A Promessa do Tigre
CAPÍTULO 5 Noiva
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Noiva
Não consegui pegar no sono pelo resto da noite. Ver que m eu pai tinha acesso ao palácio tão facilm ente m e apavorava m ais do que eu gostaria de adm itir. Entrei em desespero pensando que eu j am ais alcançaria um vestígio que fosse de liberdade, que a som bra de m eu pai perseguiria a m im e àqueles à m inha volta pelo resto da vida.
Ainda assim , saber que ele se esforçara consideravelm ente para m e infiltrar na residência dos Raj aram significava que devia haver um lim ite para o que ele era capaz de fazer. O fato de precisar de m im para alcançar seu obj etivo era um a indicação de que ele não era todo-poderoso. Talvez, se eu fosse m uito cuidadosa e inteligente, pudesse encontrar um j eito de contrariar seus planos, m as um a traição desse tipo sairia m uito caro. Para agir contra ele, eu precisava ter certeza absoluta de que seria bem -sucedida.
Ao raiar do sol, vesti-m e e procurei Deschen. Em bora a conhecesse havia pouco tem po, sentia que ela era confiável e, se existia algo de que eu precisava para derrotar m eu pai em seu próprio j ogo, era de um aliado à altura.
Fui inform ada de que ela estava em seu aposento de m ulheres e entrei sem bater. Acabei deparando com a rainha envolvida pelos braços do m arido. É claro que eu sabia que devia sair im ediatam ente, m as m eus pés ficaram plantados no lugar.
O im perador era um hom em bonito, parecido com o filho Kishan, no qual eu vinha pensando havia sem anas apesar da m inha determ inação em contrário. O m arido de Deschen exibia seu poder com um a capa sobre os om bros, porém abraçava a esposa com ternura, com o se ela fosse um a flor preciosa.
Ela obviam ente não tinha m edo dele. Aliás, desvencilhou-se de seu abraço quando notou m inha presença e não aparentou tem er qualquer tipo de represália por rej eitá-lo. Seu m arido riu, sem dem onstrar raiva quando ela o em purrou com as duas m ãos no peito e sem parecer estar rem otam ente constrangido por ser flagrado abraçando a m ulher apaixonadam ente. Ele se acom odou atrás dela, passou os braços por sua cintura e perguntou com gentileza se eu havia dorm ido bem .
Abri a boca para responder, m as nenhum a palavra saiu. Deschen m e salvou da situação em baraçosa lem brando-o de que eu era tím ida, principalm ente com os hom ens, e dizendo que ele devia parar de m e deixar desconfortável e ir procurar algo m ais nobre para fazer.
– Está bem , Hridaya Patni – respondeu ele carinhosam ente.
Com um sorriso, ele deu um a piscadinha para m im , beij ou o rosto da esposa, sussurrou algo em seu ouvido que a fez sorrir e saiu do quarto.
Depois que ele partiu e ela se acom odou em sua poltrona preferida, Deschen m e convidou a m e aproxim ar. Antes m esm o de dar um passo, falei sem pensar:
– A senhora o am a.
O tom foi quase o de um a acusação.
– Am o. – Ela sorriu. – Isso é tão chocante assim ?
Dei alguns passos hesitantes em sua direção.
– Os hom ens são...
– Os hom ens são... o quê? – perguntou, segurou m inha m ão e m e puxou delicadam ente até eu m e sentar num a alm ofada a seus pés.
Esfreguei as m ãos, pensando em com o term inar a frase sem ofendê-la. Por fim , disse:
– Os hom ens não são confiáveis.
Ela riu delicadam ente, m as em seguida ficou séria e estudou m inha expressão. Estendendo a m ão até a lateral de m inha cabeça, ergueu as sobrancelhas, pedindo m inha perm issão. Assenti com a cabeça. Ela soltou com cuidado o véu que cobria m eu rosto e pôs a m ão sob m eu queixo. O gesto foi tão gentil e m aternal que, em bora eu m e esforçasse para conter as em oções, m eus olhos se encheram de lágrim as. Ela ficou m e olhando durante um longo m inuto.
– Algum hom em m achucou você, Yesubai?
Pequenos trem ores sacudiram m eu corpo e, com o as palavras m e escapavam , ela insistiu:
– Pode m e contar.
Eu sabia que precisava escolher m uito bem as palavras, com o se cada um a delas pudesse levar à m inha m orte e, o que era pior, à m orte de Isha, m as estar na presença de Deschen m e fazia sentir com o se a esperança fosse algo que eu pudesse alcançar, com o se houvesse um final feliz reservado para m im de algum a form a. Um edeci os lábios e com ecei a falar. Ficam os tão concentradas na conversa que, quando m e calei, um a hora j á havia se passado.
