A Promessa do Tigre

Colleen Houck · Capítulo 1 de 14

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A Promessa do Tigre

PRÓLOGO Perdida

P R Ó L O G O

 

Perdida

 

A m aioria das m enininhas aguardava ansiosam ente o m om ento em que o pai chegava em casa. Mas não Yesubai. Assim que as badaladas do sino anunciavam a chegada dele, o m edo tom ava seu coração, apertando-o com força, e a j ovem parava de respirar.

Ninguém que observasse a pequena criança percebia o terror m ortal que ela realm ente sentia. Via-se apenas um a princesa dim inuta, adornada com as m ais finas sedas. Seus olhos grandes e de um a cor incom um de lavanda, em oldurados por cílios grossos e escuros sobre o rosto em form ato de coração, eram capazes de derreter até o m ais duro coração. Por fora, ela era calm a e pacífica com o um lago na m ontanha. Não havia nela nada de astúcia ou de m istério – ao m enos não em sua aparência externa. A fisionom ia de Yesubai em nada refletia a do pai.

Apesar disso, ninguém que trabalhava próxim o à fam ília arriscaria sequer um sussurro sobre a possibilidade de algum a infidelidade por parte da falecida m ulher de seu am o. Ninguém seria tão burro. Contudo, todos pensavam isso. Todos se perguntavam com o um a j oia tão rara teria nascido de um a fonte tão im pura. E quem m ais refletia sobre isso era a am ada babá de Yesubai, Isha.

A serviçal Isha fora cham ada quase que im ediatam ente após a m orte da m ulher do am o, Yuvakshi. Na verdade, Isha tinha sido am iga da parteira que aj udara a dar à luz o bebê de Yuvakshi. Porém , logo após o nascim ento de sua j ovem protegida, a lam entável m orte da senhora foi anunciada. A isso se seguiu o m isterioso desaparecim ento da parteira. Isha, que era am a-seca, foi contratada, e ela e a criança foram banidas, sendo m andadas para o extrem o m ais distante da suntuosa m ansão no pequeno reino de Bhreenam .

Bhreenam j á tinha sido um lugar pacífico. O rei era velho, m as um bom hom em , com pouquíssim as am bições políticas. A m aior parte da população era com posta de pastores e agricultores, e as forças m ilitares tinham o tam anho necessário apenas para oferecer segurança contra baderneiros ou bêbados ocasionais. Aquele era um bom lugar para se m orar... antigam ente.

Agora, um novo com andante havia assum ido o poder. O m esm o hom em que contratara Isha. Um hom em som brio. Perigoso. Por fora, claro, era todo sorrisos e dem onstrava deferência ao rei, m as Isha precisava se esforçar m uito para não fazer um apelo aos deuses, pedindo proteção contra o m al, cada vez que ele se aproxim ava. Seu patrão a apavorava. Mais do que qualquer outra pessoa que ela j á conhecera.

A suspeita de Isha de que o pai da criança fizera algo terrível à esposa aum entava ainda m ais quando ele visitava o quarto da bebê. Ela m uitas vezes o surpreendia lá, encarando a filha com um nítido desprezo estam pado no rosto. Covardem ente, ela esperava j unto à porta, parcialm ente escondida, esfregando as m ãos enquanto m urm urava súplicas silenciosas para que a m enininha a quem passara a am ar não fizesse nada que pudesse irritar o pai.

Quando ele se retirava, ela suspirava de alívio e agradecia aos deuses por terem feito com que sua protegida não despertasse. Porém , após cada um a dessas visitas, ela descobria que a m enininha na verdade estava acordada, os olhos líquidos ainda encarando o ponto onde havia pouco estivera o rosto do pai. Os braços e as pernas da bebê perm aneciam im óveis e o cobertor continuava firm e, enrolado nela.

Com o passar do tem po, apesar das visitas frequentes do pai da m enina, Isha passou a desej ar que Yesubai dem onstrasse m ais em oções. Com efeito, m uitas vezes se perguntava se estaria fazendo algo errado. Ela não era um a criança m alvada. Nada disso. Yesubai apenas tinha um tem peram ento sério.

