A Promessa do Tigre

Colleen Houck · Capítulo 5 de 14

Páginas do PDF

A Promessa do Tigre

CAPÍTULO 4 A isca

4

 

 

A isca

 

Não pude evitar e deixei escapar um arquej o leve e involuntário. Felizm ente, nem m eu pai nem o j ovem o ouviram por causa do m urm úrio da fonte.

– O que quer dizer com isso? – perguntou o j ovem .

Ele tinha o direito de ficar desconfiado. O que quer que m eu pai estivesse planej ando não term inaria bem para nenhum dos envolvidos.

Lokesh se virou e aproxim ou-se da fonte, perm itindo que a água m olhasse seus dedos.

– Certam ente está ciente do anúncio que o rei fez hoj e.

– De que sua filha está disponível para se casar? O que tem isso?

Um a parte de m im ficou m agoada com o com entário do j ovem . Racionalizei esse sentim ento lem brando a m im m esm a que eu não estava procurando um pretendente. O m elhor para m im e para Isha seria que eu m e casasse com um hom em que m orasse longe de m eu pai, num lugar rem oto que m e perm itisse escapar. Isso seria fácil com o rei de Mahabalipuram , m as eu suspeitava que abandonar um hom em com o este desconhecido seria m uito m ais difícil. Ainda assim , ouvir sua indiferença feriu m eu orgulho fem inino.

Eu sem pre soubera que era bonita. Isha repetia isso diariam ente e eu recebia atenção suficiente dos hom ens que passavam por nossa casa para m e sentir confiante em relação à m inha aparência. Mas, pela prim eira vez na vida, m e senti... desinteressante. A ideia de que o j ovem que eu achara tão fascinante não m e achava atraente doeu.

Meu pai prosseguiu:

– Talvez você não saiba, m as o anúncio de hoj e não foi planej ado. O rei quer usar a m inha filha para am pliar sua influência, porém , j á que ela é o único vínculo que m e resta com m inha falecida m ulher, deve im aginar que a declaração a respeito de sua disponibilidade para se casar m e deixou um pouco preocupado.

Estreitei os olhos quando ouvi a m enção à m inha m ãe. Isha m e revelara há m uito tem po suas suspeitas a respeito da m orte de m inha m ãe. Contou que ela não havia m orrido no parto, com o m eu pai levara todos a acreditar. A am iga dela, a parteira, falara com Isha poucas horas após m eu nascim ento e inform ara que m ãe e filha passavam bem .

Quando voltou para ver com o estávam os, foi anunciada a m orte de m inha m ãe e a parteira desapareceu. Isha acreditava piam ente que m eu pai havia se livrado das duas. Tendo presenciado em prim eira m ão seu tem peram ento, eu não tinha dúvida de que ele era capaz daquilo. Se eu achasse que conseguiria m atá-lo, eu teria feito isso há m uito tem po. Então o lindo j ovem falou, m e despertando dos m eus pensam entos de vingança.

– O que isso tem a ver com igo? – perguntou ele.

Meu pai passou os dedos na água, para a frente e para trás, e notei que todos os peixes desapareceram . Pararam de suplicar e rapidam ente se refugiaram no lugar m ais distante do laguinho. Será que eles sentiram algo quando meu pai tocou na água? Ou talvez ele tenha usado seu poder para afastá-los, pensei. Mordi o lábio, tão concentrada nas palavras que m eu pai diria a seguir que m al conseguia respirar.

– Pensei que talvez pudéssem os chegar a um acordo vantaj oso para nós dois.

– Por exem plo?

– Seu irm ão m ais velho... Dhiren, não é? Ouvi dizer que ele ainda não escolheu um a noiva.

– Ele ainda é j ovem . Além do m ais, está ocupado dem ais defendendo nossas terras dos seus... pequenos atritos.

Meu pai olhou brevem ente para o estranho e seus lábios se curvaram ligeiram ente ao ouvir esse com entário.

– Não seria m elhor que seu irm ão voltasse a desem penhar seus deveres em casa? – indagou Lokesh com um sorriso astuto. – Que esquecesse a guerra e as disputas por territórios e se dedicasse a ser o im perador que está destinado a se tornar? Com a rainha apropriada a seu lado, ele poderia assum ir o lugar que lhe cabe e ter filhos para governar em seu lugar.

