A Promessa do Tigre

Colleen Houck · Capítulo 2 de 14

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A Promessa do Tigre

CAPÍTULO 1 Véu

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Véu

 

Eu estava sentada diante do espelho enquanto Isha escovava m eus cabelos com m ovim entos delicados e m anipulava as pétalas das flores am arelas com as quais eu acabara de fazer um arranj o. Meu pai havia retornado de um a cam panha bem -sucedida, que lhe abrira novas oportunidades financeiras. Não que o povo ou o rei fossem ver um a m oeda de ouro, um a ovelha gorda ou m esm o um rolo de tecido fino que fosse. Não. Os únicos que lucrariam com as conquistas de m eu pai seriam seus aliados próxim os – hom ens quase tão vis, traiçoeiros e corruptos quanto ele.

É claro que nenhum chegara perto de praticar atos com o os dele. Aliás, se eu com parasse os feitos daqueles sanguessugas com os crim es com etidos por m eu pai, não chegariam nem a seus pés. Havia m uito tem po eu deixara de contar o núm ero de pessoas que ele tinha assassinado das form as m ais violentas. Se não fosse por Isha, eu m esm a teria desaparecido m isteriosam ente anos atrás.

Infelizm ente, a m agia que eu tinha sido capaz de desenvolver só surtia efeito em m im , com exceção de um a pequena dose de poder de cura que eu proporcionara a Isha ao longo dos anos – um a habilidade que ficara cuidadosam ente em segredo. Nós duas sabíam os o perigo que correríam os se m eu pai descobrisse que eu havia herdado a m ais ínfim a porção da m agia que ele dom inava. Assim , observávam os e esperávam os, m as nunca havia um m om ento em que não estivéssem os cercadas, em que ao m enos um guarda não nos vigiasse com total atenção. Todos sabiam o que aconteceria se descum prissem um a ordem de m eu pai. Até que as circunstâncias m udassem , éram os prisioneiras.

Eu era sem pre cuidadosa, sem pre vigilante, ainda m ais agora que ele tinha

o

retornado. Era o m eu 16 aniversário, e o rei, um hom em tão bondoso quanto m eu pai era desprezível, solicitara m inha presença em um a celebração. Ele daria um a grande festa e, em bora eu estivesse grata por sua consideração em m e convidar, m eu estôm ago se contorcia de nervosism o.

Quando os festej os foram anunciados, estrem eci por saber que a atividade exigiria que eu estivesse acom panhada de m eu pai, algo que eu detestava e – ainda pior – que era inerentem ente perigoso. Mesm o assim , passar o dia do m eu aniversário com parecendo a um a festa suntuosa no palácio era algo tão raro e especial que m e deixei levar pelo entusiasm o. Principalm ente porque eu achava que poderia ter a oportunidade de visitar o fam oso j ardim do rei.

Isha anunciou que o penteado estava pronto. Ela o havia arrum ado de m odo que a m aior parte pendesse pelas m inhas costas, m as tinha prendido várias m echas no topo da cabeça, com pequenas j oias entrem eadas. Traj ando as sedas suntuosas porém visivelm ente m odestas que m eu pai m e perm itia usar, eu m e apresentei para a inspeção de Isha.

Ela estalou a língua.

– Você sem pre foi um a linda criança, m inha pequena Yesubai, m as está se tornando um a j ovem deslum brante.

Pegando o véu translúcido de suas m ãos, passei-o pelas costas e o acom odei com cuidado sobre os cabelos. Deixei Isha vislum brar um breve sorriso triste.

– E você sabe quanto eu preferiria ter um a aparência m ais norm al. A beleza só serve para cham ar a atenção dele ainda m ais.

Enquanto prendia o véu no lugar, Isha retrucou:

– Talvez sua beleza o faça se controlar m ais do que é da natureza dele.

– Talvez. – Fixei a parte inferior do véu dourado transparente sobre m eu rosto e senti o nó no estôm ago que denunciava que alguém de grande poder estava por perto. – Ele está se aproxim ando. Vá se esconder no closet.

