A Magia de Holy Wood

Terry Pratchett · Capítulo 4 de 5 · parte 2/3

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A Magia de Holy Wood

O Bar Se Esvaziou

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Não estão, não — disse o decano, m as o m enino tinha conseguido se soltar e desaparecera na m ultidão. — Estranha superstição prim itiva — continuou, e os m agos, com exceção de Poons, que reclam ava e balançava a bengala, esticaram o pescoço para ver.

O tesoureiro encontrou o arquirreitor no corredor.

— Não tem ninguém na Sala Incom um ! — gritou o tesoureiro.

— A Biblioteca está vazia! — berrou o arquirreitor.

— Já ouvi falar nesse tipo de coisa — o tesoureiro se lam entou. — Algum a-coisa-espontânea. Eles todos ficaram espontâneos! — Acalm e-se, hom em . Só porque...

— Não consigo encontrar nenhum dos em pregados! Você sabe o que acontece quando a realidade cede o seu lugar! Agora m esm o tentáculos gigantes devem estar...

Houve um ruído de whum m ... whum m distante e o som de balas de chum bo batendo na parede.

— Sem pre na m esm a direção — m urm urou o tesoureiro.

— E que direção e essa? — A direção pela qual eles chegarão! Acho que estou enlouquecendo! — Ora, ora — disse o arquirreitor, dando tapinhas em seu om bro. — Você não quer andar por aí falando desse j eito. Isso é conversa de m aluco. Ginger ficou olhando, em pânico, pela j anela da carruagem .

— Quem são todas essas pessoas? — São fãs — respondeu Dibbler.

— Mas eu não estou com calor! (Fan do original em inglês, significa tanto "fã" como "ventilador". (N. T.))

— Meu tio quer dizer que são pessoas que gostam de ver vocês nos cliques — Explicou Soll. — E... Gostam m uito de vocês.

— Tem m ulheres aí tam bém — disse Victor. Ele deu um aceno cuidadoso. Na m ultidão, um a m ulher desm aiou. — Você é fam osa. Você disse que sem pre quis ser fam osa.

Ginger olhou para a m ultidão novam ente.

— Mas eu nunca achei que seria assim . Estão todos gritando os nossos nom es! — Nós nos esforçam os m uito para avisar às pessoas sobre e O Sopro Carregou — observou Soll.

— Sim — concordou Dibbler. — Dissem os que era o m aior clique de toda a história de Holy Wood.

— Mas só fazem os cliques há uns dois m eses — observou Ginger.

— E daí? Não deixa de ser um a história — disse Dibbler.

Victor viu a expressão no rosto de Ginger. Exatam ente qual era a duração da verdadeira história de Holy Wood? Talvez houvesse algum calendário de pedra antigo, lá no fundo do m ar, entre as lagostas. Talvez não existisse um a form a de m edi-la. Com o é que se contava a idade de um a ideia? — Muitas das m ais im portantes autoridades da cidade estarão presentes tam bém — avisou Dibbler. — O Patrício, os nobres, os chefes dos grêm ios e alguns dos sum o sacerdotes. Não os m agos, claro, os velhos idiotas convencidos. Mas será um a noite para ficar na lem brança, sem som bra de dúvida.

— Terem os que ser apresentados a todos eles? — perguntou Victor.

— Não. Eles serão apresentados a vocês. Será a m aior em oção da vida deles.

Victor olhou para a m ultidão m ais um a vez.

— É im aginação m inha ou está ficando nebuloso? Poons acertou o presidente na batata da perna com a bengala.

— O que está acontecendo? Por que está todo m undo aplaudindo? — O Patrício acabou de sair da carruagem — disse o presidente. — Não vej o nada de m aravilhoso nisso. Eu j á saí de carruagens centenas de vezes. Não é preciso nenhum a habilidade especial.

— É um pouco estranho — adm itiu o presidente. — E eles aplaudiram o chefe do Grêm io dos Assassinos e o sum o sacerdote de Io Cego tam bém , e agora alguém estendeu um tapete verm elho.

— O quê, na rua? em Ankh-Morpork? — Sim .

— Não gostaria de ter a conta da lavanderia deles — disse Poons. O Conferencista sobre Runas Recentes deu um cutucão nas costelas do presidente, ou pelo m enos na área em que as costelas estavam cobertas por 50 anos de ótim os j antares.

— Quieto! — sussurrou. — Eles estão chegando! — Quem ? — Pessoas im portantes, pelo j eito.

O rosto do presidente se contraiu de pânico por trás de sua barba verdadeira falsa.

— Você não acha que eles convidaram o arquirreitor, acha? Os m agos se encolheram dentro de seus m antos, com o tartarugas na vertical.

Na verdade, a carruagem era m uito m ais im pressionante do que qualquer um dos artigos caindo aos pedaços das dependências da Universidade. A m ultidão correu para a frente, lançando-se contra a fileira de trolls e guardas m unicipais, e ficou olhando cheia de expectativa para a porta da carruagem . Até o ar tinha um zunido de ansiedade.

O senhor Bezam , com o peito tão inflado por se sentir im portante que parecia flutuar acim a do chão, foi até a porta da carruagem e a abriu. A m ultidão prendeu a respiração coletiva, cora exceção de um a pequena parte dela que cutucava as pessoas ao redor com a bengala, perguntando: "O que está acontecendo? O que se passa? Por que ninguém quer m e dizer o que está acontecendo?exij o que alguém m e diga, m m , o que está acontecendo". A porta ficou fechada. Ginger segurava a m açaneta com força, com o se ela fosse um a corda salva-vidas.

— Tem m ilhares deles aí fora! — Ela disse. — Não posso sair daqui! — Mas todos assistem aos seus cliques — argum entou Soll. — São o seu público.

—Não! Soll ergueu as m ãos.

— Você não pode convencê-la? — pediu a Victor.

— Nem tenho certeza se sou capaz de convencer a m im m esm o.

— Mas vocês passaram dias diante dessas pessoas — argum entou Dibbler.

— Eu, não — contestou Ginger. — Era só você, o operador de m anivelas, os trolls e o resto do pessoal. Era diferente. Mesm o assim , aquela não era eu — acrescentou. — Era Dolores Dos Pecados.

Victor m ordeu o lábio, pensativo.

— Talvez então você tenha que m andar a Dolores dos Pecados lá pra fora.

— Com o vou fazer isso? — Ela perguntou.