– Deixe-m e adivinhar: quer que a sua filha sej a a rainha.

– Ela é linda. Obediente. Recatada. Além do m ais, o rei garante seu dote. – Ele se inclinou para a frente e baixou a voz: – E, cá entre nós, com m inha filha no trono, eu ficaria satisfeito se um dia m eus netos governassem am bos os reinos. As disputas de território, sem sentido, cessariam e nossos reinos iriam prosperar de form a m utuam ente satisfatória.

O j ovem esfregou o m axilar e eu ouvi a m ão roçar a barba que com eçava a crescer. Senti vontade de gritar para ele que não se deixasse levar pelas palavras de m eu pai, de exclam ar que Lokesh j am ais cum pria suas prom essas. Que som ente ficar ali e lhe dar ouvidos j á era perigoso. Mas não disse nada e esfreguei m inhas m ãos invisíveis, desesperada para saber m ais sobre esse futuro que ele planej ara para m im . O fato de Lokesh não perm itir que eu m e casasse com alguém que o rei escolhesse não m e surpreendia, m as eu havia deixado brotar um a ponta de esperança e, com o previsto, m eu pai a arrancara antes m esm o do fim da noite.

Então m eu trapaceiro pai acrescentou:

– É claro que, quando chegar esse m om ento, você estará livre para ir atrás de seus próprios obj etivos. Talvez encontre um a m ulher com riquezas que lhe perm itam com prar um a pequena propriedade. Naturalm ente, com o segundo filho, deve receber um a parte da fortuna de seu pai para se estabelecer. Se tiver um bom com eço, pode até ter um bom futuro. Você nunca estará à altura de seu irm ão, é claro, m as ser o segundo m elhor não é vergonha nenhum a. E tenho certeza de que os herdeiros reais, filhos de m inha filha, gostarão de se encontrar com o tio, se ele se dignar a fazer um a visita de tem pos em tem pos.

Enquanto Lokesh falava, o j ovem foi ficando com as costas m ais eretas. Sua fúria era evidente. Eu e m eu pai podíam os ver. A m anipulação era um a de suas habilidades, e a única form a de contorná-la era fingir que o que ele dizia não nos afetava. Novam ente tive vontade de sair em defesa do j ovem , m as não havia nada que eu pudesse fazer. Meu pai tinha tecido sua teia de m anipulação em torno dele com a destreza de um a aranha, e eu praticam ente conseguia escutar o ego do belo estranho estalando à m edida que os fios ficavam cada vez m ais apertados.

– Deve com preender que tenho um forte afeto paterno por m inha filha. Para m im , é im prescindível tê-la por perto. Nossas terras fazem fronteira. Por isso, estou disposto a negociar um noivado em nom e de nosso rei, m as que fique claro: se m inha generosa oferta for rej eitada, não m e restará escolha a não ser intensificar as hostilidades entre nossos povos.

– E sente-se à vontade para entregar sua filha àqueles que você considera seus inim igos?

Lokesh passou a língua rapidam ente pelos lábios.

– Tenho total confiança em que vocês vão tratá-la com a honra e o respeito que ela m erece.

Eu quase ri. Nenhum inim igo am eaçava m ais m eu bem -estar do que o próprio hom em que afirm ara sentir por m im um “forte afeto paterno”.

O j ovem cham ado Kishan deu as costas a m eu pai, ficando de frente para m im . Na verdade, estava a poucos centím etros de distância. Um a m iríade de em oções atravessou seu rosto enquanto ele ponderava as palavras de m eu pai. Eu queria estender a m ão e tocar sua testa, alisar as rugas e aliviar o desconforto que m eu pai lhe causara. Finalm ente, ele disse:

– Irei transm itir sua proposta aos m eus pais. Enviarem os um a resposta através de um m ensageiro dentro de 14 noites.

Meu pai curvou a cabeça, num falso gesto de boas intenções.

– Que seus cavalos sej am ágeis – declarou.