– Sim , senhorita. – Isha colocou a m ão m acia e enrugada no m eu rosto. – Fique em segurança hoj e à noite.

Dei palm adinhas em seu braço.

– Você tam bém .

Isha se virou depressa com a escova na m ão e se afastou m ancando. Mesm o sendo um a m ulher grande com problem a num a das pernas, ela se m ovia silenciosam ente, habilidade que nós duas dom inam os por necessidade. Nem prestando atenção eu era capaz de ouvir qualquer indício de que ela estava presente. Do closet ela poderia ver m inha interação com m eu pai, m as tinha instruções im plícitas para não intervir, não im portando o que acontecesse.

De qualquer form a, a possibilidade de ele m e agredir antes de nos encontrarm os com o rei era rem ota e, m esm o se acontecesse, apesar da m inha habilidade lim itada para sarar os ferim entos de Isha, a m im eu poderia curar com pletam ente. Se ao m enos pudesse praticar m inha m agia de form a m ais aberta, talvez alcançasse um nível de poder que m e perm itisse realm ente aj udar as pessoas.

Arm ando-m e de forças, baixei o olhar no m om ento exato em que a porta se abriu. Meu pai entrou no quarto com seu assistente, Haj ari, um hom em tão cruel quanto feio. Plantada firm em ente no lugar, dom inei m eu m edo quando Haj ari fechou a porta ao entrar e senti a energia vibrar pelo m eu corpo quando obriguei m eus m úsculos a relaxarem .

– E onde está aquela babá preguiçosa? – perguntou im ediatam ente Lokesh, m eu pai. – Ela tem o m au hábito de deixar você m uito tem po sozinha.

– Nunca estou totalm ente só, pai – respondi em voz baixa, e senti sua irritação. Meu com entário fora descuidado e transm itia ousadia. Rapidam ente com pletei: – Além disso, não há um a alm a sequer na casa de m eu estim ado pai que ousaria se aproxim ar de m im com m ás intenções. Sua poderosa influência é sentida m esm o a distância.

Após um m om ento avaliando as m inhas intenções, ele decidiu deixar m eu com entário passar em branco.

– E é assim que deve ser – disse com im paciência.

– Talvez tenha sido precipitado de m inha parte – expliquei rapidam ente –, m as m andei Isha se retirar m ais cedo. Ela não está se sentindo bem e eu não queria pegar a doença dela e m e apresentar ao rei com o nariz verm elho e escorrendo.

Ele resm ungou, m as im ediatam ente perdeu o interesse em Isha. Meu pai reprovava a fraqueza m ais do que tudo e detestava vê-la nos outros. Em toda a m inha vida, j am ais o vira doente, m as qualquer soldado que apenas tossisse perto dele era m andado para longe no m esm o instante. Sua aversão à doença agia a m eu favor, m as eu sabia que ele era inteligente dem ais para cair m ais de um a vez no m esm o truque.

Andando ao m eu redor, ele avaliou m inha aparência ostensivam ente e, em bora m eus punhos tivessem se cerrado quando vi o sorriso lascivo de Haj ari, revelando seus dentes escurecidos e trincados – algo que ele som ente ousava fazer pelas costas de m eu pai –, rapidam ente abri os dedos e alisei as saias. Não queria dem onstrar m edo ou nervosism o. Seu m aior prazer era evocar essas em oções nos outros. Até o rosto de Haj ari j á estava im passível quando m eu pai term inou de dar a volta.

– Acho que você está vestida adequadam ente – disse ele. – Em bora eu prefira lavanda a esse dourado. Ressalta seus olhos.

Ele segurou m eu queixo e, obedientem ente, levantei o olhar para encontrar o dele.

– Vou m e lem brar de suas preferências para a próxim a celebração a que com parecerm os – m urm urei com m odéstia, apenas com um toque de atrevim ento para não atiçar seu instinto de explorar a fraqueza. Am bos sabíam os que outro convite real seria, na m elhor das hipóteses, im provável.

