A Magia de Holy Wood
O Bar Se Esvaziou
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Meu m arido não ia sair da cadeira se eu tivesse sendo cum ida por dragões — disse a m ulher m agra. Ela cutucou Ginger de leve.
— Mas é m elhor você usar m ais roupa, m ocinha. Da próxim a vez que for levada para ser salva, você insiste pra te deixarem levar um casaco quentinho. Nunca te vej o na tela sem pensar com igo m esm a: "Ela tá arriscando pegar um resfriado, andando por aí desse j eito".
— Cadê a espada dele? — perguntou a criança, chutando a m ãe na canela.
— Im agino que ele vá buscar pessoalm ente — Ela respondeu, dando um sorriso encoraj ador para Victor.
— É... Sim — Ele respondeu. — Venha, Ginger. — Ele pegou a m ão dela.
— Abram espaço pro rapaz — gritou o fum ador de cachim bos num tom autoritário.
Um espaço foi aberto em volta deles. Ginger e Victor viram centenas de expressões de expectativa os observando.
— Eles acham que som os reais — lam entou-se Ginger. — Ninguém está fazendo nada porque pensam que você é um herói, pelo am or dos deuses! e não podem os fazer nada! essa Coisa é m aior que nós dois! Victor baixou a cabeça e olhou para os paralelepípedos úm idos. "é possível que eu m e lem bre de algum a m agia", pensou, "m as m agia com um não têm efeito contra as Dim ensões do Calabouço. E tenho certeza de que heróis de verdade não ficam parados no m eio de m ultidões anim adas. Eles seguem seu trabalho. Heróis de verdade são com o o pobre Gaspode. As pessoas só percebem que eles existem depois que está tudo acabado. A realidade é assim ." Ele levantou a cabeça lentam ente.
"Será que isto é m esm o a realidade?" O ar estalava. Havia outro tipo de m agia. Ela se espalhava de m odo desenfreado pelo m undo, com o um film e em pedaços. Se pelo m enos ele conseguisse apanhá-la...
A realidade não tinha que ser real. Talvez, nas condições certas, só tivesse que ser o que as pessoas acreditassem ...
— Afaste-se — sussurrou.
— O que você vai fazer? — perguntou Ginger.
— Tentar um pouco de m agia de Holy Wood.
— Holy Wood não tem nenhum tipo de m agia!
— Eu ... acho que tem . Um tipo diferente. Nós j á sentim os. A m agia está onde você a encontra.
Ele respirou fundo algum as vezes e deixou a m ente se soltar devagar. Esse era o segredo. Era preciso fazer sem pensar que estava fazendo. Era só deixar as instruções virem de fora. Era um trabalho. Era só sentir o olho da caixa de im agens voltado para você, e o m undo ficava diferente, um m undo que não passava de um quadrado prateado trem eluzindo.
Esse era o segredo. A oscilação.
A m agia com um apenas m ovia as coisas de seu lugar. Ela não podia criar algo de verdade que durasse por m ais de um segundo porque seria preciso m uito poder para isso.
Mas Holy Wood criava coisas com facilidade m uitas e m uitas vezes, dúzias de vezes por segundo. Elas não tinham que durar m uito. Só tinham que durar pelo tem po suficiente.
Mas era preciso fazer a m agia de Holy Wood usando as regras de Holy Wood...
Ele estendeu a m ão firm e com o um a rocha na direção do céu escuro.
—Luz! Houve um a cam ada de relâm pagos que ilum inou a cidade inteira...
— Caixa de im agem ! Gaffer girou a m anivela furiosam ente.
—Ação! Ninguém viu de onde veio o cavalo. Ele sim plesm ente estava ali, saltando acim a das cabeças na m ultidão. Era branco, com m uitos enfeites prateados no cabresto. Victor pulou para cim a da sela quando ele passou a m eio-galope, depois fez com que ele em pinasse de m aneira im pressionante e batesse as patas no ar. Puxou um a espada que não estava ali no m om ento anterior.
A espada e o cavalo trem eluziam de form a quase im perceptível. Victor sorriu. A luz refletiu num dente. Ting. Um reflexo, m as sem som . O som ainda não tinha sido inventado.
Acreditar. Esse era o cam inho. Nunca parar de acreditar. Enganar os olhos é enganar o cérebro.
Depois ele passou galopando entre as filas de espectadores, que o incentivavam com gritos e aplausos, e seguiu em direção à Universidade e ao grande cenário.
O operador de m anivelas relaxou. Ginger deu um tapa em seu om bro.
— Se você parar de girar essa m anivela — com eçou, delicada —, eu quebro o seu m aldito pescoço.
— Mas ele j á está quase fora de alcance...
Ginger o em purrou até a velha cadeira de rodas de Windle Poons e deu um sorriso para ele que fez pequenos traços de cera evaporar por suas orelhas.
— Com licença — pediu, num a voz provocante que fez todos os m agos torcer os dedos dos pés dentro dos sapatos pontudos —, poderíam os tom á-lo em prestado por um m inuto?
— Ueba! em purra com j eitinho! ... whum m ... whum m ...
Ponder Stibbons sabia do vaso, é claro. Todos os alunos tinham passado por ele para dar um a olhada.
Ele não prestou m uita atenção quando passou escondido pelo corredor na tentativa de conseguir um a noite de liberdade.
... whum m whum m WHUMMWHUMMWHUMM —whum m .
Ele só precisava pegar um atalho pelos claustros e...
PLIB.
Todos os oito elefantes de cerâm ica atiraram balas de chum bo ao m esm o tem po. O resógrafo explodiu, transform ando o teto em algo parecido com um saleiro. Um ou dois m inutos depois, Ponder se levantou com m uito cuidado. Seus chapéu era apenas um conj unto de buracos unidos por linhas. Um a de suas orelhas tinha ficado sem um pedaço.
— Eu só queria um a bebida — Ele disse, confuso. — O que há de errado nisso? O bibliotecário se agachou sobre a abóbada da Biblioteca, vendo as m ultidões correrem pelas ruas enquanto a figura m onstruosa se aproxim ava aos trancos.
