediência, em ação e espírito, à equipe dirigente. Terceiro, o elemento castigo está integrado no sistema de privilégios. Os castigos são definidos como consequências de desobediência às regras. Um conjunto de tais castigos é formado pela recusa ou retirada, temporária ou permanente, de privilégios ou ainda pela eliminação do direito de adquiri-los.

Vamos enumerar e comentar a seguir alguns elementos do sistema de privilégios presentes no Ateneu. Havia um salão de estudos comum onde cada aluno possuía um espaço privativo pessoal.

Era a sala geral do estudo, à beira do pátio central, uma peça

incomensurável, muito mais extensa do que larga. De uma das

extremidades, quem não tivesse extraordinária vista custaria a

reconhecer outra pessoa na extremidade oposta. À parede, em

frente, perfilavam-se grandes armários com portas numeradas,

correspondentes a compartimentos fundos: depósito de livros.

Livros é o que menos se guardava em muitos compartimentos.

O dono pregava um cadeado à portinha e formava o interior à

vontade. [...] eu tive a ideia de armar em capela o

compartimento do meu número. (Pompéia, 1997, p.79)

Esse espaço privado onde se podem guardar coisas pessoais de modo inviolável é considerado por Goffman (1987, p.204-8) como um direito que se perde numa instituição total. A posse de bens pessoais dificulta a eficiência institucional e os internados estão constantemente tentando garantir algum espaço onde possam manter bens pessoais a salvo dos demais, pois esses bens representam uma extensão do “eu”, e os “reservatórios” de bens pessoais representam sua autonomia.

As saídas do colégio para os alunos eram de quinze em quinze dias. Havia também saídas extraordinárias, concedidas como prêmio ou obséquio. Essas saídas eram obtidas mediante um sistema de recompensas pelo bom desempenho escolar, que funcionava como o sistema de privilégios visando a reorganização subjetiva do indivíduo: a criança deveria se tornar um “aluno”, personagem institucional, corpo dócil e disciplinado, submisso à autoridade escolar. O professor dava cartão amarelo ao aluno que fazia bem uma lição. Dez cartões valiam um cartão impresso “boa nota”. Dez cartões de “boa nota” valiam um diploma que, por sua vez, tornava o aluno candidato a uma medalha de ouro ou de prata no final do curso. Pompéia (1997, p.97) avalia com ironia esse processo de recompensas, sem nenhum critério de justiça que o garanta. O cartão de “boa nota” podia ser usado para comprar uma saída extra. Sérgio nunca alcançava essas saídas de prêmio com seu mau desempenho escolar. Ainda havia um prêmio extraordinário para os alunos com excelente desempenho acadêmico: “Melhor que a prerrogativa do estudo era uma espécie de prêmio não catalogado nos estatutos, com que Aristarco gentilmente obsequiava os distintos. Levava-os a jantar em sua casa, uma honra!” (ibidem, p.175).

Também podemos verificar funcionando no Ateneu aquilo que Goffman (1987, p.54) denomina “sistema de ajustamentos secundários”: operador constituído por práticas que não desafiam diretamente a equipe dirigente, mas permite que os internados obtenham satisfações proibidas, ou consigam, por meios proibidos, as satisfações permitidas. O colégio não apenas fornece acesso à produção cultural social, como seu funcionamento disciplinar visa produzir um indivíduo sujeitado. Seu treinamento físico, seu comportamento cotidiano, sua atitude moral, suas disposições, tudo é assumido pela educação no internato: educação total que, mediante uma modelagem microfísica, busca uma produtiva recodificação da existência do indivíduo.

Pompéia (1997, p.99) comenta, de modo mais ou menos velado, como “a mocidade ia transigindo do melhor jeito com as bicudas imposições das circunstâncias” e que “as máximas, o diretor e a inspeção dos bedéis eram três espinhos”, comparando o ambiente colegial com um ouriço invertido.

Há outros elementos que podem ser considerados como parte do sistema de ajustamentos secundários, como a solidariedade entre os internados: “não denunciar nunca é preceito sagrado de lealdade no colégio” (ibidem, p.132). No caso dos cacos de vidro espalhados na piscina da natação (ibidem, p.88), Sérgio mente para o diretor, mas não consegue denunciar Franco. Quando Egbert fica envolvido no “caso Cândida”, Sérgio sente-se solidário com ele e nunca toca no incidente desagradável com o amigo (ibidem, p.173).

