A Promessa do Tigre

Colleen Houck · Capítulo 7 de 14

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A Promessa do Tigre

CAPÍTULO 6 Traição

6

 

Traição

 

Um m ensageiro chegou ao palácio com a notícia de que Dhiren havia aprovado o casam ento vários dias antes de m inha chegada e m eu pai fora notificado de que o anúncio aconteceria. Na m anhã seguinte ao m eu retorno, fui convocada pelo im perador a com parecer diante do trono. Kishan quase se chocou com igo ao sair de lá.

Ele estava bravo – um a em oção não exatam ente incom um quando se está na presença de m eu pai –, m as, ao m e ver, seus olhos se ilum inaram brevem ente antes de ele desviá-los. Era com o se não suportasse m ais olhar para m im , e essa ideia m e perfurou com a dor de m il agulhas. O sentim ento m e dom inou de tal form a que quase m e esqueci de que estava na presença de m eu pai.

Lokesh se aproxim ou de m im enquanto Kishan se retirava rapidam ente.

– Yesubai, com o é bom vê-la com saúde, m inha querida – disse ele com o se estivesse feliz em m e ver.

Porém , por trás da m áscara social, seus olhos tinham um brilho m aníaco, e eu percebia o prenúncio das tragédias que estavam por vir.

– Pai – falei, baixando a cabeça. – Espero que sua viagem tenha ocorrido sem incidentes.

– Assim foi. E devo felicitá-la. Seu noivado é m otivo de com em oração para os dois reinos.

– É verdade – respondeu Raj aram . – Com efeito, celebrarem os hoj e à noite.

Meu pai segurou m eu braço com m uita força, m as sua m ão estava oculta pelas dobras de m eu vestido.

– Muito bem – disse ele. – Talvez m ais tarde possam os discutir quando pensa que seu filho estará disposto a concretizar a união.

– Eu lhe asseguro que o noivado com Yesubai será um a prioridade para m eu filho – disse Deschen. – Estou certa de que, assim que as circunstâncias perm itirem , ele retornará depressa para tom á-la com o esposa.

Lokesh deu um sorriso falso para Deschen que m al escondia seu olhar lascivo.

– Então, até a noite, fico em com panhia da m inha filha.

A expressão ensaiada de Deschen deu lugar à preocupação e ela se levantou do trono.

– Se não se im portar, eu gostaria de passar um tem po com ela hoj e à tarde. Aprecio m uito nossas conversas.

– É claro.

Lokesh curvou a cabeça brevem ente em sinal de reverência, deu m eia-volta e saiu levando-m e pelo braço. Ele não disse nada e até dispensou Haj ari. Saím os do palácio e nos afastam os das fileiras de soldados que o guardavam . Quando estávam os suficientem ente longe, ele m e soltou e parou de costas para m im , exam inando a terra e o j ardim próxim o. Então levou as m ãos à cintura e com eçou a se virar lentam ente, absorvendo com o olhar tudo à nossa volta, até fixá-lo em m im . O que vi em sua expressão m e surpreendeu. Ele estava... feliz.

– Você se saiu bem – disse.

– Fico satisfeita em agradá-lo, pai.

– De algum a form a, conseguiu até m ais do que eu esperava. Pelo visto, sua beleza tem algum valor, afinal. – Eu nunca o vira de bom hum or. Só faltava dançar de satisfação. – Não só arm ou um contrato nupcial com o príncipe m ais velho com o deixou o irm ão m ais novo salivando tam bém . Ele praticam ente m e im plorou para considerar casá-la com ele no lugar de Dhiren. É claro que eu insisti que o m ais velho era a m elhor opção. Não quero que reste a m enor dúvida em relação à sua futura posição.

Kishan queria se casar comigo? O pequeno nó de esperança em m eu coração se desfez. Por um breve instante, m e lem brei do j eito que o im perador abraçara sua rainha e m e perguntei se haveria pelo m enos a m ínim a possibilidade de que um dia Kishan m e abraçasse da m esm a m aneira.