Ele estava levem ente surpreso ao ver que atrás dela vinha um a espécie de cavalo fantasm a cuj os cascos não faziam nenhum som nos paralelepípedos. E aquilo era seguido por um a cadeira de três rodas que virou a esquina sobre duas rodas apenas, soltando faíscas pelo cam inho. Ela estava carregada de m agos, todos se esgoelando. De vez em quando, um deles se soltava e tinha que correr até atingir velocidade suficiente para pular em cim a dela novam ente. Três deles não tinham conseguido subir. Isto é, um deles tinha feito esforço suficiente para segurar firm e na capa de couro que ficava na parte de trás e outros dois conseguiram se agarrar no m anto do que estava na frente, de m odo que, toda vez que a cadeira fazia um a curva, um a cauda de três m agos gritava "aaaaahh" e voava sem controle para o outro lado da rua.
Havia tam bém um grande núm ero de civis, m as, para dizer a verdade, eles gritavam m ais alto que os m agos.
O bibliotecário havia visto m uitas coisas estranhas durante seu tem po de serviço, m as aquela era sem dúvida a 57ª m ais estranha. (Ele tinha uma mente organizada.) Lá de cim a, conseguia ouvir as vozes com clareza.
— ... não pode parar de girar! E a m agia de Holy Wood! Ele está fazendo ela funcionar no m undo real! — Era a voz de um a garota.
— Está bem , m as os diabinhos ficam m uito m al-hum orados se... — Essa era a voz de um hom em sob pressão extrem a.
— Danem -se os diabinhos! — Com o ele consegue produzir um cavalo? — Esse era o decano. O bibliotecário reconheceu o choram ingo. — Isso e m agia de prim eira!
— Não é um cavalo de verdade, é um cavalo de im agens anim adas. — A garota novam ente. — Você! Você está quase parando! — Não estou! Não estou! Olha, estou girando a m anivela, estou girando a m anivela! — Ele não pode cavalgar um cavalo que não é de verdade! — Você é m ágico e realm ente acha isso?.
— Mago, na verdade.
— Bom , que sej a. Esse não é o seu tipo de m agia.
O bibliotecário concordou com a cabeça e depois parou de ouvir. Tinha outras coisas a fazer.
A Coisa estava quase da m esm a altura da Torre de Arte e logo viraria para seguir em direção à Biblioteca. As Coisas sem pre tinham com o alvo a fonte de m agia m ais próxim a. Elas precisavam disso.
O bibliotecário encontrara um a lança de ferro longa num a das despensas deterioradas da Universidade. Ele a segurou com cuidado, com um pé, enquanto soltava a corda que am arrara ao catavento. Ela se estendia até o alto da Torre. Tinha passado a noite toda arm ando aquilo.
Ele exam inou a cidade abaixo e depois socou o peito, urrando: — AaaaAAAaaaAAA... hnhg, hngh.
"Talvez os socos não fossem totalm ente necessários", pensou, enquanto esperava o burburinho parar e os feixes de luz desaparecerem . Ele segurou a lança com firm eza, pegou a corda com a outra m ão e pulou. A m aneira m ais clara de descrever a traj etória do bibliotecário entre os prédios da Universidade Invisível é sim plesm ente transcrever os ruídos feitos durante o vôo.
Prim eiro: AaaAAAaaaAAAaaa. Essa parte dispensa explicações e se refere ao com eço do m ovim ento, quando tudo parecia ir bem .
Depois: Aaarghhh. Esse foi o barulho feito quando errou a Coisa oscilante por alguns m etros e com eçou a perceber que, se a corda foi am arrada no topo de um a torre de pedra m uito alta e sólida e ele estava voltando na direção dela, não ter acertado algo na ida havia sido um erro a ser lam entado pelo resto da vida. A corda com pletou seu m ovim ento. Houve um barulho igual ao de um saco de borracha cheio de m anteiga batendo num a laj e de pedra, que foi seguido — um ou dois segundos depois — por um "oook" bem baixinho. A lança caiu ressoando em algum lugar na escuridão. O bibliotecário ficou com os m em bros esticados com o um a estrela-do-m ar presa na parede, cravando os dedos das m ãos e dos pés em todas as fendas ao seu alcance. Ele poderia ter conseguido descer, m as essa opção nunca chegou a se concretizar porque a Coisa estendeu a m ão trem eluzente e o arrancou da parede, produzindo um som com o o de um desentupidor de pia rem ovendo um a obstrução difícil.
Ela o segurou perto do que era, naquele m om ento, seu rosto. A m ultidão seguiu para a praça em frente à Universidade Invisível, com os Dibblers à frente.
— Olhe para eles — suspirou Cava-A-Própria-Cova. — Deve haver m ilhares de pessoas, e não tem ninguém vendendo nada.
A cadeira de rodas deslizou até parar, lançando m ais um a raj ada de faíscas. Victor estava esperando por ela com o cavalo espectral em baixo dele. Não um cavalo, m as um a sucessão de cavalos. Não em m ovim ento, m as m udando de um quadro a outro.
Mais um relâm pago brilhou no céu.
— O que ele está fazendo? — perguntou o presidente.
— Tentando evitar que a Coisa chegue à Biblioteca — respondeu o decano, olhando através da chuva que com eçava a bater nos paralelepípedos. — Para perm anecerem vivas na realidade, as Coisas precisam de m agia. Elas não têm nenhum cam po m orfogênico natural, entende, e...
— Faça algum a coisa! Exploda ela com m agia! — gritou Ginger. — Oh! Coitadinho daquele m acaco! — Não podem os usar m agia! É com o derram ar petróleo no fogo! — disse o decano, nervoso. — Alem disso... não sei com o explodir um a m ulher de 15 m etros. Não é o tipo de coisa que j á tenham m e pedido para fazer.
— Não é um a m ulher! É... é um a criatura dos film es, seu idiota! Você acha m esm o que eu sou tão grande assim ? — gritou Ginger. — Ela está usando Holy Wood! É um m onstro de Holy Wood! Da terra dos film es.
— Dirige direito, por deuses! Dirige direito!
— Mas eu não sei com o!
— É só j ogar o seu peso para os lados! O tesoureiro apertou o cabo da vassoura com nervosism o. “É m uito fácil para você falar", pensou. "Você está acostum ado." Eles tinham acabado de sair do Grande Salão quando um a m ulher gigante passou cam baleando pelo portão com um sím io tagarela na m ão. Agora o tesoureiro tentava controlar um a vassoura antiga do m useu da Universidade com um louco exaltado atrás dele tentando carregar um a besta.