Meu pai era com o um anim al predador. Se um a pessoa tivesse a ousadia de enfrentá-lo, ele adm irava o gesto; j á se ele a considerasse fraca dem ais, sim plesm ente a destruía. O m elhor m odo de evitar ficar preso em suas garras era não deixar rastros, m over-se pelo espaço com o um espírito.

Eu tinha 10 anos quando descobri que eu possuía a capacidade de desaparecer. Inicialm ente, eu nem sequer percebi o que tinha acontecido. O ruído forte de botas do lado de fora do m eu quarto m e assustou e fiquei paralisada no lugar. Isha entrou rapidam ente nos m eus aposentos e passou por m im com pressa para arrum ar o côm odo, que j á estava im pecável. Meu pai gostava que suas posses, assim com o as pessoas – que para ele tam bém eram suas posses –, estivessem nos devidos lugares quando ele as encontrasse.

As precauções de Isha tinham sido desnecessárias. A porta não chegou a se abrir. Quando ela espiou do lado de fora, trocou breves palavras com o guarda e tornou a fechar a porta.

Foi quando com eçou a m e cham ar.

– Bai? Yesubai? Onde você está? Já pode sair. Seu pai não está aqui. Era só a troca da guarda.

– Eu... estou bem aqui – m urm urei em voz baixa.

– Bai? Onde você está? Não consigo vê-la.

– Isha?

Preocupada, dei um passo à frente e pus a m ão em seu braço. Ela deu um gritinho de susto e depois passou as m ãos pelos m eus braços e pelo m eu rosto.

– Deve ser a m agia – disse ela. – Você ficou invisível. Consegue voltar a ficar visível?

– Não sei – respondi, sentindo o pânico crescer em m eu peito.

– Tente lim par a m ente. Pense em algo sem im portância.

– Com o o quê?

Isha olhou para as caixas de flores que tinham acabado de ser trazidas do m ercado para que eu fizesse arranj os – o único prazer que m eu pai m e concedia. Eu im aginava cada botão que eu pegava crescendo livrem ente ao sol, abrindo as pétalas na direção do céu, em bora soubesse que a m aioria das flores que recebia era cultivada. Observá-las m urchando devagar com o tem po m e parecia estranham ente apropriado e extrem am ente profético.

Mesm o quando criança, eu m e perguntava quando m eu próprio desabrochar acabaria e eu com eçaria a m urchar até não restar nada, isolada em m eus aposentos, de onde não retirava nutriente algum e onde nunca podia sentir o sol no rosto. Se ao m enos tivesse a liberdade de ir ao m ercado sozinha, de escapar m om entaneam ente da prisão em que vivia, apreciaria essa folga.

– Diga o nom e todas as flores de que conseguir se lem brar – sugeriu Isha, interrom pendo m eus pensam entos.

– Vou tentar. – Um edeci os lábios e com ecei: – Jasm im , lótus, calêndula, girassol...

– Isso. Está com eçando a funcionar. Já consigo vê-la, m as a luz a atravessa com o se você fosse um espírito.

– Magnólia, dália, orquídea, crisântem o...

– Só m ais um pouquinho.

– Lírio, azaleia, am aranto, clêm atis, caliandra.

– Pronto. Você j á está totalm ente visível. Com o se sente?

– Estou bem . Não percebi que estava usando m agia.

– Vam os treinar enquanto seu pai estiver fora. Precisa aprender a controlar isso, Bai.

E, de fato, treinam os. Quando ele voltou, infelizm ente em pouco tem po, apenas quatro m eses depois, eu j á dom inava a habilidade de m e tornar invisível, m as, por m ais que tentássem os, não conseguia transferir esse dom para Isha ou com partilhá-lo com ela. Nossa felicidade com esse novo talento logo se transform ou em resignação, pois eu m e recusava a deixar m inha guardiã para trás, ainda que ela gastasse m uitas horas e ainda m ais lágrim as tentando m e convencer a fugir sem ela. Por fim , decidim os não correr o risco de revelar esse poder e continuei passando tanto tem po no quarto quanto antes.