Meu pai interrom peu m eus pensam entos:

– Deschen tam bém gosta de você. Eu não poderia esperar um resultado m elhor. Isso m e fez m udar de ideia quanto ao nosso plano. Você irá envenenar o príncipe m ais j ovem e o pai hoj e à noite e se casar com o m ais velho. Se ele m e for útil, perm itirei que continue vivo. Ele parece ser um com andante m ilitar bastante com petente.

Matar Kishan? Ele queria que eu o matasse?

– Não! – gritei e instantaneam ente cobri a boca com as m ãos.

Seus olhos astutos se cravaram em m im .

– O que foi que disse? – perguntou ele num tom baixo e am eaçador.

Lutando para proteger tanto Kishan quanto a m im m esm a, disse a única coisa que sabia que o distrairia:

– O príncipe m ais j ovem usa pelo m enos um dos am uletos. Eu o vi. Não devem os m atá-lo até descobrirm os onde está o outro.

Meu pai ficou calado e, audaciosam ente, dei um passo na direção dele e pus a m ão em seu braço.

– Kishan pode ser... m anipulado. Talvez eu consiga arrancar dele a localização da outra parte. Para falar a verdade, não tenho tanta certeza de ter a m esm a influência sobre Dhiren. Ele é gentil, m as não m e olha com a m esm a paixão que Kishan.

– Você é m ais esperta do que eu pensava, Yesubai. Afinal, é m esm o m inha filha. Muito bem . Use suas artim anhas para descobrir o paradeiro da outra parte do am uleto e m e inform e im ediatam ente.

– E o im perador?

– O que tem ele?

– Se eu m atá-lo, nós seríam os considerados suspeitos. Será bem m ais fácil lidar com os príncipes se eles acreditarem que estão em segurança.

Meu pai enrij eceu o corpo, tenso. Não estava acostum ado a m e ouvir respondendo desse j eito, m as não podia ignorar m eus argum entos e ainda precisava de m im para atingir seus obj etivos. Faíscas azuis ilum inaram as pontas de seus dedos. Vi com o canto do olho, m as sabia que era m elhor não dem onstrar abertam ente que conhecia seu poder. Ele o conteve e disse:

– Então, por agora, a fam ília Raj aram continuará viva. Dedique-se ao príncipe m ais j ovem até Dhiren chegar e aguarde m inhas instruções.

Baixando a cabeça, respondi:

– Com o desej ar.

– Agora retorne ao palácio e passe o dia com a rainha. Fale com ela sobre as m inhas... realizações.

Então virou de costas para m im , o que indicava que eu estava dispensada, e m e dirigi rapidam ente de volta ao palácio.

Naquela noite j antam os todos j untos, com o um a fam ília grande e feliz, em bora Kishan não olhasse para m im e m eu pai ficasse m e observando dem ais. Haj ari perm aneceu de pé atrás de m eu pai, lançando olhares am eaçadores com o dardos, insinuando o que faria com igo no m om ento em que eu ficasse a sós com ele. Esse era um hom em que eu não teria rem orso algum de assassinar.

Meu pai partiria no dia seguinte. Quando ouvi um a batida na m inha porta ao am anhecer, presum i que fosse ele, m as, para m inha surpresa, era Deschen, que estava sozinha.

– Onde está o seu guarda? – perguntei, tem endo pelo que m eu pai pudesse fazer caso desse de cara com ela.

Deschen encolheu os om bros.

– Privilégio de rainha – disse, com um sorriso.

Ela se desculpou por interrom per m eu sono – em bora eu não tivesse dorm ido boa parte da noite – e perguntou se eu não m e im portaria de acom panhá-la. Eu a segui até o cam po aberto onde os soldados treinavam .

– O que estam os fazendo aqui? – perguntei.

Retirando o robe, Deschen revelou um traj e parecido com um quim ono j usto, afivelado na cintura, sobre um a calça j usta e sandálias flexíveis com o as de um soldado.

– Eu precisava praticar um pouco – disse ela, dando um a piscadela para m im . – Ah, aí está Kadam .

O com andante do exército de Raj aram entrou no círculo de terra com pacta usado para os treinos e ofereceu à rainha um lindo conj unto de espadas. Eu nunca vira arm as com o aquelas antes e m e perguntei se viriam de sua terra natal.