Ela não brincava com o as outras crianças. Em vez de sonhar acordada ou fazer de conta com seus brinquedos, apenas os posicionava em um lugar onde, segundo ela, ficavam m ais bonitos de se ver. Os sorrisos eram raros. Com sua beleza inegável, a m aioria das pessoas a enxergava som ente com o um a bonequinha. Apenas Isha era capaz de captar os sentim entos profundos que corriam sob a superfície.

As visitas do pai de Yesubai se tornaram m enos assíduas à m edida que a m enina foi crescendo, ou sej a, na m aior parte do tem po ele deixava a filha em paz – exceto quando a levava a festas e eventos políticos. Nessas ocasiões, a beleza rara da m enina parecia agradá-lo, especialm ente quando o rei tecia com entários sobre ela. Yesubai seguia o pai de m inistro em m inistro, até m esm o segurando sua m ão quando ele exigia, e não abria a boca a m enos que alguém falasse diretam ente com ela. Nesses casos, era educada e perfeita com o um a princesa, e sua natureza tranquila encantava a todos os que a conheciam .

Em bora a usasse em proveito próprio, o pai de Yesubai não lhe dirigia um a palavra am ável e entregava a m enina aos cuidados de outra pessoa assim que era possível. Só quando estava em segurança nos braços de Isha é que a j ovem relaxava os om bros e seus lindos olhos se fechavam . Então a babá acom odava aquela pequena criatura etérea na cam a e refletia, sem pre, se ela não seria um a m ulher adulta, m ais sábia do que perm itia a sua idade, presa naquele corpo de criança.

Quando Yesubai tinha 8 anos, seu pai partiu num a viagem pela qual dem onstrara estar curiosam ente entusiasm ado. O brilho em seus olhos era assustador, e Isha torceu em segredo para que a razão de sua partida, qualquer que fosse, o m antivesse afastado por tem po indefinido. Porém , com o sem pre, ele voltou e ela aguardou, com tem or paralisante, o que viria a seguir. Se a viagem do am o tivesse sido bem -sucedida, ele m andaria os serviçais distribuírem caixas de flores recém -colhidas; caso contrário, iria atrás de Yesubai. Isha não precisou esperar m uito tem po.

Quando irrom peu no quarto, afoita, viu a m enina que passara a am ar em pé, im óvel, olhando fixam ente para a porta. Tom ou-a pela m ão e apertou com força. Os olhos cor de lavanda piscaram um a vez, duas, e então se voltaram para a velha serviçal. O m ais tênue m ovim ento de canto de boca indicava que Yesubai estava grata por sua presença.

Enquanto a m enina cobria cuidadosam ente os cabelos que iam até a cintura com um lenço roxo, Isha andou pelo quarto, j á im pecável, e alinhou um livro sobre a m esa, secou a condensação da j arra de água, esticou um cobertor e afofou algum as alm ofadas.

Ouviu-se um ruído de botas pesadas se aproxim ando pelo corredor e rapidam ente Yesubai prendeu o lenço, passando-o sobre o rosto de m odo que só seus lindos olhos pudessem ser vistos. Isha se posicionou na lateral do quarto e ficou na penum bra, tom ando coragem para defender a m enina, m as torcendo para que isso não fosse necessário. Por m ais que quisesse ser um a m ulher forte, do tipo que não se curvava diante do m al, sem pre sentia um alívio culpado quando a m enininha que sabia dem ais era capaz de lidar com o pai sem a aj uda de ninguém .

Um dia, pensou, um dia ficarei ao lado dela, sem medo.

Porém Isha não se m anteve destem ida ao lado de Yesubai – pelo m enos não im ediatam ente. Quando o pai da m enina entrou no quarto, com o poder crepitando nas pontas dos dedos, tanto a j ovem quanto a idosa souberam que a visita daquele dia não traria flores, m as espinhos. Yesubai fez um a m esura para o pai e baixou o olhar hum ildem ente, com o ele esperava, m as então ele atacou, prim eiro com o poder antinatural que trazia arm azenado nos braços e depois com os punhos.