— Bom ... por que não fingir que isto é um clique...? Os Dibblers, tio e sobrinho, se entreolharam . Então Soll pôs as m ãos ao redor do rosto, com o se fosse a abertura da caixa de im agens, e Dibbler, depois de um cutucão sugestivo, colocou a m ão sobre a cabeça do sobrinho e girou um a m anivela invisível na sua orelha.

— Ação! — com andou.

A porta da carruagem se abriu.

A m ultidão ficou ofegante, com o se fosse um a m ontanha inspirando o ar. Victor desceu, estendeu o braço e pegou a m ão de Ginger... A m ultidão entrou em êxtase, enlouquecida.

O conferencista m ordeu os dedos de tanta em oção. O presidente fez um estranho ruído rouco no fundo da garganta.

— Sabe quando você perguntou o que um m enino poderia querer fazer que fosse m elhor do que se tornar um m ago? — Ele disse.

— Um verdadeiro m ago só deveria se interessar por um a coisa — m urm urou o decano. — Você sabe disso.

— Ah, eu sei.

— Eu estava m e referindo à m agia.

O presidente olhou para as figuras que se aproxim avam .

— Sabe de um a coisa, aquele é o j ovem Victor. Posso j urar.

— Isso é repugnante — observou o decano. — Im agine, escolher ficar ao lado de m ulheres bonitas quando poderia ter se tornado um m ago.

— É. Que tolo — concordou o Conferencista sobre Runas Recentes, que tinha dificuldade para respirar.

Houve um a espécie de suspiro com um .

— Mas você tem que adm itir que ela é um pedaço de m au cam inho — insistiu o presidente.

— Eu sou um hom em idoso e, se alguém não m e deixar ver logo — com eçou um a voz estridente atrás dele —, alguém vai sentir o outro lado da m inha, m m , bengala, está certo? Dois dos m agos chegaram para o lado e passaram com a cadeira de rodas. Assim que conseguiu sair do lugar, ela foi parar bem na beirada do tapete verm elho, deixando roxos todos os j oelhos e tornozelos que estavam no cam inho. O queixo de Poons caiu.

Ginger segurou firm e a m ão de Victor.

— Tem um grupo de hom ens velhos e gordos com barbas falsas acenando para você ali — Ela disse através dos dentes apertados e sorrindo.

— Sim , acho que são m agos.

Victor sorriu tam bém .

— Um deles não para de pular na cadeira de rodas, gritando coisas com o: "Ueba!", "Oi-Oi!" e "Upa-upa!".

— Esse é o m ago m ais velho do m undo — disse Victor. Ele acenou para um a senhora gorda na m ultidão, que desm aiou.

— Nossa! Com o ele era 50 anos atrás? — Bom , para com eçar, ele tinha oitenta anos. Não j ogue um beij inho para ele! A m ultidão urrava de adm iração. (Os magos que conseguem evitar os galanteios cobiçosos de outros magos tendem a viver por mais tempo. Aparentemente um tempo muito maior.)

— Ele parece ser m eigo.

— Continue apenas sorrindo e acenando.

— Oh, deuses, olha quanta gente esperando pra ser apresentada a gente! — Estou vendo.

— Mas eles são im portantes! — Bom , e nós tam bém . Acho.

— Por quê? — Porque nós som os nós. É com o você disse aquele dia na praia. Nós som os nós, só que é com o se tivessem os o m áxim o da im portância que poderíam os ter. É exatam ente o que você queria. Nós som os... — ele parou. O troll à porta do Odium fez um cum prim ento hesitante para ele. O baque de sua m ão batendo na orelha pôde ser ouvido com clareza acim a do estrondo da m ultidão...

Gaspode atravessava um beco bam boleando em alta velocidade, com Laddie trotando obediente em seus calcanhares. Ninguém tinha notado quando eles pularam — ou, no caso de Gaspode, caiu — da carruagem .

— Passar a noite toda num buraco apertado não é o que eu espero de um a boa noitada — resm ungou Gaspode. — Aqui é a cidade grande. Não é Holy Wood. Fica perto de m im , cachorrinho, e você vai ficar bem . Prim eira parada, a porta dos fundos da Casa das Costelas de Harga. Eles m e conhecem lá, está bem ? — Bom garoto Laddie! — É isso aí — disse Gaspode.

— Olha o que ele está vestindo! — disse Victor.

— Um terno de veludo verm elho com galões dourados — observou Ginger com o canto da boca. — E daí? Um a calça teria sido um a boa ideia.

— Oh, deuses — sussurrou Victor. Eles entraram no salão ilum inado do Odium .

Bezam tinha caprichado. Trolls e anões haviam virado a noite trabalhando para term inar a reform a.

Havia cortinas de pelúcia verm elha, pilastras e espelhos. Querubins rechonchudos e frutas variadas, pintados de dourado, pareciam cobrir todas as superfícies. Era com o entrar num a caixa de bom bons m uito cara. Ou num pesadelo. Victor m eio que esperava ouvir o barulho do m ar e ver cortinas caindo com um a m ancha de lodo preto.

— Oh, deuses — repetiu.

— O que há com você? — perguntou Ginger, sorrindo fixam ente na direção da fila de autoridades im portantes da cidade que esperavam para ser apresentadas a eles.

— Espere e verá — Ele respondeu com a voz rouca. — É Holy Wood! Holy Wood foi trazida para Ankh-Morpork! — Sim , m as...

— Você não se lem bra de nada? Aquela noite na colina? Antes de você acordar? — Não. Eu j á disse.

— Espere e verá — repetiu Victor. Ele viu um cavalete decorado encostado num a parede.

Estava escrito: "Três sessões por dia!" E ele pensou em dunas, m itos antigos e lagostas.

A produção de m apas nunca foi um a arte m uito precisa no Disco. As pessoas tendiam a com eçar com boas intenções e depois ficavam tão em polgadas com as baleias esguichando água, m onstros, ondas e outros elem entos decorativos da cartografia que geralm ente se esqueciam com pletam ente de colocar os tediosos rios e m ontanhas.

O arquirreitor colocou um cinzeiro transbordando sobre um canto que am eaçava se enrolar. Ele passou o dedo pela superfície em poeirada.

— Aqui diz: "Aqui há dragões". E é bem dentro da cidade. Estranho, isso.

— Isso e só o Santuário Raio de Sol para Dragões Doentes de Lady Ram kin — Explicou o tesoureiro, sem dar m uita atenção.

— E aqui tem "Terra Incógnita" — disse o arquirreitor. — Por que isso? O tesoureiro esticou o pescoço para ver. —Ah, isso aí provavelm ente e m ais interessante do que colocar um m onte de plantações de repolho.