– Minha rainha – disse o hom em de m eia-idade, fazendo um a reverência. – Pronta para assum ir a posição?

– Eu j á estou pronta faz um a hora. Você passou m uito tem po enroscado na cam a com o um gato hoj e? Tem o que estej a ficando velho, Anik.

O m ilitar sorriu.

– Ainda não, m aj estade.

– Então erga a sua espada – provocou Deschen, com um a expressão brincalhona.

Enquanto praticavam , sentei-m e ao pé de um a árvore para assistir. O líder do exército era um lutador habilidoso, m as logo ficou claro que Deschen era m ais do que capaz de acom panhá-lo. Eu nunca havia visto um a m ulher lutar antes, m uito m enos m ovim entando-se com tam anha leveza e agilidade. As espadas gêm eas cortavam o ar com o se fossem um a extensão de seu corpo, e ela saltava e girava com o um a dançarina m ortal.

Entendi o fascínio de m eu pai por ela. Pouco depois, Kishan se j untou aos dois e provocou o guerreiro com bom hum or, dizendo que estava sendo vencido por um a m ulher. Quando Deschen perguntou ao filho se ele se sairia m elhor, Kadam atirou sua espada para ele. O príncipe recolheu a túnica e fez um círculo em torno da m ãe. Ele não tinha m e visto e m e ocultei ainda m ais na som bra. Ainda que Deschen soubesse que eu estava ali, eu m e sentia com o se houvesse sido flagrada espionando.

Enquanto praticavam , a rainha com eçou a fazer perguntas ao filho, e logo m e ocorreu que ela teria m e levado ali com um a finalidade totalm ente diferente. Kishan, sem saber que eu estava por perto, respondia sem rodeios.

– Com o você está se sentindo depois de ontem ? – perguntou ela.

– Com o era de se esperar.

– Você sabe que tentam os.

– O que eu sei é que Ren ganhou de novo.

– Não é um a com petição, Kishan.

– É claro que não. Com o seria, se eu nunca tive qualquer esperança de sucesso? Eu perco sem pre.

– Isso não é verdade. E talvez só o pai dela aspire ao título.

– Que m ulher trocaria o trono por um am or?

Deschen baixou a espada.

– Eu trocaria – disse ela, séria. – Dê um pouco de crédito a ela.

Kishan passou a espada para a outra m ão, girou o pulso e voltou a investir. Quando as espadas se tocaram , ele ficou cara a cara com a m ãe.

– Mesm o que ela m e quisesse, o pai não perm itiria.

– Não sabem os se isso é totalm ente verdade. – Ele lançou um olhar de dúvida para a m ãe e ela recuou. – Está bem , ele é um hom em teim oso. Talvez o tem po o faça m udar de ideia.

– Ren vai chegar dentro de um a sem ana e espera ser recebido por sua noiva.

– Talvez possam os fazer algo a respeito disso. – A m ãe abriu um sorriso m isterioso. Kishan ergueu as sobrancelhas e em purrou a espada dela para longe de sua garganta. Deschen prosseguiu: – O que quer que ela decida, quero que sej a escolha dela. Não quero pressioná-la de form a algum a. – Num tom de voz m ais baixo, acrescentou: – A pobre j á foi pressionada dem ais na vida.

Com um contra-ataque habilidoso, Deschen girou o punho, arrancando a arm a da m ão de Kishan. Ela levou a espada ao peito dele e riu:

– Nunca subestim e as m ulheres, m eu filho.

Rindo, Kishan disse:

– Eu nunca subestim aria você, m ãe. – Ele a beij ou no rosto e foi pegar a espada do chão. – Melhor de três? – sugeriu, e m ãe e filho recom eçaram .

A pele de Kishan brilhava à luz do am anhecer, e o cuidado que ele dispensava à m ãe era enternecedor. Ali estava um hom em que trataria a esposa com o m esm o respeito e a bondade que dedicava à m ãe. Ali estava um hom em que não se sentia rem otam ente am eaçado por um a m ulher de poder. Ali estava um hom em que eu poderia am ar.