Então Kishan se retirou e Lokesh observou o estranho se afastar. O silêncio se abateu sobre o j ardim . Tudo estava im óvel. Até a brisa cessara. O som de m inha respiração de repente parecia alto dem ais. Passei a m ão na testa quente e m e concentrei para que m inhas pernas invisíveis parassem de doer. Erguendo as m ãos, Lokesh invocou seu poder, ato que eu raram ente testem unhara. A água na fonte estalou e congelou, e um gelo esbranquiçado logo cobriu com pletam ente a superfície de pedras da trilha.

Ele rodopiou os braços no ar e um vento forte atravessou o j ardim , arrancando flores delicadas dos caules e quebrando galhos de árvores. Então ergueu os braços e o chão trem eu, a fonte congelada rachou, e eu cam baleei e caí. Mordi a língua com força para não gritar. Depois ele apontou as m ãos abertas para a frente e faíscas azuis dispararam das pontas de seus dedos, fazendo o tronco de um a árvore próxim a escurecer. Em seguida, cerrando subitam ente os punhos, recolheu o poder e, com passos determ inados, saiu do j ardim , dirigindo-se a um a escada diferente da que eu tinha usado.

Esperei bastante tem po antes de voltar para os m eus aposentos. Ao chegar lá, lavei bem os pés e fui para a cam a, m as o sono não veio. Fiquei apenas olhando para o tênue tecido estendido acim a da cam a e m e preparei para a m anhã que viria.

Quando a luz do dia ilum inou m eu quarto, esperei que m eu pai viesse m e buscar. Im aginei que ele apareceria im ediatam ente, m as, com o as horas se passavam e nem sequer um a cam areira havia entrado no aposento, aventurei-m e a sair. Não encontrei ninguém , convidado ou serviçal, até chegar ao saguão principal. Quem estava à m inha procura não era m eu pai nem seu braço direito, Haj ari, m as o rei Devanand, m eu suposto pretendente de Mahabalipuram .

– Ah, m inha querida. Aconteceu um a tragédia. Um a verdadeira tragédia!

– O que foi? – perguntei enquanto aj ustava o véu. – O que aconteceu?

– Não soube?

Fiz que não com a cabeça.

– O rei foi assassinado.

– Será... será possível? – indaguei, j á ficando desconfiada. – Com o ele m orreu? O bandido j á foi encontrado?

– Ainda não. Seu pai está investigando.

– Entendo.

– De início, acreditou-se que ele falecera dorm indo, m as, quando as m ulheres foram preparar o corpo, sua cam isola se abriu. Foi então que viram um as m arcas negras no peito, perto do coração.

– Marcas negras?

– Sim . A área em torno do coração estava queim ada, m as a pele enegrecida não seria o suficiente para m atá-lo. Ainda assim , é o bastante para levantar suspeitas.

–E o que está havendo agora? Onde está m eu pai?

– Está organizando as tropas. É preciso defender o reino até que um novo rei sej a escolhido. Ele tem e que um usurpador tente tom ar o trono e não quer que isso aconteça.

– É claro.

O sultão deu palm adinhas na m inha m ão.

– Infelizm ente, isso significa que não haverá planos a respeito de seu futuro por agora. Mas quero que saiba que deixei m inhas intenções m uito claras para seu pai. Ele m e assegurou de que eu serei um dos prim eiros a saber quando a situação tiver voltado ao norm al. Até então, todos os convidados devem retornar para seus dom ínios com o m enor alarde possível.

– Com preendo.

– Ah, aí está o hom em de seu pai. Vou deixá-la aos cuidados dele. Até nosso próxim o encontro, adorável senhorita.

O nobre apertou m inha m ão e, relutantem ente, m e passou para Haj ari, que segurou m eu braço com força.

– Onde foi que se m eteu? – sussurrou ele na m inha orelha, irritado.

– Ninguém foi m e buscar de m anhã – respondi friam ente.

– Seu pai está esperando. Venha.

Ele m e arrastou pelo saguão e por várias passagens, deleitando-se com a oportunidade de m ostrar que estava no com ando, em bora nós dois soubéssem os que era por pouco tem po. Com o não podia deixar de ser, seu com portam ento m udou com pletam ente no m om ento em que entram os no salão onde m eu pai estava, rodeado pelos conselheiros do rei falecido. Ao m e ver, ele dispensou o grupo.