Ela m e ouviu com um grau de em patia que eu só havia experim entado com Isha. Quando term inei, ela passou a m ão pelo m eu cabelo e disse:
– Você estará segura conosco, Yesubai. Prom eto a você que m eu filho nunca a tratará m al. Ele será paciente com você. Entretanto, se não desej a se casar agora, m esm o assim está convidada a ficar aqui. Eu lhe ofereço abrigo e proteção, com o faço com m inhas m ulheres. Mas espero que você considere ao m enos conhecer m eu filho antes de tom ar um a decisão.
Foi m uito fácil. A generosidade que ela dem onstrava m e fazia sentir ainda m ais vil, ainda m ais traiçoeira pelas coisas que eu não lhe revelara. Se havia um a certeza, era a de que eu não era digna de fazer parte daquela fam ília. Eles confiavam nas pessoas, eram sinceros e não tinham m alícia. Meu pai os destruiria e, se eu não fizesse nada para im pedi-lo, m e sentiria responsável pela derrocada dos Raj aram .
Após eu lhe garantir que tinha m esm o a intenção de m e unir à sua fam ília, ela revelou um a porta escondida atrás de um a cortina e disse que eu poderia usá-la quando precisasse fugir da vigilância de Haj ari. Ela conduzia ao j ardim e, enquanto eu descia pela passagem secreta, fiquei invisível e m e perguntei se haveria com etido um grave erro.
Meu pai se zangaria com m eus m étodos, m as nem ele poderia negar os resultados. É claro que havia a possibilidade de ele nunca descobrir. Deschen concordara em m anter m inha confissão no m ais absoluto sigilo. Mesm o assim , eu considerava que os benefícios em potencial eram m aiores que os riscos.
Para conquistar a sim patia da esposa de Raj aram , eu lhe contara sobre as agressões de m eu pai. Não tudo. Se eu tivesse essa intenção, levaria m uito m ais do que um a hora. Na realidade, eu não revelara sequer um a fração do que havia sofrido nas m ãos dele. Não m encionara seus poderes de feitiçaria nem suas am eaças à vida de Isha. Tam bém não m encionara o veneno escondido em m eu arm ário ou as lâm inas que cabiam nos bolsos ocultos costurados em m eus vestidos.
Bastou m encionar a fúria de m eu pai para que ela se tornasse m inha defensora. Relatei a ocasião em que ele destruíra m eu quarto de bebê num acesso de raiva porque eu estava chorando. E que batera em Isha até fazê-la perder os sentidos por m e deixar fazer tanto barulho. Os olhos de Deschen se encheram de lágrim as j unto com os m eus quando contei que ele m e arrem essou contra a parede com tanta força que m e deixou inconsciente. Arquej ou quando falei dos m eses que passara trancada no quarto, isolada do m undo, som ente com as flores para m e alegrar.
Havia tantas histórias para contar – que não eram tão incom uns assim entre as m ulheres – que eu pude com partilhar m uitas coisas sem entrar em detalhes sobre os poderes sobrenaturais de m eu pai. Acrescentei que Haj ari tam bém m e am eaçara diversas vezes, fazendo investidas inadequadas, m e beliscando e m e apalpando quando Lokesh não estava por perto.
Para term inar, eu lhe im plorei que não m encionasse os abusos de Haj ari nem tom asse nenhum a atitude em relação a isso, para que m eu pai não soubesse de nada. Ela concordou, m as insistiu em m e m ostrar as passagens secretas do palácio. Depois m e surpreendeu ao dizer que achava que eu seria um a boa noiva para seu filho e que, se eu quisesse, ela m arcaria um encontro entre nós.
O fato de ela ter m e aceitado tão facilm ente m e deixou um pouco cética quanto ao seu discernim ento. Alcancei o resultado que eu queria, m as fiquei m e perguntando qual seria o custo disso – e não só para m im , m as tam bém para ela e sua fam ília.
Meu pai retornou exatam ente duas sem anas depois e eu o inform ei de que Deschen concordara com o casam ento e queria m arcar um encontro com Dhiren assim que as coisas se acalm assem . A notícia agradou m eu pai. Ele m e assegurou de que as batalhas cessariam im ediatam ente para que eu pudesse conhecer m eu futuro noivo.
Quando perguntei sobre a saúde de Isha, ele apenas abriu um largo sorriso, com o o de um gato que estivesse encurralando um rato. Então sussurrou m ais am eaças, dizendo que Haj ari estava frustrado com m eus constantes desaparecim entos.