Exemplo de ajustamento secundário pode ser encontrado ainda no fato de os alunos maiores escaparem escondidos do dormitório coletivo para tomar a fresca no jardim do diretor, durante à noite.

Com o tempo vim a descobrir que uma camarilha de espertos

conseguira sofismar alguns paus da grade da última janela, três

ou quatro leitos além do meu, e passavam de noite, quando o

silêncio se fazia, a tomar fresco no jardim do diretor. Preferiam

as noites escuras, que têm mais estrelas e mais segredo, e

preferiam as noites de chuva, que em questão de fresco são

decisivas. Desciam por uma corda de lençóis torcidos e

voltavam às vezes como pintos, mas refrescados sempre. Por

medida de prudência, não passavam mais de dois por noite,

fazendo sentinela um na ausência do outro. (ibidem, p.185-6)

Quando Sérgio descobre a esperteza e a ousadia dos colegas, sente-se incomodado com a liberdade secreta deles, sente-se roubado de um privilégio. Pensa em entregar todos ao Silvino, inspetor encarregado do dormitório dos grandes (ibidem, p.182). Planejava

[...] trair merecidamente os traidores. Medi as objeções: além de

feia delação de voluntário da espionagem, podia ser asneira.

Talvez soubessem todos, menos eu, simplesmente por estar de

pouco na terceira classe. Experimentei. Conservei-me acordado

até a hora, com uma paciência e um esforço de caçador de

emboscada. No momento flagrante, ergui-me na cama,

esfregando os olhos, fingindo-me admirado. Não houve remédio

senão iniciar-me. Os dois da noite contaram. O Malheiro era o

chefe da troça, uma troça de nove, muito discretos, muito

hábeis, também quem traísse apanhava. [...] Sempre que por

acaso algum rapaz surpreendia os expedicionários da frescata,

era incontinenti aliciado para as vantagens e sob as ameaças.

(ibidem, p.186)

No Ateneu também havia mercado negro. Sérgio descreve com detalhes seu funcionamento:

Depois havia os jogos de parada, em que circulavam como

preço as penas, os selos postais, os cigarros, o próprio

dinheiro. As especulações moviam-se como o bem conhecido

ofício das corretagens. Havia capitalistas e usurários, finórios e

papalvos idiotas que se encarregavam de levar ao mercado

com a facilidade de que dispunham fora do colégio,

fornecimentos inteiros de Mallats e Guillots que os hábeis

limpavam com a gentileza dos figurões da bolsa, e selos

inestimáveis que os colecionadores desmereciam para tirar sem

susto; fumantes ébrios de fumo alheio, adquirido facilmente no

movimento da praça, repimpados à turca sobre os coxins da

barata fartura. As transações eram proibidas pelo código do

Ateneu. Razão demais para interessar. Da letra da lei,

incubados sob a pressão do veto, surgiam outros jogos, mais

expressamente característicos, dados que espirravam como

pipocas, naipes em leque, que se abriam orgulhosos dos belos

trunfos... roletas miúdas de cavalinhos de chumbo; uma aluvião

de fichas em cartão, pululantes como os dados e coradas como

os padrões do carteiro. A principal moeda era o selo. Pelo

sinete da posta dava-se tudo. Não havia prêmios de lição que

valessem o mais vulgar daqueles cupons servidos. Sobre este

preço, permutavam-se os direitos do pão, da manteiga ao

almoço, da sobremesa, as delícias secretas da nicotina, o

próprio decoro pessoal de si. No comércio do selo é que fervia

a agitação de empório, contratos de cobiça, de agiotagem, de

esperteza, de fraude. Acumulavam-se valores, circulavam,

frutificavam, conspiravam os sindicatos, arfava o fluxo, o refluxo

das altas e das depreciações. Os inexpertos arruinavam-se, e

havia banqueiros atilados, espapando banhas de prosperidade.

(ibidem, p.132-5)

O “microcosmo de atividade subterrânea” reunia-se no salão de estudos.

