A Promessa do Tigre
CAPÍTULO 3 Rubor
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Rubor
Seguindo o barulho de água, subi a escada silenciosam ente. Havia guardas no parapeito, m as eles nem sequer se viraram na m inha direção. O cascalho sob os m eus pés e a brisa na pele fizeram com que m e sentisse viva. Meu coração acelerou quando cheguei ao andar em que os guardas estavam . Explorando um pouco, encontrei outra escada não m uito longe de onde a prim eira term inava. Ao lado dela, um a pequena cachoeira descia pelo m uro. Eu sabia que a água devia vir do j ardim suspenso, então continuei subindo.
Agora três andares acim a dos m eus aposentos, parei num a am pla sacada e avistei a cidade ilum inada pelo luar. A m aioria dos lam piões j á havia sido apagada, m as restavam várias luzes que em anavam de tochas, fogueiras e velas ao redor das construções da cidade, fazendo com que as estruturas escuras abaixo de m im parecessem ilum inadas por vaga-lum es. Por m ais linda que a vista fosse, eu estava procurando outra coisa.
Cam inhei em silêncio pelo corredor, m as não encontrei m ais escadas. Em vez disso, havia apenas várias portas. Nervosa para testá-las, coloquei a m ão em cada um a delas e escutei atentam ente antes de abri-las. A prim eira porta tinha um a escada que levava para um andar inferior. A segunda guardava diversas arm as – flechas, arcos, escudos e lanças. A terceira era a m ais pesada e se abriu com um rangido alto. Fiquei paralisada, torcendo para que ninguém tivesse escutado.
Com o não houve nenhum sinal que denunciasse botas pesadas vindo em m inha direção, esgueirei-m e pela entrada escura e encontrei outra escada que ia para cim a. Hesitei por um instante, pensando que poderia perder o cam inho de volta, m as m eu desej o de ver o j ardim m e fez seguir em frente. Subi um degrau após outro até sair na entrada de um túnel. A luz da lua e o arom a de água e vegetação m e atraíram .
Avancei rapidam ente e, passando por um portal aberto, entrei no paraíso. Durante o dia, o j ardim devia ser im pressionante, m as à noite, ilum inado som ente pelas estrelas e pelo luar, era m ágico. Cada nicho escuro sussurrava segredos, esperando que eu os desvendasse.
Segundo os boatos, o rei cortej ara sua j á falecida noiva cam inhando por aquelas trilhas bem cuidadas, entre o m urm úrio da folhagem . Era fácil im aginar um casal apaixonado passeando por sob as árvores, aproveitando a encantadora privacidade que ofereciam .
Adentrando m ais no j ardim , notei os largos pilares de pedra que sustentavam cam ada sobre cam ada de folhagens, que se elevavam acim a de m im em degraus, com o num teatro. À esquerda havia um terraço com vários níveis nos quais se entrelaçavam delicadas heras. À direita havia um a galeria de arte viva, com portais que conduziam a outros níveis.
Em cada nível havia estátuas, fontes de água, torres de plantas suspensas e até m esm o esculturas vivas feitas de arbustos. Em bora não houvesse tochas para ilum inar o am biente. os raios do luar atravessavam as copas e eu conseguia observar quase todos os detalhes.
Um a passarela de pedra parecia abranger todo o j ardim . Em volta dela havia terra m exida recentem ente, escura e rica em nutrientes. Abaixei-m e e m ergulhei a m ão na m atéria m acia. Não encontrei a base de pedra que suportaria tanto peso, m as, a j ulgar pelo tam anho das árvores – as m aiores chegavam a ter troncos m ais largos do que a m inha altura –, a laj e que sustentava o j ardim devia ser m uito grossa, de uns seis m etros de espessura ou m ais.
No centro do j ardim havia um a fonte colossal, tão im ponente que fiquei quase um a hora passando as m ãos pelas figuras entalhadas e pela água. Curiosa, segui a trilha do córrego. Parecia que um a série de aquedutos levava a água até o telhado da cidadela usando dezenas de cisternas que recebiam a água do rio.
Todos os níveis eram ligeiram ente inclinados, o que perm itia que a água fluísse para baixo, irrigando todo o j ardim . A que não era usada no j ardim retornava para o rio após descer pela lateral do palácio por um a cachoeira. O proj eto era genial.