"Pelo ar", o arquirreitor havia dito. Era absolutam ente essencial que estivessem num transporte aéreo.
— Você não consegue m anter um a linha reta? — perguntou o arquirreitor.
— Ela não foi feita para duas pessoas, arquirreitor! — Não consigo m irar com você balançando pelo céu desse j eito, hom em ! O espírito contagioso de Holy Wood, correndo pela cidade com o um cabo de aço de navio cuj a ponta foi cortada de repente, atravessou m ais um a vez a m ente do arquirreitor.
— Não podem os abandonar a nossa gente — resm ungou.
— Nossos sím ios, arquirreitor — corrigiu o tesoureiro autom aticam ente. A Coisa seguia na direção de Victor. Estava irrequieta, lutando contra as forças da realidade que não paravam de puxá-la. Ela trem eluzia quando tentava m anter a form a com a qual entrara no m undo, de m aneira que as im agens de Ginger se alternavam com vislum bres de algo que se retorcia e espiralava. Ela precisava de m agia.
Encarou Victor e a espada e, se é que era capaz de algo tão sofisticado quanto saber, ela sabia que estava vulnerável.
Virou-se e foi na direção de Ginger e dos m agos, que se fizeram em cham as. O decano queim ou num tom particularm ente azul.
— Não se preocupe, j ovem — disse o presidente, do centro da cham a. — É um a ilusão, não é de verdade.
— Você vem dizer isso pra m im ? — perguntou Ginger. — Andem logo com isso! Os m agos se m overam para a frente.
Ginger ouviu passos atrás dela. Eram os Dibblers.
— Por que ela está com m edo das cham as? — perguntou Soll, e a Coisa recuou diante dos m agos, que avançavam . — E só ilusão. Ela deve sentir que não tem calor.
Ginger balançou a cabeça. Ela parecia surfar num a onda de histeria, talvez porque não é todo dia que se vê um a im agem gigante de si m esm o esm agando um a cidade.
— Ela usou a m agia de Holy Wood. Então não pode desobedecer às regras de Holy Wood. Ela não tem tato nem audição. Apenas visão. O que ela vê é o que é real. E film e tem m edo de fogo.
Agora a Ginger gigante estava pressionada contra a torre.
— Bom , ela está encurralada — observou Dibbler. — Eles a pegaram . A Coisa se assustou com as cham as que avançavam . Ela se virou. Estendeu o braço com a m ão que estava livre e com eçou a subir na torre. Victor desceu do cavalo e parou de se concentrar. Ele desapareceu.
Apesar do pânico, encontrou espaço para se vangloriar um pouco. Se os m agos tivessem ido aos cliques, saberiam exatam ente com o fazer aquilo. Era a frequência de fusão crítica. Até m esm o a realidade tinha um a. Se você conseguisse fazer algo existir apenas por um a pequena fração de segundo, não significava que havia falhado. Significava que tinha que continuar fazendo. Ele correu com o um caranguej o j unto à base da torre, olhando para cim a, para a Coisa que subia. Tropeçou em algo m etálico: a lança do Bibliotecário. Um pouco m ais adiante, a ponta da corda se arrastava num a poça. Ficou olhando para ela por um m om ento, depois usou a lança para cortar alguns m etros da corda e fazer um a alça de om bro im provisada para a arm a. Ele segurou a corda, deu um puxão experim ental e depois... Havia um a falta de resistência desagradável diante do puxão. Ele se j ogou para trás, pouco antes de centenas de m etros de corda m olhada caírem bruscam ente no pavim ento.
Ele olhou em volta desesperado, procurando um a outra rota para o alto. Os Dibblers assistiam de boca aberta enquanto a Coisa escalava a torre. Ela não se m ovim entava m uito rápido e, de vez em quando, tinha que prender o bibliotecário tagarela num a cavidade conveniente para encontrar a próxim a base para a m ão, m as estava subindo.
— Ah, sim . Sim . Sim — suspirou Soll. — Que im agem ! Cinem atógrafo de prim eira! — Um a m ulher gigante carregando um sím io aos berros num a construção enorm e — suspirou Dibbler. — E nem tem os que pagar salários! — É — concordou Soll.
— É... — disse Dibbler. Havia um leve toque de incerteza em sua voz. Soll parecia pensativo.
— É — repetiu. — E...
— Sei o que você quer dizer — disse Dibbler, devagar.
— É... quer dizer, é ótim o m esm o, m as... bem ... não consigo deixar de sentir...
— É. Tem algum a coisa errada — concordou Dibbler de form a categórica.
— Não errada — discordou Soll, desesperado. — Não exatam ente errada. Não errada propriam ente. Está apenas faltando... — Ele parou, sem encontrar as palavras. Ele suspirou. E Dibbler suspirou. Acim a deles, um trovão ressoou. E do céu surgiu um a vassoura com dois m agos aos berros.
Victor abriu a porta da base da Torre de Arte.
Estava escuro lá dentro, e ele podia ouvir água pingando do telhado distante. Acreditava-se que a torre fosse a construção m ais antiga do m undo. Ela realm ente dava essa im pressão. Não era m ais usada para nada, e os pisos internos tinham apodrecido havia m uito tem po. Sendo assim , tudo o que restara do lado de dentro era a escadaria. Era construída em espiral, form ada por laj es im ensas presas na própria parede. Algum as estavam faltando. Seria um a escalada perigosa até m esm o à luz do dia.
No escuro... sem chance.
A porta se abriu com força atrás dele, e Ginger entrou com passos firm es, arrastando o operador de m anivelas atrás dela.
— E aí? Vai logo, você tem que salvar aquele pobre m acaco.
— Sím io — corrigiu Victor, distraído.
— Que sej a.
— Está escuro dem ais — m urm urou Victor.
— Nunca está escuro dem ais nos cliques — afirm ou Ginger categoricam ente. — Pense nisso.
Ela cutucou o operador de m anivela, que disse, m uito rápido: —Ela tá certa. Nunca tá escuro nos cliques. Faz sentido. Você tem que ter luz suficiente para ver o escuro.
Victor ergueu a cabeça para as trevas e depois de volta para Ginger.
— Ouça! — com eçou, apressado. — Se eu... se algum a coisa der errado, diga aos m agos sobre a... você sabe. A sala de espetáculos. As Coisas vão tentar abrir cam inho por ali tam bém .