Respondi com um a m eia verdade:
– Haj ari deixa algum as das m ulheres daqui nervosas. Deschen o proibiu de entrar no aposento das m ulheres e, com o m inha intenção é conquistá-la, passei a ficar quase o tem po todo ao lado dela.
Ele m e encarou com o se tentasse desvendar m eus pensam entos m ais secretos, m as finalm ente cedeu:
– Muito bem . Em seu tem po livre, vou m andá-lo espionar Kadam .
Lokesh partiu usando qualquer que fosse o m eio secreto que havia utilizado para entrar, com a prom essa de m e visitar novam ente m uito em breve.
No dia seguinte, eu estava sentada perto de Deschen, ouvindo sem prestar m uita atenção os relatos dos hom ens que ela enviava para lhe trazerem notícias da linha de frente. De repente um deles disse algo que m e fez ficar alerta.
Após ele fazer um a reverência e sair, perguntei a Deschen:
– Ele estava inform ando que seu filho voltou para casa?
– Sim – respondeu ela, radiante, e acrescentou: – Ah, m as não Dhiren. Quem retornou foi m eu filho caçula, Kishan. Im agino que ele nos acom panhará na ceia hoj e à noite.
– Ah.
– Não se preocupe. Você conhecerá Dhiren em breve.
Assenti e dei um sorriso contido.
– Estou ansiosa por isso.
– Muito bem . Agora poderia m e dar licença? Quero m e certificar de que os cozinheiros preparem hoj e a refeição preferida de Kishan – declarou a rainha.
– Claro.
Ela pôs a m ão na parte de baixo das m inhas costas quando m e levantei.
– Gostaria de dar um a volta no j ardim ? Há um labirinto que a m aioria das pessoas acha difícil de percorrer. Im agino que lá será fácil despistar o hom em de seu pai. – Baixando a voz, sussurrou: – O truque é sem pre virar à esquerda. – Com um brilho no olhar, ela partiu com seu séquito e, quando m e vi sozinha, usei m inha habilidade para ficar invisível. Seguindo seu conselho, fui explorar o labirinto do j ardim , algo que há m uito desej ava fazer.
O j ardim dos Raj aram era m uito diferente do j ardim suspenso sobre o palácio do rei, m as era igualm ente bonito, repleto de flores de todos os tipos e de árvores frondosas que exalavam o perfum e de sua seiva. Confiando que eu continuaria oculta, dediquei m eu tem po a explorar o lugar, tocando flores delicadas e botões até m e deparar com o labirinto.
Curiosa, entrei e virei à esquerda várias vezes até chegar ao seu centro. Um a fonte cheia de flores de lótus parecia m e convidar a m e aproxim ar. No m eio do labirinto, rodeada de cercas vivas tão altas que eu não conseguia enxergar o que estava além delas, m e senti segura, com o se as plantas que eu tanto adorava fossem capazes de m e envolver e m e proteger de tudo o que havia de m au no m undo.
Com o estava m e sentindo m uito segura, deixei o poder que m e ocultava se dissipar e ergui o rosto, sentindo o calor do sol. Quando ficou quente dem ais, soltei o véu do rosto e do cabelo, deixando-o cair por m eus braços, e passei os dedos na água da fonte, salpicando-a no pescoço e no rosto. O zum bido das abelhas e o canto das aves m e acalm aram e consegui esquecer onde estava e – o m ais im portante – quem eu era. No j ardim , eu era som ente um a m oça que am ava flores.
Entre os botões de lótus rosa e brancos, notei algo diferente, que j á havia visto antes. Era a m esm a flor aquática cor de lavanda que eu descobrira na fonte do rei.
– Im possível – sussurrei, estendendo a m ão para retirá-la da água e exam iná-la m ais de perto. – Talvez você sej a m ais com um do que eu pensava.
Um a voz forte fez-se ouvir atrás de m im :
– Eu diria que ela é excepcional.
Atônita, deixei a flor cair e m e virei. De pé na abertura que dava para o centro do labirinto estava o hom em que eu não conseguia esquecer, m esm o tendo se passado sem anas desde que o vira. Pisquei os olhos, m om entaneam ente enfeitiçada por seu sorriso, até que ele deu um passo na m inha direção. Então voltei a m im e m e apressei em colocar o véu sobre o cabelo e o rosto, baixando a cabeça em seguida.
Ao ver m inha reação, ele hesitou.
– Perdão. Não foi m inha intenção perturbá-la.