– Dorm iu bem , querida? – indagou gentilm ente enquanto os últim os hom ens saíam e fechavam a porta.

– Sim , pai – respondi com o olhar j á treinado fixo em seus pés.

– Im agino que j á tenha conhecim ento do falecim ento do rei – disse ele, e, pelo tom de voz, eu não soube identificar se era um a pergunta ou um a afirm ação.

Achei m elhor não dizer nada. Ele esperou alguns segundos e então confirm ou o que eu j á suspeitava:

– Que trágico, não é? Você certam ente tem noção do que isso pode significar para você.

– Que não vou m ais m e casar, afinal? – arrisquei rapidam ente.

– Ah, vai se casar, sim , Yesubai, m as não com o sultão geriátrico que você claram ente prefere.

Ele deu m eia-volta e cam inhou a passos largos até a m esa do rei, onde havia um grande m apa aberto. Pegou um m odelo de guerreiro m ontado num elefante e o transferiu para outro local, atravessando um a grossa linha negra traçada no m apa. O território estava identificado pela palavra Raj aram . Desviei o olhar antes que m eu pai se virasse de novo para m im .

– Você deveria se alegrar – disse ele. – Minha intenção é que você se case com alguém m uito m ais j ovem e, depois de um tem po, quando j á for rainha, quero que você tire a vida dele. – Estarrecida, ergui o rosto e o flagrei m e observando com um brilho diabólico nos olhos. – Para garantir que você cum pra a sua parte nessa pequena encenação, vou m anter Isha ao alcance da m ão. Você com preende m inhas expectativas? – arrem atou.

Após piscar para dissipar a um idade dos olhos, assenti ligeiram ente com a cabeça.

– Entendo, pai.

– Muito bem . Pode se retirar. Ficarem os m orando aqui até os preparativos para o seu noivado.

Levou um m ês inteiro até que m eu pai – relutante – assum isse o trono. Ele m anteve Isha afastada de m im para garantir m inha obediência. Minhas cam areiras eram eficientes porém frias, e Haj ari se tornara um a constante ao m eu lado. Não m e perdia de vista em instante algum . Meu quarto foi considerado um lugar m uito fácil de onde se escapar, então fui transferida para novos aposentos. Lá só havia um a porta de acesso e, com o todos os dignitários haviam sido m andados em bora, m eu pai se contentou em m e deixar ali.

Eu fazia as refeições no quarto e tinha direito a dar um passeio por dia dentro dos lim ites do palácio – m as som ente se Haj ari estivesse com igo. Com o eu sabia que ficar a sós com ele era um a péssim a ideia, decidi que era preferível perm anecer no quarto. Sem Isha, o único rosto am igável de m eu m undo tão lim itado, entrei em desespero. Perdi o apetite e m antive as pesadas cortinas fechadas diante da j anela gradeada.

Então recebi um convite. A fam ília Raj aram havia considerado a oferta de m eu pai, apesar das explícitas am eaças por trás dela, e a própria rainha disse que gostaria de m e conhecer para ter certeza de que eu seria um a boa escolha para o filho. Lokesh ficou entusiasm ado com a perspectiva. Ele se m antivera ocupado com a adm inistração do reino, m as, quando o m ensageiro chegou, ficou ansioso para m e contar a novidade e ordenou que eu fosse levada à sua presença. Minha aparência não o agradou.

– Você está doente? – indagou.

– Não, pai.

Ele arrancou rudem ente o véu do m eu rosto e estreitou os olhos enquanto m e segurava pelo queixo e virava m inha cabeça de um lado a outro, m e exam inando. Em purrando-m e para fora de seu cam inho, encurralou Haj ari e o agarrou pela garganta. Os olhos do guarda se arregalaram e ele lutou para respirar, tentando inutilm ente afastar a m ão de m eu pai.

– Você vai se certificar de que ela com a, que os cabelos sej am escovados com óleo até brilharem e que ela não tenha nenhum a m arca no rosto nem olheiras. Estou sendo claro?