— Eu não volto m ais lá! — Houve o estrondo de um trovão.
— Vai logo! — gritou Ginger, pálida. — Luz! Caixa de im agem ! Ação! E coisas do tipo! Victor rangeu os dentes e saiu correndo. Havia luz suficiente para dar form a à escuridão, e ele pulou de degrau em degrau com a m agia de Holy Wood recitando sua ladainha dentro de sua cabeça.
— Tem que haver luz suficiente — Ele estava ofegante — para se ver a escuridão.
Ele avançava cam baleando.
— E em Holy Wood eu nunca perco a força — acrescentou, na esperança de que suas pernas acreditariam nele.
Isso deu conta da volta seguinte.
— E em Holy Wood eu tenho que aparecer no m om ento exato — gritou. Ele se apoiou na parede por um m om ento e tentou retom ar o fôlego.
— Sem pre no m om ento exato — m urm urou. E novam ente com eçou a subir correndo.
As laj es passavam sob seus pés com o um sonho, com o quadros de film e clicando através da caixa de im agem .
E ele chegaria no m om ento exato. Milhares de pessoas sabiam que chegaria.
Se os heróis não chegassem no m om ento exato, qual era o sentido das coisas? e...
Não havia laj e na frente do seu pé, que caía.
O outro pé j á se arqueava para deixar o degrau.
Ele concentrou cada gram a de energia num único esforço para estender um tendão, sentiu seu dedo do pé tocar a laj e seguinte, se atirou para a frente e depois pulou de novo, porque era ou isso, ou quebrar um a perna.
— Isto é loucura.
Ele avançou correndo, se esforçando para antecipar m ais laj es inexistentes.
— Sem pre no m om ento exato — m urm urou.
Então que tal parar para descansar? Ainda assim ele conseguiria chegar no m om ento exato. Era isso o que significava m om ento exato... Não. Era preciso j ogar lim po.
Havia m ais um a laj e faltando logo adiante.
Ele olhou para o espaço obscuro.
Haveria um a torre inteira pela frente.
Ele se concentrou rápido e pulou para o nada. O nada se transform ou num a laj e pela fração de segundo de que ele precisava para pular para a seguinte. Ele abriu um sorriso na escuridão, e um a faísca de luz brilhou num dente. Nada que fosse criado pela m agia de Holy Wood era real por m uito tem po. Mas era possível torná-lo real por tem po suficiente.
Viva Holy Wood.
A Coisa trem eluzia m ais devagar agora, passando m enos tem po com o a versão gigantesca de Ginger e m ais tem po parecendo os conteúdos do sifão da pia de um em palhador de anim ais. Ela encostou sua m assa encharcada no alto da torre e parou ali. O ar zunia ao passar por seus tubos respiratórios. Debaixo de seus tentáculos, a pedra se desintegrava à m edida que a m agia enfraquecia, substituída pelo apetite insaciável do Tem po.
Ela se sentia desnorteada. Onde estavam as outras? ela estava sozinha e cercada num lugar estranho...
... E depois ficou nervosa. Estendeu um olho e encarou o sím io, que se debatia no que j á tinha sido um a m ão. Um trovão estrem eceu a torre. A chuva form ava cascatas nas pedras.
A Coisa estendeu um pseudópode e envolveu o bibliotecário pela cintura...
... E notou a presença de outra figura, ridiculam ente pequena, em ergindo do poço da escada.
Victor retirou a lança da corda nas costas. O que faria? Quando se lidava com hum anos, havia opções. Era possível dizer: "ei, largue esse sím io e saia com os tentáculos para o alto". Era possível...
Um tentáculo com um a garra na ponta da grossura do seu braço bateu com força nas pedras, rachando-as.
Ele deu um pulo para trás e golpeou com a lança, num a virada de m ão que fez um corte am arelo e profundo na pele da Coisa. Ela uivou e se m exeu num a velocidade desagradável para lançar m ais tentáculos sobre ele.
"Form a", pensou Victor. "Ela não tem form a real neste m undo. Gasta m uito tem po só para sustentar a própria existência. Quanto m ais ela tiver que se concentrar em m im , m enos poderá se concentrar em não se desfazer em pedaços." Um a variedade de olhos desarm onizados se estendeu de várias partes da Coisa.
Quando eles m iraram Victor, encheram -se de veias verm elhas raivosas.
"Certo", pensou. "Consegui sua atenção. E agora?" Ele enfiou a lança num a garra e pulou com os j oelhos levantados enquanto um pseudópode não-identificado tentou arrancar suas pernas. Mais um tentáculo deu o bote.
Um a flecha o atravessou com o m esm o efeito de um a bala de aço atravessando um a m eia cheia de pudim . A Coisa gritou.
Um a vassoura passou em alta velocidade acim a da torre, com o arquirreitor recarregando a besta furiosam ente.
Victor ouviu um a voz distante: — Se ela sangra, nós podem os m atá-la! Seguida por: — Com o assim , "nós"? Victor continuou atacando, golpeando qualquer coisa que parecesse vulnerável. A criatura m udou de form a, na tentativa de engrossar a pele ou form ar um a carapaça onde a lança encostaria, m as não era rápida o bastante. "Eles estão certos. Ela pode ser m orta", pensou Victor. "Pode levar o dia inteiro, m as ela não é invencível..." E então lá estava Ginger diante dele, com a expressão cheia de dor e choque.
Ele hesitou.
Um a flecha bateu no que poderia ter sido o corpo da Coisa.
— Iii-há! Dá m ais um a volta com a gente, tesoureiro! A im agem se dissolveu. A Coisa gritou, j ogou o bibliotecário para o lado com o se fosse um boneco e partiu para cim a de Victor com todos os tentáculos estendidos ao m áxim o. Um deles o derrubou, outros três arrancaram a lança de sua m ão e, em seguida, a Coisa se em pinava com o um a sanguessuga, erguendo a lança de ferro para derrubar seus atorm entadores do céu.
Victor se ergueu, apoiando-se nos cotovelos, e se concentrou. Real apenas pelo tem po suficiente.
O relâm pago destacou o contorno da Coisa com um a luz azul e branca. Depois do trovão, a criatura balançou com o se estivesse em briagada, com fiozinhos de eletricidade reluzindo através dela e fazendo zum bidos. Alguns de seus m em bros fum egavam .