— E aqui tem "Aqui há dragões" m ais um a vez.

— Acho que isso e só um a m entira, na verdade.

O dedão calej ado do arquirreitor continuou na direção que eles haviam calculado. Ele lim pou algum as m anchas deixadas por m oscas.

— Absolutam ente nada aqui — disse, exam inando m ais de perto. — Só o m ar. E... — Ele apertou os olhos — Holy Wood. Significa algum a coisa? — Não foi para lá que foram todos os alquim istas? — perguntou o tesoureiro.

— Ah, aqueles lá.

— Acho — com eçou o tesoureiro, devagar — que eles não estariam fazendo m agia por lá...

— Alquim istas. Fazendo m agia?.

— Desculpe. Ideia ridícula, eu sei. O faxineiro m e contou que eles fazem um a espécie de... ah... j ogo de som bras ou algo assim . Ou fantoches. Ou algo do gênero. Im agens. Ou algo do tipo. Eu não estava prestando atenção, na verdade. Tam bém ... alquim istas. Francam ente! Sabe, assassinos... sim . Ladrões... sim . Até com erciantes... os com erciantes podem ser m uito m alandros às vezes. Mas alquim istas... Estou para ver pessoas m ais desapegadas, estabanadas, bem — intencionadas... — Sua voz falhou quando seus ouvidos alcançaram a boca. — Eles não ousariam , ousariam ? Ousariam ? — O Tesoureiro deu um a risada insincera. — Não-o-o. Eles não ousariam ! Eles sabem que nós cairíam os em cim a deles com m il pedras nas m ãos se tentassem algum a m agia por aqui... — A voz dele falhou novam ente. — Tenho certeza de que não tentariam . Quer dizer, m esm o tão longe. Eles não ousariam . Não m agia. Será que não? Eu nunca confiei naqueles desgraçados de m ãos suj as! eles não são com o nós, sabe. Não têm nenhum a ideia do que é dignidade! A m ultidão que se am ontoava ao redor da bilheteria ficava m ais volum osa e m ais nervosa a cada m inuto.

— Bem , você j á olhou em todos os bolsos? — perguntou o presidente.

— Sim ! — resm ungou o decano.

— Olhe de novo então.

Até onde os m agos sabiam , pagar para entrar em qualquer coisa era algo que só acontecia com os outros. Um chapéu pontudo geralm ente dava conta do recado.

Enquanto o decano se esforçava, o presidente sorria com ar de louco para a m oça que vendia ingressos.

— Mas eu lhe garanto, cara senhorita — disse, desesperado —, que nós som os m agos.

— Estou vendo as suas barbas falsas — a m oça disse e torceu o nariz. — Vem os todo tipo de gente aqui. Com o vou saber se vocês não são três garotinhos usando o casaco do pai? — Madam e! — Tenho dois dólares e 15 centavos — contou o decano, separando as m oedas no m eio de um punhado de fiapos e m isteriosos obj etos ocultos.

— São dois na prim eira fila, então — disse a m ulher, separando duas entradas com m á vontade. O presidente os retirou pela abertura.

— Então eu vou entrar com Windle — disse rápido, virando-se para os outros. — Infelizm ente acho que vocês terão que ir atrás do seu com ércio honesto.

— Ele m exeu as sobrancelhas para cim a e para baixo de m odo sugestivo.

— Não entendo por que deveríam os... — com eçou o decano.

— Porque, no fundo, não querem os fazer dívidas — continuou o presidente, fazendo caretas, aflito. — E m elhor m esm o vocês irem atrás.

— Vej a bem , aquele dinheiro era m eu e... — com eçou o decano, m as o conferencista segurou seu braço.

— Só m e acom panhe — disse, piscando devagar e de m odo intencional para o presidente. — Já estava na hora de irm os atrás... dos nossos negócios.

— Não entendo por que... — resm ungou o decano, enquanto era arrastado dali.

Nuvens cinzentas rodopiavam no espelho m ágico do arquirreitor. Muitos m agos tinham espelhos, m as não se davam ao trabalho de usá-los. Eram obj etos cheios de m anias e nada confiáveis. Não pareciam m uito bons sequer para fazer a barba.

Para surpresa geral, Ridcully era um adepto de seu uso.

— Para espreitar — Explicou de form a resum ida. — Não suportaria ter que ficar m e arrastando por aí entre plantas úm idas durante horas, caram ba. Pegue um a bebida se estiver com sede, hom em . E um a pra m im .

As nuvens bruxulearam .

— Não consigo ver m ais nada — disse. Estranho, isso. Só neblina, refletindo um brilho. — O arquirreitor tossiu. O tesoureiro estava com eçando a perceber, contrariando todas as expectativas, que o arquirreitor era bastante inteligente. — Já viu algum a vez essas coisas de j ogo de som bra, m ovim ento de fantoche e im agens? — perguntou Ridcully.

— Os em pregados vão — disse o tesoureiro. Isso, Ridcully entendeu, significava "não".

— Acho que deveríam os dar um a olhada.

— Muito bem , arquirreitor — concordou o tesoureiro, subm isso. Um a regra inviolável para os prédios que fazem apresentações de im agens anim adas, aplicável em todo o m ultiverso, e que o horror da arquitetura na parte dos fundos sej a inversam ente proporcional ao esplendor da frente. Na frente: pilares, arcos, revestim ento dourado e luzes. Nos fundos: tubos esquisitos, m isteriosos deslocam entos de canos, paredes vazias e becos fétidos. E a j anela dos lavatórios.

— Não existe absolutam ente nenhum a razão para fazerm os isso — reclam ou o decano, enquanto os m agos andavam com dificuldade no escuro.

— Cale a boca e continue em purrando — resm ungou o conferencista do outro lado da j anela.

— Deveríam os ter transform ado algum a coisa em dinheiro —disse o decano. —Apenas um a rápida ilusão. Que m al há nisso? — Cham a-se em itir m oeda sem aum ento de lastro — observou o conferencista. — Você pode ser j ogado no covil dos escorpiões por um a coisa dessas. Onde e que vou colocar os pés? Onde vou apoiar os m eus? — Você está bem — disse um m ago. — Certo, decano. Você vai subir.

— Oh, céus — gem eu o decano, enquanto era arrastado através da j anela estreita para dentro da escuridão desconhecida que tinha pela frente. — Isso não vai dar em nada de bom .