– Sim , m eu rei – arfou Haj ari.

– Muito bem . – Ele soltou o serviçal e acrescentou: – Ela parte daqui a três dias. Assegure-se de que estej a pronta. Quero que se apresente adornada com o um a princesa. Agora vá. Preciso falar com ela a sós.

Haj ari, com o pescoço verm elho e inchado, se retirou sem um a palavra e fechou a porta.

Meu pai disse:

– Muito bem . Há algum as coisas que precisam os discutir antes da sua partida.

O pavor tom ou conta de m im quando avistei o palácio da fam ília Raj aram . Eu viaj ava no m eio de um a grande caravana, num a opulenta carruagem , vestida com o se j á fosse um a grande rainha. Meu pai não econom izara para oferecer seu presentinho letal aos Raj aram . Dentro de um baú repleto de suntuosos vestidos e véus de seda, havia um com partim ento secreto com frascos de veneno e pequenas lâm inas afiadas que cabiam num bolso.

Eu sabia das consequências se falhasse. Meu pai fora perfeitam ente claro. Eu devia agradar Dhiren, o prim ogênito, desposá-lo, descobrir onde estavam escondidas as relíquias da fam ília, roubá-las e m atá-lo. Enquanto aguardava o m om ento certo, m eu dever era espionar a fam ília Raj aram .

Se não fizesse o que m eu pai queria, ele iria torturar Isha. Retorci a pequena m echa de cabelos grisalhos de Isha que eu levava no bolso. Ele a dera para m im com o um lem brete de que eu tinha que cum prir m inha tarefa. Havia sido tão específico quanto aos m étodos que usaria para m achucar a m inha am a de leite que eu não tive dúvida de que ele não som ente j á fizera aquilo antes com o adoraria ter a oportunidade de fazê-lo novam ente.

Meu estôm ago se contraiu dolorosam ente quando pensei que concordara em m e tornar um a espiã e assassina para o hom em depravado e doente que m eu pai era, m as as consequências caso eu falhasse eram im pensáveis. Eu não podia perm itir que m inha am ada Isha sofresse nas m ãos dele. Não sabia se seria capaz de com eter um assassinato para salvá-la, m as não havia dúvida de que eu devia m uito a ela por m e proteger do facínora. Toda vez que a via m ancar, eu m e lem brava de que era por culpa m inha que ela sofria e continuava trabalhando para ele. Não podia deixá-la sob seu j ugo.

Quando chegam os ao palácio, fui apresentada e todas as pessoas que conheci m e deram a im pressão de serem francas e gentis. Haj ari foi com igo e tentou se introduzir com o m eu “protetor”, m as felizm ente o conselheiro m ilitar, um hom em astuto que parecia enxergar através do véu e ver os segredos ocultos em m eu coração, tam bém designou um de seus hom ens para m e acom panhar. Foi um a decisão sábia. As ações de Haj ari ficaram drasticam ente lim itadas pela presença constante de um soldado dos Raj aram .

Só fui conhecer a rainha Deschen no j antar da prim eira noite. Ela era a elegância em pessoa; m e observou do outro lado da m esa, fez perguntas educadas sobre m inha casa e m inha fam ília e interpretou m inhas respostas reticentes com o tim idez. Depois do j antar, cham ou-m e a seus aposentos particulares e m e convidou a sentar ao seu lado. Mulheres de todas as idades a cercavam e conversavam alegrem ente enquanto costuravam .

Quando ela viu que eu estava relutante em falar sobre m im m esm a, m e contou sobre sua fam ília distante, sua terra de origem e seus filhos. O am or que sentia pela fam ília era evidente, assim com o o fato de que protegia ferozm ente os rapazes. Pareceu surpresa quando fiz perguntas sobre o filho m ais novo, m as estava m ais do que disposta a contar histórias sobre sua j uventude. Eu logo soube que Kishan fora enviado para a fronteira e provavelm ente retornaria dentro de um m ês. Dhiren ainda dem oraria um tem po. Deschen disse que ela queria m e conhecer prim eiro, antes da decisão quanto ao m eu noivado.