Durante os anos seguintes, usei m inha nova habilidade som ente em raras ocasiões. Algum as delas foram para escapar dos avanços inapropriados dos poucos hom ens de m eu pai que se atreviam a arriscar enfurecê-lo. Desde pequena, eu estava suj eita a seus olhares m aliciosos e beliscões quando m eu pai não estava olhando. Alertavam -m e de que, se eu os denunciasse, fariam algo horrível com Isha. À m edida que eu ia crescendo, essas am eaças iam se tornando cada vez m ais com uns e eles faziam de tudo para encontrar oportunidades de ficarem a sós com igo.

Quando um deles enfim conseguiu, fugi para a sala ao lado e fiquei invisível. Em bora o hom em suspeitasse de que eu o enganara com algum truque, não teve coragem de dizer nada ao m eu pai, pois teria que explicar, para com eço de conversa, por que estava em m eus aposentos.

Depois disso, usei m eu poder m ais algum as vezes para espionar os guardas ou roubar guloseim as para dar de presente a Isha, m as ela achava que era arriscado dem ais e, para deixá-la feliz, parei de usar m inha habilidade a m enos que fosse absolutam ente necessário. Graças à vigilância de Isha e aos m eus poderes, sem pre consegui escapar de todos aqueles que quiseram m e fazer m al – com exceção de m eu pai. O perigo que eu correria se ele descobrisse m inhas habilidades era inegável, então eu suportava suas agressões em silêncio.

Em bora tudo o que eu quisesse naquele m om ento em que m eu pai andava ao m eu redor fosse desaparecer, abri um m eio sorriso e reforcei m inha determ inação. Com um leve farfalhar causado pelo m ovim ento das m inhas saias, saím os pela porta e descem os o largo corredor. Haj ari nos seguia em silêncio, o que significava que ele seria m eu guarda pessoal naquela noite.

Entrei na opulenta carruagem cedida pelo rei e m e deixei levar pela atm osfera de celebração. Havia um a faísca de entusiasm o que revigorou m eus sentidos, e, em bora eu estivesse com m eu pai, a oportunidade de enxergar para além das paredes do espaço em que eu vivia era tão rara que decidi aproveitá-la ao m áxim o e absorver cada im agem e som . Antes que eu pudesse m e conter, sorri. Meu pai percebeu.

– Você parece sua m ãe quando a conheci.

O sorriso desapareceu de m eu rosto e substituí-o por um a expressão neutra, antes de deixar a cortina se fechar e m e voltar para ele.

– Ela era linda – com entei com indiferença.

Não era um a pergunta ou um a m aneira de puxar conversa, m as um a sim ples afirm ação de algo que eu sabia ser verdade. Havia m uito tem po, eu descobrira que era m ais fácil e seguro responder som ente quando se esperava isso de m im e, m esm o assim , dizer o m ínim o que a boa educação perm itisse. Tam bém havia aprendido a não criar falsidades que m eu pai pudesse desvendar facilm ente.

– Era, sim – respondeu ele. – Mas ela... – ele se inclinou para a frente – não é m ais.

Com preendi a m ensagem . Ele sabia que os hom ens m e cortej ariam essa noite e m inhas ações seriam bem m onitoradas.

– Entendo, pai – disse e baixei o olhar, cruzando as m ãos sobre o colo com firm eza.

Após esse breve diálogo, ele m e ignorou e conversou com Haj ari, que estava sentado perto dem ais de m im . Através das várias cam adas de seda, eu sentia a coxa dele contra a m inha e, de tem pos em tem pos, ele m exia a perna na m inha direção, esbarrando em m im . Tentando ignorá-lo, cheguei m ais para a j anela e m e concentrei em olhar a cidade que passava por nós.