— Só vej a onde vai colocar os pés. Está vendo o que você fez? Não disse para ver onde estava colocando os pés? Venha, fazer o quê. Os m agos entraram de fininho ou, no caso do decano, chapinhou de m odo furtivo da área dos bastidores até o auditório escuro em alvoroço, onde Windle Poons m antinha alguns assentos livres por m eio do sim ples recurso de balançar a bengala diante de qualquer um que se aproxim ava deles. Eles se aproxim aram em silêncio, tropeçando nas pernas uns dos outros, e se sentaram . Ficaram olhando para o retângulo cinza e som brio no canto da sala.

Depois de algum tem po, o presidente disse: — Não sei o que as pessoas vêem nisso.

— Alguém fez o "Coelho Deform ado" ? — perguntou o conferencista.

— Não com eçou ainda — sussurrou o decano.

— Estou com fom e — reclam ou Poons. — Sou um hom em idoso, m m , e estou com fom e.

— Sabe o que ele fez? — com eçou o presidente. — Sabe o que o velho idiota fez? Quando um a j ovem com um a tocha nos levava até o nosso lugar, ele deu um beliscão nela, no... traseiro! Poons deu um a risadinha silenciosa.

— Upa—Upa! Sua m ãe sabe que você está fora de casa? — gargalhou.

— Tudo isso é dem ais para ele — reclam ou o presidente. — Não deveríam os tê-lo trazido aqui.

— Vocês se deram conta de que estam os perdendo o nosso j antar? — perguntou o decano.

Os m agos ficaram em silêncio ao ouvir isso. Um a m ulher robusta que passava perto da cadeira de rodas de Poons teve um sobressalto e olhou ao redor de repente, com ar de desconfiança, m as não viu nada a não ser um adorável velhinho — dorm indo profundam ente, é claro.

— E as terças tem os ganso — observou o decano.

Poons abriu um olho e apertou a buzina de sua cadeira de rodas.

— Diabinhos! Sua avó não tem sabão em casa? — resm ungou, triunfante.

— Estão vendo o que estou dizendo? — insistiu o presidente. —ele não sabe em que século estam os.

Poons virou um olho grande e preto na direção dele.

— Velho eu sou, m m , e louco posso ser, m as não vou ficar com fom e. Ele rem exeu nas profundezas indescritíveis da cadeira de rodas e tirou de lá um saco preto engordurado. O saco tinia. — Eu vi um a m oça lá na frente vendendo com ida especial de im agens anim adas.

— Quer dizer que você tinha dinheiro o tem po todo? — disse o decano. — E não contou pra gente? — Vocês não perguntaram .

Os m agos lançaram olhares fam intos para o saco.

— Tem grãos estourados na m anteiga, salsichas no pão, coisas de chocolate com coisas em cim a e coisas — disse Poons. Ele fez um a expressão desdentada e astuta para eles. — Vocês podem com er um pouco tam bém se quiserem — acrescentou com delicadeza.

O decano verificou as suas aquisições.

— Bom , são seis tubos de grãos estourados tam anho Patrício com m anteiga extra, oito salsichas no pão, um copo gigante de bebida efervescente e um saco de passas cobertas com chocolate — Ele entregou o dinheiro.

— Certo — disse o presidente, recolhendo os recipientes.

— E... Você acha que deveríam os com prar algum a coisa para os outros? Na sala de lançam ento de im agens, Bezam falava palavrões enquanto passava o tolo enorm e de e O Sopro Carregou para dentro da caixa de lançam ento de im agens.

A alguns m etros dali, num a seção da galeria cercada por cordas, o patrício de Ankh-Morpork, lorde Vetinari, tam bém estava irrequieto. Eles eram , tinha que adm itir, um casal bastante agradável. Só não sabia por que estava sentado ao lado deles e por que eram tão im portantes. Ele estava acostum ado com pessoas im portantes, ou pelo m enos com pessoas que se achavam im portantes. Os m agos se tornavam im portantes por m eio de grandes feitos de m agia. Os ladrões, por m eio de roubos audaciosos, assim com o, de um j eito um pouco diferente, os com erciantes. Os guerreiros se tornavam im portantes por ganhar batalhas e continuar vivos. Os assassinos se tornavam im portantes por m eio de desum anizações habilidosas. Muitos cam inhos levavam à notoriedade, m as todos podiam ser vistos, podiam ser com preendidos. Faziam algum sentido.

Por outro lado, essas duas pessoas haviam apenas se m ovido de form a interessante na frente desse m ecanism o m oderno das im agens anim adas. O ator m ais ordinário do teatro da cidade era um m estre m ultitalentoso da dram aturgia se com parado a elas. Mas não passaria pela cabeça de ninguém sair para as ruas e gritar o nom e dele.

O Patrício nunca tinha ido ver um clique antes. Até onde havia averiguado, Victor Maraschino era fam oso por um a espécie de olhar ardente que fazia senhoras de m eia-idade — que deveriam ter vergonha na cara — desm aiar, e o forte da senhorita Dos Pecados era agir de m odo sensual, dar tapas na cara e parecer fantástica ao se deitar entre alm ofadas de seda.

Ao passo que ele, patrício de Ankh-Morpork, governava a cidade, am ava a cidade, odiava a cidade e passara um a vida inteira a serviço da cidade... A m edida que as pessoas com uns foram ocupando os assentos, seu ouvido afiado com o um a navalha captou a conversa de duas delas: — Quem é aquele lá em cim a? — É o Victor Maraschino com a Dolores Dos Pecados! Você está por fora! — Estou falando daquele hom em alto de preto.

— Ah, ele não sei quem e. É só algum figurão, im agino. Sim , era fascinante. Você poderia ficar fam oso apenas por ser... bem ... fam oso. Ele se deu conta de que aquilo poderia ser algo extrem am ente perigoso e que ele provavelm ente teria que m andar m atar alguém algum dia, ainda que com relutância. (Da parte dele, bem entendido. A relutância do outro lado provavelmente não precisa ser mencionada.)

Antes disso, havia um a espécie de glória secundária que vinha do fato de estar na com panhia de pessoas celebradas de verdade e, para seu espanto, ele estava gostando. Alem disso, estava sentado ao lado da senhorita Dos Pecados, e a invej a do resto do público era tão palpável que ele conseguia sentir o seu sabor, m ais forte que o daquele saco cheio de coisas brancas fofinhas e engom adas que tinham dado para ele com er.

Do seu outro lado, o horroroso Dibbler explicava os m ecanism os das im agens anim adas, equivocadam ente acreditando que o Patrício estivesse ouvindo um a palavra ao m enos.