Ela tentava se m anter inteira lutando contra as forças que urravam dentro de seu corpo. Inclinou-se, sem controle, apoiada nas pedras, fazendo barulhinhos estranhos de choro e depois, com um olho bom encarando Victor com olhar m aligno, deu um passo para o nada.
Victor fez um esforço para se erguer, apoiando-se nas m ãos e nos j oelhos, e andou com dificuldade até a beira do telhado.
Até m esm o em sua queda, a Coisa não queria desistir. Ela tentava desdobram entos frenéticos de penas, peles e m em branas, num a tentativa de encontrar algo que sobrevivesse à queda...
O Tem po ficou lento. O ar ganhou a aparência de um nevoeiro violeta. Morte ergueu sua foice.
— VOCÊ DEVERIA ESTAR MORTA — disse.
... E, em seguida, houve um som com o o de roupa m olhada batendo num a parede e, com o era de se esperar, a única coisa que poderia sobreviver à queda era um cadáver.
A m ultidão se aproxim ou na chuva torrencial.
Depois que todo controle tinha sido perdido, a Coisa se dissolveu até chegar a suas m oléculas elem entares, que foram arrastadas pelas sarj etas, desceram o rio e acabaram nas profundezas frias do m ar.
— Está se liquefazendo — observou o conferencista.
— É m esm o? — perguntou o presidente. — Achei que fosse algum tipo de piso.
Ele a cutucou com o pé.
— Cuidado — avisou o decano. — Não está m orto o que eternam ente j az. O presidente a exam inou.
— Parece bem m orta para m im . Espera aí... tem algum a coisa se m exendo...
Um dos tentáculos frouxos caiu para o lado.
— O que caiu em cim a de alguém ? — perguntou o decano.
Caiu. Eles puxaram o corpo contorcido de Ponder Stibbons e o cutucaram e esbofetearam de form a bem -intencionada até que ele abrisse os olhos.
— O que aconteceu? — perguntou.
— Um m onstro de 15 m etros caiu em cim a de você — respondeu o decano, sim plesm ente.
— Você está... er... bem ?
— Eu só queria um a bebida — m urm urou Ponder. — Eu voltaria logo em seguida, j uro.
— Do que está falando, rapaz? Ponder o ignorou. Ele se levantou, um pouco sem equilíbrio, cam baleou em direção ao Grande Salão e nunca, j am ais, saiu novam ente.
— Suj eito engraçado — disse o presidente. Eles voltaram a olhar para a Coisa, que estava quase totalm ente dissolvida.
— Foi a bela que m atou a fera — com entou o decano, que gostava de dizer coisas do tipo.
— Não foi, não — discordou o presidente. — Foi ter se espatifado no chão desse j eito.
O bibliotecário se sentou e esfregou a cabeça.
O livro foi em purrado para diante de seus olhos.
— Leia! — disse Victor.
— Oook.
— Por favor! O sím io o abriu num a página de pictogram as. Ficou com um a expressão de surpresa por um m om ento. Depois seu dedo desceu até o canto direito da página e com eçou a seguir os sinais da direita para a esquerda.
Da direita para a esquerda.
"Era assim que era para ter lido", pensou Victor. O que significava que ele esteve totalm ente errado o tem po todo. Gaffer, o operador de m anivela, m ovim entou sua caixa de im agem para obter um efeito panorâm ico dos m agos lado a lado e depois desceu até o m onstro, que se dissolvia rapidam ente.
A m anivela parou de girar. Ele ergueu a cabeça e deu um sorriso radiante para todo m undo.
— Vocês poderiam se j untar um pouco m ais, senhores? — pediu. Os m agos se aproxim aram uns dos outros ainda m ais, com obediência. — A luz não está m uito boa.
Soll escreveu: "Magos olhando para o Cadáver, tom ada 3", num pedaço de papelão.
— Pena que você não pegou a queda — disse com um tom de histeria quase im perceptível na voz. — Será que não dá para a gente fazer um truque de im agem ou algo assim ? Ginger se sentou à som bra, ao lado da torre, abraçando os j oelhos e tentando parar de trem er. Sua form a estava entre as que a Coisa tentara assum ir pouco antes do fim .
Ela se esticou, segurando-se nas pedras ásperas para se firm ar, e saiu andando de um j eito incerto. Não tinha certeza do que o futuro traria, m as teria café em algum m om ento se ela pudesse decidir algum a coisa por si. Quando passou pela porta da torre, ouviu um barulho de passos, e Victor saiu cam baleando, com o bibliotecário se balançando atrás. Ele abriu a boca para falar e ficou ofegante. O orangotango o em purrou para o lado e segurou Ginger pelo braço com firm eza, num aperto suave e afetuoso, m as com um a leve sugestão de que, se realm ente precisasse, poderia facilm ente transform ar qualquer braço num tubo de geleia com pedaços dentro.
— Oook!
— Olha, acabou — disse Ginger. — O m onstro está m orto. E assim que as coisas acabam , ok? Agora vou arrum ar algum a coisa para beber.
— Oook!
— Oook pra você tam bém . Victor ergueu a cabeça.
— Não acabou... — disse.
— Acabou para m im . Acabei de m e ver transform ada num a... num a COISA com tentáculos. Um a coisa daquela é capaz de causar um certo efeito num a garota, sabe.
— É im portante! — Victor conseguiu dizer. — Nós erram os! Olha, elas vão continuar voltando! Você tem que voltar para Holy Wood! Elas vão voltar por lá tam bém !
— Oook! — O bibliotecário concordou, batendo no livro com um a unha roxa.
— Bom , elas podem fazer isso sem m im — disse Ginger.
— Não, não podem ! Quer, dizer, elas vão fazer de qualquer j eito! Mas você pode im pedi-las! Ah, pare de m e olhar desse j eito! — Ele em purrou o bibliotecário. — Anda, conta pra ela.
— Oook — disse o bibliotecário, paciente. — Oook.
— Não consigo entender — reclam ou Ginger. Victor franziu a testa.
— Não consegue? — Pra m im é só um m onte de barulho de m acaco! Os olhos de Victor giraram para os lados.
— E...
O bibliotecário ficou parado por um m om ento, com o um a pequena estátua pré-histórica. Depois pegou a m ão de Ginger, com m uita delicadeza, e deu um as batidinhas.