Toda ela estava ilum inada e, quando os cavalos viraram a esquina, avistam os o palácio. Fora construído no topo de um a colina, com um a vista panorâm ica da cidade ao redor. Além das construções, havia florestas, um extenso lago e m orros que ofereciam proteção contra os inim igos do rei. A m agnífica cidadela era inteiram ente de m árm ore e granito, e, com suas várias torres, cúpulas e sacadas, havia m uitos lugares para explorar. Infelizm ente, eu nunca teria essa oportunidade.

Avançam os depressa na direção do prim eiro de três portais em arco batizados com o nom e do guardião esculpido em m árm ore que ficava ao lado de cada um a das bases. O prim eiro era Vanar Pol, com duas grandes estátuas de m acacos. Depois vinha Bagh Pol, ou o Portão dos Tigres Gêm eos. Estrem eci ao ver o terrível par de tigres guardiões, com dentes e garras à m ostra.

Por últim o vinha Hathi Pol, ou o Portão do Elefante, com um elefante em tam anho real de cada lado, de trom ba erguida e presas pontudas voltadas para a frente. Em bora não houvesse vestígios disso, eu sabia que o vasto descam pado do outro lado do Portão do Elefante era usado para com bates de elefantes – prática recente e horrível que m eu pai havia incentivado. Ele argum entava que as lutas serviam para avaliar a força e a potência dos anim ais, e os vencedores eram usados em suas cam panhas bélicas.

Eu sabia que ele encoraj ava essas disputas não para descartar os fracos, em bora certam ente isso fosse algo que ele faria, m as para atiçar os hom ens. Os resultados eram arranj ados e os responsáveis davam ópio aos anim ais para eles ficarem m ais agressivos que o norm al. As batalhas de elefantes atraíam os hom ens m ais sedentos de sangue, guerreiros cruéis e sem com paixão que buscavam lucrar com a guerra e a dor dos outros. Resum indo: era um a form a de recrutar o tipo de hom em que ele queria ao seu lado.

Porém , para a festa não haveria batalhas e o sangue tinha sido totalm ente lim po. O palácio reluzia com m ilhares de lam piões e os vestidos coloridos de centenas de m ulheres que, usando j oias cham ativas, adornavam os passeios com o se fossem flores vibrantes em m eio ao cenário.

Dentro, a luz cintilante se refletia nos afrescos, vitrais, m árm ores e espelhos. Murais fantásticos ilustravam as grandes vitórias dos antigos reis. Cada salão, cada corredor, cada terraço era um a obra-prim a de arquitetura e estava repleto de riquezas do reino – vasos preciosos trazidos de lugares exóticos, obras de arte produzidas sob encom enda por grandes m estres e esculturas tão lindas que eu sentia vontade de passar os dedos nos detalhes entalhados.

Apesar da opulência do interior do palácio, havia um a coisa que eu queria ver m ais do que tudo: o fam oso j ardim suspenso da corte m ais alta. Sabia que m eu pai não teria interesse em visitar um lugar assim . Lá não haveria cortesãos, diplom atas ou estratégias políticas, m as pensei que, talvez, se eu conseguisse apenas dar um a olhada no lendário j ardim , guardaria essa visão na m em ória e refletiria sobre ela ao longo dos m eus longos e solitários anos.

Infelizm ente, dem orei um pouco m ais do que devia diante de um a estátua em m árm ore da deusa Durga e m eu pai m e puxou dolorosam ente pelo braço, apertando m eu pulso até eu sentir o sangue quente latej ar na m ão. Seguim os em frente em silêncio até encontrar um casal com quem ele desej ava falar.

Ele finalm ente soltou m eu pulso e eu girei a m ão para a frente e para trás da form a m ais discreta possível até que a sensibilidade dos dedos voltasse. Porém m eu alívio foi breve, pois logo entram os no salão de recepções do rei – um a área am pla, enfeitada com um a quantidade tão grande de lanternas e tão arborizada que parecia que eu estava num pequeno bosque sob centenas de estrelas.