Houve um estrondo repentino de aplausos.

O Patrício se inclinou para o lado de Dibbler.

— Por que todas as lâm padas estão sendo apagadas? — perguntou.

— Ah, senhor — com eçou Dibbler —, e para que se possa ver as im agens m elhor.

— Ah, e? Poderia se im aginar que assim seria m ais difícil enxergar as im agens.

— Não é assim com as im agens anim adas, senhor.

— Que fascinante.

O Patrício se inclinou para o outro lado, para Ginger e Victor. Para sua leve surpresa, estavam extrem am ente tensos. Ele havia notado isso assim que entrara no Odium . O rapaz olhava toda a decoração ridícula com o se fosse algo terrível e, quando a garota entrou na espelunca, ele ouviu sua respiração ofegante. Eles pareciam estar em estado de choque.

— Im agino que tudo isso sej a um a banalidade para vocês.

— Não — respondeu Victor. — Na verdade, não. Nunca estivem os antes num a sala de exibição de cliques propriam ente dita.

— Exceto um a vez — corrigiu Ginger, de cara fechada.

— Sim . Exceto um a vez.

— Mas, ah, você fazem im agens anim adas — disse o Patrício num tom gentil.

— É, m as nunca as vem os. Só vem os pedaços, quando o operador de m anivela está colando tudo. Os únicos cliques que eu vi foram exibidos num lençol velho e m ostrados ao ar livre.

— Então isso tudo é novo para vocês? — Não exatam ente — disse Victor com um a expressão triste.

— Fascinante — com entou o Patrício, e voltou a não prestar atenção em Dibbler. Ele não havia chegado aonde estava hoj e por se preocupar em com o as coisas funcionavam . Com o as pessoas trabalhavam era o que o intrigava. Mais adiante, na m esm a fileira, Soll se inclinou para perto do tio e deixou cair um a pequena espiral de film e em seu colo.

— Isso lhe pertence — disse num tom gentil.

— O que é isto? — perguntou Dibbler.

— Bom , pensei em dar um a olhadinha no clique antes que ele fosse m ostrado...

— Pensou? — E o que encontrei, no m eio da cena em que a cidade é incendiada, senão cinco m inutos m ostrando apenas um prato de costelas m agras com Molho de Am endoim especial de Harga? eu sei por quê, e claro. Só quero saber por que assim .

Dibbler abriu um sorriso de culpa.

— No m eu m odo de entender, se um a im agem pequena e rápida e capaz de fazer as pessoas quererem com prar as coisas, im agine o que cinco m inutos de im agens poderiam fazer. — Soll ficou olhando para ele. — Estou realm ente m agoado com isso — com entou Dibbler. — Você não confiou em m im . Seu próprio tio. Depois que fiz um a prom essa solene de que não tentaria m ais nada novam ente, você não confiou em m im ? Isso m e m achuca, Soll. Estou realm ente m agoado. Aonde foi parar a integridade? — Acho que ela deve ter sido vendida pelo senhor, tio.

— Estou realm ente m agoado.

— Mas você não cum priu a prom essa, tio.

— Um a coisa não tem nada a ver com a outra. Isso são apenas negócios. Estam os falando de fam ília. Você tem que aprender a confiar em quem é da fam ília, Soll. Especialm ente em m im .

Soll deu de om bros.

— Ok.

Ok.

— Certo? — Sim , tio. — Soll abriu um sorriso. — Prom eto solenem ente a você.

— Esse e o m eu garoto.

Na outra ponta da m esm a fileira, Victor e Ginger olhavam fixam ente para a tela vazia num horror silencioso.

— Você sabe o que vai acontecer agora, não sabe? — perguntou Ginger.

— Sim . Alguém vai com eçar a tocar um a m úsica dentro de um buraco no chão.

— Aquela caverna era m esm o um a sala de cliques? — Um a espécie, acho — disse Victor, com cautela.

— Mas a tela aqui é só um a tela. Não é... bem , é só um a tela. Só um lençol de m elhor qualidade. Não é...

Houve um a explosão sonora vindo da frente do salão. Com um tinido e um silvo de ar escapando desesperadam ente, a filha de Bezam , Calíope, se ergueu lentam ente do chão, investindo contra as teclas de um pequeno órgão com toda a energia de várias horas de treino e o esforço com binado de trolls robustos acionando os foles. Ela era um a j ovem carnuda. Qualquer que fosse a m úsica que ela tocava, estava sem dúvida sendo assassinada.

Nas cadeiras da frente, o decano passava um saco para o presidente.

— Pegue um a passa coberta com chocolate.

— Isso parece cocô de rato — observou o presidente.

O decano exam inou no escuro.

— Então é isso. O saco caiu no chão há um m inuto e eu achei que tinha m uita coisa dentro.

— Shsss! — fez um a m ulher na fileira de trás. A cabeça de Windle Poons se virou com o um ím ã.

— Bilu—bilu! — disse, rindo. — Mais dois centavos e o j um ento vai subir! Mais luzes foram apagadas. A tela trem eluziu. Apareceram alguns núm eros piscando, num a contagem regressiva.

Calíope olhou com atenção para a partitura na sua frente, arregaçou as m angas, tirou o cabelo da frente dos olhos e se lançou num ataque determ inado ao que m al dava para ser reconhecido com o o velho hino cívico de Ankh-Morpork. ( “Somos Capazes de Dominá-los por Atacado.")

As luzes se apagaram .

O céu trem eluziu. A neblina não era nem um pouco norm al. Ela lançava um a luz prateada, acinzentada, bruxuleando por dentro feito um cruzam ento entre Aurora Coriolis e relâm pagos de verão.

Na direção de Holy Wood, o céu brilhava intensam ente. Era visível até m esm o do beco atrás da Casa das Costelas de Sham Harga, onde dois cães apreciavam a Prom oção Tudo-O-Que-Você-Conseguir-Arrastar-Para- Fora-Do-Lixo-De-Graça.

Laddie olhou para cim a e rosnou.

— Não culpo você — com eçou Gaspode. — Eu disse que era um presságio. Não disse que tava rolando um presságio? — Faíscas estalaram no seu pêlo. — Vem . É m elhor avisarm os as pessoas. Você é ótim o nisso.

Cliquecliqueclique...

Era o único barulho dentro do Odium . Calíope havia parado de tocar e estava com a cabeça erguida, olhando para a tela.

Havia bocas abertas, que só se fechavam para m order um punhado de grãos estourados.