Árvores im ensas se erguiam bem acim a dos m uros do palácio, m e dando a im pressão de estar no topo de um a grande m ontanha. Exam inei brotos m inúsculos e delicados, úm idos por causa do orvalho da noite, puxei um pequenino botão e o coloquei atrás da orelha, adm irei um a seção de novas m udas que o j ardineiro acabara de plantar.
A brisa m orna da noite levantava as folhas das árvores, fazendo-as dançar, sussurrantes, com o se estivessem vivas. O som despertava m eus sentidos. Cam inhei por um labirinto de vários andares, em ergindo num pom ar de árvores perfeitas, repletas de frutas de todos os tipos.
Além dele havia um a pequena cam pina verde e viçosa – o lugar perfeito para um piquenique. Seria m uito rom ântico j antar ali, à som bra de um a árvore, apreciando o m urm úrio da fonte e a vista da cidade. Deitei-m e na gram a, com as m ãos atrás da cabeça, e observei as incontáveis constelações que preenchiam o céu noturno, pensando que, se a sorte sorrisse para m im , talvez logo tivesse essa m esm a visão deitada no deque de um navio que levaria a m im e a Isha para outro país.
Com vontade de explorar m ais, m e levantei da gram a m acia e continuei. As flores pareciam brotar de cada pedacinho de terra. Colhi um a calêndula laranj a e a j oguei no córrego, rindo baixinho enquanto a acom panhava. A pequena flor ondulou e dançou até eu chegar à beirada do j ardim , onde ela passou por cim a do m uro e desapareceu.
Essa parte do j ardim ficava na altura do m uro que o circundava e eu podia ter um a clara visão das fortificações da cidadela e dos soldados que m ontavam guarda. Sem querer ir em bora m as sabendo que devia voltar à m inha cam a, passei lentam ente por todos os níveis, absorvendo cada visão, arom a e som . Relutando em continuar, parei novam ente ao lado da fonte central e descobri um a planta aquática que eu nunca havia visto.
Parecia um botão de lótus, m as, em vez do habitual rosa ou branco, tinha tons lavanda. Era a flor m ais adorável que eu j á vira. Tentada a pegá-la da água, pensei que se m eu pai a encontrasse em m eu quarto descobriria o que eu andara fazendo. Então m e pus a exam iná-la de todos os ângulos, gravando-a na m em ória.
Estava tão absorta observando a flor que só ouvi os passos vindo em m inha direção quando a pessoa que se aproxim ava j á estava quase atrás de m im . Fiquei paralisada e olhei para o m eu braço, suspirando de alívio ao perceber que continuava invisível. Ainda assim , a pessoa continuou chegando m ais perto e parou pouco antes de se chocar com igo. Mordendo o lábio, eu m e afastei com um passo cuidadoso, m e encolhendo quando chutei um seixo sem querer.
Ergui os olhos rapidam ente e m e vi sondando os olhos dourados do hom em em quem eu reparara durante a festa, aquele que parecia não estar interessado no anúncio do rei sobre m inha disponibilidade para casar. Ele estreitou os olhos e olhou para o seixo que havia rolado. Exam inou com cuidado as árvores ao redor. Após um m om ento, deu um breve suspiro e apoiou as m ãos na borda da fonte.
Ficou fitando a água com o se tentasse adivinhar seu futuro e pareceu não gostar do que viu. Então notou a flor que eu tinha acabado de soltar, pegou-a e a aproxim ou do rosto. Aspirou profundam ente e soltou um suspiro. O arom a do hom em que estava ao m eu lado m e pareceu m ais inebriante que o da flor. Diferentem ente dos outros hom ens lá em baixo, que exalavam o cheiro do álcool que haviam bebido ou do alho que tinham com ido, esse tinha arom a de sândalo e gram a aquecida pelo sol.
Satisfeito, colocou a flor aquática com cuidado de volta na fonte, onde ela lentam ente descreveu um círculo antes de flutuar novam ente na direção dele. Era com o se houvesse naquele hom em algo de m agnético que atraía o excepcional botão. De repente, m e dei conta de que eu tam bém chegara perigosam ente perto de tocá-lo.