Deschen estava certa ao pensar que eu não m e im portava nem um pouco com o título de rainha. Fiquei m e perguntando quais seriam seus planos e m aravilhada com a habilidade com que a m ulher m anipulara m eu pai. Ela m e levara para lá de propósito. Queria que eu ouvisse aquela conversa. Eu estava pensando qual seria a razão disso e o que exatam ente ela esperava que eu fizesse quando ouvi um a voz atrás de m im :

– Linda.

O sentim ento de adm iração soava com o algo im undo vindo dos lábios de m eu pai.

Levantei-m e im ediatam ente de m eu assento confortável sob a árvore, enrubescendo com a ideia de que m inha vigilância estava vacilante. O fato de ser flagrada observando m ãe e filho com o m esm o desej o sedento de m eu pai m e enoj ava.

– Ela é realm ente única – com pletou ele.

– É, sim .

Então Kishan nos notou e soltou a espada, ganhando um corte no braço quando sua lâm ina não conteve a de sua m ãe.

– Yesubai? – disse ele.

Então deu um passo à frente, m as parou.

A rainha se voltou para nós, enxugando o pescoço com um lenço.

– Ah, está se despedindo de seu pai? – perguntou ela, dando um a piscadela. Então dirigiu-se a Lokesh: – Obrigada por perm itir que ela fique conosco estes próxim os m eses. É um a pena que Ren não possa vir antes.

Inclinei a cabeça, tentando im aginar que desculpas ela teria usado para m anter Dhiren afastado. Era óbvio que ela am ava Kishan, m as eu nunca tivera a im pressão de que ela gostava m ais de um filho do que do outro.

– Claro – disse Lokesh e deu um sorriso contido. – Um a pena. Até nosso próxim o encontro, m aj estade. – Ele tom ou sua m ão e a beij ou durante um tem po m ais longo do que seria apropriado, deixando-a desconfortável, e então se voltou para m im : – Adeus, filha. Mandarei notícias.

Deschen pediu a Kishan que acom panhasse m eu pai até seu séquito de soldados. Depois m e deu o braço.

– Você m anteve a com postura de um a form a notável – disse ela.

Não entendi ao certo se estava se referindo às revelações que eu escutara ou à presença de m eu pai. Então resolvi m e pronunciar:

– Foi m uita bondade sua pedir a ele que m e deixasse ficar.

– Eu não seria capaz de m andá-la de volta com ele. Agora você está sob m inha proteção, Yesubai.

Ficam os observando os cavalos da com itiva de m eu pai enquanto eles se afastavam do palácio e saíam pelos portões. Kishan se virou na nossa direção e m e olhou durante um tem po; depois suspirou e com eçou a se aproxim ar de onde estávam os. Enquanto o esperávam os, ouvi a rainha pedir ao com andante Kadam :

– Reforce a segurança na sala de banho das m ulheres. Alguém m e espionou hoj e cedo. O responsável ainda não foi descoberto.

Ele fez um a reverência.

– Cuidarei disso pessoalm ente, m aj estade.

Ao ver m inha expressão de espanto, ela se apressou em m e tranquilizar:

– Não há nada a tem er, Yesubai. Todos nós vam os zelar pela sua segurança.

Ainda que confiasse plenam ente na dedicação dos soldados da rainha, eu sabia m uito bem quem a havia espionado. Meu rosto enrubesceu quando tom ei conhecim ento do que m eu pai havia feito e m e senti culpada, quase com o se eu m esm a tivesse causado aquilo.

Conform e a rainha dissera, logo foi anunciado que Dhiren estenderia a viagem para percorrer o im pério. Fora recom endado que ele dedicasse o tem po necessário para deixar todos os negócios do im pério em ordem antes de voltar para casa e concentrar as atenções em sua noiva. Relutante, Dhiren concordou em se reunir com conselheiros de seu pai em cidades e fortes, fazendo um cam inho m ais longo ao retornar da frente de batalha.

Haj ari ficara no palácio para tom ar conta de m im e, por causa disso, Kishan assum iu o papel de m eu acom panhante pessoal. A cada dia que passava, eu percebia que ficava m ais ansiosa para vê-lo. Ele m e ensinou a j ogar pachisi e aprendi rápido, inclusive ganhando dele em m ais de um a ocasião. Às vezes, a rainha nos acom panhava, m as em geral éram os apenas nós dois, com Haj ari observando a distância, entediado e carrancudo.