Sedas preciosas foram consum idas por labaredas. Pedaços de pedra voaram , chocando-se contra a parede oposta. Delicadas bonecas, com rostos de cera m inuciosam ente esculpidos, derreteram com pletam ente. Quando a destruição física se m ostrou incapaz de acalm á-lo, ele dirigiu a ira contra a filha.

Bravam ente, ela se m anteve de pé diante dele, calm a e com a cabeça baixa, enquanto o pai esbravej ava sobre tudo o que queria m as estava fora de seu alcance: o desej o por um a m ulher que o rej eitara, o fato de Yesubai ser frágil e indefesa e de que seu nascim ento lhe negara o filho hom em que ele tanto queria a seu lado.

Com a fúria de um touro, ele levou o braço atrás e acertou Yesubai no rosto com tanta força que levantou seu corpo franzino do chão. O vento arrem essou o véu para o lado e sacudiu seus cabelos. Com um ruído de revirar o estôm ago, Yesubai se chocou contra a parede e deslizou lentam ente até não ser m ais que um am ontoado no chão. A m enina ficou im óvel, com o corpo m achucado, parecendo um a boneca que fora atirada sobre rochas pontiagudas.

Com um grito, Isha correu, se colocando no cam inho do m onstro, recebendo em troca um a perna quebrada, a traqueia com prim ida, dois olhos roxos e hem atom as profundos por todo o corpo. Sua protegida estava m orta e Isha sabia que logo se j untaria a ela.

No silêncio após a partida dele, Isha recobrou os sentidos. A dor percorria seu corpo e latej ava por trás de suas pálpebras, porém ela sentiu um leve toque no braço. Yesubai. A m enina estava viva.

Ela tocou a am ada babá com dedos m acios e vacilantes, e um form igam ento m orno aliviou a dor que percorria os braços e as pernas de Isha. Passaram -se horas e, à m edida que se recuperava, Isha refletia sobre o que deduzira dos acessos de raiva de seu am o. Tudo indicava que sua tentativa recente de se infiltrar em um reino vizinho havia fracassado, o que provocara sua fúria. Ele exclam ara que os am uletos seriam dele de qualquer maneira e que, se fosse necessário, lutaria contra m il soldados para pôr as m ãos nos j ovens príncipes.

Enquanto batia na filha, dissera que ela era tão im prestável e subm issa quanto a m ãe, que um hom em poderoso com o ele precisava de um a m ulher forte e decidida a seu lado e que deveria ter m atado Yuvakshi antes de ela lhe dar um a filha fraca, um a fonte perm anente de problem as para ele.

Isha continuou deitada em silêncio, o inchaço do rosto e do corpo dim inuindo graças ao toque curativo de Yesubai. Ainda assim , a m enina, com o lindo rosto m arcado por cortes causados pelos anéis do pai, chorou e se desculpou por não poder fazer m uito para aj udá-la com a perna. Não im portava. Isha se recuperaria.

No dia seguinte, a dificuldade de cam inhar serviu para lem brá-la de sem pre lutar contra o m al. Isha até sentia certo orgulho por saber que, no fim das contas, tivera a coragem de defender sua protegida. Mesm o assim , por m ais heroica que tivesse sido, ainda tinha um m edo terrível do futuro. O que seu am o faria quando descobrisse que as duas não haviam m orrido?

Naquele dia repleto de dor e tristeza, Isha com preendeu duas coisas m uito im portantes.

Prim eiro: existia um poder m ágico, que era usado de form a m alévola pelo pai, m as que de algum m odo havia sido transm itido à filha. Segundo: o pai de Yesubai realm ente tinha m atado a esposa e não hesitaria em perpetrar outros assassinatos. Ela j á suspeitava que ele tivesse com etido um m al terrível no passado, m as agora sabia que era capaz de algo ainda pior. Muito pior.