— Oook.
— Desculpe.
— Ouça! — com eçou Victor. — Eu errei! Você não estava tentando aj udar a elas, você tentava detê-las! Eu li tudo ao contrário! Não é um hom em atrás do portão, é um hom em na frente do portão! — Ele respirou fundo. — É um guardião!
_ É, m as não podem os ir a Holy Wood! São quilôm etros de distância! Victor deu de om bros.
_ Vá cham ar o operador de m anivela.
A terra em torno de Ankh-Morpork é fértil e am plam ente usada para plantações de repolho, que aj udam a dar à cidade seu odor característico. A luz acinzentada que antecede o am anhecer se espalhou sobre a extensão verde-azulada e ao redor de alguns fazendeiros que haviam com eçado cedo a colheita de espinafre.
Eles pararam para olhar, não para o lugar de onde vinha um som , m as para um ponto de silêncio em m ovim ento onde deveria haver som . Eram um hom em , um a m ulher e algo com o um hom em tam anho P num casaco de pele tam anho GG, todos num a carruagem que trem eluzia ao se m over. Ela rolava pela estrada para Holy Wood e logo se perdeu de vista. Um ou dois m inutos depois, foi seguida por um a cadeira de rodas. Seu eixo tinha um brilho incandescente. Estava cheia de pessoas gritando um as com as outras. Um deles girava um a m anivela num a caixa.
Ela estava tão sobrecarregada que os m agos caíam de vez em quando e corriam atrás dela, berrando, até conseguirem subir novam ente e continuar gritando. Quem quer que estivesse tentando dirigir, não estava se saindo bem , e ela seguia em zigue-zague, saindo com pletam ente da estrada e, finalm ente, chocou-se contra a parede de um celeiro.
Um dos fazendeiros cutucou o outro.
— Já vi isso nos cliques. É sem pre a m esm a coisa. Eles bate num celeiro e sem pre sai do outro lado com um m onte de galinha cacarej ando. Seu com panheiro se apoiou com ar pensativo na enxada.
— Ia ser um a cena que ia valer a pena ver.
— Ô se valia.
— Porque tudo o que tem lá dentro é 20 tonelada de repolho. Houve um estrondo, e a cadeira saiu a toda velocidade do celeiro em m eio a um a chuva de galinhas e seguiu desvairada na direção da estrada. Os fazendeiros se entreolharam .
— É, tá danado — disse um deles.
Holy Wood era um brilho no horizonte. Os trem ores de terra ficavam cada vez m ais fortes.
A carruagem trem eluzente saiu de trás de algum as árvores e parou no alto de um declive que ia dar na cidade.
Holy Wood estava envolta em nevoa. Raios de luz saíam dela e se cruzavam no céu.
— Chegam os tarde dem ais? — perguntou Ginger, esperançosa.
— Quase tarde dem ais — respondeu Victor.
— Oook — disse o bibliotecário. Sua unha corria de um lado para o outro enquanto lia os pictogram as antigos da direita para a esquerda... da direita para a esquerda.
— Sabia que algum a coisa não estava certa — Victor havia dito. — Aquela estátua adorm ecida... o guarda. Os sacerdotes antigos cantavam m úsicas e faziam cerim ônias para m antê-lo acordado. Faziam o possível para se lem brar de Holy Wood.
— Mas eu não sei nada de guardião nenhum !
— Sabe, sim . Assim , lá no fundo.
— Oook — disse o bibliotecário, batendo na página. — Oook!
— Ele disse que você provavelm ente e descendente da sum a sacerdotisa. Ele acha que todo m undo em Holy Wood é descendente de... assim ... quer dizer, na prim eira vez que as Coisas escaparam , a cidade inteira foi destruída e os sobreviventes fugiram para todos os lugares, entende. Mas todo m undo tem um j eito de se lem brar até das coisas que aconteceram a seus ancestrais, tipo, e com o se tivesse um enorm e lago de m em órias e nós estivéssem os ligados a ele. E, quando tudo com eçou a acontecer novam ente, todos nós som os cham ados a um lugar, e você tentou esclarecer as coisas, só que a ligação estava m uito tênue e não conseguia chegar até você, a m enos que estivesse dorm indo... Ele não teve com o não perder a voz.
— "Oook?" — disse Ginger, desconfiada. — Você tirou tudo isso de um "oook"?
— Bem , não só de um — adm itiu Victor.
— Eu nunca ouvi tanta... tanta — Ginger com eçou e parou. Um a m ão m ais m acia que o m ais m acio dos couros se lançou para as m ãos dela. Ela olhou para um rosto que poderia ser com parado a um a bola de futebol m urcha.
— Oook — disse o bibliotecário.
Ginger o encarou por um m om ento.
Depois: — Mas eu nunca m e senti nem um pouco com o um a sum a sacerdotisa...
— O sonho que você m e contou — com eçou Victor — soava m uito sum o sacerdotísico para m im . Muito... m uito...
— Oook.
— Sacerdotal. Isso — traduziu Victor.
— É só um sonho — disse Ginger, nervosa. — Eu tenho esse sonho de vez em quando desde que m e entendo por gente.
— Oook oook.
— O que ele disse? — perguntou Ginger.
— Ele disse que ele é provavelm ente m uito m ais antigo do que você im agina.
Diante deles, Holy Wood cintilava com o um a geada, com o um a cidade feita de luz estelar solidificada.
— Victor? — cham ou Ginger.
— Sim ? —Onde está todo m undo? Victor olhou para a estrada. Onde deveria haver pessoas, refugiados fugindo desesperadam ente... não havia nada. Apenas silêncio e luz.
— Onde estão? — Ela repetiu.
Ele olhou para a expressão dela.
— Mas o túnel caiu! — disse bem alto, na esperança de que isso fizesse do argum ento um a verdade. — Ficou tudo lacrado! — Mas não levaria m uito tem po para trolls abrirem cam inho — observou Ginger.
Victor pensou no... no Coicinem a. E na prim eira sessão, que se prolongou por m ilhares de anos. E em todas as pessoas que ele conhecia, sentadas ali por m ais m il anos, enquanto, acim a delas, as estrelas m udavam .
— É claro que elas podem estar apenas... bem ... Em algum outro lugar — Ele m entiu.