Victor tinha um a vaga consciência de que havia resistido. Ele tentara não olhar. Até m esm o agora um a vozinha dentro de sua cabeça lhe dizia que as coisas estavam erradas, m as ele a ignorou. As coisas estavam claram ente certas. Ele suspirou j unto com os outros quando a heroína tentou preservar a velha m ina da fam ília num Mundo Enlouquecido... Ele estrem eceu nas lutas da guerra. Ele assistiu à cena do baile num torpor rom ântico. Ele...

... sentiu algo gelado encostando em sua perna. Era com o se um cubo de gelo m eio derretido encharcasse suas calças. Ele tentou ignorar, m as aquilo tinha um a característica definitivam ente im possível de ser ignorada. Ele olhou para baixo.

— Licença — disse Gaspode.

Victor aj ustou a vista. Depois sentiu que seus olhos eram atraídos para a tela, onde um a versão enorm e dele m esm o beij ava um a versão enorm e de Ginger. Houve m ais um a sensação de frio grudento. Ele veio à tona novam ente.

— Posso m order a sua perna se quiser.

— Eu... E... Eu... — com eçou Victor.

— Posso m order com bastante força — acrescentou Gaspode. — É só m andar.

— Não, é...

— Algum a coisa está parecendo um presságio, exatam ente com o eu falei. Presságio. Presságio. Presságio. Laddie j á tentou latir até ficar rouco, m as ninguém está ouvindo. Então pensei em tentar a velha técnica do focinho gelado. Nunca falha. Victor olhou ao redor. O resto da plateia olhava fixam ente para a tela com o se estivesse preparado para perm anecer no assento para... para...

... sem pre.

Quando tirou os braços da cadeira, faíscas estalaram nos seus dedos, e o ar tinha um a sensação escorregadia que até os m agos iniciantes logo aprendiam a associar com um vasto acúm ulo de potencial de m agia. E havia neblina no poço do órgão. Era ridículo, m as lá estava ela, cobrindo o chão com o um a fraca m aré prateada.

Ele chacoalhou os om bros de Ginger. Balançou a m ão diante dos olhos dela. Gritou no seu ouvido.

Depois tentou o m esm o com o Patrício e Dibbler. Eles cederam à pressão, m as voltaram lentam ente para a posição em que se encontravam .

— O clique está fazendo algum a coisa com eles. Tem que ser o clique. Mas não entendo com o. É um clique perfeitam ente com um . Não usam os m agia em Holy Wood. Pelo m enos... não m agia convencional...

Ele passou por j oelhos inflexíveis com dificuldade até chegar ao corredor e correu entre as hastes de neblina. Bateu com força na porta da sala de lançam ento de im agens. Com o não obteve resposta, derrubou-a com um chute. Bezam olhava fixam ente para a tela através de um pequeno orifício na parede. O lançador de im agens cucava sozinho e feliz. Ninguém girava a m anivela. Pelo m enos, Victor se corrigiu, ninguém que ele pudesse ver. Houve um estrondo distante, e o chão estrem eceu.

Victor olhou para a tela. Ele reconhecia aquela parte. Era pouco antes da cena do Incêndio em Ankh-Morpork.

Sua m ente deu voltas. O que diziam em relação aos deuses? Eles não existiriam se não existissem pessoas para acreditar neles? e aquilo se aplicava a tudo. A realidade era o que se passava dentro da cabeça das pessoas. E diante dele havia centenas de pessoas realm ente acreditando no que viam ... Victor vasculhou a bancada de Bezam , procurando um a tesoura ou faca, e não encontrou nenhum a das duas. A m áquina prosseguia com seu zum bido, desenrolando a realidade do futuro para o passado.

No fundo, conseguiu ouvir Gaspode dizer: — Acho que salvei o dia, né? O cérebro norm alm ente ecoa gritos de vários pensam entos inconsequentes para buscar atenção. E preciso haver um a verdadeira em ergência para fazer com que eles se calem . Era o que acontecia naquele m om ento. Um pensam ento claro que tentava se fazer ouvir havia m uito tem po ecoou no silêncio. Suponham os que haj a um lugar onde a realidade sej a um pouco m ais tênue do que o norm al. E suponham os que se faça algo ali que enfraqueça ainda m ais a realidade. Livros não fazem isso. Até m esm o o teatro com um não faz isso porque, no fundo, você sabe que são apenas pessoas usando roupas engraçadas sobre um palco. Mas Holy Wood ia direto dos olhos para o cérebro. No fundo, você achava que era verdade. Os cliques fazem isso.

Era isso o que estava em baixo da colina de Holy Wood. O povo da antiga cidade usara o buraco na realidade para o entretenim ento. E depois as Coisas os descobriram .

Agora as pessoas faziam a m esm a coisa. Era com o aprender a fazer m alabarism os com tochas acesas num a fábrica de fogos de artifício. E as Coisas estavam esperando...

Mas por que aquilo ainda acontecia? Ele havia interrom pido Ginger. O film e continuava fazendo seu clique. Parecia haver neblina em volta da caixa de im agens, borrando seus contornos.

Ele agarrou a m anivela, que não parava de girar. Ela resistiu por um m om ento, m as depois quebrou. Ele tirou Bezam de sua cadeira com cuidado e bateu na caixa de im agens com ela. A cadeira explodiu em estilhaços. Ele abriu a gaiola por trás, tirou as salam andras e, ainda assim , o film e ainda dançava na tela distante. O prédio estrem eceu novam ente.

"Você só tem um a chance", ele pensou, "e depois você m orre." Ele tirou a cam isa e a enrolou na m ão. Depois apanhou a fita brilhante do film e e a segurou com firm eza.

Ela se rom peu. A caixa deu um tranco para trás. O film e continuou se desenrolando em espirais cintilantes que deram um breve bote nele e depois serpentearam até o chão.

Cliqueclique... clique.

Os rolos giraram m ais um pouco e pararam .

Com cuidado, Victor m exeu no am ontoado de film e com o pé. Esperava que ele o atacasse com o um a cobra.

— Salvam os o dia? — sugeriu Gaspode. — Eu gostaria de saber. Victor olhou para a tela.

— Não — respondeu.

Ainda havia im agens. Não eram m uito claras, m as ainda conseguia distinguir suas form as vagas, alem das de Ginger persistindo em existir. E a própria tela se m ovia. Criava protuberâncias aqui e ali, com o ondulações num a piscina de m ercúrio sem brilho. Era desagradável perceber que aquilo era fam iliar.

— Elas nos encontraram .