Diariam ente eu tinha perm issão para passear pelo palácio, sem pre com m eus dois acom panhantes, e passava todas as noites com Deschen. Não dem orou m uito para que eu passasse a adm irar a m ãe de Kishan. Ela m e fascinou quase tanto quanto o filho. Estava claro que havia um grande am or entre Deschen e o m arido. Quando era a hora de se retirarem , o im perador ia buscar a esposa, e os dois, j untos, davam boa-noite a todas as viúvas que ela havia acolhido.

Essas m ulheres, cuj os m aridos haviam m orrido na guerra, eram totalm ente leais à fam ília Raj aram , e eu achava suas histórias inspiradoras. Pensava se haveria um m odo de salvar Isha. Ela seria com o um a das m ulheres da rainha. Quando estava com eçando a m e sentir em casa e segura, m eu pai veio m e visitar.

Nesse dia, eu tivera um pesadelo desesperador. Os pelos do m eu braço se eriçaram e notei que as venezianas estavam abertas e as cortinas balançavam ao vento. Levantei-m e para fechá-las e então ouvi um a voz:

– Você parece bem , querida.

Fiquei im óvel no lugar e, instintivam ente, baixei a cabeça.

– Pai – disse.

– Com o as coisas estão progredindo? A fam ília a está aceitando?

– Acredito que sim .

– Então o que está dem orando tanto? Por que não recebi notícias sobre seu noivado?

– A rainha ainda está m e conhecendo. Além do m ais, os dois príncipes estão fora.

– Eu sei. Eu os estou m antendo ocupados.

– Mas por quê? Pensei que os quiséssem os aqui.

Ele reagiu tão depressa que m e pegou de surpresa. Arrem essou-m e contra a parede e pressionou o m eu pescoço com seu antebraço.

– O que foi que você disse? – perguntou, os olhos escuros reluzindo ao luar.

– Peço perdão – m urm urei. – Não tive a intenção de questioná-lo.

– Lem bre-se de qual é seu lugar – sibilou ele.

Assenti, m e am aldiçoando por ser tão descuidada. O tem po que eu passara longe de m eu pai m e tornara displicente.

– Eu não preciso explicar m inhas ações a você. Ainda assim , se a rainha m encionar as disputas que m antêm os filhos dela ocupados, pode lhe assegurar que você tem influência suficiente sobre seu pai para fazê-las cessarem caso concordem com a união de nossas fam ílias. Já viu os m edalhões que eu pedi que encontrasse?

– Não. Nem a rainha nem o rei os usam . O conselheiro m ilitar não perm ite que eu ou Haj ari andem os pela área do palácio sem a presença de um de seus hom ens.

– Eu devia ter m andado m atar aquele Kadam – resm ungou m eu pai. Com o eu não disse nada, ele deu um passo para trás, finalm ente tirando o antebraço de m eu pescoço, e disse: – Você sabe por que estou procurando esses m edalhões?

– Não – respondi com cautela. – Eu só preciso saber que quer tê-los.

– Isso m esm o. – Parecia satisfeito com m inha resposta. Inclinando a cabeça, ele m e observou por um instante e então disse: – Talvez, m inha querida Yesubai, sej a hora de você entender exatam ente por que está aqui.

Senti o oxigênio escapar de m eus pulm ões.

– O que quer dizer?

– Se conhecer m inhas m otivações, entenderá com o pode m e servir m elhor. – Voltando-se de costas para m im , uniu as m ãos atrás do corpo e com eçou: – Você é a filha de um hom em m uito poderoso, e não digo no sentido político. – Ia andando pelo quarto, pegando diversos obj etos que pertenciam à fam ília real para vê-los de perto. – Já fui herdeiro do trono de um a grande província num a terra distante daqui. – Voltou a m e olhar. – Mesm o após ter m atado m eu irm ão e m inha m adrasta para ascender ao trono, eu abri m ão dele.

Que ele m atasse para atingir seus obj etivos não m e surpreendia, m as abrir m ão de um trono, sim .

– Você não queria aquele poder? – indaguei.

– Governar um reino não é ter poder – disse ele com desprezo, m e olhando com ar de superioridade. – Este é o verdadeiro poder.