— Mas não estão — discordou Ginger. — Nós dois sabem os disso. Victor olhou para a cidade de luzes, sentindo-se im potente.
— Por que nós? Por que está acontecendo com a gente? — Tudo tem que acontecer a alguém — observou Ginger. Victor deu de om bros.
— E você só tem um a chance. Certo? — Só quando você precisa salvar o m undo existe um m undo para você salvar — constatou Ginger.
— É. Sorte nossa.
Os dois fazendeiros espiaram pelas portas do celeiro. Pilhas de repolho aguardavam im passíveis na escuridão.
— Te disse que era os repolho — disse um deles. — Sabia que não era galinha. Sei reconhecer um repolho quando vej o e acredito no que vej o. Do alto vieram vozes, que se aproxim avam : — Pelo am or dos deuses, hom em , não sabe dirigir? — Não com você j ogando o seu peso de um lado pro outro, arquirreitor! — Onde e que nós fom os parar? Não dá pra ver nada nesta neblina! — Vou ver se consigo virar... não se incline desse j eito! Não se incline desse j eito! eu disse para não se inclinar...! Os fazendeiros deram um m ergulho lateral quando a vassoura passou num m ovim ento espiral pelas portas abertas e desapareceu entre as fileiras de repolho. Houve um som distante de folhas se esm agando.
Por fim , um a voz abafada disse: — Você se inclinou.
— Bobagem . Em que bela confusão você foi m e m eter. O que é isto?
— Repolho, arquirreitor.
— Um tipo de verdura? — Sim .
— Não suporto verdura. Afina o sangue.
Houve um a pausa. Depois os fazendeiros ouviram a outra voz dizer: — Bom , sinto m uito, seu balde de banha arrogante e sanguinário. Houve m ais um a pausa.
— Posso dem itir você, tesoureiro?
— Não, arquirreitor, eu tenho estabilidade.
— Então m e aj uda e vam os encontrar algum a bebida.
Os fazendeiros saíram de fininho.
— Tá danado — disse o que acreditava em repolhos.
— São m agos. Melhor a gente não se introm eter nos assuntos de m agos danados.
— ÊÉ — concordou o outro fazendeiro. — E... o que significa danado m esm o? Era o tem po do silêncio.
Nada se m ovia em Holy Wood, exceto a luz. Ela trem eluzia devagar. "A luz de Holy Wood", pensou Victor.
Havia um a sensação de expectativa terrível. Se um set de film agem era um sonho esperando para se tornar real, a cidade era o grau seguinte da escala — um lugar real esperando algum a coisa nova, algum a coisa que a linguagem com um não seria capaz de definir.
— ...
— Ele disse, e parou.
— ? — perguntou Ginger.
— ?
Eles se entreolharam assustados por um m om ento. Depois Victor pegou a m ão dela e a levou para dentro do prédio m ais próxim o, o refeitório. O cenário lá dentro era indescritível e continuou assim até Victor encontrar um quadro-negro usado para o que era risivelm ente cham ado de m enu. Ele pegou um giz.
— ESTOU FALANDO, MAS NÃO CONSIGO ME OUVIR — Escreveu e passou o giz para ela com ar solene.
— EU TB. P Q? Victor ficou j ogando o giz para o alto, pensativo, e depois escreveu: —ACHO QUE PQ NÃO INVENTAMOS FILMES COM SOM. SE NÃO TIVESSEMOS DIABINHOS QUE SOUBESSEM PINTAR A CORES, TALVEZ SÓ TIVESSE PRETO E BRANCO AQUI TAMBÉM.
Eles olharam para o cenário ao redor. Havia refeições deixadas pela m etade ou que não tinham sido tocadas em quase todas as m esas. Isso não era m uito raro no restaurante do Borgle, m as norm alm ente era acom panhado por pessoas reclam ando.
Ginger colocou o dedo com delicadeza no prato m ais próxim o.
— Ainda quente — Ela m ovim entou os lábios para que ele lesse.
— Vam os — disse Victor, em silêncio, apontando para a porta. Ela tentou dizer algo com plicado, ficou brava com a expressão dele de quem não entendia nada dele e escreveu: — MELHOR ESPERAR OS MAGOS.
Victor ficou paralisado por um m om ento. Depois seus lábios form aram um a frase que Ginger não quis adm itir ter entendido e fez um m ovim ento rápido indicando o lado de fora.
A cadeira sobrecarregada j á vinha rolando pela rua com fum aça saindo pelos eixos. Ele deu vários pulos na frente dela, balançando os braços. Um a longa conversa silenciosa prosseguiu. Muito giz foi usado na parede m ais próxim a. Por fim , Ginger não conseguiu m ais conter sua im paciência e se apressou.
_ VOCÊ TEM QUE FICAR LONGE DISSO. SE ELAS CONSEGUEM ESCAPAR, VOCÊ VAI VIRAR REFEIÇÃO.
— VOCÊ TAMBÉM. — Isso foi escrito com um a letra m ais bonita. Era do decano.
Victor escreveu: — SÓ QUE EU ACHO QUE SEI O QUE TÁ ACONTECENDO. DE TODO MODO, PRECISAREMOS DE VOCÊS SE DER ERRADO.
Ele acenou com a cabeça para o decano e voltou correndo para onde estavam Ginger e o bibliotecário. Ele se virou para o bibliotecário com um olhar preocupado. Em term os técnicos, o bibliotecário era um m ago — pelo m enos quando era hum ano, então se presum ia que ainda fosse. Por outro lado, tam bém era um sím io, e um faz-tudo m uito bom para ter por perto em caso de em ergência. Ele decidiu arriscar.
— Venha — m exeu os lábios.
Foi bastante fácil encontrar o cam inho para a colina. Onde havia antes um cam inho, agora havia um a trilha am pla, esparram ada de form a com ovente pelos obj etos pessoais deixados por efeito de um a passagem apressada. Um a sandália. Um a caixa de im agem desprezada. Um boá de plum as largado. A porta de entrada para a colina tinha sido arrancada das dobradiças. Um brilho tênue vinha do túnel. Victor deu de om bros e entrou. Os obj etos deixados pelo cam inho não tinham sido recolhidos im ediatam ente, m as em purrados para os lados e achatados para perm itir a entrada da m ultidão. O teto não havia caído. Não por causa dos obj etos abandonados, m as graças a Detritus.
Ele sustentava o teto no alto.