Parecia que a m inha língua estava presa. Eu queria falar m as não conseguia pensar no que dizer. Em vez de exigir um a resposta ou ficar im paciente, ele se aproxim ou da fonte e pegou a flor que eu deixara cair na pedra. Delicadam ente, colocou-a de volta entre as outras flores.
– É linda, não é? – perguntou, em bora não parecesse esperar um a resposta. – Eu a vi no j ardim de Bhreenam e pedi um a m uda antes de partir. Achei que m inha m ãe iria gostar.
– É adorável – m urm urei.
Peixinhos m inúsculos subiram à superfície, m e lem brando das carpas da últim a vez em que eu estivera perto dele. Mas agora ele sabia que eu estava ali. Com o se lesse m inha m ente, disse:
– Há um a história que o povo da m inha m ãe conta sobre esses peixes. Num lugar distante, há um rio cheio deles. Em bora não aconteça com frequência, alguns desses peixinhos nadam até a cabeceira do rio. Lá encontram um a grande cachoeira, e os m ais valentes e determ inados, que exaurem as forças saltando até o topo da cachoeira, ganham um presente dos deuses.
– O que os deuses dariam a um peixe? – perguntei, curiosa m as contida.
Ele inclinou a cabeça e, em bora eu notasse um brilho em seus olhos que confirm ava que havia ouvido a m inha pergunta, não se virou para m im , m as passou a m ão na água da fonte e depois a levou à nuca, m olhando a pele com a água fresca.
– São transform ados em grandes dragões. É por isso que a cachoeira na cabeceira do rio Am arelo foi batizada de “Portal do Dragão”. Com o pode ver, qualquer criatura, m esm o tão despretensiosa quanto um peixe, pode se tornar algo poderoso. Quando enfrentam as provações da vida com coragem , todos encontram seu destino.
O que ele disse foi adm irável. Não apenas porque m e vi envolvida por seu m odo de contar um a história com o tam bém por ele parecer saber exatam ente o que eu estava precisando ouvir. Eu m esm a m e via diante de grandes provações e pensei que, se havia esperança para um m ero peixinho, talvez os deuses tam bém estivessem olhando para m im . Talvez, se provasse m eu valor, alcançasse a dádiva que buscava.
– Peço desculpas por estar tão desarrum ado – disse ele, m e despertando de m eus pensam entos. – Kadam m e fez treinar m ais do que de costum e. Receio que estej a querendo m e punir por ter passado essas últim as sem anas fora. Ele acha que fiquei gordo e preguiçoso sem a nossa rotina diária.
À m edida que ele foi desabotoando o colarinho e salpicando água no pescoço, eu engoli em seco e um edeci os lábios. Tirando isso, perm aneci paralisada. Kishan podia ser qualquer coisa, m enos gordo e preguiçoso. Aliás, era o hom em m ais lindo que eu j á tinha visto. Seus braços e seu peito eram m usculosos, e ver a cam isa grudada no corpo dele m e fez sentir calor, com o se houvesse passado tem po dem ais ao sol.
Por falar em sol, seus olhos dourados, principalm ente quando se viravam na m inha direção, em anavam um ardor capaz de m e derreter inteira. Fiquei até surpresa por não ter caído na fonte. Estava im aginando com o seria m e transform ar na água que ele j ogava contra a pele quando algo m e cham ou a atenção.
O m edalhão. Estava pendurado no pescoço dele e tive certeza absoluta de que era o que m eu pai procurava. O m edo frio se infiltrou em m eu corpo, deixando m inha pele febril com pletam ente gelada. Envolvi m inha cintura nos braços com força. O que eu iria fazer? Se m eu pai soubesse que este j ovem levava no peito o obj eto que ele tanto queria, o m ataria. Ou m e obrigaria a fazer isso. De qualquer form a, os lindos olhos dourados de Kishan ficariam fechados para sem pre. Seu calor seria substituído pelo frio de um a sepultura. Estrem eci.
– Está com frio? – perguntou ele. – Perm ite que eu a acom panhe de volta ao palácio?
Assenti brevem ente. Ele m e conduziu pela abertura na cerca viva.
– Aliás, m eu nom e é Kishan.
– Eu sei – respondi em voz baixa.
Voltando-se para m e olhar, ele m ostrou um a expressão confusa, m as sorriu.
– Então estou em desvantagem . A adorável j ovem gostaria de m e dar a honra de m e dizer seu nom e?