— Quem ? — perguntou Gaspode.

— Sabe aquelas criaturas fantasm agóricas de que estávam os falando? Gaspode enrugou a testa.

— Aquelas de antes do am anhecer? — De onde elas vêm , não existe tem po. — A plateia estava agitada. — Tem os que tirar todo m undo daqui. Mas sem entrar em pânico... Houve um coro de gritos. A plateia estava despertando.

A Ginger da tela saía por cim a dela. Ela era três vezes m aior que a original, e trem eluzia de form a perceptível. Tam bém era levem ente transparente, m as tinha peso, porque o chão se curvava e estilhaçava sob seus pés. A plateia subia sobre si m esm a para escapar. Victor conseguiu descer pelo corredor no exato m om ento em que a cadeira de rodas de Poons passou de costas j unto com o fluxo de pessoas, com seu ocupante abanando os braços desesperadam ente e gritando: — Ei! ei! estava com eçando a ficar bom ! O presidente segurou o braço de Victor com urgência: — Isso era para ser assim m esm o? — Não! — Não é um a espécie de efeito especial cinem atográfico então? — perguntou o presidente, esperançoso.

— Não, a m enos que eles tenham evoluído m uito nas últim as 24 horas. Acho que são as Dim ensões do Calabouço.

O presidente olhava atentam ente para ele.

— Você é o j ovem Victor, não e m esm o? — Sim . Com licença — pediu Victor. Ele deixou o m ago estarrecido para trás e subiu nas cadeiras até onde Ginger perm anecia sentada, com o olhar fixo na sua própria im agem . A Ginger m onstro olhava à sua volta e piscava m uito devagar, com o um lagarto.

— Essa sou eu? — Não! Quer dizer, é. Talvez. Na verdade, não. Mais ou m enos. Venha.

— Mas é igualzinha a m im ! — observou Ginger, com a voz m odulada pela histeria.

— Isso é porque elas têm que usar Holy Wood! Isso... isso define com o elas podem aparecer, acho — Victor explicou com pressa.

Ele a puxou com força para fora do assento, agitando a nevoa com os pés e espalhando grãos estourados. Ela foi cam baleando atrás dele, olhando para trás.

— Tem m ais um tentando sair da tela.

— Venha! — É você! — Eu sou eu! Aquilo é... algum a outra coisa! Só que tem que usar a m inha form a! — Que form a ela usa norm alm ente? — Você não ia querer saber!

— Quero, sim ! Por que acha que perguntei? — Ela gritou, enquanto tentavam passar sobre os assentos quebrados.

— É pior do que você pode im aginar!

— Eu consigo im aginar um as coisas bem feias!

— Foi por isso que eu disse pior!

—Oh.

A Ginger espectral gigante passou por eles, trem eluzindo com o um a luz estroboscópica, e saiu arrebentando a parede. Eles ouviram gritos do lado de fora.

— Parece que ela está ficando m aior — sussurrou Ginger.

— Vá lá fora. Faça com que os m agos a detenham .

— O que você vai fazer? Victor se esticou à sua altura m áxim a.

— Existem algum as Coisas que um hom em tem que fazer pessoalm ente. Ginger olhou para ele com um a expressão de incom preensão irritada.

— O quê? O quê? Você quer ir ao banheiro ou algo do tipo?

— Saia daqui! Ele a em purrou na direção das portas, depois se virou e viu os dois cachorros olhando para ele com expectativa.

— E vocês dois.

Laddie latiu.

— Cachorro tem que ficar ao lado do dono, esse tipo de coisa — disse Gaspode, envergonhado.

Victor olhou ao redor, desesperado, pegou um fragm ento de assento, abriu a porta, j ogou a m adeira o m ais longe possível e gritou: "Pega!" Am bos os cães saíram pulando atrás dela, im pulsionados pelo instinto. Porém , ao passar por Victor, Gaspode teve apenas o autocontrole necessário para dizer: "Filho da m ãe!" Victor abriu a porta da sala de lançam ento de im agens e saiu com as m ãos cheias de e O Sopro Carregou.

O Victor gigante tinha dificuldades para sair da tela. A cabeça e um braço haviam se libertado e estavam em três dim ensões. O braço abanou vagam ente para Victor quando ele atirou espirais de octocelulose de form a m etódica sobre ele. Ele voltou correndo para a cabine e retirou m ontes de cliques que Bezam , num desafio ao bom senso, havia guardado em baixo do banco.

Trabalhando com a calm a m etódica de quem está dom inado por um terror capaz de causar cólicas intestinais, carregou as latas até a tela e em pilhou-as ali. A Coisa conseguiu libertar da bidim ensionalidade, à força, seu outro braço e tentou passar a m ão nelas, m as o que quer que a dom inasse tinha dificuldade para controlar esta nova form a. "Provavelm ente não estava acostum ada a ter dois braços", disse Victor a si m esm o.

Ele j ogou a últim a lata em cim a do m onte.

— No nosso m undo, você tem que obedecer às nossas regras. E aposto que você queim a tanto quanto qualquer outra coisa, não e? A Coisa lutou para libertar um a perna.

Victor bateu nos bolsos. Depois correu até a cabine e vasculhou por todos os lados feito louco.

Fósforos. Não havia nenhum fósforo! Ele em purrou as portas que davam para o salão de entrada e saiu correndo pela rua, onde a m ultidão se m ovim entava sem destino, ao m esm o tem po horrorizada e fascinada ao ver um a Ginger de 15 m etros saindo dos escom bros de um prédio.

Victor ouviu um clique ao seu lado. Gaffer, o operador de m anivelas, captava atentam ente a cena em film e.

O presidente gritava com Dibbler.

— É claro que não podem os usar m agia contra isso! elas precisam de m agia! A m agia só as torna m ais fortes! — Vocês têm que ser capazes de fazer algum a coisa! — gritou Dibbler.

— Meu caro senhor, nós não com eçam os a nos introm eter em coisas que deveriam ter sido deixadas... — o presidente hesitou no m eio do grito — sem introm etim ento — term inou, pouco convincente.

— Fósforos! — gritou Victor. — Fósforos! Rápido! Todos olharam para ele.

Então o presidente concordou.

— Fogo com um — disse. — Você está certo. Isso deve resolver. Bem pensado, garoto. — Ele rem exeu num bolso e retirou um feixe de fósforos que os m agos, fum antes inveterados que são, sem pre carregam .

— Você não pode botar fogo no Odium — gritou Dibbler. — Tem pilhas de film e lá dentro! Victor arrancou um cartaz da parede, enrolou-o form ando um a tocha tosca e acendeu um a ponta.