Quase no alto. Ele j á estava apoiando um j oelho no chão.
Victor e o bibliotecário em pilharam pedregulhos em torno do troll até que ele pudesse tirar o peso dos om bros. Ele suspirou, ou pelo m enos pareceu ter suspirado, e tom bou para a frente. Ginger o aj udou a se levantar.
— O que aconteceu? — perguntou, m ovendo os lábios diante dele.
— ? ? — Detritus parecia confuso com a falta da voz e tentou olhar para a própria boca.
Victor suspirou. Ele teve um a visão dos m oradores de Holy Wood debandando em pânico e cegam ente pela passagem , com os trolls forçando a obstrução. Com o Detritus era o m ais forte, era natural que tivesse um papel im portante. E, com o a única função para a qual usava o cérebro norm alm ente era im pedir que o topo da sua cabeça caísse, tam bém era natural que fosse deixado para trás para segurar o peso na colina. Victor o im aginou cham ando pelos outros, sem ser ouvido, enquanto os restantes passavam correndo.
Ele se perguntou se deveria escrever um a m ensagem para anim á-lo, m as, no caso de Detritus, isso seria quase com certeza um a perda de tem po. Sej a com o for, o troll não pretendia ficar por perto. Ele saiu trotando pelo túnel com expressão seria, concentrado em algum a tarefa particular. Os nós dos dedos iam arrastando atrás, form ando sulcos na areia.
A passagem se abria para a caverna, que era, Victor percebeu agora, um a espécie de sala de espera que antecedia a sala de espetáculos propriam ente dita. Talvez, há m ilhares de anos, fiéis tenham se reunido ali para com prar... o quê? Salsichas sagradas, talvez, e os santos grãos estourados. Um a luz espectral se espalhava pela sala. Ela perm anecia cheia de um idade e m ofo antigo onde quer que Victor olhasse. No entanto, onde não olhava, nos cantos do cam po de visão, dava a im pressão de que o lugar tinha a decoração de um palácio, com cortinas de Veludo verm elho e decorações barrocas douradas. Ele virava a cabeça de form a repentina, tentando capturar a im agem espectral e cintilante.
Ele se deparou com a expressão preocupada do bibliotecário e escreveu com o giz na parede da caverna: — REALIDADES FUNDIDAS? O bibliotecário consentiu com a cabeça.
Victor estrem eceu e liderou seu pequeno grupo de guerrilheiros de Holy Wood — pelo m enos, dois guerrilheiros e um orangotango — pelos degraus gastos que davam na sala de espetáculos.
Depois Victor se deu conta de que Detritus tinha salvado todo m undo. Eles olharam para as im agens retorcidas na tela obscena e... Sonho. Realidade. Acredite. Aguarde...
... E Detritus tentou passar através deles. Im agens proj etadas para capturar e proj etar deslum bram ento sobre qualquer m ente inteligente bateram no fundo de seu crânio trêm ulo e saíram m ais um a vez. Ele não prestou atenção. Tinha coisas m ais im portantes a fazer. (A expressão em trolês era: "Tinha outros ursos pardos enlouquecidos para apagar".)
Quase m orrer pisoteado por um troll preocupado é quase a cura ideal para alguém que estej a confuso sobre o que e real ou não. A realidade e algo que parte para cim a de sua espinha sem pedir licença.
Victor se pôs de pé novam ente, puxou os outros em sua direção e apontou para o retângulo protuberante e trem eluzente do outro lado da sala.
— Não olhem ! — disse, m ovendo os lábios.
Eles consentiram .
Ginger segurou seu braço com força enquanto seguiam devagar pelo corredor.
Holy Wood inteira estava ali. Eles viram rostos conhecidos espalhados entre os assentos, im óveis diante da luz estrem ecida. Todas as expressões perm aneciam estáticas.
Victor sentiu as unhas de Ginger se afundarem na sua pele. Lá estavam Rocha, Morry, Fruntkin do refeitório e a senhora Cosm opilite, a m ulher que cuidava das roupas. Lá estavam Silverfish e um a fileira de outros alquim istas. Lá estavam os carpinteiros, os operadores de m anivela e todas as estrelas que nunca foram , todas as pessoas que tinham segurado cavalos ou lim pado m esas ou ficado em filas esperando durante m uito tem po por sua grande chance...
"Lagostas", pensou Victor. "Havia um a grande cidade, e m uita gente m orreu, e agora ela e o lar das lagostas." O bibliotecário apontou.
Detritus havia encontrado Ruby na prim eira fileira e tentava tirá-la de seu assento. Ele a puxava em várias direções, m as seu olhar acabava sem pre se voltando para as im agens sinuosas. Quando ficou na frente dela, Ruby pestanej ou por um m om ento, fez cara de brava e o j ogou para o lado.
Em seguida, sua expressão voltou aos poucos a ficar vazia, e ela se acom odou na cadeira.
Victor pôs a m ão no om bro dele e fez gestos que esperava serem tranquilizadores. O rosto de Detritus era um afresco do sofrim ento. A arm adura ainda estava sobre a placa de pedra atrás da tela, em frente ao disco corroído.
Eles olharam para ela, sem saber o que fazer.
Victor passou o dedo pela poeira, incerto. Surgiu um traço de m etal am arelo reluzente. Ele olhou para Ginger.
— E agora? — m oveu os lábios.
Ela deu de om bros, com o seguinte significado: Com o e que eu vou saber? eu estava dorm indo antes.
A tela acim a deles ficava cada vez m ais inchada. Quanto tem po dem oraria para as Coisas saírem de lá? Victor tentou sacudir o... bom , vam os cham ar de hom em . Um hom em m uito alto. Num a arm adura de ouro sem em endas. Seria m ais fácil tentar acordar um a m ontanha.
Tentou soltar a espada, em bora ela fosse m ais com prida que ele e, m esm o se conseguisse levantá-la, seria tão fácil de m anobrar quanto um a barcaça. Ela estava bem presa.
O bibliotecário tentava ler o livro à luz da tela, virando as páginas fervorosam ente.
Victor escreveu com o giz na lateral da placa de pedra: — VOCÊS NÃO CONSEGUEM PENSAR EM NADA MESMO? Ginger pegou o giz:
— NÃO! VOCÊ ME ACORDOU!! NÃO SEI COMO FAZER ISSO!!!