Deschen frequentem ente m andava cham ar Kishan ao aposento das m ulheres, fingindo precisar dele, apenas para lhe pedir que m e acom panhasse até a cozinha para buscar um doce ou até o j ardim para colher flores. Certa vez, ela m entiu descaradam ente: disse que eu m e queixara de estar entediada e perguntou se ele se im portaria de m e ensinar a cavalgar. Era óbvio que sua intenção era m e j ogar nos braços dele de propósito.

Considerando o fato de que eu iria m e casar com seu irm ão, a situação era em baraçosa. Ainda assim , eu adorava estar com Kishan. Nas horas que passávam os j untos, eu aprendera a confiar nele. Adorava ver o brilho em seus olhos dourados quando ele ria, e o calor de seu sorriso enchia m eu coração de um a form a que nunca im aginei que fosse possível. Eu j am ais havia pensado que seria capaz de depender de um hom em . As experiências que tivera com o sexo oposto não haviam sido nada agradáveis, m as Kishan era diferente.

A confiança logo se transform ou em cum plicidade, que levou à adm iração. Então, antes que eu m e desse conta do que tinha acontecido, a adm iração se transform ou num desej o que era ao m esm o tem po fantástico e terrível, e percebi que estava apaixonada. Apesar disso, Kishan continuou se com portando de form a apropriada, distante com o um prim o.

Com o passar das longas sem anas, os boatos sobre o retorno de Dhiren com eçaram a circular e passei a m e perguntar se eu não teria entendido errado as intenções de Deschen e de m eu pai. Será que os sentim entos de Kishan em relação a m im haviam m udado com o tem po? Será que ele agora m e enxergava com o irm ã e não m e desej ava m ais com o m ulher?

Durante esse tem po, quase todo dia chegavam cartas de Dhiren. Ele escrevia com eloquência sobre a vida que im aginava para nós e, em bora m inhas respostas fossem breves e até um pouco secas, suas cartas foram ficando cada vez m ais afetuosas, em otivas e íntim as. Após usar a passagem secreta para o j ardim de m odo a evitar Haj ari, encontrei um banco e estava ali sentada, com a últim a carta de Dhiren am assada em m eu punho fechado e m e perguntando o que eu estava fazendo com aquela pobre fam ília, quando Kishan m e encontrou.

– Yesubai? Algum problem a? – perguntou.

Ele sentou-se ao m eu lado e retirou as folhas da m inha m ão. Alisando-as sobre a coxa, com eçou a ler:

Minha querida Bai,

Os m eses em que estivem os separados pesaram sobre m im . Com o eu gostaria de estar ao seu lado neste m om ento! Apesar do pedido de m inha m ãe, tenho a intenção de voltar para casa após m inha visita a esta cidade, cancelando os poucos destinos que ainda faltam . Talvez eu chegue antes até de você receber esta carta. Preciso adm itir que, toda vez que fecho os olhos, vej o você. Sou o m ais afortunado dos hom ens por ter com o noiva um a m ulher tão linda. O m odo com o a luz brilhou no seu rosto...

Kishan parou de ler e deixou as páginas pendendo das pontas de seus dedos.

– Kishan? – perguntei. – Kishan, diga algum a coisa.

Ele não disse nada. Lançando-m e som ente um breve olhar, levantou-se e se afastou rapidam ente, indo na direção do labirinto.

– Aonde você vai? – cham ei, vendo-o desaparecer atrás da cerca viva.

Finalm ente o encontrei no centro do labirinto. Ele se inclinou sobre a fonte, com as m ãos espalm adas sobre a borda e de costas para m im . Não se voltou na m inha direção antes de falar.

– Bai? – perguntou em voz baixa. – Ele cham a você de Bai?

– Cham a. Mas, não, eu nunca pedi isso a ele.

– Mas não se incom oda.

Eu não sabia ao certo o que responder. Isha m e cham ava de Bai e eu sem pre gostara do apelido. Era com o um segredo entre nós duas. Era o m odo com o m e cham aria alguém que m e am asse.