A sala geral do estudo, comprida, com as quatro galerias de

carteiras e a parede oposta de estantes e a tribuna do inspetor,

era um microcosmo de atividade subterrânea. Estudo era

pretexto e aparência, as encadernações capeavam mais a

esperteza do que os próprios volumes. A certas horas, reunia-

se ali o colégio inteiro, desde os elementos de primeiras letras

até os mais adiantados cursos. Agrupavam-se por ordem de

habilitações; o abc diante da porta de entrada, à direita; à

extrema esquerda, os filósofos, cogitadores do Barbe, os

latinistas abalizados, os admiráveis estudantes do alemão e do

grego. Baralhavam-se as três classes de idades... Dependia

tudo do adiantamento. (ibidem, p.136)

Os alunos internados do Ateneu, para burlar a vigilância e se comunicarem, utilizavam

[...] os telégrafos e a correspondência de mão em mão. Os fios

telegráficos eram da melhor linha de Alexandre 80, sutilíssimos

e fortes, acomodados sob a tábua das carteiras, mantidas por

alças de alfinete. Em férias desarmavam-se. Dois amigos

interessados em comunicar-se estabeleciam o aparelho; a cada

extremidade, um alfabeto em fita de papel e um ponteiro

amarrado ao fio; legítimo Capanema. Tantas as linhas, que as

carteiras vistas de baixo apresentavam a configuração

agradável de cítaras encordoadas, tantas, que às vezes

emaranhava-se o serviço e desafinava a cítara dos recadinhos

em harpa de carcamano. (ibidem, p.136)

O telégrafo escrito tinha uma desvantagem: não servia no escuro da noite. Para resolver o problema, inventaram o “telégrafo-martelinho. Tantas pancadinhas, tal letra; tantas mais tantas menos, tais outras” (ibidem, p.137). Mas o inspetor encarregado da vigilância desconfiou dos ruídos que ouvia e destruiu, furioso, todo o equipamento dos garotos. “A violência não fez mais que aumentar o tráfego dos bilhetinhos e suspender temporariamente a telegrafia. De mão em mão como as epístolas, corriam os periódicos manuscritos e os romances proibidos” (ibidem, p.137). Nesses periódicos, os alunos destilavam todo seu desprezo pelos colegas e autoridades do colégio. Os romances versavam sobre a luxúria e lutas pelo poder e dinheiro no mundo exterior.

Segundo Goffman, (1987, p.63-6), a vida no contexto institucional ainda produz alguns efeitos específicos no grupo dos internados. Efeitos que não estão previstos nos objetivos oficiais do estabelecimento e que acrescentam novos problemas para a equipe dirigente. Costumam surgir no grupo dos internados uma percepção particular do tempo, tal como nos mostra Sérgio.

O tédio é a grande enfermidade da escola, o tédio corruptor que

tanto se pode gerar da monotonia do trabalho como da

ociosidade. Tínhamos em torno da vida o ajardinamento em

floresta do parque e a toalha esmeraldina do campo e o

diorama acidentado das montanhas da Tijuca, ostentosas em

curvatura toráxica e frentes felpudas de colosso; espetáculos de

exceção, por momentos, que não modificavam a secura branca

dos dias, enquadrados em pacote nos limites do pátio central,

quente, insuportável de luz, ao fundo daquelas altíssimas

paredes do Ateneu, claras da caiação, do tédio, claras, cada

vez mais claras. Quando se aproximava o tempo das férias, o

aborrecimento é maior. Os rapazes, em grande parte dotados

de tendências animadoras para a vida prática forjivavam mil

meios de combater o enfado e a monotonia. A folgança fazia

época como as modas, metamorfoseando-se depressa como

uma série de ensaios. (Pompéia, 1997, p.133)

Nessa vida reclusa, podemos constatar também o valor das distrações para os alunos internados.

A peteca não divertia mais, palmeada com estrépito, subindo

como um foguete, caindo a rodopiar sobre o cocar de penas?

Inventavam-se as bolas elásticas. Fartavam-se de borracha?