— É isso o que eu vou queim ar.

— Licença...

— Burro! Burro! — berrou Dibbler. — Essa coisa queim a m uito rápido! — Licença...

— E daí? eu não tenho a intenção de ficar m uito tem po lá dentro.

— Estou dizendo que queim a m uito rápido!

— Licença — disse Gaspode, paciente. Eles baixaram a cabeça para olhar para ele.

— Eu e o Laddie podíam os fazer isso. Quatro pernas são m elhores que duas e assim por diante, sabe? Quando se trata de salvar o dia. Victor olhou para Dibbler e ergueu as sobrancelhas.

— Acho que pode ser que eles consigam — consentiu Dibbler.

Victor concordou acenando com a cabeça. Laddie deu um salto gracioso, tirou a tocha da m ão dele e correu de volta para dentro do prédio com Gaspode rebolando atrás.

— Estou ouvindo coisas ou aquele cachorrinho sabe falar? — perguntou Dibbler.

— Ele diz que não sabe.

Dibbler hesitou. A agitação o estava deixando um pouco atordoado.

— Bem , acho que ele deve saber.

Os cães correram na direção da tela. A Coisa-Victor j á estava quase saindo, estendendo m etade do corpo entre as latas.

— Posso acender a fogueira? — perguntou Gaspode. — É m eu trabalho, na verdade.

Laddie latiu com obediência e largou o papel em cham as. Gaspode apanhou a tocha e avançou com cautela na direção da Coisa.

— Salvando o dia — Ele disse, de m odo indistinto, e largou a tocha num a espiral de film e. Ela pegou fogo de im ediato e queim ou com um fogo branco e pegaj oso, com o m agnésio brando.

— Ok. Agora vam os dar o fora da...

A Coisa gritou. A sem elhança que ainda restava com Victor deixara de existir e algo com o um a explosão num aquário se retorceu entre as cham as. Um tentáculo deu um a chicotada para fora e agarrou Gaspode pela pata. Ele se virou e tentou m ordê-lo.

Laddie voltou correndo até o corredor destruído e se lançou contra o braço agitado, que deu um coice. Laddie foi derrubado, e Gaspode caiu girando pelo chão. O cachorrinho se sentou, deu alguns passos vacilantes e tom bou.

— Maldita pata, veio e foi em bora — resm ungou. Laddie olhou para ele com tristeza. As cham as estalavam ao redor das latas de film e.

— Anda. Sai daqui, seu vira-lata idiota. A coisa toda vai pros ares num m inuto. Não! Não m e pega! Me coloca no chão! Não vai dar tem po... As paredes do Odium se expandiram com um a lentidão aparente, com todas as tábuas e pedras m antendo sua posição relativa a todas as outras, m as flutuando sozinhas.

Depois o Tem po alcançou os acontecim entos.

Victor se atirou no chão.

Boom .

Um a bola de fogo laranj a ergueu o teto e se elevou para o céu nebuloso. Escom bros foram atirados contra as paredes de outras casas. Um a lata de film e incandescente passou rente à cabeça dos m agos abaixados, fazendo um barulho wipwipwip am eaçador, e explodiu contra um m uro distante.

Houve um choro alto e agudo que parou de m odo abrupto.

A Coisa-Ginger sacudia no calor. A raj ada de ar quente levantou sua saia im ensa em grandes ondas ao redor da cintura, e ela ficou parada, trem eluzindo e hesitando, enquanto choviam entulhos ao seu redor.

Depois se virou de form a desaj eitada e seguiu balançando. Victor olhou para Ginger, que observava atentam ente as nuvens de fum aça que se afinavam acim a da pilha de entulhos do que um dia tinha sido o Odium .

— Isso está errado — m urm urava. — Não é assim que acontece. Nunca acontece desse j eito. Quando você pensa que é tarde dem ais, eles saem saltitando de dentro da fum aça. — Ela voltou os olhos tristes para ele. — Não saem ? — insistiu.

— Isso é nos cliques — disse Victor. — Isto é a realidade.

— Qual é a diferença? O presidente segurou o om bro de Victor e o girou.

— Ela está indo para a Biblioteca! Você tem que detê-la! Se ela chegar lá, a m agia irá torná-la invencível! Nunca a vencerem os! Será capaz de trazer outras!

— Vocês são m agos — disse Ginger. — Por que não a detêm ? Victor balançou a cabeça.

— As Coisas gostam da nossa m agia. Se for usada perto delas, isso só vai torná-las m ais fortes. Mas não sei o que posso fazer... Sua voz falhou. A m ultidão o observava com m uita expectativa. As pessoas não olhavam para ele com o se fosse sua últim a esperança. Elas olhavam com o se fosse sua certeza. Ele ouviu um a criança pequena dizer: — O que acontece agora, m am ãe? A m ulher gorda que segurava sua m ão disse, num tom autoritário: — É fácil. Ele sai correndo e interrom pe a coisa no últim o segundo. É sem pre assim . Já vi ele fazer isso antes.

— Nunca fiz isso antes! — disse Victor.

— Vi você fazer — insistiu a m ulher, convencida. — Em Sobras do Dheserto. Quando essa m oça aqui — Ela fez um breve gesto na direção de Ginger — tava naquele cavalo que j ogou ela de cim a do despenhadeiro e você saiu galopando e agarrou ela no últim o segundo. Muito im pressionante, eu achei.

— Isso não foi em Sobras do Dheserto — interrom peu um hom em m ais velho com ar pedante, enquanto enchia o cachim bo —, isso foi em Vale dos Trolls.

— Foi em Sobras — disse um a m ulher m agra atrás dele. — Eu tenho que saber, assisti 27 vezes.

— É, é m uito bom , não é? — com entou a prim eira m ulher.

— Toda vez que vej o a cena em que ela deixa ele e ele vira pra ela com aquele olhar, eu caio no choro...

— Me desculpe, m as isso não foi em Sobras do Dheserto — corrigiu o hom em , falando devagar e refletindo. — Você está pensando na fam osa cena da praça em Paixões Ardhentes.

A senhora gorda pegou a m ão frouxa de Ginger e deu uns tapinhas de leve.

— Você tem um bom hom em . O j eito com o ele sem pre salva você toda vez. Se eu fosse carregada por trolls enlouquecidos, m eu véio não ia abrir a boca, a não ser pra perguntar pra onde era pra m andar as m inhas roupas.

Continuar: parte 3 de 3