Inclinando-m e para trás num ângulo estranho de m odo a não ser notada, m e perguntei quanto tem po ele continuaria dentro do m eu espaço pessoal. Com o não se m oveu im ediatam ente, eu o observei com cuidado, quase do m esm o m odo que havia feito com o j ardim . Era óbvio que era bonito, m as eu j á estivera na presença de outros hom ens bonitos antes, e isso nunca m e afetara. Um hom em bonito podia ser tão cruel quanto um que fosse feio. Eu j á tivera m uitas experiências desconfortáveis com hom ens para confiar num deles sim plesm ente por sua aparência.
O fato de ser o filho de um im perador significava que era poderoso, m as ele não exibia seu poder de form a óbvia, com o m eu pai fazia. Isso m e fez gostar ainda m ais dele. Suas vestim entas eram bem -feitas, m as não ostentavam os adereços que anunciam a todos que quem as usa é um hom em rico. Tinha um corpo de guerreiro, não de rei, o que provavelm ente significava que seu pai ainda estava vivo e, além do m ais, que ele era coraj oso, alguém que ficava ao lado de seus soldados, não atrás deles.
Suas feições não eram com o as dos hom ens que j á haviam cruzado o m eu cam inho. O form ato do rosto e da boca era de algum a m aneira diferente, e os olhos dourados com pequenas linhas ferrugem , da cor da hena recém -preparada, eram tão incom uns que se tornavam m arcantes. Ele era exótico e raro com o a flor que eu acabara de descobrir – um hom em encantador e fascinante.
Era um soldado, m as m esm o assim parecia apreciar as coisas belas. Ainda que fosse o herdeiro de um grande im pério, ali estava ele sozinho, sem guarda-costas ou séquito. Não havia ninguém para se curvar a seus pés ou lhe fazer um a reverência. Era um príncipe e genuíno, atraente, que parecia não se im portar com festas, diplom acia ou m ulheres. E, enquanto a m aioria dos outros recrim inaria um em pregado que fosse descuidado, ele não só foi bondoso com o aj udou a serviçal – um a atitude que poucos hom ens que eu conhecia seriam capazes de tom ar, ainda m ais por alguém que considerassem de status inferior.
Vendo-o passar os dedos sobre o laguinho de carpas ornam entais, tive que m e conter para não fazer barulho quando ri dos peixinhos esfom eados pondo a cabeça para fora da água e abrindo a boca com o se estivessem suplicando. Estavam com fom e e procuravam o alim ento que achavam que ele ofereceria.
– Desculpem , eu não trouxe pão – disse ele. – Se soubesse que estariam aqui, teria trazido.
Minha diversão foi substituída por outra coisa, algo m orno, um a sensação que eu não conseguia descrever. Meu rosto ficou quente e, silenciosam ente, apertei as m ãos contra as bochechas. Surpresa, percebi que estava corando apenas por estar na presença dele. Meu coração bateu m ais forte quando olhei para seu rosto com o m esm o apetite dos peixes coloridos. Era im possível deixar de fitá-lo, até que o vi franzir as sobrancelhas, confuso, e se voltar na m inha direção.
– O que foi? – perguntou. – Que etérea criatura vocês descobriram ?
Olhei para o cardum e inquieto e cobri a boca, horrorizada ao constatar que os peixes haviam deixado de lado o j ovem bonito e se voltado na m inha direção. Qualquer que fosse o encanto que m e tornava invisível aos dem ais não funcionava com eles. Enquanto abriam e fechavam a boca e se aproxim avam , o rapaz deu um passo na m inha direção. Nesse instante, ouviu-se a voz de um hom em :
– Aí está você. Obrigado por concordar em se encontrar com igo.
O j ovem príncipe parou; seu corpo inteiro ficou rígido quando ele se voltou para cum prim entar quem chegava. Meu pai entrou na clareira em volta da fonte a passos largos e confiantes, usando a m áscara de um a versão anterior de si m esm o, m ais m oço que a do sábio diplom ata que ele norm alm ente preferia usar. Esta ele só usava quando se reunia com pessoas m uito m ais j ovens do que ele.