Inventavam-se pequenas esferas de vidro. Acabavam-se as

esferas? Vinham os jogos de salto sobre um tecido de linhas de

giz no soalho, ou riscadas a prego na areia, a amarela, e toas

as suas variantes, primeira casa, segunda casa, terceira casa,

descanso, inferno, céu, levando-se à ponta de pé o seixozinho

chato em arriscada viagem de pulos. Era depois a vez dos

jogos de corrida, entre os quais figurava notavelmente o

chicote-queimado. Variavam os aspectos da recreação, o pátio

central animava-se com a revoada das penas, o estalar elástico

das bolas, passando como obuses, ferindo o alvo em pontaria

amestrada, o formigamento multicor das esferas de vidro pela

terra, com a gritaria de todas as vozes do prazer e do alvoroço

(ibidem, p.133)

 

O bode expiatório: válvula de escape das

pressões institucionais

Como todo sistema que vive oscilando à beira do desequilíbrio, o Ateneu também tem suas válvulas de escape. A figura agoniada de Franco, o rebelde permanentemente castigado e igualmente reincidente, é um exemplo de bode expiatório, no qual todos exorcizam a má consciência que os aguilhoa em meio a tantas contradições. Já no primeiro dia de aula, Franco estava de castigo, ajoelhado no chão (Pompéia, 1997, p.53). Rebelo comentou com Sérgio.

Se [Franco] não tivesse calos no joelho, não haveria canto do

Ateneu que ele não marcasse com o sangue de uma

penitência. O pai é do Mato Grosso; mandou-o para aqui com

uma carta em que recomendava como incorrigível, pedindo

severidade. O correspondente envia de tempos a tempos um

caixeiro que faz os pagamentos e deixa lembranças. Não sai

nunca... (ibidem, p.54)

[O Franco] sempre de penitência; em pé, cara contra a parede.

Como Silvino dava-lhe as costas, divertia-se a pegar moscas

para arrancar a cabeça e ver morrer o bichinho na palma da

mão. Perguntei-lhe porque estava de castigo. Sem olhar, de

mau modo: “Lá sei! disse ele. Porque me mandaram”. E

continuou a pegar moscas. Franco era um rapazola de quatorze

anos, raquítico, de olhos pasmados, face lívida, pálpebras

pisadas. À fronte, com a expressão vaga dos olhos e

obliquidade dolorida dos supercílios, pousava uma névoa de

aflição e paciência, como se vê no Flos Sanctorum. A parte

inferior do semblante rebelava-se; um canto dos lábios franzia-

se em contração constante de odiento desprezo. Franco não ria

nunca. Sorria apenas, assistindo a uma briga séria.

Interessando-se pelo desenlace como um apostador de rinha,

enfurencendo-o quando apartavam. Uma queda alegrava-o,

principalmente perigosa... (ibidem, p.56)

Como os criminosos, os loucos e as prostitutas que são apontados e condenados pela repulsa geral, procurando de algum modo esconjurar as tentações de ódio e perversão que assediam as almas de todos, Franco era escarmentado pelo colégio em peso:

[...] Vivia isolado no círculo da excomunhão com que o diretor,

invariavelmente, o fulminava todas as manhãs, lendo no

refeitório perante o colégio as notas da véspera. Os professores

já sabiam. À nota do Franco, sempre má, devia seguir-se

especial comentário deprimente, que a opinião esperava e

ouvia com delícia, fartando-se de desprezar. Nenhum de nós

como ele! E o zelo do mestre cada dia retemperava o velho

anátema. Não convinha expulsar. Uma coisa destas aproveita-

se como um bibelô do ensino intuitivo, explora-se como a

miséria do ilota, para a lição fecunda do asco. A própria

indiferença da vítima é útil. Três anos havia que o infeliz, num

suplício de pequeninas humilhações cruéis, agachado, abatido,

esmagado, sob o peso das virtudes alheias mais que das

próprias culpas, ali estava, – cariátide forçada no edifício de

moralização do Ateneu, exemplar perfeito da depravação

oferecido ao horror santo dos puros... ‘Nenhum de nós como

ele’ – é o alívio dos alunos reunidos à hora em que se leem os

boletins de notas. (ibidem, p.56)

Deixar-se morrer doente e preso na cafua foi alternativa que Franco encontrou para se vingar de todos e assim, alcançar a liberdade. A estratégia de intransigência (Goffman, 1987, p.60) de Franco, pela qual desafiava intencionalmente o estabelecimento, negando-se de modo visível a cooperar com os dirigentes, produziu como efeito direto o zelo especial do diretor e de sua equipe para com o rebelde.

 

O mundo da equipe dirigente

O diretor foi descrito de modo caricaturesco por Pompéia/Sérgio, realçando seus traços negativos. Aristarco, tipo consumado do empresário da educação, mestre na arte da pose e da autopromoção, vendia uma imagem idealizada do seu negócio.

Nas ocasiões de aparato é que se podia tomar pulso ao

Continuar: parte 2 de 5