Parei de cam inhar, m inha cabeça a m il com a futilidade do que eu estava tentando fazer. Com o poderia salvá-lo, salvar sua fam ília, quando m eu pai tinha planej ado tanta crueldade contra eles? Ergui os olhos e notei o cordão em volta de seu pescoço. Como ele irá morrer?, m e perguntei. Será que eu iria acordar um dia e ser inform ada sobre m arcas pretas em seu peito? Ou ele sim plesm ente desapareceria? Ou talvez sua m orte fosse pelas m inhas próprias m ãos. Talvez fosse eu quem passaria a lâm ina pela sua garganta. Talvez eu m esm a levasse um a taça cheia de veneno aos seus lábios.
De repente, não pude m ais olhar para ele. Meu nom e era o nom e de sua assassina. Em breve eu seria um a hom icida. Ele m erecia ao m enos conhecer o nom e da pessoa que seria responsável pela sua m orte.
– Yesubai – m urm urei. – Meu nom e é Yesubai.
Apertando m inhas saias com os punhos fechados, disparei a correr, afastando-m e dele e voltando para o palácio sem olhar para trás.
Por m ais que tentasse evitar Kishan, ele parecia sem pre saber onde eu estava. Era um dos poucos hom ens com perm issão para entrar no aposento das m ulheres. Em m ais de um a ocasião, eu o encontrei aos pés da m ãe, conversando com ela. Todas as vezes ele tentava m e incluir na conversa, m as eu pedia licença e m e retirava. Nos j antares, eu o flagrava m e observando e diversas vezes ele se ofereceu com o voluntário para ficar de guarda em m inhas andanças pelo palácio, para aplacar Haj ari.
Kishan parecia sentir m eu alívio ao tê-lo por perto e, quando saíam os para cam inhar, eu quase m e esquecia de que Haj ari estava conosco. Kishan tinha a habilidade de m e fazer sentir segura. Era um sentim ento sem elhante ao que o j ardim m e proporcionava. E não apenas por ser grande; era m ais do que isso. Foi só no terceiro dia que entendi que o que eu sentia perto dele era esperança. Não havia com o alguém estar próxim o de Kishan e não ser afetado por sua estabilidade. Ele m antinha sem pre os pés no chão.
Assim com o as árvores, suas raízes eram profundas, e eu m e pegava fantasiando que, se m e abraçasse, ele m e guardaria em segurança entre seus ram os, escondida do m undo. Nada o abalava. Ele não tem ia coisa algum a. Vendo-o treinar com os soldados, ficava claro que o respeitavam e confiavam nele plenam ente. E não era só isso – eu estava m e aproxim ando perigosam ente de sentir o m esm o.
Quando eu m enos esperava, Deschen anunciou que a caravana estava pronta para m e levar para conhecer Dhiren. Ao entrar na carruagem , levantei as cortinas procurando o rosto de Kishan, m as ele não tinha ido se despedir de m im . Eu disse a m im m esm a que era m elhor assim e m e acom odei para enfrentar a longa viagem até as terras distantes do im pério.
Quando conheci Dhiren, sua beleza m e causou grande im pacto. Ele se parecia m ais com a m ãe do que com o pai. Seus olhos eram de um azul m arcante, m as, por m ais gentil que ele fosse, eu sentia falta do calor do olhar dourado de Kishan. Conversam os por m uito tem po. Ele era educado, tinha boas m aneiras, tudo o que um a m ulher poderia querer em um hom em . Mas faltava algo. Havia um a lacuna entre nós que parecia grande dem ais para ser preenchida. Apesar de observá-lo atentam ente durante o tem po que passam os j untos, em nenhum m om ento vi um cordão em seu pescoço que indicasse que ele usava um dos pedaços do am uleto que m eu pai procurava.
Era óbvio que as dificuldades que ele enfrentava com o exército de m eu pai o haviam m antido ocupado, m as ele nunca m e culpou por isso nem sequer discutiu os aspectos diplom áticos de nossa união. Disse apenas que estava ansioso pelo nosso casam ento e que tinha grande esperança de que fôssem os felizes j untos.
Assinam os alguns docum entos e ele teve a cortesia e a atenção de providenciar todo o conforto possível para a viagem de volta, m as, quando beij ou m inha m ão ao se despedir, tudo o que senti foi arrependim ento. Ele era um hom em bom – aliás, um hom em m aravilhoso. Um hom em diferente de m eu pai com o a noite do dia, o que tornava ainda m ais difícil carregar o peso de m inha cum plicidade com os planos de Lokesh.
Não fazia nem um dia que retornara ao palácio quando m eu pai apareceu novam ente. Dessa vez em caráter oficial.