Não ficava diferente a ponto de a m aioria das pessoas conseguir perceber. Aliás, eu parecia ser a única que via m eu pai em sua real aparência: um corpo decrépito, esquelético, tão carcom ido por fora quanto era podre por dentro. O que ele poderia querer com este jovem? Em bora m eu instinto m e m andasse fugir o m ais depressa possível, outra parte de m im queria ficar, m e colocar entre o hom em lindo e desconhecido e m eu pai, protegê-lo com o eu fizera com Isha.
O j ovem respondeu:
– A sua... convocação não m e deu m argem para recusar seu pedido.
– E por que você faria isso? Eu lhe garanto que este diálogo será de vital im portância para o futuro de nossos dois reinos. – Meu pai deu um sorriso afável que m e deixou paralisada no lugar onde estava. – Perm ita que eu m e apresente de m aneira apropriada. – Ele se inclinou e estendeu a m ão, num gesto de boas intenções. – Meu nom e é Lokesh.
O j ovem ignorou a m ão estendida.
– Eu sei quem você é.
– Ah, vej o que a m inha reputação m e precede.
– Sem dúvida. Ainda que eu espere que não passe de um exagero, tenho a im pressão de que não é o caso.
– Tsc. Estou certo de que um guerreiro com o você sabe que um a reputação reconhecidam ente terrível pode favorecer seu portador tanto quanto um a espada de qualidade. Se não m ais.
Cruzando os braços sobre o peito forte, o estranho respondeu:
– Sei. Tam bém sei que o tipo de hom em disposto a se perm itir um a reputação com o essa, sej a ela verdadeira ou não, é alguém em quem eu não confiaria.
Lokesh riu. Eu nunca o ouvira rir antes, nem m esm o esse riso fingido, e sua reação parecia m esm o genuína. Por algum m otivo, a resposta do desconhecido encantara m eu pai. O nervosism o que eu sentia em relação à segurança do j ovem se intensificou m uito.
– Que esperto. Eu não esperaria m enos de um Raj aram .
O j ovem estreitou os olhos.
– Sinto que m eu tem po aqui foi desperdiçado. Havíam os sido inform ados de que esta reunião diria respeito às negociações de um tratado, m as em vez disso vej o que fui convidado para um a festa de m ulheres no j ardim , onde fui obrigado a observar pavões que circulam por aí, em periquitados, ostentando sua riqueza, saltitando e se baj ulando, parabenizando-se m utuam ente pela quantidade de ouro guardada em seus cofres. Já está ficando tarde e, com o tenho a intenção de partir ao am anhecer, prefiro m e retirar para os m eus aposentos pelas poucas horas que ainda m e restam de descanso. Se quiser discutir nosso recente desentendim ento, sugiro que faça isso. Caso contrário, peço licença para ir em bora.
Os olhos de Lokesh faiscaram .
– Kishan... Posso cham á-lo assim ? – Meu pai não esperou pela aprovação e prosseguiu: – Posso lhe garantir que os... pequenos atritos recentes entre nossos soldados, por m ais triviais que tenham sido, têm ocupado m inha m ente. O fato de nossos dois reinos terem entrado em conflito m e perturba, e sinto que devo tentar convencê-lo de que eu de form a algum a instiguei essas ações traiçoeiras.
O estranho não disse nada, m as seus punhos se cerraram e os m úsculos de seus braços se contraíram . Ele claram ente não acreditava nas m entiras que transbordavam dos lábios de m eu pai, ao m enos não totalm ente. Eu não sabia bem o que Lokesh andara fazendo em todas as suas viagens secretas, m as agora estava claro que ele tinha obj etivos m aliciosos em relação a este j ovem e sua fam ília. O m edo que senti por ele quase m e asfixiou. Meu corpo trem eu e m inha respiração oscilou.
– Não, Kishan. Meu obj etivo hoj e é o de pôr fim a qualquer aborrecim ento e construir um a ponte entre nossos povos.
– E com o propõe que façam os isso? – perguntou o estranho.
Dando um passo à frente e erguendo a m ão de m odo a parecer suplicante para o estrangeiro – em bora da m inha perspectiva parecesse obviam ente am eaçador –, ele respondeu:
– Criando um a aliança entre as nossas fam ílias.