Meu pai m e conduziu para cum prim entar cada um dos presentes, e não pude deixar de notar que quase todos os hom ens que se aproxim avam pareciam estar m e avaliando. Um deles chegou a ter a audácia de estender a m ão para erguer m eu véu. Im ediatam ente ele afastou a m ão e com eçou a sufocar. De sua boca saiu um a quantidade sobrenatural de água. Ele se afastou depressa e não tive certeza se o hom em sobreviveria ao encontro conosco.

– Venha, Yesubai – instruiu m eu pai, segurando-m e com força pelo braço. – Preciso falar com o rei para descobrir por que a sua presença atrai tanto interesse.

Enquanto aguardávam os nossa vez de falar com o rei, a im paciência de m eu pai deixou m arcas no m eu braço j á dolorido, em bora, por fora, ele parecesse estar im passível. Lokesh ficou observando o trono dourado do rei descaradam ente, adotando um ar respeitoso quando alguém se voltava para ele, m as calculista quando ninguém estava olhando.

Finalm ente chegou a nossa vez. O velho rei abriu um sorriso bondoso para m im e apertou as m ãos de m eu pai, m aravilhado.

– Lokesh, o herói das batalhas! Com o nosso exército está se saindo? – indagou ele, com um a expressão que dem onstrava claram ente que tinha m ais interesse na celebração do que na resposta à sua pergunta.

Fazendo um a reverência rígida, m eu pai respondeu em voz baixa:

– Nossos inim igos se acovardam diante do poder de seu trono, Grande Rei.

– Muito bem – disse o rei, dando o assunto por encerrado. – Pois bem . Im agino que estej a se perguntando por que providenciei este festival e pedi especificam ente que sua filha com parecesse.

– Estou... curioso – respondeu Lokesh.

– Ah, m eu genial am igo, estou encantado. Se realm ente consegui guardar este segredo de você e de todos os seus espiões no palácio, fico feliz em receber o crédito por realizar um a façanha im possível para a m aioria dos m ortais: enganar o m estre da astúcia. Bendito o dia em que você entrou em m eu reino, Lokesh.

– Sinto exatam ente o m esm o, m eu Rei.

– Sim .

– Agora talvez estej a disposto a com partilhar seu segredo.

O soberano riu.

– Sim , m eu segredo. – O rei deu uns tapinhas no om bro de m eu pai, gesto que eu sabia que ele detestava. – Com o sabe, m eu am igo, não tenho filhos vivos e você é o próxim o líder natural do reino.

Meu pai sorriu m alignam ente, com um a expressão de víbora que m e fez estrem ecer até a m edula. Pelo visto, não teve o m esm o efeito no ingênuo rei. O hom em que estava no trono tinha, entre os seus, um lobo que se fazia passar por cordeiro. Era só questão de tem po até o anim al de estim ação se voltar contra ele e devorá-lo.

– O senhor m e deixa lisonj eado – disse Lokesh.

– De form a algum a. Todo elogio a você é bem m erecido. Pois bem , andei estudando atentam ente as suas atividades e incursões em outros reinos.

– É m esm o? – retrucou m eu pai.

– Passei a apreciar seus esforços para expandir as fronteiras de nosso reino por m eio da diplom acia, da negociação ou – ele se inclinou para a frente e baixou a voz – da intim idação.

Está mais para conspiração, confronto e terror, pensei.

O rei prosseguiu:

– Assim , decidi propor, eu m esm o, um a barganha.

Pequenas pontadas de dor fustigavam m eu braço no local onde m eu pai m e segurava. Eu literalm ente sentia a raiva pulsar sob seus dedos.

– O que o senhor fez? – indagou m eu pai, conseguindo torcer as palavras para que parecessem despreocupadas, em bora eu percebesse a real am eaça por trás delas.

O rei, claro, estava alheio a tudo e anunciou, j ubiloso:

– Convidei alguns dos hom ens m ais poderosos dos reinos vizinhos com a prom essa de que um deles – e o rei ergueu as sobrancelhas, olhando de um lado a outro rapidam ente –, aquele que apresentar a oferta m ais agradável, tom ará sua filha, a adorável Yesubai, com o esposa.