Por fim , respondi:

– Eu preferiria que ele não usasse esse apelido, na verdade. – Aproxim ando-m e de Kishan pelas costas, prossegui com voz suave: – Sei que você cham a seu irm ão de Ren, m as eu só m e refiro a ele com o Dhiren. Para ser sincera, não sei se algum dia vou m e sentir à vontade para cham á-lo de outra form a.

Estava tentando transm itir a ele, de m odo sutil, que não era o irm ão dele quem eu am ava. Kishan continuou sem olhar para m im .

– Meu pai sem pre disse que apelidos só são usados pelas pessoas das castas m ais baixas.

Minhas próprias palavras m e fizeram m e encolher. Pareciam cruéis e não eram o que eu pretendia lhe dizer. Eu acabara de insultar não só a ele com o toda a sua fam ília.

– Ele vai chegar a qualquer m om ento – disse Kishan.

– Sim – respondi.

– E aí você vai se casar com ele.

– Não é o que foi com binado?

– Mas...

– Mas o quê?

– É isso que você quer? – Então ele se voltou para m im e estendeu a m ão, passando os dedos ao longo do véu que cobria m eus cabelos. O tecido fino, j á solto, deslizou do m eu rosto. – Yesubai?

O j eito com o ele disse m eu nom e foi quase um a carícia. Meu corpo estrem eceu e, em bora eu não tenha chegado m ais perto dele, senti a distância entre nós dim inuir. O ar nos envolveu e aqueceu m inha pele.

– Eu... – Meus lábios trem eram e baixei a cabeça, incapaz de m anter a com postura, aprisionada por seu olhar. – Eu não am o o seu irm ão – m urm urei finalm ente.

Kishan inspirou fundo e passou as pontas dos dedos delicadam ente ao longo de m eu m axilar até o queixo, erguendo m eu rosto para que eu tornasse a m ergulhar em seus olhos dourados.

– Então você am a outra pessoa?

Assenti com a cabeça.

– Fale – pediu ele.

Observei seus lábios ao pronunciarem a palavra.

Meu coração batia com tanta força que fiquei excessivam ente tensa, com o se só conseguisse pensar no form igam ento dos m eus braços e pernas. Com a voz arrastada e os pensam entos confusos, sussurrei:

– Eu preferiria que fosse você o m eu prom etido.

Senti o coração bater um a vez, depois outra, e aquele m om ento parecia quente e frio ao m esm o tem po. Então ele sorriu, e era com o a luz do sol, o calor e prom essas de felicidade com binados num a única expressão. Antes que eu m e desse conta do que estava acontecendo, ele pressionou os lábios contra a palm a da m inha m ão e beij ou a pele m acia. Seus lábios foram se m ovendo lentam ente até m eu pulso e então ele segurou m inha outra m ão.

A névoa que envolvia m inha m ente ficou ainda m ais densa e todo o m eu ser se resum ia a sensações e sentim entos. Tudo que eu queria era m ais. Seus lábios. Seu calor. Ele. Kishan j á estava na altura de m eu pescoço quando finalm ente consegui m e concentrar em suas palavras. Dissera que falaria com m eu pai.

Apoiei as m ãos em seu peito e o em purrei com força, afastando-m e abruptam ente. Senti tanto a ausência de seu calor que parecia que m eu pai tinha congelado o sangue em m inhas veias.

– Não – sussurrei.

– Com o assim , não? – perguntou ele, confuso e abalado com o eu.

– Digo, precisam os ter cuidado. Meu pai é um ... é um hom em difícil.

A expressão no rosto de Kishan ficou dura com o pedra.

– Não vou perm itir que ele m achuque m ais você, Yesubai.

– Por favor, só... só m e dê um tem po para que eu fale com ele. Talvez eu consiga convencê-lo a reconsiderar a questão. – Quando ele adotou um ar de dúvida, acrescentei: – Prom eto que vou tentar encontrar um a m aneira de ficarm os j untos.

– Ren voltará em breve. Se quiserm os alterar os term os do seu noivado, algo tem que ser decidido depressa.