Então puxou um a corrente que levava no pescoço e m e m ostrou um am uleto quebrado preso à extrem idade.

– O que é isso? – perguntei.

– Cham a-se Am uleto de Dam on.

– Isso é um tigre?

– Com o você é esperta, querida. – Passou o polegar sobre o am uleto com um a expressão quase afetuosa. Logo m urm urou, com o se estivesse absorto em pensam entos: – Muito tem po atrás, houve um a grande batalha que uniu os reinos da Ásia. Havia um dem ônio que estava assolando as áreas rurais, até que suas atrocidades se tornaram horríveis dem ais para serem ignoradas. Cinco reinos se aliaram para derrotar o m onstro de um a vez por todas.

Meu pai nunca m e contara nada sobre seu passado. Quase tudo o que sabia eu aprendera j untando fragm entos que conseguia ouvir aqui e ali. Estava fascinada e aterrorizada ao m esm o tem po.

Ele continuou:

– Na véspera de sua vitória, um a deusa linda e terrível os liderou m ontada num tigre cham ado Dam on. – Ele sorriu furtivam ente e tocou as garras do tigre no m edalhão. – Quando o dem ônio foi finalm ente m orto, ela deu um pedaço do am uleto de presente para cada reino. Logo se descobriu que cada parte controlava um dos elem entos. Diz-se que, se os pedaços do am uleto forem reunidos, seu portador terá o poder da própria deusa.

Isso explicava bastante coisa – as labaredas azuis que eu vira sair de seus dedos, a água que j orrou da boca do hom em que se atreveu a m e tocar, os leves trem ores de terra quando ele ficava bravo, os fortes ventos que ele invocou no j ardim e a m orte prem atura do rei. Era isso que m otivava m eu pai. Era isso que ele procurava. E, de algum a form a, um pouco desse poder havia sido transm itido a m im pelo seu sangue. Meus poderes eram o presente de um a deusa.

Ele sorriu com o se estivesse seduzindo um a criança com um brinquedo.

– Com o pode ver, faltam dois pedaços.

– São esses os pedaços que estou procurando?

– Sim . Quando o am uleto estiver com pleto, não haverá m ais nada ou ninguém que eu não sej a capaz de controlar. Serei invencível. E, se você tiver m uita sorte, viverá deleitando-se em m inha glória. Não será com o se você fosse um filho hom em , m as eu nunca rej eito novas... oportunidades. – Ele segurou m eu queixo com firm eza. – Se ao m enos você tivesse um m ínim o de fogo no seu sangue...

Um filho? Mas com quem ele...? Deschen. Ela era a m ulher que ele desej ava.

– Mas Deschen talvez j á tenha passado da idade de ter filhos.

– Sim , é um a possibilidade – adm itiu. – É por isso que estou considerando a ideia de perm itir que você se case com um dos príncipes. Se eu não posso ter um filho para m oldá-lo à m inha im agem , talvez um neto sirva.

A ideia de que m eu pai pudesse se tornar ainda m ais poderoso era assom brosa. Tudo fazia sentido. A razão para eu ter sido enviada para o palácio, as disputas com a fam ília Raj aram . Tudo para conseguir os am uletos e separar Deschen de sua fam ília.

Agora que eu conhecia a verdadeira m otivação de m eu pai, era ainda m ais crucial que ocultasse m inhas habilidades. Se ele soubesse o que sou capaz de fazer, m oldaria a m im e a m eus filhos para serem com o ele – seres repletos de m aldade, hom icidas com sede de poder. Quanto m ais fraca e dócil eu parecesse, m enos ele prestaria atenção em m im , e, desse m odo, esperaria que eu participasse de m enos atrocidades.

– Você sabe o que eu quero – disse ele. – Tem duas sem anas para ou anunciar seu noivado ou encontrar esses m edalhões. Eu lhe m andarei um dedo de Isha num a caixa para cada dia que se passar após esse prazo.

Engolindo m eu horror, com os olhos se enchendo de lágrim as de frustração, m urm urei:

– Sim , pai.

Quando ergui a vista, ele não estava m ais lá.