– Mandarei um a m ensagem para m eu pai im ediatam ente. – Tom ei suas m ãos e pressionei os lábios contra seus dedos. – Por favor, Kishan, vam os m anter isto apenas entre nós por enquanto.

Ele concordou e m e acom panhou de volta ao palácio. Cham ei Haj ari e o enviei ao m eu pai com um a carta que dizia que eu precisava falar com ele im ediatam ente. Naquela m esm a noite, m eu pai apareceu em m eu quarto e, ainda que eu tivesse m e preparado m uito para a visita, m inhas m ãos trem eram quando o m om ento chegou.

– Dhiren se aproxim a e deve chegar dentro de poucos dias. Kishan declarou abertam ente seus sentim entos por m im e acredito que estej a disposto a fazer praticam ente qualquer coisa para im pedir o casam ento.

– Entendo – disse m eu pai. – Prossiga.

– Se o senhor o incentivar, é m uito provável que ele encontre um a m aneira de lhe dar os obj etos que procura. Assim , talvez os Raj aram deixem de ser um a am eaça ao senhor e não sej a m ais necessário destruí-los.

Meu pai deu um a risada som bria.

– Você pensa que toda esta conspiração é porque eu os enxergo com o um a am eaça? Não, m inha filha ignorante. Eles são tão insignificantes quanto a fraca da sua m ãe. Nos anais do tem po, a m arca que eles deixarão na história será absolutam ente indiscernível. Pensa que m e im porto com o fato de ele am ar você? Pensa que não vej o que você é louca por ele? Eu não sou bobo, Yesubai. Não se engane. Eu tenho com pleto controle de cada um de vocês e das suas vidinhas. Cada m igalha que concedo a vocês só existe porque assim desej o. Vocês só existem porque eu perm ito. – Ele passou a m ão no queixo. – Ainda assim , faz algum sentido deixar o j ogo correr até seu desfecho inevitável e trágico. Muito bem . – Ele m e deu um a últim a olhada e então se voltou para a j anela. – Diga ao príncipe m ais j ovem que quero m e encontrar com ele am anhã ao anoitecer, na fronteira entre nossas terras, nas colinas escarpadas. Então decidirei se deixá-lo viver será um a boa diversão para m im .

Assenti, arrasada com o que eu havia feito, e, quando ele partiu, fiquei pensando se poderia ter agido de form a diferente. Mais um a vez, o conforto silencioso do sono m e escapou e, no dia seguinte, usei m eu véu m ais escuro para m e esconder. Além de disfarçar m eu estado deplorável, eu precisava que ele ocultasse todo o m al que sentia estar causando. Não foi a prim eira vez que m e perguntei se não teria sido m elhor para o m undo se eu não tivesse nascido.

Kishan concordou prontam ente em se encontrar com m eu pai e, sob o pretexto de um a cavalgada ao entardecer, partim os para a fronteira. Meu pai nos aguardava. Meneou a cabeça para Kishan, que se aproxim ou dele apenas com um a pequena espada. O fato de estar com pletam ente despreparado para um confronto com m eu pai não passou despercebido por m im . Mordi o lábio com força. Mesm o se Kishan estivesse devidam ente preparado para um a batalha e não se apresentasse a m eu pai com o um pretendente, ainda assim não seria páreo para ele.

Após os devidos cum prim entos, Kishan anunciou audaciosam ente que queria que m eu pai reconsiderasse seu pedido. O brilho nos olhos de m eu pai revelou que Kishan estava se com portando exatam ente da m aneira que ele esperava.

– E o que m e oferece no lugar do título? – perguntou m eu pai. – Certam ente não espera que eu aceite sua proposta apenas porque tenho bom coração.

Kishan ofereceu diversas riquezas, cavalos de raça, elefantes de batalha e outros bens que possuía, m as logo ficou claro que m eu pai estava ficando entediado.

– Não preciso desse tipo de coisa – disse Lokesh sem rodeios. – Kishan, tenho a im pressão de que você é um hom em capaz de tom ar decisões difíceis, m esm o que um ou outro sacrifício sej a necessário. Estou certo?

Kishan cruzou os braços sobre o peito:

– Sou conhecido por ser decisivo em batalhas.

– Muito bem . Então serei o m ais direto possível. Minha filha, Yesubai, tentou deixar de lado o que sente por você para poder assum ir a posição de rainha e esposa de seu irm ão. Infelizm ente, vê-se que ela é incapaz de negar o am or que carrega no peito e prefere ter você com o m arido. Com toda a franqueza, seria m elhor para nossas fam ílias e nossos reinos se vocês dois nunca tivessem se conhecido, m as sou um hom em brando e com preendo as paixões da j uventude.

Ergui um a das sobrancelhas, m as não disse nada.

Lokesh continuou:

– Com o tenho em patia por todas as dificuldades que vocês vêm enfrentando, concordo em m odificar os term os do noivado.

Kishan riu e m e envolveu em seus braços, m e apertando j unto ao seu corpo.

– Porém ... – disse m eu pai, com a reprovação à atitude de Kishan estam pada no rosto – você deve aceitar as m inhas condições.

Kishan se afastou de m im e o j ovem apaixonado pareceu ser substituído por um príncipe digno de seu pai.

– Não há nada que eu possa prom eter em nom e de m eu pai. Posso lhe dar apenas aquilo que possuo. Se houver m ais algum a coisa que desej e, terá que pedir aos m eus pais.

Lokesh passou o braço pelos om bros de Kishan.

– Filho... Posso cham á-lo assim ? – E não esperou a resposta: – Não precisam os envolver Raj aram e Deschen ainda. Esta negociação está seguindo um cam inho tão delicado que devem os avançar com cautela. Certo?

Kishan assentiu, hesitante.

– E quais são suas condições?

– Ah, nada de m ais. Um a coisa insignificante, na verdade. Sabe, eu sou o que se poderia cham ar de colecionador.

– Colecionador de quê?

Lokesh riu.

– De m uitas coisas. Mas, no seu caso, há algo em seu poder que pode despertar m eu interesse a ponto de m e fazer considerar a possibilidade de abrir m ão do título de Yesubai.

– E o que é?

– Há um a parte de um am uleto em poder de sua fam ília. Duas, aliás.

– Do Am uleto de Dam on? Por que teria interesse nisso? Não tem nenhum valor m onetário. São m eros pingentes herdados de m inha fam ília.

– Sim , eu sei que não alcançariam um preço alto, m as são m uito antigos. – Lokesh sorriu com o um chacal. – E eu tenho um a afinidade especial por... relíquias antigas.

– Entendo.

Kishan baixou a cabeça e m oveu o m axilar enquanto refletia sobre a proposta de m eu pai. Por fim , disse:

– Eu lhe dou a m inha parte, m as Dhiren tem a outra em seu poder. Duvido m uito que ele aceite abrir m ão da parte dele para m e aj udar a roubar sua noiva.

– Sim , entendo que isso sej a um problem a. Ainda assim , são as duas partes ou não há negócio. Se não chegarm os a um acordo, Yesubai irá se casar com seu irm ão, por m ais infeliz que ela se torne.

Kishan não disse nada, m as vi o desespero em seus olhos. Por m ais que ele m e quisesse, sabia que de form a algum a Dhiren abriria m ão da parte do am uleto de boa vontade. Muito m enos se isso significasse m e perder.

Atrás de Kishan, senti que m eu pai com eçava a invocar seu poder. Se não conseguisse m anipular o príncipe, ele o m ataria.

– Kishan – sugeri –, talvez haj a outro j eito.

– Qual? – sussurrou ele. – Ren não vai nos aj udar.

– E se o pegássem os de surpresa?

– O que quer dizer?

– Sim , filha, o que está dizendo?

A am eaça im plícita na voz de m eu pai não passou despercebida.

– E se planej ássem os um assalto?

– Ren não carrega seu pingente no pescoço. Nem m esm o sei onde está.

– Meu pai poderia m andar soldados disfarçados para interceptar Dhiren na viagem de volta, com instruções específicas para descobrir a localização do am uleto dele. Depois poderíam os detê-lo enquanto você vai pegá-lo. Ele j am ais saberá do nosso envolvim ento.